segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Caboclo que viveu na cidade teria enterrado objeto na Estrada Real.

Caboclo que viveu na cidade teria enterrado objeto na Estrada Real.

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Paradeiro de tesouro do século 18 intriga parte da população de Pitangui, na Região Central do estado. Caboclo que viveu na cidade teria enterrado objeto na Estrada Real
Toda vez que o escritor e compositor Jorge Mendes Guerra Brasil passa pelo trecho da quase tricentenária Estrada Real, que ligava o Centro-Oeste de Minas Gerais a Goiás, ele se lembra da saga de um tal João Antônio, caboclo cuja tradição relata que viveu no fim do século 18 na área rural da cidade histórica de Pitangui, fundada em 1715, a 130 quilômetros de Belo Horizonte. Por aquelas bandas, muita gente sonha em encontrar a garrafa abarrotada de ouro em pó que João enterrou num pedaço de barranco da antiga estrada.
“Lá se foram mais de 200 anos e não há confirmação de que a garrafa foi encontrada”, conta Jorge Mendes, que ganhou boa parte da vida como pedreiro antes de se dedicar à literatura e à música. Já o tal João, dizem aqueles que conhecem a saga do caboclo, sustentou a família com o que ganhava no garimpo. Faz sentido: Pitangui, com cerca de 25 mil moradores, foi fundada por bandeirantes paulistas que chegaram naquela terra depois de perderem a Guerra dos Emboabas (1707-1709) e migrarem para o interior atrás de pepitas do metal precioso.
Várias delas foram retiradas dos morros e ribeirões de Pitangui. João conhecia cada canto daquela região como as palmas de suas mãos. Dizem, inclusive, que ele escambava o ouro encontrado em feiras do Centro-Oeste mineiro. Mas nem tudo que o garimpeiro retirava do solo era trocado por alimentos, roupas e outras mercadorias. Quem conta é Jorge: “Ele trocava parte do ouro na feira, mas guardava uma quantidade numa garrafa, para garantir o futuro da família”
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A garrafa de João, um dia, ficou cheia. “A história é a que o caboclo não sabia guardar segredo. Certa noite, numa roda de amigos, ele abriu o bico a respeito de seus planos e teria dito mais ou menos assim: ‘É gente, já tô com a garrafa cheia d’oro. Amanhã vô pra cidade vendê a mercadoria e, com o dinheiro, dá rumo na vida’. Dito e feito, no dia seguinte, João se pôs a caminho da cidade para cumprir o plano.”
Mas o garimpeiro, que morava na área rural, não chegou à feira de Pitangui. O caboclo percebeu que dois homens o seguiam e decidiu se esconder na vegetação às margens da estrada real. Talvez ele tenha se agachado nos arbustos ou até mesmo se escondido atrás do tronco de um jequitibá-rosa (cariniana legalis), o qual, garantem moradores da região, é a árvore mais antiga do Centro-Oeste mineiro, com cerca de 250 anos. A espécie pode chegar a 50 metros de altura, e há relatos de árvores cujo tronco mede quase 20 metros. O jequitibá-rosa mais antigo do Brasil está no parque estadual do Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro (SP), e tem aproximadamente 3 mil anos.
“Será que o João se escondeu atrás do jequitibá às margens da estrada real?”, questiona Jorge. O certo, continua o escritor, é que, de onde João estava, ele ouviu a conversa entre os dois sujeitos que o seguiam. “A dupla tramava um plano que deve ter arrepiado os cabelos do João. Queriam matá-lo para ficar com o tesouro. Ocorre que João enterrou a garrafa nesse trecho da estrada e os dois homens não conseguiram colocar o plano em prática. A intenção do garimpeiro foi deixar o ouro em pó enterrado por alguns dias até que pudesse retirá-lo em segurança. Dias se passaram, e o caboclo voltou lá, mas não encontrou o seu tesouro”, acrescenta Jorge.
MISTÉRIO Ninguém sabe se algum sujeito surrupiou a garrafa ou se João, temeroso com a possibilidade de ser morto e assaltado, ter se esquecido do lugar exato em que escondeu sua riqueza. É importante lembrar que aquele pedaço de chão era um caminho percorrido por muita gente, como tropeiros, pois era uma das principais estradas reais do Brasil colônia. Estrada real era todo caminho autorizado pela coroa portuguesa para o transporte de cargas. Em Minas, havia a estrada real que ligava Diamantina a Paraty (RJ) e ao Rio de Janeiro, a que ligava o Norte de Minas à Bahia, a que ligava Pitangui a Paracatu, entre outras.
Poucos trechos desses caminhos estão tão preservados quanto a que corta a cidade histórica do Centro-Oeste mineiro. O pequeno caminho continua com as mesmas características daquela época: chão batido e vasta vegetação no entorno. Alguns troncos atravessam a estreita estrada: “Quando passo por aqui observo atentamente os barrancos onde suponho que o tesouro esteja enterrado”, deseja Jorge, que gosta tanto da história que a publicou na obra Assim conta o mineiro, lançada no início do mês e que reúne causos e lendas da região, onde, ainda hoje, há quem procura ouro.
Poupança virou um bom negócio
Guardar pó de ouro em garrafas era algo comum na época em que João Antônio garimpava a vida na área rural de Pitangui, pois a rede bancária no Brasil colônia era bem diferente da atual, e a circulação de moedas era deficitária nos rincões do país. Pouca gente sabe, mas uma garrafa de ouro deu origem a uma das lojas mais tradicionais do comércio de Belo Horizonte.
Trata-se da Casa Salles, que funciona na esquina da Caetés com a São Paulo, no Centro da capital, e é especializada em armas e artigos para pescaria. A empresa foi inaugurada em 1881, antes da fundação de Belo Horizonte (1897), em Ouro Preto. Com a transferência da capital do estado da cidade histórica para o antigo arraial do Curral del-Rei, o então dono da loja, João Salles, optou pela mudança de endereço.
João Salles, antes de se transformar num empresário bem-sucedido, era funcionário de um comerciante na antiga Vila Rica. Quando seu patrão morreu, ele revelou um segredo à família do comerciante: João contou que o rapaz escondia três garrafas com pó de ouro no estabelecimento. Em agradecimento, a família do comerciante o presenteou com uma carta de crédito. E foi com esse recurso que João montou a Casa Salles (PHL).

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