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domingo, 25 de outubro de 2015
MAR DE AMETISTAS- GARIMPO
Mar de ametistas
Foto:
No Brejinho das Ametistas, distrito rural de Caetité
Povoação talhada há mais de um século em cima de uma mina de ametistas, no sudoeste, ainda vive em função do garimpo.
As mãos de toda essa gente parecem mais grossas. Entre as falanges de
dedos enrijecidos, brotam os veios de uma história que ninguém sabe ao
certo onde começa e vai parar. É o tempo contado em sulcos que se
multiplicam nas palmas das mãos, como rios numa bacia hidrográfica
fotografada de cima. São as marcas nada sutis de vidas que se entregam a
um sonho compartilhado por gerações, manipulado pelos dulcíssimos
acordes de pancadas de picareta, compressores e martelos pneumáticos. No
Brejinho das Ametistas, o navegar necessário é embaixo da terra. Viver
não é preciso se não for pelo mar de pedras roxas.
Os olhos de toda essa gente enxergam mais além que os rasgos de arenito
no horizonte trêmulo da Serra Geral, sudoeste do estado. São como
lentes de aumento, candeeiros-guia dos que acreditam no final feliz de
uma aventura garimpeira. São como lâmpadas no labirinto escuro das
cavernas úmidas, fuçando as pistas do cobiçado quartzo arroxeado,
semiprecioso, nobre. No Brejinho das Ametistas, distrito rural de
Caetité, a 757 quilômetros de Salvador, tudo gravita em torno dessa
única razão.
A 27 quilômetros da sede do município, a terra natal do cantor e
compositor Waldick Soriano sobrevive quase exclusivamente da extração de
ametistas, acompanhando os altos e baixos que definem os humores da
atividade. O ritmo das ruas – a maioria delas calçadas graças aos
dividendos produzidos a partir de seu solo rico – é o das escavações e
descobertas feitas na principal mina da região, que fica exatamente
embaixo da aglomeração urbana. Porém, das centenas de toneladas do
minério retiradas desde o fim do século XIX, poucos foram os frutos
deixados. Sina de garimpo, terra de todo o mundo e de ninguém.
Por mais que pareça estranho, existe um vazio referencial sobre esse
lugar de atividade tão marcante. A história oficial passou ao largo de
Brejinho das Ametistas. Tudo o que se sabe sobre a fundação e o
desenvolvimento do distrito não é mais do que vestígios baseados em
documentos dispersos e fontes imprecisas. Em Caetité, fora uns registros
anotados pela historiadora Helena Lima Santos, muito pouco se tem a
respeito da ocupação do território. Mais facilmente vilipendiada pela
infinita capacidade humana de remodelar os acontecimentos, é a
transmissão oral que dá os contornos da versão mais propagada.
Cento e vinte metros acima de onde, hoje, os mineiros se esgueiram à
cata de ametistas, está a superfície que serviu a alguns boiadeiros da
última década do século XIX. Um antigo brejo, ladeado por pedras e mata,
fonte de água cristalina, que logo virou ponto de parada na rota dos
pastores dos Gerais. Mais que um lençol freático de água potável, esse
“brejinho” trazia à tona incrustações de ametistas em suas paredes a céu
aberto, ligados a veios tão profundos que até hoje mobilizam os
esforços de quem depende da sorte de um dia e convive com o azar de
outro. No Brejinho das Ametistas, não há sequer uma casa que não seja
emoldurada por histórias de garimpeiros.
“Tudo o que eu tenho agradeço ao garimpo”, simplifica dona Enedina Lima,
que hoje mora em Caetité. Um terreno, uma casa e uma “partezinha na
mina da Bolívia” são o produto daquilo que ela avalia como fruto dos 20
anos de escravidão do marido. O finado Lindolfo viu muita coisa naqueles
Gerais entupidos de gemas roxas. Viu, inclusive, um punhado de gente
morrer soterrada em busca de um sonho, inaugurado por alemães fugidos da
Primeira Guerra Mundial.
Foram os gringos, a serviço da oportunidade de contrabandear pedras
semipreciosas para o rentável mercado europeu, que monopolizaram a
extração de ametistas no município de Caetité durante a maior parte do
século XX. Seus túmulos, apodrecidos e esquecidos, ainda estão à beira
de um dos caminhos que levam à Roma das ametistas. As ossadas descansam
na terra pedregosa que lhes deu riqueza às custas da exploração de
mineiros miseráveis.
Justiça seja feita, os alemães não foram os únicos espertalhões a
acumular lucros com a venda ilegal das ametistas baianas. Filhos da
terra, de famílias respeitadas, também não perderam a chance de buscar o
seu quinhão. O geólogo Nelson Spínola Teixeira, ao contrário de seu
irmão educador Anísio Teixeira, não tem o nome associado às melhores
referências. Pelo menos não entre os garimpeiros. “Ele morava no Rio e,
quando descobriu que tinha um monte de gente extraindo pedras
ilegalmente no Brejinho, fez o requerimento de lavra em seu nome no
Departamento Nacional de Produção Mineral (DPNM), chegou com a Polícia
Federal e tomou o garimpo de todo o mundo. Meu pai, mesmo, perdeu uma
das catras”, atesta Nestor Alves Rocha, 67 anos, sobre o acontecido há
quase 60 anos.
A briga pela posse das minas e de sua produção é geradora de capítulos
de tensão e conflito entre mineradores e proprietários de terras. Em
novembro de 2001, por exemplo, os garimpeiros invadiram a mina Paraguai
(a mais importante) e desde então não mais saíram. Há diversos processos
de disputa de terras na Justiça Federal e relativos a direito de
pesquisa mineral no DPNM (a maioria caducados). Há também um acordo na
Justiça comum de Caetité que estabelece a partilha da extração entre a
cooperativa dos garimpeiros e o dono das principais minas da localidade,
herdeiro contestado de uma sina germânica sem prazo de validade. “Eu
lamento Brejinho ser o que é e ninguém reconhecer o que eu fiz por
aquele povo. Eu dei tudo pra eles!”, discursa o aposentado Durval
Fernandes, que mora no Rio de Janeiro e alega ter herdado 20 escrituras
do pai e comprado mais dez do alemão Kurt Walter Dreher.
O furor das desavenças – que ainda inclui as alfinetadas da família de
Waldick Soriano tanto contra a administração da cooperativa quanto
contra Júlio Fernandes (detentor da pesquisa do Paraguai e filho de
Durval Fernandes) – só não prende mais a atenção do que a oscilação de
uma montanha russa chamada “veio”. A qualidade do que se encontra nele,
debaixo da terra, é que determina como serão as relações na superfície
Quero parabenizar o Sr. Marcos Szuecs pelo a balismo reportagem, sobre a história de Brejinho das Ametistas, em especial a maneira que você relata a história dos garimpeiros.
Quero parabenizar o Sr. Marcos Szuecs pelo a balismo reportagem, sobre a história de Brejinho das Ametistas, em especial a maneira que você relata a história dos garimpeiros.
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