sábado, 22 de setembro de 2018

OPALA E GARIMPOS

 OPALA E GARIMPOS
5.1 – CONCEITUAÇÕES E GÊNESE DA OPALA
5.1.1 – Histórico e origem do nome A palavra opala, segundo o Dicionário Aurélio (Ferreira, 2010) [Do francês opale < latim opalu < grego opállios < sânscrito upala.] significa pedra preciosa. É uma pedra conhecida e apreciada desde a Antiguidade, sendo mencionada em referências romanas já no séc. I a.C., sendo associada ao poder e a capacidades medicinais; mais tarde, porém, adquiriu a fama de trazer azar, a qual perdurou até o final do séc. XIX, quando ocorrem as descobertas das enormes jazidas australianas levando à retomada da procura dessa gema para a confecção de adornos e joias. Em Pedro II (PI) são controversas as informações sobre as primeiras descobertas de opala. Há uma versão sobre a existência, na década dos anos de 1940, de um sanfoneiro que costumava enfeitar sua roupa com botões feitos de opala, e que à noite os mesmos em contato com luz artificial refletiam diferentes cores do espectro, instigando assim, a curiosidade das pessoas (Oliveira e Soares Filho, 1981). Outra versão relata que por acaso, na década dos anos de 1930, teria sido encontrada essa pedra azul leitosa, a qual foi levada até Teresina (PI), onde um engenheiro a identificou como opala.
5.1.2 – Distribuição mundial As jazidas mais antigas localizam-se na República Tcheca e Hungria. Opalas nobres também são encontradas, atualmente, na Austrália, Brasil, México, Honduras, Estados Unidos da América (Oregon, Nevada, Idaho, Califórnia e Alaska), Índia, Indonésia, Nova Zelândia, Tanzânia, Polônia, Ucrânia, Etiópia, Guatemala, Japão, Rússia, Peru e França (Foto 5.1). O Brasil é uma das nove províncias gemológicas (região que produz gemas em volume e variedade excepcionais) reconhecidas mundialmente (Branco, 2003), e Pedro II faz parte desse contexto (Foto 5.2).
5.1.3 – Propriedades da opala A família das opalas é composta por três grupos: opalas nobres opalescentes, opalas de fogo amarelo-vermelhas e opalas comuns, as mais abundantes. Suas propriedades físicas variam notavelmente e segundo Schumann (1982) são: Cor: branca, cinza, azul, verde, amarela, vermelha, laranja, marrom e preta. Cor do traço: branco Dureza ao risco: 5,5 - 6,5. Densidade relativa: 1,9 – 2,2; média = 2,09.
Clivagem: não há. Fratura: conchoidal ou concóide a irregular. Sistema cristalino: amorfo. Composição química: SiO2.n(H2O) – óxido de silício hidratado com teores de água atingindo até 30%. A perda desta água sob a ação do calor resulta na formação de fraturas e/ou fissuras, e numa diminuição do seu característico jogo de cores. A opala também é sensível à pressão e golpes, assim como a ácidos e álcalis. Transparência: transparente, translúcida a opaca. Brilho: vítreo a ceroso. Índice de refração: 1,44 – 1,46. As opalas mexicanas têm índice de refração muito baixo de até 1,37. Birrefringência: não há. Dispersão: não há.Pleocroísmo: não há. Espectro de absorção: opala de fogo - 70006400-5900-4000 Å Fluorescência da opala: opala branca: branca, azulada, acastanhada e esverdeada; opala preta: usualmente, nenhuma; opala de fogo: esverdeada a acastanhada.
5.1.4 – Características O que faz com que a opala se destaque das demais gemas é a enorme variedade de cores que ela pode exibir, simultaneamente, e as mudanças que essas cores sofrem quando do movimento da gema (jogo de cores). É muito importante lembrar que o termo opalescência refere-se ao aspecto azulado leitoso ou de brilho opalino (da opala comum) como consequência de fenômenos de reflexão, no que se reflete, sobretudo, em luz de comprimento de onda curta, isto é, azul. Não se deve confundir com opalização que é o termo que deve ser usado para se referir ao jogo de cores da opala que varia de acordo com o ângulo em que se a observa (Schumann, 1982). Diferindo da maior parte das gemas inorgânicas, a opala classifica-se como mineraloide e não, mineral, uma vez que tem estrutura interna amorfa e nãocristalina de seus átomos. Por outro lado, a opala nobre apresenta, sim, um tipo de organização tridimensional interna, que foi descoberta em 1964 com o advento do microscópio eletrônico quando se verificou que sua estrutura consiste em um arranjo regular de pequenas esferas de cristobalita, com diâmetro de 1/10.000 de mm, inclusas numa massa de sílica gel, mostrando um espaçamento regular entre essas esferas. A inter-relação entre as esferas de sílica e os espaços entre as esferas provoca os fenômenos de difração, dispersão, interferência e reflexão da luz, resultando na visualização na superfície da gema das diversas cores do arco-íris. O tamanho das esferas de sílica e do espaço intersticial entre elas reflete diretamente no jogo de cores apresentado por uma opala (Watkins et al., 2009). Nas opalas nobres, as esferas com diâmetro entre 150 e 400 nm (nanômetros), são as que têm jogo de cores. As opalas com esferas menores (de aproximadamente 150 nm) geralmente produzem reflexos na cor azul e roxa, chegando até as opalas com esferas de maior diâmetro (350 a 400 nm), onde se é possível observar todas as cores do arco-íris – roxo, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho. As opalas com reflexos vermelhos são as mais raras na natureza. Somado a isso, a qualidade das cores refletidas é influenciada pela coloração de fundo da gema. Cada gema exibe um jogo de cores exclusivo. As cores distribuem-se em faixas, pontos, linhas ou figuras geométricas, isolados ou combinados na superfície da opala, aleatoriamente, ou em maravilhosos padrões. As opalas de Pedro II são tão belas quanto as da Austrália, confundindo-se com essas no mercado mundial. No entanto, apresentam um diferencial fundamental: sua comprovada qualidade
mineralógica e gemológica - apresentam teores de água inferiores (em torno de 5,7%) aos encontrados nas opalas de outros países, sendo assim, são as mais duras do mundo (dureza entre 6,0 e 6,5), somado ao fato de exibirem uma baixa sensibilidade ao calor (Rosa, 1988).
5.1.5 – Ocorrência Ocorrem em veios irregulares, massas e nódulos. Também em fendas e cavidades de rochas ígneas, como nódulos em calcários e em fontes termais. Pode se formar, também, sobre outros minerais e mesmo vegetais, dentes e conchas fósseis (Branco, 2009).
5.1.6 – A origem das opalas nobres As opalas nobres são formadas sobre condições muito especiais e, apesar do seu elevado teor em água, curiosamente, elas são encontradas em ambientes de regiões áridas e semi-áridas, com chuvas sazonais. Elas ocorrem em forma de um gel que é depositado em temperatura relativamente baixa em fissuras de quase todos os tipos de rocha, encontradas em geral nas formações ferro-manganíferas, arenito, e basalto (diabásio). Há milhões de anos, soluções de água e sílica se infiltraram para o interior de fendas e rachaduras de rochas vulcânicas ou espaços e cavidades desenvolvidos em rochas sedimentares, tornandose ali aprisionadas pela baixa permeabilidade de seu envoltório. Com o passar do tempo, parte da água da suspensão sofre evaporação e isso resulta no aumento gradativo da concentração de sílica. Quando essa concentração atinge um nível crítico, leva as moléculas de sílica a se agruparem, formando esferas solidas que em grande quantidade, levam a solução a se transformar em um gel, ocorrendo a seguir a deposição gravitacional das esferas em camadas. O volume das esferas é proporcional ao período de tempo. Se a velocidade de evaporação da água ocorrer de modo constante, formam-se esferas de diâmetro uniforme, que por sua vez se depositam em camadas sucessivas organizadas. A evaporação adicional de água leva à solidificação do material, constituindo então a opala nobre. A opala também se deposita entre grãos de argila e areia em arenitos, cimentando-os e constituindo rocha matriz (Cia. das Gemas, 2013). Praticamente todos os depósitos de opala nobre de origem sedimentar, conhecidos mundialmente, ocorrem apenas na Austrália. Demais locais de extração dessa gema no restante do mundo, inclusive em poucas exceções também na Austrália, são de origem vulcânica. A formação da opala precisa de um sistema fechado para operar o excesso de sílica e o evento magmático produz muita água quente em ebulição, que mistura a tridimita formando um gel, a qual é depositada por gravidade penetrando em fendas e fraturas. A água superaquecida em contato com a tridimita forma uma mistura homogênea dando uma solução gelatinosa. O gel paulatinamente perdendo calor (vai se resfriando) penetra ocupando espaços vazios ou se aglomerando em bolsões; é aprisionado, compactado e endurecido e na sequência, por processo físico-químico e hidrotermal, evolui para opala numa pseudo cristalização, gerando assim os depósitos associados a rochas vulcânicas.
5.1.7 – Formação das opalas de Pedro II Segundo Gomes e Costa (1994) as opalas de Pedro II estão intimamente relacionadas a um ambiente hidrotermal, surgido quando da intrusão de rochas básicas nas rochas siliciclásticas da Formação Cabeças. No entanto, não havia trabalhos sobre as características físico-químicas dos fluidos hidrotermais que originaram essas opalas. Dados essenciais a esse modelo genético proposto para as opalas de Pedro II foram apresentados por Marques et al. (2013), baseados em análises de inclusões fluidas, composição mineralógica e química dessas opalas e suas inclusões sólidas. Para esses últimos autores, devido às intrusões básicas na região, houve aporte de calor e a água contida nos arenitos das encaixantes foi aquecida, passando a solubilizar parcialmente os silicatos pré-existentes (liberando sílica e cátions de Ca, Ba, Sr, Fe, Mn, e outros), enriquecendo-se e saturando-se, e migrando através de fraturas hidráulicas e/ou tectônicas e outros espaços vazios como a porosidade. Conforme esse sistema foi evoluindo, o fluido se misturou com fluidos mais frios e menos salinos, como águas superficiais, por exemplo, o que contribuiu para seu resfriamento e diluição. Juntamente a esses processos, o fluido de que continha inicialmente H2O – NaCl – KCl recebeu cátions de Fe e Ca que se misturaram aos sais inicialmente formados, e originaram os fluidos de composições mistas, H2O – NaCl – FeCl2 e H2O – NaCl – KCl – CaCl2. Também foram verificadas feições de dissolução parcial em grande parte das inclusões sólidas, remetendo também ao ambiente hidrotermal, de intensa migração de fluidos, somado ainda à própria mineralogia das mesmas.
5.1.8 – Termos Opala comum: forma mais frequente. É um vidro natural com características semelhantes às da obsidiana. Sem jogo de cores e sem valor comercial. Opala preciosa ou nobre: formada quando exitem condições apropriadas conforme discutido anteriormente. Apresenta valor comercial. Distinguem-se dois grupos: a. Opala Branca: opala opaca com cor fundamental branca ou com outras cores em tonalidades claras (amarelo, laranja ou cinza). É a mais encontrada no mercado mundial, originária da Austrália, Brasil e Estados Unidos, principalmente (Foto 5.3);
b. Opala Negra: opalas opacas que apresentam cor fundamental cinza-escuro, azul-escuro, cinzapreto, verde-escuro ou marrom-escuro. A de cor preta é muito rara. As opalas negras realçam os reflexos coloridos em sua superfície, dando-lhes mais definição, sendo assim, mais valiosas que as demais. Atualmente, o único país com produção comercial de opalas negras é a Austrália (Foto 5.4). Opalas tipo white opal e black opal provenientes da Austrália podem ser vistas na Foto 5.5. Opala matriz (opalina): é um crescimento interpenetrado em bandas ou uma inclusão em lamelas de opala nobre na, ou com a rocha matriz (Foto 5.6). Opala de fogo: não é opalescente, apresenta uma cor vermelha ou laranja (pequenas quantidades de ferro na sua estrutura). Algumas opalas de jazidas no México são de um vermelho tão intenso e sensacional que lembram até rubis. Potch: referência ao material comum, sem jogo de cores, oriundo da associação de opala preciosa com opala comum quando encontradas na mesma área geográfica, ou quando opala preciosa está suspensa em massa de opala comum.
Foto 5.3 – Opalas nobres tipo white opal provenientes de Pedro II (PI).
Foto 5.4 – Opalas nobres tipo black opal provenientes da Austrália e de Honduras (Foto realizada em março/2014 no Museu de História Natural de Nova York / EUA).



Fonte: CPRM

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