Nas profundezas da Terra
Estudo desenvolvido com diamantes
brasileiros comprova que o ciclo de carbono chega ao manto inferior do
nosso planeta. As pedras, formadas a 660 km de profundidade, possuem
tipo de carbono existente apenas na superfície.
Os diamantes de
Juína, no Mato Grosso, foram a primeira evidência mineralógica do ciclo
de carbono no manto inferior. (fotos: Science/ AAAS)
Que o carbono, um dos elementos mais abundantes na Terra, pode
penetrar o interior do planeta já se sabia, mas que é capaz de atingir o
manto inferior era ainda uma hipótese, que acaba de ser confirmada em
pesquisa da Universidade de Bristol (Inglaterra).
Os autores mostram a influência que o manto terrestre pode sofrer do
material vindo da crosta oceânica e comprovam que ele também participa
do ciclo do carbono no planeta.
As evidências foram encontradas em
diamantes
provenientes do campo kimberlítico de Juína, próximo ao município
homônimo, no Mato Grosso, que pertencem à UnB. Em uma das primeiras
etapas do estudo, os pesquisadores realizaram cuidadoso trabalho de
polimento para expor minerais contidos nos
diamantes.

- O polimento é utilizado para exibir as inclusões dos minerais no diamante, permitindo a confirmação de sua origem. (fotos: Science/ AAAS)
Durante a análise, eles observaram traços de minerais que só podem
ter se formado nas pressões e temperaturas extremas do manto inferior
terrestre, misturados a elementos típicos da crosta oceânica. Dentre
eles, o que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi um tipo de
molécula de carbono existente na superfície da Terra.
Mas como o carbono teria ido parar lá? “As placas oceânicas são
subductadas em direção ao interior da Terra e atravessam o manto
superior, a zona de transição onde elas podem se acumular e depois
penetrar no manto inferior”.
Quando isso ocorre, os componentes da crosta oceânica são levados
pelas placas tectônicas para essa zona de transição e, com seu peso,
podem acabar entrando no manto inferior. Os fluidos que formam os
diamantes nessa região podem, assim, ser ‘contaminados’ pela crosta oceânica.
Os fluidos que formam os diamantes nessa região podem ser ‘contaminados’ pela crosta oceânica
E como os
diamantes teriam
ido do manto inferior para a superfície, onde foram encontrados?
Segundo os pesquisadores, isso teria ocorrido em duas etapas. “Primeiro,
materiais do manto inferior são levados até o manto superior por plumas
mantélicas e, posteriormente, capturados por magmas kimberlíticos
transportando materiais do manto até a superfície”..
Primeira evidência concreta
As teorias de que as placas oceânicas penetram o manto inferior já
existiam, inclusive há provas sísmicas de que isso ocorre. No entanto, o
novo estudo é o primeiro a encontrar evidências mineralógicas do
fenômeno.
Os dados encontrados também já haviam sido previstos e até produzidos experimentalmente em laboratório, mas os
diamantes de Juína permitiram sua comprovação. Segundo Araújo, esses exemplares, com essas características, são inéditos. Os demais
diamantes do manto inferior descritos na literatura científica apresentaram apenas componentes originados na própria camada.
A descoberta pode permitir um melhor entendimento sobre os movimentos
no interior da Terra e sobre a dinâmica de funcionamento do planeta.