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sábado, 27 de dezembro de 2014

A Petrobras e o mercado: quais são os poços que podem fechar com os preços do barril de petróleo abaixo de US$59.

A Petrobras e o mercado: quais são os poços que podem fechar com os preços do barril de petróleo abaixo de US$59. Ou, até onde a Petrobras consegue suportar um mercado em queda?



Nos últimos meses fomos surpreendidos pela forte queda dos preços do petróleo para níveis  de 2008.

Apesar dos óbvios benefícios econômicos existe um lado escuro nesta história que afeta os países produtores e os empregos criados na área do petróleo que atingem 40% do total de empregos gerados no mundo.

O impacto da queda nas petroleiras é, obviamente, direto e pode ser simplesmente mortal.

Até gigantes do petróleo como a Arábia Saudita começam a ter sérios prejuízos. Os Sauditas informam que terão um déficit de US$39 bilhões em 2015 se os preços se mantiverem nos patamares atuais.

Até onde os preços irão cair e por quanto tempo, são as perguntas que devem ser respondidas.

Alguns analistas juram que o petróleo, por razões históricas, deve se aproximar do preço do gás, como ocorria antes de 2007 e que a queda consequentemente é natural. Neste caso o preço do barril, que hoje gira em torno de US$58, ainda deve cair até o patamar de US$33.

O impacto na economia mundial de uma prolongada queda dos preços do óleo será, sem dúvida nenhuma, muito positivo e poderá iniciar um novo ciclo de crescimento econômico aliado a um superciclo de commodities.

Bom para a mineração e para vários setores da nossa economia.

Mas essa queda pode, também, levar de roldão a nossa maior e mais importante empresa: a Petrobras.

Como veremos, neste cenário, as consequências serão desastrosas.

Será que a Petrobras resiste uma queda nos preços desta magnitude? Ou melhor, até onde a nossa estatal irá resistir antes de começar a fechar os poços de petróleo?

A resposta está, mais uma vez, no all-in sustaining cost (AISC) do barril produzido em cada poço. Este AISC, que a Petrobras não divulga, é o custo total de produção somado aos impostos, custos de manutenção presente e futuros e todos os demais custos durante a vida do poço até o custo final de fechamento. Tudo isso somado e dividido pela quantidade de barril produzido é o AISC do petróleo.

Hoje a mineração está se adequando às novas exigências do mercado, sempre em busca de maior transparência. É o caso da mineração de ouro que sistematicamente publica o AISC.

Infelizmente não é o caso da Petrobras ou da Vale, que se recusam a publicar o AISC impedindo aos acionistas de ver qual é a situação real da empresa em um determinado momento.

No gráfico ao lado, gerado por Ed Morse, especialista renomado na área de energia, que conseguiu informações fidedignas sobre os custos de empate (break-even) de alguns dos principais poços da Petrobras plotados contra a produção projetada em 2020.

É importante salientar que o break-even destes poços é menor do que o AISC pois ele só relaciona os custos diretos de produção. Ou seja, se considerado o custo total de empate (o AISC)  a situação fica ainda pior.

No gráfico vemos que, com o barril a US$58, três grandes campos brasileiros já estão no vermelho.

É o caso de Libra, Piracucá e Panoramix.

Libra foi manchete há dois meses atrás, quando foi leiloado. O consórcio ganhador tem a Petrobras, Shell, Total, CNPC e CNOOC e pagou à União R$15 bilhões como bônus de assinatura.

Menos mal, já que o País recebeu alguma coisa por um campo que já se encontra no vermelho e que tem um break-even de quase US$70/barril. Libra, que era a cereja no bolo da Petrobras, onde se concentrava a maior reserva do Brasil, com 12 milhões de barris de Petróleo, não entrará em produção aos preços do petróleo atual. Um prejuízo bilionário ao país (41,65%) e à Petrobras que tem 40% e a operação.

Esperava-se que Libra iria dobrar as reservas de petróleo do Brasil...

Outro campo antieconômico é o Piracucá, com um break-even próximo dos US$70/barril, onde a Repsol acredita em um volume “in situ”, preliminar, de 550 milhões de barris. Piracucá está situado no bloco BM-S-7, nas águas da Bacia de Santos. Outro poço da Repsol, o Panoramix, também na Bacia de Santos, com uma produção de 1.570 barris por dia também deverá ser fechado com os preços atuais.


Libra
Com custos mais baixos, mas ameaçados no curtíssimo prazo estão os poços Maromba, Carcará e Júpiter, todos com break-even entre US$58 a US$50 por barril.

O mais importante destes é o de Carcará onde foi encontrado um grande reservatório, com 470 metros de espessura, 50% maior do que o de Libra contendo petróleo de melhor qualidade e de altíssima pressão, talvez a maior reserva já registrada na área do pré-sal.

Carcará, onde espera-se uma produção superior a 40.000 barris por dia, não irá sobreviver se o preço do barril cair abaixo de US$50. Outro prejuízo bilionário.

O campo de Júpiter, mais um que não vai sobreviver com preço abaixo de US$50/barril, tem uma reserva potencial grande. Nele foi intersectada uma coluna de hidrocarbonetos com cerca de 313 metros, com rochas apresentando boas condições de porosidade e permeabilidade. Júpiter é controlado pelo consórcio operado pela Petrobras, com 80%, em parceria com a Petrogal Brasil, com 20%.  Além da capa de gás, o poço confirmou uma coluna de óleo de cerca de 87 metros.

Se o preço do barril afundar mais ainda ultrapassando o patamar de US$50 e chegando aos US$40 o desastre será simplesmente imenso.

A maioria dos poços do pré-sal como o gigante Lula, antigo Tupi, com reservas estimadas entre 5 a 8 bilhões de barris de petróleo de alta qualidade e o Tupi Sul com reservatórios de excelente qualidade, em rochas carbonáticas, junto com vários outros, serão inviabilizados. Neste grupo está, também, o Carioca que a Agência Nacional de Petróleo propalou que seria o terceiro maior campo de petróleo do mundo. O megacampo deve ter sido a maior descoberta de petróleo em 30 anos segundo a ANP.  Nesta faixa de break-even os importantes campos Peregrino, Itaipu e Iara ficarão, também, antieconômicos.

Se o barril cair aos US$40 veremos a produção da Petrobras colapsar e a empresa irá se reduzir aos poucos poços com custos operacionais entre US$30 a US$40 como os do campo Papa-Terra com capacidade diária planejada de mais de 140 mil barris de óleo cru ou Bauna e Piracaba com produção de 24 mil bpd de óleo leve.

Será o fim de uma era.

Se os analistas estiverem certos e o preço migrar para US$33/barril, o pior dos cenários, a Petrobras como conhecemos deixará de existir, restando somente a parte da importação, refino e distribuição.

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