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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Comunidades do MA relatam os conflitos com a chegada da Estrada de Ferro Carajás

Comunidades do MA relatam os conflitos com a chegada da Estrada de Ferro Carajás


O programa grande Carajás foi um mega empreendimento criado no começo de 1980 para explorar a maior província mineral do planeta, no sudeste do Pará. A mineração na Serra dos Carajás deveria eliminar a pobreza e incluir Maranhão e o Pará no mapa econômico do país.Trinta e sete anos depois, o caminho por onde passam 120 milhões de toneladas de minério por ano, cruza alguns dos municípios mais pobres do país. Em Alto do Pindaré, segundo o último censo do IBGE, 42,95% da população é extremamente pobre.
A maioria das pessoas sobrevive com até R$ 140 por mês. “Todo cidadão, cidadã tem direito a participar da vida do país, então, a exclusão social é muito dolorosa, quer dizer, os grandes projetos não levam em consideração a existência dessas populações” afirmou dom Belisário, arcebispo de São Luís.
A estrada de ferro Carajás abriu caminho por uma das regiões, até então, menos exploradas do país. As primeiras locomotivas assombraram tribos ainda selvagens na Amazônia maranhense.
“Nós tinha era medo até da zoada. Quando ele vinha a gente corria pro mato, porque a gente não sabia o quê que era aquilo. Mas aí, o branco também falava pra nós: que aquilo dali era uma máquina, uma coisa que não vai pegar vocês. Até os meus pais diziam que eles não falam português. Disse ó: daqui há uns anos vai passar uma coisa muito grande, uma cobra, eles falavam de monstro e na verdade a cobra mesmo, mas é uma cobra de ferro que vem detonando não só nossos povos indígenas, mas, também, todos aqueles que mora no torno da ferrovia”, disse o cacique da aldeia Maçaranduba Antônio Wilson.
Tribos de índios nômades e com pouco contato com a civilização como os Awá Guajás, passaram a conviver com o ‘ronco’ dos trens, alterando hábitos e costumes na selva. “O pessoal era acostumado de fazer suas caçadas – nós só convive disso, de caça e pesca, e hoje nós sente também que isso aí tá afetando muito, né, muita gente, pois eles vão pra caçada, á noite não escuta nada, só a zoada do trem, a buzina do trem e aquele barulho danado e á noite pra dormir também” disse Wilson.
A estrada de ferro atravessa pelo menos 28 unidades de conservação ambiental no Pará E Maranhão. As obras de duplicação da estrada de ferro acirraram ainda mais as reações contra a companhia Vale, dona do projeto. A mineradora é acusada de provocar uma série de impactos ambientais ao longo do corredor.
Ativistas da ONG Jovens por Justiça, em Santa Rita, listam vinte e dois igarapés que teriam sido desviados ou entupidos para montagem dos dormentes. O igarapé do Roncador, por exemplo, ganhou outro rumo até chegar ao Carimã.
“isso aqui é um igarapé que foi desviado do lugar dele. Eles aterraram a estrada, fizeram uma valeta beirando a estrada pra poder o igarapé passar. Interromperam o igarapé e fizeram esse desvio pra poder cortar a estrada”, afirmou Ricardo Alves da ONG.
As relações da companhia com os movimentos sociais, quilombolas e índios, ao longo da estrada de ferro Carajás, andam tão tensas que vez por outra paralisam as atividades da mineradora. as reações contra as atividades da mineradora também vem dos quilombos – dos antigos refúgios de escravos na área de influência do corredor de Carajás.
E maior queixa é quanto à perda das tradições ancestrais africanas. A crise nas relações entre a mineradora e o quilombo Santa Rosa, em Itapecuru-Mirim, no norte do Maranhão, se agravou com a duplicação da ferrovia. Lideranças quilombolas estariam impedidas até de cruzar a estrada de ferro.
“Se eles me acharem, segundo, na ferrovia, acredito que aí já é uma prisão, né? porque eu estou habitando o lugar impróprio, porque é da vale e eu sou inimiga da vale e eu não posso entrar no espaço da vale”, afirmou a líder quilombola Anacleta Pires da Silva.
Para Pedro Celestino, representante da Fundação Palmares a retirada das riquezas naturais tem gerado cada vez mais pobreza na região. “A riqueza passa, mas passa fazendo pobres, essa é que é a realidade porque nós poderíamos ter hoje não o 26º ou 25º IDH do Brasil. Com esse monte de riqueza passando no quintal da gente, se ficasse um pouquinho só hoje era pra nós estarmos entre os cinco ou o seis, mas, é uma tristeza. uma tristeza que faz a gente perceber que enquanto, enquanto o minério estiver sendo levado, enquanto a Amazônia estiver sendo roubada, subtraída, o nosso povo vai continuar, infelizmente, a ser pobre”.
O arcebispo de São Luís garante que os movimentos não são contra o progresso. “Realmente a questão da mineração é muito problemática para os países periféricos. Costuma-se dizer que o minério dá uma safra só né? Depois que essa safra acabar, acabou. Então eu acho que vale a pena uma discussão política em termos de decisões. de decisão para o momento atual e para as gerações futuras. A ética social ela é uma ética que deve levar em consideração a história. O que nós vamos deixar para os que vêm depois de nós. só buraco?”, finalizou.
Fonte: G1

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