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domingo, 19 de janeiro de 2014

Na década de 1980, Itaituba (a 890 quilômetros de Belém) era uma espécie de Dodge City brasileira

Agnaldo Timóteo
Na década de 1980, Itaituba (a 890 quilômetros de Belém) era uma espécie de Dodge City brasileira - muito ouro e uma lei de artigo único: calibre 38. Calcula-se que, por baixo, havia coisa de 120 mil garimpeiros emburacados floresta adentro. Circulava pelo mapa local cerca de 3,5 toneladas de ouro por mês. A cidade vivia um orgasmo permanente e ganhar dinheiro era tão fácil quanto morrer. O improvisado aeroporto da cidade chegou a contabilizar 382 pousos num único dia - metade do fluxo atual de Congonhas (SP).

Responsáveis por manter toda aquela doideira em movimento, os pilotos eram os que mais lucravam. "Costumava viajar com um saco cheio de dinheiro", lembra o piloto Clinger Borges do Vale, que chegou a transportar, em seu monomotor, artistas do naipe de Agnaldo Timóteo e Raul Seixas nas turnês pelos garimpos. Os donos dos aviões eram sempre garimpeiros para quem a sorte lhes estampara sorriso de ouro. Foi o caso de Zé Arara, um piauiense analfabeto dono de uma quinzena de aviões, entre eles um Lear Jet que usava para ir pessoalmente, manhã cedinho, à sua Parnaíba natal comprar a carne-de-sol que comeria no almoço, na volta a Itaituba. Outro que voou para Zé Arara foi o lendário comandante Rogério Maconha (veja seu depoimento a seguir).
Bem, agora não é boa hora para lembranças. O monomotor pilotado por Luís Feltrin está para fazer sua primeira parada e é preciso atenção. A pista aparece apenas quando já se está em cima dela. Tanto essa como a maioria só têm uma estrada para pouso, o que complica se o vento for de cauda. A descida até que não foi das piores. Parte da carga é rapidamente descarregada e seguirá seu trajeto no "jegue". Jegue, entenda-se, é um veículo tradicional dos garimpos, feito de um motor diesel e alguma carcaça disponível. É bem feio, mas é capaz de rodar três dias com cinco litros desse combustível - e isso, ali, o pessoal acha bem bonito. Primeira remessa entregue, hora de levantar vôo - e mais alguns apuros - até as paradas seguintes.
Cinco corpos
Antes do GPS, a aviação de garimpo era praticamente uma roleta-russa. Sobrevivia-se na sorte. "Um dia, prestes a levantar vôo, assisti à chegada de cinco corpos de pilotos mortos na véspera", relembra, no ar, o sempre inoportuno Feltrin. É verdade que, com tanto dinheiro em circulação, ninguém gostava de perder tempo fazendo manutenção de avião ou de pista. Usavam-se clareiras mínimas, de cerca de 200 metros, até em curvas ou em subidas. Nada disso, no entanto, importava - a coisa era a grana.

"Antes do GPS, a aviação de garimpo era praticamente uma roleta-russa. Sobrevivia-se na sorte"
A situação, hoje, é a que conhecemos. Com a queda da euforia, vários pilotos abandonaram a região. Uns foram parar na aviação comercial ou executiva. Outros, procurando manter o padrão de vida conquistado no auge do garimpo, partiram em busca de um novo Eldorado - o "ouro branco" da Colômbia. Os que ainda insistem em permanecer voando pelo garimpo o fazem por alguma paixão sobrevivente.
"Além de saber quem são seus passageiros, aqui você voa e sente o peso do avião na mão", explica Armando Palla Júnior, que continua resistindo a ofertas de trabalho em companhias de aviação. Graças a ele e outros persistentes pilotos de garimpo, Zé do Rifle receberá seus remédios, a boate terá suas meninas, Raimundo Nonato, sua carta, e o Negão do Curuá será finalmente levado para o hospital que tentará recolocar para dentro seu bucho escancarado, cortesia do terçado de Francisco - que vai embarcar no próximo vôo para explicar ao delegado o motivo da briga. Sorte que os monomotores continuam no ar.

1. Comércio de outro no garimpo de Água Branca (PA).
2. Atenção, preparar para o pouso: clareiras de apenas 200m.
3. às vezes, vai aos trancos mesmo.
4. O piloto Clinger, com a jaqueta que ganhou do "patrão" Raul Seixas numa turnê que o músico fez pela região: "Eu viajava com um saco de dinheiro".

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