sábado, 12 de julho de 2014

TAPAJÓS, OURO E MERCÚRIO. FATOS E BOATOS SOBRE A CONTAMINAÇÃO DOS SEUS HABITANTES

TAPAJÓS, OURO E MERCÚRIO. FATOS E BOATOS SOBRE A CONTAMINAÇÃO DOS SEUS HABITANTES
 
 
Com a descoberta do ouro em 1958, a região do Tapajós sofreu uma drástica transformação.
Em pouco tempo dezenas de milhares de prospectores de ouro, os garimpeiros, invadiram a cidade, os rios e, aos poucos, as matas. Calcula-se que mais de 500.000 homens garimparam na região. As consequências deste trabalho e da lavra desorganizada se fizeram sentir imediatamente.
Com o garimpo veio o dinheiro e, naturalmente, os problemas inerentes a ele.
Um dos pontos mais debatidos tanto pela mídia nacional e internacional como pelos meios acadêmicos, foi o da contaminação do meio ambiente, flora, fauna e pessoas pelo mercúrio.
 
O sensacionalismo
A partir da década de 80 muito se falou sobre o assunto e as notícias mais alarmistas e geradoras de manchetes foram as mais divulgadas. Acreditava-se que a região e seus habitantes estariam  totalmente contaminados e que em breve o mundo veria o horror de Minamata pintado com cores tropicais.
Na época os primeiros resultados analíticos mostravam que a contaminação por mercúrio era detectada a centenas de quilômetros dos garimpos, nas proximidades de Santarém. Os cálculos sobre a quantidade de mercúrio jogada no meio ambiente eram, consequentemente, astronômicos. Como o mercúrio havia contaminado centenas de milhares de quilômetros quadrados? Os debates se acirraram, comissões foram nomeadas e um estado de caça as bruxas instalado.
Esperava-se uma grande catástrofe com a morte e a deformidade de muitas pessoas.
A Doença de Minamata
Minamata é o nome de uma baía no Japão que foi o palco da maior catástrofe ambiental causada por mercúrio na história do homem.
O mercúrio, em sua forma orgânica (metilmercúrio) foi jogado ao mar por uma industria química japonesa a Chisso Chemical Corporation. O metilmercúrio é um composto químico bastante solúvel e pode ser concentrado milhares de vezes nos peixes e mariscos que, para capturar o oxigênio ou se alimentarem, filtram imensos volumes de água. A contaminação dos peixes em Minamata foi a principal causadora da contaminação humana a seguir. Milhares de habitantes das comunidades vizinhas à Baía, cuja principal dieta era constituída de frutos do mar, foram contaminados e desenvolveram os sintomas do que foi chamado de Doença de Minamata.
A doença ataca o sistema nervoso e cérebro causando dormência nos membros, fraquezas musculares, deficiências visuais, dificuldades de fala, paralisia, deformidades e morte. O metilmercúrio ataca da mesma forma os fetos durante a gestação podendo ou não matá-los. Um grande número de crianças com deformidades causadas pela doença foi registrado nos anos que se seguiram ao desastre ecológico. O resultado da contaminação em Minamata se faz sentir até hoje. Morreram 1.435 pessoas e mais de 20.000 foram contaminadas e estão recebendo indenizações.
Das formas de contaminação por mercúrio qual é a mais perigosa para o ser humano?
Existem várias formas de mercúrio, mas iremos discutir as três mais importantes para o caso do Tapajós.
  1. O mercúrio metálico: O elemento mercúrio, comum em termômetros e na medicina antiga é pouco tóxico, sendo raro o envenenamento. Ele praticamente não é absorvido pelo contato com a pele e, mesmo quando ingerido, não causa maiores males. No Tapajós, no entanto, o garimpeiro vaporiza o mercúrio metálico que acaba sendo inalado, aos poucos, mas por longos períodos de tempo o que causa o envenenamento e, em raros casos mais graves, o aparecimento de sintomas neurológicos.
  2. O mercúrio inorgânico : O mercúrio inorgânico é mais comum do que se pensa. De uma forma geral ele é associado a mineralizações sulfetadas mais recentes. No entanto, em várias ocasiões, eu tive a oportunidade de analisar rochas e solos de áreas sem garimpos na região do Tapajós,  com teores acima de 2ppm de mercúrio total. Isto demonstra claramente que certos estilos de mineralização do Tapajós carregam concentrações anômalas do mercúrio inorgânico, que é totalmente inofensivo ao ser humano, pela sua baixa concentração e absorção. Anomalias de mercúrio também foram detectadas, em meus trabalhos nas unidades vulcânicas dos greenstones tipo Bacajá, antes da chegada dos garimpeiros. Esta informação deve servir de aviso aos pesquisadores que analisam o mercúrio total não discriminando entre o mercúrio inorgânico e o metilmercúrio. Grandes ingestões de mercúrio inorgânico podem intoxicar.
  3. O metilmercúrio : este composto orgânico de mercúrio é, na realidade, a principal causa das doenças e intoxicações por mercúrio que causaram os grandes desastres no Japão. Existem muitas outras formas de mercúrio orgânico. Algumas, usadas na medicina, são componentes importantes da fórmula do mercúrio-cromo e do methiolate. No entanto é o metilmercúrio que quando assimilado por peixes e mariscos, chega à mesa do homem causando as intoxicações e a Doença de Minamata. Esta forma de mercúrio, quando ingerida pelo homem, acaba se concentrando em alguns órgãos e também nos fios de cabelos. Isso facilita a pesquisa pois o mesmo não ocorre com a contaminação pelo mercúrio metálico e inorgânico. O metilmercúrio no Tapajós foi constatado indiretamente nos estudos feitos em cabelos das populações ribeirinhas e garimpeiras.
A conclusão que se chega é que as formas de mercúrio orgânicas são as mais perigosas e as responsáveis pelos desastres ocorridos. Mesmo a inalação do mercúrio metálico que é uma das formas de contágio mais comuns nos garimpos e nas lojas de compra de ouro não tem o o mesmo efeito maléfico  que o envenenamento por metilmercúrio. Hoje a maioria das pessoas que vaporizam o mercúrio já usam as máscaras de proteção e as capelas.
O mercúrio e o garimpo
O garimpeiro, para aumentar a recuperação das finas partículas de ouro, usa o mercúrio na sua forma líquida. Este metal líquido tem a propriedade de capturar os grãos de ouro formando um amálgama. Na realidade é este mesmo amálgama que foi usado até pouquíssimo tempo atrás, nas obturações e próteses dentárias. Ou seja a maioria dos cidadãos de meia idade carregam uma fonte de mercúrio em sua boca.
No garimpo a operação com o mercúrio consiste em colocar grandes quantidades deste metal líquido nas caixas (sluice boxes) em posições estratégicas onde o ouro estará sendo também concentrado. O fluxo da água faz o ouro entrar em contato com o mercúrio sendo imediatamente aprisionado.
O processo é, em geral,  muito rudimentar e causa grandes perdas de mercúrio que é transportado pelas águas para os rejeitos onde se infiltra. O amálgama que não foi perdido na garimpagem é, após alguns dias,  processado pelo garimpeiro com o intuito de recuperar o ouro e parte do mercúrio metálico. Este processo é a maior fonte de contaminação dos garimpeiros pois nele é usado o maçarico, que vaporiza o mercúrio deixando somente o ouro na sua forma sólida. Os vapores de mercúrio, pela inexistência de equipamentos de proteção, máscaras e capelas,  eram, parcialmente inalados pelos garimpeiros e despejados na atmosfera.
A Poluição dos Rios e da Atmosfera no Tapajós
É fácil entender a preocupação dos pesquisadores pois todos os ingredientes para um gigantesco desastre ecológico, maior do que o de Minamata, estavam presentes na história Tapajônica das últimas décadas.
Toneladas de mercúrio foram jogadas nos rios e suas margens e outras toneladas de mercúrio vaporizado contaminaram a atmosfera do Tapajós. Esperava-se que o mercúrio metálico se transformasse rapidamente em metilmercúrio sendo então assimilado pelos peixes e, posteriormente, pelos homens causando mortes, deformidades e os sintomas que caracterizam a doença de MInamata.
E os habitantes da região? Estavam doentes?
Vários estudos efetuados por pesquisadores nacionais e internacionais de renome (vide bibliografia) mostraram que apesar de contaminados , os habitantes da região, quase não mostravam os sintomas da doença. As pesquisas foram feitas em várias ocasiões e com metodologias diferentes.
A princípio acreditava-se em uma poluição de enormes dimensões. No entanto, a medida que eram estudados os níveis de mercúrio nos habitantes da região, aos poucos , foi sendo constatado que a maioria deles não estavam sofrendo dos sintomas da doença de Minamata. Os resultados das amostras de cabelo, urina e sangue coletados continham, quase todos, níveis de contaminação inferior aos limites mínimos preconizados pelas organizações mundiais de saúde. Os garimpeiros e compradores de ouro podiam ter elevados níveis de mercúrio, mas, quase sempre era mercúrio metálico que havia aderido aos seus cabelos. Já os habitantes de algumas comunidades ribeirinhas, pela sua dieta de peixes, foram os que apresentaram os maiores índices de contaminação por metilmercúrio.
Em todos estes casos estudados, mesmo nas pessoas com teores acima de 50ppm de Hg não foram constatados os sintomas de Minamata.
Em suma a doença não havia se instalado no Tapajós.
O que ocorreu? Porquê o Tapajós não é a sede do maior desastre ecológico causado pelo mercúrio no mundo?
O que efetivamente salvou a vida de inúmeras pessoas e crianças foi a combinação dos seguintes fatores:
  • A contaminação de mercúrio ocorreu, disseminada em uma enorme área superior a 80.000 km2: O Tapajós, do ponto de vista da produção aurífera, é uma região bastante grande, superior em área a muitos países e estados. Dentro desta região existem milhares de garimpos que tem ou tiveram atividades garimpeiras. Consequentemente toda a considerável massa de mercúrio jogada no meio ambiente foi, na realidade dispersa nestes milhares de quilômetros de área. O problema seria gravíssimo se o mercúrio fosse jogado em um lago ou baía pequena quase fechada.
  • A transformação do mercúrio metálico para metilmercúrio está ocorrendo muito lentamente: estudos recentes das condições físico-químicas dos garimpos onde o mercúrio metálico foi despejado mostram que as condições para a formação de metilmercúrio são desfavoráveis. O pH destas águas não é muito ácido e os agentes orgânicos como bactérias tem uma atuação muito reduzida sobre o metal. Isto é facilmente observado quando são estudados os rejeitos de garimpos antigos , que são repletos de gotículas de mercúrio e de amálgama ainda preservados após dezenas de anos. Se a transformação fosse rápida não existiriam mais nenhum vestígio de mercúrio metálico nestas áreas.
  • Boa parte do mercúrio analisado nas pessoas era, na realidade o mercúrio total, a soma de todas as formas do mercúrio: Na fase inicial os pesquisadores não discriminavam entre mercúrio inorgânico e metálico (menos perigosos) e o metilmercúrio. Isto levou a uma série de exageros e conclusões errôneas. Assim que novos trabalhos, com métodos analíticos mais sofisticados, foram feitos, foi constatado que a quantidade de metilmercúrio  nas pessoas era, quase sempre abaixo dos 50ppm que caracterizam os níveis de intoxicação segundo órgãos de saúde internacionais.
  • O metilmercúrio é muito solúvel e é diluído em imensos volumes de água dos rios e das chuvas no clima de floresta tropical do Tapajós: todo o metilmercúrio formado a partir da contaminação original é diluído, muito rapidamente, para teores muito baixos e inofensivos. Se este metilmercúrio não for imediatamente assimilado por seres vivos e incorporados aos tecidos dos peixes ele desaparecerá de forma rápida.
  • No Tapajós os pesquisadores descobriram que os peixes carnívoros são os maiores portadores de mercúrio. O motivo é facilmente explicável. Um peixe herbívoro será contaminado pela água que passa nas suas brânquias e pelo alimento que ingere. A contaminação destes peixes é muito lenta. Já um peixe predador ao comer peixes contaminados incorpora quase todo o mercúrio deste peixe contaminado de forma rápida e, ao longo da sua vida, pode, então, atingir níveis de contaminação mais elevados. 
  •  O mercúrio se distribui de forma irregular nos  peixes. O metilmercúrio está concentrado, principalmente em alguns órgãos como o cérebro, as guelras e o fígado. Os músculos destes peixes contaminados tem uma concentração muito baixa de mercúrio. Desta forma mesmo comendo um peixe contaminado o ribeirinho pode estar ingerindo quantidades quase desprezíveis de metilmercúrio se comer somente os músculos do peixe, que é a parte preferida de quase todos.
  • Foi detectado a presença de mercúrio inorgânico relacionado à geologia da região e não aos garimpos nos sedimentos do Rio Tapajós: Este mercúrio que faz parte das rochas do Tapajós havia sido transportado pelos sedimentos do rio e se acumulado. Os primeiros pesquisadores haviam constatado uma "contaminação" por mercúrio a centenas de quilômetros de distância dos garimpos o que fazia a teoria alarmista ainda maior. No entanto, um grupo de pesquisadores brasileiros e canadenses percebeu, mais recentemente, que este mercúrio era natural e inofensivo ao homem e não se relacionava a contaminação feita pelos garimpeiros. Eles foram os primeiros a começar a desvendar o ciclo do mercúrio na região.
Graças a esta combinação de fatores é que hoje nós não temos , no Tapajós, uma Minamata Brasileira.
Mesmo não havendo os clássicos casos da doença de Minamata a poluição existe e a contaminação dos habitantes está ocorrendo.
É importante que os garimpeiros e as autoridades responsáveis mantenham um controle sobre o uso indiscriminado do mercúrio evitando desta forma que a poluição possa se agravar mais ainda.
Nas décadas de 80 e 90 houveram muitos debates sobre o assunto e sobre as prevenções e controles que deveriam ser implementados. Isto tem que ser reativado e a poluição efetivamente paralisada.

Uma bota que vai revolucionar o trabalho em mina subterrânea

Uma bota que vai revolucionar o trabalho em mina subterrânea
Em 2014 quem ganhou o prêmio de inovação do Conselho de Saúde e Segurança de New South Wales foi, por incrível que pareça, uma bota.

Quem já trabalhou em mina subterrânea sabe como é difícil aguentar, após um dia de trabalho, o desconforto das botas de trabalho. Os mineiros frequentemente sofrem de dores e de doenças causadas pela água que se infiltra em botas mal seladas e não totalmente impermeáveis.

Com a nova bota, criada pelos próprios funcionários da Centennial Coal, e construída pela Blundstone da Tasmania esses problemas não vão existir. As novas botas são revolucionárias, seguras, totalmente a prova de água e com um nível de conforto sem igual. Elas foram testadas em trabalho por 9 meses antes de serem aprovadas.

As botas são de couro e tem um revolucionário sistema de fechamento que não deixa a água entrar.

No futuro elas serão feitas para outras profissões que sofrem dos mesmos problemas que os mineiros de mina subterrânea.

Minérios: Reservas mundiais podem se esgotar

Minérios: Reservas mundiais podem se esgotar


Muitos minérios do planeta estão chegando ao fim, o que poderá interromper o uso de várias tecnologias utilizadas no dia-a-dia.
As reservas mundiais de lítio, por exemplo, parecem enormes - 14 milhões de toneladas, que dão para mais de 100 anos, no ritmo atual de consumo. No entanto, cada carro elétrico, grande esperança para reduzir o aquecimento global, usa pelo menos 8 quilos de lítio. E o mundo produz, a cada ano, 71 milhões de carros. Ou seja: se todos os carros fossem elétricos, as reservas mundiais de lítio seriam consumidas em apenas 12 anos - e não sobraria nada para fazer as baterias usadas em laptops, câmeras e outros aparelhos.
Até que a humanidade colonize outros planetas ou aprenda a sintetizar matéria, a saída é uma só: consumir menos e reciclar mais.
Veja, no quadro abaixo, em quanto tempo se esgotarão (levando em conta o consumo previsto a partir de 2010) as reservas mundiais de alguns minérios:

MINÉRIO Tempo de duração em anos Onde é usado Consumo per capita Quanto se recicla hoje Se limitar o consumo atual, durará: Principal reserva mundial
Tântalo 20 Lentes de Câmara 180g 20% 116 anos Brasil 48%
Chumbo 08 Pilhas 410 kg 72% 42 anos Austrália 19%
Prata 09 Placas eletrônicas 1,6 kg 16% 29 anos Polônia 25%
Antimônio 13 Controles remotos 7 kg n/d 36 anos China 62%
Ouro 36 Microchips 48g 43% 45 anos África do Sul 40%
Urânio 20 Usinas nucleares 6 kg n/d 59 anos Austrália 19%
Níquel 57 Celulares 58 kg 35% 90 anos Austrália 19%
Platina 42 Carros 45 g n/d 360 anos África do Sul 88%
Índio 04 Televisores LCD 32 g 0% 13 anos Canadá 33%
Cobre 20 Fios e cabos 630 g 31% 61 anos Chile 38%
Estanho 17 Joysticks 15 kg 26% 40 anos Brasil 22%
Lítio 46 Baterias n/d n/d 133 anos Bolívia 52%
 

Ajustes em todo o circuito quase dobram a produção de ouro

Ajustes em todo o circuito quase dobram a produção de ouro
Mina São Francisco trocou revestimento dos britadores, ampliou pátio de estocagem e alterou malha do desmonte

Desenvolvido na Mineração Apoena pelos autores Thiago Vitali Pignaton, coordenador de Beneficiamento, José Carlos Ferreira, líder Geral da planta, Samuel Trindade Viana, engenheiro de Processo, com o apoio gestor de José Eduardo Correa, gerente de Operação, Jota Júnior José de Azevedo, gerente Geral e Neil Hepworth, diretor de Operações Brasil, o trabalho “Otimização do processo e aumento de produtividade elevam produção de ouro da mina São Francisco e reduzem custos de produção” da Mineração Apoena foi um dos vencedores do 16º Prêmio de Excelência da Indústria Minero-Metalúrgica Brasileira.
 
Realizado na mina São Francisco, adquirida pela canadense Aura Minerals em maio de 2010, junto a Yamana Gold, a operação vem passando por processos de transformações, tais como: abertura de cava, reforma da planta e melhorias de processo que tornaram a mina altamente produtiva e sustentável diante do atual cenário do mercado global de ouro.

A mina possui, em seus processos produtivos de ouro, as etapas de mina (pesquisa, perfuração, desmonte, carregamento, transporte e estocagem) e beneficiamento (britagem, gravimetria, lixiviação em pilhas, ADR e fundição). O trabalho foca nas melhorias executadas na planta de beneficiamento, principalmente na britagem e gravimetria, que representavam o principal gargalo.

Em parceria com a equipe da Metso, ficou definido um plano de melhoramentos para as plantas de britagem e gravimetria com foco em aumento de produtividade e recuperação, redução de custos e aumento da disponibilidade física.

Foi realizada a troca do desenho e o tipo de mandíbula utilizada no britador primário, elevando a massa processada por conjunto de 250.000 t para 400.000 t, com diferença de preço inferior a 20 %. O ganho na durabilidade das mandíbulas impacta não somente em custo, mas também em aumento de disponibilidade da planta.

Constituiu-se também a troca do tipo de revestimento do britador secundário de standard extra grosso para standard grosso, gerando um ganho de 10.000 t processadas por conjunto de revestimento, além de possibilitar que o britador trabalhe com câmara cheia, melhorando a qualidade do material processado. Aliado a esta mudança, foram alteradas as telas do segundo deck da peneira que alimenta esse britador - de telas tencionáveis de 48 mm de abertura para telas modulares de 35 mm de abertura, propiciando maior enchimento da câmara, maior facilidade e agilidade nas trocas e menor tamanho de rocha no processo subsequente.

O pátio de estocagem de minério britado foi ampliado de 25.000 t para 80.000 t, aumentando a demanda operacional do processo por até seis dias na britagem terciária/gravimetria. Esta alteração reduziu em 90 % as horas de parada da planta por falta de minério, mesmo com longas paradas corretivas/programadas de manutenção. Além disso, a mineradora alterou o tipo de revestimento do britador terciário de cabeça curta fino para cabeça curta extra fino, gerando um ganho de 8.000 t processadas por conjunto de revestimento, além de possibilitar que ele trabalhe com a câmara cheia, melhorando a qualidade do produto.

Juntamente com a troca do desenho dos revestimentos dos britadores secundário e terciários, foi realizado um estudo para determinar a melhor liga metálica para fabricação desses componentes, a fim de ter o melhor custo benefício possível. Conforme o resultado dos ensaios realizados, verificou-se que a liga intitulada de 720, pela Metso, composta de alto cromo, foi a que apresentou maior durabilidade, representando um ganho de 10 % em R$/t processada.

Com o objetivo de melhorar o peneiramento e garantir maior geração de finos, com consequente aumento da proporção de minério que é processado na jigagem, foram realizadas diversas adequações no peneiramento, tais como: ajuste do chute de alimentação da peneira, melhor empolpamento do minério, troca dos bicos de água da peneira, adição de mais linhas de lavagem e padronização de telas. Essas mudanças deram uma distribuição uniforme do minério empolpado sobre a peneira, melhorando a eficiência do peneiramento e elevando a porcentagem de finos de 40 % para 50 %.


Vista da planta de beneficiamento na mina São Francisco

A equipe de manutenção realizou alterações nos procedimento de parada, melhorias nas inspeções e manutenções preventivas semanais, trimestrais e anuais, visando a aumentar a disponibilidade física das plantas e a qualidade dos serviços, o que contribuiu para o aumento de 3 % a 5 % da disponibilidade.

Para conseguir uma evolução de 2,6 para 4 milhões t, além dos processos de beneficiamento, várias melhorias também foram implementadas pela mina, sendo a principal delas no processo de desmonte por explosivo, onde houve uma readequação da malha com uma aumento da razão de carga de 11,1 % (planejava-se uma malha de configuração em triangulo isósceles e atualmente trabalha-se com uma configuração em triângulo equilátero) que permitiu um aproveitamento eficaz da energia de desmonte, acarretando em uma melhor fragmentação do material (melhor produtividade dos equipamentos de mina e britagem) e maior porcentagem de geração de finos (melhoria na recuperação).

Foi feita também a instalação de mais dois ciclones na bateria primária e utilização de 100 % da capacidade da jigagem, a fim de absorver o aumento de produção sem perda de recuperação, assim como a instalação de um concentrador centrifugo Falcon no underflow da ciclonagem secundária, reduzindo as perdas de ouro fino no rejeito e, consequentemente, aumentando a recuperação.

Além disso, treinamentos com o corpo operacional e técnico com foco em operação das plantas de britagem e gravimetria foram ministrados pela liderança da mina São Francisco em parceria com a Metso, assim como treinos com consultores externos.

Como resultado dos trabalhos de melhorias citados, obteve-se evolução nos indicadores de produção da planta. Notou-se um aumento percentual de 12,9 % na produtividade do circuito de britagem primária e secundária de 2011 para 2013, que combinado com a maior disponibilidade e utilização da planta, resultaram em um acréscimo de aproximadamente 1,5 milhão t processadas ao ano.

A evolução na produtividade da britagem terciária, com aumento na utilização, que combinado com o melhor planejamento e execução das paradas de manutenção, resultaram em uma ampliação da disponibilidade, fazendo com que a produção da planta aumentasse em 1,4 milhões t processadas por ano (elevação de 57 % entre 2011 e 2013).

Finalmente, as melhorias aplicadas no circuito de britagem e no peneiramento a úmido resultaram em um maior percentual de finos alimentando a gravimetria, que por sua vez teve aumento de produtividade de 22 % e 84 % no processamento anual de minério. Além dos ganhos em massa processada, conseguiu-se elevar a recuperação de ouro gravimétrico em 13 %, assim como o custo específico (US$/t) de produção foi drasticamente reduzido no comparativo de 2011 para 2013 - em 41 % para as etapas de britagem e 55 % para a gravimetria.

A soma dos esforços realizados pelas equipes de produção e processos culminaram com forte evolução dos resultados no comparativo 2011 a 2013, tais como: Aumento da massa processada na britagem em 56 %, superando a marca de 4 milhões t processadas/ano; aumento da massa processada na gravimetria em 84 %, superando 1,9 milhões t processadas/ano; forte redução de custos específicos (US$/t) na britagem e gravimetria, sendo 41 % e 55 %, respectivamente; aumento da produção global da mina São Francisco de 52.286 oz para 105.541 oz.

Flotação em cascata para recuperar ouro

Flotação em cascata para recuperar ouro
Projeto piloto evoluiu para estudos de planta industrial
 
Para elevar os atuais níveis de recuperação de ouro, a Kinross Brasil Mineração vem estudando ao longo dos anos diferentes tecnologias que permitam aumentar a eficiência do seu processo produtivo. O trabalho “Uso de flotação em cascata para tratamento de rejeitos”, que tem o intuito de elevar os níveis de recuperação de ouro, foi um dos vencedores do 16º Prêmio de Excelência da Indústria Minero-metalúrgica Brasileira. O projeto é de autoria do Gerente de Desenvolvimento Tecnológico, Getúlio Gomes de Oliveira Júnior, do Especialista de Processos, Alair Agripino de Jesus, do Gerente Sênior de Processos e Manutenção Industrial, Rodrigo Barsante Gomides, do Gerente Geral da AJG Engenharia, Antonio Jara e do Gerente Técnico desta empresa, Luis Grünewald.
 
A mineradora está localizada em Paracatu (MG) e possui duas plantas, sendo uma com capacidade de 20 MTPA (denominada Planta 1) e outra com capacidade de 41 MTPA (Planta 2). Em 2013 foram produzidas por volta de 500.000oz de ouro através do beneficiamento de 56 Mton. O processo consiste basicamente em um circuito de britagem, moagem, ciclonagem, flotação convencional e lixiviação. Entre as propostas de aumento de eficiência foi avaliado o uso de flotação em cascata para processamento do rejeito final.

A flotação em cascata consiste no uso do gradiente natural entre a descarga do rejeito proveniente da flotação convencional até a sua disposição final em barragem; promove-se a aeração através de caixas de passagem da polpa de um ponto a outro da descarga de rejeito. Ela consiste numa maneira barata de se promover a recuperação de um rejeito já flotado. Utiliza-se a oportunidade que uma polpa tem de ser transportada de um ponto para outro por gravidade, promovendo-se a aeração da polpa e a retirada de uma espuma carregada.

O circuito pode ser dividido em três trechos, sendo que o primeiro transporta a polpa, o segundo gera a espumação num rebaixamento de nível através de furos afunilados e o terceiro permite, durante o transporte, que a espuma se forme. Nesse terceiro trecho colocam-se desviadores de espuma que no final a descarrega em uma calha que a desvia até uma calha lateral de concentrado, que acompanha a calha maior de rejeito.


Flotação em cascata piloto

O processo de flotação da KBM consiste em tratar o overflow do ciclone que classifica o produto da moagem e o underflow retornar para os moinhos como carga circulante. O overflow (80% - 106 µm) alimenta as células de desbastadoras (rougher). O produto flotado obtido é reprocessado no circuito cleaner.  O não flotado desta unidade constitui o rejeito final. Cerca de 100% do rejeito da flotação segue diretamente para a barragem de rejeitos.

O teor médio do minério lavrado a cada ano vem caindo ao longo do tempo, tendendo a estabilizar-se em torno de 0,400 g/t nos próximos anos. Isto faz com que a empresa trabalhe com o menor teor do mundo por tonelada lavrada.

O uso de flotação em cascata é comum em algumas minas no Chile, de modo que foram feitos contatos com uma empresa chilena (AJG) que projetou um circuito piloto (em três módulos de cascatas) para tratamento de 1.000 m³/h de polpa proveniente do rejeito de flotação. O sistema foi operado no período de 22/08/2013 a 04/10/2013, sendo supervisionados pela equipe de desenvolvimento tecnológico da KBM e AJG.


Desviadores de espuma para descarrega na calha de concentrado

Com a campanha dos testes foram obtidos resultados metalúrgicos que permitiram alcançar o fluxo de projeto de aproximadamente 1.000 m3/h e a recuperação de 6,8% de Au presente no rejeito e 0,54% de recuperação mássica (considerando apenas 03 cascatas). 

Os resultados alcançados permitiram projetar um circuito industrial de flotação em cascata consistindo de quatro linhas paralelas com dez módulos cada e capacidade de 3.000m³/h cada. A recuperação metalurgica projetada será maior que 15%. Os testes indicaram que grande parte do ouro recuperado pelas cascatas se encontrava na fração fina abaixo de 38 micro, que normalmente não é recuperada via processos convencionais de flotação (flotação em tanques).

Os parâmetros utilizados para avaliação da implantação industrial do projeto de flotação em cascata foram a recuperação de massa e recuperação metalúrgica; tomando-se como base os dados gerados na atual planta industrial de concentração. A seguir tem-se a avaliação econômica para a implantação do projeto.

Considerando uma recuperação final de 80%, já que o concentrado gerado pela cascata deverá passar por um processo de enriquecimento para posterior processamento na etapa de lixiviação, a produção anual estimada será de 270 kg Au. Esta margem de ganho pode ser aumentada conforme otimização do circuito de flotação em cascata e a planta de limpeza.

O uso de flotação em cascata tem se mostrado uma alternativa viável para tratamento de rejeitos em algumas minas já em operação no Chile. Os testes realizados com amostras do rejeito de flotação da planta de benefiamento de Paracatu mostraram que é possivel aumentar a recuperação de ouro utilizando-se cascatas. Está em andamento a validação de um projeto básico para levamento de custos, assim como novos testes para aumentar o volume de dados deste tipo de operação.