domingo, 14 de fevereiro de 2016

PROVÍNCIA DIAMANTÍFERA DA SERRA DA CANASTRA E O KIMBERLITO CANASTRA-1

PROVÍNCIA DIAMANTÍFERA DA SERRA DA CANASTRA E O KIMBERLITO CANASTRA-1: PRIMEIRA FONTE PRIMÁRIA DE DIAMANTES ECONOMICAMENTE VIÁVEL DO PAÍS

The Canastra Range Diamondiferous Province and the Canastra-1 kimberlite: first primary economic source of diamonds in the country






RESUMO:
A Província da Serra da Canastra constitui uma das quatro grandes províncias diamantíferas de Minas Gerais, que foi subdividida em dois distritos minerais, designados de Alto São Francisco e Médio Rio Grande. Rochas kimberlíticas e parentais, com idades estimadas em torno de 120 Ma, intrudem principalmente metassedimentos mesoproterozóicos(?) atribuídos ao Grupo Canastra, no Distrito do Alto São Francisco. No Distrito do Médio Rio Grande, a principal fonte distribuidora do mineral, secundária, está em rochas conglomeráticas do Cretáceo Superior da borda norte da Bacia do Paraná (Grupo Bauru), cuja área-fonte de sedimentação inclui a zona da Canastra. O kimberlito Canastra-1 integra um cluster com quase 40 corpos, aflorando a sul do grande escarpamento da Serra da Canastra, na zona de cabeceiras do Rio São Francisco. A intrusão se dá em forma dois blows alinhados segundo NW-SE, direção que define o trend estrutural da região, impresso nos metassedimentos do Grupo Canastra. O blow menor (NW) possui teores desprezíveis em diamantes, enquanto o outro (SE) é mineralizado a um teor médio de 12-18 ct/100 t de rocha. Variações importantes são verificadas ainda em relação às fácies petrográficas do kimberlito, que é homogênea noblowNW, enquanto o blow SE é heterogêneo constituindo uma mistura de diversas fácies. A química mineral do piropo, ilmenita e diopsídio, revelou alguma semelhança com determinados kimberlitos diamantíferos da África, principalmente aqueles do Cráton do Oeste Africano. Dados obtidos em lavra experimental efetuada pela SAMSUL Mineração indicaram uma qualidade excelente para os diamantes do corpo, estimando-se um valor médio em torno de US$ 180- 200/ct, o que constitui um dos maiores de todo mundo.
Palavras-chave: Diamante; Minas Gerais; Província da Serra da Canastra; Kimberlito Canastra-1.

ABSTRACT
The Serra da Canastra Province integrates one of the four great diamondiferous provinces of Minas Gerais State, and can be divided into two districts, named as Alto São Francisco and Médio Rio Grande districts. Kimberlitic and parental rocks mainly cut mesoproterozoic(?) metasedimentary rocks of the Canastra Group, in the Alto São Francisco District. In the case of the Canastra-1 diamond-bearing intrusion, the ages are around 120 Ma. In the Médio Rio Grande district, the main (secondary) source of the diamonds is the Lower Cretaceous conglomeratic rock occurring in the north side of the Paraná basin (Bauru Group). The sedimentary source area for these sediments included the Canastra Range zone. The Canastra-1 body is part of a cluster with approximately 40 pipes outcropping on the south side of the Canastra Range, near the sources of the São Francisco River. The intrusion is made up of two blows aligned along NE-SE, which is the region's structural trend defined on the metasedimentary rocks of the Canastra Group. The smaller blow has only negligible diamond content, while the SE blow is mineralized with an average content of 12 to 18 ct/100 tonnes of rock. There are also significant differences in the petrographic facies of the two bodies, which is homogeneous in the NW blow while the SE blow is heterogeneous, with the occurrence of a mixture of several facies. The mineral chemistry of the pyrope, ilmenite and diopside showed some resemblance with some diamondiferous African kimberlites, mainly those of the West African Craton. Data from experimental mining activities of SAMSUL Mining Company indicated an excellent quality for this kimberlite's diamonds, with US$180-200/ct estimated average value; certainly, this is one of the highest values worldwide.
Keywords: Diamond; Minas Gerais; Canastra Range province; Canastra-1 kimberlite.



INTRODUÇÃO
O Estado de Minas Gerais constitui um dos mais importantes centros produtores de diamantes do Brasil e onde, notadamente, o maior número de estudos e discussões foi efetuado com relação ao mineral e seus depósitos. No entanto, tais estudos se concentraram de modo principal na faixa de abrangência da Serra do Espinhaço Meridional, onde o mineral foi encontrado no país (século 18), no centro-norte do Estado e, em menor parte, na região do Alto Rio Paranaíba, a oeste do mesmo. Já a região da Serra da Canastra se apresenta como uma das mais recentes zonas produtoras de diamantes de Minas Gerais, sendo descoberta somente na década de 1930 a partir de depósitos aluvionares. Assim como a região diamantífera do Alto Paranaíba, a Serra da Canastra se notabiliza não somente por constituir uma província diamantífera, como também uma província kimberlítica. Desse modo, ambas foram os principais alvos de prospecção e pesquisa de diamantes nos últimos 40 anos. As campanhas prospectoras efetuadas principalmente por empresas multinacionais levaram ao encontro de centenas de corpos intrusivos (kimberlíticos ou não), somente alguns poucos dos quais mineralizados e cujas informações a respeito sempre foram mantidas em sigilo (quase) absoluto.
A Província Diamantífera da Serra da Canastra, ora caracterizada neste trabalho, está localizada no SSW de Minas Gerais, incorporando ainda pequena porção areal no noroeste do Estado de São Paulo. Tal província obteve maior relevância quando, em finais do século 20, "vazou" para o meio geológico a informação que uma subsidiária grupo De Beers (SAMSUL), estaria em fase de lavra experimental de um kimberlito altamente diamantífero, o pipe Canastra-1. Esse período, no entanto, coincidiu com a época que a megaempresa estava desmobilizando, a nível mundial seus trabalhos de pesquisa, prospecção e lavra, tendo em vista uma nova estratégia de ação que visava principalmente os setores finais da linha econômica da indústria do diamante. As suas principais áreas no Brasil foram então negociadas a empresas júniores, principalmente de capitais canadenses e australianos, como foi o caso da canadense Brazilian Diamonds que adquiriu o controle da SAMSUL e, por conseguinte, do kimberlito Canastra-1. Sobre tal contexto, o objetivo do presente trabalho é o de descrever a província diamantífera em seus aspectos geológicos e das características de seus diamantes e, particularmente, enfocar o principal corpo mineralizado no que tange o seu controle geológico e à mineraloquímica dos minerais indicadores mais importantes (piropo, ilmenita e diopsídio), bem como comparações com outros corpos do Brasil e do exterior.

SÍNTESE GEOLÓGICA REGIONAL
A localização e geologia da região da Serra da Canastra e adjacências, no sul-sudoeste de Minas Gerais, incluindo pequena porção do noroeste de São Paulo, é representada na Figura 1. Nessa região, configura-se um arranjo estrutural complexo, de modo que o comportamento estratigráfico entre as diversas unidades pré-cambrianas presentes ainda não se encontra perfeitamente estabelecido. Relacionam-se a seguir tais unidades com base no mapa geológico de Minas Gerais, efetuado pelo convênio COMIG/CPRM (Heineck et al., 2003), integrado ao setor contíguo de São Paulo (Silva et al., 1978). As rochas mais antigas pertencem ao Grupo Pium-hi, uma seqüência xistosa vulcano-sedimentar arqueana do tipo greenstone belt que aflora nas proximidades da cidade homônima, a sudeste da área. Essa seqüência é sobreposta pelos grupos Canastra (Mesoproterozóico?), Ibiá e Araxá (Neoproterozóico?), de idades e relacionamentos alvos de controvérsias, e ainda pelo Grupo Bambuí (Neoproterozóico). Tais unidades representam o arcabouço geológico pré-cambriano regional.
A Serra da Canastra e suas bordas constituem os principais domínios onde ocorreram as intrusões de kimberlitos. Em sua maior parte, a serra é sustentada por metassedimentos do Grupo Canastra, unidade primeiramente reconhecida por Lamego (1935), que identificou quartzitos estruturados em amplas anticlinais cobrindo "schistos phylladeanos", ambos relacionados à Série Minas. Barbosa (1955) denominou tal seqüência de Formação Canastra, posteriormente elevando-a à categoria de grupo (Barbosa et al., 1967; 1970). Os quartzitos são predominantes, de coloração branca e granulação fina, com intercalações métricas locais de filitos sericíticos. A presença conspícua de mica (sericita) confere aos quartzitos um aspecto geral placóide, realçado pela erosão diferencial. Os xistos são pouco variados em termos composicionais, incluindo sericita-quartzoxistos, quartzoxistos e, localmente, grafitaxistos. No Grupo Araxá, os xistos são mais variados, constituídos (além de quartzo e mica) de granada, biotita, clorita, estaurolita, hornblenda e feldspato. A faixa de domínio dos grupos Canastra-Araxá tem estrutura marcada por forte tectônica de cavalgamentos com transporte de SW para NE, bem como dobramentos apertados, ambos mostrando vergências para o interior do cráton e justapondo seqüências mais jovens sobre as mais antigas. A zona de empurrões possui direção entre N45°-65°W, assinalada por drenagens bem encaixadas e escarpamentos. O Grupo Ibiá é constituído por metadiamictitos na base, sobrepostos por calcifilitos e calcixistos. Metapelitos e rochas carbonáticas do Grupo Bambuí complementam a sucessão regional de rochas pré-cambrianas, aflorando notadamente a leste da área. Intrusões kimberlíticas provavelmente ocorreram no Cretáceo Inferior, a julgar pela idade de 120 ±10 Ma (K/Ar em flogopita) do kimberlito Canastra-1 (Pereira & Fuck, 2005).
O Distrito do Médio Rio Grande tem seu domínio de abrangência a oeste e sudoeste da província (Figura 1). A região onde se verificam as principais atividades mineradoras de diamantes, entre Franca, Patrocínio Paulista (SP) e Claraval (MG), é abrangida por unidades fanerozóicas da Bacia do Paraná e, em menor extensão, por rochas metassedimentares do embasamento pré-cambriano (grupos Canastra e Araxá, nessa área indivisos) (Silva et al., 1978; Perdoncini, 2003). As unidades da Bacia do Paraná incluem arenitos e diamictitos da Formação Aquidauana (Permiano), arenitos finos da Formação Botucatu (Triássico), basaltos da Formação Serra Geral (Jurássico-Cretáceo Inferior), além de arenitos, arenitos conglomeráticos e conglomerados do Grupo Bauru (Cretáceo Superior); as duas primeiras unidades não são mapeáveis na escala utilizada. É importante salientar que a sedimentação pósbasáltica relacionada ao Grupo Bauru se processou como decorrência da atuação do Soerguimento do Alto Paranaíba (p. ex., Hasui et al., 1975; Hasui & Haralyi, 1991), em sistemas de rios anastomosados com direção sudoeste originando leques aluviais coalescentes, com raros depósitos interleques, e ainda leques individuais localizados em porções mais distais. O Grupo Bauru se apresenta como a mais provável fonte dos diamantes para os sedimentos recentes e subrecentes em lavra nesse distrito, não descartando-se porém outras proveniências, ou mesmo fontes múltiplas (discussões a respeito no próximo item).

A PROVÍNCIA DIAMANTÍFERA DA SERRA DA CANASTRA
O conceito de província mineral em termos de metalogenia envolve regiões extensas, em geral da ordem de dezenas de milhares de quilômetros quadrados, onde um determinado bem mineral pode ser encontrado, tendo em vista que seus depósitos possuam afinidades geográficas, temporais e de ambiência tectônica (Kun, 1963; Petrascheck, 1965; Clifford, 1966). No caso do diamante, outra característica fundamental para a constituição geográfica de uma província, é a que relaciona os aspectos mineralógicos ou a "assinatura mineralógica" (conforme Chaves & Benitez, 2006) das populações de diamantes, integralmente ou em parte, encontradas sobre tal contexto. Uma província mineral comporta ainda subdivisões em partes menores, constituindo os distritos minerais, com extensões da ordem de milhares de quilômetros quadrados, e os campos minerais, com extensões de centenas de quilômetros quadrados. Em Minas Gerais são reconhecidas quatro províncias diamantíferas, a saber: (1) Serra do Espinhaço, (2) Oeste São Francisco, (3) Alto Paranaíba e (4) Serra da Canastra (Figura 2). A subdivisão dessas províncias em distritos e campos diamantíferos resulta do conhecimento geológico acumulado sobre uma determinada região, devendo ser ressaltado que tal conhecimento ainda é deficiente para todas as províncias à exceção da Província da Serra do Espinhaço.
A Província Diamantífera da Serra da Canastra abrange a porção terminal sul da Faixa de Dobramento Brasília, circundante a oeste e sudoeste o Cráton do São Francisco, nas proximidades da sua junção com a Faixa de Dobramento Alto Rio Grande, que baliza o cráton a sul e sudeste (conforme limites admitidos em Alkmim et al., 1993). Essa terminologia vem substituir a definida por Penha et al. (2000), quando foram reconhecidas duas províncias distintas na região, "Serra da Canastra" e "Franca", por estas serem consideradas de dimensões muito reduzidas e extremamente próximas, além de situarem-se em contexto geológicogeotectônico similar, não justificando assim suas existências com significado metalogenético. Entretanto, propõe-se que a Província da Serra da Canastra seja integrada por dois distritos diamantíferos, designados de Alto São Francisco e Médio Rio Grande, com significados geográficos semelhantes aos das províncias de Penha et al. (2000). A região foi palco, no Cretáceo Inferior, de importante evento magmático alcalino-ultrabásico, ao qual se associam numerosas intrusões kimberlíticas e de rochas parentais, formando um cluster com cerca de 40 corpos. Tal província se ressalta ainda no contexto geoeconômico do diamante no Brasil, por abranger a primeira reserva comprovadamente dimensionada em uma rocha-fonte primária, no kimberlito Canastra-1 (município de São Roque de Minas), bem como um outro corpo próximo, o kimberlito Canastra-8 (município de Delfinópolis), com grande potencial de aproveitamento econômico imediato, ambos no Distrito do Alto São Francisco. Essa importância tem estimulado diversos novos estudos, efetuados no presente século depois do anúncio de tais descobertas (eg., Garcia, 2004; Cookemboo, 2005; Pereira & Fuck, 2005; Bologna et al., 2006; Benitez & Chaves, 2007; Chaves & Benitez, 2007; Menezes & Garcia, 2007).
DISTRITO DIAMANTÍFERO DO ALTO SÃO FRANCISCO
O Distrito Diamantífero do Alto São Francisco equivale, quase sem restrições, à "Região Diamantífera Serra da Canastra" conforme designação de Penha et al. (2000), que a reconheceram com significado geográfico-geológico de uma província metalogenética. A designação "Alto São Francisco" já havia sido anteriormente alcunhada, embora somente com uma conotação geográfica, por Barbosa et al. (1970), ao descrever os depósitos diamantíferos da região. Nesse distrito, são identificadas diversas áreas diamantíferas onde a produção foi sempre baseada em depósitos aluvionares, destacando-se as de Vargem Bonita, do Rio Santo Antônio e do Rio Samburá (São Roque de Minas), na própria bacia do São Francisco, bem como três outras, no Rio Santo Antônio de Delfinópolis, bacia do Rio Grande, no alto Rio Quebra-Anzol e seus afluentes rios Misericórdia e Santa Tereza e no alto Rio Araguari, pertencente à bacia do Rio Paranaíba. Essas três, embora não situem-se fisicamente na bacia do Rio São Francisco, são diretamente relacionadas ao conjunto serrano da Canastra, daí suas inclusões no contexto do distrito (Figura 1).
O Rio São Francisco nasce em cotas próximas a 1.350 m de altitude, na Serra da Canastra, formando uma extensa bacia hidrográfica que abrange grande parte do oeste do Estado de Minas Gerais. No local denominado Casca d'Anta, a cerca de 20 km de sua nascente, uma cachoeira com 200 m de altura constitui o maior desnível do rio, que a partir de tal ponto desenvolve o seu curso médio (Prancha 1-A). A existência de diamantes nessa área foi assinalada em 1920 por um garimpeiro baiano (conforme Miranda, 1953), atribuindo-se a Oliveira (1936) a informação mais antiga sobre a ocorrência. Miranda (1953, 1955, 1956) efetuou os primeiros estudos de campo no local, descrevendo os serviços de Vargem Bonita, Garimpo dos Bentos e Boqueirão, além do Conglomerado Samburá (Grupo Bambuí) no leito do rio homônimo (Figura 1). Branco (1956) descreveu com maior detalhe tal conglomerado, e o relacionou à fonte dos diamantes naquela localidade (Prancha 1-B).
Depósitos Diamantíferos
Existem depósitos aluvionares com diamantes no Alto São Francisco sobre uma extensão de pelo menos 60 km. Embora em menor escala, ocorreram também atividades de garimpagem acima da cachoeira da Casca d'Anta, o que foi depois impossibilitado com a implantação do Parque Nacional da Serra da Canastra, em 1972. De modo característico, porém, foi a jusante dessa cachoeira onde ocorreram serviços regulares, como os documentados pelo primeiro autor em 1999 nas vizinhanças de São José do Barreiro (Chaves, 1999) (Pranchas 1-C e 1-D). No entanto, a partir de inícios do século atual, inclusive garimpos ou pequenas mineradoras localizadas nos entornos da área do parque têm sido fortemente restringidos pelos órgãos de licenciamento ambiental. As atividades de mineração mais importantes visaram sempre os terraços aluvionares altos, conhecidos na área como "monchões". Segundo Nishimura et al. (1984), existem pelo menos três níveis distintos desses terraços no Alto São Francisco e praticamente todos eles têm fornecido diamantes. Os terraços se situam entre 5 a 30 m acima do nível atual do rio, tornando-se gradativamente menos elevados conforme se aproximam da Casca d'Anta. A lavra desses depósitos compreende na retirada de pelo menos 5 m de solo estéril e, sob este, ocorre o cascalho diamantífero com espessuras variáveis entre 1,5 e 3,0 m. O cascalho é formado por seixos, blocos e matacões, notadamente de quartzitos milonitizados e quartzoxistos do Grupo Canastra, originados da serra homônima e, em menor parte, de seixos de quartzo de veio.
Significado Econômico e Mineralogia do Diamante
A prospecção e lavra do diamante sempre constituiu uma das principais fontes econômicas do Distrito do Alto São Francisco. Com o desenvolvimento de tais atividades a partir de 1936-37, chegaram a trabalhar cerca de 5.000 garimpeiros nesse distrito (Barbosa et al., 1970), levando à formação das localidades de Vargem Bonita, alçada à categoria de município em 1953, e São José do Barreiro, pertencente a São Roque de Minas (na época Guia Lopes). Segundo os últimos autores, a queda constante nos preços do diamante fez com que na década de 1950 apenas uns poucos garimpeiros resistissem na área. A produção anual, no final da década de 1960, girava em torno de 800 ct, quando ali trabalhavam cerca de 200 garimpeiros e, no início da década de 1980, haveria na região aproximadamente 100 garimpeiros, com uma produção anual da ordem de 400-500 ct (Barbosa, 1991). Em 1999, diversos garimpos com maquinários pesados ainda empregavam cerca de 150 pessoas, e uma produção de pelo menos 1.000 ct/ano foi então estimada (Chaves, 1999). Depois disso, com o embargo determinado pelos órgãos ambientais, o mercado tem a expectativa de entrada em atividade das minas sobre os corpos kimberlíticos Canastra-1 (São Roque de Minas) e Canastra-8 (Delfinópolis) pela SAMSUL Mineração, detentora de seus direitos minerários, para que a produção deste distrito volte a representar significância econômica, bem como passe a ter destaque no cenário geoeconômico nacional.
Os minerais acompanhantes do diamante no Alto São Francisco são: turmalina, cianita, hematita, limonita, rutilo, almandina, "favas" fosfatadas e quartzo jaspe (Barbosa et al., 1970; Chaves, 1999), sendo característica uma aparente ausência de minerais indicadores kimberlíticos (Chaves, 1999). Barbosa et al. (1970) fazem menção de que o maior diamante nesses depósitos foi encontrado 3 km abaixo da Casca d'Anta, pesando 110 ct, e a cerca de 12 km rio abaixo foi achada outra pedra significante com 76 ct. Esses autores referenciam também diamantes com 40 ct e 23 ct nos arredores de Vargem Bonita e determinaram uma classificação comercial aproximada em 20% de "primeira", quase sempre octaedros e de excelente qualidade, 20% de "segunda" e 60% "industriais". Reis (1959) descreve o achado de uma pedra invulgar, com 28,22 ct, pura, límpida e absolutamente incolor (extra absolutely white), com habitus octaédrico bastante deformado pelo excessivo desenvolvimento em paralelo de duas de suas faces (Prancha 2-A).
Os teores em geral são baixos, conforme estimativas feitas nos garimpos de Vargem Bonita por Barbosa et al. (1970), e apresentaram valores entre 0,04 e 0,10 ct/m3 de cascalho. Estudos mais detalhados efetuados por pequenas mineradoras em dois locais distintos demonstraram números algo semelhantes. A montante, nas proximidades de São José do Barreiro, calculou-se um teor médio de 0,013 ct/m3 no leito do Rio São Francisco (Castro Filho, 1984). No outro local, nas imediações de Vargem Bonita (a jusante), obtevese dados do leito do rio e do terraço alçado (Barros, 1993): no primeiro, 0,057 ct/m3 com 73,45% de diamantes gemológicos contra 26,55% de indutriais (valor médio de 224,97 US$/ct) e nos terraços um teor quase idêntico de 0,060 ct/m3, porém uma relação gema/indústria bastante distinta, de ~37%/63% respectivamente (valor médio de 78,39 US$/ct), deixando transparecer que os dados de Barbosa et al. (1970) provavelmente se referiam aos depósitos de terraços.
Atualmente, está sendo conduzida pelos autores uma análise mineralógica detalhada e sistemática geral das pedras produzidas no campo de Vargem Bonita e os resultados até então disponíveis indicam valores semelhantes às médias dos anteriores (e diferentes dos de Barbosa et al., 1970), com 60% de diamantes gemológicos (Prancha 2-B e 2-C), 24% de industriais e 16% de chips, além das seguintes formas: octaedros (48%), irregulares, 26%, agregados cristalinos e borts (10%), rombododecaedros (6%), geminados (6%) e transições octa-rombododecaedros (1%). Diamantes coloridos (fancies) nunca foram observados. Embora não se conte com dados estatísticos a respeito (somente observações visuais rápidas), o predomínio de cristais octaédricos e a forte semelhança em outros aspectos como tamanho e cor também caracterizam as populações que ocorrem nos rios Misericórdia e Santa Tereza (Ibiá), e no Rio Santo Antônio (Delfinópolis), sugerindo assim uma possível rocha fonte comum. De modo distinto, os diamantes do Rio Samburá são pequenos (<0,20 ct) e com forte presença de rombododecaedros; no Rio Santo Antônio (de São Roque de Minas) ocorrem diamantes coloridos e, no Rio Quebra-Anzol, a maior parte dos diamantes são rombododecaedros irregulares, com alto grau de dissolução, semelhantes aos que predominam na região de Coromandel.
DISTRITO DIAMANTÍFERO DO MÉDIO RIO GRANDE
Segundo Oliveira (1936), os primeiros achados de diamantes na região de Franca (São Paulo), aqui relacionados ao Distrito do Médio Rio Grande, ocorreram em 1884, informando ainda esse autor que os terrenos diamantíferos se estendiam continuamente desde essa cidade até a divisa com o Estado de Minas Gerais. Embora seja um dos centros produtores mais antigos do Brasil, são poucas as referências feitas ao distrito na literatura. Não obstante, a cidade de Franca consolidou-se ao longo do século 20 como um importante pólo de lapidação e de comércio de diamantes, que chegam a tal centro provenientes de muitas outras áreas produtoras do país. Em Minas Gerais, em sua faixa fronteiriça com o Estado de São Paulo, são também conhecidas diversas ocorrências diamantíferas relacionadas ao mesmo distrito (Figura 1).
Depósitos Diamantíferos
Em São Paulo, Etchbehere et al. (1991) descreveram os trabalhos de garimpagem de diamantes no distrito se estendendo por 11 municípios no total, destacando-se Patrocínio Paulista, Franca e Cristais Paulista e, em menor monta, Pedregulho, Jeriquara e Restinga. Nesse estudo, tais autores cadastraram através de fotointerpretação de detalhe seguida de trabalhos de campo, cerca de 400 ocorrências ou vestígios de garimpagem. Os principais trechos trabalhados compreendem o Rio das Canoas, próximo a Claraval (MG), e os rios Sapucaizinho e Santa Bárbara, esses ao longo de todo os seus cursos. Embora em menor número, ocorrem também vestígios de serviços de garimpagem no reverso do Planalto de Franca (a oeste), inclusive dentro do sítio urbano da cidade homônima. Já em Minas Gerais, os depósitos, aparentemente mais escassos e menos conhecidos, distribuem-se principalmente por pequenos córregos nos municípios de Claraval, Capetinga, Ibiraci, São Tomaz de Aquino e Cássia.
Na parte mineira, inexistem quaisquer dados a respeito da tipologia dos depósitos ou dados de produção, embora grandes diamantes tenham já sido reportados, como o "Estrela da Capetinga" com 27,2 ct, descrito em detalhes por Haralyi & Svisero (1984). Na parte paulista, Etchbehere et al. (1991) constataram que os garimpos de maior porte estão situados nas várzeas, valendo destacar dois aspectos no que se refere à intensidade de explotação, a saber: i) as amplas várzeas do Rio Santa Bárbara mostram numerosas lagoas de contornos angulosos, provavelmente derivadas de antigos garimpos; ii) as planícies aluvionares do Rio das Canoas, a jusante de Claraval, mostram-se por sua vez pouco trabalhadas, predominando as catas em terraços; iii) o Rio Sapucaizinho apresenta pequenos bolsões que vêm sendo intensamente garimpados. Além disso, no que se refere aos terraços, constata-se um predomínio de cavas nos depósitos mais próximos das drenagens, balizados, tanto na região de Patrocínio Paulista quanto na de Claraval, pela cota aproximada de 710 m. Acima dessa cota, mais distante dos cursos d'água, a garimpagem praticamente inexiste.
Significado Econômico e Mineralogia do Diamante
Através de cadastramento de campo, Etchbehere et al. (1991) presenciaram algumas dezenas de garimpeiros em atividade na região. A produção anual de diamantes em território paulista foi então estimada da ordem de 1.000 ct. Entretanto, a se considerar a produção garimpeira do lado mineiro (não incluída no estudo), este número poderia, ainda segundo tais autores, ascender a 3.000 ct/ano, valor que se considerado médio para toda a produção histórica da área, permite admitir um montante extraído superior a 400.000 ct. Entretanto, visita recente ao local encontrou as atividades garimpeiras praticamente paralisadas. Existem poucas informações acerca das características dos diamantes de Franca, embora pareça ocorrer um predomínio de diamantes pequenos e de boa qualidade gemológica geral (Etchbehere et al., 1991). Conforme esses autores, a fração gemológica é composta por cerca de 40% de pedras com média de ~0,10 ct, 30% de pedras de ~0,30 ct e 30% de pedras com porte maior. Entre a fração industrial, Perdoncini (2003) descreve ainda a presença de cubos, carbonados e borts, os dois primeiros presentes, em toda província, somente nesse local.
De acordo com Etchbehere et al. (1991) e Perdoncini (2003), entre os principais minerais acompanhantes do diamante nos depósitos da região de Franca, destacam-se minerais típicos de rochas xistosas e graníticas, como almandina, anatásio, calcedônia (e sílex), cianita, coríndon (incluindo suas variedades gemológicas rubi e safira), crisoberilo, epídoto, estaurolita, goethita (com quartzo), gorceixita, granada, ilmenita, limonita, magnetita, monazita, rutilo, turmalina (e turmalinito) e zircão. Esses dados indicam que minerais indicadores de fontes primárias parecem estar ausentes. Entretanto, considerando-se que longos trechos de terraços e aluviões recentes permanecem intactos, com teores entre 0,02-0,18 ct/m3 e relação média gema/indústria oscilando em torno de 70%/30% (Etchbehere et al., 1991), a prospecção e pesquisa de diamantes na região não deve ser subestimada, o que permitiria também agregar a mão-de-obra de garimpeiros e ex-garimpeiros locais.
Discussões a Respeito da Proveniência dos Diamantes
Se existem poucas dúvidas quanto à fonte primária dos diamantes no Distrito do Alto São Francisco, tendo em vista as inúmeras intrusões kimberlíticas conhecidas e onde duas delas possuem mineralização já comprovada, o mesmo não acontece quanto ao Distrito do Médio Rio Grande. Nesse último, não há qualquer consenso entre os diversos autores que trabalharam na região quanto à origem dos diamantes presentes nos depósitos aluvionares.
Arid & Barcha (1974) consideraram tais fontes como já secundárias, a partir das unidades eocretácicas Bauru (SP) e Uberaba (MG), defendendo uma correlação entre as mesmas. De outro modo, Svisero et al. (1983) assumiram que "diversas informações de natureza geológica sugerem a existência de kimberlitos na região de Franca". Uma terceira linha de pensamentos (Leite et al., 1984), ainda que admitindo os conglomerados Bauru como diamantíferos, relacionou sua(s) fonte(s) primária(s) a um evento anterior aos diamictitos da Formação Aquidauana (que também seriam diamantíferos), ou "ainda mais antigos, que forneceriam os diamantes para os metassedimentos do Grupo Araxá", isto é, para esses autores, os kimberlitos provavelmente seriam de idade pré-cambriana.
Os projetos desenvolvidos pelo IPT de São Paulo especificamente para o diamante da região de Franca no final da década de 1980, conforme resultados em Etchebehere et al. (1991) e Ponçano et al. (1992), também não chegaram a resultados inteiramente conclusivos. De tal modo, foi sugerido que os diamantes aluviais foram concentrados a partir do Grupo Bauru, "embora outras fontes localizadas não possam ser descartadas (diamictitos da Formação Aquidauana e o conglomerado basal da Formação Botucatu)" e que, além disso, "o contexto tectônico é favorável à existência de kimberlitos na área pesquisada, bem como nas áreas-fontes das formações previamente mencionadas" (Ponçano et al., 1992).
Recentemente, Perdoncini (2003) objetivou em seu estudo não só a geologia e os depósitos diamantíferos da região, como também a mineralogia dos diamantes, sugerindo sua procedência a partir de diferentes origens. As fontes secundárias do mineral foram relacionadas ao Grupo Bauru e à Formação Franca (Pleistoceno) e a principal área de suprimento estaria na faixa do Soerguimento do Alto Paranaíba, a nordeste, em Minas Gerais. Esse modelo concorda com os principais estudos de proveniência dos sedimentos Bauru a partir da mencionada região (Figura 3) e, mesmo se aceitando a possibilidade de fontes distintas alimentadoras dos sedimentos Bauru/Franca, a existência de pelo menos uma população de diamantes originada da região da Canastra coaduna com a inserção do Distrito do Médio Rio Grande na Província Diamantífera da Serra da Canastra.

KIMBERLITO CANASTRA-1
No final da década de 1960, com a criação da SOPEMI pelo ex-órgão estatal francês de mineração, BRGM, iniciou-se a pesquisa sistemática de fontes diamantíferas primárias no país. Em 1969, foram descobertos os primeiros corpos kimberlíticos em Coromandel (MG), e depois disso a SOPEMI, incorporada na década de 1980 ao grupo sul-africano De Beers, descobriu e pesquisou mais de uma centena de corpos na mesma região, nenhum deles, porém, aparentemente tendo revelado importância econômica. Na região da Serra da Canastra, localizada cerca de 200 km a S-SE de Coromandel, a pesquisa de kimberlitos iniciou-se na mesma época, tendo como alvo principal a zona das cabeceiras do Rio São Francisco, onde eram lavrados depósitos detríticos nos arredores de Vargem Bonita. Prospecção aluvionar com rastreamento de minerais indicadores levou à descoberta, em 1974, do kimberlito Canastra-1 pelo BRGM. Entretanto, a pesquisa nessa época se limitou a um dos setores do corpo (NW), justamente o que possuía teores insignificantes de diamantes. Passaram-se cerca de quinze anos até que uma nova fase de pesquisas voltasse a ser efetuada, agora pela SAMSUL (subsidiária do grupo De Beers). Assim, em 1989 foram escavados seis poços de pesquisa em ambos os setores do corpo (NW e SE), revelando grande quantidade de microdiamantes no setor SE.
É interessante ressaltar que, por questões de prioridades da citada companhia, a amostragem desses poços somente foi processada dois anos após sua coleta; em conseqüência a mineralização foi efetivamente reconhecida em 1991. A pesquisa de detalhe efetuada com amostragem de grande volume (bulk sample) no período entre 1992-98 permitiu que, em 2001, fosse protocolado no DNPM o Relatório de Pesquisa com a definição das reservas diamantíferas do corpo Canastra-1; tal relatório concluía pela viabilidade técnica e econômica para a lavra de diamantes. No ano seguinte a SAMSUL foi adquirida pelo grupo canadense Black Swan Resources, criando-se então a empresa Brazilian Diamonds (BDY), que atualmente tenta junto aos órgãos nacionais competentes a liberação das atividades de lavra. Durante esse longo período entre prospecção, pesquisa e viabilidade técnica-econômica do depósito, compreensivelmente, todas as informações a respeito foram mantidas sob sigilo pelas empresas detentoras dos direitos minerários. Entretanto, a atual detentora (SAMSUL-BDY) tem procurado facilitar a atuação de pesquisadores dos departamentos de Geologia e de Engenharia de Minas da UFMG, os quais realizam estudos científicos envolvendo este e outros corpos kimberlíticos nas províncias da Serra da Canastra e do Alto Paranaíba.
LOCALIZAÇÃO E ASPECTOS GEOLÓGICOS
O kimberlito Canastra-1 situa-se na parte externa, próxima ao grande escarpamento da Serra da Canastra, a cerca de 7 km a oeste do vilarejo de São José do Barreiro, município de São Roque de Minas (Prancha 3 A). Esta região serrana, em termos geotectônicos faz parte da porção terminal sul da Faixa de Dobramento Brasília, que limita a oeste e sudoeste o Cráton do São Francisco. Além da tectônica de cavalgamentos com vergências para o interior do cráton (abordada no item sobre a geologia regional), na área da intrusão ocorre uma tectônica de cisalhamento transcorrente que reativou antigas zonas de empurrões, imprimindo a estruturação final dessa faixa, complementada por um fraturamento rúptil que gerou três famílias locais de fraturas e juntas subverticais, com direções principais em N20°-35°E, N100°-115°E e N20°- 35°W (SAMSUL, 2007). O kimberlito Canastra-1 é intrusivo no Grupo Canastra segundo o trend regional de fraturamento N60°W, compreendendo dois setores (NW e SE), ou blows (significa "sopros", no jargão da geologia de kimberlitos), separados um do outro por cerca de 40 m. O intemperismo fortemente atuante só permite estudos petrográficos/petrológicos de maior detalhe através dos testemunhos de sondagens, efetuadas na época da SOPEMI-De Beers.
O blow NW, com teores desprezíveis em diamantes, possui forma semicircular com área aproximada de 8.000 m2, sendo em termos texturais homogêneo e constituído de uma brecha kimberlítica macrocrística. O blow SE, diamantífero, é alongado segundo E-W e tem superfície algo superior (10.000 m2). Neste, ocorre uma associação de diferentes fácies petrográficas, destacando-se (a) uma brecha kimberlítica macrocrística de contato, de coloração avermelhada e com macrocristais de ilmenita predominantes, (b) uma brecha kimberlítica macrocrística de coloração verdeescura, com macrocristais de olivina (Prancha 3 B/C/D), e (c) um outro tipo de kimberlito macrocrístico, porém com cristais (ilmenita e olivina) de tamanho menor (Prancha 3-E). A NW, as fácies presentes parecem indicar características abissais à rocha (zona de raiz), enquanto a SE ocorre a mistura de fácies abissais com fácies de zona de diatrema (mais rasas). A curta distância entre os blows pressupõe que ambos possam se juntar em profundidade e constituiriam grandes apófises de um mesmo corpo. A presença de fácies tão distintas e a forma "anormal" do pipe permite conjecturar-se que o blow NW seja um braço abortado da intrusão que, no seu conduto principal (o blow SE), teria atingido porções superiores da crosta (conforme esquema da Figura 4-A). Aliás, modelo semelhante pode ser observado em maior profundidade no kimberlito diamantífero Wesselton, na República Sul- Africana, ilustrado na Figura 4-B (Mitchell, 1986). Na cava de pesquisa aberta a sudeste, observouse depósitos superficiais que recobrem praticamente todo o corpo, excluindo um pequeno afloramento natural na margem direita do Córrego Cachoeira. Tal cobertura varia entre 2-4 m de espessura, formada principalmente por seixos, blocos e matacões angulosos de quartzitos Canastra, deslocados dos altos serranos. Logo abaixo desta, a zona intemperizada da intrusão, com 16-18 m de espessura, constitui um típico yellowground à semelhança da maioria das intrusões kimberlíticas sulafricanas.
MINERALOQUÍMICA DOS PRINCIPAIS INDICADORES DE DIAMANTE
Em campanhas de prospecção aluvionar para kimberlitos, os principais minerais indicadores do diamante são: piropo [Mg3Al2(SiO4)3] rico em cromo, ilmenita [Fe2+TiO3] rica em magnésio ou picroilmenita, e diopsídio [CaMgSi2O6], em ordem decrescente de importância em decorrência da respectiva diminuição de resistência desses minerais durante o transporte fluvial. Tratando-se da prospecção de lamproítos, a esses três minerais pode ser acrescido o Cr-espinélio. A partir de material amostrado no perfil de transição entre o yellowground e o blueground, o qual agora constitui a seção de topo do blow mineralizado (SE) depois da fase de lavra experimental, cerca de 30 litros de solo "corrido" (minidrenagens secas deixadas pelas enxurradas) foram coletados na parte central do corpo visando os três citados minerais. Em laboratório, eles foram inicialmente separados em diversas frações granulométricas menores que 2 mm, tendo em vista obter-se a abundância relativa de cada um nas mesmas. Por fim, análises mineraloquímicas preliminares por MEV/EDS foram efetuadas, para certificação do mineral e definição dos principais elementos presentes, depois complementadas com análises por microssonda eletrônica (WDS) para análises quantitativas, tendo como objetivo comparações desses minerais com os que ocorrem em depósitos de outros corpos kimberlíticos do Brasil e do mundo (Tabelas 1 e 2).
Em relação às granadas presentes, exames a olhonu indicaram a ocorrência de indivíduos com três colorações típicas: laranja, vermelha e violeta. Sob lupa binocular, porém, observações sobre um grande número de grãos demonstraram a existência de todas as variações de matizes entre os tipos vermelhos e os alaranjados, pressupondo que ambos poderiam representar um mesmo tipo mineraloquímico. Em geral, as granadas laranjas são de menor tamanho (e só elas ocorrem nas frações menores que 1 mm), parecendo constituir lascas das bordas de granadas vermelhas, onde a concentração de cor foi menor. Os indivíduos vermelhos se encontram ainda como macrocristais na massa kimberlítica, podendo atingir até 2 cm de diâmetro, sendo quase sempre anédricos ou raramente subédricos apresentando, no yellowground, adiantado estado de alteração por oxidação. O terceiro tipo, ao contrário, está contido quase exclusivamente nas frações menores que 1 mm, e apresenta uma coloração característica violeta com matizes púrpuras, designada na literatura como grapefruit (Mitchell, 1986). Além de somente ocorrerem nas frações mais finas, essas granadas aparecem com formas arredondadas (fragmentos de esferas também são comuns), provavelmente constituindo produtos de dissolução de cristais euédricos com forma original hexaoctaédrica, segundo observações detalhadas no microscópio eletrônico de varredura.
Análises com microssonda eletrônica nas três citadas variedades demonstraram que realmente inexistem diferenças significativas entre os piropos vermelhos e os alaranjados (Tabela 1). Os conteúdos mais altos em ferro os aproximam da composição almandina [Fe3Al2(SiO4)3] na série isomórfica, enquanto os teores de cromo são muito baixos (menor que 1% de Cr2O3 em geral), verificando-se ainda nos alaranjados uma acentuada tendência à depleção nesse óxido (médias de 0,28% nas alaranjadas contra 1,52% nas vermelhas). De outro modo, os piropos de cor violeta são típicos Cr-piropos (média de 5,03% em 30 grãos), e os valores superiores em MgO e menores em FeO indicam a forte concentração da fase piropo na mesma série (Tabela 2). Chaves & Benitez (2007) em análises preliminares com número reduzido de indivíduos, procuraram situar o posicionamento dessas granadas nos esquemas classificatórios de Dawson & Stephens (1975) e Grütter et al. (2004), onde o mineral é quimicamente identificado de G-1 a G-12, bem como se determinam suas importâncias em relação à prospecção diamantífera. De acordo com esses dados, as granadas estudadas se posicionaram respectivamente nos campos G-1 (as vermelhas e alaranjadas) e G-9 (as violetas) de tais autores (Chaves & Benitez, 2007); nenhuma delas porém situando-se no campo das G-10, com alto Cr2O3 e baixo CaO, as quais são estreitamente ligadas a kimberlitos férteis. As análises ora fornecidas, basearam-se em amostragem abrangendo número maior de indivíduos (Tabela 2), e caracterizaram uma população de Cr-piropos dominada por um trend fortemente lherzolítico, e novamente não revelou nenhum piropo no campo G-10. De fato, tais granadas devem ser muito raras no kimberlito Canastra-1. Em Cookemboo (2005), apresenta-se um gráfico onde aparece somente uma reduzidíssima parcela de piropos G-10 neste corpo, mas deve ser ressaltado que tal estudo, baseado no banco de dados da De Beers, provavelmente relacionou análises de alguns milhares de indivíduos.
A ilmenita ocorre como indivíduos irregulares, desde megacristais com cerca de 3 cm de diâmetro até grãos submilimétricos, sendo largamente o mineral indicador mais comum no kimberlito. Muitas vezes esse mineral apresenta-se encapado por uma crosta verde clara, heterogênea, resultado de sua alteração para perovskita conforme demonstrado em análises por MEV/EDS. Em termos químicos (Tabela 3), o mineral pode ser considerado como uma ilmenita magnesiana (picroilmenita), apresentando duas tendências nítidas na concentração de MgO: uma (mais comum) em torno de 9% e outra (rara) levemente superior a 14%. Embora a maioria dos espécimes seja relativamente depletado em MgO em relação a diversos kimberlitos diamantíferos sul-africanos, onde esse óxido pode alcançar médias próximas de 20% (Mitchell, 1986), são valores que se assemelham às ilmenitas de outras localidades de Minas Gerais, como o kimberlito Vargem (Coromandel) e o conglomerado tufáceo de Romaria (Svisero et al., 1977; Svisero & Meyer, 1981). Entretanto, os dados de Cr2O3são inferiores aos desses últimos locais, onde alcançam até mais que 2%, e bem mais próximos dos kimberlitos diamantíferos africanos, onde tais valores em geral também não são superiores a 1% (Mitchell, 1986).
O diopsídio rico em cromo é um dos minerais indicadores do diamante, porém ocorre preferencialmente no sedimento eluvionar ou nas proximidades de suas fontes primárias (Mitchell, 1986). No concentrado, ele apresenta cor verde-oliva típica, reconhecendo-se macrocristais prismáticos de até 1 cm de comprimento, embora mais comumente apareça na fração inferior a 1 mm. Comparando-se com o kimberlito Vargem, as análises revelaram médias relativamente superiores de magnésio e cálcio (Tabela 3). Entretanto, a principal característica química desse mineral é a depleção em Cr2O3 (cerca de 1% nas amostras analisadas), já que tal valor pode alcançar mais que 2% no pipe Vargem (Svisero et al., 1977). Interessante observar que valores baixos em Cr2O3 são também encontrados em diopsídios inclusos em diamantes brasileiros (Svisero, 1983), bem como em diversos outros kimberlitos mundiais, a exemplo dos pipes diamantíferos sul-africanos Letseng-la-terae, Kao, Monastery e Koffiefontein (Mitchell, 1986).
ATRIBUTOS ECONÔMICOS
Dos seis poços de pesquisa abertos nas margens do Córrego Cachoeira, que levaram à descoberta da mineralização em 1991, cinco destes se deram sobre ou nas proximidades do blow NW, do lado esquerdo do córrego, onde de um total de 63 m3 de rocha somente 0,012 ct totais de microdiamantes foram extraídos (SAMSUL, 2007). Ainda segundo este trabalho, no sexto poço (que atingiu o blow SE), maior e situado do lado direito do córrego, foram escavados 62 m3 de rocha e recuperados 765 pedras, entre micro e macrodiamantes, perfazendo 19,079 ct. Com o prosseguimento da pesquisa neste blow, a avaliação do total das reservas em diamante do kimberlito Canastra-1 apoiouse principalmente em sondagem rotativa diamantada e amostragem de grande volume, bem como modelamento geológico. Na pesquisa detalhada de kimberlitos, considerando-se a distribuição dos diamantes como completamente aleatória, a confiabilidade dos resultados será função do volume de rocha amostrado.
Na planta experimental da lavra operada pela SAMSUL, para processar um grande volume do corpo mineralizado, cerca de 15.000 m3 de kimberlito foram tratados para obtenção da parte principal das reservas. Estas totalizaram 2.300.000 t de rocha a um teor médio de 16 ct/100 t de diamantes até 140 m de profundidade, estimando-se em 260.000 ct contidos (SAMSUL, 2007). Entretanto, na avaliação econômica de um depósito diamantífero um outro fator fundamental é a quantificação do seu valor médio (dado em US$/ct) e, nesse sentido, o diamante do Distrito do Alto São Francisco é considerado como um dos mais valorizados do Brasil, atingindo cifras da ordem de US$150-200/ct (Barros, 1993), números que provavelmente também correspondam ao do corpo em questão (C. Plestschette, inf. verbal, 2007). Considerando-se a qualificação comercial aproximada do diamante desse distrito variando em torno de 76% de cristais gemológicos e chips, contra 24% de industriais, sendo típicas as pedras de forma octaédrica com elevados graus de pureza e cores altamente gemológicas (D até I, conforme a classificação do Gemmological Institute of America – Gaal, 1977), designadas no mercado como diamantes "tipo-Canastra". Tais dados fazem, sem dúvida, do kimberlito Canastra-1 um dos mais ricos de toda Terra em termos de valores/peso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelo menos cinco populações distintas de diamantes são verificadas na Província da Serra da Canastra. A população mais característica e de maior valor agregado, presente nos kimberlitos Canastra-1, Canastra-8, e na zona do Rio São Francisco até as imediações de Vargem Bonita, bem como nos depósitos dos rios Santo Antônio (Delfinópolis) e Misericórdia- Santa Tereza (Ibiá), é a que tipifica o diamante do "tipo- Canastra". No Rio Santo Antônio (São Roque de Minas), no entanto, a ocorrência de diamantes coloridos (fancies) como os da região do Rio Abaeté, inexistentes na área anterior, indica que o(s) corpo(s) kimberlítico(s) amostrou(aram) sítios diferenciados do manto superior. No Rio Quebra-Anzol, a norte, a tipologia dos diamantes é muito semelhante à da região de Coromandel, isto é, diamantes rombododecaédricos altamente dissolvidos constituem mais que 80% dos lotes. Uma quarta população refere-se à do Rio Samburá; nesse local ocorre o predomínio absoluto de diamantes pequenos (<0,20 ct) e de forma rombododecaédrica moderadamente dissolvida, de grande semelhança com a da Serra do Espinhaço, região de Diamantina, no norte de Minas Gerais, onde os diamantes foram reciclados em vários ciclos geológicos (Chaves, 1997). Por fim, a população do Distrito do Médio Rio Grande corresponde a uma grande diversidade de tipos e tamanhos, provavelmente porque se originou dessas (e talvez ainda outras) das regiões anteriormente descritas.
A mudança de status da Província Diamantífera da Serra da Canastra, de uma pequena e localizada área produtora de diamantes para um pólo de alto potencial prospectivo ao encontro de fontes primárias, revela-se sem dúvida como um novo marco na história da mineração desse mineral no país. Embora constitua uma rara exceção a nível mundial, primeiramente pelos expressivos teores presentes em uma zona de raiz da intrusão, e também por uma inusitada relação gema/ indústria para um corpo primário, a constatação de reservas diamantíferas economicamente lavráveis no kimberlito Canastra-1 (os dados de 260.000 ct contidos relatados pela mineradora responsável, são valores considerados extremamente moderados pelos autores), bem como o grande potencial do kimberlito Canastra- 8 na mesma região e a ocorrência de dezenas de outros corpos ainda mal conhecidos, realçam tal importância. Além disso, essas descobertas representam ainda uma mudança radical na própria geologia econômica do país. De fato, caem por terra as hipóteses que consideravam estéreis os kimberlitos da porção sudoeste de Minas Gerais (p.ex., Tompkins & Gonzaga, 1989; Gonzaga et al., 1994), ou de que a totalidade desses corpos poderia estar erodida até níveis críticos de teores, com a parte economicamente minerável tendo sido distribuída para depósitos detríticos, antigos ou recentes (p. ex., Chaves, 1991).
A assinatura dos minerais indicadores de kimberlitos diamantíferos na Faixa Brasília contrasta com a da maioria das outras áreas produtoras de diamantes, devido a ocorrência muito restrita de granadas G-10, subcálcicas e ricas em cromo. Embora incomuns, tais assinaturas de piropo são encontradas em algumas outras províncias diamantíferas, como nos clusters de Banankoro e Bouro, no Mali, Oeste Africano (Skinner et al., 2004). Trabalhos futuros são ainda necessários para determinar se esses aspectos, presentes em certos locais da faixa de dobramento, podem ser aplicados para o Cráton do São Francisco de modo geral. Tais considerações abrem novas perspectivas à prospecção de outros corpos na Província da Serra da Canastra, bem como a pesquisas adicionais em corpos já conhecidos, muitas vezes ainda não bem caracterizados. As tecnologias introduzidas nos últimos 20 anos desde a descoberta e desenvolvimento do pipe lamproítico de Argyle (Austrália), em região de faixa de dobramentos acrescida a um cráton, contexto semelhante ao da região em foco, podem servir como modelo para uma nova fase de pesquisas. A citada descoberta na Austrália mudou o panorama econômico do diamante no mundo, com este país tornando-se seu maior produtor nas últimas três décadas. Com a explotação do kimberlito Canastra-1, deve-se também possibilitar e incentivar a pesquisa científica em relação ao manto superior sob o Brasil, praticamente desconhecido e de grande importância para o conhecimento da evolução global.

AGRADECIMENTOS
Os estudos pertinentes iniciados durante a década de 1990 na região contaram com o apoio de Projeto de Pesquisa apoiado pela PRPq- UFMG a um dos autores (MLSCC). No presente, os autores expressam agradecimentos à SAMSUL Mineração, em especial aos seus diretores Stephen Fabian e Érico Ribeiro, pela permissão e incentivo ao estudo do kimberlito Canastra-1, e aos geólogos Jefferson Miranda e Cristina Pletschette pelos acompanhamentos de campo. O primeiro autor recebe Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq.

Características geológicas e origem dos conglomerados diamantíferos das regiões de Diamantina

Características geológicas e origem dos conglomerados diamantíferos das regiões de Diamantina (Mesoproterozóico) e de Romaria (Cretáceo Superior), Minas Gerais


M. L. S. C. ChavesI; D. P. SviseroII
IDepartamento de Geologia, IGC/UFMG, Belo Horizonte, Brasil 
IIDepartamento de Mineralogia e Petrologia, Instituto de Geociências/USP, São Paulo, Brasil



RESUMO
São descritos e comparados os principais parâmetros estratigráficos, sedimentológicos, estruturais e mineralógicos dos conglomerados diamantíferos que ocorrem na região de Romaria (Cretáceo Superior), situada no sudoeste do Estado de Minas Gerais, com os do Distrito de Diamantina (Mesoproterozóico), localizada no centro-norte do mesmo estado. Demonstra-se que, apesar do amplo intervalo de tempo envolvendo a deposição dos conglomerados nesses dois locais, existem diversos aspectos que indicam similaridades entre eles. Ambos foram depositados em leques aluviais, indicando áreas-fonte continentais tectonicamente ativas. As condições de rápido soerguimento e erosão provavelmente nivelaram as rochas matrizes primárias, ainda desconhecidas, às suas zonas críticas de esterilidade. O teor em diamantes é baixo nos conglomerados, variando de 0,01 a 0,07 ct/m3. Dados disponíveis até o presente momento mostram que a principal diferença entre os dois locais é a ausência de minerais indicadores de kimberlitos tais como Cr-piropo e ilmenita magnesiana entre os pesados da região de Diamantina.
Palavras-chave: Diamantina, Romaria, diamante, conglomerado.

ABSTRACT
Diamond-bearing conglomerates occur in the Sopa Brumadinho Formation of the Middle Proterozoic Espinhaço Supergroup and have been mined in the area of Diamantina, central Minas Gerais, since 1725. On the other hand, similar deposits occur at the base of the Upper Cretaceous Uberaba Formation in the area of Romaria in western Minas Gerais and have been mined since the end of the last century. Although these occurrences differ in age by almost 1.5 Ga, they display several geological characteristics that point to their deposition in fans developed in tectonically active áreas. In addition, their diamond content is low, ranging from 0.01 up to 0.07 ct/m3. Apparently the most remarkable difference between them is the absence of kimberlitic indicator minerais such as Cr-pyrope garnet and Mg-ilmenite among the heavies in the Diamantina District.



INTRODUÇÃO
Conglomerados diamantíferos ocorrem em Minas Gerais associados principalmente a duas unidades litoestratigráficas de áreas e idades distintas: (1) no centro-norte do Estado, a Formação Sopa Brumadinho (Supergrupo Espinhaço) é de idade mesoproterozóica e, (2) no sudoeste do Estado, os conglomerados basais da Formação Uberaba pertencem ao Cretáceo Superior. Estas formações definem duas importantes províncias diamantíferas brasileiras: a do Espinhaço e a do Alto Paranaíba, respectivamente.
Apesar do amplo intervalo de tempo (cerca de 1,5 Ga) envolvendo a deposição dos conglomerados nestes dois locais, existem diversas semelhanças entre tais depósitos, conforme previamente descrito em Chaves & Svisero (1992).
O presente estudo tem como objetivo a descrição dos principais parâmetros estratigráficos, sedimentológicos e estruturais comparando os depósitos em ambas as localidades, constatando que processos genéticos afins ocorreram nesses diferentes tempos. Os índices mineralógicos são bem conhecidos na área de Romaria, porém muito pouco estudados nos conglomerados de Diamantina, sendo atualmente objeto de pesquisa por um dos autores (MLSCC) em sua Tese de Doutoramento.

O DISTRITO DIAMANTÍFERO DE DIAMANTINA
O Distrito Diamantífero de Diamantina, conhecido desde as descobertas pioneiras do início do século dezoito, está situado na Serra do Espinhaço Meridional, na porção centro-norte de Minas Gerais. Esta região é geologicamente constituída por espessas seqüências meta-areníticas, pertencentes ao Supergrupo Espinhaço (Fig. 1).


O Supergrupo Espinhaço, na área onde ocorrem os principais depósitos diamantíferos, está representado por sua unidade inferior constituindo o Grupo Diamantina (Dossin et al., 1990). Este, por sua vez, é integrado pelas formações São João da Chapada, Sopa Brumadinho e Galho do Miguel, da base para o topo (Fig. 2). O metamorfismo que afetou o Supergrupo Espinhaço é do fácies xistos verdes.


A Formação Sopa Brumadinho caracteriza-se por rápidas variações faciológicas laterais e verticais, que indicam mudanças enérgicas nas condições paleoambientais de deposição dos seus litotipos (Pflug, 1965; Chaves et al., 1985). Afloram na base da unidade, localmente, metapelitos possivelmente de origem lagunar, resultantes da regressão do mar no final da deposição da Formação São João da Chapada. Esta sedimentação pelítica é recoberta por possantes pacotes metareníticos, via de regra grossos, típicos de depósitos continentais fluviaisbraided (Garcia & Uhlein, 1987). A esta associação faciológica pertencem os conglomerados diamantíferos da Formação Sopa Brumadinho.
O topo da seqüência é formado por depósitos que representam uma transgressão marinha, aparecendo tipos conglomeráticos que localmente são diamantíferos, como na Mina do Campo Sampaio. São característicos desta fase deposicional, sedimentos pelíticos intercalados com brechas e paraconglomerados (depósitos de debris flow), constituindo o Membro Campo Sampaio (Fogaça & Abreu, 1982). Completando o ciclo deposicional que define o Grupo Diamantina, os metarenitos eólicos da Formação Galho do Miguel recobrem tanto as várias unidades da Formação Sopa Brumadinho, como também a Formação São João da Chapada e as rochas granito-gnáissicas do Complexo Basal, definindo deste modo, uma discordância erosiva regional (Fig. 2).
No âmbito da Província Diamantífera do Espinhaço, o Distrito de Diamantina destaca-se, historicamente, como o maior produtor de diamantes do Brasil (Chaves & Uhlein, 1991). Ao contrário do Alto Paranaíba, não existem aí registros de kimberlitos ou de lavas ultrabásicas alcalinas, tornando o problema da origem do diamante mais complexo. Na região de Diamantina, o diamante é encontrado nas rochas conglomeráticas da Formação Sopa Brumadinho. A natureza clástica desta unidade revela que o diamante é reciclado, sendo suas fontes primárias desconhecidas na região.

O CONGLOMERADO SOPA
Os conglomerados tipo "Sopa" (Fig. 2) afloram regionalmente sobre uma faixa linear com cerca de 100 km de comprimento (N-S). Essa faixa coincide aproximadamente com a porção axial da Serra do Espinhaço, explicando assim a notável distribuição aluvionar cenozóica dos depósitos diamantíferos. Segundo Chaves & Uhlein (1991), na região de Diamantina, tais rochas estão agrupadas em quatro campos mineralizados com afinidades características, assim distribuídos: 1) São João da Chapada - Campo Sampaio, 2) Sopa-Guinda, 3) Extração e, 4) Datas. A espessura dos depósitos varia desde cerca de 10 metros, no Campo de Sopa-Guinda, até valores anômalos de 130 metros conforme verificado na pesquisa da Lavra Boa Vista, no Campo de Extração (Tabela 1).
O Conglomerado Sopa típico é sustentado pelo grão, com clastos de quartzo, filito, filito hematítico, itabirito e rochas metavulcânicas ácidas. O tamanho destes pode variar de alguns milímetros até mais de um metro, como característico na Lavra de Boa Vista (Campo de Extração). A matriz também é variável de um campo para outro, de pelítica até arenosa média, assim como o teor em diamantes. Estas modificações devem representar apenas a distância da área-fonte ou o retrabalhamento marinho dos corpos conglomeráticos (Chaves, 1991a); estudos detalhados para posicionar os conglomerados dentro do ambiente de leque aluvial estão em andamento. Os teores em diamante são geralmente baixos, variando entre cerca de 0,07 ct/m3 no Campo de Extração, até 0,01 ct/ m3 no Campo de Sopa-Guinda (Tabela 1).
Poucos trabalhos se referem à mineralogia da matriz do Conglomerado Sopa. No tocante aos minerais pesados, análises preliminares isoladas de alguns concentrados de São João da Chapada (Lavra do Campo Sampaio) revelaram a presença de magnetita, hematita, goethita, rutilo, anatásio, fosfatos (diversos) e hornblenda. No campo de Datas, são típicas as pseudomorfoses de pirita para limonita. Nenhum mineral de natureza possivelmente kimberlítica, no entanto, como na Mina de Romaria, foi encontrado até o presente momento.

A PROVÍNCIA DIAMANTÍFERA DO ALTO PARANAÍBA
A natureza tectônica peculiar da região do Alto Paranaíba, constituindo um bloco alto na borda norte da Bacia do Paraná e integrando também a zona terminal (sul) da Faixa Brasília, resultou em um arcabouço complexo, permitindo uma série de controvérsias a respeito das colunas estratigráficas propostas para a área. Discussão mais pormenorizada sobre essa questão pode ser encontrada em Chaves (1991b).
Embora as ocorrências de diamantes da Província do Alto Paranaíba sejam conhecidas desde o final do século dezoito, sua origem ainda é controvertida. Alguns autores advogam a existência de kimberlitos/lamproítos na região (Svisero et al., 1979; Barbosa, 1991; Leonardos et al., 1991); outros relacionam esse diamante, a transporte glacial de fontes situadas no Cráton do São Francisco a leste (Tompkins & Gonzaga, 1989). Sabe-se que uma intrusão situada na Fazenda Alagoinha, próximo de Três Ranchos, Goiás, contém microdiamantes, mas faltam dados sobre esse e outros possíveis kimberlitos férteis da região. Na área de Romaria-Estrela do Sul, os diamantes estão relacionados aos conglomerados da base da Formação Uberaba, constituindo depósitos formados em leques aluviais (Suguio et al., 1979), conforme observa-se nas frentes de lavra da Mina de Romaria, presentemente desativada.
Na região de Romaria-Estrela do Sul, o embasamento é formado por micaxistos, quartzitos e anfibolitos pertencentes ao Grupo Araxá (Mesoproterozóico?), ocupando as áreas mais baixas recortadas pelo Rio Bagagem. Em faixa restrita a oeste da Mina de Romaria, seguindo para sul, afloram arenitos puros e bem selecionados, provavelmente eólicos, atribuídos à Formação Botucatu (Triássico-Jurássico). São as ocorrências mais ao norte conhecidas desta unidade, que possuem aí características peculiares como intercalações locais de níveis brechosos pouco espessos que sugerem contribuição externa à bacia, talvez prenunciando a emergência da atividade tectônica relacionada ao Cretáceo. A Formação Uberaba, estratigraficamente acima (Cretáceo Superior), ocupa as porções mais altas do relevo, formando superfícies de chapadas com grandes extensões como ao norte de Romaria (Fig. 3).


OS CONGLOMERADOS DA ÁREA DE ROMARIA
No distrito de Romaria-Estrela do Sul (Fig. 3) os principais depósitos diamantíferos estão relacionados ao conglomerado basal do Grupo Bauru (Formação Uberaba), conhecido na região como "Tauá" e bem representado principalmente na jazida de Romaria. Este depósito vem sendo explorado, intermitentemente, desde meados de século passado, com os conglomerados repousando em discordância sobre os micaxistos do Grupo Araxá e/ou sobre os arenitos eólicos da Formação Botucatu, conforme demonstrado em seções geológicas detalhadas por Feitosa & Svisero (1984).
A sucessão estratigráfica da Formação Uberaba na área próxima a Romaria pode ser assim resumida (Svisero et al., 1981): na base, ocorrem os conglomerados diamantíferos típicos, com até cerca de 10 metros de espessura e clastos de grande porte. Sobreposto, aparece um conglomerado mais homogêneo, também polimítico mas com seixos menores (normalmente de porte centimétrico) e de espessura em torno de 3 metros (localmente denominado "Estrelado"). Acima destes, ocorrem arenitos grossos até finos e com intercalações conglomeráticas. A matriz tem característica coloração esverdeada, normalmente considerada como de origem tufácea. A espessura deste pacote oscila em torno de 15 metros. Fechando o ciclo sedimentar, aparece um conglomerado oligomítico de matriz arenosa e seixos centimétricos bem arredondados, com espessura de cerca de 5 metros.
A ocorrência de diamantes na área está associada principalmente ao conglomerado "Tauá", embora já tenham sido constatados em níveis superiores. Trata-se de um conglomerado polimítico, muito imaturo e mal selecionado, normalmente alterado. A matriz é argilosa, de coloração desde avermelhada até esverdeada. A composição dos clastos retrata bem a estratigrafia pré-Uberaba: micaxistos variados e anfíbolitos Araxá, quartzo de veio, arenito Botucatu e basalto, além de concreções silicosas opalescentes. Os diamantes são normalmente pequenos (média geral da ordem de 0,3 quilates), não obstante já terem sido achadas grandes pedras, com 179,5 e 105,5 quilates. Os teores no conglomerado variam entre 0,033 e 0,069 ct/m3, conforme dados obtidos durante uma pesquisa de avaliação das reservas da Exdibra S/A, realizada entre 1981-1983 (Feitosa & Svisero, 1984).
Informações geofísicas e sondagens têm apontado a existência de vários altos estruturais na área de ocorrência dos conglomerados diamantíferos (Davino, 1983; Feitosa & Svisero, 1984). Estes altos do embasamento controlaram feições dos conglomerados, como espessura, tamanho dos clastos, freqüência de minerais pesados e, conseqüentemente, teor diamantífero. Tais fatos indicam que as fontes dispersoras primárias estão estreitamente relacionadas a estes altos, apesar de na maior parte, provavelmente, já estarem erodidas. As feições apresentadas pelos conglomerados evidenciam altas energias de transporte envolvidas em sua deposição, indicando, provavelmente, depósitos do tipo leques aluviais originados em clima semi-árido (Suguio et al., 1979).
Estudo dos concentrados obtidos durante a recuperação do diamante mostrou que o conglomerado contém, entre os minerais pesados, por volta de 95% de fases opacas incluindo magnetita, hematita, ilmenita, goethita e limonita, e diversas fases transparentes tais como diamante, zircão, granada, estaurolita, turmalina, rutilo, monazita, hornblenda, cianita e anatásio (Feitosa & Svisero, 1984). As granadas pertencem a duas paragêneses distintas. O tipo mais comum é representado por cristais de coloração vinho a violácia de até 10 mm, constituídos pelas moléculas piropo e knorringita (Svisero, 1979). Além da composição, a forma abaulada e a textura da superfície são características de granadas de kimberlitos. Em adição, exibem evidências de que foram pouco transportadas. Um segundo grupo de granadas são constituídas de almandina e grossulária, derivadas dos micaxistos do Grupo Araxá. Analogamente, as ilmenitas também são de dois tipos distintos: um tipo magnesiano com teores de MgO variando em torno de 10% em peso, sendo derivadas possivelmente de kimberlitos, e um segundo tipo constituídas essencialmente de titânio e ferro, originadas de rochas do embasamento (Svisero & Meyer, 1981).
Apesar dessas e de outras evidências, tais como dezenas de kimberlitos ou rochas parentais já descritas e a ocorrência periódica de grandes diamantes, muitos com quilatagem superior a 100 ct - todas indicadoras de rochas-fonte mineralizadas próximas - alguns autores como Tompkins & Gonzaga (1989) admitem que o diamante do oeste de Minas Gerais provém de geleiras pré-cambrianas (glaciação Jequitaí) desenvolvidas a norte da região.

PALEOAMBDENTES DE SEDIMENTAÇÃO - ASPECTOS GERAIS
Do ponto de vista morfológico e de estruturas sedimentares, são evidentes as semelhanças entre os dois tipos de conglomerados: 1) clastos de grande porte que em alguns casos chegam a dimensões de matacões; 2) grande diversidade de componentes; 3) contato basal erosivo; 4) espessuras análogas, etc. (Tabela 1).
Tem-se demonstrado também que os conglomerados Sopa e de Romaria possuem uma gênese bastante similar. Ambos são depósitos torrenciais, do tipo leque aluvial, característicos de clima semi-árido em região tectonicamente instável. A atividade tectônica deve ter permitido o rápido soerguimento das áreas-fontes, ocasionando a erosão de muitas centenas de metros de rochas. Grossi Sad (1970) argumenta que cerca de 3000 metros de cobertura rochosa foi removida desde a intrusão dos grandes complexos alcalinos do Triângulo Mineiro, geralmente considerados contemporâneos das intrusões ultrabásicas em que se incluem as rochas kimberlíticas do Alto Paranaíba. Desta maneira, as fácies mineralizadas das matrizes primárias do diamante podem ter sido removidas e seus minerais largamente distribuídos nos depósitos secundários (Chaves, 1991b).
As demais litologias das formações Sopa Brumadinho e Uberaba são constituídas principalmente por arenitos médios, grossos e conglomeráticos, típicos de ambiente fluvial. Certamente os leques aluviais, em suas porções distais, amalgamaram-se aos depósitos arenosos, levando ainda alguns diamantes até grandes distâncias. Esta premissa pode explicar o fato de existirem certas drenagens (atuais) diamantíferas, em locais onde aparentemente faltam os conglomerados.
Nos conglomerados da região de Romaria, como já foi destacado, ocorrem minerais típicos de kimberlitos, tais como piropos cromíferos e ilmenitas magnesianas. Para a região de Diamantina, onde esses minerais não existem ou ainda não foram detectados, pretende-se iniciar um estudo sistemático dos acompanhantes do diamante na matriz do Conglomerado Sopa, nos principais campos diamantíferos conhecidos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A gênese do diamante no Brasil tem sido desde longa data objeto de apaixonadas discussões, em função de não serem ainda conhecidas as rochas matrizes deste mineral. Romaria e Diamantina representam duas ocorrências importantes de diamante detrítico no Brasil, notáveis pelo intervalo do tempo que separa seus depósitos (secundários) mineralizados.
As características sedimentológicas, porém, indicam que os depósitos diamantíferos em Romaria e Diamantina formaram-se de maneira semelhante a partir de leques aluviais, o que também indicaria, a priori, fontes primárias relativamente próximas e em rápido soerguimento. O estágio da formação e história de preenchimento da bacia também foi aproximadamente o mesmo para o posicionamento dos conglomerados em ambos os locais, isto é, associados a episódios de rejuvenescimento tectônico.
Em Romaria, ocorrem minerais satélites indicadores de kimberlitos (piropo cromífero, ilmenita magnesiana e cromo espinélio); em Diamantina esses indicadores estão ausentes, ou pelo menos não foram observados até o presente momento.
Com relação ao diamante, existem certas diferenças entre os dois locais. Na Mina de Romaria não há registros de grandes diamantes, mas no Rio Bagagem, que drena a área, é comum o aparecimento de pedras maiores, muitas vezes com mais de 50 quilates. Na região de Diamantina as pedras raramente ultrapassam 5 quilates. Outra diferença é a relação gema/indústria; em Romaria ela é da ordem de 60% enquanto em Diamantina é de quase 90%. Ainda característico da região de Diamantina é uma alta incidência de pedras em torno de 0,5 a 2 quilates, que são exatamente as de interesse gemológico.
Essas diferenças e os fatos geológicos demonstrados servem para reforçar a hipótese de que houve pelo menos duas idades de magmatismo tipo "kimberlítico" (Cretáceo Superior e Mesoproterozóico), contrariando os argumentos de Tompkins e Gonzaga (1989) de que todo diamante que ocorre nas cercanias do Cráton São Francisco é pré-cambriano. Uma tectônica muito ativa (classicamente conhecida pelo menos no período cretácico) pode ter permitido a alocação dos corpos intrusivos, sejam eles kimberlíticos, lamproíticos ou de natureza ainda não conhecida, e a erosão subseqüente ter removido e dispersado as partes apicais mineralizadas das intrusões para as rochas conglomeráticas geradas na seqüência do processo.

Geologia do diamante

Diamante 

 
     Geologia do diamante 
            
          kimberlite_system  As fontes primárias dos diamantes - os kimberlitos - aparecem normalmente na forma de chaminés intrusivas na crosta, podendo apresentar contribuições variáveis de xenólitos das rochas por onde passou a intrusão. Os kimberlitos são rochas híbridas, ultrabásicas, potássicas e ricas em voláteis (CO2 e H2O), compostas por fragmentos de eclogitos e/ou peridotitos, em uma matriz fina formada essencialmente de olivina (predominante), flogopita, calcita, serpentina, diopsídio, granada, ilmenita e enstatita (Chaves & Chambel, 2003).
kimberlite1
O diamante se forma numa área delimitada pela interseção entre o Manto Superior e a região basal da Litosfera, onde esta se torna mais espessa. Esta área bem delimitada se denomina de Janela do Diamante. O seu limite superior é a isotermal de 900oC e o limite inferior, de 1200oC. Abaixo da curva do Manto Superior está a zona de equilíbrio do diamante e acima, a zona de equilíbrio da grafita. A gênese do diamante exige uma profundidade entre 150 e 200 km (acompanhe a curvatura da figura).
kimberlite2

Esta figura (acima) mostra o início da ascensão da chaminé kimberlítica, a partir do Manto Superior, transportando os cristais de diamante no seu interior.
kimberlite3
Concluída a sua ascensão, a chaminé kimberlítica atinge a superfície do terreno. Observe que o kimberlito estéril (barren kimberlite) se encontra na zona de equilíbrio da grafita, não podendo, portanto, conter diamante.
     Diamante no Brasil
        - Diamante no Triângulo Mineiro (Berço dos maiores diamantes das Américas:     Presidente Vargas, Darci Vargas, Presidente Dutra e outros)

  -  De Beers põe à venda maior kimberlito do Brasil
        A De Beers lançou no início de novembro de 2001 a oferta do maior kimberlito  mineralizado já encontrado no Brasil. Localizada na Serra da Canastra (MG), a área de um hectare tem potencial estimado em um milhão de quilates e os diamantes da área estão avaliados em US$ 150 milhões. A empresa que adquiriu os direitos minerários sobre a reserva foi a canadense Brazilian Diamonds (ex- Black Swan).  De acordo com o Plano de Aproveitamento Econômico concluído em agosto de 2003, a chaminé kimberlítica Canastra 1 irá produzir 114.000 quilates anuais de diamante durante quatro anos (vida da mina), com um teor de 16 quilates por 100 toneladas, possibilitando a obtenção de uma taxa interna de retorno de 32%. Com esta estimativa, observa-se que o potencial da reserva caíu para cerca da metade da previsão inicial.
Nota do autor da home page: Finalmente, surge a primeira oportunidade para o Brasil abrir uma mina de diamante em kimberlito (fonte primária), o que vem ocorrendo há décadas em países da África, Rússia e, mais recentemente, no Canadá.
        Outra empresa canadense ativa nas regiões do Alto Paranaíba e do vale do Jequitinhonha é a Bontan Corporation:    
        
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 Diamantes brutos com mais de 100 quilates (51 pedras)

kimberlito   Amostra de kimberlito procedente do Alto Paranaíba, região de Coromandel, MG
(o comprimento da face polida é de 11 cm).

santo_antonio1   santo_antonio2   
Fotos da região do rio Santo Antônio do Bonito, mun. de Coromandel, onde a empresa Brazilian Diamonds (ex-Black Swan) está realizando pesquisa mineral  Note-se que na calha deste rio foi encontrado em 1938 
o Presidente Vargas, o maior diamante das Américas.


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          - Diamante no norte de Minas (auge no período colonial) 
  

- Diamante em Rondônia

O ano de 2004  registrou o triste episódio de um massacre de 32 garimpeiros pelos índios Cinta-Largas na Reserva Roosevelt, município de Espigão D'Oeste, na parte oriental do Estado de Rondônia. O motivo foi a disputa de uma rica jazida de diamante ocorrendo dentro da Reserva. A extração do diamante é ilegal, pelo fato de se situar em terras indígenas. Todavia, há especulações de que esta área tem produzido algo em torno de um milhão de quilates anuais, no valor aproximado de US$ 100 milhões. Em 23 de novembro desse mesmo ano, foi editada uma Medida Provisória autorizando a arrecadação e alienação dos diamantes brutos em poder dos indígenas. 
res roosevelt   cinta larga   

Depois de arrecadados, os diamantes foram leiloados no dia 2 de fevereiro de 2005, em hasta pública da Caixa Econômica Federal, na cidade do Rio de Janeiro. Segundo um comunicado da Caixa no dia seguinte, os 665 quilates leiloados renderam a cifra de R$ 716.920,00. Seguem as imagens de algumas pedras leiloadas:
diam res Roos  Pedra com 28,40 ct, ofertada com lance mínimo de R$ 80.000.
diam res Roosev  Lote de 30 pedras, estando 7 delas no intervalo de 1,01  a 2,99 quilates; as 23 restantes variam de 10 pontos até 1 quilate. Lance mínimo para o lote: R$ 8.010.
       - Diamante na Bahia 
       
A Bahia no Cancioneiro PopularQuero me casar 
com negociante 
Que vá pra Chapada 
Buscar diamante
Meu bem, meu amante 
É um negociante 
Que foi pra Chapada 
Buscar diamante
As moças d’agora 
Só querem brilhante 
Eu vou pra Chapada 
Buscar diamante
As moças d’agora 
Só querem se casar, 
Botam a panela no fogo 
E não sabem temperarFonte: http://jangadabrasil.com.br/abril20/cn20040a.htm
        - Diamante em Mato Grosso 
  
        - Diamante em Roraima 
           - 
     
        - Diamante no Piauí
 
  
            -  Mapa indicativo das províncias diamantíferas do Brasil
           
      Coleção particular 
     Ao lidar com diamantes, qualquer geólogo é tentado a adquirir alguns espécimes de diamantes brutos em garimpos ou de comerciantes, iniciando desse modo uma pequena coleção particular. O autor desta página não fugiu à regra. Seguem as imagens de alguns espécimes dessa coleção.
    Sandy e Júnior, com 37 e 49 pontos, respectivamente.
    Weird, com 89 pontos.
 
Detalhe de Weird, com parte dos octaedros bem visíveis.
   Da esquerda para a direita: Júnior, Weird, F 61(com 13 pontos) e Sandy. Todos os espécimes são diamantes brutos, com exceção do F 61, que é lapidado (escala em milímetros).
    Outra imagem dos 4 diamantes.
     Diamante no mundo
     
      Diamantes famosos 
      
 The Centenary: o orgulho da  De Beers . Descoberto na mina Premier, África do Sul, em julho de 1986. Enquanto bruto, pesou 599,10 quilates. Com a ajuda de uma pequena equipe, o lapidário Gabi Tolkowsky levou quase três anos para transformá-lo num dos diamantes mais perfeitos, de corte mais moderno e de mais bela cor da atualidade. Possuindo 247 faces, o Centenary lapidado pesa 273,85 quilates, sendo superado apenas pelo Great Star of Africa (530,20 ct) e pelo Lesser Star of Africa (317,40 ct), ambos integrantes das jóias da Coroa Britânica. O Centenary foi exposto ao público pela primeira vez em cerimônia realizada na Torre de Londres, em maio de 1991.
 O Presidente Vargas, com 726,6 quilates, foi o maior diamante já descoberto nas Américas. Foi encontrado no rio Santo Antônio do Bonito, município de Coromandel, em 13 de agosto de 1938. Coromandel se situa no Triângulo Mineiro e dista 403 km de Brasília e 475 km de Belo Horizonte. Na época era o 4o. maior diamante do mundo, caindo para a sexta posição algumas décadas mais tarde. Suas dimensões eram: comprimento - 56,2 mm; largura - 50,0 mm; e espessura - 24,4 mm. Era branco, transparente, com uma ligeira tonalidade amarelada em uma das extremidades.  Consta que foi vendido por US$ 141.000, quantia equivalente na época a 120 kg de ouro. Com base nessa equivalência, o Pres. Vargas valeria hoje algo em torno de US$ 1.157.520 (se considerarmos a onça-troy a US$ 300). Entretanto, segundo informações coletadas na região, pedras com metade do tamanho do Presidente Vargas são vendidas hoje por algumas dezenas de milhões de dólares. Após ser vendido, sucessivamente, para compradores em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Amsterdã, o Presidente Vargas foi finalmente arrematado por um joalheiro de Nova York - Harry Winston - o qual cortou a pedra em 29 brilhantes. O destino desses brilhantes é um mistério que tentaremos desvendar.
Recentemente, foram obtidas as informações que seguem, fornecidas pelos joalheiros Mouawad , com sede em Beirute. Na viagem entre Amsterdã e Nova York, o Presidente Vargas foi segurado pela Lloyds no valor de US$ 750.000. Na primeira lapidação, devido à sua forma peculiar, decidiu-se cortar uma parte do topo da pedra de cerca de 20 quilates. Desta peça resultou uma "pera" pesando 10,05 quilates. Do corte principal resultaram duas partes, respectivamente com 550 e 150 quilates. Dos 29 brilhantes lapidados, 19 possuíam um tamanho maior e 10 pedras eram menores, atingindo o total de 411,06 quilates. Quanto à forma, o conjunto compreendeu dezesseis do tipo "esmeralda", um do tipo "pera", uma "marquesa" e entre as gemas menores dez triângulos e uma baguette. O nome Presidente Vargas foi retido para a  gema maior, uma tipo "esmeralda", pesando 48,26 quilates. Por um certo número de anos este diamante foi de propriedade da esposa do Sr. Robert W. Windfohr, residente em Fort Worth, Texas, o qual o adquiriu em 1944. Em 1958 Harry Winston o recomprou e cortou-o novamente para um brilhante de 44,17 quilates (para eliminar defeitos microscópicos), vendendo-o novamente em 1961. As identidades dos outros compradores não são conhecidas, mas reporta-se que em 1948  Gaekwar de Baroda tinha comprado uma das gemas do Vargas. Relata-se, ainda, que em outubro de 1992  o Presidente Vargas IV, pesando 25,4 quilates, foi vendido por US$ 396.000. 
 
Computação gráfica do diamante Presidente Vargas