sábado, 1 de março de 2014

Conheça a brasileira que viveu vestida de homem entre garimpeiros

Conheça a brasileira que viveu vestida de homem entre garimpeiros

No município de Curionópolis, no sudeste do Pará, começou a história de vida da enfermeira Idelzuite Fontes. Quando jovem foi proibida de trabalhar.


Globo Repórter Amazonia 3 (Foto: Rede Globo)
No município de Curionópolis, no sudeste do Pará, começou a história de vida da enfermeira Idelzuite Fontes. Quando jovem foi proibida de trabalhar.
“A única forma que eu encontrei foi me vestir de homem e todos os trajes de homem. O meu disfarce era boné, o bigode postiço e calça comprida, sempre gostei de calça, camisa. Fiquei assim 8 meses”, contou Idelzuite Fontes.
Idelzuite viveu um dos momentos mais ricos e também trágicos da história de milhares de Brasileiros. Serra Pelada, o maior garimpo a céu aberto do mundo. Mais de 80 mil trabalhadores vieram pra cá.

“Se eu trabalhasse à noite todinha limpando ouro, eles me pagavam a quantia de 8 a 10 gramas de ouro”, disse Zaqueu Ferreira Neto, ex-garimpeiro.
O complexo mineral foi descoberto na década de 70. O documentarista inglês Adrian Cowell filmou por mais de dez anos os milhares de corpos recobertos de barro da cabeça aos pés.
Picaretas na mão, homens vindos do Ceará, do Pernambuco, do Maranhão, de todos os cantos do país enxergavam lá uma chance de melhorar de vida .
“E a senhora conseguiu ganhar dinheiro em serra pelada?”, perguntou a repórter Daniela Assayag.
“Eu não cheguei porque quando estava perto, perto mesmo, próximo de eu pegar bastante ouro, foi a época que o garimpo fechou”, disse Idelzuite.

O formigueiro humano ficou para trás, histórias de vida enterradas. No lugar onde funcionava o garimpo, agora é um imenso lago que toma conta da paisagem. Os barrancos ficaram submersos. Não existe mais a corrida pelo ouro, mas essa região continua rica em minérios. Uma associação de 38 mil garimpeiros hoje é dona desse lugar.
Idelzuite agora trabalha como enfermeira. Mas nunca esqueceu da vida no garimpo. “Eu vi trabalho, eu vi escravidão, eu vi brigas”, contou.
E muitas tragédias. Cerca de 50 pessoas morriam por ano nas avalanches de terra.
“Eu cheguei a ver um garimpeiro soterrado com as mãos pra cima, e ele morreu. Foi uma cena assim que eu nunca vou esquecer é como se eu tivesse vendo sempre”, disse Idelzuite.
“E a senhora nunca teve medo disso acontecer com a senhora quando a senhora estava lá?”, questionou a repórter.
“Você teme, todo mundo teme a morte, mas aquele medo, medo de morrer nunca tive”, respondeu Idelzuite.
A última pepita de ouro foi retirada de lá em 1992. A partir daí os trabalhadores passaram a viver de bicos. E até hoje é assim. A famosa vila de Serra Pelada ainda existe. São cerca de sete mil moradores em centenas de barracos, quase todos de madeira. As ruas não têm calçamento. Não existe rede pública de iluminação. A luz é clandestina. A água não recebe tratamento.
O fundo do lago, a mais de cem metros de profundidade, está cheio de mercúrio, que era usado para garimpar o ouro. A paisagem é bonita, mas ninguém pode tomar banho ou beber água. Foi a herança que ficou para os moradores da vila de serra pelada.
“Essa água não serve pra nada. Essa água pra gente, pelo nosso entendimento, ela está poluída, jamais, a gente sequer põe os pés dentro”, afirmou uma mulher.
De olho nos negócios, os 38 mil garimpeiros fecharam um acordo inédito na história. Se associaram a uma empresa multinacional que ganhou o direito de explorar toda essa área. No lugar das antigas bateias, máquinas. A tecnologia está por toda parte.
Os primeiros levantamentos feitos pela empresa canadense no terreno indicaram a presença de, pelo menos, 50 toneladas de metal precioso, ouro, platina, paládio. A "Nova Serra Pelada", como foi batizada, deve entrar em operação no segundo semestre de 2013.
“Hoje seria difícil garimpar do jeito que era garimpado há 30 anos atrás?”, perguntou a repórter.
Não tem como, não tem como porque o garimpo ficou muito fundo, não tem como não ser mecanizado. Manual acredito que não. Tem que ter máquina”, respondeu Zaqueu.
A retomada da produção em Serra Pelada, agora mecanizada, é a esperança de uma vida mais tranquila financeiramente pra esse povo.
“A senhora acha que serra pelada foi um lugar que fez bem ou fez mal para as pessoas?”, questionou Daniela Assayag.
“Ela fez o bem porque foi uma descoberta, todo mundo trabalhou, quem pegou ouro pegou, quem não pegou viveu, viu a história. Isso o bem. O mal foi porque muitas famílias, muitas mulheres ficaram viúvas, os esposos vinham pra trabalhar aqui e nunca mais retornavam então ficou muita viúva por causa de serra pelada”, disse Idelzuite.
Hoje, esposa e mãe de 4 filhos, Idelzuite ainda se emociona ao falar de Serra Pelada. Com orgulho guarda, numa caixinha, em casa, os documentos da época de garimpeira.

“Eu não fiquei rica, mas vivi a história. Pra mim é a melhor lição de vida”, completou Idelzuite.
 

Rei dos diamantes relembra os tempos do garimpo

Rei dos diamantes relembra os tempos do garimpo

Mineiro volta ao lugar onde se tornou um milionário. Júlio Bento descobriu mina no Vale do Jequitinhonha. Pedras eram escondidas dentro de uma panela no acampamento.

No coração de Minas Gerais fica um lugar que já foi procurado por bandeirantes, aventureiros, e cobiçado por impérios. A história está nas ruas, nas casas, na alma da cidade, que tem no nome a riqueza e o destino de pedra: Diamantina. Ninguém sabe ao certo, mas calcula-se que da região tenham saído mais de 600 quilos de diamantes. E também de lá saíram outras pedras que se transformaram em joias belíssimas que ainda hoje brilham pelo mundo inteiro.

Quase três séculos de mineração deixaram marcas e mitos.

"Júlio Bento foi quem tirou mais diamantes. Ele até achou que era castigo tanto diamante", conta o empresário Fábio Nunes.

"Na região, o rei do diamante é Júlio Bento", confirma o taxista Sandoval Ribeiro, o Juca.

Júlio Bento, o rei do diamante, não gosta de revelar a idade, mas dizem que ele já passou dos 80. Fala menos ainda quando se trata de fortuna. Afinal, ele continua rico ou não? Seu Júlio voltou à Diamantina para mostrar o garimpo onde achou a primeira de muitas e muitas pedras valiosíssimas. Um tesouro encontrado justamente na região de Minas Gerais famosa pela pobreza, o Vale do Jequitinhonha.

A estrada é de terra, mas, naquele tempo, nem ela existia. Seu Júlio abriu as primeiras picadas e passou com uma tropa de mulas. De um trecho em diante, só com tração nas quatro rodas. Depois de uma hora de solavancos, chega-se ao local. Foi em um trecho do Rio Pinheiro que seu Júlio passou os primeiros cinco anos no garimpo.

Depois da investida dos bandeirantes, no Período Colonial, Diamantina viveu, na época de seu Júlio, uma segunda febre do garimpo. No começo dos anos 80, Diamantina chegou a ter mais de 30 mil garimpeiros. Só em uma mina trabalhavam 250 homens. Os diamantes que saíam da região espalhavam riquezas pelo Brasil inteiro e por outros países do mundo. Mas tudo isso tem um custo para a natureza: onde o garimpo chega, a paisagem muda. Areia que foi parar no meio do rio saiu de outro garimpo que ficava um pouco acima.

O leito do rio também foi desviado. Os muros construídos pelos garimpeiros ainda estão de pé. Seu Júlio volta a explorar o lugar, desta vez, para garimpar a própria história. Dois quilômetros adiante, um reencontro com o passado. O velho garimpeiro descobre o acampamento onde ele e os colegas passavam as noites.

"Ficou tudo do jeito que era porque a pedra protege. A comida era carne, arroz, feijão, verdura", lembra seu Júlio.

O homem que cozinhava para os garimpeiros hoje é chefe de cozinha em um restaurante de Diamantina. Mas, naquele tempo, Luiz Lobo – o Vandeca, como ainda é conhecido – tinha outra função, da maior importância: esconder os diamantes que seu Júlio tirava do rio.

"Seu Júlio confiava tanto em mim que eu tinha na cozinha uma panela que se chamava panela do segredo. Nem os cunhados dele sabiam onde eu guardava os diamantes. Eu guardava dentro de uma panela. Eu colocava as garrafas de diamantes e os pacotes de macarrão e de sal em cima, para que ninguém desconfiasse do que estava ali dentro. Ninguém nunca descobriu", afirma Vandeca.

Hoje seu Júlio vive em São Paulo. Além de não falar se ficou rico, ele não revela, nem mesmo, a quantidade de diamantes que extraiu. Mas, de repente, tira do bolso uma recordação dos velhos tempos: um diamante de quase cinco quilates. "Há mais de 20 anos eu guardo", conta.

Tantas lembranças deixam os olhos do velho garimpeiro brilhando como as pedrinhas que ele tanto procurou. "Dá vontade de chorar", diz seu Júlio, emocionado.

As chagas do garimpo

As chagas do garimpo

Um lugarejo de Madagáscar, na África, onde se
encontraram safiras, repete a saga de Serra Pelada

Raras atividades trazem em si contradições tão grandes quanto o garimpo. Enquanto o comércio de pedras preciosas é sempre associado a riqueza, glamour e ostentação, sua extração está ligada a condições insalubres de trabalho, miséria e violência. A transformação da vila de Ilakaka, ao sul da ilha de Madagáscar, no litoral oriental da África, é um espelho dessas mudanças provocadas pela febre do garimpo. Há dois anos, vinte casebres compunham a vila, miserável como a maior parte do país. Desde que a notícia da descoberta de uma nova e promissora mina de safiras se espalhou, mais de 100 000 garimpeiros aportaram à região, em busca de enriquecimento rápido e fácil. Com raríssimas exceções, a promessa permanece como uma ilusão inalcançável. A safira de Ilakaka reproduziu no sul da África o fenômeno que o ouro gerou em Serra Pelada, no norte do Brasil.
As safiras de Ilakaka estão num aluvião, ao longo de um antigo leito de rio. Como em todas as minas desse tipo, que têm produção farta mas vida curta, quase não há interesse de grandes mineradoras em investir na prospecção mecanizada. Como conseqüência, o formigueiro humano de garimpeiros faz a lavagem da terra à procura das safiras de forma artesanal. A prospecção é feita em valas ou em pequenos poços cavados pelos garimpeiros, com dimensões poucas vezes superiores a 5 metros quadrados, e com 10 a 20 metros de profundidade. A terra retirada de lá é depois lavada numa peneira, para que as safiras, que na maioria dos casos não chegam a 1 quilate (200 miligramas), com o tamanho de uma cabeça de fósforo, possam ser identificadas. O processo é extremamente demorado e perigoso. Quando chove, a possibilidade de desabamentos é grande. Num período de dez dias, no ano passado, dezesseis garimpeiros morreram em acidentes em Ilakaka.
O crescimento acelerado acontece sem a mínima infra-estrutura. As construções são precárias, feitas com o material descartável disponível no momento. O rio usado para a lavagem das pedras é também a única fonte de consumo de água e depósito de esgoto. As epidemias são freqüentes. No entorno da vila, proliferou rapidamente uma gama de serviços para atender os novos habitantes. São restaurantes, pequenos comércios e, para satisfazer a população quase que exclusivamente masculina, bordéis, bares e salões de jogos. A corrida pelas safiras não atrai somente garimpeiros. Compradores de pedras preciosas de diversas nacionalidades circulam pelas vilas de garimpo em busca de mercadorias. O preço pago ao garimpeiro pode ser multiplicado até 100 vezes antes de chegar ao comprador final. A movimentação de dinheiro atrai também a violência. Não são incomuns os casos de roubos, brigas e disputas a tiros pelas pedras. Por via das dúvidas, muitos compradores andam pela cidade acompanhados de guarda-costas armados.
O fenômeno da transformação de Ilakaka é quase um repeteco da saga de Serra Pelada – pode-se prever que vá se encerrar de forma igualmente melancólica. Com a descoberta de ouro no Pará, no início dos anos 80, duas cidades nasceram do nada para abrigar 400.000 homens que trabalhavam dia e noite procurando pepitas num buraco de 100 metros de profundidade. As cidades hoje estão às moscas e o veio, esgotado, foi abandonado. A prospecção de ouro em Serra Pelada gerou uma riqueza estimada em 1,5 bilhão de dólares. Pouco disso, porém, ficou nas mãos dos garimpeiros. "Como sempre, o garimpeiro permanece na miséria e quem enriquece são os intermediários", lamenta o gemólogo Rainer Schultz Güttler, da Universidade de São Paulo.
 
 
 
 
 
 

A nova corrida do ouro em Serra Pelada — sem as tensões, o sofrimento e as cenas bíblicas dos anos 80


A nova corrida do ouro em Serra Pelada — sem as tensões, o sofrimento e as cenas bíblicas dos anos 80

Operários da mineradora canadense no túnel escavado recentemente em Serra Pelada. A terra rica em partículas de ouro será retirada e levada à superfície por máquinas (Foto: Antônio Milena / Milenar)
Operários da mineradora canadense no túnel escavado recentemente em Serra Pelada. A terra rica em partículas de ouro será retirada e levada à superfície por máquinas

A NOVA CORRIDA A SERRA PELADA
No local onde existiu o maior garimpo do mundo, ainda há muito ouro. Em 2013, esse tesouro começará a ser explorado de forma organizada e com o uso de tecnologia moderna
Vinte e cinco anos depois do fechamento do maior garimpo do mundo, Serra Pelada voltará a produzir ouro. No lugar dos 100.000 homens de todas as partes do Brasil que se amontoaram nos terraços enlameados de uma cratera cavada no sul do Pará em busca do metal precioso, em condições precárias, haverá máquinas modernas operadas por funcionários com carteira assinada e protegidos por equipamentos de segurança.

Nos anos 80, a terra retirada no garimpo era carregada em sacos no ombro dos garimpeiros e a escavação se fazia com pás e picaretas (Foto: Luis Novaes - 1982 / Folhapress)
Nos anos 80, uma cena bíblica: a terra retirada no garimpo era carregada em sacos no ombro por milhares de garimpeiros, e a escavação se fazia com pás e picaretas (Foto: Luis Novaes – 1982 / Folhapress)
Em vez de garimpeiros agachados em frente a uma fogueirinha fervendo mercúrio em uma panela para separar as partículas de ouro da terra, serão utilizados complexos processos não poluentes de decantação, flotação e fundição para produzir barras de ouro de 25 quilos com 80% de pureza.
Nas próximas semanas, a mineradora canadense Colossus Minerals, que está investindo 700 milhões de reais em Serra Pelada, concluirá a medição da reserva ainda intocada, que escapou às escavações artesanais dos garimpeiros na década de 80.
SEM MERCÚRIO -- No processo industrial, a separação será feita com técnicas não poluentes como a decantação e a fundição -- na foto, em fase experimental (Foto: Antonio Milena / Milenar)
SEM MERCÚRIO — No processo industrial, a separação será feita com técnicas não poluentes, como a decantação e a fundição — na foto, em fase experimental (Foto: Antonio Milena / Milenar)
Em 2010, quando a cooperativa dos garimpeiros ganhou do governo federal o direito de retomar a exploração de seu tesouro, os técnicos do Ministério de Minas e Energia estimaram em 50 toneladas a quantidade de ouro ainda existente no local. Se o cálculo se confirmar, será mais do que se conseguiu extrair nos sete anos em que o garimpo funcionou, entre 1980 e 1987 (40 toneladas).
Os velhos métodos, contudo, não servem mais. O ouro remanescente encontra-se misturado em uma camada de argila, a 200 metros de profundidade, que se estende a sudoeste da cratera aberta nos anos 80.
Os garimpeiros não sabiam disso e, depois de retirar o ouro que estava mais próximo à superfície, continuaram cavando na vertical. Em vão.
Eles já não conseguiam encontrar uma quantidade significativa do minério e acabaram atingindo um lençol freático, que começou a inundar o garimpo. O governo, então, mandou interromper as atividades no local.
COM MERCÚRIO -- Na década de 80, os garimpeiros usavam metal tóxico para isolar o ouro das impurezas (Foto: Claudio Laranjeiras)
COM MERCÚRIO — Na década de 80, os garimpeiros usavam metal tóxico para isolar o ouro das impurezas (Foto: Claudio Laranjeiras)
Para retomar a exploração, a cooperativa teve de criar a Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral, uma joint venture com a empresa canadense. Os 38.000 garimpeiros cooperados não precisarão fazer nada além de dividir entre si 25% dos lucros da operação.
Na Vila de Serra Pelada, situada no município de Curionópolis, há uma gameleira de 15 metros de altura que serve de ponto de encontro de homens que há trinta anos sonham com a reabertura do seu Eldorado.
A árvore ganhou o apelido de “Pau da Mentira”, por causa das histórias improváveis contadas à sua sombra, mas bem que agora poderia ter seu nome mudado para “Pau da Esperança”.
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José Mariano dos Santos, de 58 anos, acredita que a nova fase de Serra Pelada poderá garantir a ele e seus colegas uma renda mensal de 20.000 reais. No passado, Santos chegou a acumular 411 quilos de ouro, o equivalente a 47 milhões de reais em valores atuais, o que fez dele o segundo homem mais rico do garimpo.
Esbanjou tudo em festas, em viagens extravagantes e em investimentos desastrados. Hoje ele sobrevive do salário mínimo que recebe como aposentadoria.
Os representantes da mineradora se preocupam com as expectativas dos seus sócios brasileiros. “Não temos dúvida de que esta mina tem potencial para se tornar uma das mais produtivas do mundo, mas infelizmente não será capaz de enriquecer esses 38.000 homens”, diz a canadense Ann Wilkinson, vice-presidente da Colossus.
ALAGADA -- Na cratera escavada nos anos 80, os garimpeiros que eram donos de "barrancos" contratavam outros homens para ajudá-los a retirar a terra com ouro. O lago que se formou no local tem uma área equivalente à de dois estádios do Maracanã (Foto: Antonio Milena / Milenar)
ALAGADA — Na gigantesca, impressionante cratera escavada nos anos 80, os garimpeiros que eram donos de “barrancos” contratavam outros homens para ajudá-los a retirar a terra com ouro. O lago que se formou no local tem uma área equivalente à de dois estádios do Maracanã (Foto: Antonio Milena / Milenar)
Para atender à remuneração sonhada pelos garimpeiros, a mineradora teria de atingir uma média de extração anual dez vezes a das principais minas do mundo. Isso é impossível, mesmo com a alta concentração de ouro que os técnicos estão encontrando em Serra Pelada.
A média confirmada até agora é de 20 gramas de ouro por tonelada de terra. Em comparação, a média na maior mina em operação no Brasil, em Paracatu, em Minas Gerais, é de 0,45 grama por tonelada.
Durante a fase de prospecção, os geólogos descobriram que as imagens de enormes pepitas de ouro, que ajudaram a fomentar a corrida a Serra Pelada nos anos 80, não se repetirão. Essas pedras já eram raras naquele tempo, e, agora, mais ainda.
Cada terraço retangular é um "barranco", medida de propriedade dos garimpeiros na década de 80 (Foto:  Grislaine Morel / Gamma)
Cada terraço retangular é um “barranco”, medida de propriedade dos garimpeiros na década de 80 (Foto: Grislaine Morel / Gamma)
O ouro em pó que sobrou está diluído no solo argiloso. Para que se chegue aos pontos de maior concentração do metal, foi construído um túnel de 1 600 metros de extensão e 5 metros de largura.
Mesmo que haja alguma pepita em meio às 150 toneladas de terra que serão recolhidas diariamente por pequenas escavadeiras, ela acabará triturada no processo mecânico de separação do metal.
A dificuldade técnica e o alto custo da extração na “nova” Serra Pelada são compensados de duas formas. Primeiro, o ouro não é o único tesouro do local.
Há quantidades significativas de platina e paládio, metais de grande valor industrial e para a confecção de joias. “Só são conhecidas outras duas minas no mundo onde o ouro vem acompanhado desses metais”, diz o presidente da Colossus, o canadense Claudio Mancuso.
NOVA ILUSÃO -- O garimpeiro José Mariano dos Santos, o Índio, achou 411 quilos de ouro, tornando-se um dos homens mais ricos de Serra Pelada (no detalhe, no auge). Perdeu tudo. Ele sonha em receber 20.000 reais mensais com a parcela que lhe cabe na repartição dos lucros da mineradora com a cooperativa dos garimpeiros
NOVA ILUSÃO — O garimpeiro José Mariano dos Santos, o Índio, achou 411 quilos de ouro, tornando-se um dos homens mais ricos de Serra Pelada (no detalhe, no auge). Perdeu tudo. Ele sonha em receber 20.000 reais mensais com a parcela que lhe cabe na repartição dos lucros da mineradora com a cooperativa dos garimpeiros
A segunda compensação é a crescente demanda pelo ouro, motivada pela desvalorização do dólar e pela instabilidade nas bolsas de valores. No ano passado, o metal acumulou uma alta de 16%, enquanto o índice Bovespa caiu na mesma proporção, e os bancos centrais compraram 440 toneladas de ouro, quase seis vezes mais do que em 2010.
O aumento da procura fez o preço da onça troy (equivalente a 31 gramas) saltar de 300 dólares, em 1998, para 1 710 dólares, na semana passada.
Da preferência dos investidores do século XXI à febre que levou milhares de brasileiros a abandonar a família para tentar a sorte em Serra Pelada nos anos 80, o ouro é desejado por uma razão simples. Ele é raro. Todo o ouro já extraído no planeta, 160.000 toneladas, caberia em apenas 64 piscinas olímpicas.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Matéria-prima do crescimento




Matéria-prima do crescimento

Previsões apontam investimentos de US$ 470 bilhões no setor de mineração brasileiro durante o período de 2008 a 2015. Um número recorde, que reforça a contribuição das empresas canadenses e nacionais para a expansão acelerada do mercado



Ferro, cobre, níquel, alumínio, bauxita, ouro, fosfato, zinco, nióbio. A variedade de minérios encontrados em solo brasileiro já seria suficiente para justificar os números de um dos setores que atualmente mais crescem no país. A quantidade de investimentos e de projetos colocados em prática, no entanto, comprova o boom da produção mineral nos últimos anos, que, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), correspondeu a R$ 46 bilhões, em 2007, representando um aumento de 21% em relação aos R$ 38 bilhões obtidos em 2006. Se, além da extração, os valores da indústria e da transformação mineral forem considerados, o total chega a R$ 126 bilhões, ou seja, 9,5% maior do que os R$ 115 bilhões registrados no ano anterior.

“Desde 2001, presenciamos o crescimento do setor em decorrência do aumento da demanda mundial, principalmente da China, Índia, Coréia, Alemanha e do Japão”, afirma Paulo Camillo Vargas Penna, presidente do Ibram. Na China, por exemplo, a busca por minérios – especialmente o de ferro – é resultado do forte processo de urbanização e de desenvolvimento industrial do país. “A previsão é a de que, nos próximos 25 anos, cerca de 800 milhões de chineses migrem da área rural para a urbana”, explica.

A maior parte da produção nacional é, portanto, destinada ao comércio exterior. Das 350 milhões de toneladas de minério de ferro produzidas em 2007, apenas 20% – ou cerca de 70 milhões – permaneceram no mercado interno. O produto mais exportado, porém, foi o ferro-nióbio, que correspondeu a 76 mil toneladas no ano passado – o equivalente a 95% da produção mundial. Deste total, mais de 71,8 mil toneladas desembarcaram em terras estrangeiras, gerando para o Brasil uma receita de US$ 1,06 bilhão. A perspectiva é a de que o crescimento permaneça acelerado nos próximos anos. “As previsões indicam que, de 2008 a 2012, os investimentos cheguem a US$ 47 bilhões, quase 90% acima do previsto no ano passado, que era de US$ 25 bilhões para o período 2007–2011”, afirma Penna.

Em meio a um cenário positivo, a contribuição das empresas estrangeiras – em especial das canadenses – para o desenvolvimento do setor ganha destaque. “Um exemplo é a Kinross, que este ano deve se tornar a maior produtora de ouro do Brasil”, considera Penna, ao citar ainda a atuação das junior companies – pequenas empresas que geralmente contam com um ativo mineral. “Essas companhias desenvolvem pesquisas de identificação de reservas para vendê-las a companhias maiores”, completa.

Décimo terceiro produtor mundial de ouro, com aproximadamente 47 toneladas, o Brasil exportou, em 2007, 36 toneladas do minério – um aumento de 6,5% em relação a 2006 –, sendo Estados Unidos (92%), Reino Unido (6%), Canadá (2%) e Emirados Árabes (2%) seus maiores importadores. Posicionada entre as principais produtoras de ouro do país, a Kinross atua em território nacional desde 2003, depois de adquirir ações da TVX Gold, de assumir o controle acionário da Rio Paracatu Mineração (RPM), em Minas Gerais, e de comprar 50% da Mina de Crixás, em Goiás, que hoje produz cerca de 6 t/ano do minério.

A empresa pretende ampliar sua presença no Brasil investindo US$ 540 milhões no Projeto Expansão – na Mina Morro do Ouro –, que visa triplicar a produção da RPM de 5 t/ano para 15 t/ano, a partir de setembro.

Assim como a Kinross, a Yamana Gold aposta no potencial do país, contando, atualmente, com as unidades Serra da Borda Mineração e Metalurgia, em Mato Grosso; Mineração Maracá, em Goiás; e Jacobina Mineração e Mineração Fazenda Brasileiro, na Bahia. “O Brasil apresenta um parque industrial capacitado e competitivo, grandes reservas e uma boa relação entre governo e setor”, avalia Arão Portugal, vice-presidente de administração da empresa, ao revelar os motivos que atraíram, por exemplo, investimentos de US$ 177 milhões na Mineração Maracá – cuja produção comercial de concentrado de cobre com ouro contido foi declarada em 2007 – e de US$ 60 milhões na Serra da Borda.

“Em 2008, o orçamento mundial da Yamana é de US$ 83 milhões, sendo 50% do valor aplicado no Brasil”, conta Portugal, ao destacar, além dos projetos de ampliação, a exploração de uma nova mina: a Pilar de Goiás. “Até o fim do ano, esperamos chegar a 1,3 milhão de onças de ouro, com a meta de aumentar, em 2012, a produção para 2,2 milhões”, completa.

Entre os investimentos previstos para até 2012, mais de US$ 1 bilhão será aplicado na exploração do ouro, segundo o Ibram, que destaca a atuação da junior company Jaguar Mining – por meio da subsidiária Mineração Serras do Oeste (MSol) – nas minas de Paciência e do Pilar, em Minas Gerais. “Temos projetos em outras regiões do estado e no Ceará”, conta Adriano Nascimento, vice-presidente de exploração e engenharia da MSol. Cleber Macedo, diretor-financeiro da empresa, informa que os recursos, em 2007, foram de US$ 73 milhões – 32% a mais do que o registrado em 2006.

“Formamos uma joint venture com a Xstrata no Ceará e adquirimos áreas da Vale na região de Caeté”, explica, ao revelar a venda de 67 mil onças de ouro no mercado externo no ano passado – um aumento de 91% em relação a 2006. “Até 2012, o recurso previsto é de US$ 560 milhões. Cerca de US$ 140 milhões serão investidos em 2008, pois esperamos vender 150 mil onças de ouro”, acrescenta.

Com uma produção tão acelerada quanto a do ouro – correspondente a 200 mil toneladas em 2007 –, o cobre é um dos metais básicos explorados pela Aura Minerals, que hoje avalia a viabilidade da jazida Serrote da Laje, em Alagoas. “Pretendemos iniciar a produção no local até 2011. Além deste projeto, realizamos pesquisas em outras 30 regiões de Alagoas”, diz Carlos Bertoni, managing director da empresa. No ano passado, a Serrote da Laje exigiu investimentos de R$ 17 milhões – 456% mais do que em 2006. “Em 2008, os números devem chegar a R$ 25 milhões”, adianta Bertoni, ao revelar as ações de preservação ambiental na região. “Minimizamos as possibilidades de desmatamento, atingindo somente as áreas essenciais para a atividade, além de reaproveitar todo o material suprimido”, acrescenta.

Fonte primária – A existência de diamantes em fonte primária – originários dos quimberlitos – tem atraído investimentos em pesquisas da Brazilian Diamonds, responsável pela descoberta do minério em São Roque de Minas, em Minas Gerais. “Os quimberlitos requerem grandes investimentos em pesquisa, já que apenas uma a cada mil rochas apresenta o minério. Hoje, estamos em processo de licenciamento, visando instalar uma mina no local”, informa Érico Ribeiro, diretor-administrativo e financeiro da empresa no Brasil. Além do Projeto Canastra 1, a companhia dedica-se a outros estudos.

Além de diamantes, a anglo-australiana Rio Tinto é reconhecida por sua atuação nos segmentos de alumínio, cobre, minério de ferro, minerais energéticos (carvão e urânio) e industriais (bórax, dióxido de titânio, sal e talco). No Brasil desde 1971, a empresa agora investe na capacidade da mina em Corumbá, em Mato Grosso do Sul, depois de anunciar recursos de US$ 2,15 bilhões para expandir a produção de minério de ferro – que deverá saltar dos 2 milhões de t/ano para 12,8 milhões de t/ano em 2010 – chegando futuramente a 23,2 milhões de toneladas. O objetivo é ampliar sua participação em mercados da América Latina e no Oriente Médio. No segmento de alumínio – que, segundo a Associação Brasileira do Alumínio (Abal), terá um consumo doméstico de produtos transformados de mais de um milhão de toneladas em 2008 –, a companhia conta com a atuação da Rio Tinto Alcan, após a aquisição da canadense Alcan por US$ 3,8 bilhões, em 2007. Unidas, as duas potências ganharam uma capacidade produtiva de 4,4 milhões de t/ano, impulsionando os números mundiais do mercado.

Aliada aos recordes em investimentos, a atuação das mineradoras nacionais contribui para consolidar a imagem do país no exterior. Este é o caso da Vale, que, desde a aquisição da Inco, em 2006, aplica seu know how no Canadá por meio da Vale Inco. “Quando adquirimos a Inco, projetamos a tonelada do níquel a US$ 9 mil/t. Hoje, ela está em US$ 18 mil/t, o dobro do previsto. Este foi, portanto, um negócio que valeu a pena”, diz Roger Agnelli, presidente da Vale, ao destacar que os recursos de US$ 59 bilhões programados para até 2012 serão elevados nos próximos meses. A meta é alavancar a produção de minérios, como o carvão e o cobre. Para o carvão, por exemplo, a alternativa é dar início à fase 2 do projeto em Moatize, em Moçambique, que poderá elevar a produção de 15 mil toneladas para 40 mil toneladas em 2012, enquanto para o cobre é possível dobrar o projeto de Salobo, no Pará, de 100 mil toneladas para 200 mil toneladas anuais.

“Já consolidamos 12 joint ventures com empresas juniores e majors, formando um portfólio de 68 projetos nos países onde atuamos”, afirma o diretor de exploração mineral da Votorantim Metais (VM), Jones Belther, ao explicar a presença da empresa na Bolívia, no Peru, na Argentina, na Colômbia e no Canadá. “Nossa meta é descobrir novos depósitos de zinco, níquel, ferro e carvão”, esclarece. No Brasil, a VM atualmente analisa a viabilidade de Montes Claros de Goiás (níquel), no oeste de Goiás, e de Aripuanã (zinco e conteúdos subordinados de cobre, chumbo, prata e ouro), no noroeste de Mato Grosso, com produção estimada para 2011 e 2012, respectivamente, entre outros projetos. “O investimento previsto para 2008 é de R$ 150 milhões, sendo R$ 107 milhões destinados ao Brasil”, acrescenta o executivo.

A aquisição, em julho, de metade da produção de concentrado de níquel da australiana Mirabela do Brasil por US$ 1 bilhão impulsionará a produção de Fortaleza de Minas (MG), que passará das atuais 6 mil t/ano para 18 mil t em 2009, enquanto o projeto de Bongará, no Peru, – viabilizado por meio de joint venture com a canadense Solitario Resources – absorverá quase R$ 24 milhões, em 2008. Nos demais países, a VM busca novas oportunidades de negócios. “O investimento no Canadá este ano é de US$ 2 milhões, e, para os próximos anos, os planos são de US$ 10 milhões/ano”, diz Belther.

Tendo por acionistas a Vale e a BHP Billiton, a Samarco Mineração, por sua vez, está voltada para a lavra, o beneficiamento, o transporte, a pelotização e a exportação de minério de ferro. O principal produto da companhia – que mantém a unidade industrial de Germano, em Ouro Preto e Mariana (MG), e a de Ponta Ubu, em Anchieta (ES) – é a pelota de minério de ferro, exportada para o Oriente Médio e a África (23%); o Japão, a Malásia, a Indonésia e Taiwan (22%); a China (21%), a Europa (20%) e as Américas (14%). “Para aumentar a produção em 54%, inauguramos um mineroduto de 398 quilômetros, capacitado para transportar 16 t/ano de polpa do minério para o Espírito Santo. Além disso, construímos outra usina de concentração, na unidade em Mariana, que permite processar 23,5 milhões de t/ano. Os investimentos foram de R$ 3,1 bilhões, incluindo a usina no Espírito Santo”, conta Ricardo Vescovi, diretor de operações da Samarco.

Ao abranger desde a extração do minério de ferro até a sua transformação em produtos como o ferro gusa e o aço, a MMX Mineração e Metálicos – do Grupo EBX – também é um dos destaques nacionais do setor, representada pelas unidades MMX Corumbá, MMX Amapá e MMX Minas-Rio. Recentemente, a companhia anunciou a venda do controle do capital da IronX – subsidiária que controla o projeto de minério de ferro Minas-Rio e o sistema de minério de ferro Amapá – para a Anglo American, em uma operação avaliada em mais de R$ 8 bilhões.

Estudos de viabilidade – Mais do que acelerar a produção, os investimentos no setor têm gerado oportunidades para as consultorias e prestadoras de serviço, impulsionando ainda mais a presença canadense no Brasil. Entre elas, a Minerconsult Engenharia – pertencente ao grupo quebequense SNC-Lavalin – elabora estudos de viabilidade para empresas como Vale, Anglo American, Samarco e Kinross, incluindo todas as fases de engenharia e construção. “Atuamos nas modalidades EPCM – Engineering, Procurement and Construction – e Alliance, que consiste na formação de um time integrado com o cliente, disponibilizando a expertise técnica da SNC-Lavalin”, afirma Paulo Afonso Resende, diretor-técnico da Minerconsult, ao citar que os procedimentos de engenharia têm o apoio de modernas ferramentas. “Utilizamos a tecnologia 3D e programas de gestão integrada, incluindo módulos de informação, planejamento, elaboração e controle de orçamentos e gestão de suprimentos”, informa.

Fundado em Toronto, o Grupo Golder aplica sua experiência no país desde 1998, por meio da subsidiária Golder Associates Brasil. A equipe de engenheiros, geólogos e cientistas ambientais, segundo Eduardo Chapadeiro, gerente da área de ciências ambientais, oferece assessoria em monitoramento ambiental, controle de emissões atmosféricas, investigação de contaminação de solo e de água subterrânea, planos de fechamento de minas, entre outros. “Desenvolvemos para a Kinross projetos de reabilitação e revitalização do Córrego Rico, em Paracatu”, exemplifica.

Em engenharia, os destaques são os estudos de utilização de novas tecnologias de manuseio e a disposição final de rejeitos produzidos em plantas de beneficiamento de minérios.

Atuando no Brasil nas áreas de mineração e metalurgia, a Hatch também opera mundialmente nos segmentos de energia e infra-estrutura. “Oferecemos conhecimento sobre o beneficiamento dos minérios ao processo de metalurgia para metais ferrosos e não-ferrosos, incluindo a estruturação de empreendimentos de grande porte – acima de US$ 1 bilhão – para áreas como infra-estrutura de minas, plantas metalúrgicas e a logística de transporte dos minérios”, explica Flavio Galvão, diretor da unidade de negócios Base Metals, ao citar o desenvolvimento de estudos de viabilidade, a elaboração de programas de engenharia e as construções de plantas. “Todos os projetos contam com ações de preservação ambiental integradas à sustentabilidade e às necessidades da comunidade”, esclarece.

Distribuidora das empresas canadenses CME Blasting & Mining Equipment e HLS Hard Line Solutions, a CME do Brasil oferece às mineradoras tecnologia em forma de equipamentos que geram mais eficiência e produtividade. “A CME Blasting fabrica afiadoras de bits – ferramentas de perfuração de rocha – e a HLS desenvolve controles remotos e sistemas de comunicação que dão mais segurança aos operadores e permitem monitorar as minas a distância, por meio de sensores”, esclarece o diretor-comercial, Fernando Lamêgo Duarte.

Além de consultoria, o crescimento do setor tem ampliado a atuação dos escritórios de advocacia. Pedro Garcia, especialista em direito minerário, societário e antitruste do Veirano Advogados, registra a participação do escritório em cerca de 40 processos de aquisição de mineradoras, além de arrendamento de direitos minerários, estruturação e financiamento de projetos de pesquisa e lavra e assessoria no lançamento de ações no país e no exterior. “Os clientes estrangeiros precisam de orientação específica, uma vez que a legislação de mineração no Brasil é altamente complexa”, explica.

Affonso Aurino Barros da Cunha, sócio na área de mineração do Tozzini Freire, destaca o respeito das mineradoras estrangeiras pelos preceitos legais do país.

“Isso pode ser vital, principalmente para as empresas recém-chegadas e com projetos em áreas muito remotas”, analisa.

O escritório oferece desde suporte em direito minerário até o apoio em operações de aquisição. “Para companhias de pequeno e de médio porte fornecemos serviços de auditoria de títulos minerários e de projetos em geral – como questões ambientais, de energia e de logística”, completa.

“Em razão do aquecimento do mercado nos últimos anos, várias companhias estrangeiras têm procurado oportunidades no país, especialmente as junior companies”, diz Carlos Vilhena, sócio responsável pela área de mineração do Pinheiro Neto Advogados, ao considerar a geologia e a capacitação profissional como fatores atrativos. “O Brasil dispõe de uma oferta de serviços e de equipamentos de altíssima qualidade”, acrescenta.

A aquisição de 49% de participação na MMX Minas-Rio pela Anglo American, no valor de US$ 1,15 bilhão, é um dos exemplos recentes da atuação do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados. “Na segunda fase de negociações, temos assessorado a Anglo American na aquisição do controle acionário da IronX, que detém 51% do projeto de minério de ferro da Minas-Rio e 70% do projeto do Amapá”, conta a advogada Maria Cecília Cury Chaddad, ao considerar, ainda, a assessoria prestada ao Credit Suisse e ao Pactual na oferta pública inicial de ações da MMX, em 2007. Umas das tendências, por sinal, é a consolidação de ativos. Segundo Garcia, do Veirano Advogados, as informações divulgadas pelas principais empresas de auditoria indicam que as fusões e aquisições no setor, nos últimos anos, superaram os US$ 150 bilhões. Maria Cecília, do Machado Meyer, por sua vez, destaca a verticalização da cadeia produtiva, em que as empresas siderúrgicas – visando ao aumento de competitividade na produção – buscam o acesso direto aos insumos. “A aquisição de minas pertencentes à J. Mendes pela Usiminas ilustra bem essa situação”, cita, ao indicar um dos movimentos futuros deste mercado.