Contexto geológico de kimberlitos, lamproítos e ocorrências diamantíferas do Brasil
O
diamante foi e continua sendo um mineral de importância histórica no
Brasil. Existem ocorrências praticamente em todo o território nacional,
exceptuando-se alguns estados nordestinos e ilhas oceânicas. O Brasil
foi o primeiro país do ocidente a lavrar diamante a partir da descoberta
de depósitos detríticos na região de Diamantina (MG) no início do
século dezoito, assumindo logo a seguir a posição de primeiro produtor
mundial. Essa situação perdurou até a segunda metade do século dezenove,
quando a descoberta da rocha matriz do diamante na África do Sul
modificou o panorama geoeconômico do diamante. O Brasil nunca mais
recuperou sua posição anterior e nos últimos anos a produção vem
representando apenas 1% do montante mundial
As amostras as principais ocorrências diamantíferas brasileiras, aqui
representadas por meio de um centro geográfico local. Partindo da região
de Tibaji (PR) que representa os depósitos mais meridionais do país, o
diamante ocorre nas regiões sul (Itararé) e nordeste (Patrocínio
Paulista) de São Paulo, Alto Paranaíba (Abaeté, Coromandel, Patos,
Estrela do Sul, Romaria) e região central de Minas (Diamantina, Grão
Mogol), Chapada Diamantina na Bahia, Pará (Marabá), Piauí (Gilbués),
Maranhão (Imperatriz), Mato Grosso (Barra dos Garças, Chapada dos
Guimarães, Aripuanã, Juína), Goiás (Aragarças, Piranhas), Mato Grosso do
Sul (Coxim), Amapá, Rondônia e Roraima. Tudo indica que existem pelo
menos duas idades distintas para o diamante: uma proterozóica,
representada pelas ocorrências do Espinhaço e de Roraima, e outra
mesozóica, para o caso dos depósitos do Alto Paranaíba (MG).
Eventualmente, os depósitos periféricos das bacias paleozóicas poderiam
representar uma terceira idade de mineralização.
Apesar
da extensão das ocorrências, que traz embutida a idéia de um grande
potencial econômico, os primeiros trabalhos de prospecção de kimberlitos
só começaram no final dos anos sessenta. A partir de 1968, a Sopemi, na
época uma empresa francesa ligada ao BRGM, deslanchou uma prospecção
sistemática de kimberlitos baseada no rastreamento de minerais pesados
(granada piropo, ilmenita magnesiana, diopsídio, cromioespinélio) nos
municípios da região do Alto Paranaíba, Minas Gerais, que em pouco tempo
conduziu à localização de um grande número de intrusões kimberlíticas.
Nos anos seguintes a Sopemi estendeu esses trabalhos para os estados de
Goiás, Mato Grosso, Bahia, Pará, Rondônia, Piauí, Roraima, Mato Grosso
do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ampliando ainda mais
o número de corpos conhecidos. Paralelamente às atividades da Sopemi,
tivemos a Prospec no início dos anos setenta e a BP no início dos anos
oitenta que também realizaram prospecção de kimberlitos em vários pontos
do Brasil Nenhuma informação foi publicada por essas empresas, mas
BARBOSA (1985) estima que o número de corpos encontrados ultrapassa
cinco centenas.
As
primeiras informações dos kimberlitos do Alto Paranaíba foram
apresentadas por BARBOSA et al. (1976) e SVISERO et aL (1979).
Basicamente, existe na região um grande número de corpos vulcânicos com
diâmetros entre 100 e 800 m, em geral cobertos por um solo de alteração
(yellow ground) que dificulta o mapeamento e a obtenção de rochas
frescas. Contudo, análises químicas de minerais residuais (granada,
ilmenita, diopsídio e espinélio) recolhidos sobre os diatremas
permitiram identificar os Kimberlitos Vargem, Boqueirão, Coqueiros,
Tamborete, Japecanga, Morungá, Capão da Erva, Lagoa Seca, Santa Clara,
Forca, Santa Rosa, Bonito, Tabões, Mascate e Mouras (SVISERO et aL,
1984). A aplicação de métodos geofísicos, por outro lado, permitiu
mapear os diatremas Limeira, Sucuri, Indaiá, Vargem 1 e 2 e Poço Verde.
Recentemente foram divulgados dados químicos do Kimberlito Matinha
(SVISERO & MEYER, 1986) e de um lamproíto próximo a Presidente
Olegário (LEONARDOS & ULBRICH, 1987). Encontram-se em fase de
estudos as intrusões do Pântano, Tapera, Rocinha, Divino, Santana dos
Patos, Veridiana, Ponte, Malaquias, Três Fazendas, Mirante, Serrinha,
Paraíso, Almas, Wilson e outras. Estão incluídas aqui rochas com
características de kimberlitos, em geral alteradas e formando relevo
negativo, bem como lamproítos que formam diatremas comparavelmente
maiores, com relevo positivo e rochas frescas. Observações de campo
indicaram que as intrusões do Alto Paranaíba constituem uma província
kimberlítica que se estende de Catalão (GO) até Boa Esperança (MG),
acompanhando aproximadamente a área do Soerguimento do Alto Paranaíba.
Na região de Bambuí, BARBOSA (1985) localizou os Kimberlitos Cana Verde,
Boa Esperança, Ingá, Almeida e Quartéis.
Além
da região oeste de Minas Gerais, existem dados sobre alguns corpos
isolados em outros estados. Assim sendo, são conhecidos os Kimberlitos
do Redondão (SVISERO et aL, 1975) e Açude (SVISERO & MEYER, 1986)
respectivamente no sul e leste do Piauí; Pimenta Bueno (SVISERO et aL,
1984) no leste de Rondônia; Batovi (SVISERO & MEYER, 1986) no centro
de Mato Grosso, e Janjão (SCHEIBE, 1980) no centro leste de Santa
Catarina. Além disso, existem informações de caráter geral sobre a
existência de kimberlitos em vários locais do Brasil coincidindo com os
dados relatados anteriormente. Além de BARBOSA (1985) que menciona
vários kimberlitos em Minas Gerais, Rondônia, Piauí e Mato Grosso,
FRAGOMENI (1976) menciona a existência de quatro dezenas de intrusões na
região de Paranatinga (MT) e SCHOBENHAUS et aL (1981) inclui no mapa
geológico do Brasil vários kimberlitos em Minas Gerais, Mato Grosso e
Rondônia.
Retornando,
observa-se que os kimberlitos, lamproítos e intrusões conexas do oeste
mineiro situam-se sobre a Faixa de Dobramentos Araxaídes, ou seja, a
oeste e fora do Cráton do São Francisco. No sul da África, os
kimberlitos mineralizados encontram-se dentro do Cráton do Kaapvaal
(DAWSON, 1980). Circundando aquele cráton, mas fora dele, ocorrem
kimberlitos estéreis, nefelinitos, melilititos e carbonatitos (MTTCHELL,
1986). Tendo em conta esse modelo, os kimberlitos do oeste mineiro
teriam poucas chances de serem mineralizados. Contudo, considerando-se o
quadro geológico dos lamproítos da região noroeste da Austrália
(JACQUES et aL, 1985), é muito provável que no oeste mineiro exista um
grande número de intrusões lamproíticas, e entre elas corpos
mineralizados. É possível até que o número de lamproítos predomine sobre
o de kimberlitos. Quanto ao diamante, sabe-se que uma das intrusões do
Grupo Três Ranchos (GO) é mineralizada, embora o teor não seja
comercial. Além desse corpo, outras duas intrusões próximas de
Coromandel (MG) possuem microdiamantes. Algumas intrusões do Alto
Paranaíba já foram datadas: o Kimberlito Poço Verde (DAVIS, 1977) possui
80 Ma. e o Limeira (SVISERO & BASEI, em preparação) 110 Ma. Esses
números mostram que o diamante do Alto Paranaíba é cretácico concordando
com as observações regionais q[ue mostram a presença de diamante
associado a granadas e ilmenitas kimberlíticas nos conglomerados
cretácicos em Romaria e Coromandel (SVISERO et al., 1980). Parece claro
que as diatremas foram cortadas pela erosão no final do período
Cretáceo, e os eventuais diamante» incorporados nos conglomerados Bauru
que hoje coroam os chapadões que cobrem o Araxá e o Bambuí na região.
Não obstante esses fatos, TOMPIKINS & GONZAGA (1989) defendem ponto
de vista contrário e relacionam o diamante do oeste mineiro à geleiras
pré-cambrianas que teriam se deslocado de norte para sul. Fora de Minas
Gerais os dados são ainda incipientes e não permitem fazer qualquer
avaliação sobre a origem do diamante. Sabe-se apenas que existem corpos
mineralizados nas regiões de Pimenta Bueno (RO) e Juína (MT).
Concluindo,
podemos dizer que embora o diamante venha sendo explorado desde o
início do século dezoito no Brasil, existem poucas informações sobre
suas fontes primárias, kimberlitos e lamproítos. Embora as pesquisas de
kimberlitos tenham começado tardiamente em nosso país, e não obstante
dificuldades de vários tipos, dispomos de dados que permitem afirmar que
existem no Brasil pelo menos doze Províncias Kimberlíticas a saber:
Alto Paranaíba (MG), Bambuí (MG), Amorinópolis (GO), Paranatinga (MT),
Fontanilas (MT), Pontes e Lacerda (MT), Pimenta Bueno (RO), Urariquera
(RR), Gilbués (PI), Picos (PI), Lages (SC) e Jaguari (RS), conforme
esquema da .
A
Província do Alto Paranaíba é a mais conhecida e nela já foram
localizados pelo menos duas centenas de corpos com características de
kimberlitos e lamproítos. Faltam estudos de química mineral para definir
a petrogênese dessas rochas.
Garimpo atraiu mineradores informais para terras indígenas, causando conflitos
A recém-inaugurada estrada
Interoceânica, que liga o Brasil ao Peru, tem abrigado em suas margens
precários acampamentos de garimpeiros, que desbravam a Amazônia atrás de
ouro. Nessa busca, eles se somam a indígenas da região, que dizem
recorrer à mineração para compensar a falta de atenção governamental.
Estimulados pela alta de 100% no preço do metal
desde 2008, auge da crise econômica mundial, índios e garimpeiros
peruanos integram uma nova corrida ao ouro que se espalha pela América
do Sul e tem no Peru, maior produtor do minério do continente, um de
seus principais palcos.Concluída em 2011 e financiada pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), a Interoceânica foi construída para facilitar o trânsito de mercadorias entre o noroeste do Brasil e portos peruanos no Pacífico.
Moradores de cidades peruanas cortadas pela estrada dizem que aos poucos ela cumpre seu objetivo, mas, por ora, o impacto mais visível da construção foi o surgimento de "cidades de lona" às suas margens no departamento (Estado) de Madre de Dios.
Migrantes do Altiplano Andino se instalaram em barracas para explorar o ouro nas margens do rio Madre de Deus e de seus afluentes. A BBC Brasil esteve em alguns desses acampamentos, que se estendem na rodovia por pelo menos 50 quilômetros e começam a surgir a cerca de 250 quilômetros da fronteira com o Brasil.
Prostituição
Durante o dia, quando os mineradores estão no garimpo, os acampamentos ficam às moscas. Mesmo assim, bares sustentados por pedaços de pau e cobertos por lona tentam atrair clientes com prostitutas à entrada e música no máximo volume – geralmente reggaeton, ritmo popular nos países hispano-americanos. Como não há rede elétrica, a energia é provida por geradores a óleo diesel."Não é um lugar bonito, mas estou aqui pela grana", afirma uma jovem prostituta que não quis ser identificada. Nascida há 25 anos em Pucallpa, cidade com 270 mil habitantes ao norte de Madre de Dios, ela se mudou para o garimpo em 2009, a convite de uma prima. Com os programas, diz ganhar o equivalente a US$ 300 (R$ 602) por semana.
Embora se diga satisfeita com a vida no acampamento, a jovem afirma que muitas colegas vivem sob constante ameaça dos patrões, que retêm seus rendimentos e impedem que elas voltem a suas cidades.
Segundo a polícia peruana, há cerca de 400 bordéis clandestinos à beira da Interoceânica, onde ao menos mil menores de idade atuam como prostitutas.
De acordo com a polícia, algumas são oferecidas aos clientes numa espécie de promoção, em que a compra de uma garrafa de uísque lhes dá o direito de ter relações com as jovens em minúsculos quartos de plástico.
Embates
Margens da Interoceânica tem acampamentos e prostíbulos
Em resposta, no dia 14 de março, cerca de 15 mil mineradores, segundo estimativa da imprensa local, foram protestar em Puerto Maldonado, capital de Madre de Dios. O grupo rapidamente bloqueou a ponte estaiada à entrada da cidade e rumou para o aeroporto, com o intuito de tomá-lo.
No entanto, os 15 mil se depararam com 700 policiais no caminho, que abriram fogo para dispersar a multidão. Os confrontos deixaram três mineradores mortos e ao menos 38 feridos. Entre os policiais, 17 ficaram feridos.
Os protestos foram engrossados por comunidades indígenas de Madre de Dios, que reivindicam o direito de explorar ouro em seus territórios.
Presidente da Fenamad (Federação Nativa do rio Madre de Dios e Afluentes), principal organização indígena do departamento, Jaime Corisepa disse à BBC Brasil que os índios da região começaram a extrair ouro artesanalmente por volta do ano 2000, à medida que passaram a ter mais contato com o mundo exterior.
Com a alta dos preços nos últimos quatro anos, afirma Corisepa, a atividade se intensificou e fez com que mineradores de outras regiões invadissem terras indígenas.
"Ao ver que nossos territórios estavam sendo devastados e depredados por outros, pleiteamos ao governo que, como donos da floresta, pudéssemos aproveitar os recursos minerais por nossa conta".
Segundo ele, a exploração de ouro pelos índios visa compensar o descaso do governo com as comunidades tradicionais. "O Estado nunca investiu e nunca vai investir na nossa saúde, na educação dos nossos filhos, então temos que ganhar dinheiro para investir."
Ele admite que a mineração informal causa impactos ambientais, mas diz que os prejuízos serão ainda maiores caso as grandes mineradoras passem a controlar as minas, uma vez que atuam com máquinas pesadas.
O governo peruano, porém, tem demonstrado a intenção de manter a linha dura com a mineração informal. Ao se referir à atividade em entrevista em março, o presidente Ollanta Humala disse que o governo "está agarrando o touro pelos chifres".
Ele afirmou, no entanto, que sua gestão dará aos pequenos mineradores a chance de se formalizar, desde que se submetam a normas ambientais e trabalhistas.
Para Corisepa, porém, a postura do governo tem como real intenção "abrir a porta para as multinacionais, para que venham roubar a riqueza de nossas terras".
"Jamais aceitaremos essa política", ele diz.