domingo, 21 de fevereiro de 2016

Amazônia: Interesse Internacional

Quatro grandes regiões econômicas, quase autônomas, caracterizavam a sociedade brasileira à época da independência por: o Grupo Grão-Pará e Maranhão vivendo na base da economia florestal das especiarias, das "drogas do sertão" e da agricultura do cacau, arroz e algodão; a Região Nordeste, onde dominava a economia do açúcar na zona da mata, do criatório no sertão e no rio São Francisco; o Complexo Minas-Rio de Janeiro-São Paulo, com certo grau de articulação política, agricultura mais diversificada e núcleos de mineração; a Frente Gaúcha com predominância pecuária e uma política voltada à defesa, face ao contato e a possibilidade de conflito com a fronteira platina .
Os relacionamentos entre essas atividades econômicas eram tênues e desarticulados. Já se observava certo grau de interligação entre a região mineira e a pecuária do sul, e entre a região açucareira com a do criatório do agreste baiano e do sertão do Piauí. Porém, essas interações estavam subordinadas às oscilações, aos interesses dominantes e aos centros de decisão dos grandes mercados europeus e norte-americanos.
A região amazônia atravessou a primeira metade do século XIX em completo isolamento. A relativa prosperidade agrícola ressentia-se da falta de mão-de-obra e capitais, agravada pela dificuldade de comunicação e transporte e pela escassa população já que grande parte da população indígena havia sido dizimada pelas epidemias e pela escravidão.
A excessiva centralização administrativa e política dessa época levou à incorporação como províncias do Império apenas as capitanias do Pará, Maranhão, Goiás e Mato Grosso. A autonomia da Amazônia deu-se somente em 1850, quando foi criada a Província do Amazonas, com sede na cidade da Barra, que adotou o nome de Manaus em 1856.
Por essa época, começou nos Estados Unidos uma forte campanha para a colonização da Amazônia e o aproveitamento de seus recursos naturais em benefício do progresso da humanidade. Inglaterrra e França tinham claras intenções de expandir seus territórios nas Guianas, fazendo-os chegar até o rio Amazonas. Desde o início da colonização portuguesa, o governo imperial havia mantido a política de fechamento, evitando possíveis ameaças à soberania do Brasil na área. Como as pressões foram grandes, o governo brasileiro acabou por abrir o Amazonas à navegação estrangeira em 1866. Isso facilitou o acesso à borracha.
O látex foi elevado à categoria de matéria-prima industrial a partir de 1823, com a descoberta da impermeabilização por MacIntosh, nesse mesmo ano, e da vulcanização, por Goodyear, em 1839. Com a expansão do comércio da borracha, iniciava-se nova fase de ocupação da Amazônia.
Até 1850, a exploração da borracha estava restrita à região de Belém e às ilhas. Entre 1900 e 1910, a borracha foi o produto mais exportado, ao lado do café. Os primeiros rios a serem utilizados para o transporte comercial foram o Xingu e o Tapajós, depois o Amazonas até atingir o Solimões, o Purus, o Alto Madeira e o Juruá.
Grandes empresas estrangeiras, importadoras de bens e exportadoras de borracha, estabeleceram suas filiais em Belém e Manaus, e fixaram os preços no mercado internacional. Financiavam os seringalistas, donos ou posseiros das áreas onde estavam as seringueiras. O seringalista fornecia ferramentas e alimentação aos trabalhadores, que deviam trazer-lhe determinadada quantidade de borracha.
Com a exploração da borracha, as principais companhias de navegação passaram a ligar Belém e Manaus aos portos europeus e norte-americanos de maior importância.
Nessa época, iniciou-se a migração de turcos, sírios, libaneses e judeus. Eles praticavam o comércio baseado na troca de mercadorias. Recebiam principalmente a borracha - furtada da quota que deveria ser entregue ao patrão - e outros produtos regionais.
Em 1910, a borracha alcançou no mercado internacional a maior cifra, tendo o Brasil exportado o equivalente a 50% da produção mundial. Em 1911, a cotação da borracha começou a baixar, devido ao baixo preço oferecido pelo sudeste asiático; em 1877, mudas de seringueira haviam sido levadas ilegalmente pelos ingleses para a Malásia, estabelecendo plantações que superariam a produção brasileira. Em 1926, a produção brasileira equivalia a apenas 5% do mercado. O volume de borracha cultivada, que em 1910 era de 8 mil toneladas, subiu para 360 mil toneladas em 1920. Mas a baixa oferta da borracha pelos asiáticos deu origem às falências no Brasil, concretizada em 1913. Embora o governo federal, já em 1912, tentasse uma operação de salvamento com o Plano de Defesa da Borracha, os resultados foram insatisfatórios. A fome atacou a região. Muitos dos migrantes voltaram para suas terras, deixando para trás um território que voltou à letargia de meio século antes.
A decadência da borracha permitiu que se canalizasse a infra-estrutura já existente para a coleta da castanha-do-pará, cuja exportação teve uma enorme expansão no início deste século. A principal zona em que se concentram os castanhais nativos, o Médio Tocantins, teve, em conseqüência, grande impulso econômico: Marabá, centro dessa região, tornou-se a segunda cidade mais importante do Pará.
Várias regiões amazônicas desenvolvem a pecuária desde tempos remotos da colonização. A mais tradicional é a ilha de Marajó, onde a criação de gado é uma herança dos missionários. Durante todo o período colonial até os anos 40, a ilha teve a maior concentração de gado da Amazônia.
A partir dos anos 20, para encorajar a ocupação e garantir uma atividade econômica estável, foram feitas várias concessões de terras, principalmente a empresários ou imigrantes estrangeiros.
Desses megaprojetos de colonização, ficou famoso o de Henry Ford, que, em 1926, comprou do governo paraense uma área de 2 milhões e meio de hectares, com isenção de impostos, para cultivar seringueiras, pretendendo produzir ali 40 mil toneladas anuais de borracha. O fracasso da colônia, localizada às margens do Tapajós, em Fordlândia e Belterra, foi atribuído por Ford à presença de fungos que destruíam as folhas das árvores. Na realidade, deveu-se à imperícia de derrubar a floresta natural, rompendo o equilíbrio ecológico, ocasionando mudanças nas condições do solo e do clima.
A partir de 1929, os nipônicos começaram a fixar-se em vários pontos da região amazônica. Tomé-Açu, no Pará, tornou-se o assentamento mais importante, ficando famosa pela produção de pimenta, transformando-se no terceiro município em receita no Estado.
As pimentas são uma das grandes cobiças do homem branco na região. Foto: Etiénne Samain
As plantações de pimenta se espalharam por todo o Pará e outros estados, como Amapá, Rondônia, Maranhão e Mato Grosso. A crise econômica, entretanto, fez com que, só em 1990, 3 mil pessoas abandonassem Tomé-Açu. Os japoneses do Pará, reunidos em cooperativas, cultivam, ainda hoje, vários tipos de frutas.
Em 1938, os nipônicos introduziram a juta na região. Os caboclos aprenderam as técnicas da produção dessa fibra, hoje cultivada nas várzeas do Amazonas, desde Santarém (PA) até Manacapuru (AM).
Nos anos 40 surgiu, no Médio Tocantins, uma atividade complementar à coleta da castanha: a garimpagem de diamantes. A partir de Marabá, houve surtos localizados que precipitaram a ocupação dos vales do Tocantins e do Araguaia. O ouro, desde a época dos bandeirantes, vem sendo explorado em várias localidades de Rondônia, Roraima, Mato Grosso, Amapá, Pará e Tocantins. As explorações de ouro e diamante utilizam técnicas primitivas de extração.Mas como o ouro era tão abundante(aluvião) os garimpeiros tiravam 10 kilos dia,cada um, com pouco esforço. Agora o ouro está mais difícil,não dá mais tão fácil, como era, dizem que era só cavar 30/60 cms e tirar kilos de ouro aluvionar, mas a reserva é enorme para minerações,ouro no quartzo, primário, teor alto,falta pesquisar.  O mercúrio, utilizado cada vez mais na extração do ouro, representa um grave dano ao ecossistema local.
Na década de 50 foram criados vários órgãos encarregados de fomentar o progresso local, fortalecer sua economia e melhorar as condições de vida de seus habitantes.





Fonte: O LIBERAL DO PARÁ
DIAMANTES
OURO

Amazônia - da Pangéia à Biologia Molecular

Amazônia - da Pangéia à Biologia Molecular
  
 


























 
"A bacia amazônica é uma dessas grandezas tão grandiosas que ultrapassam as percepções do homem". Mário de Andrade, 1927



Uma massa continental única, a chamada Pangéia, enfeixava os atuais continentes sul americano e africano, no período paleozóico. Água salgada fluía pela região da Amazônia e alcançava, possivelmente, o Peru e a Bolívia. O final deste período geológico marca a incorporação definitiva ao continente das bacias Amazônica, do Acre e do Maranhão. Ao final do período geológico seguinte, com início no Cretáceo e com auge no Cenozóico, a Amazônia experimentou a mais estupenda transformação: a Gonduana quebrou-se no hemisfério Sul formando o que hoje conhecemos como América do Sul e África. No mesmo período, ao final do Mioceno, deu-se o levantamento dos Andes, cessando a drenagem orientada para o Oceano Pacífico e, aos poucos, as águas da Bacia Amazônica passaram a fluir para o Atlântico.
Neste momento, passa a desenhar-se o mapa da região tal como conhecemos hoje. Mais tarde, a diminuição do nível do mar durante o período glacial e os conseqüentes processos de erosão e sedimentação com formação de grande lagos, dão o retoque à superfície, com formações espetaculares como a de Alter-do-Chão. O aumento do nível do mar que ocorreu em seguida, represou os rios da Amazônia e uma grande quantidade de sedimentos depositou-se às margens dos rios de água branca e formou as "várzeas", enquanto os rios de água preta se tornaram mais profundos. Desenharam-se, assim, as condições básicas para a radiação evolutiva dos animais e das plantas. O resultado podemos apreciar hoje, sobrevoando, navegando e andando na região amazônica, a maior região de florestas tropicais do mundo.
A região tem 7,5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 4,8 milhões (cerca de 65%) estão localizados no território brasileiro, sendo que 3,87 milhões de quilômetros quadrados compõem a Região Norte do Brasil. O tamanho da Amazônia brasileira se torna evidente quando o comparamos ao tamanho do território de outros países. Sua área corresponde a 23 países juntos (vide figura). A floresta amazônica cobre cerca de 80% da região. A área de captação hidrográfica da bacia se estende desde 79oW (rio Chamaya, Peru) a 46oW (rio Palma, Brasil), de 5oN (rio Cotingo, Brasil) a 17oS (alto Araguaia, Brasil). Isto faz da Amazônia o maior e mais tropical dos ecossistemas, comparável em tamanho apenas aos ecossistemas tropicais africanos. A Amazônia brasileira tem mais de 11.000 quilômetros de fronteira com os outros países amazônicos: Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia.
A Amazônia, um mar de florestas num oceano de água doce, como bem notou Avé-Lallemant em seu livro Rio Amazonas, já em 1859, não é uma região homogênea como pode parecer do alto, durante o sobrevôo. A região é um caos de ilhas, um mosaico fluido de pequenos igarapés, rios colossais, pequenos lagos que brincam de esconde-esconde, lagos maiores que resistem ao desaparecimento na seca, águas de todas as cores, árvores de todos tamanhos, peixes de todas as formas, e um mundo sem fim oculto aos nossos olhos. Parece monótona a região para os menos atentos, mas não: ela é dinâmica - não apresenta nenhum dia igual ao outro. O sobe e desce das águas, o silêncio ensurdecedor que em algumas áreas recria sons esquecidos, o cair das árvores, o pôr-do-sol, o vento, a friagem, a chuva, a ilha que se move, as migrações dos homens e dos bichos, o abraço-da-morte, o peixe que "anda" de um lago para outro, o peixe que morre afogado!, o tubarão que confunde o tipo de água, mas não sua imensidão, criam, a cada dia, um desenho novo para esse Eldorado que urge conhecer e está a demandar todo o cuidado da ciência.
Nas suas cores primárias, as águas da Amazônia apresentam-se brancas, pretas e claras. Ao se encontrarem, resistem a se misturar, estranham-se, acentuam suas diferenças. O espetáculo é inesquecível. Ao misturarem-se lentamente, surgem cores secundárias. Muitas delas. A natureza trabalha as cores em matizes determinados pelo volume de água de cada tipo primário. Odégradé acompanha-se de um gradiente das qualidades químicas e físicas. Assim: temperatura, densidade da água, pH, produtos em suspensão, bióxido de carbono, oxigênio dissolvido, todos esses elementos vão variando no tempo e no espaço, de maneira delicada, sensível. Uma série de adaptações incríveis ocorre nos organismos viventes nessas águas e possibilita que passem quase ilesos por tamanha variação regional e temporal. Que significam essas adaptações do ponto de vista biológico, do ponto de vista evolutivo, do ponto de vista econômico?
Considere-se que as adaptações ocorrem em todos os planos da organização biológica. São adaptações comportamentais, fisiológicas, bioquímicas e genéticas. As primeiras adaptações, vale dizer, as adaptações comportamentais, ocorrem no nível do indivíduo, ao passo que aquelas ditas genéticas ocorrem no nível da população. Aquelas são rápidas, estas requerem gerações. São elas que têm tornado possível nossa vida na Terra. Estamos falando da vida do homem, da vida dos bichos, da vida das plantas. Mais do que a existência dela em cada canto, em cada ecossistema, as adaptações têm proporcionado a explosão da vida. Cada população isolada, adapta-se ao seu lugar. Reproduz-se. Diferencia-se dos semelhantes de outros recantos. Assemelha-se mais e mais com os de seu espaço. Nasce uma nova espécie. Diversifica-se a vida. Com uma variabilidade espacial e temporal sem paralelo, a Amazônia abriga uma fauna e uma flora que não podemos quantificar. A isso chamamos de biodiversidade. Mas quantas são as espécies animais e vegetais? Quantas são as variedades de cada espécie? Difícil mesmo estimar, quanto mais quantizar. Podem ser mais de 200 espécies de árvores num único hectare, mais espécies de peixes em apenas um rio ou igarapé do que todas as espécies que ocorrem em bacias hidrográficas inteiras de países temperados e sub-tropicais. Quanto aos insetos, nem estimar! Cada um desses organismos carrega as informações que aperfeiçoou durante o processo evolutivo. Informações para viver, para sobreviver. Qual seria o valor econômico dessa realidade para o homem moderno?
As características geográficas e biológicas da Amazônia sempre a tornaram inatingível para o modelo nacional de desenvolvimento. Estudá-la sempre fora dispendioso demais. Investir nos seus segredos sem conhecê-la continua sendo arriscado. Foi relegada por décadas aos aventureiros, exploradores e conquistadores e ficou exposta ao extrativismo predatório por muito tempo. Na década de 50, finalmente, duas iniciativas do governo brasileiro são postas em prática na busca da defesa de tão valioso patrimônio nacional - a criação da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e a criação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Aquela com objetivo de reativar a economia regional e esta, uma clara resposta do governo Vargas à idéia da UNESCO de instalar em Manaus o Instituto Internacional de Estudos da Hiléia Amazônica (IIHA). O decreto de criação do INPA em de 29 de outubro de 1952, revela a questão da segurança nacional ao estabelecer como finalidade do INPA "O estudo científico do meio físico e das condições de vida da região, tendo em vista o bem estar humano e os reclamos da cultura, da economia e da segurança nacional." Em 1960, a SPVEA é remodelada e passa a chamar-se SUDAM - Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia. A preocupação de integrar a região ao resto do país resultou na construção de rodovias e usinas hidrelétricas. Algumas iniciativas ou parte delas, a selva desfez, o mato destruiu. Resposta da natureza. O modelo energético, equivocado, deixa mais de 9 milhões de cidadãos sem energia em pleno século XXI. Falta a luz, falta a comunicação, falta ação coordenada. Acumulam-se as tentativas de encontrar uma saída para a integração da região. Pensa-se, concebe-se e instala-se a Cidade Científica de Humboldt, o sonho de transformar a floresta em Eldorado auto-sustentável. Esta tentativa, outro equívoco pois vale-se de soluções importadas, não desenvolvidas na Amazônia para a Amazônia. A natureza de novo põe à mostra o que a torna forte, sua pujança. Na década de 60, mais dois projetos: a Universidade Federal do Amazonas e a SUFRAMA (Superintendência da Zona Franca de Manaus). Para aquela os recursos têm sido insuficientes. Esta, valendo-se da importação de tecnologia poderia ajudar a superar o atraso da região em relação aos estados do Sul e aos países desenvolvidos. Discute-se hoje, 30 anos após, a validade do modelo.
Para a Ciência e Tecnologia, o preço dos trágicos equívocos que se acumulam é alto. São pouco mais de 500 doutores trabalhando nas diferentes instituições da região. O baixo investimento na pesquisa levou a um distanciamento entre a comunidade científica local e o poder público. Pouco mais de dois por cento dos recursos federais para C&T são aplicados em toda a Amazônia legal. O modelo concentrador de investimento em C&T promove ainda mais o atraso da Amazônia. O interesse internacional sobre a região cresce. Não há pessoal qualificado para contrapor-se a essa pressão. Leis e portarias para limitar o trânsito de material biológico são editadas perante o risco iminente. Busca-se isolar ainda mais a região como se uma cerca pudesse impedir a troca de conhecimento e o fluxo de material. Mais desacertos, pois a única saída é a qualificação de gente da gente para recuperar o tempo perdido. Não se trata de pôr fé cega na ciência, mas de julgá-la o único caminho que pode ser trilhado com segurança.
Na década de 90, o mundo desperta para o ambientalismo. A Amazônia é o foco, e é transformada em "totem". A responsabilidade por ela é propalada como sendo de todos os amazônidas e de cada cidadão do mundo. As pressões externas crescem para evitar a progressão do desmatamento. O mundo sabe que cada hectare de floresta destruída corresponde à destruição de uma parte da história evolutiva de um grupo de plantas e animais que pode ser de grande relevância para o futuro da própria humanidade. A comunidade científica, entretanto, tem consciência da questão muito antes desse "grito de socorro" do mundo. Há uma mistura de interesse científico e econômico, difícil de separar. A fronteira do conhecimento está, sem dúvida, na interação que os organismos tropicais mantêm com seus delicados ambientes. Na Amazônia, principalmente. Por isso, muitos projetos científicos, acordos de cooperação e expedições científicas são, então, implementados: Projeto Max-Planck, Smithsonian, JICA, Alpha-Helix, CIDA/Canadá, Finlândia, Orstom, entre outros tantos. Melhor quando se dão entre nós, dentro de nossas instituições, num trabalho de interesse comum, possibilitando-se avaliação de resultados. A falta de contrapartida nacional, entretanto, aproxima perigosamente nossa comunidade do interesse externo. O abandono da qualificação de pessoal e da geração de tecnologia, com a conseqüente falta de consolidação de laboratórios, aparecem de forma substantiva. Universidades e Institutos de Pesquisa não estão aptos a atender, na velocidade exigida, as necessidades e as demandas atuais, por parte da sociedade, de ciência e tecnologia. Necessidades de nossa gente particularmente mas também da sociedade globalizada, internacional. É preciso, urgente, qualificar e fixar cientistas na Amazônia. Na Amazônia toda. É preciso estimular a interação nacional, reduzir as distâncias internas. Trata-se mesmo de buscar uma maior reciprocidade interna.
A necessidade de qualificar e fixar pessoal na Amazônia leva à concepção do Projeto Norte de Pós-Graduação. Uma iniciativa arrojada que associa todas as Instituições de Ensino Superior da Amazônia em torno da causa. São muitas as reuniões. Delas participam de forma ativa as agências de fomento do governo. A CAPES e o CNPq abraçam, então, o projeto. Contam-se os sucessos. E os insucessos. A falta de recursos financeiros vem a ser a maior pedra no caminho do projeto. Formou-se mais e melhor, mas perdeu-se mais gente qualificada para os grandes centros. Estabelecer grupos de pesquisa em regiões onde prevalece o abismo demográfico é difícil. A Ciência é uma atividade social, com função social. É necessário dialogar, confrontar idéias. Discutir. Conceber novas propostas. Definir caminhos. Na Amazônia, faltam os pares. Eles estão longe. Além mar.
Ainda nesta década, o grupo dos sete países desenvolvidos, reconhecendo a importância mundial da Amazônia, ajudou a desenhar o Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais e o suporta financeiramente. O núcleo do Programa é a preservação ambiental e o uso sustentado do meio ambiente. Buscou-se a recuperação física das duas principais instituições de pesquisa da Amazônia: o INPA e o MPEG (Museu Paraense Emílio Goeldi). Projetos de pesquisa começam a ser implementados. Falta, ainda, gente qualificada. Faltam cientistas. Faltam pesquisadores. Faltam professores. Outros programas são reativados ou concebidos. O velho Programa do Trópico Úmido (PTU) ganha a responsabilidade de trabalhar o uso econômico da biodiversidade e lidar com a questão das energias alternativas. Surge o PROBEM (Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável da Biodiversidade Amazônica). O projeto GENAMAZ da SUDAM define nove macro-setores primários: Bio-agro-industrial; Florestal madeireiro; Pesqueiro; Saúde Tropical; Mínero-metalurgia; Energia; Social; Transporte; Eletro-eletrônica. Estes programas todos reconhecem que não temos a tecnologia que precisamos mas que precisamos de ciência e tecnologia para ocupar a Amazônia.
A Amazônia é uma realidade única. Tem sua gente. Tem sua cultura. Tem seus interesses. Também dá sua contribuição ao desenvolvimento nacional. Aprendeu da Pangéia à Biologia Molecular que não há fórmulas importadas capazes de minimizar suas carências. Não há como construir uma cerca ao seu derredor. Aprendeu que pode e vai encontrando seus próprios caminhos, respeitando a vida, parte da biodiversidade, do que vai escondido em cada relação da gente, dos bichos e do mato com um meio ambiente sem fronteiras, que se define na própria indefinibilidade, que se torna conhecido na mesma medida do seu desconhecimento, que se mede na sua própria imensurabilidade.

Peixes ornamentais garantem a economia de Barcelos-AM


 
 
   
Peixes ornamentais garantem a economia de Barcelos-AM
  
 


























 Todo ano aproximadamente 20 milhões de peixes ornamentais são exportados pela região de Barcelos, localidade de menos de 20 mil habitantes, na margem direita do Rio Negro, na Amazônia.
A captura e comercialização de peixes para aquários nessa região começou na década de 50, quando Herbert Axelrod descobriu a espécie cardinal. Para sustentar essa atividade, existe desde 1989 o Projeto Piaba, com o objetivo de desvendar os sistemas sócio-culturais e ecológicos capazes de garantir a preservação dos peixes ornamentais.
A riqueza de espécies ornamentais na região deve-se a vários fatores: a dimensão espacial da bacia do Rio Negro, a variedade de condições ecológicas, além da conexão com outras bacias hidrográficas, como a do Orinoco e do Solimões que, ao juntar suas águas com as do Rio Negro, formam o Rio Amazonas. Essas ligações permitiram a proliferação de diferentes espécies em Barcelos.
Uma curiosidade específica da região são as águas escuras do Rio Negro. Os pesquisadores Andréa Waichman e Paulo Petry do Projeto Piaba, explicam que a águas escuras são pobres em nutrientes. O material alóctone (proveniente de outros ambientes), neste caso originário da floresta, é a principal fonte de matéria e energia nestes sistemas. Assim, justificam os pesquisadores, não há a ocorrência de uma grande biomassa, o que propicia a reprodução de peixes de pequeno porte. Eles encantam pelas cores e formas exóticas e por isso mesmo são utilizados para a ornamentação de aquários.
O desenvolvimento dos peixes ornamentais ocorre principalmente nos igapós e igarapés da floresta, áreas total ou parcialmente inundadas. A melhor época para a captura é durante a vazante e seca dos rios. Na época das cheias, eles se dispersam pelos igapós, procurando alimentos e assegurando a reprodução.
Na época das cheias, maio a julho, o Ibama proíbe a pesca e comercialização do cardinal. A preocupação, neste caso, é assegurar a reprodução.
Existem registros de 750 espécies na bacia do Rio Negro, mas somente 100 dessas são exploradas comercialmente, avaliam os pesquisadores. O cardinal tetra é a espécie mais importante e representa 80% do volume comercializado. Além dele, outras espécies exportadas são rodostomus, corydoras, borboleta, otocinclus e o acará disco.
A atividade, em toda a região, resume-se à exploração, na natureza. Para a captura são utilizados instrumentos que não ameaçam essas pequenas criaturas: rapiché, puçá e armadilhas passivas, chamadas cacurí, todas elas de origem indígena.
O pescador de peixes ornamentais, "piabeiro", trabalha de dia ou à noite, dependendo da espécie que procura: "Com um cardume localizado, são pacientemente conduzidos para o rapiché ou puçá, e, retirados para o interior de cestas de palha forradas com saco plástico, com água do igarapé", explica Andréa.
Depois de capturados, os peixes são levados para um acampamento, onde são montados viveiros no próprio rio. Depois disso, são levados para Barcelos e, seguem uma viagem de 30 horas até Manaus.
Nas lojas de exportadores, os peixes são mantidos em instalações de quarentena: "Há um cuidado profilático realizado pelos exportadores para detectar e eliminar doenças ou fungos, diz Carlos Freitas diretor da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade da Amazônia.
Estudos do Projeto Piaba mostram índices de mortalidade baixos. O percentual não passa de 5% , da captura à exportação.
No mercado internacional, os maiores concorrentes do Brasil nessa área são Colômbia, Peru, Venezuela, Malásia e Chile. Mas já existem países no sudeste asiático, além da antiga Checoslováquia que criam as espécies amazônicas em cativeiro.
No Brasil, não há outros centros fornecedores de peixes ornamentais, além de Barcelos. O Pará tem alguma produção, mas em pequena quantidade, segundo os pesquisadores.
O exportador Asher Benzacken avalia que as maiores dificuldades nessa atividade são as elevadas tarifas aéreas e os vôos em número reduzido ligando Manaus a centros de consumo potencial. Isso torna os peixes de Barcelos mais caros que os dos países concorrentes. Benzacken critica ainda a portaria do Ibama que regulamenta esse extrativismo. Argumenta que ela "é antiga, e espécies ornamentais que poderiam ser comercializadas são proibidas por não constarem na lei".
Apesar de toda atividade econômica local estar baseada na exploração de peixes ornamentais ainda não foram detectados impactos ambientais produzidos pela atividade. Não é preciso destruir a floresta para extrair os peixes, o que não acontece em outras atividades exploratórias da Amazônia como o garimpo e a madeira. Segundo Waichman e Petri, os piabeiros sabem que preservando a floresta, também asseguram suas fontes de renda.
Os pesquisadores ressaltam que não serão leis de proteção que tornarão a atividade maior e mais eficaz, mas um plano de ordenamento e manejo sustentável para a atividade. "O plano de manejo sustentável exige o conhecimento da dinâmica do recurso explorado, da sócio-economia deste recurso, e no caso dos peixes ornamentais, do mercado internacional. As pesquisas do Projeto Piaba, estão orientadas para fornecer respostas a essas perguntas", diz a Andréa Waichman. Nas últimas décadas, os níveis de exportação têm se mantido estáveis em aproximadamente 20 milhões de peixes, o que, interpreta a pesquisadora, indica que os estoques suportam este nível de captura.
Para a cidade a atividade é muito importante. Representa 60% da economia do município e estima-se que 80% dos 16 mil habitantes trabalham direta ou indiretamente nessa atividade. Anualmente a mais tradicional festa municipal é a Festa do Peixe Ornamental.
Para promover a conscientização da importância dos peixes ornamentais, o Projeto Piaba tem trabalhado junto a escolas e professores de Barcelos, além de manter aquários públicos.
Atualmente estão sendo desenvolvidas pesquisas na área de estresse produzido durante o transporte, limites de tolerância às condições da viagem, e padrões de qualidade da água para garantir a sobrevivência durante o transporte e nos aquários. "Acreditamos que esta atividade além de ser uma das principais fontes de renda do município, ajudará a conservar a floresta", acreditam os pesquisadores. O lema do projeto que desenvolvem é "Compre um peixe ornamental, salve uma árvore na Amanônia".

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Exploração mineral: um país sem memória

Exploração mineral: um país sem memória


20/02/2016
 
Você sabe onde está guardado o gigantesco acervo coletado pelas centenas de empresas de mineração, que investiram bilhões ao longo de décadas em pesquisa mineral no Brasil?

Estou falando de um tesouro de informações valiosíssimas: da geologia, geoquímica, testemunhos de sondagens, análises químicas, dados geofísicos e muitos outros trabalhos técnicos executados no nosso país.

Onde foi parar esse patrimônio, cujo valor é medido em bilhões de dólares e que pode (e deve) ser disponibilizado para os trabalhos de exploração mineral futuros?

Um patrimônio que nos irá propiciar novas riquezas, se disponibilizado aos pesquisadores minerais que atuam no País.

O que eu estou falando não é pouca coisa...

Tratam-se de milhões de metros de testemunhos de sondagem, centenas de milhões de análises químicas, incontáveis relatórios técnicos, centenas de milhares de mapas geológicos, milhões de quilômetros quadrados cobertos por geofísica terrestre e aérea além de incontáveis investimentos feitos em exploração mineral no Brasil.

A resposta, como alguns já devem imaginar, é assustadora!

A maioria deste acervo de imenso valor está, simplesmente, perdido.

O motivo deste desastre é o desinteresse do governo e a falta de uma legislação clara sobre o assunto.

No Brasil as empresas de pesquisa mineral não são obrigadas a fornecer, obrigatoriamente, ao Governo os dados da pesquisa geocodificados, após um período de carência.

O que fica da pesquisa mineral, neste país, são os relatórios entregues ao DNPM, geralmente mal feitos, cheios de copy paste e generalidades: a chacota de muitos que os veem.

Inócuos, com muito pouco conteúdo técnico esses “pesos de papel” são repletos de informações de pouco valor, copiadas dos livros de geologia e dos relatórios de mapeamentos geológicos feitos pelo Governo. Relatórios feitos para cumprir com as obrigações da legislação mineral.

Pouco ou nada adicionam à geologia ou à sociedade.

E, para desgraça do país, eles, praticamente nunca, contêm os bancos de dados analíticos e geofísicos que embasaram as suas conclusões.

Onde foram parar os milhões de metros de testemunhos de sondagem perfurados nas últimas décadas? Um acervo de valor geológico inestimável que certamente foi lançado no lixo por falta de armazenagem.

O DNPM , que deveria concentrar o acervo da pesquisa mineral brasileira, nada faz.

Por não agir como um verdadeiro órgão fiscalizador e certificador, fica relegado à mediocridade dos relatórios técnicos que acumula.

As milhares de toneladas de papel, acumuladas pelo DNPM, por incrível que pareça, não são disponibilizadas ao público.

É um festival da mesmice anacrônica, pois até hoje esses relatórios ainda não são digitais e nem são utilizados para embasar pesquisas minerais ou trabalhos científicos.

Onde estão os bancos de dados digitais da geoquímica e geofísica, que deveriam, obrigatoriamente fazer parte dos relatórios. As fotografias dos testemunhos de sondagem?

O que nós constatamos é que praticamente TODA a pesquisa mineral feita no Brasil está indo para o lixo.

O problema é recorrente. Somente as junior companies estavam investindo, há poucos anos, quando o país ainda fazia pesquisa mineral, bilhões de reais ao ano em exploração mineral...

Hoje a maioria das empresas de pesquisa mineral já abandonaram o país, que pouco ou nada lhes ofereceu a não ser o descaso. Os dados? Possivelmente engavetados a beira do esquecimento: a falência de um sistema sem memória.



Como geólogo fico horrorizado com a perda que o Brasil sofre, por falta de legislação e de um órgão certificador oficial.

Se o DNPM tivesse em seus quadros profissionais qualificados, aceitos internacionalmente, os Competent Persons (CPs), ele poderia fazer, não só a vistoria dos projetos, mas a primeira certificação e auditoria dos dados (o QAQC). Neste caso, como em um passe de mágica, caberia ao DNPM a confirmação de que esses dados foram obtidos dentro de uma norma brasileira (tipo JORC), aceita internacionalmente.

Então não teríamos este prejuízo bilionário e, possivelmente, não precisaríamos ter que empregar geólogos estrangeiros (Competent Persons) que nada conhecem do Brasil para certificar os nossos projetos.

O DNPM seria uma referência, não o órgão abandonado e ineficiente que se tornou.

Temos que criar uma legislação que obrigue, a todas as empresas de pesquisa mineral a fornecer os seus bancos de dados de geologia, geoquímica e geofísica, geocodificados, ao Governo e ao público, após um período de cinco anos da aquisição.

Esta informação pertence ao Brasil e como tal deve ser disponibilizada para seu benefício.

Desta forma a exploração mineral brasileira poderá usufruir de milhões de dados altamente relevantes que servirão para embasar os programas futuros.

Não seríamos o que somos: um país sem passado, que abandonou completamente a exploração mineral.

Já discuti esses pontos em várias reuniões com a participação das grandes empresas de mineração do Brasil, do DNPM e da CPRM. Mas, graças à falta de interesse de uns e da negação de outros, nunca chegamos a lugar nenhum.

Hoje quando vejo as milhares de toneladas de papéis de baixa qualidade, sem uso e fora do alcance do pesquisador, acumulados nos prédios do DNPM, percebo que erramos feio.

Somos um país sem memória e, ao permanecer no erro, negamos o futuro aos nossos jovens.

Em um mundo digital, onde o Big Data virou a fonte de tesouros inimagináveis, nós nadamos contra a corrente e nem sequer somos capazes de armazenar e disponibilizar a informação adquirida em nosso próprio solo.

Mas ainda tem tempo para mudar. ..

Depósito de ouro da Beadell no Amapá começa a produzir no 2º trimestre de 2016

Depósito de ouro da Beadell no Amapá começa a produzir no 2º trimestre de 2016



A Beadell Resources informou  que vai iniciar o estágio 3 do depósito de ouro de alto teor Duckhead, no Amapá, depois de ter obtido as licenças necessárias. Com a ampliação da cava a céu aberto, o depósito, que faz parte da mina de ouro Tucano, vai 28,7 gramas de ouro por tonelada de minério, cerca de 20 mil onças, no segundo trimestre de 2016.