domingo, 17 de julho de 2016

As gemas vêm do interesse dos homens há 10000 anos.

As gemas

As gemas vêm do interesse dos homens há 10000 anos. Ametista, Cristal de rocha, Âmbar, Granada, Jade, Jaspe, Coral, Lápili-lazúli, Pérola, Serpentina, Esmeralda e Turquesa foram as primeras a serem conhecidas.
Não existe uma definição aceita por todos para esse termo, porém há um denominador comum, todas as gemas têm algo especial, alguma beleza em torno delas. Elas são principalmente minerais (Safira), minerais agregados (Jaspe), orgâincas (Pérola), sintéticas (Esmesralda Sintéticas) ou mais raramente rochas (Lápili-Lazúli). As Gemas podem ser, por algum processo de aprimoramento de sua cor ou aparência, tratadas.
Algumas gemas são raras e belas devido a cor, a um fenômeno óptico exclusivo, ou brilho diferenciado. Outras são especiais devido a sua dureza ou inclusões excluvisas.
A raridade é outro fator importante na avaliação de uma gema. Como algumas das características que valorizam as gemas só se apresentam depois da pedra estar lapidada, o termo gema geralmente refere-se a uma pedra lapidada. A lapidação é a valorização de um material que de outra forma poderia passar apenas como um material bruto insignificante.
Existem centenas de tipos diferentes de gemas e materiais gemológicos. Como sabemos a atribuição de valor para gemas é um processo bastante subjetivo. Raridade, cor, tamanho, grau de pureza, transparência, formas e perfeição de lapidação são alguns fatores que têm grande influência na avaliação.Além disso, a diversidade de procedência das gemas, a situação político-econômica do país produtor e a distância do local de produção aos centros de consumo levam os mercados envolvidos a estabelecer valores de formas variadas.
Devemos considerar que outro fator de influência na avaliação de gemas é a complexidade dos vários níveis de mercados existentes e como são interpretadas as cotações em cada um desses níveis.
Comercialmente, as gemas são divididas em pedras coloridas e diamantes (mesmo os que não são incolores) além de ambas terem seu peso medido em quilate (1ct=0,2g).
2 – ESMERALDA
O nome vem do grego smaragdos. Ele significa “pedra verde”(Foto 3). É a mais nobre variedade de berilo.
Seu verde é tão incomparável que esta cor tão peculiar passou a ser chamada de verde-esmeralda. A substancia corante para a esmeralda é o cromo. A cor é muito resistente à luz e ao calor, não se modificando até uma temperatura de 700 ou 800°C.
As esmeraldas são formadas pro processo hidrotermal associado ao magma e metamorfismo. Jazidas são encontradas em filões de pegmatito ou em seus arredores.
2.1 - Jazidas mais importantes:
Mnia de Muzo (Colômbia) (foto 4), Mina de Chivor (Colômbia), jazidas na Bahia, Minas Gerais, Goiás; Zimbabue, África do Sul e Russia.
 
Foto 1: Mina de Muzo. Colômbia. Foto 2: Esmeraldas colombianas. Colômbia.
Unicamente na Colômbia são encontradas as raríssimas esmeraldas “Trapiche”(foto 5) caracterizado por um crescimento parecido com uma roda, de vários cristais prismáticos.
As jazidas de Minas Gerais se extendem desde o norte de Rio Casca até o sul de Guanhães. Nessa área deve-se destacar as minas Belmont (a maior do Brasil), Piteiras e o garimpo de capoeirana (cooperativa).

Foto 3: Esmeralda “Trapiche”. Mina Chivor (Colômbia).
Para Schrorcher et al. (1982), a geologia básica dos terrenos encontrados na região Itabira/Nova Era é caracterizada por um embsamento cratônico arqueano composto basicamente por terrenos gnáissicos migmatíticos, comcaracterísticas poligenéticas e polimetamórficas, incluindo rochas graniticas do tipo Granito Borrachudos; por um cinturão de rochas verdes arqueanas pertencentes ao Supergrupo Rio das Velhas; por metassedimentos do paleoproterozóico do supergrupo Minas; e pelos metassedimentos do mesoproterozóico, constituído essencialmente por quartzitos do Supergrupo Espinhaço.
Em termos estratigráficos, o Garimpo de Capoeirana e as Minas Belmont e Piteiras estão localizados em uma área onde afloram metarcóseos a metagrauvacas com intercalações concordantes de mica xistos e quartzitos micáceos. Secundariamente, há rochas anfibolíticas, intercalacões de xistos metaultramáficas e aparecimento descontínuo de veios pegmatíticos. Nesse contexto, as metaultramáficas e os veios pegmatíticos são as rochas mais importantes para mineralização da esmeralda.
Em relação a genese da esmeralda, todas as jazidas e/ou ocorrências de minas Gerais estão associados aos xistos derivados de rochas metaultramáficas, em locais de intensa percolação de fluidos hidrotermais relacionados aos pegmatitos, devido as condições tectônicas propícias. Esses xistos, representados essencialmente por biotita/flogopita xisto, clorita xisto, tremolita/actinolita xisto.
As áreas mineralizadas ocorrem nas proximidades do contato entre xistos metaultramáficos e as rochas granitos gnáissicas, do tipo Granito Borrachudos, estéreis em esmeralda.
A formação das esmeraldas mineiras (foto 6) está intimamente associada à interação química ocorrida entre a fase pegmatítica berilífera e as rochas metaultramáficas portadoras dos elementos (Cr, V, Fe).

Foto 4: Esmeralda Mineira, Coloração devida ao íons de Cr, V, Fe. Itabira, MG.
3.2 - Aspectos mineralógicos:
De cor verde claro a muito escuro ao verde azulado muito forte, tranparente a translúcido, brilho vítreo, dureza de Mohs 7,5 a 8, acatassolamento ou “olho-de-gato e asterismo (raro). Índice de refração de 1,577 a 1,583(± 0,017), pleocroísmo de moderado a forte, fratura conchoidal de brilho vítero a resinoso, clivagem basal, inclusões bifásicas e trifásicas, cristais negativos, “plumas” líquidas e inclusões minerais (micas da série biotita-flogopita, hornblenda, actinolita, tremolita, pirita, calcita, cromita, dolomita, pirrotita); o aspecto geral das inclusões nas esmeraldas é conhecido como “jardim” que são utilizadas como um “selo de autenticidade” das esmeraldas naturais diferindo-as das sintéticas.
A explotação da esmeralda no garimpo de Capoeirana é feita por meio de poços, túneis e galerias, com técnicas de mineração rudimentar e sem preocupação com o aproveitamento total das esmeraldas gemológicas e meio ambiente(foto 7).

Foto 5: Garimpo Capoeira. Nova Era, MG.
Na Mina Belmont a elplotação é realizada a céu aberto e subterrânea (foto 8), contando com sistema mecanizado desde a extração até o beneficiamento final. Na lavra a céu aberto, o xisto altamente decomposto favorece, sobremaneira a retirada mecânica do material esmeraldífero. Todo material explotado, tanto na mina a céu aberto quanto no subterrâneo, é transportado por meio de caminhões para usina de beneficiamento, onde o material é deslamado (separação de finos, <2mm), depois separação granulométrica, separação ótica, onde todo material verde é separado por uma máquina e por fim catação manual das esmeraldas (foto 9).
 
Foto 6: Mina Subterrânea, Mina Belmont. Itabira, MG. Foto 7: Catação Manual, Mina Belmont. Itabira, MG.
Além da Belmont Mineração podemos cita ainda empresas como: Rocha mineração, Beibra, Garipo de capoerana, Garimpo na Bahia na cidade de Anagé, Itaobi Campos verde ( GO ), Mineração Alexandrita
Existem muitas esmeraldas de grande valor e fama. A maios famosa das jóias de esmeralda é um pequeno frasco de unção de 12cm de altura e 2205 quilates talhado de um único cristal de esmeralda.
PREÇOS DE ESMERALDAS LAPIDADAS
Cotações por quilate em dólares americanos
FRACA (TERCEIRA)
1 - 22 - 33 - 4
de 0,50 a 1 ct2 - 1010 - 3535 - 60
de 1 a 3 ct2 - 1515 - 5050 - 80
de 3 a 5 ct2 - 2020 - 6060 - 80
de 5 a 8 ct2 - 3030 - 6060 - 100
acima de 8 ct2 - 5050 - 6060 - 100
MÉDIA (SEGUNDA) BOA (PRIMEIRA)
4 - 55 - 66 - 77 - 8
de 0,50 a 1 ct60 - 9090 - 170170 - 250250 - 360
de 1 a 3 ct80 - 230230 - 390230 - 520520 - 820
de 3 a 5 ct80 - 300300 - 510510 - 620620 - 1200
de 5 a 8 ct100 - 430430 - 580580 - 750750 - 1600
acima de 8 ct100 - 440440 - 700700 - 850850 - 1900
EXCELENTE (EXTRA)
8 - 99 - 10
de 0,50 a 1 ct360 - 660660 - 2000
de 1 a 3 ct820 - 11001100 - 3500
de 3 a 5 ct1200 - 17001700 - 5500
de 5 a 8 ct1600 - 30003000 - 5600
acima de 8 ct1900 - 40004000 - 9000
Atualizado em outubro de 2005
3 – ALEXANDRITA
A gema alexandrita (Foto 11e 12), descoberta nos Montes Urais (Rússia), foi batizada em homenagem ao Czar Alexandre II que no dia da descoberta completava 12 anos de idade.
 
Foto 8: Alexandrita lapidada. Antônio Dias, MG Foto 9: Cristal de alexandrita. Antônio Dias, MG
No Brasil esta gema foi descoberta na década de 70 em pequenos garimpos no Espírito Santo e Bahia. Pórem a produção se revelou pequena e de baixa qualidade.
Em Minas Gerais, a primeira descoberta aconteceu em 1975, no Córrego do Fogo, município de Malacacheta e em 1986 foi descoberta a que seria a maior jazida já registrada na história, no distrito de Hematita, no município de Antônio Dias. Atualmente essa área é explotada por duas empresas: Alexandrita Mineração Comércio e Exportação Ltda, detentora da maior jazida de alexandrita do mundo, com uma reserva de aproximadamente 60kg e a Mineração Itaitinga.
Além dessas duas jazidas, existem outras ocorrências de alexandrita, pórem sem importância econônica associadas às jazidas de esmeralda, como em Belmont, Capoeirana e Esmeralda de Ferros.
3.1 - Principais Jazidas:
Brasil, Sri Lanka, Zimbáue, Birmânia, Madagascar, Tanzânia e Russia (esgotadas).
Para que ocorra a cristalização da alexandrita, além do excesso de alumínio e deficiência em sílica é necessária a presença de uma fonte de cromo. Na grande maioria das ocorrências de alexandrita no mundo, são descritos processos geológicos envolvendo rochas ácidas e ultramáficas em ambientes ricos em alumínio (Munasinghe & Dissanayake 1981, Ustinov & Chizhik 1994).
Na jazida de Hematita, observam-se inúmeros pequenos corpos pegmatóides cortando as rochas ultramáficas da região, e, nos concentrados aluvionares, constata-se a presença de cianita, granada, berilo (esmeralda e água-marinha), crisoberilo, estaurolita, muscovita, plagioclásio, e quartzo. Desse modo, a jazida de Hematita enquadra-se no modelo de Beus (1966) de pegmatitos ricos em Al2O3.
Relacionando os aspectos geológicos observados na região de Malacacheta, com a presença de corpos graníticos e intercalações de rocha metaultramáfica com xisto peraluminoso, Basílio (1999) propôs uma gênese baseada num sistema metassomático envolvendo fluidos hidrotermais de alta temperatura, ricos em berilo e oriundos do corpo granítico. A interação desses fluidos com os xistos aluminosos e suas intercalações metaultramáficas, fonte de cromo, propiciaram a formação da alexandrita.
Em relação às ocorrências de alexandrita associadas às jazidas de esmeralda, pouco se sabe.
A cor, a mudança de cor (efeito alexandrita) e o forte pleocroísmo são fatores determinantes na qualidade da alexandrita.
3.2 - Aspéctos Mineralógicos:
Sob a luz natural, a alexandrita apresenta-se verde ou mais raramente azul (foto 13) e quando iluminada por luz incandescente, mostra-se em tons de vermelho e violeta.
Seu intenso tricroísmo é caracterizado, variando nas cores verde, amarelo, vermelho e, mais raramente, azul. Assim como no rubi e na esmeralda, sua cor é resultante da presença de íons  substituindo parte parte do alumínio nas posições octaédricas da estrutura cristalina.
Dureza 8,5; clivagem boa; fratura conchoidal;brilho vítreo ao subadamantino;mudança de cor; pleocroísmo

Foto 10: Alexandrita azul. Antônio Dias, MG
Quanto a explotação o método usado é igual ao método da esmeralda
PREÇOS DE ALEXANDRITAS LAPIDADAS
Cotações por quilate em dólares americanos
Fraca (Terceira)Média (Segunda)Boa (Primeira)Excelente (Extra)
até 0,50 ct15 – 150150 - 500500 - 15001500 - 2000
de 0,50 a 1 ct40 – 250250 - 10001000 - 30003000 - 4500
de 1 a 2 ct70 – 500500 - 28002800 - 55005500 - 7000
de 2 a 3 ct90 – 800800 - 38003800 - 65006500 - 9000

De volta ao Orinoco, seguindo von Humboldt

De volta ao Orinoco, seguindo von Humboldt


O céu era um teto baixo de nuvens negras. O chão, água enfurecida e ondas de dois metros. O transporte, uma canoa de 13 metros, feita de uma tora só, cavada com machado e moldada a fogo. A equipe, cinco indígenas, dois espanhóis, um cão mastim, pássaros, macacos, centenas de amostras de flores e folhas. E dois jovens cientistas: o alemão Alexander von Humboldt (1769-1859) e o francês Aimé Goujaud Bonpland (1773-1858).

Era 18 de abril de 1800, e os dois viajantes, que já andavam pela América do Sul há meses, estavam entrando na remota bacia do Médio Orinoco, de onde, dizia um ditado, “quem vai não volta, ou volta louco”. Iriam estudar a geologia, a fauna e a flora da região. E averigüar a existência de um rio lendário, o canal Casiquiare, que não nascia de fonte e não caia no mar. Mais de duzentos anos depois, fomos lá para seguir as pisadas de Humboldt. Também num barco de 13 metros, porém de alumínio e com motor de 40 Hp. Com o diário de viagem do cientista na mão, com o pano de fundo uma paisagem natural quase intocada, idêntica à que ele viu há dois séculos, vimos o que mudou. Numa área ainda hoje remota e quase inabitada, há ainda missionários caçadores de almas. Mas chegaram também os caçadores de ouro e o espectro da guerrilha.

Descida no rio Orinoco
A cidade que Humboldt não viu 
Nossa viagem começa num acampamento turístico à beira do rio Orinoco, perto dos rápidos de Atures e Maipures, que eram para Humboldt uma oitava maravilha do mundo. “Nada pode ser mais grandioso que esta região”, escreveu o alemão, “…suas imensas corredeiras, o lençol de espumas e vapores iluminados pelos raios do pôr-do-sol…”). Na noite de 18 de abril de 1800, Humboldt e seus companheiros acamparam aqui perto. Mas não viram o que nós vimos. Porque Puerto Ayacucho, latitude 5, porta de acesso à Amazônia venezuelana e ao Médio Orinoco, em 1800 não existia. Foi inventada em 1924, com 200 habitantes entre selva e planícies, para ser o último posto navegável subindo o Orinoco. Hoje é uma cidade de 80 mil pessoas, cercada por um cerrado despenteado verde brilhante, alternado às manchas pretas de rochas graníticas. Ayacucho cresceu graças à migração de índios e mestiços para áreas urbanas, ao turismo e a negócios com a Colômbia (logo no outro lado do rio), lícitos e menos lícitos: contrabando de ouro, de gasolina (que na Venezuela custa menos de 9 centavos por litro) e de drogas. Acampado, Alexander von Humboldt escrevia: “além das Grandes Cataratas, uma terra incógnita começa… Uma terra de fábulas, de visões e de fadas”. Na época, acima das cataratas somente três tímidos assentamentos de brancos ousavam violar a margem do Orinoco, preguiçoso gigante de águas marrons. No interior, ninguém se arriscava. Na floresta inexplorada viviam, de acordo com índios e missionários, raças de homens com um só olho, outras com cabeça de cão e boca no meio do estômago, e o salvaje, uma espécie de homem-macaco. Duzentos anos depois, turistas vêm para brincar de rafting entre as corredeiras.

“A secunda descoberta da América” Friedrich Wilhelm Alexander von Humboldt foi considerado o homem mais famoso do mundo, em sua época, junto com Napoleão. Foi elogiado por Goethe, Darwin e Simón Bolívar, que o chamou de “verdadeiro descobridor da América do Sul”. Estudou direito, economia, línguas, geologia, botânica, química, física, astronomia, zoologia, anatomia. Foi funcionário público, mas sempre sonhou com uma grande expedição científica que lhe permitisse buscar uma “ciência universal”, capaz de mostrar “a profunda unidade da natureza”. Quando, em 1796, sua mãe morreu, Humboldt dedicou toda sua herança ao projeto, gastando até o último centavo para comprar os mais avançados instrumentos científicos (dezenas), pagar a viagem (a do companheiro Bonpland também) e, em sua volta, publicar a imensa mole de dados recolhidos. Junto com Bonpland (“boa planta”, apelido que o botânico tinha desde a infância), embarcou de Corunha em junho de 1799. Os dois cientistas fizeram escala em Tenerife e chegaram em julho em Cumana, na atual Venezuela. Ficaram explorando a costa vários meses. Em fevereiro de 1800, se dirigiram para o interior, rumo ao Orinoco, que exploram ao longo de 4 meses, percorrendo mais de 2700 km. Em novembro, viajaram para Cuba. Meses depois, percorriam as Andes, escalando o Pichincha e o Chimborazo, na época considerado o pico mais alto do mundo. Chegaram em Lima em outubro de 1802. Viajaram enfim ao México, onde residiram durante um ano. Seguiram para os Estados Unidos e foram homenageados pelo presidente Jefferson. Voltaram à Europa em agosto de 1804, como heróis. Haviam descrito e recolhido milhares de plantas e centenas de animais, estudado as linhas isotermas e os peixes elétricos, os fenômenos magnéticos e as propriedades do guano, as correntes oceânicas e as tempestades tropicais, o vulcanismo e as chuvas de meteoros. Hoje, existem uma dezenas de lugares, no mundo, com o nome Humboldt. E, até na Lua, há um Mare Humboldtianum. Em nossa viagem repetimos somente a parte amazônica da extraordinária viagem do Humboldt, na bacia do Médio Orinoco e do rio Casiquiare, no âmbito de uma expedição financiada pela revista italiana Focus Storia e pela empresa de turismo Kel12.

A viagem 
Saímos do acampamento logo cedo, perdendo um jantar à base de bachacos, grossas formigas do género Atta, consideradas uma iguaria (“voarão amanhã”, explica Saúl, faz-tudo do acampamento, “e será fácil pegá-las no mato, ou em casa, atraídas pela luz”). Partimos do porto de Samariapo, o primeiro acima dos rápidos, e subimos o Orinoco rumo a latitudes decrescentes. A viagem é dura até para quem está acostumado com a Amazônia. Passamos dias inteiros no barco, debaixo de chuvas violentas. Nosso chuveiro é o rio, toalete é a floresta, cama uma rede militar de plástico. Os mosquitos são de espantar por número e ferocidade. Humboldt lamenta deles quase a cada página de seu diário: são tema também de quase todas nossas conversas. A paisagem é imponente, mas quase sufocante: um muro verde de mata fechada é o único horizonte. Às vezes, o rio não parece ter margem, porque onde a floresta começa, as águas não terminam. Penetram a selva, submergindo-a. Numa pequena comunidade de índios Piaroa, tomamos uma bebida à base de farinha e seje, como chamam aqui o fruto de bacaba. Duzentos anos antes Humboldt fez o mesmo: “parece leite de amêndoa”, escreveu. Só encontramos crianças e idosos na aldeia. Os adultos passam o dia nas roças e na pesca, enquanto os adolescentes tiveram que abandonar as famílias. Para poder estudar, se transferem para os internatos, colégios católicos nas comunidades de Isla Ratón ou de San Fernando de Atabapo, que já na época de Humboldt era uma base de missionários. Chegamos lá no dia seguinte. A cidade surge no ponto em que o rio Atabapo, negro como Coca-Cola, corre paralelo às águas claras do Orinoco e do Guaviare, criando um contraste cromático esplêndido. Na época do Humboldt, S. Fernando era uma pequena missão. Hoje tem um vistoso posto de fronteira da Guardia Nacional Venezuelana, que mostra os músculos em direção à vizinha Colômbia, com brilhos de artilharia pesada e barcos de guerra. Na pequena aldeia do outro lado do rio, combates entre as Fuerzas Armadas Revolucionarias Colombianas (Farc) e o exército deixaram dezenas de famílias de desplazados.


Garimpeiro mostra pó de ouro compra
seus mantimentos, álcool e paga mulheres
Ouro e balas 
Um dia depois, desembarcamos em Cárida. Ouvimos um ruído seco, como de marteladas. A atmosfera é desoladora. A aldeia é uma praça barrenta, cheia de lixo. Muitas casas são cobertas com plástico rasgado, pedaços de alumínio, telas. Vejo a origem do ruído. Algo que Humboldt não viu. Numa cabana, uma garota Piaroa senta no chão, com duas crianças, uma arara e um tucano, cercada por um mar de latas de cerveja vazias. Bate, amassa e põe num saco. É raro encontrar cerveja no Médio Orinoco. Nas comunidades indígenas não existe, em muitas comunidades dos brancos sua venda está proibida. Mas aqui é Cárida, terra de ouro e balas. Antigamente era uma aldeia Piaroa, hoje é uma interzona mestiça, onde os índios devem lidar com uma modernidade que só parece mostrar sua face cruel. Estamos em frente ao monte Yapacana, área de altíssima biodiversidade, parque nacional e terra indígena invadida por centenas de garimpeiros clandestinos armados, em sua maioria vindos da Colômbia e do Brasil, que ninguém tira de lá. A obsessão antiga dos europeus pela busca de um El Dorado se alia aqui com maquinarias novas, que escavam, sugam e filtram terra e lama da selva, cuspindo venenos: mercúrio, prostituição, alcoolismo, doenças, violência. Pergunto quanto a garota ganha batendo as latas. O professor da escola, um garoto, ri: “Não é um bom negócio, gringo. Dois quilos dão uma raya”. Não existe dinheiro aqui, tudo se paga em rayas, riscas de pó de ouro, cerca de 0.1 gramas. Um garimpeiro abre uma garrafinha que tem pendurada no pescoço e me mostra duas riscas. “Isso dá para uma cerveja. Seis rayas, um frango assado”, explica. “Eu consigo quase 5 gramas de amarelo por dia”, continua. O ouro do garimpo é suficiente para comprar álcool e mulheres (que às vezes são mantidas como escravas perto do garimpo). É suficiente para voltar na sexta à noite da selva e beber até segunda. Nunca basta para voltar ricos para casa. Os garimpeiros pagam a um patrão para usar espaço e máquinas. Pagam comida, gasolina e equipamento a um preço altíssimo. Quase sempre se tornam prisioneiros de um sonho. E podem matar ou morrer para defendê-lo. Em 1993, não muito longe dali, em Haximu, garimpeiros brasileiros exterminaram uma aldeia Yanomami inteira.

Preparamos o barco. A nosso lado, uma canoa com soldados da Guardia Nacional. “Eles estão aqui para expulsar os garimpeiros da área indigena?”, pergunto para um colombiano. “No, señor”, responde. Estão aqui, explica, para cobrar a propina. Cem gramas de ouro para cada máquina montada na montanha. “Já tem quinze máquinas, lá em cima”, conta um índio. “Cairá, a montanha, com tantos buracos…”. Desesperados, garimpeiros em busca de um futuro invadem o presente dos índios. Cinco gramas de amarelo por dia, em troca de uma vida negra como o inferno.

Los gringos 
Após dias de viagem, estimo em cerca de 400 as picadas de mosquito puri-puri que vejo em meu corpo, apesar de mosquiteiro e repelente, dos quais nunca abri mão. Dormir já se tornou quase impossível. Chegamos à boca do rio Casiquiare. Hoje, se chama Tama-Tama. É uma aldeia indígena ao lado de uma “base de los gringos”, missionários evangélicos norte-americanos da New Tribes Mission. “A obra do Senhor não será cumprida até quando existirem povos que não conhecem sua Palavra”, me explica Brian, piloto de avião e missionário. Assim, eles vivem anos juntos a tribos com pouco ou nenhum contato com os brancos, para traduzir a Bíblia em todas as línguas e pregá-la. A obra deles é polêmica. Foi criticada por antropólogos, missionários de outros grupos e por lideranças indígenas. A evangelização feita pela Missão Novas Tribos foi acusada de ser agressiva e violenta. Isso porque os missionários consideram pecado os índios se pintarem de urucum (o corpo é o templo do senhor, dizem, e não deve ser sujado), como também consideram obra do demônio os cantos e as danças indígenas, que os índios devem abandonar ao se converter. Interrogo Brian, e também lhe pergunto da investigação do governo venezuelano contra eles e das ameaças que, dizem os índios, os guerrilheiros da Farc fizeram. A resposta é sintética e cortante: “se Deus não nos quisesse aqui”, explica, “se nossa missão não fosse também a Dele, já estaríamos mortos, ou presos”.

Esmeralda 
Antes de entrar no Casiquiare, subimos mais um pouco o rio Orinoco, como fez Humboldt. Em duas horas estamos em Esmeralda. Nos tempos de Humboldt era uma minúscula comunidade para onde, escreve o cientista, os missionários eram enviados de castigo. O castigo eram os mosquitos, que aqui se chamam, sem nenhum exagero, “a praga”: Esmeralda parece realmente a capital mundial desses insetos. Visitamos o hospital, onde um médico cubano sorri e nos socorre com pomada e comprimidos. Têm problemas mais sérios que nossas picadas: a malária mata famílias inteiras na região. E nessa temporada há também picada de cobras. Hoje, Esmeralda é uma pista de pouso (construída acima de um gigantesco leito de cristais de quartzo, trocados por esmeraldas por conquistadores ingênuos), com uma cidadezinha a seu redor. Têm um grande colégio salesiano para índios, principalmente Yanomami, Yekuana, Kurripaco, Piaroa. Converso com eles: a maioria quer se formar para voltar para aldeia como professor indígena.

O dono da única loja de conveniência da região mostra orgulhoso umas fotos. Era dono também de um acampamento de pesca esportiva. “Reconhece o cara?”, pergunta. Reconheço: nada menos que George Bush pai. Em outra foto, vejo Jimmy Carter. Em outra ainda, Bush Junior, atual presidente dos EUA, juntos com Cisneiros, o “homem mais rico da Venezuela”. Bush, explica o comerciante, vem aqui freqüentemente para pescar. Enquanto senta em seu barco, um helicóptero de guerra com armamento pesado voa na sua cabeça para vigiar. Mesmo sem esmeraldas, Esmeralda tem uma atmosfera remota e esplêndida. Em seu horizonte, o Duida, monte sagrado dos Yekuana, quase inexplorado. Humboldt não continuou subindo rumo às fontes do Orinoco, por medo das flechas envenenadas de pequenos guerreiros de pele clara, na época quase desconhecidos, que os outros índios chamavam de Waika. São os Yanomami. Hoje, Esmeralda continua sendo a fronteira de seu território na Venezuela: o último lugar aonde um branco pode chegar sem autorização do governo.


Aldeia Yanomami no Casiquiare
O Casiquiare 
Entramos, enfim, no canal Casiquiare. Quando Humboldt chegou aqui, em 21 de maio de 1800, estava tão exausto que, apesar da alegria por ter medido as coordenadas do rio misterioso, não comentou senão com poucas linhas em seu diário. Nós estamos entusiasmados. Somos recebidos por um engraçado véu de noiva feito por centenas de formigas de asas brancas. Os pássaros, após dias de chuva, estão festejando o sol equatorial. Em meia hora observamos falcões, tucanos, garças, airões, araras, martim-pescadores. E duas tribos de hoatzin: cômicas, barulhentas e desajeitadas aves de aparência pré-histórica. Bizarria idrológica, o canal Casiquiare não tem fonte nem foz. Nasce de uma bifurcação do Orinoco que acaba caindo em outro gigante, o Rio Negro: duas entre as maiores bacias fluviais do mundo são conectadas. Muitos, na época de Humboldt, não acreditavam. O geógrafo francês Philippe Buache afirmou que o Casiquiare não passava de uma lenda, “um erro geográfico monstruoso”. Humboldt, que em seus diários dedica dezenas de páginas à vida e costumes dos indígenas, confiava neles: “são excelentes geógrafos”, disse. O canal, hoje como nos tempos de Humboldt, é quase inabitado, cúmplices, a malária e os pouquíssimos espaços não inundados da região. Paramos num pequeno acampamento de Kurripaco, que falam também a língua geral, inventada pelos jesuítas duzentos anos antes que Humboldt passasse por ali. Estão comendo um jacaré. Irene, corajosa líder indígena Colombiana, me conta sua vida incrível. Enquanto tira, com um espinho de limoeiro, os dois bichos-de-pé que descobri ter pêgo, me explica quão absurdo e violento pode parecer o mundo, e quão difícil é sobreviver, para um índio, no fogo cruzado das opostas imposições de paramilitares, guerrilheiros, exércitos, leis e fronteiras nacionais.

No dia seguinte visitamos uma aldeia-fantasma Yanomami, abandonada por uma epidemia de malária, e paramos em outra comunidade que vive em condições difíceis. Após algumas horas, o xamã nos convida para assistir a um grande ritual. Na casa, há xamãs de várias aldeias e muitos homens com suas armas, tomando o pó alucinógeno chamado yãkõana. Ficamos um dia com eles. A experiência é tão extraordinária que não conseguiríamos descrevê-la no espaço desta reportagem.

Rio Negro 
Dormimos numa comunidade ao pé da pedra Culimacari. Foi ali que Humboldt mediu as coordenadas do Casiquiare. Subo a pedra com grande dificuldade e com a maior inveja do meu guia, que anda rápido enquanto eu deslizo na pedra úmida, arranho minhas pernas e acabo coberto de lama e folhas. Mas vale a pena. A floresta inundada é um triunfo de fungos, borboletas, morcegos, beija-flores, sapos. E a vista da selva, lá em cima, dá o calafrio do infinito. No outro dia, entramos nas águas do Rio Negro e chegamos a San Carlos del Cocuy, última etapa do trajeto amazônico de Humboldt. O alemão não pôde continuar. Carregava caixas cheias de mapas, sextantes, bússolas, lentes e microscópios. Os portugueses imaginaram que fosse um espião dos espanhóis medindo caminhos e rotas naquela área estratégica, e prepararam um mandato de prisão para ele. Diferente dele, nós pudemos passar. Revistados pela polícia federal, visitamos Cucuy, no lado brasileiro. E San Felipe, em território Colombiano. Mostro meu passaporte ao oficial venezuelano antes de pegar a canoa para o outro lado do rio. Posso ir, “mas sem câmara nem caderno”, aconselha o militar. “Lá é área de guerrilha”, explica. Turistas, desde que não americanos, são aceitos pelas Farc. Mas nada de fazer perguntas ou tirar fotos. Em San Felipe não tem posto de fronteira nem controle de identidade. Não tem prefeito, polícia ou exército. Mas o hospital, a igreja, a escola e as lojas funcionam, administradas pelos guerrilheiros, que cobram impostos da população.

Um dia depois, um avião minúsculo nós leva para longe da selva. A vista do monte Autana, sagrado aos Piaroa, mergulhado nas nuvens, é de tirar o folego. De volta a Ayacucho, lembro fotogramas desta viagem única. As gigantescas árvores de Ceiba, as águias e os falcões, as crianças indígenas brincando com nossa canoa e assobiando para chamar os botos no rio. Lembro nosso suor, nossa pele suja de repelente, suor e poeira. Lembro os garimpeiros e seus revólveres, os caçadores de almas e as orquídeas, o orgulho corajoso dos yanomami, a vida difícil dos Yekuana, Piaroa, Kurripaco. Lembro selvas possantes e remotas, lembro a guerrilha e os militares, a massa amarga do tabaco e os cantos indígenas. E um ditado que me contaram aqui: “Deus te aperta, mas não te enforca”. Parece sob medida para esta terra forte, remota e ferida.

Quem é o dono?

Quem é o dono?
Uma esmeralda de 380 quilos encontrada na Bahia é alvo de disputa entre cinco americanos. Seu valor? US$ 370 milhões




Esmeralda da bahia: a pedra encontrada em 2001 foi inicialmente negociada por R$ 10 mil
O que poderia ser a salvação de garimpeiros que passam a vida em busca da pedra perfeita tornou-se o centro de uma disputa de proporções internacionais. O alvo é uma esmeralda de 380 quilos, batizada de Esmeralda da Bahia, extraída da Serra da Carnaíba, em pleno sertão, no ano de 2001. Avaliada em US$ 370 milhões, ela se encontra no departamento de polícia de Los Angeles desde dezembro do ano passado. Motivo: cinco pessoas disseram ser donas da pedra.
O caso aguarda julgamento. At� l�, algumas quest�es ainda devem ser respondidas. N�o est� claro como a pedra saiu do Brasil e foi parar nos Estados Unidos e, muito menos, como, em apenas sete anos, seu valor saltou de R$ 10 mil para US$ 370 milh�es. Tudo isso por uma esmeralda que provavelmente nunca ser� lapidada. � que, apesar do tamanho, a pedra, composta de esmeralda e xisto, um tipo de min�rio da cor negra, n�o serve para ser transformada em joia,pois os cristais que brotam de seu interior t�m pouco valor de mercado.
A Esmeralda da Bahia, dizem os especialistas, � para ser apreciada como uma obra de arte da natureza. A pendenga come�ou quando um garimpeiro da Serra da Carna�ba retirou a gigantesca pedra da mina e a vendeu por R$ 10 mil a um intermedi�rio que, por sua vez, revendeu-a por R$ 45 mil a �lson Ribeiro, um negociador local. Os garimpeiros acreditam que Ribeiro tenha vendido a pedra a um americano n�o identificado e que n�o recebeu nada por isso.
Procurado por DINHEIRO, Ribeiro n�o quis dar entrevista. "Ningu�m sabe onde est�o os pap�is de exporta��o desta pedra e nem como ela foi parar nos Estados Unidos", afirma um garimpeiro local. O curioso � que, em dezembro de 2008, a pol�cia de Los Angeles, nos Estados Unidos, atendeu a um chamado feito pelo investidor americano Larry Biegler, por causa do roubo da mesma esmeralda. Ap�s recuperar o tesouro, a pol�cia soube de outros quatro americanos que se declaravam donos da pedra. Biegler, que denunciou o sumi�o, afirma que mantinha a esmeralda em um dep�sito em Los Angeles e que esta foi retirada de l�.
A pedra foi encontrada com outros dois investidores, Todd Armstrong e Kit Morrison, que disseram t�-la recebido de Biegler como garantia de uma transa��o de diamantes que n�o aconteceu. Biegler, por sua vez, afirma ter conseguido a pedra ao se associar com o ge�logo Keneth Conetto, que comprou a pedra no Brasil e estava tentando vend�-la.
Ao saber do caso, Conetto contratou um advogado para clamar a posse da gema. H� tamb�m o empres�rio Anthony Thomas, que diz ter comprado a pedra no Brasil. "A avalia��o de US$ 370 milh�es � equivocada. � improv�vel que seu valor ultrapasse alguns milh�es. Al�m do mais, o modo como a pedra foi transportada n�o sugere um servi�o de profissionais", afirma H�cliton Henriques, presidente do Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos. Com tantos supostos donos, a esmeralda est� mais pr�xima do ouro de tolo.

Garimpeiro e Predrista apontam dificuldades no comércio de esmeraldas em Campo Formoso e Serra de Carnaiba

Garimpeiro e Predrista apontam dificuldades no comércio de esmeraldas em Campo Formoso e Serra de Carnaiba


Comerciantes reclamam de dificuldades na compra de explosivos e falta de pedras no mercado
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Volta e meia uma das principais atividades econômicas de Campo Formoso, o comércio de esmeraldas, sofre com oscilações. Mas nos últimos tempo a atividade tem passados por mais momentos de baixa que de alta movimentação e negócios. Quem melhor entende da questão, os comerciantes, conhecidos também como pedristas, relatam quais são os principais problemas enfrentados atualmente.
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Faltam fregueses tanto para comprar como para vender as pedras que chegam principalmente do garimpo da Serra da Carnaíba, povoado do município de Pindobaçu. Mas esse problema é resultado de uma soma de fatores. Um deles, enfrentado principalmente no garimpo, é a dificuldade para comprar explosivos para continuar a exploração.
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Para se vender o explosivo o garimpo tem que estar todo legalizado. Então como o garimpo aqui está legalizado, está tudo dentro dos conformes, ainda se vende explosivos, mas não em quantidade como antes vendia, está tudo limitado“, relatou o comerciante campo-formosense Paulo Isaac.

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Para Seu Manoel, em pé à direita, vinda dos indianos tem pontos negativos

Uma operação da Polícia Federal que no final de 2015 apreendeu grande quantidade de pedras que estavam prontas para a comercialização, sob a alegação de sonegação de impostos, também abalou a atividade na cidade. Muitos comerciantes tiveram mercadorias apreendidas e descapitalizaram.

Agora está todo mundo ‘liso’, quem tinha um capitalzinho, que eles levaram as pedras, perdeu. Os donos de escritórios não devolveu não… Nem devolveram as pedras  e nem pagaram o povo“, reclamou o senhor Manoel Gomes da Silva, há décadas trabalhando na Feira do Rato, principal ponto do comércio na cidade.
 
Manoel ainda fala de outra questão que, segundo ele, afeta principalmente os pequenos comerciantes de pedras, a vinda de compradores Indianos para escritórios em Campo Formoso. “Indiano hoje não olha qualquer lote de pedra não. Aí temos que ficar vendendo uns aos outros aqui (na rua), aqui são todos um nível só. Agora os barão (sic), donos de escritórios, se pudessem tirar nossas camisas eles tiravam, tem garimpeiros aqui que vivem com muito pouco.

Caçadores de esmeraldas na Chapada Diamantina

 
Esmeraldas em Campo Formoso BAA cidade de Campo Formoso na Chapada Diamantina é conhecida por suas grutas e pelo comércio de esmeraldas.
A Chapada Diamantina na Bahia e tem em seu território muitas cavernas com diversos tipos de formação interior, além maior gruta, em extensão, do Hemisfério Sul: a Toca da Boa Vista, maior caverna conhecida do Brasil e Hemisfério Sul com mais de 120 km de galerias mapeadas até 2007, é um dos mais importantes sítios espeleológicos e paleontológicos brasileiros.
Conjuntamente com as cavernas vizinhas Toca da Barriguda, Toca do Calor de Cima, Toca do Pitu e Toca do Morrinho, constituem um conjunto de relevância geológica mundial.
Montanhas de beleza rara, vales que parecem não ter fim, rios que se espremem nos corredores de pedras. O conjunto de monumentos impressionantes foi criado pela natureza há 400 milhões de anos, quando a Terra ainda era criança.
No coração da Bahia, as águas do inverno saltam dos pontos mais altos do Nordeste. Um espetáculo exuberante. A Queda d’Água da Fumaça, de quase 400 metros, parece que começa nas nuvens.
Na Chapada Diamantina, a trilha das águas mostra o caminho das pedras. Pedras preciosas, que contam a história de muitos aventureiros. Carnaíba, norte da chapada. O vilarejo com cara de cidade atrai milhares de garimpeiros. As serras da região concentram a maior reserva de esmeraldas do Brasil.

Extração de esmerada na Chapada Diamantina

O empresário Alcides Araújo vive perseguindo a sorte há mais de 20 anos. Ele é um dos grandes investidores na extração de esmeraldas. Alcides diz que ainda não encontrou a sorte grande. Do garimpo dele só saíram pedras de esmeralda de segunda. Mesmo assim não dá para reclamar.
“Já ganhei um dinheiro razoável no garimpo, produzi quase quatro mil quilos. Se tivesse essas pedras hoje, valeria R$ 300, R$ 200 o grama. Já ganhei mais de R$ 3 milhões”, revela o empresário.
Boa parte desse dinheiro está enterrada na jazida que Alcides explora. Fomos ver como os garimpeiros vão atrás das esmeraldas. Uma aventura que requer, além de sorte, muita coragem.
Na maior mina de esmaralda da região, a equipe foi a 280 metros de profundidade. Para chegar lá embaixo, o equipamento é um cinto de borracha conhecido como cavalo. Confira esse desafio em vídeo.
Os garimpeiros são mesmo corajosos. No abismo dos garimpos, a vida anda por um fio. O operador da máquina que faz descer e subir o cabo-de-aço não pode vacilar. A água que cai do teto vem do lençol freático que o túnel corta. Parece uma viagem ao centro da Terra. Mas será que vale mesmo a pena correr tanto risco?
Foram quase seis minutos só de descida. Seis minutos de arrepios. A 280 metros a equipe chegou a um corredor estreito. No rastro da esmeralda, os garimpeiros abrem quilômetros de galerias. Calor, pouco ar, oito, dez horas por dia no estranho mundo subterrâneo. Esses homens vivem como tatus-humanos.
Alegria mesmo é quando o verde começa a surgir na rocha. Sinal de que pode estar por perto o que eles tanto procuram. É preciso detonar a rocha para ver se é mesmo esmeralda. O desejo de enriquecer é mais forte que o medo do perigo. Sem nenhuma segurança, eles enchem com dinamite os buracos abertos pela perfuratriz.
“Costumamos fazer até quatro detonações por dia. A cada detonação, são disparados de dez a quinze tiros”, conta o fiscal de garimpo Klebson de Araújo.
Muita pedra desceu do teto da galeria. O trabalho agora era levar tudo lá para cima e examinar direito as pedras. E o dono do garimpo? Será que ele confia nos seus garimpeiros?
“Eles encontram e a gente fiscaliza. Se facilitar uma coisinha, eles botam dentro do bolso”, diz o garimpeiro Manoel.
“Tem várias formas de levar. Uns dizem que estão com sede, pedem uma melancia para chupar. Partem um pedacinho, colocam as pedrinhas lá dentro e levam a melancia”, denuncia Alcides.
Escondida ou não, esmeralda na mão é dinheiro no bolso. Nos fins de semana, a praça principal da cidade de Campo Formoso vira um mercado movimentado de pedras preciosas. No local, o que menos importa é a procedência. A esperteza sempre prevalece. Esmeralda de qualidade nunca é vendida na praça. Negócio com pedras valiosas é fechado dentro de casa, por medo de assalto.
Os minérios da Chapada Diamantina fizeram fortunas e produziram histórias. Histórias como a de Herodílio Moreira que já viveu dias de glória.
“Já ganhei muito dinheiro com esmeraldas. De comprar mercadoria e ganhar cinco carros de uma vez, de lucro. Hoje esses carros acabaram. Estou querendo dinheiro para comprar uma bicicleta velha”, conta o garimpeiro.
No mundo desses aventureiros, pobreza e riqueza dividem o mesmo espaço. O garimpeiro José Gomes, de 70 anos, também já viveu as duas situações, mas nunca perdeu a esperança.
“Quando vejo na joalheria uma esmeralda em forma de jóia, analiso o que perdi. Vejo as pedras nas lojas valendo milhões de dólares e eu sem nada”, diz ele.