terça-feira, 19 de julho de 2016

" Naquele lugar ele tirou ouro, muito ouro, ainda em 1958. De lá, em 1959 ele foi para o Cuiu."

" Naquele lugar ele tirou ouro, muito ouro, ainda em 1958. De lá, em 1959 ele foi para o Cuiu."


Cinqüenta anos de garimpagem de ouro no Tapajós
Dono de uma memória privilegiada, José Carneiro da Silva, conhecido como José Come Vivo abre a serie especial que o Jornal do Comércio publica a partir desta edição, a qual se estenderá até a última edição deste ano do cinqüentenário da garimpagem de ouro no Tapajós. Através deste projeto, resgata-se e preserva-se um importante pedaço da história de Itaituba e de toda esta região do Tapajós, da qual muita coisa já se perdeu.
José Carneiro da Silva é um dos principais personagens do início da garimpagem de ouro na região do vale do Tapajós. Ele chegou a esta região em novembro de 1958, quando Nilçon Pinheiro já se encontrava explorando alguns grotões e produzindo muito, mas muito ouro.
Nascido no interior do município de Breves, José Come Vivo cresceu trabalhando em seringais, seguindo os passos do pai. Mas, desde cedo ficou fascinado com as notícias do dinheiro fácil que podia ser ganho em garimpos. Seu primeiro contato com a garimpagem aconteceu quando ele foi para Macapá para trabalhar na Icomi, conhecida mineradora americana que explorava uma mina de manganês no Amapá.
Na referida empresa ficou apenas alguns dias, pois muitos trabalhadores foram demitidos, dentre os quais ele. Estabeleceu contato com alguns homens que estavam indo para um garimpo na região do Rio Araguari, sendo esse o começo de sua longa história de ligação com a exploração mineral. Ficou empolgado quando os ouviu dizer que, no garimpo, quem não faturasse 500 cruzeiros por dia não estava fazendo nada. Nessa época um trabalhador recebia dezessete cruzeiros por uma diária na cidade. Essa tentativa deu um resultado razoável; ele ganhou um bom dinheiro, tendo decidido voltar para Belém. É partir daí que José Carneiro começa seu relato, no qual conta toda sua trajetória pelo vale do Tapajós.
“Ao voltar para Belém ouvi notícias sobre a descoberta de garimpos de ouro no Tapajós. Só se falava em Jacareacanga naquela época. No mês de novembro de 1958 eu embarquei no navio Tavares Bastos, determinado a chegar ao garimpo e a encontrar ouro. Fiquei alguns dias em Santarém, de onde segui no mesmo navio para Itaituba, pois como era período de verão ele não chegava a São Luiz do Tapajós, o que só acontecia quando o rio estava cheio. Cheguei por volta do dia 20 de novembro, tendo permanecido aqui por vinte dias.
Os padres tinham um barco de nome “Cor Jesu”, no qual fomos para São Luiz do Tapajós, onde ficamos mais uma temporada, tendo passado Natal e Ano Novo lá. Nessa época o Nilçon Pinheiro, que foi o desbravador dessa região de garimpo, já estava tirando ouro. Ficamos parados em São Luiz por um bom tempo porque não havia transporte para a gente subir. Chegamos dia 5 de dezembro, permanecendo lá até o dia 2 de janeiro de 1959, quando finalmente subimos. Mais de cem homens querendo ir, mas só existiam duas lanchas pequenas que subiam o Tapajós. Uma era a Ida e a outra eu não lembro o nome. Quem ajudou a gente a conseguir embarcar foi o seu Vivaldo Gaspar, com o qual fizemos amizade. Era difícil falar com o velho Roque Pinto e o Zé Bonitinho, que comandavam o movimento comercial na época, os quais poderiam resolver logo o nosso problema.
Eu e mais três companheiros formávamos uma equipe. Pedro Paraíba, Pacheco e seu Manuel eram os outros três. Subimos com destino a São Martins, na Boca das Tropas. Nisso soubemos do início da fofoca no Cuiu-Cuiu e nós resolvemos ficar num lugar chamado Marrafo, em frente à boca do Crepuri. O Nilçon estava começando o trabalho no Cuiu-Cuiu e nós decidimos ir até lá; ele tinha encontrado as primeiras grotas. A gente quis ficar trabalhando com o Nilçon, mas ele disse que não nos queria por lá porque éramos garimpeiros mansos e todo garimpeiro manso era ladrão.
Pegamos um barco de nome Arruda Pinto e fomos para o lugar chamado São Martins, primeiro destino de nossa viagem. Lá encontramos um velho, conhecido por Portuguesinho, que era muito prestativo. Fomos sondar uma grota que havia lá, mas, que já tinha sido explorada pelo Nilçon Pinheiro. Essa foi a primeira exploração na qual ele acertou em cheio; foi onde tudo começou de fato a tirar ouro. Naquele lugar ele tirou ouro, muito ouro, ainda em 1958. De lá, em 1959 ele foi para o Cuiu.
No São Martins eu conversei com um seringueiro, que foi quem encontrou a primeira mina de ouro no Tapajós, o qual me contou como tudo tinha começado e quem começou a exploração do ouro. Segundo ele me contou, o Nilçon começou explorando na cabeceira do Rio Muiuçu, na região do Abacaxi, perto da fronteira do Pará com o Amazonas, conseguindo tirar um pouco de ouro. Mas, era um ourinho pouco, vinte gramas, trinta gramas. Nessa região havia muitos seringueiros, que eram pessoas que andavam muito. Foi através desses seringueiros que o Nilçon fez contato com Jacareacanga, onde passou a buscar seu rancho. A distância para a cidade era de mais ou menos um dia de viagem, de canoa.
Na primeira viagem que fez a Jacareacanga Nilçon conheceu Raimundo Ferreira um seringueiro que trabalhava num seringal, na Boca do Rio das Tropas. Esse seringueiro resolveu acompanha-lo até o garimpo, onde permaneceu por dez dias, observando como tudo acontecia. Ele conseguiu uma cuia e uma bateia e se mandou de volta para o seringal. No caminho ele passava, todos os dias, por dentro de uma grota, que ele cavou, botou a terra dentro da bateia, tendo encontrado pedaços de ouro de vários tamanhos. Aí, ele fez uma caixinha igual a que o Nilçon usava, chamada de lontona e começou a puxar terra e lavar, encontrando ouro com facilidade, que ele colocou dentro de latas de leite ninho. Encheu três latas e meia, somente de pedaços de ouro. Mas, ele não sabia como descarregar a lontona. Então ele foi lá com o Nilçon para que ele o ajudasse.
Quando o Nilçon viu o que o Raimundo Ferreira tinha conseguido, botou para comprar o garimpo. Na ocasião ele deu cem mil cruzeiros, que eu não faço a menor idéia de quanto seria hoje em dia, um motor penta 4,5 e um rádio Philco Transglobe. No Negócio, o Nilçon ficou com todo o ouro que o Raimundo Ferreira tinha conseguido. O Raimundo não fazia a menor idéia do valor do ouro. Achou que tinha feito um bom negócio.
Depois de comprar o garimpo Nilçon foi para Manaus para fazer compras, tendo voltado da capital do Amazonas num barco grande, comprado com o dinheiro apurado com a venda do ouro que tinha entrado no negócio com o Raimundo Ferreira. Como onde estava o ouro nesse garimpo que ele havia terminado de comprar não havia água para lavar a terra, Nilçon colocou mais de cem homens para carregar o material para a beira do Rio das Tropas em latas de querosene, de vinte litros. O ouro começou a aparecer em grandes quantidades. Eu mesmo não cheguei a ver, mas, ouvi muitos garimpeiros dizerem que nesse tempo o Nilçon conseguiu encher de ouro latas e latas de vinte litros.
A partir do momento em que começou a escassear o ouro das Tropas, o Nilçon mandou pesquisar a região do Cuiu-Cuiu. Não demorou para que fosse encontrado o minério no local. Pouco tempo depois que o Nilçon começou a trabalhar lá, eu cheguei, mas não fiquei, como já disse.
Por ocasião de nossa estada na Boca das Tropas eu conheci um seringueiro que trabalhava na região do Pacu. Por meio das informações desse seringueiro a gente seguiu com ele para o são José. Nossa equipe tinha cinco pessoas, à qual se juntaram mais um genro e um filho dele. Começamos a trabalhar e com oito dias já tínhamos mais de 800 gramas de ouro.
Havia muito ouro. A dificuldade era encontrar mercadoria para comprar. Por isso, poucos meses depois que começamos a trabalho pedimos para um dos companheiros, o Araújo, ir a Santarém para fazer uma grande compra, que permitiria que a gente pudesse trabalhar por um bom tempo. Escolhemos o Araújo por ter maior conhecimento de Santarém. Ele levou oito quilos de ouro.
Ao chegar Santarém ele se empolgou. Depois de beber algumas pingas, terminou se envolvendo numa briga, na qual ele atirou na perna de um cara. O Araújo foi preso e para sair gastou quase todo o ouro que tinha levado. Voltou sem quase nada. Isso gerou um atrito muito forte com outro companheiro de trabalho, o Pedro Paraíba. Os dois estiveram perto de se matar. A gente conversou e concordou que a melhor coisa a fazer era dividir a equipe. Assim foi feito. Dividimos a terra, que dava para todos trabalharem.
Depois da divisão, não demorou muito tempo para a gente fazer um bom ouro. Minha turma conseguiu uns dez quilos de ouro em nossa área. A essa altura eu resolvi que era hora de dar um pulo em Belém para visitar a família, que eu não via há mais de um ano. A minha parte nos dez quilos foi de um pouco mais de três quilos de ouro. Deixei um quilo de ouro guardado com o velho Roque, em São Luiz do Tapajós, deixei um quilo com a Dona Ditosa, esposa do seu Duarte, em Santarém e levei um quilo e 50 gramas para Belém, onde vendi o grama por 92 cruzeiros. Era o segundo semestre de 1960”.
Na próxima edição o leitor saberá o que se podia comprar com um grama de ouro nessa época da qual discorre José Carneiro, saberá da expansão das suas frentes de trabalho, de como começou o garimpo do Marupá, começo do trabalho com maquinário etc.
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"O garimpo foi bom para mim"

"O garimpo foi bom para mim"

Tolentino Ferreira Sousa, personagem desta edição da série 50 Anos do Garimpo de Ouro no Tapajós, tem pouco mais de 1,60 cm de altura. Franzino, ele não encarna o biótipo do garimpeiro forte, fazendo parte do grupo dos que provam que tamanho não é documento. Nasceu no dia 26 de setembro de 1936, embora tenha sido registrado como nascido no ano de 1938.

Aos 72 anos de idade Tolentino já não tem mais saúde para continuar enfrentando a dureza do trabalho no garimpo. Por isso, passa os dias na boa casa que construiu na 19ª Rua (Bela Vista), com as economias dos bons tempos da garimpagem. Uma das suas distrações é apostar em algumas das muitas loterias da Caixa, já tendo acertado algumas vezes, sempre prêmios pequenos. Mas, como bom garimpeiro, não desiste, crente que um dia a sorte grande vai chegar.
"Quando eu entrei para o garimpo, tinha 20 anos de idade, levado pela idéia de ganhar bem mais do que conseguia na colônia, onde o ganho era pouco. A gente ouviu falar que no garimpo dava pra fazer muito mais. Comecei lá em Xambioá, no Goiás, mexendo com extração de cristal e diamante.

No Tapajós, o primeiro garimpo que eu fui foi o Crepurizinho, onde passei a maior parte da minha vida de garimpeiro. Fui de avião, com o comandante Amaury, que já morreu. Chegando lá a gente foi recebido pelo João Rodrigues, que era o dono da pista. A passagem custou 50 gramas de ouro. Eu fui fiado, para trabalhar e pagar quando chegasse lá. Quem pagava para a agência era o João Rodrigues. Eu fui trabalhar para um homem que se chamava Raimundo Barbeiro. Em 12 dias eu paguei a passagem, pois tinha muito ouro. A gente ganhava uma diária de quatro gramas. Mas, como a gente podia trabalhar na empreita, alguns dias depois eu preferi assim, pois a gente chegava a ganhar 20 gramas de ouro por dia.

Quando eu cheguei lá fiquei preocupado, pois encontrei uma corrutela nervosa; os homens andavam com revólveres na cintura, cercados por um cinturão cheio de balas, uma espingarda pendurada e mais um enorme facão. Isso acontecia em qualquer lugar da corrutela.
Naquele tempo o Crepurizinho tinha tanto ouro, mas tanto ouro, capaz de quase a gente pegar com a mão. Por causa disso e da cobiça do ser humano havia muita confusão, muita desordem. Havia muitas mortes. Era a lei do mais forte. Isso era o ano de 1964, quando a corrutela do Crepurizinho tinha perto de 200 casas.

Eram dois os principais motivos de mortes. Um era confusão que começava por causa de grotões; um garimpeiro dizia que era seu, enquanto outro alegava que lhe pertencia. O desfecho acontecia, quase sempre, na corrutela. O outro motivo era por causa de bebedeira, nos bares e nos bordeis. Quando os garimpeiros chegavam querendo companhia, muitas vezes encontravam problemas, pois como eram poucas as mulheres, havia disputa por elas, muitas das quais terminavam na bala, com um dos garimpeiros morto. Eu mesmo vi muitas confusões começarem, mas, como nunca gostei de me envolver em tumultos e como não tinha nada a ver com aquilo,cuidava de me mandar para longe. Só ouvia os tiros e depois sabia o resultado.
Havia um bocado de comércio

grande lá, no começo de 64. Lembro do Adonias, João Rodrigues, Herval, Pernambuco, Bené (de Bragança) e Londrina eram todos donos de comércios grandes mesmo. A exploração do ouro era pertinho da corrutela; era questão de poucos minutos. A gente não tinha dificuldade para comprar as coisas, de tão perto que era.

Durante cinco anos eu trabalhei para os outros, até tocar meu próprio serviço. Foi de 1964 a 1969. Saí furando terra, comprando na cantina para pagar depois e sempre consegui saldar meus compromissos. Eu não me reclamo da sorte. Saí da colônia com a intenção de melhorar de vida e melhorei. Cheguei a ter oito quilos de ouro como capital, meu mesmo; oito quilos, depois de pagar todas as contas.

Com o dinheiro que ganhei, comprei casas, carros, gado e até um comércio em Santarém. Mas, mesmo sem ser esbagaçado, sem gostar de farras, às vezes alguns negócios não dão certo; comprei algumas coisas por um preço e vendi pelo décimo do valor que valia; assim sendo, me desfiz de quase todos esses bens. Se eu fosse farrista, talvez não tivesse guardado nada.
O garimpeiro nem sempre é um bom negociante; não pára e analisa se aquele negócio que ele está para fazer é bom ou ruim; sempre acha que vai se dar bem no próximo barranco e não funciona sempre desse jeito. A gente faz negócio sem avaliar direito o que está fazendo e termina pagando caro por não pensar antes de tomar certas decisões. Seu eu tivesse prestado mais atenção, tinha feito negócios melhores do que fiz, com resultados melhores.

Eu fiquei 28 oito anos sem abandonar o Crepurizinho. Eu digo, sair para trabalhar direto noutro lugar. De vez em quando ia ao Crepurizão, mas, somente fazer negócios. Uns dois anos depois que eu cheguei eu andei fazendo umas pesquisas no Patrocínio, no Tabocal, no Tauari e no Marupá, sem nunca abandonar o serviço que tocava. O maior tempo que eu fiquei ausente foi um ano e meio, no Patrocínio.

Quando eu conheci o Crepurizão, lá não existia nada, nem sinal de corrutela; só havia mato e alguns serviços sendo tocados nos baixões. A primeira pista de lá foi feita por um macapaense chamado Mundico Coelho, que eu conheci muito bem. Ele era um comerciante, que pagou para que a pista fosse feita no braço, na base do machado. Era uma pista pequenina, na qual operavam somente aviões pequenos, que carregavam 150 a 180 quilos, no máximo.

Depois de pronta a pista, começou a construção de casas perto dela. As casas eram feitas duma árvore que o pessoal chama de ripeira. Eu não tenho muito certeza, mas eu acho que isso aconteceu no ano de 1965.

O finado Wilson Uchoa pegou ouro demais no Crepurizão. Mas, quando eu digo muito, foi muito ouro, mesmo. O Arnaldo também botou a mão num bocado de ouro. Já no Crepurizinho, o finado João Rodrigues pegou muito ouro. Além dele, o Raimundo dos Porcos, o Pernambuco e o Bené Barbeiro.

Minha vida tem sido vivida no garimpo. Até julho do ano passado eu trabalhei direto lá dentro, de onde eu só saí porque a minha saúde não me permite mais enfrentar esse tipo de trabalho. A coluna não deixa mais eu fazer aquilo que fiz por tantos anos; carreguei muito peso nas costas, em jamaxim com 45, 60 e ate 70 quilos, horas e horas dentro do mato. Mas, minha terra tá lá. Eu deverei entrar daqui a pouco para dar uma olhada como estão as coisas. Hoje está mais fácil, pois a gente usa moto. Eu tenho umas pessoas de confiança que vou colocar para trabalhar no garimpo.

Apesar das dificuldades que a gente enfrentou, eu sempre senti prazer em ser garimpeiro, pois era a chance que tinha para pegar um dinheiro melhor. Hoje, vivo de uma poupança que fiz e ainda vou tocar essa terra lá no Crepurizinho. Eu não posso mais fazer o trabalho, mas, vou botar um pessoal para trabalhar para mim, que é para a gente ganhar um dinheirinho. Eu cheguei a ter 50 homens trabalhando comigo numa frente de serviço, todos por minha conta.

Quase mil casas - No auge do Crepurizinho eu contei as casas que existiam na corrutela. Eram quase mil, sem contar os barracos, pois com eles passava de mil. Só casas de comércio eram 680, contando todo tipo de estabelecimento; entravam dos grandes comércios até as pequenas vendas. Hoje em dia ainda tem muita casa, tem escola boa, mas os negócios estão devagar.

Agora parece que o governo vai olhar para o garimpeiro, com esse estatuto que o presidente Lula assinou. Isso é bom porque tem gente que passa muito aperto lá dentro. O pessoal adoece e não tem como vir para a cidade.

Morrendo a mingua - Vi muitos companheiros, amigos próximos perderem a vida, sem que a gente pudesse fazer nada. Muitos morreram dentro da mata, estirados numa rede. Eles urinavam e a rede ficava amarela. Era hepatite, mas a gente não sabia e mesmo que soubesse, o que podia fazer, sem nenhum recurso? Trazia para a corrutela para enterrar. Às vezes o companheiro adoecia muito e cismava de comer carne de caça; a gente dizia: não come rapaz, que pode fazer mal; mas, tinha uns que eram teimosos e comiam carne de paca, por exemplo, que é muito reimosa. Muitos morreram. Tinha um, o Raimundo Bernardino, que era um companheirão, que morreu, na pista da FAG, perto do Crepurizinho. Eu senti muito a morte dele.
Eu sempre fui muito resistente à malária. Quando pegava, tomava logo remédio e ela ia embora sem demora. Tinha a vantagem de não beber, nem fumar. Quando não tinha remédio de farmácia tomava chá de casca de pau, como castanheira, cedro e jatobá, que é bom para combater inflamação. Assim era a vida da gente, a vida dura de garimpeiro, sempre na busca do ouro.

Na próxima edição, o Jornal do Comércio deverá tratar da aviação de garimpo, atividade da maior importância nessa atividade tão relevante para a economia de Itaituba e da região. Provavelmente, dada a abrangência do tema, será necessário dedicar ao menos duas edições seguidas para contar tantas histórias, tantos fatos marcantes envolvendo esse setor.

Cinquenta anos do garimpo de ouro do Tapajós

Cinquenta anos do garimpo de ouro do Tapajós

Luiz Preto: Quatro décadas dedicadas ao garimpo
Quando nasceu, no Ceara, no município de Juazeiro do Norte, no dia 02 de janeiro de 1945, seus pais lhe deram o nome de Luiz Silva de Sousa, mas, ficou mesmo conhecido foi pelo apelido de Luiz Preto. Em 1957 deixou seu Ceará por causa de um forte seca, mudando-se para o Maranhão. Ele tem passado a maior parte de sua vida, mais de quatro décadas, exercendo a atividade de garimpeiro. É esse personagem bastante conhecido na região, o destaque desta edição na série de reportagens sobre o cinquentenário da garimpagem no Tapajós.

"Eu comecei a trabalhar em garimpo, no ano de 1965, já vivendo no Estado do Pará. Chamava-se garimpo do Cajueiro, na margem do Rio Araguaia, no município de São Geraldo do Araguaia. Deu pra fazer um dinheirinho lá. Depois voltei para o Maranhão, onde trabalhei num garimpo perto de Imperatriz. Eu tinha só vinte anos de idade. Passei um tempo em Marabá, onde não dei muita sorte. No verão de 1970 mexi com caça de gato do mato para vender a pele. Em 1971 fichei na ECIR, que trabalhava na construção da Transamazônica, de Marabá para Itaituba. No verão de 1974 estava desempregado. Depois de trabalhar na juquira durante o inverno, eu vim tentando conseguir alguma firma para fichar, até que cheguei a Itaituba. Tomei conhecimento das atividades de garimpo, me animei e resolvi entrar. Entrei no dia 28 de novembro de 1974 levado para o Marupá pelo seu Argemiro, irmão do seu Lulu do Juliana Park Hotel.

Nesse tempo tinha dono de garimpo que cobrava até 45 diárias numa passagem para garimpo. Eu tive sorte de achar aquele cidadão que me levou por apenas 16 diárias. O preço era 32 gramas de ouro pela passagem; como ele pagava dois gramas por diária, com 16 dias trabalhados a gente pagava a passagem de avião.Teve um que cobrava 45 diárias, quer me perguntou se eu não queria ir. Eu respondi que não, porque não era ladrão do meu próprio bolso.

A gente foi direto para a pista velha do Marupá; aquela mesmo, que começa ao lado do cemitério, conhecida como a pista dos Sudário. Fui trabalhar com o seu Argemiro e com o seu Goiano, mais tarde, dono da Táxi Aéreo Goiás. Eles eram sócios. Naquele tempo o Goiano era pobre, daquele tipo que levantava às quatro e meia da manhã para fazer o café dele.

Fomos em três daqui. Chegando lá nos dirigimos direto para o baixão do Bem-Ti-Vi. Não era fácil! Um tinha que ficar para fazer e levar a merenda, enquanto dois saiam com escuro, pois a gente tinha que secar o barranco na lata, pois minava muita água. Quando dava lá pelas oito horas da manhã a gente terminava de secar o barranco para poder começar a trabalhar na busco do ouro.

Eu demorei bastante tempo nesse garimpo, porque o seu Argemiro e o seu Goiano foram excelentes patrões. Eu era brabo em garimpo de ouro e aprendi a trabalhar com eles. Fiquei mais de um ano lá com eles. Foi quando apareceu a chance de ir para outro serviço melhor, juntamente com o Vovô e o Felipão, dois crioulos das guianas que me ensinaram muitas coisas. Foram tempos muito difíceis. Eu só fui conseguir dinheiro para ir até a currutela depois de seis meses. Se tivesse tirado um ouro bom antes, talvez tivesse ido embora, pois eu custei a me acostumar com aquela vida, longe de tudo. A malária me achou muito cedo, com uns vinte dias que eu estava lá ela me pegou. Todo mês eu perdia uma semana ou mais. Mas, com o tempo fui me acostumando e estou até hoje no garimpo.

A situação melhorou quando eu encontrei um cidadão, também, muito bom, que foi o Zé da Roça, que vendia uns remédios com os quais eu me dei bem. Nesse tempo, no Marupá, eu já estava mais manso e cheguei a juntar mais de um quilo de ouro, quando eu tocava um serviço próprio, com mais de vinte pessoas trabalhando. A essa altura eu já vinha a Itaituba, comprava o rancho e levava num vôo completo. Houve um tempo em que eu gastava na currutela tudo que ganhava. Mas, depois eu vi que aquilo não tinha futuro e parei com as farras.

Algum tempo depois eu mudei para o garimpo Nova Vida, que era do Elídio Leal onde eu fiquei quase um ano; com isso, eu acabei completando quase quatro anos na região do Marupá. Passei um tempo explorando perto da pista do Luiz Barbudo, do final de 1978 para o início de 1979; foi quando aconteceu um negócio que não foi muito agradável no Marupá (quando a reportagem pergunta que tipo de negócio desagradável foi esse, Luiz Preto fica silencioso e desconversa) e aí eu tive que vir para Itaituba.
Nesse tempo uma malária braba me pegou. Um dia, subindo uma ladeira eu estava tão mal que eu achei que não iria conseguir chegar em cima. Dava um passo para frente e dois para trás, com muito sacrifício consegui chegar num barraco que havia lá. Sem comida, comi um jacu insosso; a fome estava braba e quando eu dei fé tinha comido quase tudo.

A chegada no Crepurizinho

Em Itaituba, onde vim tratar da malária, encontrei o Bitonho que eu já conhecia lá do Marupá. Ele tinha ido olhar o Crepurizinho. Ele me disse que eu tinha tudo para me dar bem por lá, pois havia bastante terra para ser explorada. O Crepurizinho já era uma curritela grande. Me contaram que a exploração de garimpo começou do final de 1959 para o começo de 1960. O Aluizio Mourão conhece tudo direitinho; ele sabe quando começou.

Vai fazer 30 anos que eu cheguei. No dia 28 de outubro de 1978 eu cheguei no Crepurizinho. Na noite daquele dia eu conheci um camarada chamado Raimundo Varador, com o qual eu fui para o baixão do Papagaio. Na manhã seguinte. Ele me vendeu um servicinho, fiado, que ele tinha lá com uma tralha, por cem gramas de ouro. Até hoje eu estou naquele lugar.

No Crepurizinho eu passei por momentos muito bons, mas, também vivi situações muito difíceis. Isso aconteceu (o bom) a partir do momento em que surgiu o trabalho com balsa, mais tarde veio a chupadeira e melhorou de 80% a 90%. Foi de 1982 para 1983. Eu cheguei a ter até 18 pares de máquinas. Foi um período em que a gente produziu bastante. Tinha um rapaz que trabalhava comigo, que anotava tudo; em pouco mais de dois anos e meio de exploração, até 1987, a gente produziu mais de 170 quilos de ouro.

Quando a situação estava muito boa, veio o governo do presidente Fernando Collor de Melo. O grama do ouro estava sendo vendido entre 850 mil e 890 mil Cruzeiros. Quem vive em Itaituba e na região de garimpo desde aquele tempo sabe muito bem do que estou falando. O Collor arrebentou com a gente. Eu mesmo afundei, pois eu tinha mais de cinco quilos de ouro que era para saldar uma conta de um milhão e duzentos mil Cruzeiros.

Eu pagaria a conta com mais ou menos um quilo e meio de ouro. Não vendi antes do Collor assumir, esperando melhorar o preço. O resultado foi que tive que vender todo o ouro para poder saldar a conta. Só não comecei do zero porque tinha um bom estoque de mercadorias e um bom estoque de óleo diesel. Se a gente tivesse tomado a decisão de parar por um tempo, talvez a gente tivesse se dado melhor, porque o que aconteceu foi que voltei a tocar o serviço, queimei o diesel todo e consumi a mercadoria e aí, sim, fiquei totalmente sem capital.

Naquele momento vieram outros problemas que pioraram a situação, que já era bem complicada. Veio separação de mulher, desonestidade de gente que trabalhava comigo, que não repassava direito o que era apurado. Apesar disso, eu nunca parei com a atividade garimpeira. Eu passo quinze dias aqui e um mês lá dentro. No início em passava seis meses lá e quinze em Itaituba. Tive que mudar porque eu não ia abandonar meus filhos, que foram largados pela mãe. São três, dois rapazes, um com dezoito anos, um com dezessete e uma moça dentro dos 14 anos.

Investimentos - Eu construi esta casa, que não está concluída, que tem quatorze compartimentos, comprei uma terra que vai do km 35 ao km 37, que se encontra invandida por um pessoal que diz ser Sem Terra; eu digo que não são Sem Terra, coisa nenhuma. É gente que viveu no garimpo, ganhou algum dinheiro, mas gastou tudo e se acostumou a tomar terra dos outros, desde aquele tempo. A terra está quase toda invadida. Ainda tenho um pouco de gado nessa fazenda e um pouco mais lá dentro, no Crepurizinho, que está melhor do que a fazenda daqui. Eu investi muito, também, em documentação de terra, tanto do solo como do subsolo.

Tenho uma terra no Crepurizinho que está quase toda regularizada, numa extensão de mais ou menos vinte mil hectares. Eu aguardo algum interesse desses grupos de estrangeiros que estão investindo na região, ou quem sabe, algum financiamento para poder eu mesmo explorar o ouro, que agora está muito mais difícil, mais profundo, pois o ouro mais raso está cada vez mais escasso. A terra em que eu estou trabalhando eu sinto que é muito boa, mas me falta o capital.

Algumas vezes corri risco de ser morto, como aconteceu quando estava construindo uma pista naquela região. Fui avisado por uma pessoa chamada Massa Bruta, de que o seu Lourival, dono de uma agência lá no Crepurizinho, aquele mesmo, que era bastante conhecido aqui em Itaituba, queria mandar me matar para evitar que eu construísse a pista.

Numa viagem de avião, do garimpo para Itaituba, ele fez a proposta para o Massa Bruta me matar, mas ele não aceitou fazer o serviço. O Massa Bruta disse que não faria porque eu era um trabalhador; ele me avisou sobre o que estava acontecendo para eu me cuidar. Eu tinha tentado fazer uma sociedade na pista que eu estava construindo, mas o Lourival não quis. Eu digo que eu escapei por pouco.

A juíza tomou meu garimpo

O momento mais difícil da minha vida de garimpeiro aconteceu quando eu fui coagido por uma juiza que trabalhou em Itaituba, chamada Cléa Maia. Ela tomou o garimpo que eu tocava na época, no inverno de 1984. Ainda tem gente daquele tempo que trabalha comigo. Outros, que não trabalham mais para mim estão na área para contar a história. Por causa disso eu passei vinte e dois dias preso. O delegado era o finado Miguel Apinagés.

Eu perdi tudo. Fui morar em casa alugada. As festas juninas de 84 eu passei preso na delegacia que funcionava onde é agora o Detran. Fui preso sem dever nada para a Justiça. Meu pecado era ser dono de uma terra que um caboco chamado Augusto Franco queria de qualquer jeito. Perdi a terra e quase perdi a vida; fui desmoralizado.

Eu estava na agência do Pai Velho para viajar, quando o delegado Miguel chegou e meu ordem de prisão. Ele ligou para a juiza e ela mandou me recolher. Naquela situação eu fui ajudado pelo Pai Velho, pelo seu Argemiro, pelo Goiano, pelo Irajá, pelo Zé da Roça e pelo Dr. Semir. Eu devo uma grande fineza do Dr. Semir, que me defendeu mesmo sabendo que eu não tinha dinheiro para nada naquela ocasião.

Todo o ouro que havia no garimpo o Augusto Franco tirou nos cinco ou seis anos que ele ficou lá. Ele construiu casa de trinta ou mais quilos de ouro aqui, construiu casa em Santarém, teve fazenda. Ele só saiu de lá quando esgotou o garimpo.

Por estar preso, eu perdi uma roça de 55 hectares de arroz, que estava no ponto de ser colhido. Preso, não tive como colher.

A minha situação ficou tão complicada, mas, tão complicada, mesmo depois que eu ganhei a liberdade, que tinha horas que eu não sabia o que fazer. Eu fui para o garimpo, pois tinha outra terra. Mas, para trabalhar eu tinha que ir por um caminho, por uma vereda, e voltava por outro. Tinha polícia pra todo lado, tudo contra mim. Por último, eu criei coragem de enfrentar tudo aquilo, sabendo que podia morrer a qualquer momento; mas, eu precisava trabalhar.

O Reinaldo tentou me matar

Final dos anos 80, começo dos anos 90 eu fui morar com uma mulher, mãe destes meninos (dois rapazes e uma moça citados antes). Ela estava envolvida nuns negócios que eu não sabia, mas que podia ter custado minha vida.

Tinha uma quadrilha formada pelo Barradas, o Reinaldo e outros que queria me pegar. Eles arrumaram tudo para a mulher vir morar comigo, que era para ver o que eu tinha, para que eles me sequestrassem e me matassem. Mas, antes de me matarem eles me forçariam a assinar uns papéis, passando para eles tudo o que eu tinha.

O que me fez entrar para a política foi que eu estava num conflito tão grande, tão aflito com aquele situação, com aqueles caras cercando minha casa, dizendo que eram meus amigos, que queriam me proteger, quando na verdade queriam me matar. O Reinaldo vivia dentro da minha casa, atendendo telefonema e colocando os capangas dele para me vigiar. Eu estava sem controle da minha vida. Eu tinha gasto mais ou menos uns cinco quilos de ouro tentando esclarecer a morte do meu irmão Raimundo.

Na Semana Santa de 1991 eles esperavam fazer o serviço. Uma noite o Reinaldo chegou na mina casa com uns homens, com uma conversa furada, dizendo que era para me proteger, porque podia acontecer alguma coisa comigo. Eu olhei para o Céu e disse que achava que ele tinha vindo de lá.

Um dia um amigo me convidou para ir fazer uma visita para o seu Wirland Freire, que conhecia o Reinaldo. Seu Wirland mandou chamar ele. Quando o Reinaldo chegou o seu Wirland disse que eu era amigo dele, além de ser um bom cliente dele e que não queria que acontecesse absolutamente nada comigo. Foi só assim que eles me deixaram em paz. A partir daí minha vida começou a melhorar de novo. Por isso entrei na política.

Pouco tempo depois a mulher foi embora deixando os três filhos, quase assumindo a culpa, enquanto o Reinaldo foi morto não muito tempo depois de tudo isso. Hoje, ela toca a vida dela e eu toco a minha, cuidando dos meus filhos, sem nunca abandonar o garimpo. Mas, por eles, pelos filhos, eu mudei até o tempo de permanência lá pra dentro. Assim tem sido minha vida, vida de garimpeiro.

Mineradores usam mercúrio no garimpo para identificar o ouro


Exploração de ouro na Serra Pelada durante a década de 80 ficou marcada pelas graves consequências causadas pela utilização desta substância


Mineradores usam mercúrio no garimpo para separar o ouro (Foto: Thinkstock/Getty Images)Mineradores usam mercúrio no garimpo para identificar o ouro (Foto: Thinkstock/Getty Images)
A técnica de exploração de minérios que se dedica principalmente a extração de pedras preciosas, como ouro e diamantes, é conhecida como garimpo. A garimpagem pode ocorrer de forma mecânica ou manual e na maioria das vezes utiliza o mercúrio para facilitar a exploração mineral. Apesar da vantagem de catalisar o processo de identificação do ouro, por exemplo, essa substância química é responsável por gerar graves danos ao meio ambiente e aos seres humanos que a ela ficam expostos.
Região de garimpo na Serra Pelada (Foto: Divulgação/ Marcello Veiga)Região de garimpo na Serra Pelada (Foto: Divulgação/ Marcello Veiga)
O mercúrio é utilizado no processo de garimpagem em sua forma líquida para atrair o ouro diluído em um determinado solo, formando uma liga entre as substâncias. Giorgio de Tomi, diretor do Núcleo de Pesquisa para a Pequena Mineração Responsável da Universidade de São Paulo, explica que quando esse concentrado é queimado, o mercúrio evapora deixando apenas o ouro em seu estado bruto. A contaminação com a substâcia pode ocorrer de forma direta, por inalação, ou indireta após sua precipitação no solo. " A combinação do mercúrio precipitado com compostos orgânicos do solo forma a substância metilmercúrio, altamente danosa", esclarede de Tomi.
 

Instalações de recuperação de ouro na Serra Pelada (Foto: Divulgação/ Marcello Veiga)Além de contaminar o solo, o metilmercúrio pode provocar graves complicações à saúde de garimpeiros ou de pessoas que indiretamente são infectadas. “O metilmercúrio se acumula na cadeia alimentar se fixando na natureza. Ele normalmente fica por volta da região em que o material foi processado, mas com chuva pode cair em um curso de água. Nos seres humanos, ele é conhecido por causar enfermidades neurológicas graves”, declara Giorgio.

Na década de 80, o uso do mercúrio durante a intensa corrida pelo ouro na Serra Pelada causou sérias consequencias para a região. Além de chamar atenção por ter sido o local do maior garimpo a céu aberto do mundo, a exploração do ouro nas jazidas do estado do Pará ficou marcada pelas graves contaminações do solo e de trabalhadores. A falta de equipamentos de proteção, como máscaras ou luvas, permitiu que o mercúrio fosse diretamente inalado pelos garimpeiros, que sofreram com sérias complicações de saúde chegando, em certos casos, à óbito.

As atividades garimpeiras na Serra Pelada desaceleraram durante a década de 90 até serem interrompidas. As crateras abertas no período da exploração foram abandonadas sem qualquer tratamento de recuperação do solo. Hoje, Giorgio explica que a região está dividida entre cooperativas de garimpeiros. Algumas delas já fizeram parcerias com grandes empresas e reiniciaram atividades de escavações subterrâneas.
Instalações de recuperação de ouro na
Serra Pelada (Foto: Divulgação/ Marcello Veiga)
A USP foi procurada por uma destas cooperativas para fazer um caminho diferente. Giorgio explica que o trabalho a ser realizado pela universidade é de reconhecimento do espaço antes da exploração. “Fomos procurados para reconhecer, saber como é a reserva. A ideia é fazer um plano de negócio para deixar a relação com um futuro investidor mais transparente”, diz.

Giorgio conta ainda ter realizado uma pesquisa de levantamento com garimpeiros da rSerra pelada sbre a aceitação de novas tecnologias limpas para a exploração de minerais. O resultado foi positovo em particamente 100% dos casos. No entanto, a falta de conhecimento sobre essas novas técnicas dificulta sua implantação pratica. “A saída é ter um programa de conscientização do garimpeiro para mostrar os riscos do mercúrio e a existência de tecnologias limpas. Além disso, autoridades precisam ensinar os garimpeiros a utilizar essas novas técnicas”, diz. O diretor do Núcleo de Pesquisa para a Pequena Mineração Responsável esclarece que ao invés de mercúrio, os garimpeiros poderiam usar o cianeto, substância não poluente e economicamente mais rentável. “Entendo que a solução não é legal ou ambiental, é econômica. Temos que mostrar que usando tecnologias limpas ele poderão tirar mais ouro”, afirma.

Novo modelo de exploração garimpeira proíbe uso de PCS e dragas no rio Tapajós

Prefeita Eliene Nunes, secretário José Colares e Jandira Rodrigues, durante reunião em Itaituba
Prefeita Eliene Nunes, secretário José Colares e Jandira Rodrigues, durante reunião em ItaitubaApós sucessivas reuniões com debates, críticas e propostas, Itaituba criou um divisor de águas virando uma página que em sessenta anos de garimpagem ainda mantém um modelo de exploração arcaico e que agora entra em linha de vanguarda com uma visão mais ampla e de futuro.
Foi repassada par a Semma Estadual proposta de instrução normativa para a nova fase de exploração da atividade garimpeira no Tapajós.
O documento foi elaborado por várias entidades de classe representativas da categoria, assim como também a Prefeitura, Câmara de vereadores, CDL, Associação Comercial e outros. O documento foi oficialmente assinado pelo Secretário de Estado de Indústria, Comércio e Mineração (Seicom), Davi Leal; por José colares, Secretário de Estado de Meio Ambiente (Semma); Jandira Rodrigues, Secretária de Meio Ambiente e produção de Itaituba; DNPM, Prefeitura e mais doze entidades de classes de Itaituba, Jacareacanga e Novo Progresso.
A proposta objetiva a normatização da atividade garimpeira no Tapajós com a meta de minimizar impactos ambientais, e ajustar a conduta para que se torne viável a obtenção ou renovação de Licença Ambiental, que no documento ficou definida nas categorias, garimpo de com a utilização de escavadeiras hidráulicas (conhecida por PC), garimpo por meio de equipamento flutuante (dragas, balsas, Chupadeiras, balsinhas). De acordo com o secretário de estado José Colares, da Semma, a medida foi resultado de um pacto com Itaituba através dos representantes da garimpagem e outros segmentos empresariais, políticos, enfatizando que o Estado honrará o acordo, mas será rigoroso também para que tudo que foi estabelecido na instrução normativa seja também respeitado pelo setor  mineral.
Em sua primeira parte a instrução normativa traz orientações gerais para todos os tipos de garimpos onde será exigida daqui pra frente saúde e segurança do trabalhador, uso obrigatório de equipamentos de proteção individual, em área de garimpeiro sequeiro deve ser obrigatoriamente construído latrina e local para absorver resíduos sólidos com aterramento do lixo co distância mínima de 40 metros após o limite legal das Áreas de Proteção Permanente (APP).
Estabelece, ainda, que seja dado tratamento adequado ao resíduo reciclável (tais como óleo, pilha e outros, assim como também água fervida e filtrada para efeito de consumo. Os garimpos que utilizam bico jato e chupadeira (par de máquinas) deverá usar bico jato a uma distância mínima respeitando a área de amortecimento da Área de Proteção Permanente (APP), correspondente a margem do rio, de acordo com o que estabelece o Código Florestal.
Pepita de ouro pesando mais de 1 kg, extraída ilegalmente, numa prova de que é possível estender a legalidade para um universo maior de garimpeiros
Pepita de ouro pesando mais de 1 kg, extraída ilegalmente, numa prova de que é possível estender a legalidade para um universo maior de garimpeiros
Fica expressamente proibido a garimpagem com par de máquina em todos os afluentes diretos e indiretos do rio Tapajós, com a extração com par de máquina obedecendo várias recomendações entre elas dimensões máximas dos barrancos 20 x 20, avanço de lavra (exploração do barraco seguinte) só será permitido com a recuperação concomitante ao barranco anterior, sendo em um dos seus treze artigos também obrigatória a recuperação do relevo com reflorestamento da área total alterada após exaustão da atividade. Além do mais deverá ser apresentado um técnico responsável com ART para extração mineral e recuperação ambiental. Em relação ao garimpo que explora ouro com equipamentos flutuantes (dragas, balsas chupadeiras, barcos, escariantes, balsinha, chupão e outros) foram estabelecidas 9 condicionantes ficando proibido a utilização dos equipamentos flutuantes em todos os afluentes direto e indiretos do rio Tapajós. Por outro lado os equipamentos flutuantes para serem usados no rio tapajós deverá ser cadastrado com vistas ao controle e vistorias pela Semma e os órgãos de competência, deve atuar em uma distância mínima de 1000m de um equipamento flutuante para outro, ficando também mil metros distante da margem do rio Tapajós.
Também o equipamento flutuante só poderá usar bomba de especificação de até 16 polegadas. O estudo ambiental deve descrever o número de equipamentos flutuantes a serem utilizados na PLG atendendo as distâncias estabelecidas acima no rio Tapajós, sendo que será aceita apenas a quantidade de 40 equipamentos flutuantes. Sobre o uso de mercúrio o mesmo dever ser controlado em circuito fechado ou com equipamento sem utilização de mercúrio a ser estabelecido em regulamentação específica para o mercúrio, também deve ser apresentado um técnico responsável com ART para extração mineral.
Para as PCs torna-se obrigatório o cadastramento desse tipo de máquina com apresentação de documentos comprobatórios de nota fiscal de origem da PC junto ao órgão ambiental, pois o uso de escavadeiras hidráulicas só será permitido para o desenvolvimento de lavra em tiras”Strip mine” obedecendo as dimensões máximas de 15 x 50m. Também se faz necessário separar meio metro da capa do lacral para melhor recuperação do solo, sendo que o avanço de lavra (exploração da tira seguinte) só será permitido com a recuperação concomitante da tira anterior. Também deve ser apresentado um técnico responsável com ART para extração mineral e recuperação ambiental.
A assinatura do documento aconteceu por volta das 19 horas no auditório da Prefeitura onde os secretários de Estado, prefeita Eliene Nunes, representantes de sindicatos, cooperativas e associações assinaram o documento se comprometendo em cumprir os acordos estabelecidos em propostas tiradas de várias reuniões e também fizeram discursos reiterando o compromisso feito entre o Município, Estado e União para um evento considerado por eles como “histórico”.
Fonte: RG 15/O Impacto e Nazareno Santos