domingo, 14 de fevereiro de 2016

A LENDA DAS ESMERALDAS

A LENDA DAS ESMERALDAS

No século 17, há portanto mais de trezentos anos, dizia-se que no norte de Minas Gerais ficava uma serra muito alta ou Serra Resplandecente, assim chamada porque, quando o sol ao nascer se projetava sobre ela, a montanha começava a brilhar, cheia de cintilações verdes. Tal noticia chegou a São Paulo, à Bahia e a Portugal.


Os reis de Portugal, sempre ávidos de riquezas, prometeram mundos e fundos aqueles que descobrissem a tão falada serra. Lá sim, é que havia esmeraldas, ao alcance das mãos, como cascalho.


Muitos bandeirantes, desejosos de se tornarem nobres, resolveram sair à procura da Serra Resplandecente. Era claro que a descoberta ficaria pertencendo ao rei de Portugal, único dono de todas as minas existentes e por existir no Brasil. Mas o seu descobridor recebia um título de nobreza. Naquele tempo, ser fidalgo era ainda uma aspiração que enlouquecia a muitos brasileiros.


Quando Fernão Dias com sua bandeira chegou à lagoa Vupabuçu, que ficava no sopé dessa serra, perguntou a um índio mapaxó o motivo porque os selvagens impediam que os civilizados chegassem até lá. E o nativo respondeu:


 - A Uiara morava nas águas claras da lagoa Vapabuçu.


Seu canto seduzia os guerreiros indígenas. Nas noites de Cairê, a Uiara subia à flor das águas e se punha a cantar. Atraídos por sua voz, os guerreiros vinham para as margens da lagoa e a Uiara os puxava para o fundo, de onde eles não mais voltavam. Então, os índios mapaxós pediram a Macaxera, o deus da guerra, que salvasse tantos guerreiros. Macaxera fé a Uiara dormir e mandou que os mapaxós vigiassem o seu sono e a sua vida. Seus cabelos eram verdes do limo das águas que se encontra no fundo da lagoa. Esses cabelos, muito longos entravam pela terra e, como eram da água em contato com a terra viravam pedra.

E Macaxera recomendou:
- A vida da Uiara está em seus cabelos. Um fio de menos será um dia de vida que ela perderá. Arrancar as pedras verdes é acordar a Uiara, que poderá morrer. E se ela acordar ou morrer acontecerá uma grande desgraça.


Fernão Dias não acreditava em lendas nem em coisas do outro mundo. Por isso não levou a sério a ameaça do índio e mandou os seus homens arrancarem os cabelos verdes da Mãe d´Água. Como foram arrancadas poucas pedras – que eram seus cabelos – ela nem sequer chegou a acordar.


Pouco depois do bandeirante apropriar-se dessas pedras verdes, adoeceu de febre e, na viagem de regresso para São Paulo, morreu. Sua morte foi atribuída a Tupã, como castigo por ter tirado um pouco dos cabelos da Uiara. E o índio teria exclamado:
- O emboaba morreu, a Uiara viverá!

A LENDA DOS DIAMANTES - LENDA DE DIAMANTINA

A LENDA DOS DIAMANTES - LENDA DE DIAMANTINA

Duas forças antagônicas iam entrar em choque – a civilização e a barbárie. Venceria por certo aquela cuja ambição vinha, em nome da cultura, arcabuzando, abatendo, para dominar e escravizar.

A isto chamavam civilizar o gentio.

O grito de guerra, partido das inúbias do alto do Ibitira, conclamou a tribo em defesa da taba, na luta pela conservação das ibicoaras e igaçabas, relicários que guardavam as cinzas de seus caciques e na preservação dos altares de seus deuses.
         
     A peleja travou-se rude e feroz entre o invasor e o nativo. Cada palmo de ter conquistada recebia o marco de uma vida extinta. Melhor armados, trazendo o terror na boca de seus arcabuzes, iam aos poucos se infiltrando os aventureiros, procurando trazer para seu convívio os filhos das selvas, quebrando o ritmo daquelas vidas em plena natureza, para sujeitá-las às fortes cadeias da escravidão. Pela superioridade racial arrogavam-se o direito de subjugar a ferro e fogo aqueles que só tinham a terra como berço, o céu por teto e abusavam da liberdade de viver como as feras e as aves.
        
      Os naturais, conhecedores das ações praticadas pelos civilizados contra outras tribos, lutavam com denodo pelos civilizados contra outras tribos, lutavam com denodo pela manutenção de seus domínios. As incursões ao campo adversário sucediam-se amiúde com emboscadas, surpreendendo os invasores, no afã de expulsá-los, mas a cobiça do ouro prendia-os ao solo.

Presos estavam também os índios pelas raízes da secular acaiaca, que dominava a colina, árvore sagrada da tribo dos puris.

Os bandeirantes, sempre hostilizados e inquietos, deliberaram de vez exterminá-los, a fim de que pudessem mansamente se locupletar com o metal que a civilização européia exigia, sequiosa, para seu luxo e conforto. E as flechas desferidas lá do alto, com destino ao coração do povoado nascente, eram respondidas com tiros de arcabuzes.

A intranqüilidade pairava nos dois acampamentos, ora um ataque furtivo, incêndio, uma surtida, tudo sempre de surpresa, com sacrifícios para ambos. Debaixo da frondosa árvore continuavam os preparativos para um grande ataque, mas Cururupeba, o bravo e intrépido chefe determinara que logo após as núpcias de Cajubi com Iepipo, jovem e audaz guerreiro, a luta seria de vida ou de morte.

Como nos grandes dramas da História sempre aparece um traidor, o mameluco Tomás Bueno, cognominado Peropiranga (branco e vermelho), em cujas veias corria sangue europeu e indígena, traiu os silvícolas. Conhecendo a veneração que os índios votavam à peroba sagrada fez ver aos bandeirantes que eles jamais seriam os donos pacíficos daquela região enquanto a árvore protegesse com sua sombra a descendência dos caciques. Então os bandeirantes resolveram derrubá-la.

A ocasião propícia era chegada. A tribo ia retirar-se na próxima lua cheia para as margens do Ipiacica, onde festejaria com uma grande tabira os esponsais de Cajubi.

Aproveitando a ocasião, deveriam os invasores derrubar a grande árvore porque os indígenas acreditavam que seu viço exuberância lhes emprestava força e vigor para vencer o supremo inimigo, como sempre venceram nas pugnas que travaram. Com a cautela de criminoso, subiram o Ibitira em busca da vitória pela traição.

Os machados, penetrando no tronco secular, tiravam sons que as quebradas das serras repetiam. A majestosa acaiaca, deusa da tribo, recebendo tantas e tão profundas machadadas, tombou para nunca mais levantar-se.

Para os puris, aqueles ramos de folhagens eram mais do que uma arquitetônica catedral, mais do que uma cidade, por que se o engenho humano pode erguer outros, aquela árvore, dádiva da natureza aos Puris, representava a criação de um ente supremo que jamais poderia ser substituído. Era a crença, o ideal, o símbolo que unia a tribo. Sua sombra abrigava o velho guerreiro encanecido na luta e cobria o berço do recém-nascido. Era sob a sua copa que se tomavam às deliberações, mesmo que para realizá-lo fosse preciso o sacrifício de todos.

Fora a acaiaca que, nova Arca de Noé, segundo a tradição indígena, recebera em seus galhos, erguidos para o alto, o casal povoador, quando o Jequitinhonha, saindo do seu leito, crescendo e avolumando-se com os seus afluentes, numa fúria destruidora, inundou todas as regiões e arrastou na sua voragem os seres que povoavam a terra.Só não ultrapassou a copa sagrada, porque nela se haviam abrigado os pais da tribo dos Puris.

Terminadas as danças e cerimônias da união de Cajubi com Iepipo, os índios voltaram para a sua taba. Esperava-os ali uma dolorosa surpresa. Lançado ao solo, confundindo-se com o pó, lá estava deitado o ídolo. Então foram tomados de verdadeira fúria, tanto mais que Piracaçu, o pajé, erguendo os braços magros, proclamava com palavras inspiradoras o fim da tribo.

E isso deveria acontecer. Os membros da tribo, até aí pacíficos, deixaram de viver em harmonia, separados pela desinteligência e pela insubmissão. Faltava-lhes acaiaca, o elo que os prendia à vida. Sobreveio à luta fratricida e eles já não puderam defender-se do inimigo comum, invasor, sedento de ouro.

Os poucos sobreviventes fugiram espavoridos e se dispersaram. Iepipo, a esperança dos puris, jazia entre os guerreiros mortos e Cajubi, a flor de manacá, desaparecera, levando no coração o ódio e a vingança.

Piracaçu, o velho pajé, deitou um frio olhar sobre o que restava da tribo; galgando o tronco e a ramada da árvore  caída, voltou-se para o tosco acampamento dos bandeirantes e, fixando-lhes a vista, chispando de ódio e fogo, lançou sobre a povoação que nascia eterna maldição.

O céu escureceu prenunciando borrasca e dali a pouco era iluminado pelas labaredas que subiam da árvore incendiada, O fogo, ateado pela mão tremula da Piracaçu, já a envolvia toda. No meio das chamas, no ponto mais alto da árvore morta, erguia-se a figura serena do pajé. Relâmpagos começaram a riscar a noite, seguidos de espantosos trovões. Formou-se um cataclisma que convulsionou a superfície da terra, fendendo-a, rasgando-a. A água desabou torrencialmente e um tremendo estampido pôs termo a tudo, sepultando os restos da deusa sagrada dos Puris.

Seus carvões incandescentes, atirados por toda parte e semeados por serras e vales, transformaram-se em diamantes.

O LOBISOMEM DO JEQUITINHONHA

O LOBISOMEM DO JEQUITINHONHA

Um personagem histórico pode se tornar um mito. Mas uma pessoa de carne e osso pode virar assombração? Foi o que aconteceu com o mineiro Joaquim Antunes de Oliveira. Após sua morte, ele foi transformado pela imaginação popular no temível Bicho da Carneira.


Se há um monstro que aterroriza as crianças do Vale do Jequitinhonha e de boa parte das regiões vizinhas, em Minas e na Bahia, é o Bicho da Carneira, também chamado de Bicho da Fortaleza, Bicho de Pedra Azul, Bicho da Rodagem e Lanudo. Esse monstro da mitologia popular assume diferentes formas. A mais frequente é a de um cachorro preto e grande que aparece ao entardecer ou depois que a noite cai. Também é descrito como a figura de um lobisomem ou animal peludo desconhecido na nossa fauna - o Lanudo -, ou um homem sedutor, ou um personagem misterioso que traja capa escura e aparece nas noites sem lua, ou ainda como uma pessoa comum.


O comportamento também varia: o que usa capa realiza operações mágicas e seduz mocinhas; o homem comum é reconhecido pelo apetite fabuloso e pela menção aos familiares; e o animal consome uma quantidade anormal de alimentos, abate bezerros, ataca cachorros, mata e deixa feridos, muitos de uma vez só. E as mães ameaçam as criancinhas com aparições desse monstro se elas não dormirem cedo.


Esse monstro foi um dia Joaquim Antunes de Oliveira, nascido em 1799, no Norte de Minas Gerais, entre os Rios São Francisco e Jequitinhonha. Teve três esposas, Francelina, Bernardina e Manoela, que lhe deram 15 filhos. Viveu na região de São José do Gorutuba, próximo a Janaúba de hoje, área então pertencente ao município de Grão Mogol. Dali se mudou, na década de 1860, para a nascente povoação de Catingas, e depois para Fortaleza, hojePedra Azul, onde faleceu no final do século XIX. O genealogista que registra o ano do seu nascimento, Valdivino Pereira Ferreira, também anota o ano em que ele morreu, 1876, mas sua assinatura ainda aparece em livros cartoriais da cidade de Jequitinhonha na década de 1880.


Existe uma explicação para a transformação de Joaquim Antunes em monstro Vejamos: ele foi enterrado no pequeno cemitério de Catingas, que ficava na praça principal do povoado, e foi objeto de disputas políticas que determinaram seu deslocamento, já em 1919, para local mais afastado. Seus restos foram então transferidos para a nova sepultura, que misteriosamente rachou. Além disso, apareceram pelos de animal entre as fendas. A sepultura foi reparada, mas as rachaduras voltaram a surgir mais de uma vez, também misteriosamente. Na mesma época, na Fazenda Gameleira, onde Joaquim vivera, sumiu uma banda de porco. Estava criada a lenda.


Na área rural de Pedra Azul, muitos dos moradores mais velhos já viram o Bicho da Carneira. Em geral, não há interação: é um cão preto que passa ou um homem trajando capote. Mas existem narrativas em que o Bicho aparece criando situações inusitadas. Em Teófilo Otoni e Montes Claros, contam que um homem foi a uma pensão e pediu jantar para várias pessoas. Só que ele comeu toda a comida sozinho e pediu que mandasse a conta para seus parentes da família Antunes. Mas há quem diga que se trata de um golpe para tirar dinheiro de gente supersticiosa.


Já próximo a Estiva (distrito de Jequitinhonha), o "causo" foi diferente: um fazendeiro viu um cão devorando uma rês de madrugada. Em seguida, o animal tomou a forma de Joaquim Antunes, que ele conhecera em vida. Como o fazendeiro estava armado, a assombração não titubeou: perguntou se teria coragem de atirar nele.


Reza a lenda que o monstro assombra a própria família. Em Caraí, na véspera do casamento de um dos Antunes, ouviu-se um barulho vindo da despensa. Era um animal grande, e ninguém teve coragem de abrir a porta. Quando o barulho cessou, tiveram uma surpresa: os bois e os porcos abatidos haviam sido devorados pelo Bicho.


Há outras versões sobre a formação do mito. Uns dizem que Joaquim era muito bonito e que fugiu com aquelas que depois vieram a ser suas esposas, e isso teria criado uma aura mágica em torno dele. Outros dizem que, nos últimos anos de vida, padeceu de uma doença tratada com mercúrio, e por isso seu quarto ficou impregnado de um cheiro muito forte, o que impediu que recebesse os mínimos cuidados: cabelos, barba e unhas deixaram de ser cortados, tornando sua aparência aterrorizante. Também se conta que os pelos na rachadura do túmulo eram de animais entrando e saindo. Mas a história que mais se difundiu foi a de que ele batera em sua mãe, em quem colocou sela e montou. Ela o teria amaldiçoado com esse terrível destino no além-túmulo.


Outra hipótese, mais plausível, aponta para o fato de Joaquim Antunes pertencer a uma família ainda hoje consciente de suas origens hebraicas, a dos Antunes de Oliveira, que se internou nos sertões baianos, ainda no século XVII, para fugir da perseguição da Inquisição. Essa caçada à família Antunes teria sido motivada pela existência, entre os antepassados, de um cristão-novo de ascendência hebraica chamado Heitor Antunes.


Nos anos de 1591 e 1592, quando o Brasil recebeu a visita do inquisidor Heitor de Mendonça, apurou-se que o finado Heitor Antunes, dono de engenho em Matoim, no Recôncavo Baiano, mantinha uma série de costumes judaizantes. Ele viera para o Brasil em 1558, falecendo em 1576. As investigações do inquisidor mostraram que ele chegou a instalar uma sinagoga no seu engenho, e que se dizia sacerdote do rito hebraico e descendente dos Macabeus, dinastia levita que lutou contra a dominação helênica em Israel (século II a.C.) e governou o país até pouco antes da era cristã.


Heitor Antunes havia falecido, mas isso não impediu que sua viúva, Ana Roiz, já bastante idosa, fosse levada para os calabouços do Santo Ofício, em Lisboa, onde morreu pouco tempo depois. Alguns dos filhos e dos netos de Heitor e Ana se mudaram para os sertões, onde a Inquisição era menos atuante, e dos sertões baianos, um ou mais ramos da família passaram à recém-criada capitania de Minas Gerais, ainda no século 18, estabelecendo-se na região de Lençóis do Rio Verde, hoje Espinosa, situada na bacia do São Francisco. Dali, alguns foram para a região de Itacambira e Grão Mogol, em busca de ouro e de diamantes, de onde a família se irradiou, ao longo do século 19, para Piedade, hoje Turmalina, Itinga, Jequitinhonha e Pedra Azul, seguindo, já no século 20, para Medina, Joaíma, Almenara e Jordânia.


Nessa família, até meio século atrás, eram habituais a endogamia, o uso de homônimos e certo comportamento arredio, derivado do estigma de cristão-novo, características incomuns que contribuíram para o surgimento e a propagação da lenda. Os Antunes mais velhos repreendem os mais jovens quando fazem qualquer referência ao Bicho, mas isso não impediu que, em 1989, o músico Heitor de Pedra Azul e seu primo Edmundo Antunes de Almeida organizassem a festa "Antunes recebe Antunes", que tinha o slogan "É isso aí, bicho!" e reuniu muitos descendentes de Joaquim Antunes. O evento deu ensejo ainda à publicação de um livro com informações sobre o Bicho da Carneira e sua árvore genealógica.


A popularidade desse monstro cresceu com o passar do tempo. Seu nome original, Bicho da Carneira, continua sendo o mais utilizado, mas, ao se difundir, o monstro passou a ser denominado Bicho da Fortaleza ou Bicho de Pedra Azul. O termo Lanudo é raramente empregado, e Bicho da Rodagem tem seu uso restrito a Almenara, onde ele surge na estrada que leva a Pedra Azul. Conta-se ainda que o Bicho não aparece em Itinga, apesar do grande número de parentes que tem ali e da realização de uma procissão anual que circunda a cidade, criando um perímetro de proteção. O bairro do Porto Alegre, do outro lado do Rio Jequitinhonha, que foi recentemente unido ao restante da cidade por uma ponte, não conta com esse entorno, estando, portanto, vulnerável às aparições do monstro.


As histórias em torno do Bicho de Pedra Azul demonstram que, apesar de o nosso tempo ser caracterizado pela racionalidade, o imaginário das populações continua criando mitos. Com isso, a tradição popular permanece em constante processo de criação e recriação, pelo menos no Vale do Jequitinhonha, região conhecida por sua notável vitalidade cultural.


A BOLA DE FOGO - LENDA DE OURO PRETO

A BOLA DE FOGO - LENDA DE OURO PRETO

Quem visita aquela bonita cidade mineira, orgulhosamente adormecida nos macios coxins do sertão, fica conhecendo em seus arredores uma tapera que pertencera a antiga família e que constituiu a célula inicial do importante centro comercial de hoje.


Os montões de madeirame apodrecido e os muros esborcinados são o que resta dos sonhos do passado, pois o destino foi virando as folhas de seu livro e muita coisa mergulhando no esquecimento. A tapera dos velhos bandeirantes é tudo o que ficou das grandezas olvidadas, prendendo-se à história ou à lenda, como por exemplo o sugestivo episódio da Bola de Fogo.


Uma linda jovem, de nobilíssimo tronco paulista, encanto da família fundadora, atingia o limite perigoso dos trinta janeiros sem se ter prendido a nenhum mestiço do novel arraial. Isso se dera porque os pais tinham decidido que ela, sua herdeira universal, só se casaria com um branco de boa estirpe e brazão. As paredes da vetusta mansão senhorial guardavam, ciosos, os sonhos da donzela de sangue altivo. E o esperado cavalheiro branco chegou um dia, pelos meados do século 18, época em que se desenrola o episódio desta página.


Tratava-se de um fidalgo espanhol, aprumado, maneiroso, bigodes retorcidos, trajando de acordo com a moda, e com a sua durindana pendente da cintura. Gostava de contar bravatas, relembrando duelos perigosos e amores difíceis. Era um bom copo, prezava a companhia das damas e dava a vida para não pensar em coisas sérias. Mas era branco e tinha um belo nome, ambição da distinta môça. Era quanto bastava.Viram-se, entenderam-se e casaram.   


A aristocrática mansão engalanou-se para receber o cavalheiro espanhol, já então rico senhor de fazendas e de minas de ouro daquele vasto sertão e de muitas léguas de terras além de Guiacuí Conduziu-se a contento, durante a lua de mel, o esposo branco da descendente de paulistas. Mas veio o tédio, a uniformidade dos dias, a quietude imperturbável do lar...O estrangeiro era inquieto e perdulário; tendo grande fortuna à sua disposição, meteu-se na companhia de estróinas e conhecidos do momento, sacrificando assim o nome ilustre a que se ligara.


A dor entrou no coração da esposa, pois via morrerem as suas últimas ilusões. A ventura entrevista esboroava-se diante da conduta do marido. Ele perdia as estribeiras. O arraial indignava-se com o seu procedimento, mas o mal era irremediável. O dinheiro era atirado a mancheias pelos balcões do vício, ou pelas íntimas tascas, freqüentadas por escravos libertos.


No auge da sua infelicidade e para restringir os desmandos do fidalgo, reuniu o resto de todo o ouro do casal, encheu um enorme tacho do engenho e resolveu atirá-lo fora, tal o ódio insopitável que lhe despertava o vil metal, responsável pela sua desdita.


Certa noite, com o auxílio de uma escrava, arrastou a preciosa carga até um rio próximo e precipitou- a do barranco sobre as águas do profundo poço, famoso pelo remoinho.Empobrecia, é verdade, mas destruía a causa do vício do marido e da sua própria infelicidade. Nem assim o libertino pôs um paradeiro nos seus despautérios.


Foi muito comentado em toda a região o procedimento heróico daquela mulher. E muitos anos após, quando o gelo da morte a colheu para santa paz, os moradores do povoado viram muitas vezes, ao soar da meia-noite, uma bola de fogo a subir e a descer pelo rio, sem parar um só instante no mesmo lugar.


Essa bola de fogo marcava, no ponto em que surgia, o local preciso em que a decidida esposa precipitara o tacho de ouro, com o auxílio da escrava, que lhe jurara jamais revelar o seu segredo.

Estrada Real se refere aos caminhos trilhados pelos colonizadores desde a descoberta do ouro

ESTRADA REAL

© Diego GazolaItambé do Mato Dentro - Trecho entre Itambé do M. Dentro e Morro do Pilar - Diego GazolaTrecho entre Itambé do M. Dentro e Morro do Pilar
O termo Estrada Real se refere aos caminhos trilhados pelos colonizadores desde a descoberta do ouro em Minas Gerais até o período de sua exaustão. Um passeio nessa estrada é um retorno a história, é voltar no tempo dos tropeiros que chegavam em seus cavalos e adultos e crianças faziam festa com a chegada da tropeirada. Quem vive por essas bandas guarda na lembrança o tempo em que o ouro 'brotava no chão' e acolhe como ninguém quem chega a essas paragens.

São muitos os trechos que podem ser percorridos na Estrada Real e cada roteiro esconde tesouros históricos, culturais e de belezas naturais. Nessas trilhas, homens e mulheres de variada ordem buscaram espaços de sobrevivência e de produção de bens e na busca, construíram vida, memória e história.

Ir por esses caminhos é desbravar e penetrar no interior num percurso de prazer e de fuga do cotidiano. A Estrada Real, antes era um lugar que o ouro habitava, hoje é uma mina de ouro para o turismo. Tem atrações para o ecoturista, para os interessados em história, para amantes de cavalgadas e caminhadas.

O turismo constrói um sistema de significados para as coisas que legam prazer ao viajante. E nessa construção, estabelece relações entre a vida material do passado, a paisagem e os costumes e a realidade de quem busca diversão, conhecimento, fuga do cotidiano.

Reconhecer um espaço como 'turístico' é elaborar uma construção cultural. É dar sentido e significado a coisas e a costumes de tempos diversos e de pessoas diferentes do turista. Esse processo dá forma a uma narrativa que orienta a busca de cada viajante e que antecipa os prazeres que podem ser buscados e alcançados. Nessa narrativa, visualizam-se alguns pontos, aspectos ou lugares e lançam-se à sombra outros que não se quer ressaltar ou que não foram entendidos pelo narrador.

Ao turista/viajante cabe verificar o que foi iluminado e o que foi deixado à sombra. E tirar de ambos os prazeres que seus sentidos captarem. Nenhum roteiro, portanto, antecipa o prazer e nenhuma narrativa indicadora satisfaz a necessidade de conhecer. Assim, nenhum mapa ou guia tem a pretensão de esgotar as informações ou de informar sobre tudo o que se viverá na viagem.

A alegria de ver um chafariz centenário em Glaura, de conversar entre duas igrejas de Acuruí, de participar de uma festa religiosa no Serro, de admirar a paisagem de Milho Verde, de perceber a paz de Itapanhoacanga, de aproveitar a hospitalidade de Córregos, de banhar-se em cachoeira de São Gonçalo do Rio das Pedras, de comer um pastel de angu em Conceição do Mato Dentro, de ouvir uma seresta em Diamantina, de admirar a lua em Catas Altas, de cochilar em um banco de varanda de fazenda dos arredores de Barão de Cocais, de tomar uma pinga em Sabará ou de ouvir os casos de tropeiros que (incrível) ainda existem pelas lindas trilhas da Serra do Cipó, tudo isso e muito mais é reservado ao turista/aventureiro que se dispõe a abrir seu coração para a percepção de outros cotidianos, muito distintos do seu.

A experiência turística, mesmo que permeada de informações prévias, é única e é surpreendentemente construída na viagem. Não se deve abrir mão dessa surpresa. Não se deve deixar que a sedução das imagens fáceis da vida comum supere a claridade do dia, o som da noite, o odor da terra, a beleza das matas, a brisa fria dos morros, a vivacidade das pedras.

A Estrada Real deve ser construída culturalmente. Deve-se dar a ela significados históricos e preservar-lhe a memória. E grandes esforços devem ser investidos por nossas instituições para que isso ocorra. Deve-se propiciar ao turista informações e estrutura para que seja possível a experiência turística. Espera-se do turista um desmedido amor ao ambiente natural, à vida material e aos costumes de homens e mulheres que vivem na região visitada.

Abra o coração ... e pé na Estrada!