Poxoréu, do diamante às pedras no caminho
POR EDUARDO GOMES – Uma cidade em descompasso na região mais desenvolvida de Mato Grosso
Fotos: FELIPE BARROS, DA REVISTA MT AQUI
Poxoréu tinha tudo pra dar certo, mas não
foi bem assim. Parte do centro ainda resiste e mantém ares de
normalidade, com razoável movimentação. Porém, no conjunto, a cidade
agoniza.
Desde 1960, quando tinha 16.687 habitantes, a população nunca foi tão
reduzida quanto agora: 16.919 residentes. Há alguns anos o índice de
crescimento populacional é negativo. Somem-se a isso preocupantes
indicadores sociais e o desmembramento político de Primavera do Leste. O
município perdeu a vitalidade econômica desde que o garimpo entrou para
a história. Resta a força da pecuária com suas 298 mil cabeças bovinas,
que gera poucos empregos da porteira pra dentro.

O
caos não dá lugar à comemoração pelos 75 anos de emancipação, data que
na época das vacas gordas era celebrada em 26 de outubro. A luz no fim
do túnel aponta para a MT-130, a rodovia que cruza o perímetro urbano e
será uma das principais de Mato Grosso, pois é rota obrigatória das
commodities de Paranatinga e região ao terminal ferroviário de
Rondonópolis. Dos bons tempos do garimpo não resta nem mesmo o xibiu que
os capangueiros refugavam.
LEGENDA: Placa identifica uma Poxoréu que não mais existe
A realidade mostra que o momento é de tirar as pedras do caminho pra
encontrar o diamante sem jaça e, assim, bamburrar. A outrora Capital dos
Diamantes não aguenta mais ficar blefada.

Situada
entre Rondonópolis, Primavera do Leste e Campo Verde, Poxoréu está em
descompasso na região mais desenvolvida de Mato Grosso. A riqueza da
cidade escapou por entre as mãos.
LEGENDA: Com a economia em descompasso muitas portas baixaram e até a Zona Eleitoral foi removida do município
Agências bancárias baixaram as portas, a 5ª Zona Eleitoral foi
removida para Nova Mutum e figuras ilustres pegaram a estrada, se
mandaram para outros lugares, de onde arrotam suspeita paixão pela terra
que um dia também foi deles. O êxodo esvaziou o lugar, mas a Santa Sé
permanece firme, com sua Matriz São João Batista e outras igrejas, e seu
foco continua nos índios xavantes e bororos, sem perder de vista a
população urbana e rural, que em boa parte se converteu às denominações
evangélicas, que abriram templos por todos os cantos.
LEGENDA: Na praça deserta com calçamento de pedra, a matriz dos padres defensores dos índios
A vida segue ao ritmo do tique-taque, avançando, mas diferente dos
anos 1940, 50 e 60, época em que a elite econômica e os novos ricos do
garimpo usavam o avião como meio de transporte.
Uma das rotas Cuiabá-Belo Horizonte, operadas pela extinta companhia
Real Aerovias, fazia escalas na cidade com seus bimotores DC-3. O
município vivia um período de opulência no ciclo do diamante.
Nas décadas de 1960 e 70, quando a agência do Banco do Brasil não
dispunha de numerário para grandes saques – então comuns –, o gerente
recorria a um velho conhecido de todos, Prisco Menezes, o ex-garimpeiro
que se tornou milionário emprestando dinheiro a juros. Àquele tempo o
médico e ex-prefeito Antônio dos Santos Muniz, o Doutor Muniz, dizia que
a cidade era um verdadeiro ímã, que segurava todos que chegassem. O
Doutor Muniz era exceção quanto ao poder de sedução de Poxoréu: um dia
ele trocou a Boa Terra da Bahia por aquele lugar, de onde saiu às
pressas para Rondonópolis deixando pra trás inclusive o mandato na
prefeitura, após ser derrubado do cargo num verdadeiro golpe de Estado
em dimensão municipal.
LEGENDA:
Nos primórdios de Poxoréu o Morro de Mesa mostrou o rumo ao garimpo;
agora é cartão-postal que a prefeitura não sabe explorar
Por volta de 1980, com os primeiros sintomas da exaustão do diamante,
levas de garimpeiros migraram para Juína. No auge do garimpo – estimava
João de Barro, antigo morador do distrito de Alto Coité –, 6 mil
aventureiros arriscavam a sorte em Poxoréu.
Garimpo não era a única aventura. Para o paulista Jubal Martins da
Siqueira, ex-vereador e ex-pecuarista já falecido, em nenhum lugar do
mundo se joga tanto quanto em Poxoréu. O jogo a que Jubal se referia é o
baralho, mesmo. São muitos os tunguetes e casas onde as cartas correm
soltas madrugadas adentro. Jubal era falante sem perder a verdade nem
abrir mão da seriedade.
LEGENDA: Esta é a Rua Bahia, que nos bons tempos do garimpo foi a mais famosa zona boêmia de Mato Grosso eagora está reduzida a escombros e entregue ao silêncio
Em 1969 Jubal construiu na fazenda Lidianópolis, de sua propriedade, a primeira piscina da zona rural de Poxoréu.
Antes da piscina de Jubal, em 1966, chegou ao distrito de Paraíso do
Leste o mineiro, descendente de italianos, José Nalon, acompanhado por
familiares, e iniciou ali, naquele ano, o plantio da primeira grande
lavoura de fumo para a indústria tabagista de que se tem registro em
Mato Grosso. O pioneirismo dos Nalon não parou por aí. Trinta anos
depois, Manoel Nalon, filho do fumeiro, liderou um movimento que
resultou na tentativa da cultura do maracujá em escala no município.
LEGENDA: Com o fim do garimpo as mulheres partiram e a Rua Bahia perdeu o quê da boemia – é cenário de varal com roupas comuns

O
Morro de Mesa foi a referência geográfica aos garimpeiros que no final
do século XIX buscavam o diamante nas altas cabeceiras do pantaneiro rio
São Lourenço. Agora, é ponto turístico, mas sem exploração –
cartão-postal que a prefeitura não sabe valorizar.
A colonização do lugar começou em 1924 com o garimpo. Quatorze anos
depois Poxoréu era cidade, não sem antes ser destruída por um incêndio
que devorou seus primeiros casebres. No ano seguinte à emancipação, o
coronel Luizinho – que na bia batismal recebeu o nome de Luiz Coelho de
Campos – foi empossado intendente, que era a denominação do prefeito à
época.
Rica em diamante, Poxoréu ganhou representatividade política. O
ex-senador Louremberg Nunes Rocha, que nasceu naquele lugar, conta que
na eleição para presidente da República em 1950 todos os candidatos
foram à sua cidade.
A representatividade política numa visão doméstica em Poxoréu é
atípica. Filho do ex-prefeito Joaquim Nunes Rocha, Lindberg Nunes Rocha
administrou o município em vários mandatos; a prefeita Jane Maria
Sanches Lopes é sua mulher e Louremberg, seu irmão. Antes da figura da
reeleição, Lindberg cismou em permanecer na prefeitura após seu mandato.
Para tanto lançou seu primo Lucas Ribeiro Vilela à sua sucessão. Com a
força do clã Rocha, Lucas ganhou de barbada. Juntos os dois primos
protagonizaram um episódio talvez inédito na política nacional. Eleito, o
parente deixou as chaves da prefeitura e junto com elas uma procuração
com plenos poderes ao antecessor. Essa situação perdurou ao longo do
mandato.
LEGENDA: Rodovia MT-130 que cruza a cidade e pode se tornar a salvação da lavoura
“O problema do diamante é que ele não dá duas safras”, resume o
ex-garimpeiro e agora parceleiro do Incra João Gualberto Guimarães, o
João Gogó. A opinião de João Gogó reflete parte do problema, que é maior
porque a incompetência dos prefeitos nunca deu passagem à alternativa
econômica. Tanto assim que uma infeliz poligamia do município com o
Estado e o governo federal resultou na criação de dois projetos Casulo
periféricos à cidade, onde foram assentados ex-garimpeiros. Todos os que
bebem água, à exceção de alguns em Poxoréu, sabem que o homem
acostumado ao garimpo não se adapta à agricultura familiar. Por isso, os
Casulos foram pro beleléu.
O diamante escafedeu-se e o pouco do que resta enfrenta o travamento
do Ibama. Sem garimpo, não há onde trabalhar. Dona Maria do Carmo Silva
Soares, nascida na cidade e filha de garimpeiro, sabe bem o que é
desemprego. Ela tem três filhos e um pegou as malas e se mandou para
Primavera do Leste, onde mão de obra ociosa é igual fantasma – pode até
existir, mas ninguém vê.
Dona Maria do Carmo é diarista, mas não encontra serviço todos os
dias, para garantir o sustento de sua casa, já que se separou do marido.
Ela conhece tão bem a Poxoréu de agora quanto a de antes, nos idos do
Diamante Clube superlotado com os grandes bailes abrilhantados pelas
principais orquestras brasileiras.
Nenhuma zona boêmia ganhou tanta fama em Mato Grosso quanto a Rua
Bahia, no centro de Poxoréu. No começo dos anos 1970, quando o garimpo
estava no auge, mais de 20 boates mantinham acesas suas luzes vermelhas,
com suas vitrolas no volume máximo ou ao som do maestro Marinho Franco.
Em frenesi, as mulheres dispostas a tudo, com suas roupas provocantes e
carregadas com maquiagem que realçava a beleza e escondia a feiura.
O coração de Poxoréu batia mais forte na Rua Bahia, onde garimpeiros
endinheirados lavavam o chão dos cabarés com cerveja Brahma gelada e
pagavam o doce sabor do sexo com a moeda mais forte e conhecida por
todos: o diamante.
À noite a Rua Bahia fervilhava; na madrugada, mais ainda. Onde se
garimpa diamante a criminalidade é zero ou quase isso, ao contrário das
praças das fofocas do ouro. Com sua riqueza, seu sexo, sua farra e seu
jogo, Poxoréu foi paraíso.
Quando o último boêmio saía do cabaré e as portas e janelas se
fechavam no salão silencioso e impregnado pelo azedume da cerveja e do
conhaque derramados, Poxoréu voltava ao garimpo, para mais tarde, tão
logo o sol se pusesse, voltar a viver gostosa noite de orgia.
As mulheres da Rua Bahia conviviam bem com a população e embarcavam
para Cuiabá ou Rondonópolis nos ônibus da empresa Baleia junto com os
demais passageiros. Normalmente saíam em pequenos grupos para as compras
na Loja Para Todos, do Bartolomeu Coutinho, o Bartô, em outros pontos
do comércio ou em busca de uma agulhada de Benzetacil na farmácia de seo
Amarílio de Britto, pra curar incômoda gonorreia. Algumas, mais
atiradas, entravam na Matriz para preces a Jesus, o Senhor que perdoou
Madalena. Os rufiões também se misturavam ao povo, onde se abrigavam os
coronéis das quengas e os gigolôs. O Cine Roma elas conheciam somente
pelo lado de fora, porque a exibição dos filmes coincidia com o horário
do trabalho da profissão mais antiga do mundo.
Sem o diamante, a Rua Bahia morreu. Seus cabarés viraram ruínas e as
pedras de seu calçamento não escutam mais os ais do prazer, ouvem apenas
o cortante silêncio sepulcral de uma triste cidade sem garimpo, sem
zona boêmia, sem rumo.
Mesmo que a cidade retome sua movimentação, dificilmente a Rua Bahia
ressuscitará. O sexo perdeu o quê de boemia, ganhou espaço entre a
juventude com sua parafernália nas redes sociais. O casamento já não é
mais o mesmo. A vida mudou. Falta agora a mudança de Poxoréu, ou melhor,
seu reencontro com a vitalidade econômica para que seu povo tenha
melhor qualidade de vida e sua força de trabalho encontre o que fazer
perto de casa.
Em 1949, usurpando o papel do governo no melhor sentido da palavra, o
garimpeiro mineiro e residente em Poxoréu Jacinto Silva rasgou a
machado a rodovia Deputado Osvaldo Cândido Pereira (MT-130). Nos anos
1980 ela foi pavimentada pelo governador Júlio Campos. Agora vai ganhar
intensa movimentação com o transporte de commodities agrícolas para o
terminal da ferrovia em Rondonópolis.
Poxoréu não tem política para incentivar investidores da
agroindústria, de modo a descentralizar a concentração das fábricas que
constroem plantas nas boas cidades que a circundam. Pela MT-130 a cidade
tem escoamento garantido. Falta produzir antes que a juventude parta em
busca do amanhã que a bruma administrativa não deixa clarear sobre a
antiga Capital dos Diamantes.
SERVIÇO:
Poxoréu,
na região sul, dista 240 quilômetros de Cuiabá, 85 quilômetros de
Rondonópolis e 40 quilômetros de Primavera do Leste. O principal acesso é
a MT-130.
A pista do aeroporto não é pavimentada.
A cidade fica à margem do rio Poxoréu, nome que para os bororos quer dizer água escura.
O Produto Interno Bruto (PIB) do município é de R$ 277.225.000.
A renda per capita de Poxoréu é de R$ 15.749,64 e a mato-grossense, de R$ 19.644,09.
O Índice de Desenvolvimento Humano é de 0,678 numa escala de zero a um; o IDH médio dos municípios de Mato Grosso é de 0,731.