sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Garimpeiros ainda buscam fortuna procurando pedras preciosas em MG

Garimpeiros ainda buscam fortuna procurando pedras preciosas em MG

Terras são exploradas desde o século 18, mas no estado existe uma área preservada em que o garimpo mecanizado não entrou.

Foi da febre do garimpo que nasceu Minas Gerais. A coroa portuguesa queria garantir que o ouro e as pedras extraídas no interior do Brasil não fossem roubados ou desviados. A estrada real seria o caminho seguro. E ela foi sendo aberta no século 17 por escravos, bandeirantes e tropeiros, seguindo o trajeto de antigas trilhas indígenas.
Era por lá que as pedras preciosas saíam das Minas Gerais e chegavam até o litoral do Rio de Janeiro. E embarcada em caravelas, nossa riqueza ia embora para Portugal.
Diamantina é a terra natal do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Cidade das vesperatas com músicos tocando nas sacadas coloniais. As ruas se enchem de música e a festa enche a cidade. Passado e presente se misturam em harmonia quase todos os fins de semana de abril a outubro. 
A apenas dez quilômetros do centro de Diamantina, já na área rural, há um lugar que vale a pena conhecer. Natureza virgem, nem parece que são terras de garimpo. A família de Belmiro Nascimento explora as terras de Ribeirão do Guinda desde o século 18. Ele conduz a equipe do Globo Repórter pelo lugar que ele conhece desde menino. O que se fazia ali era o garimpo artesanal. Só com enxada, peneira e olhos muito atentos. A ocupação principal do Belmiro agora é o turismo. Naquelas terras nunca entrou garimpo mecanizado.
Não muito longe dali a realidade é completamente diferente. Areinha parece o fim do mundo, lugar perdido, destruído de tal forma, que não dá para saber como era antes. É ali que homens de todas as idades procuram a pedra dos sonhos. Pobre rio Jequitinhonha. É muito clara a lei estadual que deveria proteger os terrenos às margens dos rios. É proibido revolver sedimentos para a lavra. E também é proibido o exercício de atividade que coloque em risco o ecossistema. Mas não é exatamente o que está acontecendo ali. Máquinas e garimpeiros trabalham a todo vapor.
Pelo menos mil garimpeiros trabalhavam em Areinha até uma operação da Polícia Federal. Doze foram presos. Mas ainda há acampamentos em condições precárias, esgoto a céu aberto, gente cortando lenha. Homens e mulheres que culpam a falta de emprego na região. Na lei do garimpo, quem bota a mão na massa fica com, no máximo, 10% do que é achado. Se alguém enriquece, é o dono da máquina.
Um pequeno diamante bruto. Misturado a outras pedras, quem conseguiria distinguir?
Ao ser lapidado, perde metade do tamanho. E alcança a perfeição.
Equipe do Globo Repórter visita a casa onde Chica da Silva morou

Diamantina nasceu aos pés da Serra do Espinhaço, a única cordilheira brasileira. A cidade atrai equipes de cinema e seus filmes de época.
Um único homem recebia da coroa portuguesa o direito de explorar os diamantes. O mais famoso, o contratador João Fernandes de Oliveira, se apaixonou e se uniu com uma escrava: Chica da Silva. A equipe do Globo Repórter visitou a casa em que eles moraram, que está aberta à visitação.
Quando morreu no final do século 18, a ex-escrava recebeu as honras que eram devidas quase que exclusivamente às mulheres brancas e ricas. Foi sepultada no interior da igreja de São Francisco de Assis.
O que será que sobrou da fortuna de João e Chica? “Nada. Também eram muitos. Só de filhos ela e João Fernandes de Oliveira tiveram 13. E cada um desses filhos na época tiveram seus 10, 11 filhos. Então a minha bisavó teve 10 irmãos. Era muita gente”, conta Ana Catarina Pinheiro, jornalista e octaneta de Chica da Silva.
Mineiros que se espalharam por toda a região. Histórias que se entrelaçaram na estrada real.
Parque estadual é criado após população se rebelar contra garimpagem
Mais pra cima no mapa está São Gonçalo do Rio Preto. Na cidade, de pouco mais de três mil habitantes, também há uma casa de um descendente da Chica. E um parque estadual de encher os olhos.
Do centro de São Gonçalo até o parque são só 15 quilômetros de estrada de terra.
A paisagem é deslumbrante. O parque já tem 21 anos de idade e chega a quase 12.200 hectares de área. Nada no parque foi plantado ou replantado. A natureza se encarrega de tudo.
É raro encontrar animais no caminho durante o dia. Só pegadas e vestígios. Eles se escondem ao menor ruído. E a maioria sai à noite para caçar. Tudo é bonito e preservado, uma vitória do povo de São Gonçalo que se rebelou contra a garimpagem.

Pessoas que deixam garimpo são presas e perdem o ouro


Três garimpeiros foram presos esta semana e levados para a Cadeia Pública de Cáceres

Mesmo com decisão judicial, muitos garimpeiros permanecem na área ilegal

Permanecer na área de extração ilegal de ouro em Pontes e Lacerda (448 km ao Oeste de Cuiabá) tem se revelado uma péssima decisão para os garimpeiros que foram tentar a sorte no local. Todas as pessoas que deixam o garimpo da Serra da Borda estão sendo revistadas e, caso estejam com alguma quantidade de ouro, são presas e perdem tudo o que conseguiram.

Na última segunda-feira (26), três homens foram presos em flagrante pela Polícia Federal, que montou uma barreira no acesso ao garimpo para impedir que mais gente entre na área onde ocorre a exploração ilegal.

De acordo com informações da Polícia Federal, dois homens foram presos quando deixavam o garimpo juntos, com 303 gramas de ouro. Eles foram indiciados por crime contra a ordem econômica, crime ambiental e associação criminosa, pois estavam em dupla.

A outra prisão foi de um homem que estava com 9,7 gramas de pó de ouro. O homem foi indiciado por crime contra a ordem econômica e crime ambiental.

Os homens foram encaminhados para a Delegacia de Polícia Federal, em Cáceres. Após interrogatório, seguiram para a Cadeia Pública de Cáceres, onde ficarão à disposição da Justiça.

A quantia de ouro que estava com os homens - e os materiais que eles utilizaram para extrair o minério - também foram apreendidos.
O ouro que estava com os garimpeiros deverá ser encaminhado para um depósito judicial.
Divulgação/Polícia Federal
Apreensão Ouro
Ouro apreendido: além de responder a inquérito, garimpeiros perdem o ouro e o trabalho

Incluindo ações realizadas na semana passada, oito pessoas já foram presas em razão da extração de ouro no garimpo. As detenções foram realizadas após decisão da Justiça Federal, que classificou como ilegal a permanência no lugar.

Outras prisões da PF

Na quinta-feira (22), um garimpeiro foi preso com 33 gramas de ouro no garimpo ilegal. Com a apreensão do ouro, o prejuízo do garimpeiro foi de cerca de R$ 4,7 mil.

Na sexta-feira (23), três homens foram presos no centro de Pontes e Lacerda, em frente a uma residência do Município. Conforme a Polícia Federal, eles estavam com R$ 462 mil, 64 gramas de ouro e um detector de metais.

Polícia Federal

A Polícia Federal informou que continua atuando para coibir o garimpo ilegal de Pontes e Lacerda, através de barreiras no local e detenções em razão da extração de ouro.

Apesar de não haver um prazo estipulado, a assessoria de imprensa da PF informou que estão sendo analisadas ações para realizar a desocupação total do garimpo.

Entenda o caso

Inicialmente, cerca de 600 pessoas invadiram uma área particular no município de Pontes e Lacerda, após a divulgação de que uma grande quantidade de ouro havia sido encontrada no local.

No entanto, a disseminação de fotos e vídeos nas redes sociais colaborou para que a invasão ao local fosse ainda maior.

Segundo a própria Justiça Federal, cerca de cinco mil pessoas de vários estados estavam na região em busca de ouro fácil.

Desocupação

A Justiça Federal determinou, em 16 de outubro, o fechamento do garimpo devido à ausência de autorização por parte do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).
Reprodução
Policia Federal
Polícia Federal está realizando barreiras e prisões em garimpo ilegal de Pontes e Lacerda

A decisão pelo encerramento das atividades no local é do juiz federal Francisco Antônio de Moura Júnior, da 1ª Vara da Subseção de Cáceres (225 km a Oeste da Capital).

O magistrado atendeu a uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF).

Na decisão, o juiz determinou a remoção dos veículos existentes no local, a proibição da entrada de novas pessoas, o comércio e qualquer outra forma de distribuição gratuita ou onerosa de combustível e suprimentos na área.

Força Nacional

Em 20 de outubro, o governador Pedro Taques (PSDB) solicitou a atuação das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança Pública, no cumprimento da decisão judicial no garimpo.

O ofício com o pedido de atuação conjunta foi enviado à presidente Dilma Rousseff, ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e ao juiz da 2ª Vara da Subseção Judiciária Federal de Cáceres, Francisco Antônio de Moura Júnior.

Para o governador, o trabalho em conjunto dos órgãos estaduais e federais evitaria um esforço demasiado e concentrado da PM para o atendimento da medida judicial.

Taques ainda lembrou que a operação deve ser prolongada – primeiro com a desocupação, seguindo com a manutenção/reintegração de posse.

Garimpeiros colhem assinaturas para tentar legalizar extração de ouro

Garimpeiros colhem assinaturas para tentar legalizar extração de ouro

Exploração em Pontes e Lacerda (MT) é tida como ilegal pela Justiça. Forças de segurança planejam ação para retirar mil garimpeiros de serra.
28/10/2015 - 01:33:25
     
 

Contrários à decisão judicial que determinou a desocupação de uma área na Serra da Borda, em Pontes e Lacerda, a 483 km de Cuiabá, garimpeiros que exploram ilegalmente a região colhem assinaturas de trabalhadores na tentativa de legalizar a extração de ouro naquele local e criar uma espécie de associação.
 
A descoberta de ouro na região atraiu milhares de pessoas nos últimos dois meses e há 10 dias a Justiça Federal determinou o fechamento do local. Segundo a Justiça Federal, cerca de cinco mil pessoas chegaram ao local nos últimos dois meses.
 
O garimpo funciona sem autorização do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Enquanto o garimpo não é fechado, os trabalhadores percorrem a cidade e os arredores do garimpo em busca de colher assinaturas.
 
“Aqui existem pais de família e trabalhadores. Todo mundo está aqui para trabalhar, ninguém está aqui para baderna”, declarou o garimpeiro Roberto Nunes. Ele é um dos trabalhadores que incentiva o recolhimento das assinaturas. Os garimpeiros assinam o documento afirmando que pretendem trabalhar na Serra da Borda.
 
Policiais federais e outras forças de segurança ainda planejam fazer uma operação para retirar aproximadamente mil garimpeiros que continuam na região. Enquanto isso, os policiais fazem abordagens no entorno do garimpo e tentam impedir o acesso de novos trabalhadores.
 
O prefeito de Pontes e Lacerda, Donizete Barbosa (PSDB), foi a Brasília, no DNPM, para tentar criar uma cooperativa, permitindo que a extração seja legalizada no local.
 
“Estive em Brasília conversando com as autoridades e verificando como está o processo. Também estamos verificando a possibilidade que se tem de se criar ali dentro uma área garimpeira de uma cooperativa”, declarou.
 
O caso
A descoberta de jazidas de ouro entre as serras da Borda e Santa Bárbara começou a movimentar a região nos últimos dois meses. Imagens de pepitas de ouro circularam pelas redes sociais e aplicativos de celulares, fomentando ainda mais a fama do garimpo.
 
O caso foi levado ao conhecimento da Justiça pelo Ministério Público Federal (MPF) e, no dia 16 de outubro, o juiz Francisco Antônio de Moura Júnior, substituto da subseção da Justiça Federal em Cáceres, a 220 km da capital), decretou o fechamento do garimpo, com a retirada de todos os trabalhadores do local e apreensão de todo o minério extraído ilegalmente.
 
Os garimpeiros já foram notificados da decisão e a maioria deixou o local, mas vários persistem na tentativa de explorar o garimpo ilegalmente. Desde que passou a ser explorada, a Serra da Borda chegou a ter um pico de sete mil pessoas – entre garimpeiros profissionais e ocasionais – explorando a jazida de ouro do local.
 
Muitos são provenientes da própria cidade de Pontes e Lacerda e, segundo a Secretaria estadual de Meio Ambiente (Sema), são responsáveis por colocar em risco a água consumida na cidade. Os policiais também acabam prendendo pessoas que são flagradas com ouro na região ou dinheiro que poderia ter relação com o garimpo.
 
Quatro homens foram presos no último dia 23 com R$ 460 mil, dinheiro que teria relação com comercialização e extração ilegal de ouro encontrado na jazida. No dia 22, um homem foi preso com 33 gramas de ouro e encaminhado para a Cadeia Pública de Cáceres, a 250 km da capital.
 
No último final de semana uma quadrilha de assaltantes invadiu duas propriedades rurais que ficam próximas ao garimpo. Os quatro assaltantes estavam em busca de ouro. Duas pessoas foram feitas reféns por mais de trinta minutos. Uma das vítimas foi espancada e torturada.

O GARIMPO DE ESMERALDAS......

O GARIMPO DE ESMERALDAS......



Em 1990.,conheci um dos mais importantes garimpos do Brasil...foi o garimpo de esmeraldas de Santa Terezinha de Goiais.,no interior do estado de Goiais...uma cidade bem interessante,hospitaleira.,aonde na epóca a economia gerava em torno de muitas minas de esmeralda que se espalhava pela cidade.
Ali se vivia 24 horas o ambiente de compra, venda e permutas em torno da pedra...tinha um lugar aonde se reunia os compradores e a conversa ali era só..pedras..quilates..mina e etc...vinha periodicamente pessoas da India(aonde se compra muita esmeralda)..,para conhecer o lugar e quem sabe,levar algo para lá não é???
Porém o dia a dia do garimpeiro de esmeralda não era facil...geralmente ele trabalhava para um patrão que era o dono das minas...andando pela cidade voce observava varios poços(iguais os usados para agua),,e ali se descia até 250 metros atraves de elevadores rusticos e lá era desenvolvido o trabalho..o ar era enviado por mangueiras que era gerado por compressor de ar...trabalhava-se a semana toda e no final de semana o patrão pagava o valor do trabalho semanal e dava um carrinho de xisto(que era o material aonde geralmente fica a esmeralda).,para que o garimpeiro lavasse para ele e se tivesse sorte encontra-se uma boa pedra....muitos ganharam boas quantias em dinheiros com as pedras encontradas nestes xistos....no sabado era normal ver varios garimpeiros nas "piscinas", aonde era lavado o xisto., lavando seu quinhão na esperança de uma boa pedra....e em roda desses garimpeiros os compradores.,avídos tambem por um bom lucro...e eram esses.,os compradores que sempre ficavam com o lucro maior.,pois sabiam da cotação da pedra e tambem ficavam sabendo se tinha "Indianos" na cidade...Indiano era certesa de um bom lucro.
Porém os garimpeiros sempre achavam alguma coisa.,pois trabalhando la embaixo.,sabiam aonde podiam se dar melhor levando para si o melhor xisto...
Porém meus dias de garimpo de esmeralda acabaram logo na minha chegada a Santa Terezinha de Goiais....estava perambulando pela cidade.,procurando uma vaga.,quando um "patrão" perguntou se eu queria trabalhar...disse que sim., e ele me falou que estava precisando de um trabalhador....fiquei alegre..feliz.,com a certesa de logo.,logo estar com o meu carrinho de xisto para lavar...fui feliz para o hotel aonde estava hospedado.,na certesa de outro dia ir trabalhar...porém quando soube o por que dessa vaga "saltei" longe e vazei!"!!!!!...o ultimo garimpeiro que trabalhou naquele poço.,acabava de ser enterrado no cemiterio local...motivo: estava trabalhando nas minas quando um barranco desbarrancou em cima dele...não deu tempo de sair...foi centenas de kilos de terra em cima dele...demoraram mais de um dia para tira-lo de lá...isso o "patrão" não me contou...acabava ali,prematuramente a minha hipotética carreira de garimpeiro de esmeralda......

Chineses invadem cidades da região Central de MG em busca de pedras semipreciosas

Chineses invadem cidades da região Central de MG em busca de pedras semipreciosas

Pedras preciosas em estado bruto saem de Minas com destino ao gigante asiático em contêineres com preço abaixo do mercado. Em Curvelo e Corinto, negócio gera R$ 50 mi

 
Euler Júnior/EM/DA Press


Curvelo – São 7h30 da manhã de terça-feira em Curvelo, na Região Central de Minas Gerais, e já se nota o início do carregamento de caminhões com contêineres cheios de pedras preciosas brutas que sairão do meio do estado em direção à indústria de joias na China. Somente em municípios mineiros como Corinto e Curvelo, a extração e venda clandestina de pedras movimenta mais de R$ 50 milhões ao ano, segundo cálculo a partir de informações da Cooperativa Regional Garimpeira de Corinto (Coopergac) e da Associação Comercial e Empresarial de Curvelo (Ace). Isso sem contar o faturamento em municípios como Inimutaba, Diamantina, Felixlândia, Governador Valadares, Teófilo Otoni e em pequenas cidades da região.

O número contrasta com a informação oficial de exportação de pedras preciosas em bruto no estado. Em 2011, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), as vendas externas desse material em toda a Minas Gerais foram de US$ 23,06 milhões (R$ 46, 12 milhões), um total inferior à estimativa de faturamento de apenas dois municípios mineiros. Entre 80% e 90% das pedras preciosas em bruto produzidas no Brasil são exportadas, principalmente ao gigante asiático.

O dinheiro apurado no negócio é invisível aos olhos oficiais. É que 95% dele circula nas mãos de uma poderosa indústria clandestina, que começa no garimpo informal e segue comandada por atravessadores, compradores – hoje, chineses, em sua maioria –, despachantes e empresas de exportação. O silêncio ronda todos os agentes que, de uma ou de outra forma, participam do esquema. A reportagem do Estado de Minas procurou conversar com vários deles. A maioria se recusou a dar declarações sobre o assunto. Outros forneceram informações sob a condição de anonimato.

Segundo uma dessas fontes, a cada 20 dias, em média 12,5 contêineres carregados com 250 toneladas de pedras extraídas dessa região seguem de Curvelo para serem embarcadas no Rio de Janeiro. O mesmo acontece com dezenas de tambores cheios de material mais valioso, que viajam de avião. Tudo aparentemente certo, não fosse o fato de que as notas fiscais mostram valores subfaturados, o que permite que essas pedras sejam enviadas para fora a preços muito inferiores aos praticados pelo mercado. “Um dos caminhos do subfaturamento é a própria Receita Estadual. Os garimpeiros saem de lá com o documento nas mãos”, diz G.L.H, que atua no ramo.

“Qualquer empresário, de dentro ou de fora do país, só pode comprar pedras preciosas de mineradoras legalizadas ou de cooperativas de garimpeiros. Mas os números da nossa exportação são tão baixos que ou elas saem altamente subfaturadas ou são contrabandeadas”, diz Raymundo Vianna, presidente do Sindicato das Indústrias de Joalheria, Ourivesaria, Lapidação de Pedras Preciosas e Relojoaria de Minas Gerais (Sindijoias). Curvelo é o centro mineiro dessa indústria fantasma. De lá partem minerais como quartzos e cristais variados (rutilo, cabelo fachado, lodo verde), ametistas e águas-marinhas, que enriquecem os integrantes da rede.

Euler Júnior/EM/DA Press


Esquema Para facilitar o caminho até as pedras, os chineses contam com empresas que oferecem a eles um pacote de serviços para localização, compra e desembaraço das pedras por cerca de R$ 13 mil. São R$ 3.500 de transporte de Curvelo ao porto, R$ 300 para o “chapa” (carregador), R$ 2.000 pelo frete marítimo e R$ 500 de imposto. Para cada contêiner, o lucro dos prestadores de serviço com o negócio é de cerca de R$ 7 mil. Ou seja: uma média de R$ 87,5 mil ao mês para cada 12,5 contêineres enviados ao exterior, segundo uma fonte que pediu anonimato.

“Em média, o total declarado para o conteúdo de cada contêiner é de US$ 6 mil (R$ 12 mil), mas o valor de fato pode ser US$ 100 mil (R$ 200 mil)”, diz uma fonte do setor. Ele lembra que o quartzo mais barato custa R$ 2 o quilo, mas, segundo Raymundo Vianna, o preço do quilo do quartzo muda de acordo com a variedade e a qualidade da pedra. “O quartzo rosa e o rutilado de boa qualidade custam entre R$ 8 mil e R$ 10 mil o quilo. Já a ametista e a rodonita, outras variedades, podem valer até R$ 30 mil o quilo. Porém é impossível estabelecer o valor da pedra sem a avaliação de um perito”, diz.

Segundo a Secretaria de Estado de Fazenda, há equipes especializadas para atuar na fiscalização do setor nas regiões onde a exploração de gemas é predominante. Além disso, o produtor individual pode emitir sua nota fiscal, mas um procedimento de retaguarda é adotado no caso de remessa de mercadoria para o exterior.

Chineses invadem o estado

A rota de interesse dos chineses pelas pedras preciosas brasileiras passa por municípios mineiros e também baianos. Em Minas, os principais são Curvelo, Corinto e Inimutaba. Na Bahia, Novo Horizonte, Ipupiara, Campo Formoso e Oliveira dos Brejinhos. Em Curvelo, profissionais que atuam com eles, mesmo sem formação superior, aprendem até a falar mandarim, ainda que com noções rudimentares. Com isso, têm rendimentos garantidos. Os pagamentos são todos feitos em dinheiro vivo. E adiantados. Entram nessa lista prestadores de serviço, restaurantes, hotéis, postos de gasolina, imobiliárias e lojas de aluguel de veículos. Todos extremamente satisfeitos.

“De coração, se for para prejudicar os chineses não faça essa matéria. Eles pararam de comprar pedras por quatro meses por causa do preço e do ano novo chinês e Curvelo inteira sentiu”, diz um prestador de serviços que viu na chegada dos compradores da China a solução para ter renda. De acordo com ele, de 2006 para cá a presença de chineses na cidade cresceu 70%. “Só na Bahia tem dez famílias”, afirma. Em Curvelo, alguns vivem em hotéis baratos, de R$ 25 a R$ 70 a diária, outros alugam casas onde vivem por cerca de três meses, depois dos quais voltam para o seu país de origem e são substituídos por membros da família.

Em junho de 2010, a Polícia Federal apreendeu 700 quilos de pedras semipreciosas e cristal em Itacambira. Elas foram obtidas por meio da exploração ilegal por quatro chineses e dois brasileiros. As investigações indicaram a existência de um esquema de venda dos produtos para a China, que teria base em Curvelo, na Região Central do estado. Foram presos os chineses Wu Tsung Ying, Daí Yong Dong, Rayoin Huo e Shao Kang He, além do garimpeiro Adilson Mariano de Oliveira e Cláudio Afonso dos Santos, transportador e intermediário do negócio.

Os 700 quilos de cristal e pedras semipreciosas estavam sendo transportados em 18 sacos de linhagem na carroceria de um Fiat Strada e, de acordo com informações da Polícia Federal, foram vendidos para os chineses por R$ 15 mil. Os produtos minerais teriam sido retirados de garimpo no povoado de Machados, na zona rural de Bocaiúva, e seguiam para Itacambira, passando por uma estrada vicinal. A Polícia Militar de Itacambira fez a apreensão, depois de receber uma denúncia anônima. Dias antes, também no Norte de Minas, foi apreendida 1,2 tonelada de cristal de quartzo e 20 quilos de pedras semipreciosas, que saíram de Licínio de Almeida, no sertão da Bahia, e que seriam levados para Curvelo. Segundo a PF, os minérios extraídos na Bahia também teriam como destino a China.

"Se for para prejudicar os chineses não faça essa matéria. Eles pararam de comprar pedras por quatro meses por causa do preço e do ano novo chinês e Curvelo inteira sentiu" - prestador de serviços aos chineses em Corinto, que pediu para não ser identificado.


Caminhos da pedra brasileira rumo à Ásia

Garimpo
É dos garimpos, a maioria deles clandestinos, que saem as pedras preciosas brutas que serão exportadas pelo estado

Subfaturamento
É esse um dos caminhos usados pelos produtores para "maquiar" a pedra bruta clandestina, tornando-a aparentemente legalizada

Venda
Uma vez feita a "maquiagem", as pedras são repassadas aos atravessadores, que vão vendê-las aos clientes estrangeiros

Desembaraço
Empresas especializadas desembaraçam a mercadoria, enviando-a para o Rio de Janeiro, de onde será exportada

China
As pedras chegam à indústria joalheira na China, a segunda maior do mundo, onde serão transformadas em joias, semijoias e bijuterias

Joias montadas (prontas)
Parte das joias e bijuterias entram novamente no Brasil, muitas vezes via contrabando, prejudicandoa indústria joalheira nacional