Recomeçou a corrida do Ouro no Tapajós?
Mentor intelectual do movimento que resultou na criação, em 1990, da
Associação dos Mineradores de Ouro do Tapajós (Amot), que dirige até
hoje, diretor da Associação Nacional do Ouro (Anouro) e atualmente dono
de nove garimpos, três dos quais ativos, o empresário Dirceu Frederico,
com escritório de compra de ouro na cidade de Itaituba, garante que
está começando uma nova corrida do ouro no vale do Tapajós -
região que já foi a maior produtora do Brasil em boa parte da segunda metade do século passado e cujo ápice ocorreu na década de 1990.
E mais: mesmo com a decadência da garimpagem, hoje reduzida a menos de
dez por cento do que foi no passado, a atividade ligada ao ouro injeta
ainda hoje, na economia da região, entre 10 e 11 milhões de reais por
mês.
Segundo Frederico, apontado em Itaituba como "um baú de memórias da
garimpagem no Tapajós", o ciclo do ouro tem sua origem nos idos de 1948,
data do primeiro relato de que se tem notícia da ocorrência do metal.
Da chegada dos primeiros faiscadores, nessa época, até o início da
década de 1980, a extração do ouro se processava exclusivamente pelo
método manual.
Ele lembra que foi a partir de 1982 que teve início a mecanização dos
garimpos, com a chegada dos primeiros motores, bico-jatos e
"chupadeiras" ao rio Marupá, inaugurando em território paraense técnicas
até então restritas ao rio Madeira, em Rondônia. Continuando a imitar
os procedimentos adotados pelos produtores de ouro de Rondônia, os
garimpeiros do Tapajós introduziram, pouco tempo depois, uma novidade:
as dragas de rio, com as quais passaram a revolver os "baixões" (vales e
drenagens naturais do Tapajós e de alguns de seus afluentes).
Dois fatores se combinaram nessa época para provocar o que ficou conhecido então como
"a febre do ouro" no
vale do Tapajós.
Ainda que um tanto rudimentar, a mecanização da atividade garimpeira
provocou, de imediato, um extraordinário crescimento na produção. "O
volume produzido foi multiplicado por dez", garante Frederico.
Ao mesmo tempo em que as máquinas impulsionavam a produção, o mercado
internacional, surpreendentemente aquecido, registrava um grande aumento
na cotação do ouro, induzindo com isso novos investimentos nas
atividades de exploração. Ou seja, os preços do ouro compensavam os
gastos com a aquisição de máquinas, que, por sua vez, resultavam em mais
crescimento na produção.
Para Frederico,
o vale do Tapajós abriga em seu subsolo muitos minérios,
o que a coloca como uma província polimetálica. A província aurífera,
porém, está confinada a uma área de 98 mil quilômetros quadrados
delimitada pelos rios Tapajós, Iriri (afluente do Xingu) e rio das
Tropas. Nessa área chegaram a funcionar mais de dois mil pontos de
garimpo, cuja produção na época pode ter superado a casa de 700
toneladas de ouro.
No auge da produção garimpeira, entre 1982 e 1990, a CPRM (Companhia de
Pesquisa de Recursos Minerais, do Ministério de Minas e Energia) chegou a
catalogar na região 432 pistas de pouso. "Provavelmente havia mais, já
que não existiam os modernos recursos de hoje, como imagens de
satélites", afirma Frederico. Em Itaituba, o que se diz é que o
município chegou a ter perto de 700 campos de pouso em operação.
Descobertas Novas Jazidas
Dirceu Frederico observa que, historicamente, o ouro sempre valeu como
ativo financeiro em torno de US$ 10 a 11 mil o quilo, o equivalente a
cerca de US$ 340 a onça troy. Em 1983, coincidindo com um período de
grande turbulência na economia mundial, o ouro chegou a valer US$ 800 a
onça troy, o equivalente a perto de US$ 25 mil o quilo. Ou seja, quase
duas vezes e meia a sua cotação histórica, o que resultou, aqui, numa
febre de investimentos em abertura de pistas e compra de maquinário.
Mais de vinte anos depois, embora a época e as condições sejam diferentes, conforme o diagnóstico de Frederico,
está se repetindo algo semelhante, com a cotação do ouro já atingindo um valor próximo à casa de US$ 30 mil o quilo.
"O resultado disso é que já está ocorrendo uma nova corrida do ouro em Itaituba", garante.
Ele destaca que, até 1995, por dispositivo da
Constituição Federal de 1988, a legislação brasileira
não permitia a entrada direta de capital estrangeiro para investimento no setor mineral. A aprovação de
uma emenda constitucional em 1995, no início do governo Fernando Henrique,
eliminou essa restrição.
A partir daí, a convite do governo brasileiro, através do Ministério de
Minas e Energia, a Amot integrou comissões internacionais para tentar
atrair, principalmente nos EUA, empresas dispostas a atuar em pesquisas
no Brasil.
Dirceu Frederico calcula que cerca de trinta empresas americanas se
interessaram pelo projeto e, delas, aproximadamente a metade se fixou na
região para o desenvolvimento de projetos de pesquisa.
Do trabalho dessas poucas empresas já é possível concluir, segundo o diretor da Amot, que
no vale do Tapajós existe ainda muito ouro. Ele confirma, inclusive,
a descoberta de algumas jazidas de classe mundial.
"Restrições Ambientais engessam uso de riquezas"
Depois da morte de Irmã Dorothy Stang, em Anapu, em 2005,
o
governo brasileiro decidiu responder, da pior maneira possível, à
intensa pressão da comunidade internacional: passou a criar unidades de
conservação às pressas e sem o menor critério, que viram engessar
perigosamente a Amazônia.
A opinião é de Dirceu Frederico, que, como diretor da Anouro, acompanhou
as discussões em torno das restrições ambientais planejadas para a
região. Representando os mineradores do Tapajós, ele chegou a participar
de várias reuniões em Brasília e de audiências públicas realizadas na
própria região oeste do Pará.
"A morte de Dorothy fez com que as unidades de conservação nascessem
antes da hora", afirma. O resultado, segundo Frederico, somente hoje
está sendo percebido.
"As áreas onde existem grandes reservas minerais estão se transformado em reservas indígenas ou unidades de conservação".
O diretor da Amot observa que é assim na reserva Roosevelt, em Rondônia,
área riquíssima em diamantes e que foi palco, no dia 7 de abril de
2004, de um massacre em que 29 garimpeiros foram trucidados por índios.
Áreas ricas em minério estão hoje interditadas também em Mato Grosso, no Pará e em Roraima.
O grande problema, segundo Frederico, é que se tem hoje uma visão caolha
da questão ambiental no Brasil. "O foco é única e exclusivamente na
questão da biodiversidade. Não há a mesma preocupação com a população
estabelecida nessas áreas, e muito menos com a geodiversidade, que tem
para o futuro do Brasil importância estratégica".
As crescentes restrições ambientais impostas à região, segundo ele,
ignoram o fato de que a riqueza mineral existente no subsolo é um
patrimônio da nação e, como tal, deve ser aproveitada em benefício de
toda a sociedade. "Não se leva em conta nem o fato de que uma empresa de
mineração, para obter o alvará de lavra, tem que assumir o compromisso
prévio de regeneração da área impactada".