domingo, 13 de julho de 2014

A CHAPADA DOS DIAMANTES

A CHAPADA DOS DIAMANTES

Serra do Sincorá, Bahia










A SERRA

    A serra do Sincorá é uma parte da Chapada Diamantina, situada na região central do Estado da Bahia, que constitui um sítio de grande beleza paisagística devido ao modelado de suas serras, que expõem vales profundos de encostas íngremes e amplas chapadas. Essas escarpas permitem o exame da sua geologia, onde tempos atrás foram explorados diamantes e carbonados.
     A serra do Sincorá está localizada na região central do Estado da Bahia, distante da cidade de Salvador, capital do estado, cerca de 400km (figura 1). Para chegar à serra do Sincorá a partir de Salvador, deve-se seguir em direção a Feira de Santana (rodovia BR-324), continuando então para sul em direção ao Rio de Janeiro pela rodovia BR-116. Cerca de 70km a sul de Feira de Santana, à margem do rio Paraguaçu, entra-se à direita pela rodovia BR-242, em direção a Brasília. Cerca de 220km adiante, chega-se à cidade de Lençóis: ai está a serra do Sincorá, que fica dentro do Parque Nacional da Chapada Diamantina. O acesso por via aérea é feito por linhas regulares através do Aeroporto Cel. Horácio de Matos, situado na vila de Tanquinho (figura 1).
Figura 1 - Mapa de localização da serra do Sincorá. Legenda: 1-Região da serra; 2-Rodovia pavimentada; 3-Estrada não pavimentada; 4-Rio; 5-Cidade ou vila; 6-Aeroporto.


DESCRIÇÃO DO SÍTIO

    A serra do Sincorá está localizada na borda centro-oriental da Chapada Diamantina, aproximadamente entre as vilas de Afrânio Peixoto (antiga Estiva)  a norte e de Sincorá Velho a sul (figura 1). Sua vertente ocidental é uma escarpa quase contínua, com cerca de 300m de altura e 80km de extensão; a escarpa oriental, que domina a planície do vale do Paraguaçu (400m), atinge rapidamente a altitude de 1200m, nas primeiras cristas da serra. Assim  descreve a serra, o biólogo Roy Funch, em seu livro Um guia para o visitante da Chapada Diamantina: o Circuito do Diamante: o Parque Nacional da Chapada Diamantina; Lençóis, Palmeiras, Mucugê, Andaraí, editado em Salvador pela Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia em 1997.

Montanhas  e cachoeiras


    A serra do Sincorá compreende um conjunto de diversas serras de menor extensão com as da Cravada, do Sobrado, do Lapão, do Veneno, do Roncador ou Garapa, do Esbarrancado, do Rio Preto, entre muitas outras. Essas serras possuem picos com até 1700m de altitude e são separadas por vales íngremes e profundos como canyons
    Uma feição que se destaca na serra do Sincorá, é o morro do Pai Inácio à margem da rodovia BR-242, a norte do vale do Cercado (figura 2).


Figura 2 - Vale do Cercado, a sul  do morro do Pai Inácio, na rodovia BR-242.



    Mais ainda a norte do morro do Pai Inácio, está o morro do Camelo ou Calumbi (figura 3), e a sul, o Morrão (figura 4), cujo acesso se faz através da estrada entre a cidade de Palmeiras e a vila de Caeté Açu (figura 1).


Figura 3 - Morro do Camelo ou Calumbi


Figura 4 - Morrão

 
 
    Entre o Morrão e a vila de Caeté Açu, é cruzada a ponte sobre o rio Riachinho, onde existe um antigo garimpo de diamantes (figura 5).
 

Figura 5 - Rio Riachinho


    O principal rio desta região, é o rio Paraguaçu. Após atravessar a serra do Sincorá desde a localidade de Comércio de Fora (figura 6), ele a deixa na localidade de Passagem de Andaraí, formando a cachoeira de Donana (figura 7). Daí, o rio prossegue em busca do oceano Atlântico, na baía de Todos os Santos.



Figura 6 – Escarpa da serra do Sincorá em Comércio de Fora, a oeste da cidade de Mucugê.





Figura 7 - Cachoeira de Donana


    As rochas que afloram na serra do Sincorá, consistem essencialmente em arenitos e conglomerados. Orville A . Derby (1851-1915), geólogo norteamericano, que no início do século XX trabalhou na região, disse delas o seguinte: “ Este conglomerado representa um depósito de cascalho formado em uma época geológica remota pelo mesmo modo que se formaram, e ainda hoje se formam, os cascalhos (conglomerados incoerentes e ainda não transformados em pedra) em que os mineiros procuram os diamantes.





Figura 8 – Arenitos, isto é, rochas formadas por areias consolidadas na vila de Igatu.
 
 


Figura 9 – Conglomerados(antigos cascalhos)  intercalados com arenitos no vale do rio Combucas, a norte da cidade de Mucugê.



Diamantes

No ano de 1844, foram descobertos diamantes na serra do Sincorá, na região de Mucugê (figuras 1 e 12). A partir dessa região toda a serra foi explorada, garimpando-se diamantes desde o rio Sincorá a sul (figuras 1 e 7), até a região de Afrânio Peixoto a norte (figura 1).






Figura 10 – Como os diamantes são transportados do interior da Terra (à esquerda); Como as rochas são erodidas, liberando os diamantes, que então são garimpados nos rios (à direita).



    Esses diamantes, que deram fama e riqueza à região formaram-se em algum lugar do interior da Terra onde a crosta terrestre era bastante espessa, e foram transportados por rochas chamadas kimberlitos, que forçaram o seu caminho para a superfície (figura 10). Assim, os diamantes se comportariam como meros passageiros em uma parada de ônibus (lado esquerdo). Quando os kimberlitos que os continham alcançaram a superfície, eles sofreram processos de erosão, liberando os diamantes, que foram encontrados em areias e cascalhos de rios (lado direito). Dando uma idéia da sua raridade, Jiri (George) Strnad, geólogo canadense especialista em diamantes, estimou que em um kimberlito diamantífero exposto em uma escarpa medindo 10 x 2m, estaria contido apenas um diamante minúsculo, com um milímetro de diâmetro !

    

    Na serra do Sincorá, a fonte dos diamantes ainda é amplamente discutida. Sabe-se apenas que eles vieram do leste, mas o local exato ainda não foi definido. Os diamantes eram garimpados no cascalho produzido pela decomposição de conglomerados (figura 11), aflorantes no vale do rio Combucas (figura 12).



Figura 11 - Detalhe do conglomerado do vale do rio Combucas (figura 12), depositado por antigos rios.





Figura 12 - Rio Combucas, a norte da cidade de Mucugê, próximo à sua confluência com o rio Mucugê, local das primeiras descobertas de diamantes na serra do Sincorá.


    A cachoeira do Serrano na cidade de Lençóis (figura 13), também foi intensamente explorada. Aí, os conglomerados são formados por fragmentos de diversas rochas (figura 14). Eles foram depositados no sopé de escarpas.

Figura 13 - Cachoeira do Serrano, na cidade de Lençóis.







Figura 14 - Conglomerado da cachoeira do Serrano. Acredita-se que ele tenha sido depositado no sopé de escarpas, o que se chama de leques aluviais.


    A garimpagem também foi intensa nas regiões de Andaraí e Igatu. A figura 15 mostra os conglomerados na estrada entre essas duas localidades. O rejeito dos antigos garimpos ainda pode ser visto ao longo desta estrada, como amontoados de blocos de tamanhos e formas diversas.

Figura 15 - Conglomerados ao longo da estrada Andaraí - Igatu

    Após uma fase áurea de aproximadamente 25 anos, a garimpagem de diamantes entrou em declínio a partir de 1871. Já no século XX, houve diversas tentativas de mecanizar os garimpos, que na década de 80 foram instalados nos leitos dos rios dentro e fora do Parque Nacional. Estes garimpos, graças a uma ação conjunta de diversas autoridades ligadas à mineração e ao meio ambiente, foram fechados definitivamente em março de 1996.
     Mesmo após 150 anos de exploração dos aluviões diamantíferos, ainda existe garimpagem manual, embora em ritmo mais lento, devido à exaustão e decadência das lavras. Devido ao número ilimitado de situações geológicas e topográficas da serra, existem os seguintes tipos de garimpo manual, mencionados pelo biólogo Roy Funch, cada qual com suas peculiaridades:cascalhão, barranco, brejo, grupiara, emburrado, curriolo, engrunada, gruta, escafandro, serviço a seco, lavagem e faísca (figura 16).



Figura 16 - Representação esquemática dos tipos de garimpo manual (descrições no glossário)
    Esses fatos confirmam a afirmação de Orville A . Derby : "Quanto à riqueza mineral, a única até hoje aproveitada é a de diamantes e carbonados, e a sua constituição geológica [da serra do Sincorá] pouca esperança oferece da existência de outra...".


MEDIDAS DE PROTEÇÃO AMBIENTAL

    O trecho da serra do Sincorá  situado entre Cascavel e Mucugê e a rodovia BR-242, está incluído no Parque Nacional da Chapada Diamantina. A norte da rodovia BR-242, os morros do Pai Inácio e do Camelo estão dentro da APA (Área de Proteção Ambiental) de Iraquara-Marimbus.
    De acordo com informações do biólogo Roy Funch, o rio Mucugê, em cujo leito foram descobertos os primeiros diamantes, está razoavelmente bem protegido: o seu alto curso fica dentro do Parque Nacional e o baixo curso corre dentro da área do Parque Municipal de Mucugê (uma reserva com cerca de 270 hectares). Este parque ainda inclui o baixo curso do rio Combucas e vários dos seus afluentes, limitando-se com o Parque Nacional.
    Além dessas medidas, existe no município de Mucugê, o Projeto Sempre Viva. Este projeto tem os seguintes objetivos: 1) implantação de uma unidade de conservação estruturada para o ecoturismo, no Parque Municipal de Mucugê; 2) desenvolvimento de tecnologia de reprodução de plantas nativas; 3) implantação de um Sistema de InformaçõesGeográficas (SIG); e, 4) execução de um programa de educação ambiental. A sua sede, construída no estilo dos antigos abrigos de garimpeiros, é mostrada na figura 17.




Figura 17 - Parte das instalações do Projeto Sempre Viva.



Diamante: plantas com baixa recuperação, a alegria dos mineradores mais eficientes

Diamante: plantas com baixa recuperação, a alegria dos mineradores mais eficientes
A mineração de diamantes pode ser cruel. Nela a falta de qualidade de alguns, enche os cofres de outros. A baixa recuperação de diamantes de algumas plantas antigas transferiu grandes fortunas dos kimberlitos para os rejeitos...
É o que está ocorrendo na África do Sul onde a mineradora Mwana Africa está tendo um sucesso superlativo reprocessando os rejeitos de minas como a Marsfontein. Essa mina é uma operação a céu aberto sobre um kimberlito de alto teor, nas proximidades de Mokopane.
A Mwana aproveitou os defeitos da planta da Marsfontein e já recuperou 12.383 quilates somente no primeiro trimestre de 2014.
A mesma situação está sendo reportada na mina de Klipspringer onde a Mwana está trabalhando rejeitos com 0,77 quilates por tonelada: um teor muito elevado para um rejeito.
Erro de uns alegria de outros...

ESTUDO DE APROVEITAMENTO DE REJEITOS DE DIAMANTE DA REGIÃO DE POXORÉU, LESTE DO ESTADO DE MATO GROSSO

ESTUDO DE APROVEITAMENTO DE REJEITOS DE DIAMANTE DA REGIÃO DE POXORÉU, LESTE DO ESTADO DE MATO GROSSO

Study of diamond recovery tailings from Poxoréu region, east of Mato Grosso State



RESUMO
Estudos em rejeitos de garimpos de diamantes foram desenvolvidos na região de Poxoréu, visando sua aplicação como areia industrial. A região de Poxoréu está em estagnação econômica desde o declínio das atividades garimpeiras, iniciada na década de 1920, gerando grande quantidade de rejeitos disposta desordenadamente, cobrindo uma vasta porção das bacias dos rios Poxoréu e Alto Coité. Os estudos constaram da análise granulométrica e geoquímica de 11 amostras selecionadas por mostrarem boa representatividade. Os estudos granulométricos sugeriram que a maioria das amostras pode ser utilizada tanto na indústria de fundição, quanto na fabricação vidro. Os dados geoquímicos apontaram que todas as amostras podem ser utilizadas pela indústria de construção civil. Com exceção de duas amostras, cujo teor de TiO2 ultrapassa os limites das especificações ABNT, as demais podem ser utilizadas nas indústrias de vasilhame e fundição, após submissão a tratamentos para remoção de ferro e alumínio. Outra aplicação dos rejeitos analisados seria na indústria de vidro, uma vez que apresentaram baixas concentrações de titânio, magnésio, manganês, cromo, potássio, sódio e cálcio, além dos aspectos granulométricos mencionados. Pesquisas voltadas à prospecção de ouro são sugeridas, uma vez que as análises geoquímicas mostraram a presença deste elemento em quase todas as amostras.
Palavras-chave: Garimpo de diamante; Rejeitos; Poxoréu-MT; Estudos granulométricos e geoquímicos; Areia industrial.

ABSTRACT
Studies on diamond mining tailing from the region of Poxoréu, were performed, aiming their application as industrial sand. The Poxoréu region is in economic stagnation since the decline of diamond exploration, which began in the 1920s. These activities generated large amounts of tailing, which was disposed haphazardly, covering a vast portion of the basins of the Poxoréu and Alto Coité rivers. This study consisted of granulometric and geochemical analysis of 11 samples selected that showed good representation for the area. Granulometric studies suggested that most samples can be used both in the foundry industry, as in glass manufacturing. The geochemical data showed that all samples may be used by the construction industry. With the exception of two samples, whose TiO2 content exceeds the limits of the specifications ABNT, the others can be used in the industries of glass container and foundry, after undergoing treatment for removal of iron and aluminum. Another application of the material analyzed would be considered for use in glass industry, since they showed low concentrations of titanium, magnesium, manganese, chromium, potassium, sodium and calcium, outside granulometric aspect mentioned. Research focused on prospecting for gold are suggested, since the geochemical analysis showed the presence of this element in almost all samples.
Keywords: Diamond mine; Tailing; Poxoreu-MT; Granulometric and geochemical studies; Industrial sand.



INTRODUÇÃO
A atividade garimpeira na região de Poxoréo teve início na de década de 1920, de modo totalmente desordenado. Com a introdução das dragas nas décadas de 40 a 60 a desordem foi acentuada e os problemas ambientais aumentaram consideravelmente. Este fato vem se agravando até os dias atuais, pois embora as jazidas estejam praticamente exauridas, garimpos artesanais persistem e constituem uma importante fonte de renda para a população de Poxoréo e Alto Coité. Além do assoreamento de córregos e rios da região, a extração diamantífera na área gerou grandes pilhas de rejeitos intensificando os problemas de caráter ambiental. Estes rejeitos, além de causarem grandes impactos ambientais também geram impactos visuais descaracterizando a morfologia da região.
Este trabalho mostra os resultados de caracterização química e mineralógica dos rejeitos provenientes da extração de diamantes dos depósitos aluvionares da região de Poxoréu (Figura 1), visando direcioná-los a um aproveitamento econômico, principalmente na forma de matéria-prima para a produção de areia industrial.
As areias industriais recebem suas denominações em função de suas aplicações na indústria, determinadas pelas suas características e propriedades, tais como, teor de sílica, pureza, composição química, teor de óxidos de ferro, álcalis, matéria orgânica, perda ao fogo, umidade, distribuição granulométrica, forma dos grãos e teor de argila (Azevedo & Ruiz, 1990). No que diz respeito à química ideal de uma amostra, as principais especificações técnicas referem-se aos teores de: SiO2, Fe2O3, Al2O3, MnO2, MgO, CaO, TiO2 e ZrO2. Quando se trata de usos específicos, tais como esmalte, fibra de vidro e cristal os teores de Cr2O3, Na2O e K2O devem também ser considerados (Ferreira & Daitx, 2000). No Brasil, cerca de 60-65% são destinados à fabricação de vidro (incluídos cerca de 5% em cerâmica); 30% em fundição e outros usos com 5% do consumo (Luz & Lins, 2005), enquanto que, por exemplo, nos EUA, a indústria de vidro responde apenas por 38% do consumo de areia industrial, seguindo-se a fundição com 20%, fraturamento hidráulico e abrasivo com 5% cada e 32% em outros usos (USGS, 2004).

MATERIAIS E MÉTODOS
Os trabalhos de campo desenvolvidos no município de Poxoréu concentraram-se em duas áreas distintas: a primeira localizada nos arredores do vilarejo de Alto Coité, denominada de área do Patrimônio e, a segunda, nos limites da Fazenda Primavera, que dista aproximadamente 10 km da primeira.
Durante os trabalhos de campo procurou-se caracterizar as pilhas de rejeito, fez-se o levantamento de um perfil e foram coletadas 22 amostras, das quais 11 foram selecionadas para os estudos granulométricos e geoquímicos (Ap-01, Ap-02, Ap-03, Ap-05, Ap-07, Ap-08, Ap-09, Ap-10, Ap-11). As amostras Ap-3 e Ap-11 foram coletas em níveis específicos do perfil levantado em campo e as demais foram coletadas aleatoriamente em pilhas de rejeito.
Os estudos de caracterização foram desenvolvidos nos laboratórios de sedimentologia e Multiusuario de Técnicas Analíticas (LAMUTA) do Departamento de Recursos Minerais de UFMT. Estes estudos constaram de análises granulométrica, macroscópica e microscópica e geoquímica com vistas ao aproveitamento desses rejeitos como areia industrial. Os estudos granulométricos envolveram desagregação, peneiramento e lavagem para remoção da argila. Nos estudos geoquímicos foram utilizadas amostras "in natura", amostras peneiradas e lavadas e amostras de argila. Estes estudos foram realizados através da fluorescência de raios-X por energia dispersiva (XRF) EDX-700HS da marca Shimadzu para determinação de elementos maiores, menores e alguns traços. As análises foram realizadas em vácuo com colimador de 10 mm, pelo método Quali-Quant FP. Utilizaram-se duas aquisições por amostra para quantificação dos elementos químicos do (i) Na e Sc e (ii) Ti e U, tendo cada aquisição duração de 5 minutos.

RESULTADOS
DESCRIÇÃO DOS DEPÓSITOS
Os trabalhos de campo permitiram constatar que as duas áreas estudadas mostram similaridades, pois ambas são constituídas por depósitos recentes, de terraço, e também de cascalheira, o que está de acordo com as descrições de Souza (1991, segundo Schobbenhaus et al., 1991) para outros depósitos da região. Ambas as áreas foram intensamente trabalhadas por garimpeiros, encontram-se muito degradadas com a presença de rejeitos empilhados aleatoriamente em diferentes porções, inclusive às margens de córregos e rios, além de depressões causadas pela remoção de material por dragas e/ou retro-escavadeiras (Prancha 1). O rejeito foi acondicionado de forma desordenada em pilhas que apresentam mistura de sedimentos de diferentes granulometrias, variando de seixos de até 50 cm de diâmetros associados a seixos menores misturados a areia e argila, caracterizando depósitos mal selecionados, com predomínio da fração areia. Os seixos são representados por fragmentos de rochas (principalmente arenitos), quartzo, sílex e outros, mostrando predominância de seixos com formas subarredondadas. As frações inferiores (areia e silte) são compostas principalmente por grãos de quartzo com pouca contribuição de feldspato e fragmentos de rocha, além de turmalina, rutilo, ilmenita, titanita, limonita, coríndon, zircão, minerais opacos e outros de rara ocorrência, como é o caso de apatita e granada.
O perfil levantado nas bordas do Rio Areia permitiu verificar, da base para o topo, um nível de areia intensamente compactado (denominado piçarra na linguagem garimpeira), de cor amarela-avermelhada, seguida por uma camada de areia/cascalho mineralizada com cerca de 1,50 m e, recobrindo este nível ocorre uma camada de cascalho de cerca de 40 cm de espessura composta por seixos de até 20 cm de diâmetros representados por fragmentos de rochas, quartzo e sílex. A maioria dos grãos são subarredondados e, subordinadamente, arredondados ou angulosos. A camada de topo apresenta cerca de 20 cm de solo e é composta por matéria orgânica e areia.
ESTUDOS GRANULOMÉTRICOS
Os estudos granulométricos visaram à caracterização do grau de arredondamento, angulosidade e selecionamento dos grãos de areia, uma vez que estes parâmetros são importantes para direcionar os rejeitos a usos específicos e apropriados.
A Tabela 1 apresenta o peso e a porcentagem de cada fração obtida nas amostras estudadas. Na Figura 2 é mostrada a distribuição granulométrica acumulada das amostras, evidenciando que nas amostras Ap2, Ap8 e Ap11 prevalecem as frações acima de 2 mm, enquanto nas demais ocorre o inverso. Observa-se também que a distribuição granulométrica concentra-se em duas modas, uma variando de 9,52 a 2,00 mm e a outra de 0,5 a 0,062 mm.
A Tabela 2 mostra os resultados do grau de arredondamento das amostras em relação à esfericidade, evidenciando a predominância das frações concentradas nos limites de alta esfericidade na maioria das amostras. A amostra Ap2 é a única a mostrar inversão quanto ao grau de esfericidade, ou seja, nesta amostra prevalecem grãos de baixa esfericidade. Na amostra Ap7 as proporções de grãos com alta e baixa esfericidade são aproximadamente iguais.
Quanto ao grau de arredondamento e selecionamento observou-se predominância dos grãos angulosos sobre os arredondados nas frações maiores, enquanto nas frações menores, abaixo de 0,125 mm, predominam grãos mais arredondados.
ESTUDOS MACROSCÓPICOS E MICROSCÓPICOS
A análise macroscópica mostrou que os depósitos aluvionares estudados são constituídos por diferentes formas de sílica (quartzo, calcedônia, opala, chert) fragmentos de rochas, óxidos (possivelmente goetita, ilmenita, limonita), raros grãos de granada e de safira.
A análise da fração areia média a grossa, realizada com lupa binocular mostrou que esta fração é composta por quartzo, opala, turmalina, rutilo, minerais opacos (ilmenita e magnetita), zircão, carbonato, topázio e feldspato, além de pequenos fragmentos de rochas. Mineralogia idêntica foi observada ao microscópio para as frações areia fina a silte. Estes estudos permitiram identificar que também que grau de arredondamento dos grãos presentes nas frações menores é maior que o observado para as frações mais grossas.
ANÁLISE GEOQUÍMICA
Uma análise extremamente importante no estudo de caracterização de areia para uso industrial é a análise química, pois para cada tipo de aplicação existem normas específicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que devem ser respeitadas.
Os resultados das análises químicas obtidos para o material in natura, fração areia (1,19 e 0,50 mm) e para a fração argila são apresentados nas Tabelas 3, 4, 5 e 6 respectivamente.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
São muitas as aplicações de areia para o uso em vários setores da indústria, dentre eles os mais relevantes no Brasil são indústrias de vidro, cerâmica, vasilhame, construção civil, etc. Para cada uso específico existem normas que regulamentam desde a faixa granulométrica, formas de grãos além de composição química e da presença de impurezas. Além das normas técnicas que regulamentam o uso das areias, vários são os trabalhos de cunho cientifico que abordam o assunto, dentre eles podem ser citados os trabalhos de Barbosa & Porphírio (1993), Zdunczyk & Linkous (1994), Nava (1997), Ferreira & Daitx (2000, 2003), Luz & Lins (2005).
Referente ao tamanho dos grãos, Ferreira & Daitx (2000), mostraram que as características típicas de areia de quartzo para a indústria cerâmica estão posicionadas nas faixas granulométricas entre 30 e 140 malhas (0,60 a 0,105 mm). O material silte-argiloso (fração inferior a 0,062 mm) é uma fonte de contaminação de alumínio, ferro e álcalis (determinados pelos ensaios geoquímicos), e, portanto sua presença é indesejável nos materiais selecionados para fabricação de areias industriais. Ainda segundo esses autores a fração sílte-argilosa pode representar no máximo 20% do minério e constitui um dos principais problemas ambiental, pois é depositada em grandes bacias de decantação ou despejada diretamente nos córregos e rios, causando assim o assoreamento dos mesmos.
As principais especificações químicas, para os diferentes usos industriais da areia referem-se aos teores de SiO2, Fe2O3, Al2O3, MnO2, MgO, CaO, TiO2 e ZrO2, além dos teores de Cr2O3, Na2O e K2O que devem ser considerados, em função da aplicabilidade da areia.
Os padrões estabelecidos para areia industrial na construção civil de acordo com a norma NBR-7200/82 são: (i) pureza, cujo teor do material na fração inferior a 0,09 mm não deve ultrapassar a 5% em peso; (ii) granulometria, areias com faixa granulométrica inferior a 0,2 mm devem representar de 10% a 25% do peso total e; (iii) forma das partículas, onde as partículas arredondadas e esféricas são mais favoráveis que os grãos achatados ou longos (Ferreira & Daixt, 2000).
Para fabricação de vidros, os grãos angulares são mais favoráveis ao processo de produção, pois a fusão se inicia nas pontas e arestas dos grãos (Nava, 1997). Em relação à química, a areia deve apresentar um teor elevado de SiO2 (98,5% - vidro comum e > 99% - vidro plano), baixo teor de Fe2O3 (0,08% para vidro plano, 0,1% para fibra de vidro e 0,3% para vasilhames de vidro colorido e de material refratário), além de um controle rígido nas percentagens de Al2O3, CaO, MgO, Na2O, K2O, TiO2, ZrO2 e Cr2O3 e elementos tais como cobre, níquel e cobalto, que mesmo em níveis de traços, são indesejáveis por produzirem cores e defeitos no vidro, tornando-o inaceitável no mercado (Harben & Kuzvart, 1996). Ferreira & Daitx (2003) acusam que a presença de zircão, ilmenita, magnetita, turmalina, além de feldspato, óxidos de ferro e manganês, etc. são os minerais que mais contribuem para o aumento do teor de contaminantes, tais como ferro, manganês e titânio para a produção de vidro.
Para a indústria de fundição a areia deve ser livre de argilas, apresentar alto teor de sílica (>98%), e baixos teores de CaO e MgO (Zdunczyk & Linkous, 1994) e a distribuição granulométrica deve ser estreita com grãos apresentando alta esfericidade. A areia usada na indústria de abrasivo e jateamento, deve apresentar cerca de 99,5% de SiO2, 0,10% de Al2O3, 0,025% de Fe2O3 e distribuição granulométrica entre 0,053 mm e 0,42 mm (Ferreira & Daitx, 2000).
Considerando os padrões estabelecidos pela indústria de fundição, ou seja, grãos com alta esfericidade e granulometria variando entre aproximadamente 1,00 e 0,07 mm, a análise dos resultados dos estudos granulométricas das amostras provenientes da região de Alto Coité e Poxoréu mostraram que as amostras Ap2, Ap8 e Ap11, não satisfazem estas exigências (Figura 02). As demais amostras podem ser utilizadas pela indústria de fundição, uma vez que a maior concentração de grãos com alta esfericidade posiciona-se na faixa granulométrica estabelecida como ideal para este fim.
As análises químicas do material in natura (Tabela 3) revelaram altos valores de SiO2, cujos teores ultrapassam 95% na maioria das amostras e baixas concentrações de Al2O3 e Fe2O3, principais contaminantes destas amostras.
As análises realizadas na fração 0,50 mm (Tabela 5) revelaram que as amostras Ap2 e Ap11 mostram menores percentagens de SiO2 e elevadas percentagens de Al2O3 e Fe2O3, comportamento este observado também na concentração de H2O, o que pode refletir a presença de maior quantidade de argilominerais provavelmente agregado aos grãos da fração areia. Na fração 1,19 mm (Tabela 4) observou-se o mesmo comportamento, que se repete também para a amostra Ap10, sendo que, nesta amostra o conteúdo de água é muito elevado. Os demais elementos analisados mostram comportamento geoquímico semelhante para todas as amostras e frações. A análise química da fração argila (Tabela 6) mostrou comportamento similar, devendo-se destacar que a amostra Ap2 apresenta alto conteúdo de Al2O3, enquanto a amostra Ap11, apresenta altas concentrações de Fe2O3, implicando na presença de argilominerais e oxido de ferro, respectivamente.
Na amostra Ap3, coletada num nível mais de topo do perfil levantado, foi observado maior conteúdo de silício e menor em ferro, potássio, manganês, magnésio e cálcio, o que pode estar relacionado à presença de menor quantidade da fração silte-argila nesse nível. Comportamento oposto é observado na amostra Ap11, coletada no nível mais basal do perfil, o que já era esperado, uma vez que esta amostra apresenta maior percentagem de material mais argiloso e de impurezas (principalmente, minerais pesados).
Considerando os resultados geoquímicos das amostras e tomando por base as especificações brasileiras apresentadas por Luz & Lins (2005), todas as amostras podem ser empregadas na construção civil.
Para o emprego do material estudado em outras finalidades deve ocorrer a remoção de ferro e alumínio (indústria de vasilhame) e alumínio (fundição) na maior parte das frações areia analisada, exceto para as amostras Ap2 e Ap11, cujo teor de TiO2 ultrapassa o teor das especificações e é de difícil remoção, impossibilitando que estas amostras sejam utilizadas nas indústrias de vasilhame e de fundição.
As análises químicas revelaram também que a matéria prima estudada se enquadra na maioria dos requisitos utilizados pela indústria de fabricação de vidro, ou seja, apresenta baixas concentrações dos elementos tidos como extremamente contaminantes, tais como titânio, magnésio, manganês, cromo, potássio, sódio e cálcio. O único fator a ser observado pela indústria de vidro é a presença de argila e de minerais pesados nos quais estão concentrados elementos contaminantes tais como ferro e alumínio. Este problema pode ser facilmente resolvido com um tratamento prévio do material para remoção de argila através de processo de peneiramento a úmido além de processos de flotação e/ou separação magnética para remoção de minerais pesados.

CONCLUSÕES
Considerando que o objetivo primeiro deste trabalho visava encontrar meios alternativos para compensar a decadência econômica imposta ao município de Poxoréu, desde que a atividade garimpeira entrou em declínio, a análise dos rejeitos provenientes de antigos garimpos da região permitiu identificar a possibilidade de novas frentes de trabalho na área.
Desta forma, os estudos granulométricos sugeriram que a maioria das amostras pode ser utilizada tanto para a indústria de fundição, devido à alta esfericidade dos grãos, concentrado nas frações maiores, assim como para a fabricação vidro, nas frações menores de baixa esfericidade, tendo em vista a maior facilidade da fusão se iniciar nas arestas dos grãos.
Os resultados geoquímicos mostraram que todas as amostras podem ser utilizadas pela indústria de construção civil, tomando por base as especificações brasileiras para esse fim, e sem que sejam necessários tratamentos especiais além de peneiramento. Com exceção das amostras Ap2 e Ap11, cujo teor de TiO2 ultrapassa o teor das especificações da ABNT e é de difícil remoção, as demais podem ser utilizadas nas indústrias de vasilhame e fundição, após serem submetidas a tratamento para remoção de ferro e alumínio. Outra aplicação das areias analisadas seria para uso na indústria de vidro, uma vez que apresentaram baixas concentrações de titânio, magnésio, manganês, cromo, potássio, sódio e cálcio, precisando para isso apenas passarem por processo de remoção dos argilominerais através de peneiramento, separação magnética de alta intensidade e/ou flotação.
Estudos futuros na área devem englobar a utilização das frações mais grossas na fabricação de semijóias e peças ornamentais, bem como a viabilização de cooperativas voltadas para estes fins, uma vez que estes seriam trabalhos artesanais de baixa produção, além de pesquisas voltadas à prospecção de ouro, cuja presença deste metal foi detectada nas análises químicas na maioria das amostras.

A expansão da exploração mineraria na Amazônia e suas consequências

A expansão da exploração mineraria na Amazônia e suas consequências


Ainda tem-se considerado que as grandes empresas são meios essenciais ao desenvolvimento econômico e tecnológico do país. Não raro são os discursos das empresas, mas, sobretudo, de governantes e políticos influentes, que elas são o símbolo do desenvolvimento, do progresso e geração de empregos. Por estarem atreladas aos processos de mercado bem mais amplos que os regionais e por serem estratégicas no marketing internacional, não por acaso, recebem gigantescos investimentos do Estado.
Na Amazônia brasileira, grandes empresas no ramo da mineração são beneficiadas com infra-estruturas (estradas, ferrovias, rede de energia elétrica, locais de instalação, portos e hidroelétricas), financiadas com dinheiro público, recursos financeiros e isenção de impostos. Controlam a “coisa pública” e extensos territórios onde exercem gestão autônoma criando enclaves que causam impactos sobre a organização regional e ao meio ambiente. Desse modo, a Amazônia ainda assume o alto valor estratégico para o poder hegemônico dessas empresas em termos de controle dos recursos e do espaço regional.
Procuramos mostrar, em primeiro lugar, a importância que tem a amazônia no que se refere as jazidas minerais já identificadas, exploradas e por explorar, o que representa a extração e transformação mineral neste território e seu peso na composição do Produto Interno Bruto - PIB da região, principalmente no Estado do Pará, berço de uma grande província mineral.
Procuramos identificar em que condições se desenvolve a indústria minerária na Amazônia brasileira, com apoio e incentivo do Estado tendo como base intensivos investimentos, com um aporte significativo de recursos, com uma produção voltada quase que exclusivamente para a exportação. Ao mesmo tempo que evidencia poucas possibilidades de incremento à economia local, possibilita a desestruturação das comunidades camponesas r a degradação ambiental.
Por fim tratamos dos impactos e contradições que esta atividade proporciona, das lutas de resistência desencadeada pelos movimentos sociais, e do que pensamos, como amazônidas, sobre o que fazer para criar novas formas de aproveitamento dos recursos naturais da amazônia.
2 - Exploração mineral: da garimpagem à empresarial.
A exploração minerária na Amazônia brasileira não é algo recente, muitos foram os garimpos de extração de ouro, diamante e cristal, as margens dos rios Araguaia, Tocantins e Tapajós, Xingu e Madeira, e vários de seus afluentes. Há casos de “ciclos” de extração aurífera embora de forma isolada e fragmentada ainda no período colonial como, por exemplo, na região que é hoje o Estado do Amapá e em Mato Grosso. Mas a partir do final da década de 1950 e início dos anos 1960 tornou-se uma prática quase que intensiva como, por exemplo, com a descoberta da província aurífera do médio rio Tapajós e de cassiterita, em Rondônia e em São Felix do Xingu (PA).
Além do ouro no leito do rio Madeira, em Rondônia, foram intensas e de grandes proporções, na década de 1980, as atividades auríferas no Estado de Roraima , Rondônia, no Oeste, Sul e Sudeste do Estado do Pará como, por exemplo, em Itaituba, Jacaracanga, Serra Pelada, Cumaru, Pau D’arco, Cuca, entre outros.
A exploração mineral de forma empresarial tem inicio em 1953, com a extração de manganês pela empresa ICOMI, no Amapá, mas é em 1947 que a empresa assina o contrato de concessão para exploração mineral, e em 1953, assina o contrato de concessão para a atividade portuária e ferroviária, considerado o marco zero da exploração mineral na amazônia.(50 ANOS DE MINERAÇÃO NA AMAZÕNIA, Fórum Paraense de Desenvolvimento, Belém, 2003).
Atualmente, embora se possa constatar que a exploração minenária esteja espalhada por toda a Amazônia, é possível considerar que essa prática seja mais intensa e de efeitos trágicos às comunidades camponesas em três grandes pólos: “`Amapá” com a exploração de bauxita, manganês, caulim e ouro; “Trombetas”, com a extração da bauxita pela Aluminium Limited of Canadá (Alcan) e a Mineração Rio do Norte (MRN), o Projeto Carajás, da Companhia Vale do Rio Doce, com a exploração de ferro, manganês, cobre, níquel e ouro.
Deste modo, é visível que a Amazônia vem tendo uma contribuição significativa na atividade de extração e transformação mineral realizada em território brasileiro, considerando a ocorrência na região de diversos minerais que influenciam na balança comercial do país, sendo o Pará o segundo maior estado exportador de minérios. A situação dos minérios mais extraídos na Amazônia é esta: em primeiro lugar, o ferro, que em 2008, respondeu por 35,2% do total nacional. Em segundo lugar, a alumina (bauxita) com 17,6%, em terceiro, o alumínio com 15,1% e em quarto, o cobre com 11,3%.
Em 2008 a extração do nióbio colocou o Brasil em 1º lugar no ranking internacional, em 2º com a extração do ferro, manganês e alumínio (bauxita), e em 5º com o caulim e o estanho. O estado do Amazonas participa com 12% do nióbio extraído no Brasil, e com 60% do estanho. Já o minério de ferro de Carajás, no sudeste paraense, representa o 2º lugar na extração nacional, colocando o Pará atrás apenas de Minas Gerais. O manganês da Mina do Azul, em Carajás, e da Buritirana, em Marabá, contribuíram com mais de 50% da extração nacional, dos 2,4 milhões de toneladas extraídas em 2008. O estado do Pará é ainda responsável por 100% da extração nacional dos minérios de caulim, 85% de bauxita, 60% do cobre e 10% do ouro.(Relatório de Produção, Vale, 2008).
A tendência para 2009, dependendo das condições da crise na economia mundial, é de que haja um crescimento significativo na extração de bauxita, cobre, níquel, fosfato e ferro, considerando a entrada em operação das minas de cobre e níquel, da Vale, em Carajás, a mina de bauxita da Alcoa, em Juruti, e o salto da extração de ferro de Carajás de 96 milhões de toneladas em 2008, para 126 milhões de toneladas, em 2009.
Há de considerar ainda que na Amazônia Legal, enquanto que a extração mineral responde por 25% do total das exportações, a transformação (ferro gusa, alumina e alumínio) responde por 21%. Os estados do Pará e Maranhão, em 2008, responderam por 26% das exportações da Amazônia Legal, com destaque para o ferro, cobre e manganês, que representaram 89% da comercialização de minério da Amazônia ao exterior. As exportações de ferro gusa, alumínio e alumina representaram 88% da exportação deste segmento na Amazônia.(Indústria da Mineração, IBRAM, outubro de 2008)
Vale ressaltar ainda que o extrativismo mineral representou 59,2% dos 8 bilhões de dólares produzidos pela indústria mineral do Estado do Pará. O município de Parauapebas, no sudeste paraense, participou com 35,8% (minério de ferro), Barcarena com 33,3% (alumina e alumínio), Canaã dos Carajás com 10% (cobre), Marabá com 7,1% (ferro gusa e manganês), Oriximiná com 6,3% (bauxita), contribuindo significativamente para o crescimento do Produto Interno Bruto(PIB) estadual. O município Belém participou com 28,21%, para o Produto Interno Bruto do Estado, em segundo lugar, Barcarena com 8,03%, Parauapebas com 6,72%, Marabá com 5,91%, Ananideua com 5,56%, Canaã dos Carajás com 1,58% e Oriximiná com 1,42%.
Tratando-se de reservas conhecidas, o Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking mundial em Bauxita, com depósitos concentrados em três distritos principais: Trombetas (médio Amazonas), Almeirim (baixo Amazonas) e Paragominas-Tiracambú (plataforma Bragantina). Já os depósitos de caulim estão distribuídos em três principais distritos: Manaus (médio Amazonas), Almeirim (baixo Amazonas) e Capim (plataforma Bragantina). O ouro e cassiterita estão distribuídos pelas mais diversas áreas da região amazônica. Serra Pelada, no sudeste do Pará, por exemplo, ainda representa grande potencial aurífero fato este de entreveros entre a Companhia Vale do Rio Doce e cooperativas de garimpeiros, no município de Curionópolis. As jazidas de ferro em Carajás, com seus 18 bilhões de toneladas de minério, correspondem à maior concentração de alto teor já localizada no planeta distribuídas em quatro setores principais: Serra Norte, Serra Sul, Serra Leste e Serra de São Félix ou Serra Arqueada.
Vale considerar que a pesquisa, extração e transformação mineral no estado do Pará ocorrem em quatro principais regiões: no Oeste, envolvendo os municípios de Oriximiná, Juruti, Monte alegre, Alenque e Óbidos; no Nordeste, compreendendo os municípios de Paragominas, São Domingos do Capim e Barcarena; no sudeste destaque para os municípios de Marabá, Cuiriomópolis, Parauapebas e Canaã dos Carajás; e no Sul, os municípios de Xinguara, Ourilândia do Norte, Tucumã, São Félix do Xingu, Rio Maria, Floresta do Araguaia, Santa Maria das Barreiras e Conceição do Araguaia.
4 – As conseqüências
A extração e transformação mineral na Amazônia efetivada pelas principais empresas do ramo: a Companhia Vale do Rio Doce, a Vale, a Anglo Americam, a Alcoa, a Albrás, a Aluminium Limited of Canadá, a Alunorte, Rio Tinto, a Mineração Rio do Norte, CBA, Imerys Rio Capim Caulim S.A, Caulim da Amazônia S.A (CADAM/Vale), ICOMI, Pará Pigmentos S.A (PPSA/Vale), Xtrata e Caraíba Metais, com o apoio e incentivo dos governos estaduais e federal vem se dado de forma espoliatória e predatória, desterritorializando populações tradicionais e degradando o meio ambiente. É notória a poluição do ar, do solo e das bacias hídricas, além do desflorestamento, destruição de habitat natural de animais silvestres e destruição de sítios arqueológicos. São projetos dirigidos de fora para dentro da região sem que os amazônidas tenham a oportunidade de discutir e opinar sobre a viabilidade, necessidade e conseqüências desses empreendimentos.
O que se percebe é que o impacto da mineração é localizado, desestruturante e ao mesmo estruturante, ao modo que interessa às empresas. Desestrutura as comunidades locais, urbanas e rurais além de provocar a migração de milhares de pessoas. Diversas são aquelas que chegam de outras regiões do país e do campo acreditando que as atividades dessas empresas vão melhorar as suas vidas. É visível o aumento, sem controle, da população no entorno dos projetos mineralógicos. Não só os núcleos urbanos próximos dessas áreas passam por rápidas e indesejáveis transformações com o crescimento populacional, mas surgem outros aglomerados urbanos. O emprego esperado não aparece. Para sobreviver muitos são aqueles que se enveredam nos trabalhos temporários e informais. Assim, grande é o contingente de trabalhadores e trabalhadoras itinerantes, de vida marcada pela provisoriedade e mobilidade, e de mão-de-obra polivalente que lutam cotidianamente pela sobrevivência. Os efeitos até então incontroláveis, nessas regiões, tem sido a elevação do índice de violência com destaque para os homicídios, comércio de drogas, prostituição e acidentes de trânsito.
Os registros mostram que na área de influência da Vale no sudeste paraense(municípios de Marabá, Parauapebas, Canaã dos Carajás, Eldorado dos Carajás e Curionópolis), as mortes por causas violentas aumentaram, do ano de 2007 para 2008, em 23%, considerando os corpos que passaram pelo Instituto Médico Legal de Marabá. No ano de 2008, os municípios de Marabá e Parauapebas, foram os que mais registraram mortes por assassinatos. Marabá saltou de 187 assassinatos, em 2007, para 266, em 2008, e Parauapebas, saltou de 62, em 2007, para 94, em 2008.( jornal Correio do Tocantins, Marabá, 10 a 12.01.2009).
A própria Companhia Vale do Rio Doce encaminhou uma pesquisa na área de sua influencia direta, no sudeste do Pará (Área de Influência Direta da Vale) e constatou que entre 2000 e 2005 o crescimento populacional foi de 22,9% e a projeção de crescimento do ano de 2005 para o ano de 2010, será de 92,9%. O que representa o total de habitantes no ano de 2000, de 334.386 habitantes, no ano de 2005, de 423.361, e a projeção para o ano de 2010, se for desenvolvidos todos os investimentos previstos, será de 817.268 habitantes.(CVRD & Diagonal Urbana, 2006.).
Os migrantes que ali chegam diariamente, sem alternativa, se aventuram na formação de novos bairros (ocupações) compostos por casas, às vezes precárias, sem água encanada e sem esgoto sanitário. São, em sua maioria, trabalhadores pobres, analfabeto ou de baixa escolaridade, sem profissão definida, mão-de-obra polivalente, de vida itinerante, às vezes complexas, marcada por condições provisórias e alta mobilidade. Até parece que estamos, não de outro modo, diante de uma sociedade dentro da sociedade, algo não exclusivo de Marabá, mas uma sociedade desenraizada, dilacerada, excluída, que aos poucos está sendo incluída, mas de outro modo, desumana, de forma precária, instável e marginal. Uma humanidade incorporada através do trabalho precário, do pequeno comércio, no setor de serviços mal pagos ou, até mesmo escusos.
Os povos indígenas vão sendo cercados, não mais apenas pelos latifúndios e exploração madeireira, mas agora pela exploração mineral, suas áreas se tornam como ilhas de florestas, rodeadas por frentes de destruição e opressão. Os Gaviões tiveram suas terras atravessadas pela rodovia BR-222, pela linha de transmissão de energia elétrica, que sai de Tucuruí rumo ao nordeste brasileiro, e pela ferrovia Carajás/Ponta da Madeira(São Luis-MA). Os Xikrins do Catete se vêem ameaçados pelos projetos Salobo, de extração de Cobre, no município de Marabá, e pelo projeto de extração de Níquel, em Ourilândia do Norte, pela Vale. Todos com riscos de degradação ambiental com alterações significativas sobre a caça e a pesca.
Por outro lado, o impacto da mineração é estruturante ao modo que interessa às empresas. Aproveitam da conivência e submissão do Estado, das precárias condições que vivem a maioria das populações dos municípios onde elas se instalam, para através da manipulação da consciência das pessoas, com o discurso da chegada do desenvolvimento e do progresso, criar um ambiente favorável para sua implantação e domínio. Desse modo, os dos governantes municipais, governadores dos Estados e não raros deputados e políticos influentes assumem o discurso e a defesa dessas empresas além de lhes possibilitar infra-estrutura, colaboração financeira e isenções tributárias, com vistas a fornecer-lhes condições competitivas e assecuratórias ao bom funcionamento dos seus empreendimentos.
Portanto, uma das situações emblemáticas que até hoje tem gerado conseqüências negativas ao meio ambiente e à população local, é a exploração do manganês, em Macapá no estado do Amapá. Depois da retirada de quase todo o minério, crateras de até 170 metros de profundidade ficaram ao céu aberto. Enormes também são os estoques de rejeitos. “Calcula-se, que em Santana, estão estocadas cerca de 70.000 toneladas de rejeito provenientes do processo de pelotização e que apresenta um percentual de arcênio superior ao encontrado no minério inatura. A Fundação Evandro Chagas(em Belém), depois de inúmeros exames laboratoriais, recomenda a imediata retirada deste rejeito para que não se tenha risco de contaminação de qualquer natureza às pessoas ou comunidades próximas a estes locais.”(Waldez Góes, governador do Amapá, Forum Paraense de Desenvolvimento, 50 Anos de Mineração na Amazônia, Cejup, 2003).
Em Oriximiná (PA), a Mineração Rio Norte (MRN) que explora as reservas de bauxita nesse município, provocou degradação ao meio ambiente com os rejeitos da mineração a partir da emissão de partículas sólidas e material estéril, como argila, bauxita fina e areia.
As populações locais formada em sua maioria por camponeses e ribeirinhos foram alijadas de seus direitos sobre as áreas de castanhais que ficam ao norte da Floresta Nacional de Sacará-Taquera, onde a mineradora está situada. Já a Alumino Brasil S/A (ALBRAS) e a Alumina Norte Brasil S/A (ALUNORTE) grandes produtoras nacionais de alumina e alumínio instaladas no município de Barcarena(PA) tem causado enormes prejuízos às comunidades locais com o carreamento de poluentes compostos com dióxido de alumino e soda caustica para os cursos d’água. A Pará Pigmentos S/A (PPSA) é outra empresa que tem causado sérios danos ambientais às comunidades no norte do estado do Pará. O beneficiamento de caulim, no município de Ipixuna tem contaminado cursos d’água afetando tragicamente as comunidades ribeirinhas. A CVRD tem trazido sérios prejuízos às comunidades de quilombolas de Jambuaçú e outras comunidades dos municípios de Acará e Mujú com a construção de 180 quilômetros de mineroduto (transporte de bauxita) e linhas de transmissão de energia elétrica. Não só a produção agrícola foi prejudicada, mas vilas e povoados foram impactadas diretamente pelos empreendimentos.(relatos de afetados).
Casos notórios são também aqueles causados pela CVRD no sudeste do Pará. A exploração do ouro no igarapé Bahia espalhou substâncias químicas na região por conta do uso de soda cáustica e cianeto para a separação do minério da rocha primária. Não muito distante a empresa construiu uma barragem de contenção no igarapé Gelado para o barramento de rejeitos oriundos da exploração do minério de ferro na Serra de Carajás. Em 1992 esta barragem transbordou e inundou áreas de camponeses da região causando sérios prejuízos econômicos e ambientais. Desde então são ameaçados por outras inundações. Recentemente esta empresa tem causados danos aos assentados do Projeto de Assentamento Cinturão Verde, município de Marabá. Os serviços de prospecção efetivados pela empresa têm contaminados nascentes de águas e danificado estradas e cercas de arame dos camponeses. A Mineração Buritina S/A, instalada dentro desse mesmo assentamento vem contaminando as águas dos igarapés Bandeira e Grotão com a exploração do manganês. Trabalhadores têm reclamado que no período chuvoso os rejeitos provenientes da lavagem do minério tem alcançado os cursos d’água impossibilitando o seu uso.
As empresas de mineração na Amazônia são beneficiadas pela Lei “Kandir”. Como elas exportam produtos considerados matérias-prima elas são isentas de pagar Impostos sobre Circulação de Mercadorias (ICMS). Os valores dos royalties ou da Contribuição Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) repassado pelas empresas aos municípios são extremamente baixos. Eles variam entre 1 e 3% do faturamento líquido, como os cálculos são feitos pelas empresas mineradoras, a união o estado e município sempre são lesados. O municipio de Parauapebas-PA, após uma auditoria, identificou que foi lesado pela Vale em mais de 700 milhões, como a Vale não se propõe pagar, a reclamação está na justiça.
Em 1997, do faturamento de mais de 2 bilhões de dólares conseguido pelas empresas com a movimentação da bauxita extraída, em Oriximiná, e da produção de alumínio, em Barcarena, somente 30 milhões de dólares foram recolhidos aos cofres públicos, o que representa apenas 1,5% do faturamento. Em 2008, o recolhimento de 700 milhões de reais representou somente 1,44% do faturamento. Significa que nem os 2%, como manda a Lei que determina o valor da CFEN, está sendo cumprida.
5 – A resistência.
Em toda a região de extração e transformação mineral os movimentos sociais tem se manifestado contrário a esta lógica perversa do capital dirigida pelas corporações, no intuito de resistirem, enfrentarem e alterarem o modelo dominante.
Na região de Carajás, em 2008, ocorreram várias manifestações com a ocupação dos trilhos da estrada de ferro de Carajás ao porto em São Luis-MA, administrada pela Vale, coordenados pela Via Campesina e povos indígenas, que culminou na criação do Movimento dos Trabalhadores na Mineração(garimpeiros), e o lançamento de um manifesto, intitulado MANIFESTO DA MOBILIZAÇÃO DOS CAMPONESES DE MARABÁ.
Mais de 200 trabalhadores rurais dos projetos de assentamento Tucumã e Campos Altos, em Ourilândia do Norte, em setembro de 2008, interditaram por três dias uma estrada, usada pela Vale, que dá acesso a áera de mineração da serra Onça, onde a empresa vai fazer a extração de Níquel, até que representantes da Vale se dispuseram a discutir com a comunidade, os problemas sociais e ambientais causados pela mineradora.
Uma manifestação que começou com 800 trabalhadores e terminou com 2.500, foi feita no final de janeiro de 2009, em Juruti, Oeste do Pará, pelos atingidos pela mineradora Alcoa, que está se implantando naquela região para extração e transformação de bauxita. A manifestação que durou uma semana, resultou numa negociação entre os trabalhadores e o representante da empresa, para a América Latina, envolvendo órgãos estaduais e os ministérios públicos estadual e federal.
CONCLUSÃO
As características do capitalismos são as mesmas em qualquer parte do mundo: concentração dos meios de produção; desenvolvimento das forças produtivas; exploração da força de trabalho; acumulação da mais-valia por poucos; e geração de pobreza e miséria para a maioria.
Na amazônia a expansão da exploração mineral se dá com a forma também de expansão do capitalismo, que institui um modelo destruidor e perverso, com a apropriação e exploração intensiva da terra, águas, floresta e da força de trabalho, abundante e barata. Este modelo dominante sob a hegemonia das mineradoras, proporciona a formação de castas de beneficiários e soberbos imediatos e intermediários, por outro lado gera a desigualdade, exclusão, pobreza, miséria, degradação ambiental e conflitos.
São projetos baseados no extrativismo, de curta duração, que não agregam para o desenvolvimento local, desestruturam as relações de trabalho e de integrações tradicionais, e estruturam a sociedade do caos: aglomerados populacionais com alto ídice de desemprego, crimilalidade, com péssimas condições de habitação, saneamento básico e educação.
O Estado, prostituto de todas as horas e arrecadador de migalhas, na defesa do Capital coloca a disposição das corporações todo seu aparato jurídico e policial, para facilitar a implantação dos empreendimentos e seu funcionamento, e a repressão dos movimentos sociais que venham a se opor a esta lógica.
Para que a mineração na Amazônia possa gerar benefícios para as populações locais e diminuir as desigualdades e pobrezas e não aumentá-las, como tem sido até o momento, se faz necessário que seja planejada pelo Estado, e não pelas empresas, com participação da sociedade civil, com uma outra política de arrecadação e aplicação dos royalties.
Não interessa para a sociedade amazônica a extração e transformação mineral, da forma de saque como está sendo feita, com a geração de crateras, mazelas e seqüelas, que jamais possam recuperadas. Não nos interessa os rejeitos tóxicos, as matas devastadas, o solo e águas poluídas e as populações massacradas, desaculturadas e marginalizadas. Torna-se um desafio a desconstrução do atual modelo imposto pelo capital, com a subordinação do Estado, e a construção de uma outra possibilidade de aproveitamento de forma racional dos recursos minerais na amazônia.

GARIMPO | Vila da Ressaca, os restos de um sonho dourado

GARIMPO | Vila da Ressaca, os restos de um sonho dourado


Comunidade Vila da Ressaca. Foto: Victor Moriyama
Em consonância com o nome, Vila da Ressaca é o que sobrou dos tempos em que havia ouro abundante no local. Essa comunidade de garimpeiros fica na chamada Volta Grande do rio Xingu, uma grande curva em formato de ‘U’ que começa logo abaixo de Altamira. Esse trecho do rio está condenado pela hidrelétrica de Belo Monte, que vai secá-lo com a construção de um canal de 100 quilômetros, o qual criará um atalho reto entre uma ponta e a outra da Volta Grande, até chegar à boca da usina. As comunidades ribeirinhas que vivem à sua margem, deixarão de sê-lo: não serão mais banhadas pelas águas do Xingu.
 

A construção de Belo Monte fez Altamira borbulhar de crescimento. Da construção civil ao transporte aquático, o preço de tudo subiu. A passagem de uma voadeira da cidade até Vila da Ressaca triplicou, de R$15 para até R$50. Chegar lá toma uma viagem de 2 horas rio abaixo.
 

Uma curiosidade sobre a Ressaca: ela fica dentro do município de Senador José Porfírio, porém a cidade de Altamira está entre metade e um terço da distância da Vila até a sede de Senador Porfírio. Estamos no Pará, em plena Amazônia, onde municípios podem ter a área de países.
 

Nos áureos tempos, a Ressaca chegou a abrigar 6 mil habitantes. Hoje, o número caiu para cerca de 200 famílias, que somam algo como 800 pessoas. Metade se dedica à extração de ouro, dividido em 6 garimpos: do Galo, Itatá, Morro dos Araras, Grota Seca, Ouro Verde e Curimã.
Ao contrário do Galo, onde os túneis atingem 380 metros de profundidade, no garimpo Morro das Araras, a exploração é rasa, feita em buracos de até 10 metros de profundida por 20 de largura. O nome vem dos índios que ali habitaram até 1930, quando foram expulsos pela chegada da mineração. Eles lutaram, matando e afundando os barcos dos recém-chegados, que também morriam de malária. O pico da produção de ouro na região foi na década de 1960 e 70, quando a exploração era feita por empresas do ramo. Elas foram embora quando acabou o ouro fácil, próximo da superfície. Hoje, a exploração é rude, feita por garimpeiros precariamente equipados.
 
Garimpeiro em buraco aberto para exploração de ouro. Foto: Victor Moriyama
No morro das Araras, a rotina da busca do ouro é desmatar e cavar buracos com água de mangueiras de alta pressão. Um buraco é aberto a cada 2 dias. A medida que é liquifeita, a terra é retirada por uma máquina apelidada de "chupadeira", que a joga em uma rampa. A lama desce pela rampa de madeira de alguns metros de comprimento até o seu fim, quando é filtrada por uma caixa que contém uma peneira e mercúrio. A peneira segura os resíduos que podem conter ouro, o mercúrio aglutina o metal. O líquido enlameado que passa, já contaminado por mercúrio, enche um outro buraco. Uma vez exploradas, as crateras são abandonadas.

Recolhimento de rejeito e moagem fina. Foto: Victor Moriyama

Quando o material é composto por pedregulhos, passa pelos chamados "moinhos", máquinas que trituram a rocha. Após essa etapa, também seguem para o mesmo tipo de rampa que termina no tanque fechado com mercúrio.
Rejeito já contendo mercúrio é escoado em lagoa. Foto: Victor Moriyama
O segundo método de mineração – e o mais usado agora que o ouro é escasso – é através de galerias dentro de túneis profundos. Eles são abertos com explosivos. E de explosão em explosão, de galeria em galeria, podem chegar a 400 metros de profundidade.
Garimpeiros usam explosivos. Foto: Victor Moriyama

Descida de arrepiar
A descida até lá dura 20 minutos e é feita através de um sistema tosco de cordas e roldanas, operadas pelos companheiros da superfície, que acompanham o processo por rádio. Os garimpeiros brincam que muitos se acovardam a descer. Pudera, acidentes fatais são costumeiros, a temperatura lembra a de uma sauna e a única luz da descida é uma lanterna de pilha, segura na mão e presa ao peito do garimpeiro por um cabinho. Durante o percurso, o túnel pode ter larguras de até 10 metros ou passagens estreitas de 1 metro. O destino final é uma galeria de cerca 10 metros de largura por 7 de altura, mal iluminada por lâmpadas de 60 watts. Lá, o garimpeiro enche uma grande esfera oca, de borracha grossa, capaz de suportar uma carga de pedregulhos que podem conter ouro. Essa bola é içada à superfície, e se tudo der certo, o garimpeiro volta também. Os acidentes mortais são encarados como destino divino.

Garimpeiro recolhendo pedregulhos para moagem.Foto: Victor Moriyama
Para os gerentes do garimpo, o dinheiro pode ser bom. Eles ganham até R$10 mil por semana, pagos em ouro, que aqui ainda é moeda. Nada é feito de acordo com a lei. As licenças de mineração expiraram e os explosivos – que exigem permissão do exército -- são usados ilegalmente. O trabalho é informal e o trabalho infantil, comum. Filho de garimpeiro entra logo para o garimpo, aprende a trabalhar, nem que seja para carregar pedras de um lado para o outro, com um carrinho de mão.

O Mercúrio é utilizado na fundição do ouro. 
Foto: Victor Moriyama

Qualquer que seja a técnica usada no garimpo, o mercúrio é onipresente. Ele é tóxico, difícil de degradar e envenena fauna, flora e gente. Os garimpeiros correm o risco de inalá-lo durante o processo de separação do ouro, uma forma grave de contaminação. O rejeito contaminado é despejado próximo aos moinho, até terminar no Xingu ou penetrar o lençol freático.

Porque o mercúrio é usado na mineração de ouro

Entre as propriedades do mercúrio, está a capacidade da forma orgânica desse elemento se acumular ao longo da cadeia alimentar, causando a contaminação de peixes e o risco de envenenamento de quem deles se alimenta , inclusive seres humanos. A intoxicação por mercúrio pode provocar danos ao sistema neurológico. As consequências podem variar desde dores no esófago e diarreia a sintomas de demência. Depressão, ansiedade, dentes moles por inflamação e falhas de memória também estão entre os sintomas. Um perigo ofuscado pelo brilho do ouro.

 

Para o garimpeiro, o que importa são outras propriedades do mercúrio. Primeiro, a capacidade de se unir a outros metais e formar amálgamas, o que é fundamental em garimpos, onde os minúsculos grãos de ouro precisam ser separados dos sedimentos dragados de leitos de rios ou da terra escavada. Após esse cascalho passar um período em esteiras, para que os metais se assentem e sejam separados de sedimentos mais leves, o material concentrado é jogado em betoneiras onde é misturado à agua e ao mercúrio.
 

Os pequenos grãos se agregam com ajuda do mercúrio e podem ser separados com mais facilidade. Em garimpos onde é usado maquinário mais pesado, como balsas, os sedimentos são dragados para dentro de misturadores, chamados pelos garimpeiros de cobra-fumando, onde se costuma também utilizar o mercúrio para evitar que partículas de ouro sejam desperdiçadas. No final, os restos contaminados são despejados no solo ou no rio.