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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Matéria-prima do crescimento




Matéria-prima do crescimento

Previsões apontam investimentos de US$ 470 bilhões no setor de mineração brasileiro durante o período de 2008 a 2015. Um número recorde, que reforça a contribuição das empresas canadenses e nacionais para a expansão acelerada do mercado



Ferro, cobre, níquel, alumínio, bauxita, ouro, fosfato, zinco, nióbio. A variedade de minérios encontrados em solo brasileiro já seria suficiente para justificar os números de um dos setores que atualmente mais crescem no país. A quantidade de investimentos e de projetos colocados em prática, no entanto, comprova o boom da produção mineral nos últimos anos, que, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), correspondeu a R$ 46 bilhões, em 2007, representando um aumento de 21% em relação aos R$ 38 bilhões obtidos em 2006. Se, além da extração, os valores da indústria e da transformação mineral forem considerados, o total chega a R$ 126 bilhões, ou seja, 9,5% maior do que os R$ 115 bilhões registrados no ano anterior.

“Desde 2001, presenciamos o crescimento do setor em decorrência do aumento da demanda mundial, principalmente da China, Índia, Coréia, Alemanha e do Japão”, afirma Paulo Camillo Vargas Penna, presidente do Ibram. Na China, por exemplo, a busca por minérios – especialmente o de ferro – é resultado do forte processo de urbanização e de desenvolvimento industrial do país. “A previsão é a de que, nos próximos 25 anos, cerca de 800 milhões de chineses migrem da área rural para a urbana”, explica.

A maior parte da produção nacional é, portanto, destinada ao comércio exterior. Das 350 milhões de toneladas de minério de ferro produzidas em 2007, apenas 20% – ou cerca de 70 milhões – permaneceram no mercado interno. O produto mais exportado, porém, foi o ferro-nióbio, que correspondeu a 76 mil toneladas no ano passado – o equivalente a 95% da produção mundial. Deste total, mais de 71,8 mil toneladas desembarcaram em terras estrangeiras, gerando para o Brasil uma receita de US$ 1,06 bilhão. A perspectiva é a de que o crescimento permaneça acelerado nos próximos anos. “As previsões indicam que, de 2008 a 2012, os investimentos cheguem a US$ 47 bilhões, quase 90% acima do previsto no ano passado, que era de US$ 25 bilhões para o período 2007–2011”, afirma Penna.

Em meio a um cenário positivo, a contribuição das empresas estrangeiras – em especial das canadenses – para o desenvolvimento do setor ganha destaque. “Um exemplo é a Kinross, que este ano deve se tornar a maior produtora de ouro do Brasil”, considera Penna, ao citar ainda a atuação das junior companies – pequenas empresas que geralmente contam com um ativo mineral. “Essas companhias desenvolvem pesquisas de identificação de reservas para vendê-las a companhias maiores”, completa.

Décimo terceiro produtor mundial de ouro, com aproximadamente 47 toneladas, o Brasil exportou, em 2007, 36 toneladas do minério – um aumento de 6,5% em relação a 2006 –, sendo Estados Unidos (92%), Reino Unido (6%), Canadá (2%) e Emirados Árabes (2%) seus maiores importadores. Posicionada entre as principais produtoras de ouro do país, a Kinross atua em território nacional desde 2003, depois de adquirir ações da TVX Gold, de assumir o controle acionário da Rio Paracatu Mineração (RPM), em Minas Gerais, e de comprar 50% da Mina de Crixás, em Goiás, que hoje produz cerca de 6 t/ano do minério.

A empresa pretende ampliar sua presença no Brasil investindo US$ 540 milhões no Projeto Expansão – na Mina Morro do Ouro –, que visa triplicar a produção da RPM de 5 t/ano para 15 t/ano, a partir de setembro.

Assim como a Kinross, a Yamana Gold aposta no potencial do país, contando, atualmente, com as unidades Serra da Borda Mineração e Metalurgia, em Mato Grosso; Mineração Maracá, em Goiás; e Jacobina Mineração e Mineração Fazenda Brasileiro, na Bahia. “O Brasil apresenta um parque industrial capacitado e competitivo, grandes reservas e uma boa relação entre governo e setor”, avalia Arão Portugal, vice-presidente de administração da empresa, ao revelar os motivos que atraíram, por exemplo, investimentos de US$ 177 milhões na Mineração Maracá – cuja produção comercial de concentrado de cobre com ouro contido foi declarada em 2007 – e de US$ 60 milhões na Serra da Borda.

“Em 2008, o orçamento mundial da Yamana é de US$ 83 milhões, sendo 50% do valor aplicado no Brasil”, conta Portugal, ao destacar, além dos projetos de ampliação, a exploração de uma nova mina: a Pilar de Goiás. “Até o fim do ano, esperamos chegar a 1,3 milhão de onças de ouro, com a meta de aumentar, em 2012, a produção para 2,2 milhões”, completa.

Entre os investimentos previstos para até 2012, mais de US$ 1 bilhão será aplicado na exploração do ouro, segundo o Ibram, que destaca a atuação da junior company Jaguar Mining – por meio da subsidiária Mineração Serras do Oeste (MSol) – nas minas de Paciência e do Pilar, em Minas Gerais. “Temos projetos em outras regiões do estado e no Ceará”, conta Adriano Nascimento, vice-presidente de exploração e engenharia da MSol. Cleber Macedo, diretor-financeiro da empresa, informa que os recursos, em 2007, foram de US$ 73 milhões – 32% a mais do que o registrado em 2006.

“Formamos uma joint venture com a Xstrata no Ceará e adquirimos áreas da Vale na região de Caeté”, explica, ao revelar a venda de 67 mil onças de ouro no mercado externo no ano passado – um aumento de 91% em relação a 2006. “Até 2012, o recurso previsto é de US$ 560 milhões. Cerca de US$ 140 milhões serão investidos em 2008, pois esperamos vender 150 mil onças de ouro”, acrescenta.

Com uma produção tão acelerada quanto a do ouro – correspondente a 200 mil toneladas em 2007 –, o cobre é um dos metais básicos explorados pela Aura Minerals, que hoje avalia a viabilidade da jazida Serrote da Laje, em Alagoas. “Pretendemos iniciar a produção no local até 2011. Além deste projeto, realizamos pesquisas em outras 30 regiões de Alagoas”, diz Carlos Bertoni, managing director da empresa. No ano passado, a Serrote da Laje exigiu investimentos de R$ 17 milhões – 456% mais do que em 2006. “Em 2008, os números devem chegar a R$ 25 milhões”, adianta Bertoni, ao revelar as ações de preservação ambiental na região. “Minimizamos as possibilidades de desmatamento, atingindo somente as áreas essenciais para a atividade, além de reaproveitar todo o material suprimido”, acrescenta.

Fonte primária – A existência de diamantes em fonte primária – originários dos quimberlitos – tem atraído investimentos em pesquisas da Brazilian Diamonds, responsável pela descoberta do minério em São Roque de Minas, em Minas Gerais. “Os quimberlitos requerem grandes investimentos em pesquisa, já que apenas uma a cada mil rochas apresenta o minério. Hoje, estamos em processo de licenciamento, visando instalar uma mina no local”, informa Érico Ribeiro, diretor-administrativo e financeiro da empresa no Brasil. Além do Projeto Canastra 1, a companhia dedica-se a outros estudos.

Além de diamantes, a anglo-australiana Rio Tinto é reconhecida por sua atuação nos segmentos de alumínio, cobre, minério de ferro, minerais energéticos (carvão e urânio) e industriais (bórax, dióxido de titânio, sal e talco). No Brasil desde 1971, a empresa agora investe na capacidade da mina em Corumbá, em Mato Grosso do Sul, depois de anunciar recursos de US$ 2,15 bilhões para expandir a produção de minério de ferro – que deverá saltar dos 2 milhões de t/ano para 12,8 milhões de t/ano em 2010 – chegando futuramente a 23,2 milhões de toneladas. O objetivo é ampliar sua participação em mercados da América Latina e no Oriente Médio. No segmento de alumínio – que, segundo a Associação Brasileira do Alumínio (Abal), terá um consumo doméstico de produtos transformados de mais de um milhão de toneladas em 2008 –, a companhia conta com a atuação da Rio Tinto Alcan, após a aquisição da canadense Alcan por US$ 3,8 bilhões, em 2007. Unidas, as duas potências ganharam uma capacidade produtiva de 4,4 milhões de t/ano, impulsionando os números mundiais do mercado.

Aliada aos recordes em investimentos, a atuação das mineradoras nacionais contribui para consolidar a imagem do país no exterior. Este é o caso da Vale, que, desde a aquisição da Inco, em 2006, aplica seu know how no Canadá por meio da Vale Inco. “Quando adquirimos a Inco, projetamos a tonelada do níquel a US$ 9 mil/t. Hoje, ela está em US$ 18 mil/t, o dobro do previsto. Este foi, portanto, um negócio que valeu a pena”, diz Roger Agnelli, presidente da Vale, ao destacar que os recursos de US$ 59 bilhões programados para até 2012 serão elevados nos próximos meses. A meta é alavancar a produção de minérios, como o carvão e o cobre. Para o carvão, por exemplo, a alternativa é dar início à fase 2 do projeto em Moatize, em Moçambique, que poderá elevar a produção de 15 mil toneladas para 40 mil toneladas em 2012, enquanto para o cobre é possível dobrar o projeto de Salobo, no Pará, de 100 mil toneladas para 200 mil toneladas anuais.

“Já consolidamos 12 joint ventures com empresas juniores e majors, formando um portfólio de 68 projetos nos países onde atuamos”, afirma o diretor de exploração mineral da Votorantim Metais (VM), Jones Belther, ao explicar a presença da empresa na Bolívia, no Peru, na Argentina, na Colômbia e no Canadá. “Nossa meta é descobrir novos depósitos de zinco, níquel, ferro e carvão”, esclarece. No Brasil, a VM atualmente analisa a viabilidade de Montes Claros de Goiás (níquel), no oeste de Goiás, e de Aripuanã (zinco e conteúdos subordinados de cobre, chumbo, prata e ouro), no noroeste de Mato Grosso, com produção estimada para 2011 e 2012, respectivamente, entre outros projetos. “O investimento previsto para 2008 é de R$ 150 milhões, sendo R$ 107 milhões destinados ao Brasil”, acrescenta o executivo.

A aquisição, em julho, de metade da produção de concentrado de níquel da australiana Mirabela do Brasil por US$ 1 bilhão impulsionará a produção de Fortaleza de Minas (MG), que passará das atuais 6 mil t/ano para 18 mil t em 2009, enquanto o projeto de Bongará, no Peru, – viabilizado por meio de joint venture com a canadense Solitario Resources – absorverá quase R$ 24 milhões, em 2008. Nos demais países, a VM busca novas oportunidades de negócios. “O investimento no Canadá este ano é de US$ 2 milhões, e, para os próximos anos, os planos são de US$ 10 milhões/ano”, diz Belther.

Tendo por acionistas a Vale e a BHP Billiton, a Samarco Mineração, por sua vez, está voltada para a lavra, o beneficiamento, o transporte, a pelotização e a exportação de minério de ferro. O principal produto da companhia – que mantém a unidade industrial de Germano, em Ouro Preto e Mariana (MG), e a de Ponta Ubu, em Anchieta (ES) – é a pelota de minério de ferro, exportada para o Oriente Médio e a África (23%); o Japão, a Malásia, a Indonésia e Taiwan (22%); a China (21%), a Europa (20%) e as Américas (14%). “Para aumentar a produção em 54%, inauguramos um mineroduto de 398 quilômetros, capacitado para transportar 16 t/ano de polpa do minério para o Espírito Santo. Além disso, construímos outra usina de concentração, na unidade em Mariana, que permite processar 23,5 milhões de t/ano. Os investimentos foram de R$ 3,1 bilhões, incluindo a usina no Espírito Santo”, conta Ricardo Vescovi, diretor de operações da Samarco.

Ao abranger desde a extração do minério de ferro até a sua transformação em produtos como o ferro gusa e o aço, a MMX Mineração e Metálicos – do Grupo EBX – também é um dos destaques nacionais do setor, representada pelas unidades MMX Corumbá, MMX Amapá e MMX Minas-Rio. Recentemente, a companhia anunciou a venda do controle do capital da IronX – subsidiária que controla o projeto de minério de ferro Minas-Rio e o sistema de minério de ferro Amapá – para a Anglo American, em uma operação avaliada em mais de R$ 8 bilhões.

Estudos de viabilidade – Mais do que acelerar a produção, os investimentos no setor têm gerado oportunidades para as consultorias e prestadoras de serviço, impulsionando ainda mais a presença canadense no Brasil. Entre elas, a Minerconsult Engenharia – pertencente ao grupo quebequense SNC-Lavalin – elabora estudos de viabilidade para empresas como Vale, Anglo American, Samarco e Kinross, incluindo todas as fases de engenharia e construção. “Atuamos nas modalidades EPCM – Engineering, Procurement and Construction – e Alliance, que consiste na formação de um time integrado com o cliente, disponibilizando a expertise técnica da SNC-Lavalin”, afirma Paulo Afonso Resende, diretor-técnico da Minerconsult, ao citar que os procedimentos de engenharia têm o apoio de modernas ferramentas. “Utilizamos a tecnologia 3D e programas de gestão integrada, incluindo módulos de informação, planejamento, elaboração e controle de orçamentos e gestão de suprimentos”, informa.

Fundado em Toronto, o Grupo Golder aplica sua experiência no país desde 1998, por meio da subsidiária Golder Associates Brasil. A equipe de engenheiros, geólogos e cientistas ambientais, segundo Eduardo Chapadeiro, gerente da área de ciências ambientais, oferece assessoria em monitoramento ambiental, controle de emissões atmosféricas, investigação de contaminação de solo e de água subterrânea, planos de fechamento de minas, entre outros. “Desenvolvemos para a Kinross projetos de reabilitação e revitalização do Córrego Rico, em Paracatu”, exemplifica.

Em engenharia, os destaques são os estudos de utilização de novas tecnologias de manuseio e a disposição final de rejeitos produzidos em plantas de beneficiamento de minérios.

Atuando no Brasil nas áreas de mineração e metalurgia, a Hatch também opera mundialmente nos segmentos de energia e infra-estrutura. “Oferecemos conhecimento sobre o beneficiamento dos minérios ao processo de metalurgia para metais ferrosos e não-ferrosos, incluindo a estruturação de empreendimentos de grande porte – acima de US$ 1 bilhão – para áreas como infra-estrutura de minas, plantas metalúrgicas e a logística de transporte dos minérios”, explica Flavio Galvão, diretor da unidade de negócios Base Metals, ao citar o desenvolvimento de estudos de viabilidade, a elaboração de programas de engenharia e as construções de plantas. “Todos os projetos contam com ações de preservação ambiental integradas à sustentabilidade e às necessidades da comunidade”, esclarece.

Distribuidora das empresas canadenses CME Blasting & Mining Equipment e HLS Hard Line Solutions, a CME do Brasil oferece às mineradoras tecnologia em forma de equipamentos que geram mais eficiência e produtividade. “A CME Blasting fabrica afiadoras de bits – ferramentas de perfuração de rocha – e a HLS desenvolve controles remotos e sistemas de comunicação que dão mais segurança aos operadores e permitem monitorar as minas a distância, por meio de sensores”, esclarece o diretor-comercial, Fernando Lamêgo Duarte.

Além de consultoria, o crescimento do setor tem ampliado a atuação dos escritórios de advocacia. Pedro Garcia, especialista em direito minerário, societário e antitruste do Veirano Advogados, registra a participação do escritório em cerca de 40 processos de aquisição de mineradoras, além de arrendamento de direitos minerários, estruturação e financiamento de projetos de pesquisa e lavra e assessoria no lançamento de ações no país e no exterior. “Os clientes estrangeiros precisam de orientação específica, uma vez que a legislação de mineração no Brasil é altamente complexa”, explica.

Affonso Aurino Barros da Cunha, sócio na área de mineração do Tozzini Freire, destaca o respeito das mineradoras estrangeiras pelos preceitos legais do país.

“Isso pode ser vital, principalmente para as empresas recém-chegadas e com projetos em áreas muito remotas”, analisa.

O escritório oferece desde suporte em direito minerário até o apoio em operações de aquisição. “Para companhias de pequeno e de médio porte fornecemos serviços de auditoria de títulos minerários e de projetos em geral – como questões ambientais, de energia e de logística”, completa.

“Em razão do aquecimento do mercado nos últimos anos, várias companhias estrangeiras têm procurado oportunidades no país, especialmente as junior companies”, diz Carlos Vilhena, sócio responsável pela área de mineração do Pinheiro Neto Advogados, ao considerar a geologia e a capacitação profissional como fatores atrativos. “O Brasil dispõe de uma oferta de serviços e de equipamentos de altíssima qualidade”, acrescenta.

A aquisição de 49% de participação na MMX Minas-Rio pela Anglo American, no valor de US$ 1,15 bilhão, é um dos exemplos recentes da atuação do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados. “Na segunda fase de negociações, temos assessorado a Anglo American na aquisição do controle acionário da IronX, que detém 51% do projeto de minério de ferro da Minas-Rio e 70% do projeto do Amapá”, conta a advogada Maria Cecília Cury Chaddad, ao considerar, ainda, a assessoria prestada ao Credit Suisse e ao Pactual na oferta pública inicial de ações da MMX, em 2007. Umas das tendências, por sinal, é a consolidação de ativos. Segundo Garcia, do Veirano Advogados, as informações divulgadas pelas principais empresas de auditoria indicam que as fusões e aquisições no setor, nos últimos anos, superaram os US$ 150 bilhões. Maria Cecília, do Machado Meyer, por sua vez, destaca a verticalização da cadeia produtiva, em que as empresas siderúrgicas – visando ao aumento de competitividade na produção – buscam o acesso direto aos insumos. “A aquisição de minas pertencentes à J. Mendes pela Usiminas ilustra bem essa situação”, cita, ao indicar um dos movimentos futuros deste mercado.

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