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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

OURO EM Araras, Imbaúba, Morrinhos, Periquitos - Montezuma Cruz

Araras, Imbaúba, Morrinhos, Periquitos - Montezuma Cruz  

Vai quem quer, Tamborete, Morrinhos, Sovaco da Velha, Araras, Periquitos e Imbaúba são alguns nomes de garimpos de ouro no Rio Madeira entre os anos 1970 e 1980. Aqueles homens nômades, vindos de outros estados amazônicos engrossaram as estatísticas da malária, consumindo altos volumes de boldo, jurubeba, eparema, aralém e eparex. Esses remédios diminuíam-lhes a ânsia de salvar o fígado.
Mutumparaná, 1980: o bamburro nos aluviões era privilégio de poucos. Mesmo entrando no batente ao nascer do sol e permanecendo até o entardecer, os garimpeiros não obtinham mais que cinco gramas diárias. Numeroso grupo de blefados contrastava-se aos felizes irmãos de Serra Pelada (PA), onde havia ouro de mina.
Um ano antes, em 1979, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) estimava em 192 Km2 a reserva garimpeira do rio Madeira, cuja área e se estendia por 180 quilômetros acima de Porto Velho, reunindo cerca de 20 mil pessoas. Durante o mergulho, muitas perderam a vida em brigas fúteis, ou baleadas em tiroteio com jagunços de mineradoras e policiais.
O homem destruía o próprio homem. Ambiciosos balseiros cortavam criminosamente o mangueiro de ar dos mergulhadores, matando-os no fundo do rio. Explicava-se às custas de que e de quem alguns desses balseiros bamburravam com mais de 50 gramas. Nenhum cartório registrava óbito dessa natureza. Ficava por isso mesmo. Com raras exceções, garimpeiro não tinha parente.
No começo de outubro de 1980 fui ver o falado Sovaco da Velha, um aglomerado de casebres cobertos de palha, a 15 minutos de lancha-voadeira do vilarejo de Vai quem quer, a três quilômetros de Mutumparaná e a 163 km de Porto Velho.
A faiscação manual era movida também por motores de 32HP; o alto-falante ecoava na floresta os sucessos de Amado Batista, Reginaldo Rossi, Odair José e outros ídolos das noitadas dos prostíbulos à beira-rio. Uma grama equivalia a 1.150 cruzeiros nas lojas porto-velhenses, a maioria concentrada na Avenida Sete de Setembro. Dinheiro suficiente para o garimpeiro pagar as parcelas do tratamento farmacêutico de suas malárias ou a extração de um dente.
Na vida dura daqueles barrancos e praias insalubres, o esgoto e o lixo se misturavam ao mercúrio, de efeitos letais. Meio litro de soro custava 800 cruzeiros, a injeção de aralém, 15. Os febris bebiam muitos antitérmicos, pagando por eles entre 10 e 20 mil cruzeiros quando a doença se agravava – quase sempre.
A paranaense Cecília Brzezinski, prática em enfermagem e proprietária da uma das drogarias no Vai quem quer, apurou a ocorrência média de cinco a dez casos de malária por dia. Doenças venéreas nem se fala! Para combatê-las, usava-se a dolorosa injeção de benzetacil e os poderosos antibióticos tetrex e rifaldim. “Doeu muito?” – era a pergunta corriqueira.
A gonorréia fazia vítimas quase no mesmo ritmo da malária. Ao mesmo tempo o contrabando empurrava quilos do metal para o Exterior, principalmente via Bolívia e Peru.
A Delegacia da Receita Federal e a PF confiscavam ouro sem nota, não devolvendo o produto em hipótese alguma, mesmo que o garimpeiro recolhesse o valor do célebre IUM (Imposto Único Sobre Mineração).
Curiosa, mas lamentável a atuação da polícia rondoniense: à falta de efetivo na RF, ela se investia da competência de parar os ônibus de linha para demoradas revistas. Isso criava uma situação anômala, pois nem os fiscais de tributos davam conta de tanto serviço naquelas vilas em ebulição, no caminho para o Acre. Um deles, Manoel Rodrigues Filho, voltava desolado para Brasília. Não dera conta de cumprir a missão.

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