quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Mar de ametistas

Mar de ametistas




Foto:
No Brejinho das Ametistas, distrito rural de Caetité

Povoação talhada há mais de um século em cima de uma mina de ametistas, no sudoeste, ainda vive em função do garimpo.

As mãos de toda essa gente parecem mais grossas. Entre as falanges de dedos enrijecidos, brotam os veios de uma história que ninguém sabe ao certo onde começa e vai parar. É o tempo contado em sulcos que se multiplicam nas palmas das mãos, como rios numa bacia hidrográfica fotografada de cima. São as marcas nada sutis de vidas que se entregam a um sonho compartilhado por gerações, manipulado pelos dulcíssimos acordes de pancadas de picareta, compressores e martelos pneumáticos. No Brejinho das Ametistas, o navegar necessário é embaixo da terra. Viver não é preciso se não for pelo mar de pedras roxas.


Os olhos de toda essa gente enxergam mais além que os rasgos de arenito no horizonte trêmulo da Serra Geral, sudoeste do estado. São como lentes de aumento, candeeiros-guia dos que acreditam no final feliz de uma aventura garimpeira. São como lâmpadas no labirinto escuro das cavernas úmidas, fuçando as pistas do cobiçado quartzo arroxeado, semiprecioso, nobre. No Brejinho das Ametistas, distrito rural de Caetité, a 757 quilômetros de Salvador, tudo gravita em torno dessa única razão.
A 27 quilômetros da sede do município, a terra natal do cantor e compositor Waldick Soriano sobrevive quase exclusivamente da extração de ametistas, acompanhando os altos e baixos que definem os humores da atividade. O ritmo das ruas – a maioria delas calçadas graças aos dividendos produzidos a partir de seu solo rico – é o das escavações e descobertas feitas na principal mina da região, que fica exatamente embaixo da aglomeração urbana. Porém, das centenas de toneladas do minério retiradas desde o fim do século XIX, poucos foram os frutos deixados. Sina de garimpo, terra de todo o mundo e de ninguém.


Por mais que pareça estranho, existe um vazio referencial sobre esse lugar de atividade tão marcante. A história oficial passou ao largo de Brejinho das Ametistas. Tudo o que se sabe sobre a fundação e o desenvolvimento do distrito não é mais do que vestígios baseados em documentos dispersos e fontes imprecisas. Em Caetité, fora uns registros anotados pela historiadora Helena Lima Santos, muito pouco se tem a respeito da ocupação do território. Mais facilmente vilipendiada pela infinita capacidade humana de remodelar os acontecimentos, é a transmissão oral que dá os contornos da versão mais propagada.


Cento e vinte metros acima de onde, hoje, os mineiros se esgueiram à cata de ametistas, está a superfície que serviu a alguns boiadeiros da última década do século XIX. Um antigo brejo, ladeado por pedras e mata, fonte de água cristalina, que logo virou ponto de parada na rota dos pastores dos Gerais. Mais que um lençol freático de água potável, esse “brejinho” trazia à tona incrustações de ametistas em suas paredes a céu aberto, ligados a veios tão profundos que até hoje mobilizam os esforços de quem depende da sorte de um dia e convive com o azar de outro. No Brejinho das Ametistas, não há sequer uma casa que não seja emoldurada por histórias de garimpeiros.


“Tudo o que eu tenho agradeço ao garimpo”, simplifica dona Enedina Lima, que hoje mora em Caetité. Um terreno, uma casa e uma “partezinha na mina da Bolívia” são o produto daquilo que ela avalia como fruto dos 20 anos de escravidão do marido. O finado Lindolfo viu muita coisa naqueles Gerais entupidos de gemas roxas. Viu, inclusive, um punhado de gente morrer soterrada em busca de um sonho, inaugurado por alemães fugidos da Primeira Guerra Mundial. 


Foram os gringos, a serviço da oportunidade de contrabandear pedras semipreciosas para o rentável mercado europeu, que monopolizaram a extração de ametistas no município de Caetité durante a maior parte do século XX. Seus túmulos, apodrecidos e esquecidos, ainda estão à beira de um dos caminhos que levam à Roma das ametistas. As ossadas descansam na terra pedregosa que lhes deu riqueza às custas da exploração de mineiros miseráveis.


Justiça seja feita, os alemães não foram os únicos espertalhões a acumular lucros com a venda ilegal das ametistas baianas. Filhos da terra, de famílias respeitadas, também não perderam a chance de buscar o seu quinhão. O geólogo Nelson Spínola Teixeira, ao contrário de seu irmão educador Anísio Teixeira, não tem o nome associado às melhores referências. Pelo menos não entre os garimpeiros. “Ele morava no Rio e, quando descobriu que tinha um monte de gente extraindo pedras ilegalmente no Brejinho, fez o requerimento de lavra em seu nome no Departamento Nacional de Produção Mineral (DPNM), chegou com a Polícia Federal e tomou o garimpo de todo o mundo. Meu pai, mesmo, perdeu uma das catras”, atesta Nestor Alves Rocha, 67 anos, sobre o acontecido há quase 60 anos.


A briga pela posse das minas e de sua produção é geradora de capítulos de tensão e conflito entre mineradores e proprietários de terras. Em novembro de 2001, por exemplo, os garimpeiros invadiram a mina Paraguai (a mais importante) e desde então não mais saíram. Há diversos processos de disputa de terras na Justiça Federal e relativos a direito de pesquisa mineral no DPNM (a maioria caducados). Há também um acordo na Justiça comum de Caetité que estabelece a partilha da extração entre a cooperativa dos garimpeiros e o dono das principais minas da localidade, herdeiro contestado de uma sina germânica sem prazo de validade. “Eu lamento Brejinho ser o que é e ninguém reconhecer o que eu fiz por aquele povo. Eu dei tudo pra eles!”, discursa o aposentado Durval Fernandes, que mora no Rio de Janeiro e alega ter herdado 20 escrituras do pai e comprado mais dez do alemão Kurt Walter Dreher.


O furor das desavenças – que ainda inclui as alfinetadas da família de Waldick Soriano tanto contra a administração da cooperativa quanto contra Júlio Fernandes (detentor da pesquisa do Paraguai e filho de Durval Fernandes) – só não prende mais a atenção do que a oscilação de uma montanha russa chamada “veio”. A qualidade do que se encontra nele, debaixo da terra, é que determina como serão as relações na superfície

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