Seguidores

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Baikal, o lago sagrado


Baikal, o lago sagrado

Em 1905, a Rússia estava em guerra com o Japão. Era preciso atravessar o rio Angara, afluente do Enissei, que corta a Sibéria de sul a norte. Não havia ponte e as tropas deviam passar. Só havia um jeito: por cima do lago Baikal. E foi sobre o lago Baikal, gelado, que eles construíram uma estrada de ferro de dezenas de quilômetros e as tropas passaram.
Isso é a história. Mas não é só por força da história que o lago Baikal é o lago sagrado da tradição russa. É que nele, em torno dele, sobre ele e embaixo dele há riquezas tais que fazem dele o coração amado e sagrado da Sibéria. Sem falar em sua beleza, longo e plácido, no inverno gelo, no verão lâmina azul. Cada povo tem seus desvelos geográficos, seus encantamentos naturais: a lagoa do Abaeté, de Itapoã; o São Francisco, Pai Chico, da Bahia; o Guaiba, dos gaúchos; o Jaguaribe, do Ceará; o Capibaribe, dos poemas de Carlos Pena Filho, no Recife.
O lago Baikal é assim: está na boca de seus cantores, nos versos dos seus poetas. E com razão. É a maior concentração de água doce do mundo: 20% de suas reservas: 23 mil quilômetros cúbicos de água. Mais que o Mar Báltico. Até o fim do século, eles imaginam que o lago vai ser uma fonte de água potável de qualidade excepcionais. Com 636 quilômetros de comprimento e uma superfície equivalente à da Bélgica e da Holanda juntas, é o 8º lago do mundo em superfície. Mas, graças à sua profundeza (é o primeiro, com 1620 metros de fundo), na primavera veem-se objetos brancos até a 40 metros abaixo.
Nada menos de 336 rios, grandes e pequenos, acabam nele. Um só nasce, o Angara, filho de um lar tão manso e no entanto um dos rios mais caudalosos que se conhecem. Mais de 600 plantas nele e em torno dele vivem, e uma fauna de 1300 espécies, das quais ¾ não se encontram em nenhuma outra parte: a foca do Baikal, o peixe golomianca, o omul, etc. E as pedras preciosas, metais, minerais? Uma variedade infinita.
Visitei o Museu do Baikal, à beira do lago, em 1957. E o Museu de Geologia, em Irkutsk, a 70 quilômetros , mantido pelo Instituto Politécnico. É um mundo de riquezas minerais. A diretora vai mostrando e contando os mistérios de cada pedra, muitas conhecidas e muitas só da região do lago, ao menos na variedade de tipos e cores.
A opala é símbolo da mulher traidora. A ametista, em que a mulher de Júpiter converteu sua empregada, porque queria transar com Baco. Até hoje é símbolo do controle da bebida. Os armênios dizem que a ametista ajuda nos negócios, porque você pode beber e negociar. Não deixa embebedar. A cerdolic, avermelhada, que os egípcios punham no lugar do coração dos faraós, arrancando antes de serem enterrados nas pirâmides. As nifrites, verdes e luminosas, símbolos de vida longa. E calcitios, fluorites, lazurites, tchanoites, um belo mundo mineral em ites. E as pirites? Um sueco caiu dentro de uma mina de pirites, morreu lá embaixo e, anos depois, encontraram-no inteiro, inteirinho, preservado e empedrado.
O Baikal é isso: por cima, a beleza gelada do inverno e o límpido azul de suas águas no verão. Por baixo e pelos lados, uma riqueza inesgotável. Em cima dele, como Cristo, andei. Não era água, era pedra de água, gelo puro, com um metro de grossura. E nas noites de lua gorda, a neve cobrindo as margens e o gelo cobrindo as águas, o Baikal parece coisa de história de encantamento: um lençol luminoso onde a Sibéria adormece o cansaço de sua caminhada apressada para o século XXI.
Fonte: Jornal DCI

Nenhum comentário:

Postar um comentário