sábado, 7 de outubro de 2017

De Itabira para Itabira

De Itabira para Itabira


Pense em um filho que cresce, estuda, ganha prestígio, conhece o mundo, mas não abre mão de estar em casa. Valoriza as origens, constrói seu sucesso a partir de suas raízes. E sente prazer em ver a casa crescer. É assim com o Grupo Belmont. Uma empresa de Itabira, que ultrapassou fronteiras, se diversificou, mas sempre fez questão de valorizar o local em que nasceu.
Nascemos em 1969, sob a inspiração de nosso fundador, Mauro Ribeiro Lage. Nesses quase 50 anos de Belmont, muita coisa mudou. O que era uma empresa de transportes se transformou em uma mineradora, expandiu para a agroindústria, chegou à construção civil e agora ao ramo imobiliário. O que não mudou foi a visão de querer que o crescimento de Itabira acompanhe o nosso crescimento. Temos clientes espalhados pelo Brasil, China, Estados Unidos, Índia, Israel, Tailândia e Japão, além de países da Europa, mas 90% de nossos investimentos continuam onde nascemos.
O Condomínio Village da Lagoa, destaque na edição desta revista, é mais um de nossos empreendimentos que valorizam Itabira. É um projeto especial, não só por causa de todos os detalhes que nele contém, mas pelos valores que nos conduziram desde a concepção até a execução. Queremos um lugar cheio de vida. E para elaborar o melhor ambiente possível, nos fizemos a seguinte pergunta: “Onde nossa família gostaria de morar”?
Não é uma pergunta em sentido figurado. Estaremos também no Village da Lagoa, seremos vizinhos de quem acreditar no nosso projeto. E quando a gente pensa em um lugar para morar, deseja o melhor local possível. Um ambiente agradável, seguro, que inspire, traga qualidade de vida e nos ajude a crescer. Para construir o Village da Lagoa buscamos inspiração em projetos bem-sucedidos, mas toda a concepção está baseada em algo bem íntimo, naquilo que a gente sempre sonhou para as nossas vidas.
O Village da Lagoa não é apenas mais um negócio. A Belmont não pensou este projeto como uma oportunidade de vender lotes. É muito mais do que isso. O que queremos é um condomínio em sua melhor definição, um ambiente de convivência, de interação. De belas casas também, claro, mas acima de tudo, de muita vida. Por isso é que idealizamos ações de incentivos à construção, que podem ser conferidas nas próximas páginas da revista.
Com esse novo projeto, a Belmont torna ainda mais forte a ligação umbilical que tem com Itabira e dá mais um passo em sua trajetória. Uma história construída à base de muito respeito, de valorização aos funcionários e que tem como meta ser o melhor lugar possível para se trabalhar. Agora temos um novo desafio: ter também o melhor lugar possível para se viver. Estamos trabalhando duro, utilizando toda nossa experiência para alcançar esse objetivo. Não tenho dúvidas de que o resultado será maravilhoso. Mais uma vez, por Itabira!
Antônio Mauro Fonseca Ribeiro
Presidente do Grupo Belmont
Fonte: De Fato On Line 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Preço do minério de ferro avança, cotado acima de US$ 62 a tonelada

Preço do minério de ferro avança, cotado acima de US$ 62 a tonelada

O preço do minério de ferro avançou nesta sexta-feira (6) ao fim de um período de liquidez reduzida em razão de feriado que durou toda a semana na China.
O minério à vista com teor de 62% de ferro negociado no porto de Qingdao marcou alta de 1,24%, cotado a US$ 62,24 a tonelada.
Fonte: Money Times. 

Magazine Luiza passa a vender itens de supermercado em e-commerce

Magazine Luiza passa a vender itens de supermercado em e-commerce

O Magazine Luiza (BOV:MGLU3) anunciou a ampliação do seu portfólio de produtos vendidos no comércio eletrônico. A empresa passa a oferecer online, a partir deste mês, produtos de higiene, limpeza e outros itens típicos de supermercado como produtos de cuidados para bebê, cápsulas de café e achocolatados.
As novas categorias de produto serão ofertadas com estoque próprio do Magazine Luiza. A distribuição também será realizada pela companhia.
Em nota, o Magazine Luiza disse ver muitas oportunidades nessas categorias de produto. A capacidade logística é vista como um diferencial nesse negócio. Assim como já existe em outras categorias, a companhia vai habilitar a opção de o cliente retirar o produto em uma das lojas da rede – que tem 814 pontos distribuídos pelo Brasil. Nessa opção, a entrega é feita em até dois dias úteis com frete grátis.
Fonte: Agência Estado.

Temer vetará emenda à reforma política que permitia censura na Internet

Temer vetará emenda à reforma política que permitia censura na Internet

SÃO PAULO (Reuters) - O presidente Michel Temer vai vetar emenda à reforma política que exigia a suspensão de conteúdos considerados ofensivos a partidos políticos após denúncia e posterior identificação de autores.
O texto foi considerado como mecanismo de censura e possível cerceamento de liberdade política por empresas de tecnologia e grupos de liberdades civis.
“O presidente Michel Temer vetará o artigo da nova lei eleitoral, que exige aos provedores de aplicativos e redes sociais a suspensão de publicação quando for denunciada por ser falsa ou incitar ódio durante o pleito”, disse o governo em comunicado à imprensa. A nota afirma que a decisão ocorreu após pedido do autor, deputado Aureo (SD-RJ).
A emenda, aprovada pela Câmara na madrugada de quinta-feira e pelo Senado durante a tarde da véspera, previa que qualquer pessoa poderiam denunciar conteúdos considerados como “ofensivos ou discurso de ódio” publicados em redes sociais contra candidatos e partidos, o que obrigaria as empresas a suspender a publicação por 24h, ou até que o autor se identificasse, além de posterior remoção definitiva caso não houvesse identificação.
Mais cedo nesta sexta-feira, o deputado Aureo afirmou ser contra a censura e disse que ouviu as preocupações da sociedade civil sobre um possível mau uso da emenda, por isso decidiu pedir o veto.
“Gostaria de esclarecer que minha intenção foi de impedir que os ataques de perfis falsos de criminosos pudessem prejudicar o resultado das eleições”, disse o deputado. “Que fique claro: não defendo e nunca defenderei qualquer tipo de censura”.

Fonte:  Reuters

Conheça a história do homem que ganhou R$ 122 milhões e hoje está pobre

Conheça a história do homem que ganhou R$ 122 milhões e hoje está pobre



De madrugada a temperatura cai bastante e ninguém consegue dormir sem cobertor. Uma espessa neblina encobre o garimpo quando esta estranha cidade no meio da selva, que já chegou a ter mais de 80 mil habitantes, começa a acordar para mais uma jornada. É sábado, um dia como outro qualquer em Serra pelada, onde o fim de semana só começa ao meio-dia de domingo.
O barulho das britadeiras moendo o cascalho nos barrancos; procissão de vultos silenciosos caminhando para a cava; a rotina recomeçava. O zunido dos pernilongos ainda está nos ouvidos, suplício apenas para os forasteiros.
“Como é que se chama pernilongo aqui?”
“Carapanã que o senhor fala? Ah, não precisa chamar não. É só deixar a porta aberta que eles vêm sozinhos…”
Apesar das precaríssimas condições de vida e trabalho no garimpo, o bom humor predomina, e é raro ouvir alguém se queixar da vida. Explica-se: para a maioria deles, a vida lá fora era ainda mais dura, e sem qualquer perspectiva de melhora. Aqui todos têm trabalho e comida, com direito a sonhar.

Blefados ou bamburrados na loteria do garimpo
Quatro homens do barranco 26 jogam dominó. Libânio, Antônio, Vitorino e Francisco vieram do Maranhão há menos de um ano. Três eram estudantes, um trabalhava na roça. São meias-praças, vão ter direito a 5% do ouro que for encontrado no barranco – o pedaço que lhes cabe no imenso tabuleiro esculpido numa enorme cratera de 24.615 metros quadrados, com 1.200 metros de diâmetro e mais de 100 metros de profundidade – mas até agora não encontraram nada. O dono do barranco mora em Belém. Só vem de vez em quando para prover a turma de comida e óleo para a britadeira, comprar alguma ferramenta que falta. Por que eles estão aqui?
“É mais a necessidade de aventurar alguma coisa”.
Eles agora estão jogando dominó em pleno dia de trabalho porque, quando chegam as chuvas, o garimpo começa a ser desativado. Apenas uma pequena parte da cava, não mais do que 10% ainda tem condições de continuar funcionando. Dentro de poucos dias, eles irão embora para outro garimpo, o de Cumaru.
“A gente chega lá e vai caçar patrão. Tem muito serviço lá”, explicava Libânio.
O maior garimpo a céu aberto do mundo
A cada dia, lotando caminhões que ligam esta ferida aberta na selva, 130 quilômetros a Sudoeste de Marabá, a 13 localidades do Pará, Maranhão e Goiás, milhares de paus-de-arara do ouro vão deixando para trás, em meio à poeira, o maior garimpo a céu aberto do mundo.
São os blefados, que deixam para trás também sua saúde, seus sonhos de riqueza desfeitos. Nos teco-tecos e bimotores, que fazem a ponte aérea Marabá – serra Pelada, vão embora também os bamburrados, aqueles 2% de garimpeiros que ficam com 72% da renda de todo o ouro do garimpo descoberto no início dos anos 80 e festejado como o tesouro que resolveria os problemas do Brasil.
Homens enlameados até os cabelos, caminhando como formigas com sacos de cascalho nas costas e cavando como tatus, levantando poeira ou barco dentro de um grande buraco, o garimpo – esta é a paisagem humana que encontrei quando vim aqui a primeira vez, está fazendo quase oito anos. Naquele tempo, quase nenhum piloto se arriscava a ir para lá. Só os mais malucos. Motivos não faltavam, mesmo para estes suicidas pilotos de garimpo que topam qualquer serviço.
A pista improvisada no cabo de enxada era apenas uma tênue nesga de terra rasgada no meio da mata, quase sempre escondida pela chuva, a neblina ou a poeira. Cercada por morros, era também a principal e única rua do garimpo, vivia coalhada de gente. Descer lá sem problemas era como acertar sozinho na loto.
A imagem não é gratuita: Serra pelada sempre foi, desde o começo, um jogo, um contrato de altíssimo risco. Ali, a distância entre a riqueza e a miséria, a vida e a morte, a glória e o ridículo, o céu e a terra sempre foi muito pequena, nem dá para notar lá do alto. Estávamos em serra Norte, onde mais tarde viria nascer a República dos Carajás. O piloto não inspirava nenhuma confiança. Era um refugiado angolano que aceitava qualquer vôo e para ele tudo era lucro. Não sei o que me dava mais medo, se era o piloto ou o aviãozinho dele, todo remendado.
Meia hora depois, só céu e mata, quando já deveríamos estar chegando a Serra Pelada, o angolado começou a mostrar sinais de preocupação. Constatou simplesmente que estava perdido, a rota não era aquela. Tenta contatar outro avião pelo rádio, e nada. Para encurtar a agonia, depois de mais meia hora o homem conseguiu descobrir onde estava e gloriosamente vislumbramos o garimpo. Pela primeira vez na vida, e por pouco a última, ouvi um avião buzinando para pousar. O pessoal não saiu da pista, o angolano teve que dar uma arremetida toda torta e quase batemos num carro.
Quem mandava ali por todos os seus prepostos à paisana ou fardados era o Exército. Mais precisamente, o garimpo era comandado pelo major Curió (anos mais tarde, ele se elegeria deputado federal com os votos dos garimpeiros). Em poucas semanas, aquele pedaço de fim de mundo perdido na selva amazônica seria transformado num retrato três por quatro em branco e preto deste lugar do mundo chamado Brasil.
Quase meio milênio após a chegada dos descobridores portugueses, repetiam-se as mesmas cenas de devastação, depredação das riquezas naturais e humanas, o vale tudo na terra de ninguém. E reuniam-se novamente em busca do tesouro os senhores, os feitores e os escravos, aqui chamados de formigas, os homens expulsos de outras terras que chegaram ao fim da linha e tentavam sobreviver carregando sacos de terra molhada do garimpo até as máquinas dos seus proprietários, onde os sonhos passariam pela peneira.
Mas muita água correria pelo leito natural do igarapé da grota Rica, onde o filho de um certo Zezinho, protegido de Genésio Ferreira da silva, o antigo dono das terras da Serra Pelada, encontrou alguma coisa brilhando junto a uma bica d’água, em fevereiro de 1980, até se chegar aos confrontos entre os garimpeiros e a Polícia Militar do Pará sobre a ponte de Marabá, no final de 1987.
Da constatação de que se tratava de ouro o que o menino viu à invasão da fazenda, foi como um raio. Correm na Serra Pelada também outras lendas e versões. Uma delas dá conta de que o próprio Genésio encontrou ouro ao cavar um buraco para fazer cerca. Há quem garanta que quem encontrou ouro primeiro foi um tal de Pedrão, que limpava juquira (roçava o mato) para Genésio.
A lei do garimpo é desafiar a sorte
José Mariano dos Santos é um dos milhares aventureiros da Serra Pelada. Fiquei sabendo de sua história aos poucos, até ele ganhar a confiança da minha amizade. Na época, quando Marabá naufragou, levada nas enchentes, o garimpeiro José, o Índio, viu na televisão a notícia de que acharam o ouro em Serra Pelada. Pegou uma carona de caminhão até o KM 16 da estrada PA-150, que liga Marabá a Serra dos Carajás. Ali hoje é o entroncamento da estrada de terra que liga a rodovia asfaltada a Serra pelada, mas naquele tempo só havia um jeito: enfrentar a selva.
Índio já bamburrou e ficou blefado várias vezes, na gangorra das riquezas e misérias de Serra Pelada. Apesar de tudo, não se arrepende de ter largado a família na Baixada Maranhanse, onde trabalhava de terça na terra dos outros, ou seja, entregava ao dono da fazenda um terço do que produzia sua roça de arroz, milho, feijão, mandioca, o de sempre.
“A Serra para mim foi uma mãe” ia sempre me repetindo, sem ninguém perguntar.
Com outros trinta homens e uma máquina de lavar cascalho na cabeça, encarou o garimpo do ouro prometido, caminhando das seis da manhã às seis da tarde. Depois de passar dois dias com fome, vendeu a muda de roupa para conseguir comida, ajeitou-se num pedacinho de barranco da grota Rica e dali pára cá, “animei com o negócio, já tava lá dentro mesmo… era obrigado a passar fome, o que eu ia fazer? Não ia voltar”.
Fortuna e miséria na trilha do ouro
Como bichos, comendo e defecando no mesmo pedaço de terra, milhares de homens como Índio lançavam-se na grande aventura de ficarem ricos da noite para o dia. Para falar bem a verdade, a grande maioria nem sonhava tão alto, estava ali apenas para tentar sobreviver, longe da família e de qualquer resquício de vida, digamos, civilizada. Eram quase todos antigos lavradores, posseiros, homens que foram sucessivamente sendo expulsos das suas terras no Maranhão, no Paraná, em Minas, no Pará.
Índio chegou a ficar um ano e sete meses sem sair do garimpo, andando só de calção. “Já tava ficando doido. Mulher que conhecia era só a minha mãe…” resolveu ir para Belém. “Nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida, nem sabia como funcionava banco”. A esta altura, ele estava só no mundo. Sua mulher, Ângela Maria, com quem teve dois filhos, o havia abandonado depois de três anos de casamento. “Ela fugiu com outro, um motorista de caminhão. Eu era um braçal, ele era motorista, ela quis melhorar de vida…”
Ao bater com a picareta numa pepita de 13 quilos de ouro, Índio tinha ficado rico, mas agora já era tarde demais. A mulher e os filhos estavam longe, não tiveram paciência para esperar o resultado da loteria. A primeira coisa que fez em Belém foi o que fazem todos os garimpeiros bamburrados comprou um carro zero quilômetro. Como não sabia dirigir, contratou um motorista. Ele queria apenas um carro novo, mas logo descobriu que com o dinheiro do ouro daria para comprar 30 carros novos…
“Tanto dinheiro… Eu achava que era o homem mais rico do mundo. O carro era azul-metálico, todo mundo ficava olhando”. O motorista Domingos que, arrumou para roubá-lo nos oito dias em que dirigiu, conseguiu comprar dois táxis.
Mas Índio parecia conformado; dizendo que “o primeiro dinheiro que a gente pega, joga fora. Depois acaba aprendendo”.
Um estádio de futebol escavado a mão
Nem sempre isso é verdade. No garimpo, é como se não houvesse amanhã. O dinheiro corre rápido, assim como entra, sai. O que explica a multiplicação de bordéis, que depois se transformam em vilarejos em torno de Serra Pelada (até há dois anos, era proibida a entrada de mulheres no garimpo). Quem nunca perde nada é o Posto Serra Pelada. Bem em frente ao posto está instalado o depósito de gás engarrafado. O dono de tudo é um advogado paranaense, Milton Gatti, um dos pioneiros de Serra Pelada, que chegou a ter mais de 300 homens trabalhando nos seus barrancos.
Com o prazer de quem vai mostrar sua própria casa ao visitante, benedito Evaristo, paulista de São José do rio Preto, conhecido por Adão, seu nome artístico de cantor de música sertaneja, me lva até a cava, uma cratera do tamanho do Estádio do Morumbi escavado a mão! Em torno dela corre um riacho formado pelas águas do fundo do tilim, a parte mais baixa do garimpo, bombeadas por duas dragas. É a periferia do garimpo, lugar onde trabalham os requeiros.
Vizinho ao barranco de Adão, três paulistas fazem hora para bagere, o almoço no garimpo. Um bancário, um químico e um comerciante, que largaram tudo, estão há 60 dias sem sair daqui e não se queixam: “ouro tem, é só a gente ter paciência que encontra”. E se divertem com as histórias do garimpo. “Sabe como é que a gente fazia rabo-de-galo (pinga com vermute) aqui no garimpo? Era álcool com Biotônico Fontoura. Mas, agora, até o hospital ta proibido de usar álcool e as farmácias não podem mais vender biotônico…”, confidenciou-me o bancário.
Passado alguns anos, voltei lá, voltei outras vezes e dava para ver a olho nu que a degradação da natureza acompanhava a degradação humana, na mesma proporção – a revolta silenciosa e profunda se espelhando nos rostos de homens que já não tinham mais volta, que já tinham deixado tudo para trás e agora se apegavam ao buraco feito náufragos sem esperança de chegarem à terra, mas reunindo as últimas forças para se segurarem no barco virado.
Na terceira visita à Serra assisti uma cena trágica que não abandona. Destruídas as famílias e os sonhos perdidos, só filhos dos que foram aventurar-se em Serra Pelada perambulavam pelas ruas de marabá, de Imperatriz de muitas cidades. Meninas bonitas, que fariam sucesso nas colunas sociais, se tivessem dentes, se fossem bem cuidadas, ofereciam-se a qualquer um, para que as levassem junto, para qualquer lugar. Seus pais chegaram aqui buscando riqueza. Pois agora, as filhas imploram para sair de lá.
Com pás e picaretas, carregando sacos de terra nas costas, eles tiraram do mapa um morro com mais de cem metros de altura e, em seu lugar, cavaram um enorme buraco com o mesmo tanto de profundidade por trezentos metros de largura. Em volta, a mata cedeu lugar a mais uma favela, um monstruoso favelão sem futuro, porque mais dia, menos dia, chega a temida mecanização do garimpo.
Serra Pelada sempre foi, desde o início até as revoltas mais recentes que fizeram o governo se lembrar da sua existência, um jogo em que poucos ganharam muito, alguns se arrebentaram e a imensa maioria apenas lutou para sobreviver, por absoluta falta de opção de vida, trabalhando para comer em condições que fazem lembrar as minas dos garimpeiros escravos do século XVIII. Homens enlameados até a raiz dos cabelos, caminhando como formigas com sacos de cascalho nas costas, levantando poeira ou barro de um grande buraco, enquanto uns poucos viviam como reis.
Estradas foram rasgadas na selva, algumas até asfaltadas, chegaram os fliperamas, a televisão e telefones, e já não se depende do aviãozinho do angolano para descobrir o que se passa naqueles grotões do Brasil. Nem o angolano nem seu teco-teco existem mais: dias depois daquela primeira viagem, uma pequena notícia de pé de página informava que ele havia se espatifado com três passageiros na cabeceira da pista de Serra Norte, a mesma de onde decolamos.
Ninguém saberá dizer ao certo quantos morreram nesta aventura. Foram centenas, com toda certeza – o trágico resultado de uma guerra de vida e morte pelo sonho do ouro.
O processo de extração
O processo inicia-se no fundo da cava com pá e picareta. Entre as escadas adeus-mamão os trabalhadores retiram o cascalho do barranco de seu dono – um dos 3200 quadrados de terra que compõem o tabuleiro de xadrez de Serra Pelada. Como cada barranco pertence a um proprietário diferente, a progressão na escavação é desigual, criando às vezes enormes desníveis que podem provocar desabamentos. Mais como segurança psicológica do que física, os cavadores usam cordas de nylon (azuis) amarradas no corpo na tentativa de evitar a queda junto com a terra. Durante uma das visitas dos autores ao garimpo, um desses desmoronamentos matou instantaneamente 13 garimpeiros, paralizando a extração por três dias.
Os formigas carregam os sacos de terra para fora da cava. Antes de subir, passam pelo controle do apontador de baixo que controla as saídas de cada homem da cava para conferir mais tarde a chegada da carga com o apontador de cima e executar o pagamento por viagem.
Quando o barranco cai no ouro, os sacos ficam estocados embaixo e são retirados apenas no fim da tarde ou de noite por motivos de segurança. Nestes casos uma caminhonete do proprietário do barranco fica esperando o transporte dos sacos para levá-los diretamente para sua refinadora.
No processo de refino o material bruto é primeiro triturado em britadeiras. A terra com ouro escorre sobre uma calha recoberta com mercúrio; que se liga quimicamente apenas ao ouro, formando a amálgama. Para separação final da mistura ouro-mercúrio da terra, o garimpeiro utiliza a baleia, que faz o papel de uma centrífuga primitiva. É nessa operação que pode ocorrer a contaminação dos rios da região pelo mercúrio excedente, que por descuido ou negligência é arrastado pela água. O manuseio sem proteção do mercúrio pode intoxicar o próprio garimpeiro, provocando seqüelas congênitas e distúrbios nervosos com a acumulação do metal no organismo.
Na etapa final do refino a amálgama é aquecida, vaporizando o mercúrio e deixando o ouro limpo. As pepitas (pequenos pedaços de ouro) são levadas ao barracão da Caixa Econômica federal onde são fundidas na presença do proprietário em um lingote que será vendido à própria Caixa. Nas produções maiores é utilizado um alto-forno. Finalmente o processo, quase totalmente artesanal, está pronto, resultando na barra de ouro puro. A última limpeza retira a fuligem que recobre o ouro. Este lingote pesa 1,7 kg, resultado de uma tarde de extração depois de 2 anos cavocando um barranco. O dono, José Aparecido, espera tirar 13 kg de ouro desse barranco, para compensar seu investimento.
De acordo com os técnicos da DOCEGEO e do DNPM – Departamento nacional de produção Mineral, o garimpo manual desperdiça em média 40% do ouro de Serra pelada. A poluição do mercúrio e o alto índice de perdas são o grande argumento dos que defendem a mecanização do garimpo.
As empresas envolvidas estimam um aumento de produção de pelo menos 30% do ouro, que até hoje já rendeu 40 toneladas. Anualmente a produção vem caindo, ocupando agora apenas 5.000 garimpeiros, muito abaixo dos 50.000 homens que trabalhavam na cava em 1983, o melhor ano da Serra.
Por outro lado criou-se uma verdadeira cidade em torno do buraco, que resiste como pode contra a mecanização. Seria o fim do sustento para milhares de garimpeiros, que consideram Serra Pelada a sua casa.
O dialeto do garimpo
CAVA: como é chamado o grande buraco do garimpo aberto à mão; a de Serra Pelada tem hoje cerca de 100 metros de profundidade e o formato de um feijão.
BARRANCO: pedaço de terra de dimensões variáveis, comprado dentro da cava por um ou mais garimpeiros para ser explorado na busca do ouro.
CATA: sinônimo de barranco, onde os garimpeiros “catam” o ouro.
APONTADOR: empregado do dono do barranco que controla a quantidade de sacos retirados pelos carregadores de terra e despejados fora da cava. Têm direito a uma porcentagem da produção de ouro do barranco.
FORMIGA: carregador de sacos de terra e cascalho. São os bóias-frias do garimpo, que recebem um pagamento correspondente aos sacos carregados entre o barranco e o alto da cava.
MELEXETES: são os formigas sujos de barro.
ADEUS-MAMÃE: nome dado às escadas utilizadas pelas formigas para levar os sacos de cascalho para a superfície. São verdadeiras estradas de trânsito com mão própria de subida e descida. O nome vem dos freqüentes acidentes fatais quando do desabamento das escadas com dezenas de formigas sobre elas.
MEIA-PRAÇA: trabalhadores braçais que têm direito a uma porcentagem sobre o ouro encontrado no barranco do dono.
CAPITALISTA: dono do barranco, que normalmente vive fora do garimpo; financia as despesas com comida e equipamentos.
EMBARCADOR: indivíduo que coloca o cascalho com ouro na britdeira, onde o material é moído por um processo rudimentar.
COBRA-FUMANDO: “uma banheira de botar água para lavar cascalho e separar ouro”, na definição dos próprios garimpeiros.
MÁQUINA: sinônimo de cobra-fumando.
PASSADOR-DE-MÃO: indivíduo que procura separar à mão o ouro da terra, na qual está misturado.
CURIMÃ: rejeito mais nobre da separação do ouro, que geralmente passa por uma segunda lavagem.
BATEIA: instrumento em forma de peneira feito de chapa de metal, utilizado para a purificação manual final da mistura de mercúrio com ouro.
APURADOR: indivíduo que faz a separação do ouro utilizando-se de uma bateia para lavar o amálgama mercúrio-ouro. O mercúrio liga-se quimicamente ao ouro, facilitando a separação das impurezas.
REQUEIRO: fazer reque; procurar ouro nos rejeitos que correm nas águas, as migalhas que sobram.
DÍZIMO: porcentagem retirada da venda do ouro destinada à cooperativa dos garimpeiros para efetuar melhoramentos e obras de estabilização da cava.
BAMBURRADO: aquele que tirou a sorte grande no garimpo, encontrando um filão de ouro no seu barranco.
BLEFADO: garimpeiro que perdeu tudo, só é dono da roupa do corpo.
CUTIA: carregador de cascalho que fica com a pele vermelha.
ORELHA DE JEGUE: vale, adiantamento.
Fonte: ariquemesonline