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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Garimpeiro exibe o que faz e insiste: "Queria trabalhar legal"

Sob vista grossa

Garimpeiro exibe o que faz e insiste: "Queria trabalhar legal"


Draga utilizada para o garimpo de ouro clandestino, no Rio Bóia. Foto: Dida Sampaio/AE





JUTAÍ (AM) - O ronco do motor Scania de 8 cilindros e 370 cavalos ecoa na floresta. A água e a areia que ele puxa do fundo do Rio Bóia sobem com tanta força o tubo de 22 metros que precisam ser aparadas num reservatório, no alto da draga, antes de descerem para as esteiras acarpetadas. A água marrom retorna ao rio por uma bica, depois de passar pelo carpete cinza, que retém apenas a areia fina, o esmeril de ferro e o ouro.
Uma amostra do material é examinada numa bateia de ferro. Se tiver ouro suficiente, a sucção se prolonga por 20 horas ininterruptas – que costumam render entre 100 e 120 gramas de ouro. Ao final, os carpetes são lavados. O esmeril misturado com ouro que sai deles é colocado então no balde de amalgamar, e sobre ele o azougue, ou mercúrio. O ouro reage com o mercúrio e fica branco. Vai então para um cadinho, hermeticamente fechado, onde o calor o separa do mercúrio, que sai em estado de vapor por um caninho, direto para um copo de água fria, no qual se liquefaz novamente.
Foi para mostrar isso que o garimpeiro Edson Antonio Bueno, o Goiano, concordou em percorrer as 48 horas no barco alugado pelo Estado, da sede do município de Jutaí até o Rio Bóia, e abrir, pela primeira vez, as portas do garimpo clandestino – no qual há oito dragas como essa. “Aqui, não há fumaça, e o mercúrio não cai no rio”, argumenta Goiano, que se instalou no Bóia em junho, quando trouxe suas duas dragas e dois rebocadores do Rio Madeira, perto de Porto Velho (RO), onde explorava outro garimpo.
Há uma razão mais prática para não desperdiçar o mercúrio: no mercado negro, o quilo custa entre R$ 260 e R$ 350. “Os ambientalistas só vêem o lado ruim do garimpo, só vêem o impacto, quando procuramos maneira de poluir o mínimo”, protesta Goiano, de 56 anos, mostrando o barril de ferro no qual queima o lixo produzido pelos seis habitantes da draga. Ele diz que a areia remexida no fundo do rio volta a seu lugar depois de dois ou três anos da retirada das dragas, e que se poderia exigir dos garimpeiros que replantassem as árvores que derrubam nas margens dos rios quando se instalam. “Eu queria muito trabalhar legalizado”, diz o garimpeiro. “Mas eles não dão nenhuma oportunidade. O DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) não deixa abrir micromineradora. Só as grandes mineradoras podem.”
Há cerca de três anos, 60 pessoas se juntaram e formaram em Porto Velho a Cooperativa dos Garimpeiros da Região Norte, na tentativa de se legalizar. Mas enfrentaram longo processo burocrático, com idas e vindas no DNPM e na Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sedam) de Rondônia, conta Goiano.
Cerca de 20 garimpeiros desistiram e levaram suas dragas para a Guiana, prossegue Goiano, onde podem atuar legalmente. Criam empresa, registram os funcionários, emitem nota fiscal, pagam 10% do ouro extraído para o dono da área e outros 4% para o governo, e repatriam o dinheiro pelo Banco do Brasil. “Estão rendendo divisas para o país. Será que não poderíamos ter a mesma coisa aqui?”
Quando começou a ser explorado, há dez anos, o garimpo do Bóia chegou a render de 4 a 5 quilos por mês para cada draga, diz Pio Freitas, veterano do lugar. Nos idos de 1996 e 1997, chegou a haver 86 dragas e 58 balsas na área. Hoje, cada draga extrai pouco menos de 2 quilos por mês, segundo os garimpeiros. Em Jutaí, o grama é comprado por R$ 35; em Manaus, por R$ 38; em Porto Velho, por R$ 39. Com o alto consumo de diesel das máquinas que movem as dragas, a alimentação e a comissão dos cinco empregados em cada uma delas, essa produção mensal rende ao dono cerca de R$ 10 mil, diz Pio.
Os garimpeiros do Bóia não estão contentes com esse rendimento. Já tentaram levar suas dragas para o Rio Jutaí (do qual o Bóia é afluente), onde dizem que há mais ouro. Assim como a do Bóia, a área fica fora de reservas indígena, extrativista e de desenvolvimento sustentável. Mas o Ibama não permitiu, contaram os garimpeiros, por causa da visibilidade do Rio Jutaí. “Lá passam muitos gringos”, disse Goiano, referindo-se aos barcos de turistas. Mais isolado, o garimpo do Bóia é tolerado, embora de vez em quando haja batidas do Ibama e da Polícia Federal.

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