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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Nem todas as siderúrgicas americanas fazem “aço americano”

Nem todas as siderúrgicas americanas fazem “aço americano”

Em seu plano para reconstruir a infraestrutura dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump promete que o trabalho todo será feito com matéria-prima americana. “Compre nos EUA e contrate nos EUA” foi o lema de campanha de Trump repetido em seu primeiro discurso como presidente. Mas em uma economia global onde as cadeias de suprimento e os mercados são internacionais, colocar em vigor essa diretriz nacionalista pode ser mais difícil do que parece. Em meio à burocracia estatal, diferentes partes do governo dos EUA nem sempre concordam com o que a etiqueta “Made in America” significa. Isso tem frustrado as empresas siderúrgicas que possuem várias grandes usinas nos EUA, mas cujos produtos não podem ser usados em projetos de rodovias e água.
Quando uma empresa de serviços públicos de Los Angeles se preparou para atualizar os canos de água em 2015, as exigências federais impediram o uso de aço proveniente de uma usina vizinha da California Steel Industries Inc.(CSI). A empresa, apesar de empregar centenas de trabalhadores em uma fábrica em Fontana, no mesmo Estado e a menos de 100 km de distância, não cumpre os requisitos do que é considerado “americano”.
O Departamento de Águas e Energia de Los Angeles acabou tendo de selecionar um fornecedor de aço a centenas de quilômetros de distância — um fator que eleva os custos em 30% para os tubos necessários, segundo a Califórnia Steel.
A California Steel é controlada pela brasileira Vale S.A. com sócios japoneses, mas o controle em mãos estrangeiras não foi a causa — outras siderúrgicas de propriedade estrangeira cumprem as regras de “comprar nos EUA” do governo. Também não foi o fato de que ela recebe aço bruto de siderúrgicas fora dos EUA — outras empresas que se qualificam importam materiais inacabados, como chapas de aço.
O problema para a CSI é que ela, segundo uma definição do governo, não produz aço americano. Para que o aço se qualifique como americano, ele pode ser obtido a partir de matérias-primas no exterior, mas deve ser “substancialmente transformado” em usinas dos EUA, segundo a lei de 1933 que define o que significa “comprar nos EUA”. A interpretação de um projeto de lei para construir uma rodovia federal em 1982 tornou mais estritos os requisitos para algumas categorias de projetos financiados pelo governo federal, determinando que o aço deve ser derretido até sua forma líquida para que o produto se qualifique como americano.
Nos últimos 30 anos, esse não foi um grande problema para as empresas. A maioria das usinas de aço dos EUA usava o modelo de usina integrada, que combina e derrete ingredientes brutos para produzir suas próprias chapas maciças de aço. Mas a indústria e os processos de fabricação de aço evoluíram, e mudanças na manufatura agora impedem alguns produtores de aço de participar em licitações para projetos financiados pelo governo.
Hoje, algumas usinas americanas, como a CSI, compram chapas de aço bruto de outros países e depois usam modernos conversores para transformá-las em bobinas de aço para os clientes nos EUA. Mas esse processo não atende aos requisitos estabelecidos em 1982 para definir o que é produto americano.
O foco de Trump na diretriz “Compre nos EUA” — e sua provável aplicação no programa de infraestrutura de US$ 1 trilhão proposto pelo presidente — levanta a possibilidade de que as exigências mais severas sejam estendidas a outras categorias de gastos governamentais. Uma porta-voz do governo não respondeu aos pedidos de comentários.
A CSI recentemente reforçou o lobby para pressionar o Congresso a alterar a definição para que seu aço possa ser usado em projetos de infraestrutura nos EUA. A definição de aço “substancialmente alterado” nos deixaria satisfeitos, disse um porta-voz da CSI.
Outra siderúrgica, a russa NLMK Group, que tem operações de aço na Pensilvânia, também intensificou seus esforços de lobby no governo.
Os negócios na usina da NLMK na Pensilvânia caíram significativamente como resultado da política “Compre nos EUA”. Como os clientes querem manter um estoque para trabalhos futuros, mas não podem prever quais serão financiados pelo governo federal, eles estão evitando o aço feito em usinas que usam o conversor, como a da NLMK.
Segundo a Trinity Products Inc., construtora com sede em Missouri e cliente da NLMK, as empresas de construção preferem pagar mais pelo aço do que correr o risco de que o governo alegue que elas não cumprem as exigências da lei.
“A matéria-prima para certas empresas siderúrgicas pode vir da Rússia ou do Brasil e, como ela é derretida e manufaturada nos EUA, está em conformidade com o ‘Compre nos EUA’”, diz Robert Miller, chefe da divisão americana da NLMK. “Nossa matéria-prima, que também vem da Rússia e do Brasil, fica de fora da lei porque não é derretida e manufaturada no país.”
“Se todas as siderúrgicas compram matérias-primas de outros países, por que estamos sendo excluídos?”, questiona Miller.
É provável que a tensão entre os custos e a produção doméstica seja um ponto proeminente à medida que legisladores e o governo Trump debatam o que significa ser “feito nos EUA”.
Em seus primeiros dias no governo, Trump inseriu em várias ordens executivas linguagem exigindo o uso de materiais e mão de obra americana, incluindo projetos de novos oleodutos americanos.
A ideia por trás do “Compre nos EUA” é dar impulso à indústria americana, exigindo que o governo use materiais produzidos no país. O objetivo é garantir que as empresas e os trabalhadores americanos se beneficiem de gastos com projetos de infraestrutura financiados pelos contribuintes. Mas as experiências da CSI e da NLMK mostram como o que parece ser uma exigência simples pode distorcer o mercado, embaralhar as cadeias de suprimentos e favorecer alguns fornecedores em detrimento de outros.


Fonte: WSJ

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