terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Açúcar, o novo cigarro

Açúcar, o novo cigarro

Apesar dos riscos para a saúde pública, a indústria alimentícia ainda rejeita a regulamentação.
HÁ UM SETOR que vende um produto que faz mal à saúde do homem.
Uma geração atrás, esse era o setor fumageiro, e o produto era o cigarro. Hoje, é o setor alimentício e o produto é o açúcar.
O Dr. Aseem Malhotra, 37 anos, cardiologista em Londres, Inglaterra, é um dos líderes da campanha contra o açúcar na Europa. Ele afirma que a indústria de alimentos imitou o “roteiro corporativo” da indústria fumageira para rejeitar a regulamentação.
“A única diferença”, diz ele, “é que, enquanto o fumo era evitável, o açúcar atualmente é quase inevitável.”
O açúcar adicionado – não o açúcar natural que existe em frutas e legumes – está em tudo. Uma das maiores fontes são bebidas como refrigerantes, energéticos e sucos. Mas um passeio pelo supermercado mostra que há açúcar adicionado a pães, iogurtes, manteiga de amendoim, sopas, vinhos, salsichas – na verdade, a quase todos os alimentos industrializados. Uma única colher de sopa de ketchup pode conter uma colher de chá de açúcar.
Esse “açúcar invisível” recebe muitos nomes. Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, o consumidor pode encontrar até 83 nomes diferentes para o açúcar adicionado.
Helen Bond, nutricionista da Associação Dietética Britânica, diz: “É um marketing inteligente: palavras como ‘frutose’ fazem pensar que estamos reduzindo o açúcar adicionado, mas o fato é que estamos polvilhando açúcar branco sobre a comida.”
“Esse açúcar a mais é completamente desnecessário”, diz o Dr. Malhotra. “Ao contrário do que a indústria alimentícia quer que acreditemos, o organismo não precisa da energia de nenhum açúcar adicionado.”
O Dr. Robert Lustig, endocrinologista pediátrico do campus de San Francisco da Universidade da Califórnia e líder mundial da campanha contra o açúcar, observa que o consumo mundial de açúcar triplicou no último meio século. Mas, como a população dobrou no mesmo período, o consumo de açúcar per capita aumentou 50%.
No Brasil, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o açúcar adicionado representa 19% da ingestão total de açúcar do brasileiro.  Ainda segundo o ministério, o excesso de açúcar na dieta é fator de risco para o desenvolvimento da obesidade, além de doenças como o diabetes. Mais da metade da população brasileira (53,9%) está acima do peso. Desses, 18,9% são obesos. Entre as crianças de 5 a 9 anos, um terço delas está com sobrepeso.
“Hoje, nossa alimentação tem tanto açúcar adicionado que o sistema metabólico (que processa a energia) simplesmente não aguenta”, diz Lustig. “Nosso corpo faz coisas diferentes com tipos diferentes de calorias. Na quantidade ingerida hoje, a frutose (açúcar adicionado) é armazenada principalmente como gordura. Em geral, essa gordura vai para a barriga.”
E o perigo para a saúde não é só a obesidade: há indícios que ligam o açúcar a doenças hepáticas, diabetes tipo 2, cardiopatias e cáries. Ainda assim, o setor de bebidas e alimentos continua a promover o açúcar, com muita publicidade de seus produtos açucarados. Grandes quantias também são empregadas para se opor à rotulagem mais explícita dos produtos e combater o aumento da tributação de alimentos e bebidas açucarados.
No Reino Unido, por exemplo, o setor de alimentos e bebidas gastou, em 2014, 256 milhões de libras para promover alimentos insalubres ricos em açúcar e/ou gordura. De acordo com um relatório recente da União Americana de Cientistas Preocupados, quase
7 bilhões de dólares foram gastos no mesmo período nos EUA com a publicidade de produtos açucarados. Desses, cerca de 1,7 bilhão foi empregado especificamente para promover esses produtos junto ao público
infantil.

NO ANO PASSADO, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reafirmou a recomendação anterior de que, num parâmetro ideal, nossa ingestão de açúcar, fora aquele que existe naturalmente em frutas e legumes, não deveria exceder 10% da ingestão total de energia (no Brasil, o consumo médio é de 16,3%). A OMS apresentou dados convincentes que ligam o consumo de açúcar à taxa de obesidade e, como o diabete tipo 2 está ligado a ela, também relacionou o açúcar a essa doença.
Na alimentação média, 10% da ingestão total de energia corresponderia a umas 12 colheres de chá de açúcar por dia. Uma única lata de 330 ml de refrigerante pode conter até 10 colheres de chá de açúcar adicionado.
“Temos provas de que manter no limite de 10% a ingestão de açúcar livre reduz o risco de sobrepeso, obesidade e cárie”, disse o Dr. Francesco Branca, diretor do Departamento de Nutrição para a Saúde e o Desenvolvimento, da OMS, no comunicado em que apresentou o relatório à imprensa mundial.
O Conselho Internacional de Associações de Fabricantes de Bebidas, um grupo de pressão do setor, rejeitou o relatório da OMS e fez o seguinte comentário: “Quanto à obesidade, não há qualquer base científica para tratar o açúcar livre de forma diferente do açúcar intrínseco (não adicionado).”
O Dr. Malhotra contesta: “Isso não é verdade. É preciso levar em conta a qualidade dessas calorias. O açúcar intrínseco ocorre em alimentos que trazem outros benefícios nutricionais.”

A PUBLICIDADE de alimentos açucarados continua. O sobrepeso e a obesidade em crianças e a quantidade de alimentos açucarados que elas consomem são uma preocupação específica dos profissionais de saúde. Uma medida que, segundo os especialistas, pode fazer diferença é a redução ou a suspensão da publicidade desses alimentos durante a programação infantil.
A província canadense do Quebec é líder nesse aspecto e restringe esses anúncios de junk food na TV desde 1978. Hoje, Quebec tem taxas de obesidade bem mais baixas do que o resto do Canadá. Outros países que restringiram os comerciais de bebidas e flocos de milho açucarados e outros alimentos nocivos nos horários em que as crianças assistem à TV são Noruega, Suécia, Dinamarca, México e o Reino Unido.
No entanto, uma análise constatou que, no Reino Unido, os fabricantes encontraram outras maneiras de anunciar alimentos nocivos às crianças: na internet, em merchandising durante programas populares e em videogames.
Na Europa, uma iniciativa estimulante para limitar a publicidade para crianças é o EU Pledge. Esse programa começou em 2009 para ajudar o setor a atender à meta da União Europeia de reduzir a obesidade. As principais fábricas de alimentos e bebidas concordaram voluntariamente em limitar a publicidade de alimentos açucarados para crianças até 12 anos. Elas não fazem comerciais de TV nem anúncios na internet para essa faixa etária e não vendem seus produtos em escolas primárias, o que representa uma mudança significativa da maneira como esses alimentos são vendidos a crianças. Desde seu lançamento, o EU Pledge chegou a
22 companhias, alcançando mais de 80% da publicidade de alimentos e bebidas na União Europeia.
Marlene Schwartz é diretora do Centro Rudd para Políticas Alimentares e Obesidade, organização sem fins lucrativos sediada nos EUA e dedicada a encontrar soluções na pesquisa e na política para a obesidade, a má alimentação e o preconceito ligado ao peso durante a infância. Ela diz que as diretrizes do EU Pledge “não vão suficientemente longe. O ideal seria ampliá-las para crianças até 14 anos”.
Outra área da publicidade de alimentos e bebidas à qual o Dr. Malhotra se opõe é a associação entre produtos e atletas, tática usada pela indústria fumageira há apenas 50 anos, quando atletas e celebridades eram contratados para endossar os cigarros. Ele questiona a permissão à Coca-Cola para patrocinar as Olimpíadas. A parceria da empresa com as Olimpíadas começou em 1928 e foi estendida até 2020. “A Coca-Cola [...] associa seus produtos ao esporte, sugerindo que não há problema em consumir suas bebidas desde que se pratiquem exercícios”, escreveu o Dr. Malhotra recentemente na revista British Journal of Sports Medicine. “Mas não dá para vencer a má alimentação com corrida.”

OS DEFENSORES da saúde pública dizem que duas abordagens bem-sucedidas na redução do hábito de fumar – educação do consumidor e tributação – são necessárias no combate ao consumo excessivo de açúcar.
Em janeiro de 2014, o México criou um imposto de 10% sobre bebidas açucaradas, e sua venda caiu 12% no primeiro ano. Na França, um imposto sobre refrigerantes criado em 2012 resultou no declínio gradual do consumo. A Noruega tributa alimentos e bebidas açucarados e divulga informações há muitos anos, com bons resultados. Em março deste ano, o chanceler britânico George
Osborne anunciou a criação de um imposto sobre bebidas açucaradas a ser cobrado de produtores e importadores de refrigerantes.
 Embora tenha havido algum sucesso com a tributação, o setor de alimentos e bebidas continua a fazer pressão contra informar sobre o açúcar adicionado ao consumidor – mais uma vez, exatamente como fizeram as empresas fumageiras ao combaterem as tentativas do governo de pôr nas embalagens de cigarros mensagens alertando para o perigo de fumar (medida adotada também no Brasil).
Uma abordagem proposta para solucionar a questão foi pôr nos rótulos “sinais de
trânsito” – círculos vermelhos, amarelos e verdes – para indicar a “salubridade” dos produtos alimentícios. Esse
esquema, atualmente um programa voluntário bem-sucedido no Reino Unido, foi rejeitado em 2010 pela maioria dos membros do Parlamento Europeu.
“As pessoas não fazem ideia de quanto açúcar ingerem”, diz Ilaria Passarani, chefe do Departamento de Alimentação e Saúde, uma entidade com sede em Bruxelas.
Na esteira das preocupações em relação ao açúcar, o Ministério da Saúde e a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) anunciaram recentemente que estudam um acordo para reduzir a quantidade de açúcar nos alimentos processados, semelhante ao que é feito com o sal. A primeira etapa deve começar em 2017, com análise das principais fontes de açúcar na dieta dos brasileiros.

Os indícios contra o açúcar e seus efeitos nocivos à saúde continuam a se acumular conforme os estudos são publicados. A Dra. Kimber Stanhope, bióloga nutricional da
Universidade da Califórnia, completou em 2015 cinco anos de uma pesquisa que ligou o xarope de milho rico em frutose – comum nos Estados Unidos – ao aumento do risco de infarto e acidente vascular cerebral.
“Todos deveriam perceber que não há perigo nenhum em reduzir a ingestão de açúcar”, diz ela, “mas há fatores de risco em continuar a comer grande quantidade enquanto se aguardam mais indícios. Os pais deveriam afastar-se, e aos filhos, do consumo diário de açúcar e considerá-lo um alimento para ocasiões especiais.
Novas pesquisas também indicam que o açúcar, assim como o fumo, pode ser viciante. Eric Stice, neurocientista do Instituto de Pesquisas do Oregon, está usando ressonâncias magnéticas do cérebro de adolescentes para mostrar que “o açúcar ativa o cérebro de um modo que lembra drogas como a cocaína”. Ele acrescenta que as pessoas criam tolerância ao açúcar, como acontece com os fumantes e usuários de drogas: “Isso significa que, quanto mais açúcar se consome, menor a recompensa. O resultado: come-se mais do que nunca.”
Outros estudos revelam que o açúcar é viciante por ativar o circuito gerador de prazer no cérebro.

O QUE FAZER para reduzir a ingestão de açúcar adicionado?
“Há um jeito fácil de resolver esse problema em casa: chama-se comida de verdade”, diz o Dr. Lustig. “Alimentos não industrializados, que nós cozinhamos. Um pedaço de peixe é comida de verdade;nuggets de peixe comprados prontos, não. É assim que temos de nos alimentar e alimentar nossos filhos.”
E podemos provocar mudanças na indústria de alimentos e bebidas. “O ativismo de cidadãos comuns tirou os cigarros de restaurantes, aviões, locais de trabalho e escolas. Temos de fazer o mesmo contra essa avalanche de açúcar em nossa alimentação”, continua o Dr. Lustig. “Se não pararmos de envenenar nosso organismo com açúcar, nós e nossos filhos só ficaremos mais gordos e mais doentes. E o custo será astronômico.”

Como nasce um diamante

Como nasce um diamante
Os diamantes têm muitos milhões de anos de idade. A formação dos diamantes começou há milhões de anos atrás nas profundidades da terra quando o carbono foi cristalizado por intenso calor e pressão. Os diamantes ascenderam à superfície através de erupções vulcânicas. Mais tarde, quando as atividades vulcânicas diminuíram e a era glacial tomou lugar, os diamantes permaneceram encaixados em um magma solidificado conhecido como "blue ground" ou "kimberlite". Há tipos diferentes de minas - incluindo tubos do kimberlite e depósitos aluviais.
Os diamantes encontrados em depósitos aluviais foram às vezes formados em um lugar muito distante de onde estão alojados. Através dos séculos eles têm erudido dos tubos de 'kimberlite' e então carregados, primeiramente pelas águas das chuvas e depois pelos rios.

Mal de Alzheimer: sintomas e remédios usados no tratamento

Mal de Alzheimer, doença degenerativa e mais comum em idosos

Sergio Serpa, de 44 anos, e o pai, Fredolino, 87, desconfiaram que algo estava acontecendo com o cérebro de Selma Serpa há cinco anos, numa manhã de sábado. Sergio conta que a mãe, católica fervorosa, sempre ia à missa nesse dia e, quando pai e filho esperavam que ela se aprontasse para o compromisso, Selma perguntou: “Mas hoje é dia de missa?”
Selma, então com 78 anos, repetia essa rotina há tanto tempo que era quase o hábito de uma vida. Por isso, o que aconteceu naquele dia pareceu tão estranho. “Minha mãe nunca perdia a missa”, conta Sergio. “Além disso, ela, que era excelente cozinheira, de repente começou a se esquecer de fazer o almoço. E esquecia até do mercado aonde ia quase todos os dias, e que ficava bem em frente à nossa casa.”
As diferenças intrigantes no comportamento de Selma, que sempre foi amável e começou a se tornar agressiva, fizeram Sergio e o pai procurar o médico da família. “Ele nos sugeriu consultar um médico neurologista, e foi então que soubemos: mamãe tinha doença de Alzheimer”, diz Sergio, analista judiciário do Tribunal Regional do Trabalho de Porto Alegre (RS).

Sintomas do mal de Alzheimer

Para Antônio e Neymar de Castro, de Belém (PA), os sintomas do mal de Alzheimer, doença degenerativa e fatal, tiveram início semelhante: lento e enigmático. Neymar percebeu que Antônio, então com 67 anos, ficava nervoso e vacilante ao dirigir – justo ele, que amava carros e se considerava exímio motorista desde os 18 anos. Além disso, Antônio, dono de um armazém e excelente contador, começou a errar contas simples. “Ele sempre cuidou sozinho do negócio, fazia compras e vendas, e era ótimo em matemática. De repente, passou a errar nos cálculos e, em quatro meses, o negócio faliu”, conta Neymar, que não suspeitava que o marido tivesse Alzheimer. Depois de um ano, Antônio recebeu o diagnóstico da doença.
Para Marilda de Oliveira,* 74 anos, de Novo Hamburgo (RS), a deterioração da memória está nos estágios iniciais. Ela se esquece de coisas simples, como o aniversário de parentes. “Minha mãe sempre foi ativa, administrava a casa e ajudava até quatro instituições beneficentes”, conta a filha, a administradora de empresas Ana Helena de Oliveira,* 45 anos. “As mudanças de comportamento começaram há três anos, depois da morte de papai. Minha mãe tinha personalidade forte, mas, de repente, ficou submissa, eximindo-se de decidir o que fazer ou aonde ir. Até novela ela parou de acompanhar”, relata Ana Helena. Quando se dava conta dos lapsos de memória, Marilda se irritava, e muitas vezes entrava em desespero. “Vou acabar louca, assim não quero viver”, dizia em prantos à filha.
No fim do ano passado, a dona de casa recebeu o diagnóstico de quadro inicial de doença de Alzheimer. Em maio, passou a tomar nova medicação e a freqüentar sessões de psicoterapia. “Ela está mais tranqüila, mas esquecimentos e repetições ainda existem”, avalia Ana Helena, que tem esperanças na descoberta da cura da doença.
Ao contrário de Selma Serpa e Antônio, cujos quadros de Alzheimer vêm progredindo gradativamente, o desfecho no caso de Marilda pode, de fato, ser diferente. O rápido avanço nas pesquisas promete mudança no curso implacável de destruição característico desta doença.

Pesquisas para o tratamento do mal de Alzheimer

“Não tenho dúvidas de que haverá tratamento. Acredito que entre cinco e dez anos teremos formas mais eficazes de cuidar da doença”, afirma o Dr. Paulo Caramelli, professor de Neurologia da Universidade Federal de Minas Gerais. “Há grande número de colegas fazendo pesquisas nessa área.” Caramelli coordena o Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Sociedade Brasileira de Neurologia, órgão com um departamento que estuda a doença do mal de Alzheimer. “Em dezembro, haverá a sexta reunião brasileira de pesquisadores em Alzheimer. Na reunião de 1997, por exemplo, foram apresentados 54 trabalhos. Em 2005, 152! Fizemos avanços no diagnóstico, em pesquisas moleculares e estudos com modelos animais”, comemora Caramelli.
O Dr. Paulo Bertolucci, neurologista e pesquisador da Unifesp, concorda. “Ainda temos muito pela frente, mas acredito que um dia seremos capazes de prevenir a doença”, diz. “Agora conhecemos os alvos – a patologia molecular – e estamos com o foco neles.”
No mundo todo, cientistas estão pesquisando para encontrar remédios, combinações de drogas ou até uma vacina para interromper o processo degenerativo causado pelo mal de alzheimer. Estamos testemunhando os primeiros indícios animadores na história dessa doença que, segundo estimativas obtidas a partir de dados epidemiológicos, hoje o mal de Alzheimer afeta cerca de 600 a 800 mil brasileiros. “Mas o número de casos da doença de Alzheimer no país pode chegar a 1,2 milhão”, afirma Lilian Alicke, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAZ).

História do Mal de Alzheimer

Em 1906, o neuropatologista alemão Alois Alzheimer descreveu o que vira em Auguste D., sua paciente que acabara de falecer. Aos 51 anos, ela não conseguia mais escrever o próprio nome sem ajuda, era incapaz de cuidar da casa e tinha sinais progressivos de desorientação e deficiência das capacidades físicas e de memória, de tomada de decisão, julgamento e linguagem.
Na avaliação de Alzheimer, ela parecia prematuramente senil. Era jovem demais para ter sintomas de demência, pois o mal de Alzheimer era considerada uma etapa normal do envelhecimento. Ele chamou a doença de demência pré-senil. Os sintomas da paciente pioraram, até que ela entrou em coma. Quando morreu, aos 55 anos, Alzheimer recebeu o cérebro da mulher para pesquisa.
Ao analisar as amostras ao microscópio, três aspectos o surpreenderam. O cérebro estava atrofiado, e o tecido cerebral revelava o acúmulo de uma substância peculiar. Por último, dentro dos neurônios – os transmissores de sinais nervosos – havia emaranhados fibrosos de outra substância que parecia um cordão retorcido. Essas substâncias, que chamamos de placas neuríticas e emaranhados neurofibrilares, constituem os aspectos essenciais para distinguir a doença de Alzheimer de outros distúrbios neurológicos.
Por mais de 50 anos, no entanto, os sintomas da doença eram considerados parte do envelhecimento. Só caracterizavam patologia em pessoas que os apresentavam antes dos 65 anos. Também eram semelhantes aos da aterosclerose dos vasos sanguíneos cerebrais. “Daí a expressão ‘esclerosado’”, lembra o Dr. João Senger, geriatra e professor de pós-graduação em Geriatria da PUC do Rio Grande do Sul.
Durante a década de 1960, os cientistas perceberam que o excesso de placas e emaranhados não era normal nem nos idosos, e que um processo degenerativo estava ocorrendo.
Nem todas as formas de demência são doença de Alzheimer, observa o Dr. Bertolucci. Todos os casos de Alzheimer mostram o acúmulo das duas substâncias. Nas últimas duas décadas, a atenção voltou-se para elas.
O envelhecimento continua a ser o maior fator de risco: acima dos 65 anos, 1 em cada 20 pessoas desenvolve a doença; e 1 em 4, acima dos 85. Um fator de risco para o início precoce é o histórico genético familiar. Os fatores de risco para o surgimento tardio incluem hipertensão arterial, acidente vascular cerebral (AVC), doenças cardíacas, diabete, traumatismo craniano e ser do sexo feminino.

Mal de Alzheimer: um quebra-cabeça da ciência

O processo de esclarecimento dos mecanismos da doença de Alzheimer pode ser comparado a pesquisadores lutando para montar um gigantesco e complexo quebra-cabeça. As primeiras peças do jogo, a natureza placas neuríticas e emaranhados neurofibrilares descobertos nos anos 1980, são as margens em torno da figura. As descobertas genéticas subseqüentes começaram a preencher o meio. Em cada avanço, a atenção voltou-se ao encaixe da peça seguinte do quebra-cabeça, pois ela se ligava às outras já no lugar. Quanto mais visível vai se tornando o quadro, mais rápido as peças que faltam podem ser encaixadas.
A primeira grande descoberta, feita por uma equipe americana em 1984, foi que as placas consistiam principalmente em fragmentos agrupados da proteína beta-amilóide. Outra equipe americana decodificou em 1986 a estrutura molecular dos emaranhados neurofibrilares e descobriu tratar-se da proteína tau.
A decodificação da estrutura das proteínas preparou o caminho para a descoberta dos vários genes que compunham a matriz dessas proteínas tóxicas. Ao mapear o DNA de famílias em que a doença teve início precoce, os pesquisadores descobriram vários genes. Uma equipe liderada pela Alemanha descobriu o primeiro gene associado em 1991. Em 1995, uma equipe da Universidade de Toronto encontrou outros dois genes importantes.
Mutações em quaisquer desses genes estão ligadas à doença de Alzheimer de início precoce. Visto que nem todas as famílias afetadas têm mutações nesses genes conhecidos, “isso sugere que mais genes ainda estão para ser revelados”, diz Caramelli. Além disso, os cientistas descobriram em 1993 um gene chamado Apo-E4, que aumenta o risco de desenvolvimento tardio da doença de Alzheimer. Outros achados genéticos em relação à proteína tau e sua criação esclareceram seu papel na doença de Mal de Alzheimer e em outros tipos de demência.

Mal de Alzheimer: pesquisas realizadas em animais

A descoberta dos primeiros genes possibilitou aos pesquisadores criar um modelo animal para a doença. Durante décadas, a pesquisa da doença do Mal de Alzheimer sofreu limitações porque apenas seres humanos a desenvolvem, e é difícil, e por vezes antiético, realizar pesquisas com humanos. Ao transferir os genes para camundongos, as placas de amilóides puderam ser agrupadas no cérebro dos animais, facilitando os experimentos – e acelerando as descobertas.
Por volta de 1997, algumas drogas foram surgindo – primeiro o Donepezil, depois a Rivastigmina e a Galantamina. Chamados de inibidores da colinesterase, aumentam a disponibilidade de acetilcolina, substância importante na transmissão dos impulsos nervosos. Mais recentemente, outro medicamento se tornou disponível: a Memantina. “Esses remédios melhoram os sintomas da doença, mas não a curam. Ela é uma doença crônico-degenerativa, que segue seu curso. As drogas, no entanto, retardam a progressão”, diz Senger. Depois de seis meses de tratamento, a doença pode ficar estável por um período que varia de seis meses a dois anos.
Duas décadas de pesquisas criaram um quadro da doença de Alzheimer chamado de “hipótese de cascata do amilóide”, que quer dizer mais ou menos isto: todos temos essa proteína no cérebro, normalmente liberada e descartada. Mas algum desencadeador, combinado com o envelhecimento, incita uma mudança – mutação genética, talvez, um vírus, traumatismo na cabeça ou lesão cerebral sutil causada por infarto ou AVC. De repente, uma quantidade excessiva de amilóide tóxica é produzida ou não é eliminada com rapidez suficiente. Isso acarreta acúmulo de placas amilóide nos neurônios. Uma alteração degenerativa da proteína tau também ocorre. Como resultado, o transporte de nutrientes é impedido, e as células nervosas morrem.
A princípio, a transmissão dos impulsos no cérebro é interrompida, prejudicando o armazenamento e a recuperação da memória – e, nesse estágio, medicamentos, como inibidores da colinesterase, podem ajudar. Conforme mais amilóides e proteínas tau degeneradas se depositam, mais neurônios morrem, o cérebro se torna inflamado, os tecidos atrofiam e, por fim, toda a rede neural pára de funcionar. O processo provavelmente leva anos para se desenvolver, começando muito antes de os sintomas aparecerem.
“Se conseguirmos interromper o acúmulo de amilóides poderemos parar a doença”, diz Bertolucci.

Remédios para o Mal de Alzheimer

Pesquisadores descobriram mais de 30 compostos diferentes que podem interromper, retardar ou impedir o acúmulo de placas amilóides em camundongos, ou ainda acelerar sua liberação.
“Não sabemos se algum deles fará o mesmo em seres humanos”, diz o Dr. Paul Fraser, professor de biofísica médica da Universidade de Toronto, que fez parte da equipe que anunciou um novo agente promissor em junho de 2006. Um composto chamado ciclohexanehexol, ou AZD-103, interrompeu o acúmulo de beta-amilóide em camundongos e reduziu os sintomas.
Os compostos estão na Fase I dos testes clínicos. Outros estão na Fase II. Nela, a eficácia do tratamento é testada em grupos de 100 a 300 pessoas. Depois, se ele ainda for promissor, avançará para ensaios clínicos de Fase III em até 3 mil pacientes com grupos de controle. Nem os pacientes nem os médicos pesquisadores terão conhecimento de quem estará recebendo o tratamento até o fim do estudo.
“Existem muitas drogas em fase de investigação, que, para se mostrarem úteis, necessitam de tempo de estudo. Uma medicação leva, em média, dez anos, desde o início da pesquisa até estar disponível na farmácia”, lembra o Dr. Senger.

Quanto mais cedo a doença for diagnosticada, melhor

Os resultados podem não vir cedo o bastante para Carlos Souza,* de 71 anos, militar aposentado do Rio de Janeiro, e sua mulher, Neuza Souza,* de 66. Carlos recebeu o diagnóstico de Alzheimer em 2002, poucos meses depois que os primeiros sintomas de confusão e esquecimento surgiram.
“Eu sempre fui muito organizado, mas de repente não sabia onde colocava nada. Sempre fui muito bom em esportes, principalmente tiro, mas já não conseguia praticar”, diz Carlos. Certa noite, sua mulher escreveu uma carta-desabafo na qual descrevia todo o processo estranho e perturbador que acometia o marido, além das dificuldades e do estresse relacionado aos cuidados com ele. “É um grande sofrimento. Não sei o que é pior, se perder o marido de uma vez ou ir perdendo aos poucos para a doença.”
Eles têm uma importante mensagem para outras pessoas que apresentem sintomas iniciais de Alzheimer: “Não protele! Obter um diagnóstico imediato e falar abertamente sobre a doença é muito, muito importante”, aconselha Neuza.
Como os dois procuraram ajuda médica especializada logo no surgimento dos sintomas, Carlos hoje se sente muito bem. “O meu médico diz que estou assim porque me trato desde o início. Acho que tenho apenas dois neurônios, mas meu cérebro ainda funciona. Estou sempre lendo e forçando minha mente”, brinca ele.
Neymar de Castro concorda: “No início, até por um mecanismo de defesa, quem sofre de Alzheimer não admite que tem a doença. Antônio até se recusava a reconhecer os sintomas, apesar de ser uma pessoa dócil. Mas isso só retarda a obtenção de ajuda.”
Com o surgimento dos primeiros tratamentos potencialmente eficazes, que envolvem um grande número de novos remédios em ensaios clínicos, agora, mais do que nunca, é o momento de encarar a doença.

Tipos de demência e doenças mentais

A doença de Alzheimer responde por 64% dos casos de demência. Mas outros males também podem causar confusão mental, perda de memória ou deterioração física.
“O diagnóstico correto é importante porque certos tipos de demência são reversíveis ou tratáveis”, diz a Dra. Márcia Chaves, neurologista com especialidade em doença de Alzheimer. Hoje, a disponibilidade de medicamentos que podem estabilizar os sintomas e outras drogas ainda em fase de teste tornam fundamental o diagnóstico correto nos estágios iniciais de doenças mentais. “Antigamente, o médico só podia fornecer apoio social e clínico”, diz a Dra. Márcia.
Em comparação com outros tipos de demência, a doença de Alzheimer apresenta um grupo de sintomas de progressão gradativa que, com uma história clínica detalhada do paciente, exames cognitivos e de imagem, fornece um diagnóstico preciso “80% a 90% das vezes”, diz ela.
Ao contrário da doença de Alzheimer, as demências causadas por infecção ou interação medicamentosa (uso de dois ou mais medicamentos que atuam entre si) têm sintomas que surgem de repente, do dia para a noite.

Diferentes tipos de demência

Demência vascular
A mais comum depois da doença de Alzheimer, é causada por episódios únicos ou múltiplos de acidente vascular cerebral (AVC) e pode existir só ou combinada com Alzheimer. O início pode ser súbito ou gradual. Tabagismo, obesidade, diabete e hipertensão arterial são fatores de risco. O tratamento consiste em reduzir os fatores de risco e usar a medicação para melhorar o fluxo sanguíneo para o cérebro. Drogas como o Eranz têm demonstrado eficácia.
Doenças do príon
Proteínas anormais que podem ser transmitidas pela pele, os príons são responsáveis por doenças raras como a de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). A DCJ é uma forma de demência de progressão rápida que apresenta quatro formas: esporádica, surgindo em pessoas com 45 anos ou mais, sem fatores de risco; em famílias com mutação genética no príon; a partir da exposição ao tecido infectado pela doença; e pela ingestão de carne contaminada pela doença da vaca louca.
Demência com corpos de Lewy
Como as placas na doença de Alzheimer, os corpos de Lewy são estruturas incomuns, cheias de proteína, localizadas no cérebro e que acarretam a morte de alguns neurônios e a lesão de outros. Esta demência pode coexistir com as doenças de Alzheimer e de Parkinson e apresenta sintomas de ambas. A causa não é conhecida. Não há cura.
Demência frontotemporal (doença de Pick)
A doença de Pick afeta os lobos frontal e temporal do cérebro. Os sintomas surgem mais freqüentemente em pessoas com 50 a 60 anos e incluem alteração súbita do comportamento e problemas da fala, mas a memória parece ser poupada no início. Confusão e demência pioram com a progressão da doença. Causas e fatores de risco são desconhecidos. Não há cura.

10 sinais do Mal de Alzheimer

É mesmo doença de Alzheimer ou apenas sinal de “velhice”?
Enquanto todos temos lapsos de memória esporádicos – esquecemos de servir a sobremesa, somos incapazes de lembrar o nome de alguém, nos esquecemos do que tínhamos de fazer ao entrar em um cômodo da casa –, os sintomas da doença do Mal de Alzheimer são mais freqüentes e graves. A Academia Brasileira de Neurologia lista dez sinais preocupantes:
  1. Perda de memória que afeta o dia-a-dia, principalmente ao esquecer eventos recentes.
  2. Dificuldade de realizar tarefas domésticas que você fez a vida toda, como preparar uma refeição.
  3. Problemas de linguagem, como esquecer palavras simples com freqüência ou fazer substituições inadequadas.
  4. Desorientação quanto ao tempo e ao espaço – perder-se na própria rua onde mora.
  5. Poder de análise comprometido, como escolher mal a própria roupa.
  6. Problemas com o pensamento abstrato, como ser incapaz de reconhecer o que significam os números em um talão de cheques.
  7. Colocar objetos em lugares errados, como um ferro de passar dentro da geladeira.
  8. Uma combinação de comportamentos ou alterações de humor como ir de um estado de calma às lágrimas e depois ter um comportamento agressivo sem razão aparente.
  9. Alterações de personalidade, como se tornar introspectivo, desconfiado, medroso ou fora dos padrões sociais normais.
  10. Perda de iniciativa, tornando-se muito passivo e exigindo incentivos ou “deixas” para se envolver nas tarefas.

Como ser otimista

Como ser otimista

5 maneiras de tornar sua vida mais bonita.
A tristeza e o pessimismo pesam na economia, na saúde e nos relacionamentos. Estragam nossas dádivas. Cheguei a essas ideias com minha experiência de vida, as lições de meus sucessos e fracassos e os encontros com filósofos, especialistas e líderes empresariais que promovem o otimismo como algo fundamental. Ele tornará sua vida mais bonita – a sua e a dos outros, porque o otimismo é contagioso. Eis como começar.
1. Cultive o pensamento positivo
É melhor para a saúde buscar emoções positivas: afeto, alegria, satisfação. Os vínculos entre o coração e o cérebro são bem conhecidos. Um único pensamento positivo pode estimular hormônios e neurotransmissores benéficos. A ocitocina é o hormônio do amor, do prazer e do orgasmo. A serotonina regula positivamente nosso humor. A dopamina nos estimula e encoraja. Basta um pensamento, olhar ou sorriso para a pressão baixar e nos sentirmos bem.
Ponha à prova esses princípios científicos. Quando acordar, dedique um momento a recordar ou refletir sobre um sonho ou algo agradável. Quando chegar ao trabalho, esqueça a viagem cansativa ou o mau tempo. Compartilhe algo positivo. Quando um motorista parar para você passar, sorria e acene. Nesses momentos, você sentirá o rosto relaxar e o bom humor tomar conta.
2. Não conte com a sorte
Depois de um revés, muita gente diz: “Sou azarado.” Mas sorte e azar não existem. As pessoas consideradas sortudas saem em busca da boa fortuna, como dizia Maquiavel. Elas tomam a iniciativa e fazem contato com muita gente, aumentando a probabilidade de encontrar a alma gêmea, o emprego, o apartamento. É energia, e não sorte. É força de vontade, espírito de conquista, vontade de avançar. É fundamental nunca perder o ímpeto.
Não acredite que a sorte estará sempre com você. Digamos que você apresente um projeto. Tudo vai maravilhosamente bem. Mas não dá em nada. A explicação é simples. A pessoa com quem você está falando não está interessada, mas não quer desagradá-lo nem perder seu tempo discutindo. Por outro lado, muitas propostas que recebem uma resposta negativa acabam gerando um resultado positivo.
O princípio básico é: nada irá tão bem nem tão mal quanto pensamos. Os otimistas sabem que nada pode ser considerado pressuposto, que tudo tem de ser conquistado.
3. Mantenha o desejo de aprender
O pessimista não tem curiosidade. Perde a oportunidade de conhecer algo ou alguém novo. O otimista sente curiosidade por tudo. A curiosidade é a pedra fundamental do conhecimento. O desejo de aprender é um modo de controlar o ego, a tentação de pensar “sei tudo”. Adquirir habilidades, inclusive as técnicas, alarga nosso horizonte e nos deixa mais felizes. O progresso nos recompensa pelo esforço e contrabalança reveses e frustrações. Faça grande descobertas ou proponha a si mesmo pequenos desafios. O mais importante é se manter alerta.
4. Assuma a responsabilidade
A maioria de nós não desconta as irritações na família, nos amigos nem nos colegas. Nós os poupamos. Para compensar, passamos a desconfiar do mundo. Construímos um mundo virtual onde tudo é interpretado negativamente, inflando o medo do crime, mesmo quando pequeno.
O exagero dos riscos e do sofrimento é um fenômeno coletivo e pode nos afetar individualmente. Está difícil chegar ao fim do mês? Comece não exagerando o sofrimento. Pense também no que vai bem, no que você conseguiu. Em vez de reclamar, olhe em volta e procure quem teve problemas parecidos e possa ajudá-lo.
Se algo vai mal em casa ou no trabalho, a responsabilidade é sua. Você é a principal solução.
5. Não acredite que antes era melhor
Ser otimista significa viver o presente sem se sobrecarregar o tempo todo com a ideia de que antes era melhor ou que a felicidade virá depois.
O filósofo francês André Comte-Sponville disse: “Não faz sentido esperar pelo que não se tem sem gozar o que se tem.” Quando não estamos inteiramente no momento presente, perdemos experiências gratificantes.
É a filosofia da felicidade. Ela está no aqui e agora, no carpe diem dos antigos; temos de aprender com os fracassos e sucessos, nos aprimorar, não deixar as oportunidades passarem e, é claro, nunca protelar nada.

Retirado do livro 50 bonnes raisons de choisir l’optimisme.
O escritor Thierry Saussez mora em Paris e criou em 2014 os seminários “Printemps de l’optimisme” (Primavera do otimismo).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O SUBSEQÜENTE TRATAMENTO TÉRMICO DE GEMAS IRRADIADAS


O SUBSEQÜENTE TRATAMENTO TÉRMICO DE GEMAS IRRADIADAS POR COBALTO-60 (RADIAÇÃO GAMA)




Saber tratar termicamente as gemas submetidas primariamente ao tratamento por radiação gama (cobelto 60) é uma tarefa muito importante. Muitos comerciantes de gemas já dominam técnicas de aquecimento, que de um modo geral são realizadas em fornos casieros (ou tipo mufla), em temperaturas que não ultrapassem os 500ºC.
Aqui veremos alguns minerais irradiados e seu subseqüente tratamento térmico.

TOPÁZIOS
Topázios incolores quando submetidos ao tratamento por radiação gama voltam ao cliente com a cor fumê. A cor azul tão desejada vai aparecer após subseqüente tratamento térmico em temperaturas na faixa dos 150º a 180ºC, aplicado em fornos convencionais. Essa temperatura não é uma regra. Irá depender da origem do topázio, porém valores mais elevados tendem a deixá-lo esbranquiçado.
Se depois de passar por irradiação gama o topázio venha a apresentar tons de “coca-cola”, já é uma garantia que após o tratamento térmico ele obterá um azul excelente. O Topázio azul irradiado com gama é o preferido dos joalheiros, pois possui o tom similar ao da água-marinha, em contraste com os topázios irradiados por outros métodos como aceleradores de elétrons e neutrons.
QUARTZOS
Quartzos irradiados tipo green-gold, quartzos conhaques e quartzos beer, apresentam tratamento térmico em temperaturas variáveis entre 180 a 360ºC. O tempo de exposição ao calor deste material também é variável: cerca de 15 minutos em aquecimento rápido até aquecimentos que envolvem cerca de duas horas com resfriamento lento e gradual.
  
Quartzos green-gold, conhaque e beer tratados por radiação gama e subseqüente tratamento térmico (180 a 350ºC)
Diferentemente, a prasiolita (ametista verde - que também é uma espécie de quartzo irradiado abundantemente), após a aplicação da radiação gama, necessitará apenas da simples exposição aos raios ultravioletas do sol ou de lâmpadas especiais que contenham este tipo de luz, procedimento que deixa a gema com verde mais puro e acentuado, sem tons acinzentados. Um grande diferencial no tratamento de prasiolitas é que o tom verde já pode ser observado logo após a irradiação do material, o que não acontece com o quartzogreen-gold, conhaque e beer, que voltam da radiação gama totalmente escuros. Em relação à prasiolita, é necessária a exposição ao sol durante três dias no mínimo. Todos os quartzos apresentam excelente estabilidade de cor após os referidos processos.
BERILOS
Grande parte dos berilos incolores (Goshenitas) submetidos à radiação gama apresentam cerca de quatro possibilidades:
1- podem tornar-se amarelos (heliodoros),
2- podem tornar-se berilos verdes,
3- podem tornar-se berilos róseos (morganitas)
4- podem tornar-se berilos azuis (maxixe - não comercial).

Nos berilos incolores que após irradiação apresentam-se amarelos, tons fumês indesejados entram no seu escopo e a filtragem com a simples exposição ao sol é necessária em alguns casos. O amarelo transforma-se em laranja; berilos incolores que adquirem cor verde já voltam no tom desejado; berilos róseos (morganitas) podem ser conseguidos após a queima de berilos verdes irradiados ou depois da queima de berilos azuis (maxixe) em temperaturas entre 240ºC - 280ºC.

Berilos amarelos após irradiação e suseqüente tratamento térmico à baixa temperatura ou simples exposição ao sol
Na maioria dos casos em que berilos incolores culminam no aparecimento de berilos verdes após irradiação, estes não necessitam de subseqüente tratamento térmico. Alguns comerciantes de gemas preferem vendê-los com esta cor; outros os submetem à queima, para transformá-los em róseos.
Berilos azuis (maxixe) originados através de aplicação de radiação gama.
Tal material apresenta baixa foto-estabilidade e não deve ser comercializado; esta cor é perdida em alguns dias. No entanto, em alguns casos, berilos deste tipo podem ser aquecidos a temperaturas de 240ºC, passando para morganitas com cores estáveis termicamente.
TURMALINAS (RUBELITAS e TURMALINAS ROSA)
Turmalinas róseas, como as da foto ao lado, saem da natureza com um tom desbotado; as cores mais intensas observadas em joalherias são produtos de radiação gama. O procedimento é o seguinte: gemas deste tipo devem ser submetidas primariamente a um desbotamento completo a uma temperatura de aproximadamente 600ºc antes de serem submetidas à radiação gama. Após o tratamento, em geral, a gema já volta na cor.
---> Brincos em ouro 18k, turmalinas rosa e topázios
(design by Hamilton Miranda - patrocínio: Manoel Bernardes - foto: Almir Pastore)
Rubelitas são casos mais específicos. Geralmente, elas saem da natureza também rosadas, porém pode-se preferir que se tornem vermelhas por se tratar de uma variedade de turmalina de valor mais acentuado quando comparada com as rosadas. Ou seja, há uma agregação fantástica de valores quando tal material é susceptível ao processo com raios gama. Cores cinza (indesejadas) podem vir após a radiação.
Seu tratamento térmico também não é muito simples para deixá-la com o vermelho sangue de pombo. Para tal, deve-se aquecer lentamente este material durante três dias em forno com temperatura controlada.
1- Deve se aquecer durante 1 dia até chegar em 150ºC
2- No segundo dia passar para 250ºC
3- No terceiro dia subir para a temperatura de 275ºC


KUNZITAS
Após ser submetido à radiação gama, o mineral espodumênio (incolor ou levemente rosado) pode originar o aparecimento da kunzita - ou também da hidenita (espodumênio verde). Neste último caso, a cor verde é instável e o mineral torna-se “não comercial”. Entretanto, algumas hidenitas irradiadas com gama podem originar a cor rósea das kunzitas (cor estável), a aproximadamente uma temperatura de 240ºC.
Espodumênios da região de Itamarandiba-MG e espodumênios do Afeganistão têm sido tratados na Embrarad com excelente resultados em suas cores, como mostra a foto ao lado. Uma dica para o tratamento de kunzita é comprar o espodumênio incolor com topo do cristal levemente azulado.