Ouro branco da Amazônia: a história dos soldados da borracha
Na 2ª Guerra Mundial, 35 mil homens sertanistas perderam suas vidas em
uma batalha silenciosa dentro da floresta. Só agora, 71 anos depois,
começam a ter sua história reconhecida pelo Brasil
Lembranças de Venceslau: "Vi tanta tristeza no seringal. Uma vez eu vi patrão matar freguês por duzentos cruzeiros"
Manaus – “Você já chorou de fome?”, questiona o cearense Ivan Martins de
Souza, antes de respirar fundo e perder as palavras por alguns
instantes. “Eu já. Diante disso, nenhuma dificuldade é grande demais”,
desabafa o homem de 90 anos, ao lembrar-se da vida que deixou para trás
no sertão e do trabalho como Soldado da Borracha na Amazônia, onde sua
família viveu e morreu.
Ivan está entre as 12.872 pessoas, entre ex-seringueiros e herdeiros,
que conquistaram, no início de maio, o direito a uma indenização do
governo federal no valor de R$ 25 mil, como reconhecimento pelos
serviços prestados durante a 2ª Guerra Mundial. Na época, o governo
brasileiro assumiu um acordo de fornecimento de borracha com os Estados
Unidos e, para atender a esta demanda, enviou um “exército” de
nordestinos aos confins da floresta para extrair leite de seringa.
Aproximadamente 60 mil pessoas foram para a mata. Ao fim da guerra, o
saldo de mortos chegou a 35 mil, segundo estimativas do Sindicato dos
Soldados da Borracha do Acre. “Minha família era de Baturité, bem no
sertão do Ceará. Naquela época, ou a gente se virava ou morria. E
vivíamos com muita dificuldade. Quando houve esta oportunidade, de ir
para a Amazônia ganhar dinheiro, muita gente quis apostar. O que mais
veio foi cearense, pois são uns homens decididos e corajosos. Não tive
medo, porque a necessidade faz isso com a gente”, conta Ivan.
A história do Exército da Borracha começou oficialmente em 1942. O
ataque japonês à base militar de Pearl Harbor, no final de 1941, fez com
que os Estados Unidos (EUA) entrassem definitivamente na Segunda Guerra
Mundial. Mas um insumo importante para a indústria bélica e comercial
dos norte-americanos, o látex, estava sob poder nipônico e a produção
inglesa na Malásia estava comprometida. Foi neste ponto que o Brasil
ganhou importância, já que o país possuía um estoque de 300 mil árvores
seringueiras prontas para produzir.
De acordo com a historiadora María Verónica Secreto, autora do livro Soldados da Borracha - Trabalhadores Entre o Sertão e a Amazônia no Governo Vargas,
a migração nordestina para estados da Amazônia Ocidental já era uma
realidade naquele período, quando começou o segundo ciclo da borracha. A
cada nova seca, centenas de homens dirigiam-se para a região, em busca
de tempos melhores. Por isso, recrutar estes trabalhadores, que viviam
em extrema pobreza, parecia uma solução óbvia.
“No início da campanha, em plena seca de 1942, eles só recrutavam os
homens solteiros e saudáveis. Mas, com a necessidade crescente por mão
de obra, eles começaram a levar qualquer um que quisesse ir. Havia a
opção de deixar a família sob a guarda do governo ou levá-la junto, o
que vários faziam, então muitas crianças e adolescentes acabaram
trabalhando nos seringais também, embora não fossem os recrutados
oficiais”, conta a pesquisadora.
Quando Joaquim Batista chegou a Manaus, em 1944, tinha apenas 15 anos.
Seu pai já havia passado uma temporada trabalhando na Amazônia e a
campanha para o que chamavam de “esforço de guerra” trouxe novas
perspectivas para a família.
“Viemos em um barco imenso, que ia parando o tempo todo e era acompanhado por um avião do Exército. Eram umas 700 famílias, com mulheres, crianças e tudo, a maioria do Ceará, como nós. Quase todos morreram, muitos de malária. Quando a pessoa pegava a doença e começava a inchar, a gente já sabia que não tinha mais jeito”, relata Batista, hoje com 85 anos.
“Viemos em um barco imenso, que ia parando o tempo todo e era acompanhado por um avião do Exército. Eram umas 700 famílias, com mulheres, crianças e tudo, a maioria do Ceará, como nós. Quase todos morreram, muitos de malária. Quando a pessoa pegava a doença e começava a inchar, a gente já sabia que não tinha mais jeito”, relata Batista, hoje com 85 anos.
- SANDRO PEREIRA/RBA
- Pedro da Silva de Oliveira, de 86 anos, que começou a cortar seringa aos 9, vai realizar um último sonho: ter sua casa toda feita em alvenaria
A grande aventura
Para reunir e redirecionar estes trabalhadores aos seus postos no
“front” amazônico, o governo criou o Serviço de Encaminhamento de
Trabalhadores para a Amazônia e a Comissão Administrativa de
Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia. O cartunista suíço
Jean-Pierre Chabloz foi contratado para desenvolver cartazes e folhetos
que seriam usados no recrutamento.
A cada homem era entregue um kit, composto por uma calça azul, uma
camisa branca, um chapéu de palha e um par de sandálias, uma caneca, um
prato fundo, um talher, uma rede e uma carteira de cigarros. A
assessoria do governo, no entanto, acabava por aí. Assim que eram
deixados nas margens dos rios, os trabalhadores passavam para a
responsabilidade dos coronéis donos dos seringais, que deveriam lhes
prover abrigo, alimentação e um salário.
Belizário Costa, de 94 anos, tinha 20 quando decidiu trocar sua cidade
natal, próxima de São Luís, no Maranhão, por Belém, no Pará. “Lá na
capital eles falaram para nós que o Exército estava precisando de gente e
que íamos ganhar muito bem, salário, remédio, comida, casa, bom
pagamento. Fomos para a mata e quando chegou lá foi tudo o contrário,
era diferente do que falaram. Passamos a comer farinha com água e sal e
alguma caça que pegávamos, mas ainda tinha que pagar pela farinha, pelo
sal e por cada bala de espingarda que usássemos. Pagávamos com nosso
trabalho”, afirma.
O ex-seringueiro Ivan Martins conta que assim que chegou ao seringal a
que foi designado, na região do rio Jatapu, no interior do Amazonas,
recebeu apenas uma faca de seu patrão. “Foi difícil no início, mas meu
pai se apaixonou por uma índia e foi ela que ensinou tudo sobre a
floresta. Tinha uma planta que a gente amassava com água e tomava todo
dia de manhã, que servia para espantar as coisas ruins, a malária e
aquela leishmaniose. Esse bicho, quando ferra, vai comendo a carne da
gente, é uma coisa horrível”, relata. O elixir natural, infelizmente,
não impediu que ele pegasse malária, ao menos uma vez. “Foram oito meses
doente.”
As moradias eram feitas de palha e a maioria possuía apenas uma
cobertura, sem paredes. Para complementar a ração fornecida pelo dono do
seringal, a caça e a pesca eram rotinas diárias e muitas famílias
cultivavam lavouras durante a vazante dos rios. “Fui enviado para
Roraima. 105 homens. Deus me ajudou e me deu um grande amigo, que era de
Belém, que me ensinou tudo o que era preciso para cortar seringa e
sobreviver na floresta. Mas vi 28 companheiros morrerem”, afirma
Belizário.
Anos de servidão
Poucos trabalhadores recrutados sabiam exatamente o que enfrentariam na
floresta e muitos acabaram vítimas de doenças tropicais e de ataques de
animais selvagens, como cobras e onças pintadas. Mas nenhum deles estava
preparado para a ação de uma espécie de bicho conhecida pela ganância: o
homem.
O cearense Ivan Martins afirma que nunca recebeu o salário prometido
pelo governo enquanto trabalhou como seringueiro. Mas que, ainda assim, o
“emprego” valia a pena. “O dono do seringal queria a produção, mas não
faltava nada de mercadoria para a gente. Comprávamos o rancho com o
patrão e em troca ficávamos trabalhando para ele. Tínhamos roupa, pouco,
mas tinha. Só não tinha dinheiro. Mas nosso caso era mesmo trabalhar
para comer, e que deixasse o dinheiro para lá. Ser pago com comida já
era melhor que morrer no sertão.”
Joaquim Batista também não se enxerga como alguém submetido a um regime
de trabalho análogo ao da escravidão, mas sim como um agraciado pelo
governo Getúlio Vargas. “A comida era uma fartura doida, caça, peixes
que nós mesmos pegávamos e legumes que plantávamos”, lembra.
Para María Verónica Secreto, esta percepção foi em parte originada pela
situação de completa miséria em que viviam estes migrantes na década de
40, mas também por influência política, em um processo de desvalorização
do trabalhador como pessoa. “Quando a guerra acabou, e os homens foram
abandonados na floresta, o Exército dizia para as esposas que seus
maridos haviam decidido ficar, que arrumaram outras mulheres. Existem
relatos escritos sobre isso. Depois que houve aquela denúncia
internacional sobre a violação dos direitos humanos destes
trabalhadores, que motivou a instauração de uma CPI em 1946, o advogado
da União dizia ‘Vocês eram pobres, e vão continuar pobres, então ninguém
perdeu nada”, afirma.
Reconhecimento
De acordo com Verónica Secreto, os registros oficiais de recrutamento
são parcos e divergentes. Por isso, não é possível saber com exatidão
quantas pessoas foram enviadas para a floresta e quantas morreram neste
processo.
“As pessoas foram deixadas lá. O Estado não tinha sequer uma lista com
os nomes dos trabalhadores. Quando você se debruça sobre a documentação
há ausência significante de números. Alguns dizem que 10 mil morreram,
outros contabilizam 25 mil. Mas a quantidade de mortos pode ser muito
maior”, observa.
No livro Amazônia – Um Pouco Antes e Além Depois,
o empresário e filósofo amazonense Samuel Banchimol contabiliza a
chegada de 50.500 homens entre 1943 e 1944, no auge do recrutamento. Na
bagagem, entretanto, vieram 19.760 mulheres, de quem não se sabe quase
nada.
Segundo o assistente social do Sindicato dos Soldados da Borracha do
Acre, Luziel Carvalho, mesmo com o inquérito parlamentar de 1946, os
seringueiros da guerra só começaram a ter seus direitos resgatados em
1988, com a Constituição Federal. Pelo artigo 54 do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias, ficou definido que os soldados teriam
direito a uma pensão vitalícia de dois salários mínimos, mas apenas
quando carentes. A lei inclui os homens recrutados nos termos do
Decreto-lei nº 5.813, de 1943, e todos os voluntários que atenderam ao
“apelo do governo brasileiro”.
“O que não conseguimos entender é que enquanto 454 brasileiros morreram
na Itália durante a 2ª Guerra, de 20 mil que foram enviados para a
batalha, na floresta morreram 35 mil, dos 60 mil enviados, e os
pracinhas da Itália têm direito a um benefício de sete salários mínimos,
enquanto o soldado da borracha recebe dois e só se for carente. Isso
não é justo”, afirma.
Para o assistente social, a Proposta de Emenda à Constituição nº
61/2013, promulgada no Senado no último dia 14, que garante a
indenização de R$ 25 mil aos combatentes ainda vivos e herdeiros
diretos, não contempla as perdas e sofrimentos da classe. “São
trabalhadores que têm seus direitos negados há 70 anos”, completa.
Para Pedro da Silva de Oliveira, de 86 anos, que começou a cortar
seringa aos 9, a indenização ainda lhe servirá para realizar um último
sonho: ter sua casa toda feita em alvenaria. Atualmente o aposentado
vive em uma moradia de madeira, localizada no bairro de Colônia Oliveira
Machado, no centro de Manaus, onde muitos soldados da borracha se
instalaram após o fim do segundo ciclo. “Quando vim para Manaus passei a
trabalhar como pedreiro, mas nunca consegui fazer minha própria casa.
Comecei a levantar sozinho algumas paredes e com a indenização vou fazer
a casa toda.”
A senadora admite que os valores não “são os justos”, mas chama atenção
para a urgência em fechar um acordo sobre o assunto. “O fato é que os
cerca de 6 mil soldados vivos possuem mais de 90 anos e tínhamos que
garantir de imediato o benefício”, completa.
Segundo o texto da PEC, serão indenizados 12.872 beneficiários, entre
soldados ainda vivos e dependentes. Desses, 11.500 mil ainda vivem na
região Norte, sendo 6 mil no Acre, 3 mil em Rondônia e 2,5 mil no
Amazonas.
De acordo com o vice-presidente do Sindicato dos Soldados da Borracha de
Rondônia, George Telles de Menezes, a luta não acabou e em alguns dias
os sindicatos da região Norte entrarão com uma ação conjunta, pedindo o
reconhecimento militar dos soldados e a equiparação do benefício ao de
outros pracinhas brasileiros. “Na época o governo prometeu moradia e
assistência técnica, mas largaram todos lá e ainda hoje muitos vivem de
aluguel. Foi um momento de covardia, era um trabalho de escravidão e o
governo ainda vai pagar caro por isso”, disse.
Para o ex-seringueiro Joaquim Batista, as pessoas que mereciam esta
indenização já estão mortas, mas o reconhecimento do governo ainda pode
ajudar a melhorar a vida de seus descendentes. “Se a gente receber mesmo
este dinheiro de que falam, eu vou pagar a faculdade do meu neto, que
está se formando no colegial. Vai me dar muita alegria.”
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