Pesquisa determina idade de depósitos de cobre em Carajás
Descobertas feitas por geóloga podem nortear a prospecção e a exploração mineral na região
O geólogo com martelo adequado na mão e mochila nas costas, percorrendo caminhos e picadas, subindo morros e escarpas para recolher fragmentos de rochas não é apenas uma ficção cinematográfica. Ele existe. E ela também. Mesmo na era da tecnologia, em que se presume que para o desvendamento da natureza dos solos e do subsolo bastam os satélites. A essa imagem equivocada contrapõe-se a pesquisa realizada pela geóloga Carolina Penteado Natividade Moreto, que utilizou amostras de rocha identificadas e coletadas em trabalhos de campo para compreender sua formação e as suas idades. Não apenas isso. Uma longa história de muitos milhões de anos que culminou na rara formação de grandes depósitos de cobre foi revelada.
O trabalho foi realizado na Província de Carajás, próximo da região da Floresta Nacional de Carajás, área de preservação ambiental, situada ao Sul do Pará, famosa nos anos de 1980 em decorrência da enorme afluência de garimpeiros que trabalhavam e viviam em condições sub-humanas em busca de ouro em Serra Pelada. À época tornou-se conhecido o registro fotográfico que lhe fez Sebastião Salgado. O tema retorna em filme recém-lançado. Passada a corrida do ouro, a região de Carajás ainda se destaca por apresentar expressivas riquezas minerais.
Província é a denominação genérica dada a regiões que concentram depósitos minerais. Em Carajás, conhecida internacionalmente devido ao potencial econômico de suas riquezas, existem as maiores jazidas de ferro do mundo além de abundância de cobre, níquel, manganês, ouro e platinóides. É a região mais importante do Brasil em recursos minerais e a que no mundo concentra a maior diversidade desses depósitos, e por isso atrai empresas de mineração e pesquisadores nacionais e internacionais.
Ao iniciar o estudo, Carolina tinha grandes desafios: compreender a evolução geológica de Carajás, ou seja, como se deu a origem e a transformação das rochas ao longo do tempo geológico, e a evolução metalogenética, que explica como se formaram os depósitos minerais, em especial os de cobre. “Depósitos minerais são sempre anomalias no nosso planeta. São raros justamente porque dependem também da rara coincidência de processos geológicos”, diz ela.
Através de estudos geocronológicos, envolvendo datação das rochas, a pesquisadora conseguiu caracterizar as rochas mais antigas de Carajás, que beiram 3 bilhões de anos e estão entre as mais antigas do Brasil. As rochas datadas mais antigas da Terra têm cerca de 4 bilhões de anos, em um planeta formado há 4,5 bilhões de anos. É difícil encontrar rochas no intervalo de 3 a 4 bilhões de anos. Entretanto, para Carolina, o principal mérito do trabalho foi o de determinar idades precisas e compreender como se formaram os depósitos de cobre de Carajás.
Outro achado da pesquisadora foi a constatação de que depósitos de cobre, embora muito próximos e com características semelhantes, formaram-se em épocas muito distintas – 2,7 e 1,9 bilhões de anos –, mostrando uma rara recorrência de eventos geológicos ao longo do tempo. Com base nessas constatações, ela conseguiu integrar informações obtidas ao longo de mais de dez anos pelo Grupo de Pesquisa em Evolução Crustal e Metalogênese do IG-Unicamp e propor um novo modelo evolutivo para os depósitos de cobre.
O minério é basicamente uma rocha, porém suscetível de ser explorado economicamente. O interesse está em extrair dele um mineral ou elemento, separando-o do restante do material, a ganga, que não tem interesse econômico. A pesquisa concentrou-se na caracterização do Cinturão Sul do Cobre, na área dos depósitos de ferro-cobre-ouro. Centrou-se na determinação das idades de cristalização das rochas hospedeiras desses depósitos e no estabelecimento de modelos evolutivos para os depósitos a partir dos dados geocronológicos inéditos obtidos e dos disponíveis na literatura.
Os modelos teóricos delineados podem ser estendidos para a compreensão dos mecanismos de formação de depósitos de cobre em outras regiões do Brasil e do mundo. Apenas com a reconstituição de processos geológicos que atuaram em um passado muito distante podem ser entendidas em quais partes do planeta depósitos minerais podem ser encontrados. Os conhecimentos científicos agregados ao trabalho relativos à determinação das idades das rochas e de como nelas se acumularam os bens minerais podem servir, portanto, de importantes guias para nortear a prospecção e a exploração mineral.
Adicionalmente, embora os recursos minerais sejam utilizados no dia-a-dia por todas as pessoas – do papel ao smartphone – e sua demanda seja crescente em termos mundiais, entender que esses bens minerais não são renováveis, mas resultantes de uma extraordinária coincidência de processos geológicos pode auxiliar na proposição de políticas sustentáveis para o setor mineral.
Exemplos desse significado são as apresentações que Carolina realizou, durante o estudo, em encontros nacionais e internacionais no Chile, Austrália e na Suécia, e que a levaram inclusive, em 2011, a ganhar o prêmio de melhor apresentação no 11th SGA Biennial Meeting, promovido pela Society for Geology Applied to Mineral Deposits, realizado em Antofagasta, no Chile.
Ela foi também selecionada, entre estudantes de todo o mundo, para participar de excursões de campo em depósitos minerais situados na Cordilheira dos Andes e no norte da Suécia. Essas participações lhe permitiram comparar Carajás com outras províncias minerais do mundo.
O trabalho
O trabalho de campo envolveu a coleta de amostras de rocha a céu aberto, no entorno das minas de cobre, e também o recolhimento de amostras fornecidas pela Vale, principal mineradora na região, na prospecção em diferentes profundidades. Centenas de furos de sondagem são realizadas com o objetivo de determinar como o minério se distribui, suas reservas e seus teores.
Trazidas para o laboratório, as rochas são então caracterizadas com o auxílio de microscópio petrográfico e de microscópio eletrônico de varredura. Depois são trituradas e moídas até um pó muito fino a partir do qual são feitas as análises desejadas e que permitem determinar os elementos que a constituem.
A determinação da idade de formação da rocha, o chamado estudo geocronológico, é feita a partir de cristais microscópicos de minerais coletados no pó da rocha, que possuem elementos radioativos e radiogênicos, os pares Urânio-Chumbo (U-Pb) e Rênio-Ósmio (Re-Os). Estes pares, que se prestam à datação, estão no interior de minerais, tais como zircão, monazita, titanita e molibdenita na forma de raros cristais que constituem as rochas estudadas e devem ser separados.
Nesta fase, o trabalho assumiu características inacreditáveis, pois precisam ser separados cristais que medem aproximadamente 30 micrômetros, ou 0,003 milímetros. Na mão. A pesquisadora esclarece: “Para separá-los eu garimpei o minério em uma bateia. A diferença de densidade faz com que se concentrem no fundo zircão, monazita, titanita e outros componentes mais densos. Ao final restam na bateia 20% do material de partida. Uma vez seco, esse resíduo é levado a um separador magnético que retira os componentes radiativos. São separados então os cristais que interessam utilizando-se um fio de cabelo, que tem diâmetro próximo ao dos cristais”. Na sequência estes são colados em uma fita adesiva adequada, recobertos com resina e encaminhados para datação. Durante o doutorado, ela processou 65 amostras de rocha, em um trabalho de meses.
A idade das rochas é determinada pela quantidade de decaimento radiativo, já que nos pares U-Pb e Re-Os o primeiro elemento é radiativo e o segundo ocupa o final da série de decomposição, sendo chamado de radiogênico. Utilizando o conceito de meia-vida e com base nas quantidades relativas dos elementos do par, é determinada com grande aproximação a época em que o depósito se formou.
O melhor equipamento para essas determinações é o SHRIMP (Sensitive High-Resolution Ion Microprobe), do qual existem muito poucos no mundo. O único existente no Brasil é o do Instituto de Geociências da USP, adquirido há alguns anos, e onde ela mesma fez as medidas U-Pb. Para as determinações Re-Os ela foi para a Universidade de Alberta, no Canadá, onde existe um laboratório pioneiro nessa técnica e considerado o melhor do mundo. A pesquisa foi financiada pela Fapesp, CNPq e INCT-Geociam (MCT-CNPq-Fapespa).
Explicações
Com base nas informações sobre idades das rochas e de suas composições, a pesquisadora concluiu que os depósitos minerais mais antigos formaram-se em grandes profundidades ao longo de grandes descontinuidades existentes na crosta terrestre. Fluidos quentes circulam na crosta, lixiviando metais das rochas, principalmente ferro, cobre e ouro, depositando-os depois nesses espaços. Por esta razão os depósitos de cobre formados há 2,7 bilhões de anos estão sempre muito próximos a essas grandes descontinuidades. Em Carajás, os depósitos ocorrem em áreas em que no passado remoto existiu um grande oceano, além de extensivo vulcanismo e formação de rochas magmáticas intrusivas, que também contribuíram para a formação dos depósitos.
Bem depois, há 1,9 bilhões de anos, novo evento geológico determinou que os fluidos termais também circulassem pela região, aproveitando antigas estruturas, onde não existia mais oceano. Circulando pela crosta terrestre e por grandes descontinuidades, os fluidos conseguiram concentrar novamente grandes quantidades de vários metais. Em consequência, formaram-se lado a lado depósitos de minerais de origens completamente diferentes.
Em síntese, diz Carolina: “Diferentes tipos de rochas hospedam diferentes depósitos, sempre próximos a grandes estruturas geológicas, em falhas, quebras, rupturas de rochas, formados em momentos distintos, embora muito parecidos. O conhecimento das características das rochas hospedeiras desses depósitos pode certamente guiar a prospecção utilizada pela indústria mineral”.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
"Serra Pelada: A Lenda da Montanha de Ouro"
"Serra Pelada: A Lenda da Montanha de Ouro" mostra origens e consequências da exploração do garimpo brasileiro
Diretor do documentário, Victor Lopes diz que projeto de ficção que também está em cartaz nos cinemas é estilizado e distante da história real que impressionou o mundo nos anos 1980
Foto: tv zero / Divulga
Em cartaz em Porto Alegre desde sexta-feira, no CineBancários, o documentário Serra Pelada – A Lenda da Montanha de Ouro complementa o registro ficcional que, desde a semana passada, pode ser visto no longa-metragem Serra Pelada.
O documentarista Victor Lopes segue o modelo das grandes reportagens para exibir um painel bastante completo com as origens e as consequências da corrida do ouro que movimentou o sul do Pará e impressionou o mundo no começo dos anos 1980. O garimpo de Serra Pelada chegou a atrair cerca de 100 mil trabalhadores, protagonistas de sonhos realizados e de tragédias pessoais e figurantes de negócios nebulosos que interligaram interesses do governo militar — por meio de companhias exploradoras de minério, como a Vale do Rio Doce, e da Caixa Econômica Federal, agente financeiro da epopeia — e de latifundiários que se apoderaram de terras na região.
O diretor destaca os aspectos econômicos, sociais e políticos do episódio, esmiuçando temas como a tensão agrária no Pará e a influência de figuras como o oficial do Exército Sebastião Curió. Líder do combate à guerrilha do Araguaia e depois agente do Serviço Nacional de Informações (SNI) na região Amazônica, Curió, ainda durante a ditadura militar, tornou-se o “cacique” de Serra Pelada.
Lopes conta ainda com depoimentos de ex-garimpeiros, geólogos, jornalistas que cobriram a busca pelo ouro, de Eliezer Batista, ex-presidente da Vale e grande estrategista de infra-estrutura nacional em diferentes governos, além de preciosas imagens de arquivo.
Confira entrevista do diretor a Zero Hora:
Zero Hora — O que o motivou a tocar esse projeto por uma década e quais foram suas maiores dificuldades e recompensas no processo?
Victor Lopes — Samuel Fuller dizia que o cinema é um campo de batalha, e eu gosto de brincar a sério de que, para mim, cinema é garimpo. Serra Pelada é uma história única no Brasil e no mundo. Cem mil homens transformando com trabalho braçal uma montanha de 150 metros num lago de 150 metros de profundidade, cercado de miséria, disputas e lendas até hoje. No meio da Floresta Amazônica ainda intocada, a maior corrida do ouro do século 20, e a segunda maior concentração de trabalho humano depois das pirâmides do Egito, é também uma síntese contundente da história recente do país. Ouro puro para sonhar um filme. A possibilidade, e honra, de traduzir essa grande saga me levou a filmar na região por 11 anos, decantando e montando o material como se fosse um romance. Nesse tempo, lancei outros três longas, dois curtas, fiz instalações em dois museus. Mas tive um zelo enorme pelo projeto, mesmo diante das dificuldades de comprar todos os arquivos e lidar com os desafios da montagem na narrativa de uma história de 40 anos. A grande recompensa foi ter em aproximado de pessoas muito especiais e saber que a força dessas vidas e dos anos de trabalho vai voltar nas telas.
ZH — Falando em garimpagem, como se deu a busca por imagens de arquivo e quais foram as suas fontes, sobretudo os registros em filmes como aquele narrado por Orson Welles?
Lopes — Adoro as fases de pesquisa de um filme, seja em campo, seja em arquivos. No caso do Serra Pelada, sabia que tinha muito ouro pela frente, mas me surpreendi com a força das imagens que encontrei. Tive o privilégio de usar excelentes fotografias de geólogos da Vale, entre as quais as únicas do morro original antes de ser desmatado numa única tarde. Inclusive, Breno Santos, personagem do filme, é também autor da foto do pôster. Um dia, filmando na casa de Eliezer Batista, ele me revelou que seu filho Dietrich tinha produzido um filme lá. Dietrich comentou que o filme tinha locução do Orson Welles, "que não parou de mexer no texto". Saiu da sala e voltou com uma lata de 16mm de Goldlust, documentário produzido pela ABC e dado como perdido há muito tempo. E caiu mais um tesouro nas nossas mãos.
ZH — Eliezer Batista fala das peculiaridades de Serra Pelada ter existido em meio a tantas irregularidades legais, graças à conivência de militares, latifundiários e políticos com interesses diversos, exemplo do típico arranjo brasileiro em que todos tentam levar vantagem. Durante a realização do filme, lhe pareceu mesmo isso, que o governo militar não soube avaliar e tampouco administrar todo aquele potencial de riqueza do garimpo?
Lopes — Depois da saga inicial, que atraiu 30 mil homens em poucas semanas, Serra Pelada transforma-se uma grande coreografia do governo militar. Mesmo no meio da Amazônia seria muito complicado retirar tanta gente de cima do ouro que não parava de brotar da Grota Rica. Assim, o governo decidiu intervir através do Curió, que proibiu armas, mulheres e bebida, transformando o garimpo num quartel, mas um quartel movido por uma poderosa energia humana e histórica, consciente e coletiva no transe da sua própria febre. Ali, com 80 mil homens controlados por 16 policiais e quase sem ocorrências, tanto a Caixa quanto a Vale faturaram alto com a venda do ouro, que era comprado como ouro bruto, mas muitas vezes tinha valor maior pelos outros metais agregados, como platina e paládio. O interesse militar que era estratégico como contrainformação para a influência da Guerrilha do Araguaia na região, acabou resvalando para um lucrativo projeto econômico e uma exótica ação de propaganda.
ZH — É bastante emblemática a figura do Major Curió, que saiu das sombras da ditadura como responsável por mortes e torturas de guerrilheiros no Araguaia para erguer seu império político na região como líder dos garimpeiros, inclusive se voltando contra o próprio governo militar. Que juízo você faz do Curió após ter realizado o filme?
Lopes — Curió desde o início foi solícito e aberto para falar sobre Serra Pelada. Naturalmente, ele foi evasivo quanto a certos pontos da Guerrilha do Araguaia, mas me recebeu sempre com respeito e atenção. Naturalmente, ele está muito presente no filme pois é personagem decisivo nesta e em qualquer história. Um militar que desintegra uma guerrilha na selva, se transforma em agente secreto e depois em interventor do maior garimpo do mundo. Eleito deputado, rompe com o Governo e a Vale e funda a cooperativa que depois assume o garimpo, funda uma cidade com seu nome e se torna seu prefeito por três vezes. Cassado por corrupção, acaba afastado dos garimpeiros e do poder. É uma trajetória pra nenhum roteirista pôr defeito. Numa entrevista sempre deixo que a pessoa conte a própria história, mesmo que seja de um universo ou crença distante do meu. Agora, é importante salientar que não julgo os meus personagens, confio no subtexto que os acompanha e, acima de tudo, na sensibilidade e visão de quem vê o filme.
ZH — Os garimpeiros, mostra o seu filme, eram simpáticos ao governo militar, visto por eles como um benfeitor. Na sua opinião essa foi uma postura ingênua ou a postura conveniente com a situação?Lopes — Os garimpeiros dependiam do Estado para rebaixar as laterais do garimpo e bombear a água do lençol freático no fundo da cava. Por sua vez, o governo comprava o ouro acima do preço mundial, o que evitava qualquer contrabando, e lucrava com a operação. Os garimpeiros dependiam da autorização anual para continuar garimpando. Então, ingenuidade e sagacidade andavam lado a lado. Surpreendentemente, após sofrer intervenções militares em todos os governos, de Figueiredo a Lula, Serra Pelada pode também ser considerada a mais bem-sucedida invasão popular da história do Brasil.
ZH — É interessante o personagem que fala da sinuca em que o governo ficou quando não dava mais para dispensar milhares de garimpeiros, sob risco de tensionar a luta por terras na região. Serra Pelada, assim, teria sido um algodão entre cristais, um "prejuízo" econômico administrável em nome de uma causa política maior?
Lopes — Com certeza, a possibilidade de agravar a luta fundiária com dezenas de milhares de famílias buscando terra, fazia parte das considerações dos militares. Mas não foi de forma alguma um prejuízo. Além da propaganda interna e externa, o ouro de Serra Pelada é agregado a platina e paládio, que valem muito mais do que o metal. Ficou público e notório que o ouro do garimpo gerou reservas importantes para pagar a dívida externa na época, que incluiu o depósito de mais de duas toneladas de platina na corretora Morgan Stanley.
ZH — O agravamento da tensão agrária no Sul do Pará que se vê nos últimos anos tem alguma relação com Serra Pelada?Lopes — Uma das maiores revelações para mim foi explicitar um DNA entre a Guerrilha do Araguaia, Serra Pelada e o movimento dos sem terra. Vários personagens viveram esses momentos e, como mostra o filme, dos 19 mortos no massacre de Eldorado dos Carajás, 16 eram ex-garimpeiros de Serra Pelada. A história fala por si e ainda está sendo escrita.
ZH — Essa razão acima seria a justificativa para o governo militar não ter agido com mais rigor para preservar e explorar um patrimônio nacional?
Lopes — Não faz sentido, na visão do Estado (e também de empresas privadas), deixar de explorar a segunda maior província mineral do planeta. Carajás é chamada de "China Brasileira" pelos seu altíssimo e constante crescimento econômico nas últimas décadas. Só do município de Parauapebas saem 13% de todas as divisas das nossas exportações. É uma região estratégica para o país. E, curiosamente, outra das lendas locais diz que foram os comunistas da guerrilha os primeiros a pedir alvarás de exploração.
ZH — As histórias pessoais de riqueza fugaz transformada em desgraça, embora tenham sua graça em alguns casos, revelam dramas amargos. Foi difícil falar com os garimpeiros que tiveram a chance de mudar de vida e hoje estão em dificuldades? Eles não se constrangem com isso?
Lopes — O garimpo é um transe que não se encerra na memória de quem viveu lá. Contar com a confiança desses homens foi decisivo para o filme, e uma profunda responsabilidade ética para mim. Todo ser humano tem vontade de contar a sua história, e Serra Pelada é uma fábula viva de muitas vozes que agora se funde na tela. Por isso, o verdadeiro guardião dessa história é o coração do espectador.
ZH — Por que, na sua opinião, não ocorreu outra corrida do ouro como aquela, já que existem indícios de ainda haver muita riqueza na região?
Lopes — Como diz o ativista Etevaldo Arantes, as empresas são feitas para durar séculos e os homens, décadas. Não há mais espaço para eles, num território dominado por grandes interesses que jogam com a lei e o tempo a seu favor, esperando que esses homens morram todos um dia. Mas o seu sonho e a história que escavaram vai durar muito mais do que governos e empresas. E embaixo de tudo, tem uma laje de ouro.
ZH — Em que medida o longa de ficção Serra Pelada, do Heitor Dhalia afeta teu projeto? Atrapalha ou ajuda a dar mais visibilidade? O que você achou da proposta ficcional dele?
Lopes — Exibimos o documentário em abril, no (festival) É Tudo Verdade, e foi interesse dos exibidores lançar o filme próximo à ficção do Heitor Dhalia. A distribuição do filme é feita pela própria produtora TvZero, e, numa grande operação de guerrilha, estamos fechando várias cidades, com boa recepção. Nesta nova idade do ouro do cinema brasileiro, acho que soma para os dois filmes estarem em cartaz juntos, na medida em que o público pode conhecer mais a fundo essa história. Costumo dizer que Serra Pelada permite cem mil épicos num lugar só, e um de meus próximos projetos é ambientado na região nos dias de hoje. Com todas as concessões que se devem fazer a uma obra de ficção, achei o filme do Heitor Dhalia estilizado e distante da história real de Serra Pelada. No meu trabalho, tempo e história são dois fundamentos do cinema, e neste caso, com todo o apreço e respeito que tenho pela ficção, fico do lado da realidade.
Confira entrevista do diretor a Zero Hora:
Zero Hora — O que o motivou a tocar esse projeto por uma década e quais foram suas maiores dificuldades e recompensas no processo?
Victor Lopes — Samuel Fuller dizia que o cinema é um campo de batalha, e eu gosto de brincar a sério de que, para mim, cinema é garimpo. Serra Pelada é uma história única no Brasil e no mundo. Cem mil homens transformando com trabalho braçal uma montanha de 150 metros num lago de 150 metros de profundidade, cercado de miséria, disputas e lendas até hoje. No meio da Floresta Amazônica ainda intocada, a maior corrida do ouro do século 20, e a segunda maior concentração de trabalho humano depois das pirâmides do Egito, é também uma síntese contundente da história recente do país. Ouro puro para sonhar um filme. A possibilidade, e honra, de traduzir essa grande saga me levou a filmar na região por 11 anos, decantando e montando o material como se fosse um romance. Nesse tempo, lancei outros três longas, dois curtas, fiz instalações em dois museus. Mas tive um zelo enorme pelo projeto, mesmo diante das dificuldades de comprar todos os arquivos e lidar com os desafios da montagem na narrativa de uma história de 40 anos. A grande recompensa foi ter em aproximado de pessoas muito especiais e saber que a força dessas vidas e dos anos de trabalho vai voltar nas telas.
ZH — Falando em garimpagem, como se deu a busca por imagens de arquivo e quais foram as suas fontes, sobretudo os registros em filmes como aquele narrado por Orson Welles?
Lopes — Adoro as fases de pesquisa de um filme, seja em campo, seja em arquivos. No caso do Serra Pelada, sabia que tinha muito ouro pela frente, mas me surpreendi com a força das imagens que encontrei. Tive o privilégio de usar excelentes fotografias de geólogos da Vale, entre as quais as únicas do morro original antes de ser desmatado numa única tarde. Inclusive, Breno Santos, personagem do filme, é também autor da foto do pôster. Um dia, filmando na casa de Eliezer Batista, ele me revelou que seu filho Dietrich tinha produzido um filme lá. Dietrich comentou que o filme tinha locução do Orson Welles, "que não parou de mexer no texto". Saiu da sala e voltou com uma lata de 16mm de Goldlust, documentário produzido pela ABC e dado como perdido há muito tempo. E caiu mais um tesouro nas nossas mãos.
ZH — Eliezer Batista fala das peculiaridades de Serra Pelada ter existido em meio a tantas irregularidades legais, graças à conivência de militares, latifundiários e políticos com interesses diversos, exemplo do típico arranjo brasileiro em que todos tentam levar vantagem. Durante a realização do filme, lhe pareceu mesmo isso, que o governo militar não soube avaliar e tampouco administrar todo aquele potencial de riqueza do garimpo?
Lopes — Depois da saga inicial, que atraiu 30 mil homens em poucas semanas, Serra Pelada transforma-se uma grande coreografia do governo militar. Mesmo no meio da Amazônia seria muito complicado retirar tanta gente de cima do ouro que não parava de brotar da Grota Rica. Assim, o governo decidiu intervir através do Curió, que proibiu armas, mulheres e bebida, transformando o garimpo num quartel, mas um quartel movido por uma poderosa energia humana e histórica, consciente e coletiva no transe da sua própria febre. Ali, com 80 mil homens controlados por 16 policiais e quase sem ocorrências, tanto a Caixa quanto a Vale faturaram alto com a venda do ouro, que era comprado como ouro bruto, mas muitas vezes tinha valor maior pelos outros metais agregados, como platina e paládio. O interesse militar que era estratégico como contrainformação para a influência da Guerrilha do Araguaia na região, acabou resvalando para um lucrativo projeto econômico e uma exótica ação de propaganda.
ZH — É bastante emblemática a figura do Major Curió, que saiu das sombras da ditadura como responsável por mortes e torturas de guerrilheiros no Araguaia para erguer seu império político na região como líder dos garimpeiros, inclusive se voltando contra o próprio governo militar. Que juízo você faz do Curió após ter realizado o filme?
Lopes — Curió desde o início foi solícito e aberto para falar sobre Serra Pelada. Naturalmente, ele foi evasivo quanto a certos pontos da Guerrilha do Araguaia, mas me recebeu sempre com respeito e atenção. Naturalmente, ele está muito presente no filme pois é personagem decisivo nesta e em qualquer história. Um militar que desintegra uma guerrilha na selva, se transforma em agente secreto e depois em interventor do maior garimpo do mundo. Eleito deputado, rompe com o Governo e a Vale e funda a cooperativa que depois assume o garimpo, funda uma cidade com seu nome e se torna seu prefeito por três vezes. Cassado por corrupção, acaba afastado dos garimpeiros e do poder. É uma trajetória pra nenhum roteirista pôr defeito. Numa entrevista sempre deixo que a pessoa conte a própria história, mesmo que seja de um universo ou crença distante do meu. Agora, é importante salientar que não julgo os meus personagens, confio no subtexto que os acompanha e, acima de tudo, na sensibilidade e visão de quem vê o filme.
ZH — Os garimpeiros, mostra o seu filme, eram simpáticos ao governo militar, visto por eles como um benfeitor. Na sua opinião essa foi uma postura ingênua ou a postura conveniente com a situação?Lopes — Os garimpeiros dependiam do Estado para rebaixar as laterais do garimpo e bombear a água do lençol freático no fundo da cava. Por sua vez, o governo comprava o ouro acima do preço mundial, o que evitava qualquer contrabando, e lucrava com a operação. Os garimpeiros dependiam da autorização anual para continuar garimpando. Então, ingenuidade e sagacidade andavam lado a lado. Surpreendentemente, após sofrer intervenções militares em todos os governos, de Figueiredo a Lula, Serra Pelada pode também ser considerada a mais bem-sucedida invasão popular da história do Brasil.
ZH — É interessante o personagem que fala da sinuca em que o governo ficou quando não dava mais para dispensar milhares de garimpeiros, sob risco de tensionar a luta por terras na região. Serra Pelada, assim, teria sido um algodão entre cristais, um "prejuízo" econômico administrável em nome de uma causa política maior?
Lopes — Com certeza, a possibilidade de agravar a luta fundiária com dezenas de milhares de famílias buscando terra, fazia parte das considerações dos militares. Mas não foi de forma alguma um prejuízo. Além da propaganda interna e externa, o ouro de Serra Pelada é agregado a platina e paládio, que valem muito mais do que o metal. Ficou público e notório que o ouro do garimpo gerou reservas importantes para pagar a dívida externa na época, que incluiu o depósito de mais de duas toneladas de platina na corretora Morgan Stanley.
ZH — O agravamento da tensão agrária no Sul do Pará que se vê nos últimos anos tem alguma relação com Serra Pelada?Lopes — Uma das maiores revelações para mim foi explicitar um DNA entre a Guerrilha do Araguaia, Serra Pelada e o movimento dos sem terra. Vários personagens viveram esses momentos e, como mostra o filme, dos 19 mortos no massacre de Eldorado dos Carajás, 16 eram ex-garimpeiros de Serra Pelada. A história fala por si e ainda está sendo escrita.
ZH — Essa razão acima seria a justificativa para o governo militar não ter agido com mais rigor para preservar e explorar um patrimônio nacional?
Lopes — Não faz sentido, na visão do Estado (e também de empresas privadas), deixar de explorar a segunda maior província mineral do planeta. Carajás é chamada de "China Brasileira" pelos seu altíssimo e constante crescimento econômico nas últimas décadas. Só do município de Parauapebas saem 13% de todas as divisas das nossas exportações. É uma região estratégica para o país. E, curiosamente, outra das lendas locais diz que foram os comunistas da guerrilha os primeiros a pedir alvarás de exploração.
ZH — As histórias pessoais de riqueza fugaz transformada em desgraça, embora tenham sua graça em alguns casos, revelam dramas amargos. Foi difícil falar com os garimpeiros que tiveram a chance de mudar de vida e hoje estão em dificuldades? Eles não se constrangem com isso?
Lopes — O garimpo é um transe que não se encerra na memória de quem viveu lá. Contar com a confiança desses homens foi decisivo para o filme, e uma profunda responsabilidade ética para mim. Todo ser humano tem vontade de contar a sua história, e Serra Pelada é uma fábula viva de muitas vozes que agora se funde na tela. Por isso, o verdadeiro guardião dessa história é o coração do espectador.
ZH — Por que, na sua opinião, não ocorreu outra corrida do ouro como aquela, já que existem indícios de ainda haver muita riqueza na região?
Lopes — Como diz o ativista Etevaldo Arantes, as empresas são feitas para durar séculos e os homens, décadas. Não há mais espaço para eles, num território dominado por grandes interesses que jogam com a lei e o tempo a seu favor, esperando que esses homens morram todos um dia. Mas o seu sonho e a história que escavaram vai durar muito mais do que governos e empresas. E embaixo de tudo, tem uma laje de ouro.
ZH — Em que medida o longa de ficção Serra Pelada, do Heitor Dhalia afeta teu projeto? Atrapalha ou ajuda a dar mais visibilidade? O que você achou da proposta ficcional dele?
Lopes — Exibimos o documentário em abril, no (festival) É Tudo Verdade, e foi interesse dos exibidores lançar o filme próximo à ficção do Heitor Dhalia. A distribuição do filme é feita pela própria produtora TvZero, e, numa grande operação de guerrilha, estamos fechando várias cidades, com boa recepção. Nesta nova idade do ouro do cinema brasileiro, acho que soma para os dois filmes estarem em cartaz juntos, na medida em que o público pode conhecer mais a fundo essa história. Costumo dizer que Serra Pelada permite cem mil épicos num lugar só, e um de meus próximos projetos é ambientado na região nos dias de hoje. Com todas as concessões que se devem fazer a uma obra de ficção, achei o filme do Heitor Dhalia estilizado e distante da história real de Serra Pelada. No meu trabalho, tempo e história são dois fundamentos do cinema, e neste caso, com todo o apreço e respeito que tenho pela ficção, fico do lado da realidade.
A Corrida do Ouro no Rio Madeira
A Corrida do Ouro no Rio Madeira
A Corrida do Ouro no Rio Madeira
Elas não podem impedir a navegação. Isso é proibido.
Se forem vistas fazendo isso, é apreensão na certa.
A lavra deve ser feita apenas onde não houver risco ambiental.
(Fred Cruz - Assessor do DNPM)
Se forem vistas fazendo isso, é apreensão na certa.
A lavra deve ser feita apenas onde não houver risco ambiental.
(Fred Cruz - Assessor do DNPM)
O Rio Madeira esconde sob suas águas barrentas e apressadas a ilusão de enriquecimento “rápido” de milhares de seres humanos que abandonaram o conforto de suas casas e a convivência de seus familiares para morar em precários e barulhentos flutuantes, cercados por estranhos, ancorados no leito do Rio, em busca do ouro. Na “Corrida do Ouro”, da década de oitenta, o Rio Madeira foi palco de um drama onde raras pessoas fizeram fortuna e onde muitas perderam tudo que tinham e, não raras vezes, a própria vida.
Em nossa descida, pelo maior afluente da margem direita do Rio Amazonas, avistamos milhares de dragas trabalhando diuturnamente removendo areia, lama e cascalho com tal intensidade que são capazes de alterar a geografia do Rio. São verdadeiras Vilas flutuantes, algumas margeando, quase bloqueando, perigosamente os canais de navegação, prejudicando o tráfego naval e colocando em risco as vidas de seus residentes e dos tripulantes das embarcações. A partir de Borba à medida que nos aproximamos da foz do Madeira seu número vai diminuindo lentamente até se tornarem raras. Avistamos à noite algumas trafegando temerariamente, praticamente, às escuras, sem qualquer tipo de sinalização com a finalidade de mudar de local de garimpo ou, em virtude da cheia, voltar à sua Comunidade de origem onde permanecem estacionadas até a vazante.
- A Amalgamação
- A Amalgamação
Fonte: Jurandir Rodrigues de Souza e Antonio Carneiro Barbosa
A utilização do mercúrio no processo de amalgamação do ouro já era conhecida pelos fenícios e cartagineses em 2.700 a .C. Caius Plinius, em sua “História Natural” (50 d.C.) descrevia a técnica de mineração do ouro e prata com um processo de almagamação similar ao utilizado hoje nas minas de ouro. O Brasil não produz mercúrio. A sua importação e comercialização são controladas pelo IBAMA por meio da Portaria n° 32 de 12/05/95 e Decreto n° 97.634/89, que estabelece a obrigatoriedade do cadastramento no IBAMA das pessoas físicas e jurídicas que “importem, produzam ou comercializem a substância mercúrio metálico”. O uso do mercúrio metálico na extração do ouro é também regulamentado. O Decreto 97.507/89 proíbe o uso de mercúrio na atividade de extração de ouro, “exceto em atividades licenciadas pelo órgão ambiental competente”. Por outro lado, a obrigatoriedade de recuperação das áreas degradadas pela atividade garimpeira é igualmente regulamentada pelo Decreto 97.632/89.
As dragas, instaladas em flutuantes, estendem suas lanças de sucção, acionadas por bombas de 5 a 12 polegadas , que reviram o leito arenoso e despejam o cascalho, lodo e areia juntamente com milhares de litros de água em uma calha.
Lança de Sucção: tubulação com sistema de cabeças cortantes que penetram as rochas duras no fundo dos Rios. Algumas destas lanças são manuseadas por mergulhadores que permanecem por mais de quatro horas submersos. A baixa visibilidade das águas contribui para a incidência de acidentes fatais casuais ou mesmo intencionais provocados por garimpeiros rivais.
O material passa, então, por uma calha concentradora que elimina a lama e a água, o restante é misturado ao mercúrio (Hg) que tem a propriedade de unir-se a outros metais produzindo uma amálgama.
Calha Concentradora: nessas calhas acarpetadas a recuperação do ouro, normalmente, é inferior a 50%. A amalgamação dos concentrados é feita através de misturadores de alta velocidade, bastante ineficientes, que permitem que as partículas finas de mercúrio sejam despejadas nos rios juntamente com os rejeitos de amálgama. O mercúrio vai, então, formando os chamados “hot spots” (pontos quentes), isto é pontos com alta concentração do poluente. O mercúrio metálico inicia, lentamente, seu processo de oxidação aumentando sua solubilidade e tornando-se um poluente da biota aquática.
Posteriormente, para separar o ouro do mercúrio, usa-se o processo conhecido como “queima do amálgama”, onde a liga metálica é submetida a altas temperaturas fazendo o mercúrio voltar ao estado líquido, separando-o do ouro. O preço do mercúrio nos garimpos embora atinja cinco vezes o preço internacional é um reagente considerado relativamente barato tendo em vista que um quilo de Hg pode ser adquirido com apenas um grama de ouro.
- Garimpo nos Reservatórios das Hidrelétricas
Em 2008, foi liberada atividade garimpeira no Rio Madeira em duas áreas determinadas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e Secretaria de Estado de Meio Ambiente/RO. A primeira ficava a uns 20 quilômetros a montante da Cachoeira do Teotônio e se estendia até as proximidades do Rio Jaci e a outra desde uns 15 quilômetros a montante da Cachoeira do Jirau até a Cachoeira do Paredão. Na época mais de 1.700 requerimentos foram protocolados no DNPM, mas apenas um garimpeiro e duas cooperativas apresentaram licenças ambientais e receberam as 28 permissões para extrair ouro na região. Cerca de duas mil pessoas, 250 pequenas balsas e 70 dragas trabalharam nas duas áreas liberadas antes da inundação dos reservatórios de Santo Antônio e Jirau.
- Licenciamento do IPAAM
A garimpagem do ouro ao longo do Rio Madeira foi autorizada pelo DNPM após licenciamento do IPAAM. A decisão foi tomada apesar de o Rio ser uma Hidrovia Federal e esta atividade ocorrer, também, na Floresta Nacional de Humaitá e nas suas cercanias. A legalização teve participação da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiental do Amazonas (SDS), que elaborou o “Projeto de Extrativismo Mineral e Familiar do Rio Madeira” incentivando a criação de uma Cooperativa e facilitando a compra de equipamentos (cadinhos ou retortas) que deveriam ser usados para reduzir a poluição com mercúrio.
Cadinhos ou Retortas: o cadinho, ou retorta é constituído por um compartimento onde o amálgama é aquecido por uma tocha ou um leito de carvão incandescente e um tubo condensador resfriado a água. O uso deste recurso permite que 95% do mercúrio das amálgamas de ouro possa ser condensado e novamente usado.
Segundo relatório do IBAMA, o projeto do Governo Estadual não considerou a proibição de o garimpo ser executado nas margens ou barrancos de rios nem limitou o número de bombas de sucção ou de balsas por área. O documento afirma, ainda, que o mercúrio continua a ser usado indiscriminadamente, apesar dos equipamentos disponibilizados pelo Governo Estadual e que o destino dos rejeitos deste metal não foi estabelecido no projeto. Os garimpeiros, segundo o documento, não foram orientados, devidamente, para adquirir os cadinhos (retortas), somente de comerciantes cadastrados pelo IBAMA, como, também, não foram devidamente instruídos sobre a atividade na FLONA Humaitá e no seu entorno.
Podemos afirmar, contrariando a preocupação do IBAMA, que à jusante de Porto Velho não existe nenhum tipo de garimpagem sendo executado nas margens ou barrancos do Rio Madeira. Outro ponto importante, que devemos ressaltar, é o que se refere à violência que, normalmente, impera, nas regiões de garimpo. Como a maioria das dragas é operada por membros das Comunidades, que se conhecem e não raras vezes unidos por laços de família, o aspecto da violência foi praticamente anulado.
No Eldorado do Juma (Nova Aripuanã), o Governo do Estado do Amazonas, atropelando a Constituição Federal, pretende executar um processo semelhante ao do Rio Madeira. O ouro do Juma além de se encontrar no subsolo, propriedade do Governo Federal, está situado em um Assentamento do INCRA, cabendo, portanto, a um Órgão Federal, no caso o IBAMA, o processo de licenciamento ambiental.
- Contaminação por Mercúrio
São agressões ao sistema nervoso, comprometimento da visão,
locomoção, surgimento de anomalias. (Biólogo Vanderley Bastos)
locomoção, surgimento de anomalias. (Biólogo Vanderley Bastos)
O garimpo, além do impacto social relevante, provoca um prejuízo ambiental importante. As margens do Rio são destruídas, o material dragado resulta no assoreamento do leito e o mercúrio, altamente tóxico, afeta a cadeia alimentar da região contaminando os peixes, principal base alimentar da população ribeirinha. Mesmo na comercialização, longe dos garimpos, o mercúrio continua fazendo vitimas. A decomposição térmica da amálgama gera uma “esponja” de ouro contendo 20 g de Hg residual por quilo de ouro. Os compradores de ouro, nas povoações fundem o ouro a ser comprado à vista dos garimpeiros para eliminar as impurezas minerais associadas. O processo desprende o mercúrio residual que contamina a atmosfera do ambiente de trabalho e as imediações do estabelecimento comercial contaminando as pessoas que vivem nas imediações.
Pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), analisaram amostras de peixes, detritos e fios de cabelos dos ribeirinhos. Os exames mostraram que o nível de contaminação por mercúrio é três vezes maior que o permitido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O Hospital de Base de Porto Velho já registrou dezenas de casos de crianças anencéfalas (sem cérebro). A maioria dessas crianças recém-nascidas, com deformidades, é de áreas próximas aos garimpos. O mercúrio pode contaminar o ser humano de duas maneiras: ocupacional e ambiental. A ocupacional está ligada ao ambiente de trabalho, como mineração e indústrias. A contaminação acontece pelas vias respiratórias atingindo o pulmão e o trato-respiratório. A inalação dos vapores de mercúrio acarreta fraqueza, fadiga, anorexia, perda de peso e perturbações gastrointestinais. A contaminação ambiental é provocada pela dieta alimentar, usualmente através da ingestão de peixes, entrando diretamente na corrente sanguínea, afetando o sistema nervoso central. A ingestão de compostos mercuriais provoca úlcera gastrointestinal e necrose tubular aguda. O mercúrio vai progressivamente se depositando nos tecidos, causando lesões graves nos rins, fígado, aparelho digestivo e sistema nervoso central.
Um processo de conscientização e fiscalização rígida é extremamente necessário. No processo de recuperação do ouro, não devem ser lançados resíduos de mercúrio no solo e no leito dos rios e a queima do amálgama deve ser executada em retortas, evitando que o vapor de mercúrio contamine a atmosfera.
Fonte: Marcello M. da Veiga e Jennifer J. Hinton - Universidade de British Columbia, Canadá e Alberto Rogério B. Silva - ARBS Consultoria Belém-Pará.
A “Doença de Minamata” foi pela primeira vez detectada em 1953, mas somente em 1959, cientistas da Universidade de Kumamoto atribuíram os sintomas ao metilmercúrio consumido através de peixes e de moluscos. De 1932 a 1968 a companhia Chisso produziu acetaldeído, utilizando óxido de mercúrio como catalisador. O metilmercúrio era formado na reação e descarregado (cerca de 400 toneladas) com os efluentes na baía de Minamata. Moradores de Minamata e vizinhanças, que consumiam extensivamente peixes e frutos do mar sofreram as piores consequências desta irresponsabilidade industrial. Até 1997, 10.353 pessoas, das quais 1.246 faleceram, foram certificadas pelo governo japonês como vítimas da “doença de Minamata”.
Sintomas da doença de Minamata nunca foram comprovados na Amazônia, mas constatação de efeitos neurológicos em pessoas que se alimentam frequentemente de peixe com médios a altos níveis de metilmercúrio têm sido reportadas. O metilmercúrio é excretado lentamente pelas fezes (de 1 a 4% por dia) e uma pequena parte pelo cabelo. Normalmente, o nível de metilmercúrio no cabelo é 300 vezes mais alto do que a concentração no sangue. (...) Teores de Hg em cabelo inferiores a 5 e 10 ppm são aceitáveis para não impor nenhum risco ao feto (em caso de grávidas) e ao adulto respectivamente. Infelizmente teores de até 84 ppm Hg foram analisados em cabelos de mães da região garimpeira do Rio Madeira.
- Produção
As Balsas de Grande Porte trabalham durante todo o ano a uma profundidade de até 45 metros produzindo, mensalmente, uma média de 2 kg de ouro enquanto as Balsas de Pequeno Porte (chamadas na região de Chupadeiras) trabalham, normalmente, no período de estiagem, em torno de seis meses por ano, trabalhando a uma profundidade de, no máximo, 10 metros e produzem mensalmente uma média de 350 gr de ouro.
- Muitos Sonhos Desfeitos, Poucos Sonhos Realizados
Milhares de pessoas, vindo inclusive de outros Estados, vieram em busca do Eldorado no Rio Madeira. A maioria sucumbiu ao trabalho difícil, o ambiente hostil ou não conseguiu se adaptar às leis selvagens do garimpo abandonando a atividade logo no início. Poucos, mas muito poucos, dos que resistiram, conseguiram juntar ouro suficiente para mudar de vida.
- Futuro do Garimpo do Rio Madeira
Fonte: Marcello M. da Veiga e Jennifer J. Hinton - Universidade de British Columbia, Canadá e Alberto Rogério B. Silva - ARBS Consultoria Belém-Pará.
A atividade garimpeira no Rio Madeira e afluentes está com os dias contados, ano a ano a produção diminuiu e é inevitável que a lavra artesanal, com o passar dos anos venha a ser substituída pela industrial como afirmam, no seu excelente artigo, os autores de “O Garimpo de Ouro na Amazônia: Aspectos Tecnológicos, Ambientais e Sociais”.
A tendência de todos os garimpos de ouro é semelhante no mundo inteiro, ou seja, a transformação da atividade artesanal em industrial. À medida que o ouro superficial e de fácil extração for se exaurindo, o garimpeiro tenta a sorte extraindo ouro primário. Sem o domínio técnico, o garimpeiro vê seus investimentos sendo dragados pelos altos custos operacionais. Quando os garimpeiros possuem titulação mineraria, através de concessão (Alvará de Pesquisa), ou permissão (Permissão de Lavra Garimpeira), o passo natural é vender ou se associar com empresas de mineração que possuam competência técnica.
A Vale conseguirá recuperar a segunda posição no ranking mundial?
A Vale conseguirá recuperar a segunda posição no ranking mundial?
O estudo desses pontos indica que tudo leva a crer que a Vale não irá recuperar a segunda posição tão facilmente.
Se a Vale estivesse adicionando valor aos seus produtos de exportação como o minério de ferro fino e pelotizado que é a maior fonte de receita e que praticamente não tem nenhum valor agregado, talvez ela pudesse evoluir para a maior do mundo. Do jeito que está ela deverá ficar neste limiar de terceiro/segundo lugar por muito tempo.
Segundo os executivos da Vale a mineradora está tentando voltar a ocupar a posição de segunda maior, que perdeu para a Rio Tinto.
Será que a Vale está fazendo corretamente a sua estratégia e conseguirá recuperar a posição?
Vejam os pontos abaixo que irão lhe ajudar a decidir se essa recuperação será factível:
VALE
|
RIO TINTO
| |
Orçamento para 2014
|
Redução de 9,2% para $14,8 bilhões
|
Redução de 20% para $11 bilhões
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Ampliação da produção de minério de ferro e investimentos
|
10% em 5 anos
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$2 bilhões em minério de ferro para crescer 25% em 2 anos
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Valor de Mercado
|
$77 bilhões
|
$100 bilhões
|
Produção de minério de ferro 2013
|
306Mt
|
290Mt
|
Produção de minério de ferro 2014
|
312Mt
|
330Mt
|
Produção de minério de ferro 2018
|
450Mt
|
360Mt
|
Redução de custos em 2013
|
$2 bilhões
|
$2 bilhões
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Previsão orçamento de 2015
|
$8 bilhões
| |
Variação da produção do minério de ferro nos últimos três anos
|
Zero%
|
25%
|
Vendas de ativos 2013
|
$3,15 bilhões
|
$3,3 bilhões
|
Vendas futuras de ativos
|
$3,5 bilhões
|
$1,8 bilhões
|
Cortes futuros
|
$450 milhões
| |
Débito 2013
|
$29.5 bilhões
|
$22 bilhões
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Standard & Poor´s rating
|
A-
|
A-
|
Estratégia e foco
|
ferro
|
Ferro e cobre
|
Custo minério de ferro no porto
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$22,10/t
| |
Lucro no primeiro semestre 2013
|
$6,5 bilhões
|
$8 bilhões
|
Como pode ser visto na tabela acima a similaridade entre as duas empresas é bastante grande. Ambas estão engajadas em uma estratégia bastante próxima.
No entanto, no mercado futuro, a Rio Tinto, que tem uma base de ativos minerais mais ampla do que a Vale, com excelentes ativos de alumínio, cobre e diamantes, parece ter um potencial de crescimento maior. Somente o minério de ferro da Rio irá crescer 25% nos próximos 2 anos podendo, inclusive, superar a produção da própria Vale até 2015. A Vale ainda tem alguns grandes projetos como o Serra Sul, na manga. O corte de custos da Rio Tinto é bem mais drástico do que o da Vale. Isso implica em aumento de lucros pois a produção deverá subir e com ela as vendas brutas.
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