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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Vale, barata, pode ser a bola da vez

Vale, barata, pode ser a bola da vez


No mundo capitalista de hoje só existem dois tipos de animais: as presas e os predadores.

Para sobreviver neste mar turbulento, infestado de gigantes vorazes, é necessário ser criativo e ter uma forte blindagem. Nesta guerra incessante o objetivo é ser grande o suficiente para não ser comido pelos concorrentes e digerir a todos que o ameaçam ou que podem contribuir para a sua sobrevivência futura.

Empresas apetitosas, com ativos sólidos e com baixo custo operacional são olhadas pelos grandes predadores, com cobiça, como o próximo “prato” a ser consumido.

É assim que ocorrem as grandes aquisições e fusões que resultam em empresas cada vez maiores e mais vorazes. Foi neste cenário que a Vale engoliu a Caemi e depois a Inco, em um dos grandes negócios da mineração mundial que envolveu a soma de US$19 bilhões.

Essa é a essência da guerra pelo controle mundial da commodity mais importante da atualidade: o minério de ferro. A mineradora que controlar o minério de ferro será, quase que irreversivelmente, a maior mineradora do planeta.

É em busca desse título que as três gigantes, a BHP, a Rio e a Vale estão engajadas em uma luta de vida ou morte. Elas estão aumentando dramaticamente a produção e inundando o mercado com um produto de alta qualidade e baixo custo.

Esta estratégia está enfraquecendo e asfixiando os competidores até a morte.

Hoje o número de mineradoras que fecharam as portas é assustador. É na China onde ocorrem as maiores baixas. A cada semana uma nova mineradora de minério de ferro fecha as portas. Esse era um resultado previsível, já que os chineses desenvolveram minas obsoletas com custos operacionais acima dos US$100/t acreditando que os preços iriam se manter na casa dos US$120/t.

Neste cenário de guerra até gigantes como a australiana Fortescue balançam e podem vir a fechar ou reduzir drasticamente no próximo ano.

É o dia do juízo final, quando só as grandes corporações, com ativos de baixo custo operacional e alta qualidade serão as eleitas.

O que não foi previsto é que essa guerra estaria causando uma série de efeitos colaterais que enfraquecem a todos, inclusive as três principais competidoras.

Todos acreditavam que o desgaste mataria só as menores e menos eficientes.

Mas o que se vê é bem diferente...

As grandes mineradoras, membros do triunvirato que controla o minério de ferro, estão sendo afetadas, também, pela queda dos seus valores de mercado e suas rentabilidades.

Os gráficos ao lado,  mostram que as três megamineradoras estão em queda livre nos últimos quatro meses.

Nesta situação quem são os maiores perdedores? Os acionistas é claro!

São esses acionistas, que amargam um sério prejuízo, que irão definir os rumos do conflito. Apesar de ainda serem lucrativas, as grandes mineradoras estão afugentando uma grande parte dos seus investidores, que preferem sair da mineração e receber retornos e dividendos maiores em outros segmentos não afetados por essa guerra absurda.

O que se vê hoje é a fuga dos investidores e a consequente queda das ações. Com esse enfraquecimento significativo, sem data para terminar, algumas mineradoras vão passar de caçador à caça.

Foi esse fenômeno que levou à fusão da Xstrata com a Glencore criando um grupo maior e muito mais agressivo, tão voraz que tentou, poucos dias atrás, abocanhar a segunda maior mineradora do mundo a Rio Tinto. Uma estratégia surpreendente que mostra uma tendência. A última vez que a Rio Tinto sofreu um assédio desses foi quando a chinesa Chinalco tentou controla-la, em 2009

Ser engolido é um dos efeitos colaterais das guerras pela supremacia mundial na mineração.

A tentativa atual da Glencore de engolir a Rio assustou a australiana que tenta se proteger desta aquisição hostil que deverá ocorrer após abril de 2015. Para se blindar contra a Glencore a Rio Tinto deve tentar vender as suas ações aos próprios acionistas em uma estratégia chamada buyback. Essa estratégia, estará sendo decidida no dia 28 de novembro, quando o CEO da Rio, Sam Walsh, vai explicar aos acionistas os detalhes da linha defensiva a ser adotada.

A Rio Tinto, que já foi menor do que a Vale poucos anos atrás, vale hoje US$103,4 bilhões e está sendo ameaçada por uma empresa que vale 43,3 bilhões de libras.

O que dizer da nossa Vale?

Hoje a Vale tem um valor de mercado de apenas 49 bilhões de dólares. No dia 11 de janeiro de 2011 o valor de mercado da Vale era de US$199 bilhões e o da Rio Tinto de US$137 bilhões.

Nestes últimos quatro anos a Vale caiu significativamente em relação a Rio Tinto chegando ao estado lastimável onde se encontra hoje. O mau desempenho da Vale, obviamente, tem várias explicações, mas uma é o mau gerenciamento.

A empresa está montada em ativos de imensa qualidade, mas mesmo assim não conseguiu sequer se manter na posição em que estava em 2011.

Ao invés de investir em metalurgia tornando o seu minério de US$70 por tonelada em um produto de milhares de dólares a tonelada a Vale reluta em adicionar valor ao seu principal produto.

A mineradora age com um complexo de inferioridade terceiro mundista, e prefere permanecer uma simples produtora de matéria prima sem valor agregado, deixando todo o lucro da cadeia produtiva para os importadores.

Essa estratégia usada pela Vale, dilapida as reservas de minério de alta qualidade do Brasil que são vendidas a preços baixíssimos deixando muito pouco no nosso país.  No pior momento da história ela se prepara para enviar 420 milhões de toneladas de minério por ano sem nenhum valor agregado.

Este é um assunto de grande relevância, que nos atinge como um todo, e que deveria ser melhor discutido.

O que se pode esperar de uma empresa que não consegue adicionar valor, maximizar e verticalizar os seus ativos e cuja única estratégia é reduzir custos e aumentar a produção?

A Vale teve a sua oportunidade e falhou fragorosamente.

Ela perdeu o momento histórico: entre 2009 a 2014, quando os preços do minério de ferro ultrapassaram a barreira dos US$100/t, atingindo o pico de US$187/t, mesmo tendo uma margem obscena, a Vale não conseguiu crescer e manter a sua lucratividade.

Pelo contrário: a empresa encolheu e foi reduzida aos US$49 bilhões de hoje.

A megamineradora, orgulho do Brasil, de caçadora passou a caça, tornando-se, tristemente, em um alvo para aquisição.

A Vale é, possivelmente, a melhor aquisição que existe hoje no mercado. Barata e com excelentes ativos...

Talvez ela não seja tão diversificada quanto a Rio Tinto ou talvez os seus ativos de carvão não valham tanto quanto ela queira, mas a Vale tem os minérios de altíssima qualidade e baixo custo de S11D e Carajás, o passaporte para o futuro.

Não devemos nos surpreender se amanhã lermos nas manchetes mundiais que a nossa querida Vale está sendo engolida por uma mineradora estrangeira.

Será o fim de uma era.

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