Cidades grafite e cidades diamante
O filósofo grego Sócrates dizia que as cidades são feitas de pedras e pessoas. As pedras a que ele se refere representam a organização política que gere a cidade. Pedras eram o instrumento de voto em Atenas: as pessoas se encontravam na Ágora, a praça central, ouviam propostas políticas e votavam. Pedra para cima significava sim, pedra para baixo, não. É evidente que o mundo mudou um bocado de lá para cá, mas a síntese da ideia de Sócrates – cidades são organismos políticos compostos de pessoas – segue valendo. O ponto é que, se todas as cidades são formadas essencialmente da mesma coisa – pessoas – a diferença fundamental que faz com que sejam lugares bons ou ruins de se viver é a forma como essas pessoas se conectam. Porque as conexões mudam a natureza das coisas.
Tomemos como exemplo o grafite e o diamante. Os dois materiais são compostos exatamente da mesma coisa, átomos de carbono. O que faz com que sejam completamente diferentes em sua aparência e estrutura é o número de conexões feitas entre esses átomos. No grafite, cada átomo de carbono se liga a outros três, formando estruturas lineares que se acumulam em camadas. No diamante, cada carbono se liga a outros quatro, formando uma estrutura mais complexa, tridimensional.
A forma como os átomos se ligam define a dureza desses materiais. O grafite, com menos conexões, é menos resistente, só de passá-lo sobre o papel ele se desmancha e deixa um rastro. Já o diamante, mais conectado, é o material mais duro da natureza e só pode ser riscado por outro diamante.
Da mesma forma, as estruturas de uma cidade podem ser medidas pelo número de conexões que permitem entre as pessoas. Talvez isso indique o o objetivo do planejamento urbano deva ser conectar as pessoas, em vez de construir tecnicamente uma cidade para elas. Pelo menos é o que defendem os urbanistas do escritório holandêsCrimson. Contratados para criar um parque que revitalizasse um bairro operário de Roterdã, eles começaram a executar o trabalho de forma nada ortodoxa. Antes de qualquer planejamento, organizaram uma festa para “testar” o parque. Convidaram os moradores locais – os homens que gostavam de construir barcos, as mulheres que faziam bolos deliciosos, as crianças, os praticantes de esportes – e financiaram uma grande festa, que foi organizada por comitês formados por essas pessoas. Essa festa teve três edições até que o projeto do parque fosse executado, contemplando os desejos das pessoas. Após esse processo, o parque passou a ser gerido pelos próprios moradores do bairro.
Essa ideia de priorizar as conexões entre as pessoas tem norteado uma série de iniciativas interessantes no Brasil. O Meu Rio, por exemplo,impediu que a escola Friendenreich fosse demolida para a ampliação do estádio do Maracanã mobilizando a comunidade dos alunos, pais e professores. O Sampa Criativa é um fórum de ideias para a cidade de São Paulo com o qual qualquer um pode contribuir. Essas ideias são apresentadas semanalmente ao prefeito e à câmara paulistanos, além de empresas que possam se interessar em viabilizá-las. O próprio financiamento coletivo (crowdfunding) ganhou força no último ano como um meio de criar novos caminhos para construir cidades melhores de se viver, como vimos no post anterior.
O economista Edward Glaeser diz em seu livro Triumph of the City (O Triunfo das Cidades, em tradução livre, sem versão em português) que “a força da colaboração entre as pessoas é o que está por trás de uma civilização bem sucedida e é o que fez originalmente as cidades existirem”. Sistemas que conectam pessoas podem transformar cidades grafite em cidades diamante.
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