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domingo, 21 de maio de 2017

Os donos do ouro

Os donos do ouro

Como um pedreiro tímido e um diarista inconsequente inauguraram o mais movimentado garimpo ilegal da atualidade

Bruno Abbud

, da Redação

bruno.abbud@olivre.com.br


Ednilson Aguiar/O Livre
Garimpo da Serra da Borda, em Pontes e Lacerda
Barracas improvisadas tomam parte da Serra da Borda



No fim de 2014, enquanto Sebastião Dantas e seus colegas garimpeiros passavam o dia perfurando as terras do fazendeiro Celso Luiz Fante, o morro vizinho, que integra a Serra da Borda, ainda era um manto de floresta que repousava quieto sobre toneladas de ouro. Até então, ninguém sabia disso. O barulho das máquinas só começou depois que um pedreiro tímido de Pontes e Lacerda saiu para trabalhar num local próximo e acabou descobrindo a notícia. Voltou para a cidade determinado a encomendar um detector de metais de Cuiabá. Três dias depois, encontrou o almejado metal precioso. Em menos de um mês, 500 garimpeiros exploravam o local.
Situada nos fundos da fazenda da família Azambuja, a área que chegou a comportar 7 mil homens agora é cortada por uma estrada de terra vermelha que dá acesso ao cume, onde fica o “buracão” – a parte nobre do garimpo. É por ela que Sebastião, três anos de labuta naquelas paragens, vai caminhando a passos curtos na manhã do último 18 de março, um sábado, logo depois de agradecer a carona e deixar o carro apressadamente. Em poucos minutos, lá está ele, aos 57 anos, escalando um amontoado de pedras e água. Alcança seu pedaço, cumprimenta um companheiro, apanha uma enxada e começa a escavar o chão. “Tem um povo que não gosta que filme aqui, não”, diz. “Ontem mesmo tomaram a câmera de um fotógrafo”.
Alguns metros acima, olhares de estranhamento. “Melhor vocês falarem com o chefe”, sugere outro garimpeiro. “O homem que manda é o Manéu”, confidencia. “Segue reto, você vai ver a única tenda que tem televisão. É a dele”.
Mais adiante, dezenas de barracas de madeira e lona enfileiram-se dentro, fora e ao redor de uma cratera de cinquenta metros de diâmetro. Um rombo marrom na selva verde. Alguns homens comem sentados, outros sobem e descem carregando alviões e barrotes, dirigem caminhonetes, pilotam britadeiras, puxam baldes de terra de túneis verticais escuros. Nada de televisão. Ninguém conhece Manéu.

Alguns homens comem sentados, outros sobem e descem carregando alviões e barrotes, dirigem caminhonetes, pilotam britadeiras, puxam baldes de terra de túneis verticais escuros.

A poucos metros de distância, entretanto, alguém se manifesta. “Quem quer saber?”, pergunta um homem negro, de estatura baixa, com um chapéu largo de palha sobre a cabeça e uma lata de cerveja na mão. “Manoel, Manéu, Manelzinho, tem vários aqui. Tem um monte. Eu sou Manoel. Ele é Manoel. Aquele ali é Manoel. Que Manoel você quer?”, completou, impaciente, apontando pessoas aleatórias.
Ele bebe desde a noite passada, porque a noite passada foi noite de sexta-feira. Conversa com dois amigos em frente a uma espécie de mercearia que serve ao mesmo tempo de bar e banco. No bar, a geladeira desligada, deitada na horizontal e repleta de gelo, serve de freezer e mesa. No banco, a caixa de ovos manuseada por um homem cego de um olho que troca ouro por dinheiro – ou por comida – serve de caixa registradora. Manoel quer saber quem somos, de onde viemos, se somos da Polícia e pede para ver nosso crachá. Quase duas horas de negociação depois, aceita conversar e mostrar o garimpo.
Manoel, 33 anos, não revela o sobrenome, mas confessa ser conhecido como “Neguinho do ouro”. “Recebi o apelido das pessoas que ganharam dinheiro através de mim”, conta. “Dava sacos de terra que, na hora de peneirar, rendiam mil, quinze mil. Teve gente que conseguiu dezoito mil reais. Como o único neguinho que estava dando saco de terra era eu, ficou Neguinho do ouro. Quem deu ouro? Neguinho. Que neguinho? O Neguinho do ouro”.
Na Serra da Borda desde o primeiro semestre de 2015, Manoel conta que foi convidado pelo homem que descobriu o garimpo, um sujeito cujo nome era Johnny. “Nós chegamos aqui por meio de amigos”, diz. A voz esganiçada conta mais detalhes da história: “Todo mundo tinha vontade de ficar rico e a gente também. Então viemos buscar essa ilusão”. Não era ilusão.
Ednilson Aguiar/O Livre
Garimpo da Serra da Borda, em Pontes e Lacerda
Manoel diz ter feito fortuna com garimpo: "Comprei caminhonete, viagem, cachaçada, rapariga"

Nascido em Várzea Grande, “filho de um comedor de peixe com maxixe”, como gosta de se definir, Manoel aprendeu a garimpar aos 15 anos com o pai, ex-garimpeiro. Aos 18, encontrou ouro pela primeira vez. “Achei uma pepita de doze quilos”, diz. “Deu três quilos e meio para cada. Pergunta para o pessoal do nosso grupo, ninguém gosta de falar”, continua. “Uns acham que é mentira, mas não. Um era leiteiro, outro pescador, outro roçador, carpinteiro, o único garimpeiro era eu”. Manoel está bêbado, as palavras vão jorrando da garganta. Dois anos mais tarde, em 2004, ele jura ter descoberto mais ouro, desta vez na Serra Dourada, em Goiás. “Fiz R$ 7 milhões lá. Comprei caminhonete, viagem, cachaçada, rapariga. Tinha duas Hilux na garagem. Falava: ‘Vamos para a praia? Vamos’. Se falasse: ‘Ah, não tenho dinheiro, eu dizia: ‘Você vai comigo, toma, cinquenta mil aqui, ó. Vamos embora”.
Manoel credita a boa sorte a uma superstição que parece valer para todos os garimpeiros: a de que a ostentação de hoje garante o ouro de amanhã. “Quanto mais o garimpeiro ganha, mais ele gasta, e quanto mais você gasta o que ganhou, mais ouro vem no futuro”, resume. “Quando estava acabando o meu dinheiro, eu achava mais ouro. Acabou o dinheiro, achava 500 mil. Acabou o dinheiro, 350 mil. Acabou o dinheiro, mais R$ 800 mil”.

“Quanto mais o garimpeiro ganha, mais ele gasta, e quanto mais você gasta o que ganhou, mais ouro vem no futuro”

Ele continua a seguir sua crença. “Garimpeiro não vive de ilusão, vive do ouro”, afirma. “Gastei tudo o que tinha. Aí fui lá e peguei mais, o dobro. Falei ‘Jesus, não mereço isso tudo, não’. Fui lá, trepei no ouro de novo. Falei ‘meu Deus, isso não é justo comigo não, meu pai’. Fui lá e... ouro de novo”.
Na Serra da Borda, ao que tudo indica, não foi diferente. “Não fui o cara que pegou mais ouro aqui”, conta. “Mas fui um dos caras que pegou um pouco de ouro”. Segundo Manoel, as primeiras pepitas começaram a surgir ainda em 2015, em um túnel de 40 metros no alto do morro, onde o solo é composto de rocha – o que significa que, manualmente, só é possível escavar meio metro por dia. O dinheiro da venda do ouro foi repartido entre a equipe, formada por cerca de 30 garimpeiros. Manoel comprou outra caminhonete Hilux – e ficou famoso no garimpo por ter batido o carro em seguida. Perda total. “Teve uns que compraram fazenda, outros casa, eu comprei uma Hilux, bati a Hilux, mas nem por isso deixei de ganhar dinheiro de novo”, garante. “Conquistei casa, glamour, luxo, ostentação, mulherada, muitas e muitas mulheres”. Na opinião dele, contudo, se engana quem fala em dinheiro fácil no garimpo.
Ednilson Aguiar/O Livre
Garimpo da Serra da Borda, em Pontes e Lacerda
Vida subterrânea: garimpeiros que integram time de Johnny procuram ouro no coração da montanha

Há vários jeitos de escavar a terra. O mais seguro é começar na diagonal e seguir quase horizontalmente por um longo trajeto que acaba no interior da montanha. O mais frequente é também o mais perigoso: o buraco vertical. “Pensam que é fácil fazer dinheiro no garimpo”, observa Manoel com uma nova lata de cerveja na mão. “Mas ninguém viu o que ele passou a 60 metros de fundura, uma falta de ar, um desmaio por falta de oxigênio, um amigo que desce para socorrer. Isso ninguém vê. Por que? Porque ninguém posta”, diz. “Só posta luxúria, corrente de ouro, pulseira de ouro, cordão de ouro, um quilo de ouro para vender. Só ostentação”.
Manoel percorre o garimpo como se estivesse na própria casa. Cumprimenta um a cada dois metros. Interrompe o trajeto na frente de um pequeno comércio. Lá de dentro, um homem lhe passa um maço grosso de notas de R$ 50 e R$ 100. Manoel é respeitado. Não fosse Johnny, no entanto, nada disso estaria acontecendo. “O Johnny me chamou, através dele vim para cá”, conta. “Ele foi o cara que descobriu o garimpo”.
O homem que descobriu o garimpo
Johnny é um pedreiro tímido e acuado de quarenta e poucos anos, cabelos longos e lisos, olhos de índio e a pele esbranquiçada pelo pó de rocha. “O Johnny fez muito ouro, muito ouro mesmo”, conta Francisco das Chagas, um dos 2,5 mil garimpeiros que ainda vivem na Serra da Borda. “Quem chegou primeiro fez muito ouro aqui”.
Cinco anos atrás, Johnny resolveu abandonar o trabalho nas construções para se dedicar à busca pelo ouro. Casou-se com Vanuza, uma mulher loira de meia idade que “mexe com garimpo” há 27 anos. Juntos, percorreram vários rincões do Brasil cavando buracos na terra. “Mas o ouro que a gente estava explorando estava meio fraco”, conta Johnny, no alto da Serra da Borda, com um cigarro de tabaco escuro entre os dedos enrolado numa folha de caderno com listras azuis, a dois passos de um túnel de 40 metros de profundidade. “Então parei de mexer com garimpo e vim fazer um serviço aqui na fazenda vizinha”. Era a propriedade de Sebastião Freitas de Azambuja, a 40 quilômetros de Pontes e Lacerda.
Ednilson Aguiar/O Livre
Garimpo da Serra da Borda, em Pontes e Lacerda
Johnny e sua equipe trabalham no "buracão"

Numa conversa com os funcionários do lugar, soube que um peão diarista havia encontrado uma pepita de dez gramas no meio do pasto. “Fiquei curioso”, diz Johnny. “Pedi para minha esposa ligar para um amigo meu em Cuiabá e mandar um detector de metais para mim”. Três dias depois, encontrou ouro pela primeira vez. “Mas não eram dez gramas”, conta. “Era uma fagulha de três décimos”. Ele então conseguiu autorização do dono da fazenda para explorar a área. Só havia um problema: Johnny é claustrofóbico. Mas isso foi rapidamente resolvido por Vanuza, que acionou seus contatos e logo montou uma equipe para cavoucar a área. “Poucos dias depois, começamos a subir a serra. Aí o ouro apareceu”.
Embora a riqueza parecesse estar próxima, a inconsequência do diarista que havia descoberto a primeira pepita no pasto acabou atrapalhando os planos da turma de Johnny. Certo dia, o peão se embebedou na cidade e deu com a língua nos dentes. “O menino tinha bebido umas cachaças”, conta o garimpeiro. “E começou a espalhar que tinha achado ouro”. Quando o fazendeiro Azambuja soube, mandou parar com a garimpagem. Não queria uma multidão nas suas terras. De nada adiantou. Em menos de um mês, mais de 500 garimpeiros ocupavam o morro.
Johnny também não arredou os pés da montanha. Em pouco tempo, conseguiu arrancar da terra cerca de 130 quilos de ouro – o equivalente a R$ 16,5 milhões, levando em consideração o preço final de R$ 127 por grama. O lucro foi dividido entre os 35 garimpeiros da equipe. “Não imaginava que ia dar ouro dessa forma”, diz.
Se a abundância prevalecia em 2015, hoje a situação é bem diferente. “Foi muito bom aqui no começo”, diz o pioneiro. “Agora está difícil. Ouro tem, só que está fundo”. Johnny gastou os últimos dias puxando a corda da roldana, um balde amarrado na ponta, recheado de pedras que os colegas extraem a 40 metros da superfície. Ele investiu em pequenos explosivos que os homens instalam no interior da montanha. “Até terça-feira a gente chega no ouro”, diz em voz baixa, como se estivesse tentando convencer a si mesmo. “De novo”.
Na próxima reportagem da série, o que pensam os garimpeiros sobre o fechamento da área pela polícia e como criminosos exploraram o garimpo.

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