domingo, 1 de junho de 2014

Petra Diamonds aumenta a produção de diamantes: lucros sobem

Petra Diamonds aumenta a produção de diamantes: lucros sobem
A mineradora Petra Diamonds viu, ontem, a sua ação subir 3,6%. O motivo por trás do otimismo é um significativo aumento na produção de diamantes, de 15% no trimestre. Neste período foram produzidos 743.424 quilates, o que projeta uma produção anual de 3 milhões de quilates. Espera-se um lucro líquido de US$143 milhões.
A Petra comprou alguns dos mais importantes kimberlitos do mundo, como o Premier, onde se encontra a Mina Cullinan, na África do Sul. Cullinan é famosa por ter produzido o maior diamante do mundo o Cullinan. A mineradora pretende expandir a sua produção anual para 5 milhões de quilates em 2019.

Minério de ferro: chineses cancelam contratos de longo prazo e compram minério barato no mercado spot

Minério de ferro: chineses cancelam contratos de longo prazo e compram minério barato no mercado spot
Aproveitando os preços baixos as siderúrgicas chinesas estão comprando no mercado spot e fazem a China bater novos recordes de importação. Em abril a China importou 83 milhões de toneladas de minério mais barato ao mesmo tempo em que cancelava as compras a mercado futuro.
Mesmo assim as grandes mineradoras continuam com seus planos de expansão devendo aumentar a produção em 40% nos próximos anos.

Pela primeira vez na história do minério de ferro a oferta está sendo maior que a procura. Daí os preços em queda e as histórias (não confirmadas) de que a China já recusou mais de 4 milhões de toneladas de minério de ferro em seus portos.

Esse fenômeno já era aguardado.

A partir deste momento só os mineradores competentes, que produzem com preços baixíssimos, permanecerão no mercado.

O que veremos será uma batalha titânica entre a Vale e as duas grandes concorrentes a BHP-Billiton e a Rio Tinto. A Vale, apesar do frete mais caro, tem um diferencial enorme: um minério de qualidade imbatível. Os australianos lidam com minérios de mais baixa qualidade que necessitam de um processamento para competir em igualdade com o da Vale.  Correndo por fora veremos os chineses liderados pela Ansteel que buscarão, de todas as formas, aumentar as reservas chinesas de qualidade através de aquisições globais.



Foto: minério de ferro em porto chinês- chinamining.org

sábado, 31 de maio de 2014

ESTUDO DE APROVEITAMENTO DE REJEITOS DE DIAMANTE DA REGIÃO DE POXORÉU,

ESTUDO DE APROVEITAMENTO DE REJEITOS DE DIAMANTE DA REGIÃO DE POXORÉU, LESTE DO ESTADO DE MATO GROSSO

Study of diamond recovery tailings from Poxoréu region, east of Mato Grosso State





RESUMO
Estudos em rejeitos de garimpos de diamantes foram desenvolvidos na região de Poxoréu, visando sua aplicação como areia industrial. A região de Poxoréu está em estagnação econômica desde o declínio das atividades garimpeiras, iniciada na década de 1920, gerando grande quantidade de rejeitos disposta desordenadamente, cobrindo uma vasta porção das bacias dos rios Poxoréu e Alto Coité. Os estudos constaram da análise granulométrica e geoquímica de 11 amostras selecionadas por mostrarem boa representatividade. Os estudos granulométricos sugeriram que a maioria das amostras pode ser utilizada tanto na indústria de fundição, quanto na fabricação vidro. Os dados geoquímicos apontaram que todas as amostras podem ser utilizadas pela indústria de construção civil. Com exceção de duas amostras, cujo teor de TiO2 ultrapassa os limites das especificações ABNT, as demais podem ser utilizadas nas indústrias de vasilhame e fundição, após submissão a tratamentos para remoção de ferro e alumínio. Outra aplicação dos rejeitos analisados seria na indústria de vidro, uma vez que apresentaram baixas concentrações de titânio, magnésio, manganês, cromo, potássio, sódio e cálcio, além dos aspectos granulométricos mencionados. Pesquisas voltadas à prospecção de ouro são sugeridas, uma vez que as análises geoquímicas mostraram a presença deste elemento em quase todas as amostras.
Palavras-chave: Garimpo de diamante; Rejeitos; Poxoréu-MT; Estudos granulométricos e geoquímicos; Areia industrial.

ABSTRACT
Studies on diamond mining tailing from the region of Poxoréu, were performed, aiming their application as industrial sand. The Poxoréu region is in economic stagnation since the decline of diamond exploration, which began in the 1920s. These activities generated large amounts of tailing, which was disposed haphazardly, covering a vast portion of the basins of the Poxoréu and Alto Coité rivers. This study consisted of granulometric and geochemical analysis of 11 samples selected that showed good representation for the area. Granulometric studies suggested that most samples can be used both in the foundry industry, as in glass manufacturing. The geochemical data showed that all samples may be used by the construction industry. With the exception of two samples, whose TiO2 content exceeds the limits of the specifications ABNT, the others can be used in the industries of glass container and foundry, after undergoing treatment for removal of iron and aluminum. Another application of the material analyzed would be considered for use in glass industry, since they showed low concentrations of titanium, magnesium, manganese, chromium, potassium, sodium and calcium, outside granulometric aspect mentioned. Research focused on prospecting for gold are suggested, since the geochemical analysis showed the presence of this element in almost all samples.
Keywords: Diamond mine; Tailing; Poxoreu-MT; Granulometric and geochemical studies; Industrial sand.



INTRODUÇÃO
A atividade garimpeira na região de Poxoréo teve início na de década de 1920, de modo totalmente desordenado. Com a introdução das dragas nas décadas de 40 a 60 a desordem foi acentuada e os problemas ambientais aumentaram consideravelmente. Este fato vem se agravando até os dias atuais, pois embora as jazidas estejam praticamente exauridas, garimpos artesanais persistem e constituem uma importante fonte de renda para a população de Poxoréo e Alto Coité. Além do assoreamento de córregos e rios da região, a extração diamantífera na área gerou grandes pilhas de rejeitos intensificando os problemas de caráter ambiental. Estes rejeitos, além de causarem grandes impactos ambientais também geram impactos visuais descaracterizando a morfologia da região.
Este trabalho mostra os resultados de caracterização química e mineralógica dos rejeitos provenientes da extração de diamantes dos depósitos aluvionares da região de Poxoréu (Figura 1), visando direcioná-los a um aproveitamento econômico, principalmente na forma de matéria-prima para a produção de areia industrial.
As areias industriais recebem suas denominações em função de suas aplicações na indústria, determinadas pelas suas características e propriedades, tais como, teor de sílica, pureza, composição química, teor de óxidos de ferro, álcalis, matéria orgânica, perda ao fogo, umidade, distribuição granulométrica, forma dos grãos e teor de argila (Azevedo & Ruiz, 1990). No que diz respeito à química ideal de uma amostra, as principais especificações técnicas referem-se aos teores de: SiO2, Fe2O3, Al2O3, MnO2, MgO, CaO, TiO2 e ZrO2. Quando se trata de usos específicos, tais como esmalte, fibra de vidro e cristal os teores de Cr2O3, Na2O e K2O devem também ser considerados (Ferreira & Daitx, 2000). No Brasil, cerca de 60-65% são destinados à fabricação de vidro (incluídos cerca de 5% em cerâmica); 30% em fundição e outros usos com 5% do consumo (Luz & Lins, 2005), enquanto que, por exemplo, nos EUA, a indústria de vidro responde apenas por 38% do consumo de areia industrial, seguindo-se a fundição com 20%, fraturamento hidráulico e abrasivo com 5% cada e 32% em outros usos (USGS, 2004).

MATERIAIS E MÉTODOS
Os trabalhos de campo desenvolvidos no município de Poxoréu concentraram-se em duas áreas distintas: a primeira localizada nos arredores do vilarejo de Alto Coité, denominada de área do Patrimônio e, a segunda, nos limites da Fazenda Primavera, que dista aproximadamente 10 km da primeira.
Durante os trabalhos de campo procurou-se caracterizar as pilhas de rejeito, fez-se o levantamento de um perfil e foram coletadas 22 amostras, das quais 11 foram selecionadas para os estudos granulométricos e geoquímicos (Ap-01, Ap-02, Ap-03, Ap-05, Ap-07, Ap-08, Ap-09, Ap-10, Ap-11). As amostras Ap-3 e Ap-11 foram coletas em níveis específicos do perfil levantado em campo e as demais foram coletadas aleatoriamente em pilhas de rejeito.
Os estudos de caracterização foram desenvolvidos nos laboratórios de sedimentologia e Multiusuario de Técnicas Analíticas (LAMUTA) do Departamento de Recursos Minerais de UFMT. Estes estudos constaram de análises granulométrica, macroscópica e microscópica e geoquímica com vistas ao aproveitamento desses rejeitos como areia industrial. Os estudos granulométricos envolveram desagregação, peneiramento e lavagem para remoção da argila. Nos estudos geoquímicos foram utilizadas amostras "in natura", amostras peneiradas e lavadas e amostras de argila. Estes estudos foram realizados através da fluorescência de raios-X por energia dispersiva (XRF) EDX-700HS da marca Shimadzu para determinação de elementos maiores, menores e alguns traços. As análises foram realizadas em vácuo com colimador de 10 mm, pelo método Quali-Quant FP. Utilizaram-se duas aquisições por amostra para quantificação dos elementos químicos do (i) Na e Sc e (ii) Ti e U, tendo cada aquisição duração de 5 minutos.

RESULTADOS
DESCRIÇÃO DOS DEPÓSITOS
Os trabalhos de campo permitiram constatar que as duas áreas estudadas mostram similaridades, pois ambas são constituídas por depósitos recentes, de terraço, e também de cascalheira, o que está de acordo com as descrições de Souza (1991, segundo Schobbenhaus et al., 1991) para outros depósitos da região. Ambas as áreas foram intensamente trabalhadas por garimpeiros, encontram-se muito degradadas com a presença de rejeitos empilhados aleatoriamente em diferentes porções, inclusive às margens de córregos e rios, além de depressões causadas pela remoção de material por dragas e/ou retro-escavadeiras (Prancha 1). O rejeito foi acondicionado de forma desordenada em pilhas que apresentam mistura de sedimentos de diferentes granulometrias, variando de seixos de até 50 cm de diâmetros associados a seixos menores misturados a areia e argila, caracterizando depósitos mal selecionados, com predomínio da fração areia. Os seixos são representados por fragmentos de rochas (principalmente arenitos), quartzo, sílex e outros, mostrando predominância de seixos com formas subarredondadas. As frações inferiores (areia e silte) são compostas principalmente por grãos de quartzo com pouca contribuição de feldspato e fragmentos de rocha, além de turmalina, rutilo, ilmenita, titanita, limonita, coríndon, zircão, minerais opacos e outros de rara ocorrência, como é o caso de apatita e granada.
O perfil levantado nas bordas do Rio Areia permitiu verificar, da base para o topo, um nível de areia intensamente compactado (denominado piçarra na linguagem garimpeira), de cor amarela-avermelhada, seguida por uma camada de areia/cascalho mineralizada com cerca de 1,50 m e, recobrindo este nível ocorre uma camada de cascalho de cerca de 40 cm de espessura composta por seixos de até 20 cm de diâmetros representados por fragmentos de rochas, quartzo e sílex. A maioria dos grãos são subarredondados e, subordinadamente, arredondados ou angulosos. A camada de topo apresenta cerca de 20 cm de solo e é composta por matéria orgânica e areia.
ESTUDOS GRANULOMÉTRICOS
Os estudos granulométricos visaram à caracterização do grau de arredondamento, angulosidade e selecionamento dos grãos de areia, uma vez que estes parâmetros são importantes para direcionar os rejeitos a usos específicos e apropriados.
A Tabela 1 apresenta o peso e a porcentagem de cada fração obtida nas amostras estudadas. Na Figura 2 é mostrada a distribuição granulométrica acumulada das amostras, evidenciando que nas amostras Ap2, Ap8 e Ap11 prevalecem as frações acima de 2 mm, enquanto nas demais ocorre o inverso. Observa-se também que a distribuição granulométrica concentra-se em duas modas, uma variando de 9,52 a 2,00 mm e a outra de 0,5 a 0,062 mm.
A Tabela 2 mostra os resultados do grau de arredondamento das amostras em relação à esfericidade, evidenciando a predominância das frações concentradas nos limites de alta esfericidade na maioria das amostras. A amostra Ap2 é a única a mostrar inversão quanto ao grau de esfericidade, ou seja, nesta amostra prevalecem grãos de baixa esfericidade. Na amostra Ap7 as proporções de grãos com alta e baixa esfericidade são aproximadamente iguais.
Quanto ao grau de arredondamento e selecionamento observou-se predominância dos grãos angulosos sobre os arredondados nas frações maiores, enquanto nas frações menores, abaixo de 0,125 mm, predominam grãos mais arredondados.
ESTUDOS MACROSCÓPICOS E MICROSCÓPICOS
A análise macroscópica mostrou que os depósitos aluvionares estudados são constituídos por diferentes formas de sílica (quartzo, calcedônia, opala, chert) fragmentos de rochas, óxidos (possivelmente goetita, ilmenita, limonita), raros grãos de granada e de safira.
A análise da fração areia média a grossa, realizada com lupa binocular mostrou que esta fração é composta por quartzo, opala, turmalina, rutilo, minerais opacos (ilmenita e magnetita), zircão, carbonato, topázio e feldspato, além de pequenos fragmentos de rochas. Mineralogia idêntica foi observada ao microscópio para as frações areia fina a silte. Estes estudos permitiram identificar que também que grau de arredondamento dos grãos presentes nas frações menores é maior que o observado para as frações mais grossas.
ANÁLISE GEOQUÍMICA
Uma análise extremamente importante no estudo de caracterização de areia para uso industrial é a análise química, pois para cada tipo de aplicação existem normas específicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que devem ser respeitadas.
Os resultados das análises químicas obtidos para o material in natura, fração areia (1,19 e 0,50 mm) e para a fração argila são apresentados nas Tabelas 3, 4, 5 e 6 respectivamente.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
São muitas as aplicações de areia para o uso em vários setores da indústria, dentre eles os mais relevantes no Brasil são indústrias de vidro, cerâmica, vasilhame, construção civil, etc. Para cada uso específico existem normas que regulamentam desde a faixa granulométrica, formas de grãos além de composição química e da presença de impurezas. Além das normas técnicas que regulamentam o uso das areias, vários são os trabalhos de cunho cientifico que abordam o assunto, dentre eles podem ser citados os trabalhos de Barbosa & Porphírio (1993), Zdunczyk & Linkous (1994), Nava (1997), Ferreira & Daitx (2000, 2003), Luz & Lins (2005).
Referente ao tamanho dos grãos, Ferreira & Daitx (2000), mostraram que as características típicas de areia de quartzo para a indústria cerâmica estão posicionadas nas faixas granulométricas entre 30 e 140 malhas (0,60 a 0,105 mm). O material silte-argiloso (fração inferior a 0,062 mm) é uma fonte de contaminação de alumínio, ferro e álcalis (determinados pelos ensaios geoquímicos), e, portanto sua presença é indesejável nos materiais selecionados para fabricação de areias industriais. Ainda segundo esses autores a fração sílte-argilosa pode representar no máximo 20% do minério e constitui um dos principais problemas ambiental, pois é depositada em grandes bacias de decantação ou despejada diretamente nos córregos e rios, causando assim o assoreamento dos mesmos.
As principais especificações químicas, para os diferentes usos industriais da areia referem-se aos teores de SiO2, Fe2O3, Al2O3, MnO2, MgO, CaO, TiO2 e ZrO2, além dos teores de Cr2O3, Na2O e K2O que devem ser considerados, em função da aplicabilidade da areia.
Os padrões estabelecidos para areia industrial na construção civil de acordo com a norma NBR-7200/82 são: (i) pureza, cujo teor do material na fração inferior a 0,09 mm não deve ultrapassar a 5% em peso; (ii) granulometria, areias com faixa granulométrica inferior a 0,2 mm devem representar de 10% a 25% do peso total e; (iii) forma das partículas, onde as partículas arredondadas e esféricas são mais favoráveis que os grãos achatados ou longos (Ferreira & Daixt, 2000).
Para fabricação de vidros, os grãos angulares são mais favoráveis ao processo de produção, pois a fusão se inicia nas pontas e arestas dos grãos (Nava, 1997). Em relação à química, a areia deve apresentar um teor elevado de SiO2 (98,5% - vidro comum e > 99% - vidro plano), baixo teor de Fe2O3 (0,08% para vidro plano, 0,1% para fibra de vidro e 0,3% para vasilhames de vidro colorido e de material refratário), além de um controle rígido nas percentagens de Al2O3, CaO, MgO, Na2O, K2O, TiO2, ZrO2 e Cr2O3 e elementos tais como cobre, níquel e cobalto, que mesmo em níveis de traços, são indesejáveis por produzirem cores e defeitos no vidro, tornando-o inaceitável no mercado (Harben & Kuzvart, 1996). Ferreira & Daitx (2003) acusam que a presença de zircão, ilmenita, magnetita, turmalina, além de feldspato, óxidos de ferro e manganês, etc. são os minerais que mais contribuem para o aumento do teor de contaminantes, tais como ferro, manganês e titânio para a produção de vidro.
Para a indústria de fundição a areia deve ser livre de argilas, apresentar alto teor de sílica (>98%), e baixos teores de CaO e MgO (Zdunczyk & Linkous, 1994) e a distribuição granulométrica deve ser estreita com grãos apresentando alta esfericidade. A areia usada na indústria de abrasivo e jateamento, deve apresentar cerca de 99,5% de SiO2, 0,10% de Al2O3, 0,025% de Fe2O3 e distribuição granulométrica entre 0,053 mm e 0,42 mm (Ferreira & Daitx, 2000).
Considerando os padrões estabelecidos pela indústria de fundição, ou seja, grãos com alta esfericidade e granulometria variando entre aproximadamente 1,00 e 0,07 mm, a análise dos resultados dos estudos granulométricas das amostras provenientes da região de Alto Coité e Poxoréu mostraram que as amostras Ap2, Ap8 e Ap11, não satisfazem estas exigências (Figura 02). As demais amostras podem ser utilizadas pela indústria de fundição, uma vez que a maior concentração de grãos com alta esfericidade posiciona-se na faixa granulométrica estabelecida como ideal para este fim.
As análises químicas do material in natura (Tabela 3) revelaram altos valores de SiO2, cujos teores ultrapassam 95% na maioria das amostras e baixas concentrações de Al2O3 e Fe2O3, principais contaminantes destas amostras.
As análises realizadas na fração 0,50 mm (Tabela 5) revelaram que as amostras Ap2 e Ap11 mostram menores percentagens de SiO2 e elevadas percentagens de Al2O3 e Fe2O3, comportamento este observado também na concentração de H2O, o que pode refletir a presença de maior quantidade de argilominerais provavelmente agregado aos grãos da fração areia. Na fração 1,19 mm (Tabela 4) observou-se o mesmo comportamento, que se repete também para a amostra Ap10, sendo que, nesta amostra o conteúdo de água é muito elevado. Os demais elementos analisados mostram comportamento geoquímico semelhante para todas as amostras e frações. A análise química da fração argila (Tabela 6) mostrou comportamento similar, devendo-se destacar que a amostra Ap2 apresenta alto conteúdo de Al2O3, enquanto a amostra Ap11, apresenta altas concentrações de Fe2O3, implicando na presença de argilominerais e oxido de ferro, respectivamente.
Na amostra Ap3, coletada num nível mais de topo do perfil levantado, foi observado maior conteúdo de silício e menor em ferro, potássio, manganês, magnésio e cálcio, o que pode estar relacionado à presença de menor quantidade da fração silte-argila nesse nível. Comportamento oposto é observado na amostra Ap11, coletada no nível mais basal do perfil, o que já era esperado, uma vez que esta amostra apresenta maior percentagem de material mais argiloso e de impurezas (principalmente, minerais pesados).
Considerando os resultados geoquímicos das amostras e tomando por base as especificações brasileiras apresentadas por Luz & Lins (2005), todas as amostras podem ser empregadas na construção civil.
Para o emprego do material estudado em outras finalidades deve ocorrer a remoção de ferro e alumínio (indústria de vasilhame) e alumínio (fundição) na maior parte das frações areia analisada, exceto para as amostras Ap2 e Ap11, cujo teor de TiO2 ultrapassa o teor das especificações e é de difícil remoção, impossibilitando que estas amostras sejam utilizadas nas indústrias de vasilhame e de fundição.
As análises químicas revelaram também que a matéria prima estudada se enquadra na maioria dos requisitos utilizados pela indústria de fabricação de vidro, ou seja, apresenta baixas concentrações dos elementos tidos como extremamente contaminantes, tais como titânio, magnésio, manganês, cromo, potássio, sódio e cálcio. O único fator a ser observado pela indústria de vidro é a presença de argila e de minerais pesados nos quais estão concentrados elementos contaminantes tais como ferro e alumínio. Este problema pode ser facilmente resolvido com um tratamento prévio do material para remoção de argila através de processo de peneiramento a úmido além de processos de flotação e/ou separação magnética para remoção de minerais pesados.

CONCLUSÕES
Considerando que o objetivo primeiro deste trabalho visava encontrar meios alternativos para compensar a decadência econômica imposta ao município de Poxoréu, desde que a atividade garimpeira entrou em declínio, a análise dos rejeitos provenientes de antigos garimpos da região permitiu identificar a possibilidade de novas frentes de trabalho na área.
Desta forma, os estudos granulométricos sugeriram que a maioria das amostras pode ser utilizada tanto para a indústria de fundição, devido à alta esfericidade dos grãos, concentrado nas frações maiores, assim como para a fabricação vidro, nas frações menores de baixa esfericidade, tendo em vista a maior facilidade da fusão se iniciar nas arestas dos grãos.
Os resultados geoquímicos mostraram que todas as amostras podem ser utilizadas pela indústria de construção civil, tomando por base as especificações brasileiras para esse fim, e sem que sejam necessários tratamentos especiais além de peneiramento. Com exceção das amostras Ap2 e Ap11, cujo teor de TiO2 ultrapassa o teor das especificações da ABNT e é de difícil remoção, as demais podem ser utilizadas nas indústrias de vasilhame e fundição, após serem submetidas a tratamento para remoção de ferro e alumínio. Outra aplicação das areias analisadas seria para uso na indústria de vidro, uma vez que apresentaram baixas concentrações de titânio, magnésio, manganês, cromo, potássio, sódio e cálcio, precisando para isso apenas passarem por processo de remoção dos argilominerais através de peneiramento, separação magnética de alta intensidade e/ou flotação.
Estudos futuros na área devem englobar a utilização das frações mais grossas na fabricação de semijóias e peças ornamentais, bem como a viabilização de cooperativas voltadas para estes fins, uma vez que estes seriam trabalhos artesanais de baixa produção, além de pesquisas voltadas à prospecção de ouro, cuja presença deste metal foi detectada nas análises químicas na maioria das amostras.

Produção e destinação do ouro

 OURO
Produção e destinação do ouro
O Brasil produz apenas 3% do total de ouro mundial e ocupa a 12ª posição no ranking do setor, cujo líder é a China (14%), seguida por Austrália (9,3%), África do Sul e Estados Unidos, responsáveis por 9% do volume internacional cada um.
Atualmente, a indústria de jóias é o destino da metade da produção mundial de ouro, ficando o mercado financeiro com um terço do volume. Já as aplicações industriais respondem por 10% da demanda pelo metal.
Os preços do ouro têm avançado significativamente nos últimos anos em face da limitada produção, baixo teor de qualidade, maior dificuldade para exploração de novas reservas, além da alta da demanda de países emergentes como China, Índia e Brasil.
Outro fator que pressiona as cotações do ouro nas bolsas de metais é a busca de investidores por hedge contra inflação ou por instrumento para ampliar a rentabilidade no cenário de menores taxas de juros e maior volatilidade de moedas e índices de ações.
2. MINÉRIO DE FERRO
As maiores reservas de ferro do planeta são constituídas por Formações Ferríferas Bandadas - BIFs, que são depósitos sedimentares acamadados, com rochas laminadas compostas pela alternância de camadas de sílica e hematita-magnetita, além de carbonatos e silicatos de ferro. O teor de ferro encontrado nos BIFs costuma variar de 20% a 35%, mas teores superiores a 55% ocorrem com pequena freqüência. O termo "itabirito" é freqüentemente utilizado como sinônimo para estas formações, especialmente na região do Quadrilátero Ferrífero.
De acordo com o DNPM, os recursos geológicos mundiais de minério de ferro, em 2007, eram da ordem de 340 bilhões de toneladas e estão localizados na Ucrânia, Rússia, China, Austrália e Brasil, que possuem, respectivamente, 20%, 16,5%, 13,5%, 13,2% e 9,8% desse montante.
As reservas brasileiras se sobressaem, igualmente, em razão do elevado teor metálico nelas encontrado, o qual freqüentemente supera 50%. As duas principais províncias ferríferas brasileiras são Carajás, no estado do Pará, e o Quadrilátero Ferrífero, no estado de Minas Gerais, as quais respondem por aproximadamente 98% da produção nacional de minério de ferro.
O Quadrilátero Ferrífero destaca-se pelo elevado volume de reservas, qualidade do minério produzido e produção acumulada. A região foi o berço de grandes empresas mineradoras, como Vale, Ferteco e MBR. A área apresenta uma geologia complexa, compartimentada em 3 grandes unidades: o Embasamento e o Supergrupo Rio das Velhas, ambos Arqueanos, e o Supergrupo Minas, Paleoproterozóico.
Na província do Quadrilátero Ferrífero, as principais jazidas estão em camadas de itabiritos com espessuras de até 250 metros, associadas ao Supergrupo Minas, mais precisamente a Grupo Itabira, da Formação Cauê. Estes itabiritos contêm minerais de ferro de fácies oxidadas, como hematitas, magnetitas e martitas. Superposta à Formação Cauê, coloca-se a Formação Gandarela, Grupo Itabira, onde também são encontrados itabiritos, porém, neste caso, associados a dolomitos.
A província de Carajás, localizada na Serra dos Carajás, foi descoberta posteriormente e foi o local da implantação de uma grande unidade de produção que engloba a mina e construção de ferrovia e porto, conhecida como Projeto Carajás, desenvolvida na década de 70 pelo Governo Federal. Na província de Carajás estão localizadas aproximadamente 30% das reservas nacionais, caracterizadas por altos teores de ferro, na maior parte dos casos superiores a 65%, estando também associadas a itabiritos, da Formação Carajás. Os principais minerais de ferro são a hematita e martita, seguidos pela magnetita e goethita. Além disso, jazidas secundárias também estão presentes, formadas por enriquecimento supergênico.
Os depósitos de ferro mais importantes na região de Carajás estão na região da Serra Norte, onde a produção do minério foi iniciada em 1985, ao passo que demais depósitos secundários encontram-se na região das serras sul, leste e São Félix. Dentre os depósitos conhecidos, os que mais se assemelham aos de Carajás são os de Hamersley, na Austrália.
Além dessas duas províncias, existem no Brasil outras ocorrências relevantes, tais como Corumbá, no estado do Mato Grosso do Sul, e Rio do Peixe Bravo, Guanhães e Morro do Pilar, no estado de Minas Gerais.
Em Corumbá, as mais importantes reservas concentram-se na região conhecida como Urucum, que se estende para além das fronteiras do território brasileiro em direção à Bolívia e cuja principal jazida situa-se no morro de Mutum. As reservas de Urucum são estimadas na ordem de 5 bilhões de toneladas de jaspilito, com um teor médio de 54% de ferro, acrescidas de 900 milhões de toneladas de um minério coluvionar com teor médio de 63% de ferro. Nessa província, a formação ferrífera tem uma espessura de 300 metros, formada pela alternância rítmica de hematita e jaspe. Ainda mais importantes são os depósitos secundários, coluvionares, onde o minério está enriquecido, depleção em sílica, com teores de até 67% de ferro. Na província de Corumbá existem diversas minas ativas, que geram uma produção de cerca de 4 milhões de toneladas de ferro ao ano.
Os depósitos do Rio do Peixe Bravo localizam-se no norte do estado de Minas Gerais, na região de Porteirinha e Riacho dos Machados. Foram estimadas nessa região reservas da ordem de 3,5 bilhões de toneladas de minério, dotados de teor médio de 35% de ferro. Essa formação ferrífera possui espessura de até 600 metros e é constituída essencialmente por diamictitos e quartzitos hematíticos. Estratigraficamente, tais depósitos estão posicionados em uma intercalação da Formação Nova Aurora, Grupo Macaúbas. Há grandes chances da existência de equivalência genética e geocronológica entre os depósitos do Rio do Peixe Bravo e os acima mencionados jaspilitos de Urucum, na região de Corumbá, já que ambos são proterozóicos e estão associados a sedimentos glaciais do Grupo Macaúbas.
Na região da serra do Espinhaço, no estado de Minas Gerais, a cerca de 100 quilômetros a noroeste de Belo Horizonte, estão os depósitos de Guanhães e Morro do Pilar. Em Guanhães, as reservas totais de minério de ferro superam os 460 milhões de toneladas, ao passo que Morro do Pilar atinge 420 milhões de toneladas.
Os depósitos mais valorizados, do ponto de vista econômico, são formados por itabiritos de fácies oxidadas com espessuras variando de 5 a 150 metros. Ao serem avaliados petrograficamente e litoestratigraficamente e levando-se em conta seus elementos traços, tais depósitos apresentam semelhanças com formações ferríferas do tipo Superior, que podem ser correlacionadas aos itabiritos da Formação Cauê, presentes também no Quadrilátero Ferrífero.
As reservas nacionais, prováveis e provadas, de minério de ferro foram estimadas pelo DNPM, em 2007, na ordem de 26 bilhões de toneladas, o que colocou o Brasil em 5º lugar em relação às reservas mundiais. Ressalte-se que, ao se considerar o teor de ferro contido no minério, a posição brasileira assume ainda maior destaque, devido à ocorrência de minérios de alto teor, tais como os minérios encontrados em Carajás, que possuem 65% de ferro, e no Quadrilátero Ferrífero e em Corumbá, com 60% de ferro. Cabe destacar que o DNPM adota metodologia específica para estimativa de reservas, que não necessariamente é a mesma adotada por outros órgãos correlatos.
Em suma, dois aspectos indicam a importância e o potencial das reservas brasileiras, a saber:
  • qualidade do minério de ferro: as reservas minerais brasileiras, notadamente as localizadas em Carajás, no estado do Pará, no Quadrilátero Ferrífero, no estado de Minas Gerais, e em Corumbá, no estado do Mato Grosso do Sul, destacam-se pela qualidade, pois apresentam alto teor de ferro, não raro superior a 60%, enquanto o teor da maioria das jazidas consideradas nas estimativas mundiais varia entre 30% e 40%; e
  • potencial inexplorado: a atividade exploratória no Brasil é ainda incipiente, quando comparada a outros países. Mesmo quando conhecidas, a maior parte das jazidas brasileiras não foi devidamente estudada para embasar estimativas apropriadas e mensurar as reservas. Existem inúmeros projetos em nível de autorização de pesquisa com potencial para viabilizar minas que carecem principalmente de capital e know-how para o seu desenvolvimento.

Poxoréu, do diamante às pedras no caminho

Poxoréu, do diamante às pedras no caminho

POR EDUARDO GOMES – Uma cidade em descompasso na região mais desenvolvida de Mato Grosso
Fotos: FELIPE BARROS, DA REVISTA MT AQUI
Poxoréu tinha tudo pra dar certo, mas não foi bem assim. Parte do centro ainda resiste e mantém ares de normalidade, com razoável movimentação. Porém, no conjunto, a cidade agoniza.
Desde 1960, quando tinha 16.687 habitantes, a população nunca foi tão reduzida quanto agora: 16.919 residentes. Há alguns anos o índice de crescimento populacional é negativo. Somem-se a isso preocupantes indicadores sociais e o desmembramento político de Primavera do Leste. O município perdeu a vitalidade econômica desde que o garimpo entrou para a história. Resta a força da pecuária com suas 298 mil cabeças bovinas, que gera poucos empregos da porteira pra dentro.
revista outubro siteO caos não dá lugar à comemoração pelos 75 anos de emancipação, data que na época das vacas gordas era celebrada em 26 de outubro. A luz no fim do túnel aponta para a MT-130, a rodovia que cruza o perímetro urbano e será uma das principais de Mato Grosso, pois é rota obrigatória das commodities de Paranatinga e região ao terminal ferroviário de Rondonópolis. Dos bons tempos do garimpo não resta nem mesmo o xibiu que os capangueiros refugavam.
LEGENDA: Placa identifica uma Poxoréu que não mais existe
A realidade mostra que o momento é de tirar as pedras do caminho pra encontrar o diamante sem jaça e, assim, bamburrar. A outrora Capital dos Diamantes não aguenta mais ficar blefada.
REVISTA OUTUBRO SITESituada entre Rondonópolis, Primavera do Leste e Campo Verde, Poxoréu está em descompasso na região mais desenvolvida de Mato Grosso. A riqueza da cidade escapou por entre as mãos.
LEGENDA: Com a economia em descompasso muitas portas baixaram e até a Zona Eleitoral foi removida do município
Agências bancárias baixaram as portas, a 5ª Zona Eleitoral foi removida para Nova Mutum e figuras ilustres pegaram a estrada, se mandaram para outros lugares, de onde arrotam suspeita paixão pela terra que um dia também foi deles. O êxodo esvaziou o lugar, mas a Santa Sé permanece firme, com sua Matriz São João Batista e outras igrejas, e seu foco continua nos índios xavantes e bororos, sem perder de vista a população urbana e rural, que em boa parte se converteu às denominações evangélicas, que abriram templos por todos os cantos.
revista outubro siteLEGENDA: Na praça deserta com calçamento de pedra, a matriz dos padres defensores dos índios
A vida segue ao ritmo do tique-taque, avançando, mas diferente dos anos 1940, 50 e 60, época em que a elite econômica e os novos ricos do garimpo usavam o avião como meio de transporte.
Uma das rotas Cuiabá-Belo Horizonte, operadas pela extinta companhia Real Aerovias, fazia escalas na cidade com seus bimotores DC-3. O município vivia um período de opulência no ciclo do diamante.
Nas décadas de 1960 e 70, quando a agência do Banco do Brasil não dispunha de numerário para grandes saques – então comuns –, o gerente recorria a um velho conhecido de todos, Prisco Menezes, o ex-garimpeiro que se tornou milionário emprestando dinheiro a juros. Àquele tempo o médico e ex-prefeito Antônio dos Santos Muniz, o Doutor Muniz, dizia que a cidade era um verdadeiro ímã, que segurava todos que chegassem. O Doutor Muniz era exceção quanto ao poder de sedução de Poxoréu: um dia ele trocou a Boa Terra da Bahia por aquele lugar, de onde saiu às pressas para Rondonópolis deixando pra trás inclusive o mandato na prefeitura, após ser derrubado do cargo num verdadeiro golpe de Estado em dimensão municipal.
revista outubro siteLEGENDA: Nos primórdios de Poxoréu o Morro de Mesa mostrou o rumo ao garimpo; agora é cartão-postal que a prefeitura não sabe explorar 
Por volta de 1980, com os primeiros sintomas da exaustão do diamante, levas de garimpeiros migraram para Juína. No auge do garimpo – estimava João de Barro, antigo morador do distrito de Alto Coité –, 6 mil aventureiros arriscavam a sorte em Poxoréu.
Garimpo não era a única aventura. Para o paulista Jubal Martins da Siqueira, ex-vereador e ex-pecuarista já falecido, em nenhum lugar do mundo se joga tanto quanto em Poxoréu. O jogo a que Jubal se referia é o baralho, mesmo. São muitos os tunguetes e casas onde as cartas correm soltas madrugadas adentro. Jubal era falante sem perder a verdade nem abrir mão da seriedade.
revista outubro siteLEGENDA: Esta é a Rua Bahia, que nos bons tempos do garimpo foi a mais famosa zona boêmia de Mato Grosso eagora está reduzida a escombros e entregue ao silêncio
Em 1969 Jubal construiu na fazenda Lidianópolis, de sua propriedade, a primeira piscina da zona rural de Poxoréu.
Antes da piscina de Jubal, em 1966, chegou ao distrito de Paraíso do Leste o mineiro, descendente de italianos, José Nalon, acompanhado por familiares, e iniciou ali, naquele ano, o plantio da primeira grande lavoura de fumo para a indústria tabagista de que se tem registro em Mato Grosso. O pioneirismo dos Nalon não parou por aí. Trinta anos depois, Manoel Nalon, filho do fumeiro, liderou um movimento que resultou na tentativa da cultura do maracujá em escala no município.
LEGENDA: Com o fim do garimpo as mulheres partiram e a Rua Bahia perdeu o quê da boemia – é cenário de varal com roupas comuns
revista outubro siteO Morro de Mesa foi a referência geográfica aos garimpeiros que no final do século XIX buscavam o diamante nas altas cabeceiras do pantaneiro rio São Lourenço. Agora, é ponto turístico, mas sem exploração – cartão-postal que a prefeitura não sabe valorizar.
A colonização do lugar começou em 1924 com o garimpo. Quatorze anos depois Poxoréu era cidade, não sem antes ser destruída por um incêndio que devorou seus primeiros casebres. No ano seguinte à emancipação, o coronel Luizinho – que na bia batismal recebeu o nome de Luiz Coelho de Campos – foi empossado intendente, que era a denominação do prefeito à época.
Rica em diamante, Poxoréu ganhou representatividade política. O ex-senador Louremberg Nunes Rocha, que nasceu naquele lugar, conta que na eleição para presidente da República em 1950 todos os candidatos foram à sua cidade.
A representatividade política numa visão doméstica em Poxoréu é atípica. Filho do ex-prefeito Joaquim Nunes Rocha, Lindberg Nunes Rocha administrou o município em vários mandatos; a prefeita Jane Maria Sanches Lopes é sua mulher e Louremberg, seu irmão. Antes da figura da reeleição, Lindberg cismou em permanecer na prefeitura após seu mandato. Para tanto lançou seu primo Lucas Ribeiro Vilela à sua sucessão. Com a força do clã Rocha, Lucas ganhou de barbada. Juntos os dois primos protagonizaram um episódio talvez inédito na política nacional. Eleito, o parente deixou as chaves da prefeitura e junto com elas uma procuração com plenos poderes ao antecessor. Essa situação perdurou ao longo do mandato.
revista outubro siteLEGENDA: Rodovia MT-130 que cruza a cidade e pode se tornar a salvação da lavoura
“O problema do diamante é que ele não dá duas safras”, resume o ex-garimpeiro e agora parceleiro do Incra João Gualberto Guimarães, o João Gogó. A opinião de João Gogó reflete parte do problema, que é maior porque a incompetência dos prefeitos nunca deu passagem à alternativa econômica. Tanto assim que uma infeliz poligamia do município com o Estado e o governo federal resultou na criação de dois projetos Casulo periféricos à cidade, onde foram assentados ex-garimpeiros. Todos os que bebem água, à exceção de alguns em Poxoréu, sabem que o homem acostumado ao garimpo não se adapta à agricultura familiar. Por isso, os Casulos foram pro beleléu.
O diamante escafedeu-se e o pouco do que resta enfrenta o travamento do Ibama. Sem garimpo, não há onde trabalhar. Dona Maria do Carmo Silva Soares, nascida na cidade e filha de garimpeiro, sabe bem o que é desemprego. Ela tem três filhos e um pegou as malas e se mandou para Primavera do Leste, onde mão de obra ociosa é igual fantasma – pode até existir, mas ninguém vê.
Dona Maria do Carmo é diarista, mas não encontra serviço todos os dias, para garantir o sustento de sua casa, já que se separou do marido. Ela conhece tão bem a Poxoréu de agora quanto a de antes, nos idos do Diamante Clube superlotado com os grandes bailes abrilhantados pelas principais orquestras brasileiras.
Nenhuma zona boêmia ganhou tanta fama em Mato Grosso quanto a Rua Bahia, no centro de Poxoréu. No começo dos anos 1970, quando o garimpo estava no auge, mais de 20 boates mantinham acesas suas luzes vermelhas, com suas vitrolas no volume máximo ou ao som do maestro Marinho Franco. Em frenesi, as mulheres dispostas a tudo, com suas roupas provocantes e carregadas com maquiagem que realçava a beleza e escondia a feiura.
O coração de Poxoréu batia mais forte na Rua Bahia, onde garimpeiros endinheirados lavavam o chão dos cabarés com cerveja Brahma gelada e pagavam o doce sabor do sexo com a moeda mais forte e conhecida por todos: o diamante.
À noite a Rua Bahia fervilhava; na madrugada, mais ainda. Onde se garimpa diamante a criminalidade é zero ou quase isso, ao contrário das praças das fofocas do ouro. Com sua riqueza, seu sexo, sua farra e seu jogo, Poxoréu foi paraíso.
Quando o último boêmio saía do cabaré e as portas e janelas se fechavam no salão silencioso e impregnado pelo azedume da cerveja e do conhaque derramados, Poxoréu voltava ao garimpo, para mais tarde, tão logo o sol se pusesse, voltar a viver gostosa noite de orgia.
As mulheres da Rua Bahia conviviam bem com a população e embarcavam para Cuiabá ou Rondonópolis nos ônibus da empresa Baleia junto com os demais passageiros. Normalmente saíam em pequenos grupos para as compras na Loja Para Todos, do Bartolomeu Coutinho, o Bartô, em outros pontos do comércio ou em busca de uma agulhada de Benzetacil na farmácia de seo Amarílio de Britto, pra curar incômoda gonorreia. Algumas, mais atiradas, entravam na Matriz para preces a Jesus, o Senhor que perdoou Madalena. Os rufiões também se misturavam ao povo, onde se abrigavam os coronéis das quengas e os gigolôs. O Cine Roma elas conheciam somente pelo lado de fora, porque a exibição dos filmes coincidia com o horário do trabalho da profissão mais antiga do mundo.
Sem o diamante, a Rua Bahia morreu. Seus cabarés viraram ruínas e as pedras de seu calçamento não escutam mais os ais do prazer, ouvem apenas o cortante silêncio sepulcral de uma triste cidade sem garimpo, sem zona boêmia, sem rumo.
Mesmo que a cidade retome sua movimentação, dificilmente a Rua Bahia ressuscitará. O sexo perdeu o quê de boemia, ganhou espaço entre a juventude com sua parafernália nas redes sociais. O casamento já não é mais o mesmo. A vida mudou. Falta agora a mudança de Poxoréu, ou melhor, seu reencontro com a vitalidade econômica para que seu povo tenha melhor qualidade de vida e sua força de trabalho encontre o que fazer perto de casa.
Em 1949, usurpando o papel do governo no melhor sentido da palavra, o garimpeiro mineiro e residente em Poxoréu Jacinto Silva rasgou a machado a rodovia Deputado Osvaldo Cândido Pereira (MT-130). Nos anos 1980 ela foi pavimentada pelo governador Júlio Campos. Agora vai ganhar intensa movimentação com o transporte de commodities agrícolas para o terminal da ferrovia em Rondonópolis.
Poxoréu não tem política para incentivar investidores da agroindústria, de modo a descentralizar a concentração das fábricas que constroem plantas nas boas cidades que a circundam. Pela MT-130 a cidade tem escoamento garantido. Falta produzir antes que a juventude parta em busca do amanhã que a bruma administrativa não deixa clarear sobre a antiga Capital dos Diamantes.
SERVIÇO:
REVISTA OUTUBRO SITEPoxoréu, na região sul, dista 240 quilômetros de Cuiabá, 85 quilômetros de Rondonópolis e 40 quilômetros de Primavera do Leste. O principal acesso é a MT-130.
A pista do aeroporto não é pavimentada.
A cidade fica à margem do rio Poxoréu, nome que para os bororos quer dizer água escura.
O Produto Interno Bruto (PIB) do município é de R$ 277.225.000.
A renda per capita de Poxoréu é de R$ 15.749,64 e a mato-grossense, de R$ 19.644,09.
O Índice de Desenvolvimento Humano é de 0,678 numa escala de zero a um; o IDH médio dos municípios de Mato Grosso é de 0,731.