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segunda-feira, 10 de abril de 2017

JOIA, MERCADO, TECNOLOGIA E TRADIÇÃO

JOIA, MERCADO, TECNOLOGIA E TRADIÇÃO


Pensar e escrever sobre design de joias na atualidade é um exercício bastante complexo. Começar falando em tendências não é o melhor caminho, mesmo que a joia seja mesclada a outros acessórios, compondo diferentes looks e ganhando cada vez mais espaço nos eventos de moda. Sem dúvida, ela será usada em toda ocasião em que estaremos vestindo algo, seja no dia-a-dia ou em eventos especiais. Porém corre-se o risco da perda de identidade, ou seja, de objeto raro e refinado, a joia passa a ser apenas mais um acessório. Muitos dizem que devemos desmistificá-la e tirá-la desse patamar de objeto inalcançável, fomentando assim o consumo, mas é aqui que quero começar o assunto.
Que a joia deixou de ser usada como talismã e passou a ser um objeto de adorno, todos já sabemos. Porém a história nos mostra que ela sempre foi usada como um tipo diferente de adorno, um adorno que “sublima” a condição de talismã e passa a desempenhar um papel de diferenciação de classes, um símbolo de status, de poder e de conquista.
Ao longo do tempo, a joia sempre foi o objeto que melhor absorveu e refletiu os revezes do comportamento social e, principalmente, econômico. Em momentos de crise, ela desempenha um papel de termômetro financeiro da época. Caso se mostre rica em matéria-prima - ocupa mais espaço em dedos, orelhas, pescoços, etc. - assinala momentos de prosperidade. Caso a joia se apresente tímida, pequena no tamanho e feita com economia de materiais, fica explícito: estamos vivendo um período de contenção ou, em alguns casos, de comedimento. Fica aqui registrado um primeiro aspecto.
Além disso, estamos vivendo uma época de transição tecnológica: o final da era analógica se dá no início da era digital e, como não poderia deixar de ser, essa tecnologia chegou ao universo da joalheria e é o assunto do momento.
Percebe-se que com a tecnologia digital, o discurso recorrente é o da possibilidade de se fazer joias com alta tecnologia e produzi-las em larga escala, otimizando e acelerando as etapas de produção, conseguindo resultados impossíveis de serem alcançados pelos métodos da joalheria tradicional. Recursos tecnológicos atuais permitem isso de fato, mas para quem vender tanta tecnologia e todo esse excedente da produção num momento de recessão econômica? Eis o segundo aspecto.
Estes dois fatores podem ser conflitantes com o momento da criação, quando o designer tem que escolher o caminho e valer-se das técnicas e tecnologias mais adequadas para apresentar ao mercado o produto certo para o público certo, no momento certo. Se a situação econômica influi nos custos da matéria-prima, nos obrigando a fazer joias “leves”, a tecnologia, por outro lado, nos impõe soluções formais pré-concebidas que, se não tomarmos cuidado, nos impulsionam a um design óbvio e repetitivo. Tirar o máximo de proveito dessas novas técnicas se torna um desafio para a criatividade.
A tecnologia está aí para estimular a criatividade ou para reduzir custos? Como designer de uma empresa, essa questão é objeto de reflexões diárias em minha rotina e apresentarei a seguir algumas soluções encontradas na tentativa de conciliar esses aspectos.
As joias com perfil de alta joalheria requerem habilidades artesanais e artísticas para atingir o ponto máximo de expressão. Além do domínio da escultura, onde a forma é compreendida e interpretada com virtuosismo, há um enorme cuidado ao empregar os materiais. Estas joias pertencem ao universo dos sonhos, da materialização da perfeição, da aura mítica que a palavra "joia" sugere. Após esse resultado, a joia passa a ter um caráter muito particular e liberta-se de quaisquer tendências ou modismos, enveredando pelos caminhos da arte.
Joias de uso diário já seguem outro caminho: aqui nos valemos da tecnologia digital para agregar conteúdo.
Um pingente pode sim ser mais que um adorno. Ele contém uma mensagem que é reforçada pelo emprego das inscrições e pela precisão do desenho, algo praticamente impossível de se fazer manualmente.

Estas discussões apenas começaram. Atualmente, já convivemos com profissionais da nova geração, designers da era digital. É para eles que nosso discurso deve ser dirigido, lembrando que temos um legado de séculos de tradição joalheira, que é a base sobre a qual devem ser criados novos paradigmas.

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