quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Origem das Minas da Passagem

Garimpo no Ribeirão do Carmo        Extracting gold
Origem das Minas da Passagem
Não é possível se traçar os rumos da história mundial do ouro sem se falar do "Ciclo do Ouro" brasileiro. Este período, muito bem definido na história brasileira, coincide com o Séc. XVIII, pois iniciou-se em 1965, com a primeira exportação economicamente significativa e findou por volta de 1800, quando o ouro passou a ocupar um plano secundário na economia nacional. Durante este período, a produção mundial de ouro foi de 1.421 toneladas métricas, tendo a capitania de Minas Gerais, praticamente Ouro Preto e Mariana, contribuído com 700 toneladas, ou seja, 50% do ouro produzido no período.
Liteira        Old Carriage
A interiorização do Brasil se iniciou com a procura de riquezas, principalmente ouro, esmeraldas e brilhantes, que os homens da época julgavam existir naquela tão bela e promissora terra. Organizados em grupos denominados bandeirantes, eles entregavam-se de corpo e alma à procura dos metais e das pedras preciosas, embrenhado-se pelos sertões.  Nos fins do Séc. XVII, por volta de 1695, uma dessa bandeiras, comandada por Manoel Garcia Velho, encontra em Tripuí, a oito léguas de Ouro Preto uma série de granitos cor de aço, que mais tarde, quando examinados, verificaram tratar-se de finíssimo ouro. A notícia espalhou-se por toda a parte da colônia e a partir de 1697 se estabeleceu um "rush" que se avolumou nos anos subsequentes.
Garimpo no ribeirão          Panning in the stream
Museu da Mina          Mine´s Museum
Em 1780, João Lopes de Lima manifestava as jazidas de cascalho de N. S. do Bom Sucesso e, em 1702, João Siqueira dava conhecimento o sumidouro de Mariana. Durante este período se instalaram dois grupos mineiros que viriam a constituir as povoações de Mariana e Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto. Apesar da pouca distância que as separava, se ignoraram por longo tempo. Porém, as águas turvas do Ribeirão do Carmo mostravam para os habitantes de Mariana, que rio acima, existia uma outra cidade. Na ânsia de manter contato com elementos civilizados, subiram o Ribeirão do Carmo. Em 1719 fundaram a Vila da Passagem, que se encontra entre as duas cidades. Durante essa época, os mineiros que iam subindo o rio bateando os depósitos aluvionares, descobriram o ouro primário de Passagem.
Lago no interior da mina          Lake inside the mine
Com a descoberta e abundância do ouro, no período de 1729 à 1756, fluiu para a área um grande número de elementos que passaram a explorar as jazidas concentradas no Morro de Santo Antônio. Os trabalhos eram realizados a céu aberto e/ou por meio de pequenos serviços subterrâneos que, geralmente paravam quando era atingido o lençol freático. Lavrava-se, e recuperava-se, então, apenas o ouro contido nos itabiritos, na jacutinga e na canga ferro-aurífera. A mão-de-obra era totalmente escrava e acredita-se que em certa época, cerca de 35 mil escravos povoaram as senzalas do Morro Santo Antônio.
Ouro         Gold
Data do século VIII a descoberta do Ouro em Passagem. Os bandeirantes percorreram os veios d`agua da bacia do Rio Doce, atingiram o Ribeirão do Carmo, no qual localizaram Ouro aluvionar abundante. Subindo o Ribeirão, em típica prospecção por bateia, descobriram em 1719 as jazidas primárias de Passagem. De 1729 à 1756, vários mineiros obtiveram concessões para a exploração das jazidas. Com o passar dos anos, reduziram-se a um único dono. Após sua morte seus herdeiros transferiram a Mina, a 12 de Março de 1819, ao barão W. L. von Eschwege.
Draga no Ribeirão do Carmo                                                       Dragging in the Carmo´s Stream
Os trabalhos até então, se concentravam no Morro Santo Antônio e eram executados por mão-de-obra servil, a céu aberto ou mediante pequenos serviços subterrâneos.. Recuperava-se o Ouro contido nos Itabiritos, na Jacutinga e na canga Ferro-Aurífera. Segundo tradição, povoaram as zensalas do Morro Santo Antônio, 35 mil escravos. As ruinas ainda existentes testemunham este remoto passado.Eschewege formou a primeira empresa mineradora do Brasil, sob o nome de Sociedade Mineralógica de Passagem. Construiu o engenho, com dez pilões californianos e estabeleceu o primeiro plano de lavra subterrânea. Somente após o ano de 1800 é que se descobriu Ouro nos quartzitos, nos Xistos grafitosos e nos Dolomitos, dando novo rumo a exploração das jazidas.
Após anos de prosperidade, o Barão Eschewege, atraído por novas atividades na siderurgia pioneira, desinteressou-se da mineração do Ouro. A Sociedade Mineralógica passou, a 1o de junho de 1659, às mãos do mineiro Inglês Thomas Bawden. Este, depois de trabalhar quatro anos, revendeu-a, a 26 de novembro de 1863, à Thomas Treolar, representante da nova empresa em formação, a "Anglo Brazilian Gold Mining Company Limited", que encampou a Socidade Mineralógica de Passagem. A "Anglo Brazilian" adquiriu diversas conceções vizinhas, como Paredão e Mata cavalos e trabalhou nas jazidas de 1864 à 1873, produzindo 753.501 gramas de Ouro ao teor médio de 6.89 gramas por tonelada de minerio.
Draga               Drag
De 1874 à 1883, a mina esteve paralizada. Em 14 de março de 1883 foi vendida a um sindicato francês, que constituiu a "The Ouro Gold Mines of Brazil Limited" A nova empresa operou com grande sucesso até março de 1927, quando foi vendida ao grupo Ferreira Guimarães, banqueiros de Minas Gerais e transformada, em maio do mesmo ano, na atual Companhia Minas da Passagem. A Companhia Minas da Passagem operou regularmente até 1954. De então, até 1960 esteve paralizada. Tentativas de reabertura, de 1959 a 1966, foram infrutíferas. A conjuntura inflacionária, a falta de capital e de espírito mineiro, principalmente, o preço irreal do ouro, fixado em 35 dolares a onça-troy, e finalmente a obrigatoriedade de toda a produção ser vendida ao Banco do Brasil, tornavam a lavra economicamente inviável.
De 1967 a 19 de dezembro de 1973, o Grupo da Companhia Anglo Brasileira de Construções adquiriu o controle acionário da Companhia Minas da Passagem, sem ter sucesso nas tentativas, então desordenadas, de desenvolver o empreendimento. Em outubro de 1976, os então acionários majoritários, reconhecendo o insucesso de suas tentativas, retornaram o controle acionário ao Dr. Walter Rodrigues.

Pedras de ametista são atrativos para turistas em cidade no Norte do RS

Pedras de ametista são atrativos para turistas em cidade no Norte do RS

Ametista do Sul se intitula a "capital mundial da pedra ametista".
Mineração é a principal atividade econômica da cidade e atrai visitantes.


Pedra ametista - Ametista do Sul - Nossa Terra RS  (Foto: Prefeitura de Ametista do Sul/Divulgação)Museu exibe pedra ametista "mais valiosa do mundo"
Com pouco mais de 7 mil habitantes, o município de Ametista do Sul leva no nome o seu principal atrativo. A cidade situada no Norte do Rio Grande do Sul, vizinha a Frederico Westphalen, se intitula “capital mundial da pedra ametista” em razão da abundância do mineral nas regiões do Médio e Alto Uruguai.
A mineração é a principal atividade econômica da cidade. Atualmente, há mais de 100 minas licenciadas para a exploração de ametistas e ágatas no município. A beleza das pedras em estado bruto ou beneficiadas para a comercialização também têm atraído um número cada vez maior de turistas para a região.
Galeria subterrânia mina Ametista do Sul RS Nossa Terra (Foto: Prefeitura de Ametista do Sul/Divulgação)Visitantes podem visitar galerias subterrânias
onde pedras são extraídas por garimpeiros
“Temos dados na Secretaria de Turismo que mostram que cerca de 50 mil pessoas passaram por Ametista do Sul  o secretário de turismo do município, Claudimir Capra. A contribuição para a economia da cidade é valiosa, garante Capra. Visitantes acabam levando lembranças consigo. "Para divulgar Ametista, começamos a nos inserir em grandes feiras no estado, como a Expobento e Fenadoce. Sempre mostramos as nossas atrações", complementa.
Algumas minas da cidade são abertas aos turistas, que podem conhecer a atividade do garimpo e como as pedras são extraídas do interior das galerias subterrâneas. O principal passeio é oferecido pelo Ametista Parque Museu. A visita começa com um tour pelo local, onde estão expostas mais de 1,5 mil pedras procedentes de várias partes do mundo.
Segundo os administradores, o museu abriga a pedra ametista "mais valiosa do mundo" encontrada até hoje, com 2,5 toneladas de peso. Outra “joia” do local é um meteorito raro de aproximadamente 140 quilos, que, conforme pesquisadores, teria explodido dentro de uma estrela ou planeta.
Igreja Ametista do Sul RS Nossa Terra (Foto: Prefeitura de Ametista do Sul/Divulgação)Paredes da igreja foram revestidas com ametistas
A visita prossegue com um passeio no interior das minas subterrâneas. Ali, o visitante pode presenciar explosões preparadas pelos garimpeiros para encontrar as pedras. Em outra mina desativada, o visitante percorre um trecho de cerca de 200 metros onde estão expostas pedras belíssimas e geodos incrustados na rocha, além dos equipamentos usados pelos garimpeiros. Um guia explica tudo aos turistas.
O passeio termina com a visita a um espaço onde estão concentradas várias lojas que vendem pedras precisosas, joias e artesanatos. A diversidade dos produtos feitos com ametistas e outras pedras é grande, assim como os preços, que vão desde R$ 1 por uma simples lembrança até milhares de reais pagos por peças mais elaboradas e raras.
Por toda a cidade, a presença da pedra é marcante. Além de inúmeros lojas, há hotéis temáticos e até mesmo templos religiosos decorados com ela. Inaugurada em 2008, a Igreja São Gabriel foi revestida com 40 toneladas de pedras ametista em suas paredes. A Pia Batistmal da igreja também foi esculpida em um geodo de cerca de 500 quilos.
Pirâmide esotéria Ametista do Sul RS Nossa Terra (Foto: Prefeitura de Ametista do Sul/Divulgação)Pirâmide revestida pelos cristais atrai esotéricos
Uma pirâmide de vidro e com o interior revestido de ametistas também foi erguida na praça central da cidade. O local costuma atrair visitantes interessados em apreciar a beleza da estrutura ou os que acreditam nos aspectos esotéricos e espirituais da energia transmitida pelos cristais.
De dois em dois anos, Ametista do Sul também sedia uma feira de pedras..
Mas se engana quem pensa que as pedras são as únicas belezas de Ametista do Sul. As paisagens bucólicas dos vinhedos da região e as belezas naturais dos arredores do Rio da Várzea ou a cascata do Rio do Mel são algumas das mais bonitas paisagens da região, apesar de ainda serem pouco conhecidas até mesmo pelos gaúchos.
Cascata do Rio do Mel Ametista do Sul RS Nossa Terra (Foto: Prefeitura de Ametista do Sul/Divulgação)

Equipe vai de Norte a Sul do país em busca de pedras preciosas

Equipe vai de Norte a Sul do país em busca de pedras preciosas

Repórteres e produtores revelam os bastidores da reportagem que documentou a luta dos garimpeiros.

A repórter Beatriz Castro na terra do calor. E o repórter Dirceu Martins na terra do frio. Foi com essa parceria que o Globo Repórter mostrou o Brasil das pedras preciosas. Dirceu Martins foi atrás das ametistas no Rio Grande do Sul, do rei dos diamantes na histórica Diamantina e dos lapidários de cristais em Belo Horizonte. Enquanto isso, Beatriz Castro buscava o caminho das pedras no Piauí, à procura das opalas, e mergulhava – literalmente – no subsolo de São José da Batalha (PB), para acompanhar o trabalho dos garimpeiros que arriscam a vida em busca da mais rara das pedras preciosas brasileiras: a turmalina.

Em vídeo, eles contam como foram os 15 dias de gravações. Beatriz Castro visita o acampamento do garimpeiro José de Souza, o Deda. E o padre Gilberto Giacomoni conta como a pedra que sustenta o altar da Igreja de São Gabriel, em Ametista do Sul, quase foi parar na China.

Aqui no site, você ainda confere os depoimentos dos produtores João Carvalho e Jorge Ghiaroni sobre a busca das histórias que você viu na reportagem.

"O dia do garimpeiro é amanhã" Por João Carvalho, produtor

A cada reportagem que a equipe do Globo Repórter faz pelos quatro cantos do Brasil fica mais claro o quanto o país é rico, em todos os sentidos. Quando recebemos a pauta sobre pedras preciosas, nos perguntamos o que teríamos realmente em termos de imagens. Na verdade, nossa busca pela melhor imagem é uma preocupação constante. Então, pegamos a estrada para cumprir a primeira parte da jornada de dez dias, entre as turmalinas da Paraíba e as opalas do Piauí. Eu estava fazendo a produção. Leonardo Araújo e Givaldo Soares fazem o apoio técnico e captação de áudio. San Costa é o repórter cinematográfico e Beatriz Castro, a repórter. Tome estrada!

Saímos do Recife em dois carros, com quilos e quilos de equipamento e a vontade de mostrar uma boa história. Nossa conquista seria chegar às cidades paraibanas de São José da Batalha e Junco do Ceridó, onde encontraríamos nossos personagens e nossas pedras tão raras: as turmalinas. São pequenos pontos, às vezes azuis, outras vezes verdes, consideradas hoje as pedras mais raras e caras do mundo. Em São José da Batalha conhecemos a história do garimpeiro José de Souza, o Deda. Um dia ele já teve carros, casas, dinheiro. Perdeu tudo, mas não deixa claro como isso aconteceu. “Investi em novas minas, atrás da turmalina. Mas ainda não tive retorno”, afirma. Acompanhamos seu Deda em um dos dias de busca pela pedra. Em um casebre montado na entrada da caverna ele se prepara diariamente para enfrentar os riscos, a poeira, o pó atrás do sonho.

Na mina da família Barbosa conhecemos de perto o risco dos garimpeiros. Eles descem por buracos com mais de 60, 80 metros, atrás do tesouro escondido. Nossa equipe foi atrás. Beatriz, San e Léo desceram para uma dessas minas e registraram lá embaixo o trabalho dos garimpeiros. Eu e Geraldo ficamos na parte de cima, para cuidar do gerador e dos outros equipamentos de apoio. Durante a gravação tomamos um susto: uma das paredes da mina desabou, mas nada sofremos além do susto. E que susto.

Deixamos a Paraíba para trás e embarcamos de avião para o Piauí. Três horas e uma escala em Fortaleza depois, chegamos ao aeroporto de Teresina. Com aquele calor característico da cidade, pegamos nossa caminhonete para cair na estrada de novo. Mais duas horas e meia até Pedro II, a cidade das opalas.

Diferente do que encontramos nas cidades da Paraíba, Pedro II está crescendo e ficando rica por conta da exploração organizada da opala, uma pedra que pode ser encontrada de maneiras diferentes: branca, multicolorida ou azulada, conhecida como opala negra. São as mais raras. Passamos dias inteiros gravando, conhecendo pessoas e novas minas. Uma cooperativa na cidade organizou o trabalho dos garimpeiros e já está dando bons frutos. Hoje Pedro II tem 30 joalherias e cerca de 200 lapidários.

Conhecemos alguns deles, como o empresário Juscelino Araújo Souza. Filho da cidade, ele começou a ganhar a vida como camelô, vendendo bugigangas. Com o tempo, começou a trabalhar em lapidários, estudou, se formou e hoje é dono de uma loja.

Gravamos também com o folclórico Bené de Tucum, outro grande negociante de pedras. “Um dia tive um sonho de trabalhar como tucum, esse coquinho aqui”, mostra. “Foi depois desse sonho que batalhei, garimpei, juntei o tucum com as opalas e hoje estou aqui. Já viajei o mundo inteiro”, lembra.

Nosso encontro (talvez) mais marcante no Piauí foi com o ex-garimpeiro Raimundo Galvão, o Mundote. Dono de um sítio, onde fica uma espécie de museu, ele também é proprietário de minas. Foi Mundote quem descobriu a maior pedra de opala já vista, com mais de quatro quilos, hoje exposta no Museu de História Natural de Londres. Entre uma história e outra, demonstra disposição para viver mais de cem anos. “Ainda vou descobrir muita pedra enterrada por aqui. Pode cavar que tudo isso aqui embaixo é feito de opala”, diz. “Vou viver até os 108 anos para poder encontrar a opala com mais de cem quilos”, assegura. E encerra nosso encontro com a frase característica de um velho explorador. “O dia do garimpeiro é amanhã. Se ele não achar a pedra hoje, amanhã ele acha”. Voltamos para casa com a mensagem na cabeça e a certeza de ter registrado mais um pedaço deste Brasil desconhecido.

Até o último quilate
Por Jorge Ghiaroni, produtor

Desde criança coleciono pedras. Daquelas bem baratinhas, é verdade. Mas ao meu ver elas são preciosas. Penso como o lapidário que conhecemos nesta reportagem, o homem que faz uma pedra valer até mil vezes mais. Walter Ferreira acredita que todas são valiosas. Pedras simples, isso mesmo. Elas representam uma nova oportunidade de trabalho. A chance de se esculpir o bruto na busca por uma forma deslumbrante, algo atraente aos olhos do público. Talvez as pedras de Walter tenham algo em comum com as minhas pautas. Nesta reportagem, tive a chance de garimpar, revirar e desencavar belas histórias pelo Brasil. Depois, esperei ansiosamente pela lapidação da joia. Sim, o testemunho de vida de cada entrevistado pode ser encarado como uma peça única, por que não? Uma joia. Foi assim que nossa equipe encarou o desafio. Tentamos forjar um mosaico, uma bela peça, ou melhor, um Globo Repórter com todas as preciosidades encontradas no caminho.

Nesta empreitada, tivemos um tempinho para um café com o descobridor da pedra mais valiosa do país. Dividimos uma pinguinha com o garimpeiro que tirou mais diamantes no mundo. Conhecemos, à certa distância, a radiação que faz uma pedra mudar de cor e a igreja que atraiu ametistas em rota certeira para China. Na cidade que brilha, como bem definiu nossa editora-chefe, Sílvia Sayao, conversamos com moradores que escutam os barulhos do garimpo dentro de suas casas. Entre marteladas e explosões, quantas conversas raríssimas pudemos encontrar graças ao nosso trabalho! Todas já estão por aqui, cravadas em nossa memória.

O dono de mina Heitor Barbosa, que colocou o estado da Paraíba no mapa das pedras mais valiosas do mundo, rodou o país com uma fortuna incalculável em duas sacolas plásticas. Uma aventura inesquecível. A riqueza que escapou por entre os dedos. O ex-garimpeiro Júlio Bento, nosso estrategista, revelou antigos truques. Ele guardava diamantes em panelas e garrafas vazias. Era a riqueza em lugares acima de qualquer suspeita. Cavamos muito com o rei dos diamantes. Mesmo assim, não conseguimos peneirar a idade do homem. Tudo bem. Para que serviria a contagem dos anos?

Pudemos colocar na vitrine, digo, em nosso programa, o que existia de mais precioso na história destes dois exemplos. Depois dos 70, eles seguem cheios de planos e sonham encontrar pedras ainda mais belas. Talvez seja essa a explicação para tamanha vitalidade – algo que impressionou nossa equipe de reportagem. Eles querem muito mais do subsolo e das galerias aqui de cima também. Neste último garimpo, tive a chance de conhecer seu Júlio e seu Heitor. Hoje, sem qualquer cascalho de dúvida, já posso afirmar: o caminho desses dois brasileiros será surpreendente até o último quilate desta vida.

Energia nuclear muda a cor e multiplica o preço de cristais

Energia nuclear muda a cor e multiplica o preço de cristais

Com tecnologia, quartzo é transformado em ametista. Lapidário revela como destaca a beleza de pedras brutas.

Em busca da perfeição. Será que é possível mudar a cor e a beleza dos cristais? É sim, com energia nuclear e criatividade de artista. Em Minas Gerais encontram-se, em cidades vizinhas, dois homens que se dedicam a essa transformação. Em Lagoa Santa, Walter Ferreira trabalha com as mãos. Na capital, Belo Horizonte, o professor Fernando Lameiras e sua equipe bombardeiam cristais com raios gama.

Os alquimistas nunca conseguiram fazer ouro. Mas, em Belo Horizonte, os cientistas conseguem mudar a cor e multiplicar o preço dos cristais. Na mão deles um quartzo vira uma ametista.

A transformação acontece no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear de Minas Gerais. A técnica foi descoberta na Alemanha, na década de 40, e aprimorada no Brasil. Cristais claros, sem cor, ganham tons de que vão do amarelo ao azul.

O primeiro passo é selecionar o cristal certo. Nem todos mudam de tonalidade. Mas o Brasil desenvolveu a tecnologia mais avançada do mundo para avaliar a composição química dos minerais e assim saber se a pedra vai ou não ganhar cor. Aí entra o poder da energia nuclear.

O laboratório é cercado de medidas de segurança. Para acionar a cápsula radioativa é preciso primeiro digitar no computador a senha que desbloqueia o sistema.

Pablo Grossi é o responsável pela segurança do laboratório e um dos únicos que têm acesso à chave da câmara de irradiação, onde as pedras mudam de cor.

Só é permitido entrar no local com o sistema desligado. Mesmo assim, nos corredores que levam à cápsula, é difícil esquecer que estamos a poucos metros de uma perigosa fonte radioativa.

"A fonte de radiação fica um metro abaixo do solo. É uma fonte de cobalto 60. Quando ela é exposta, sai de sua blindagem de chumbo e fica em uma região onde os produtos são irradiados e todo o processo ocorre. Ela fica dentro de um cilindro, que serve para proteger o material radioativo que está lá dentro", explica Paulo Grossi.

Para mudar de cor, os cristais ficam expostos à radiação de três dias a dois meses. Os cientistas explicam que o processo não deixa nos minerais nenhum resquício de radioatividade. O que muda mesmo é o valor da pedra.

"No Brasil, costuma sair pedra em um estado que vale muito pouco, cerca de R$ 20 o quilo. Bruta e sem cor. Uma pedra que já está bruta e colorida pode chegar a valer R$ 2 mil o quilo", explica Fernando Lameiras.

Walter Ferreira faz parte de um grupo de artistas cada vez mais raros. A lapidação artesanal de joias vem diminuindo muito no Brasil. Quase sempre as pedras são exportadas em forma bruta e lapidadas no exterior, geralmente na Ásia, onde a mão-de-obra é mais barata. Walter resiste. Começou a trabalhar aos 11 anos e nunca mais parou. Para ele, toda pedra é preciosa. O lapidário acha que só ajuda a revelar a beleza que ela sempre teve.

"Quanto à forma, eu só obedeço. A pedra é que me mostra o seu formato. Eu enxergo formatos dentro das pedras. Se eu não puder por meu trabalho em uma pedra com respeito, eu não ponho. Porque temos que respeitar a natureza", diz Walter.

A lapidação do quartzo consome a tarde inteira. Mas, antes de o sol se por, a peça fica pronta. Apesar das incertezas da profissão, Walter nunca pensou em desistir. "Sou apaixonado por pedras, pela natureza e por minha profissão", afirma.

A mesma paixão que levou o ex-garimpeiro Júlio Bento para Diamantina, o dono de mina Heitor Barbosa para a Paraíba, e que alimenta, todo dia, o sonho dos garimpeiros Miguel Tressi, Deda, Valdemar Bilibil e tantos outros. O sonho de encontrar a felicidade em uma pedra. Para eles, uma pedra mais do que preciosa.

Rei dos diamantes relembra os tempos do garimpo

Rei dos diamantes relembra os tempos do garimpo

Mineiro volta ao lugar onde se tornou um milionário. Júlio Bento descobriu mina no Vale do Jequitinhonha. Pedras eram escondidas dentro de uma panela no acampamento.


No coração de Minas Gerais fica um lugar que já foi procurado por bandeirantes, aventureiros, e cobiçado por impérios. A história está nas ruas, nas casas, na alma da cidade, que tem no nome a riqueza e o destino de pedra: Diamantina. Ninguém sabe ao certo, mas calcula-se que da região tenham saído mais de 600 quilos de diamantes. E também de lá saíram outras pedras que se transformaram em joias belíssimas que ainda hoje brilham pelo mundo inteiro.

Quase três séculos de mineração deixaram marcas e mitos.

"Júlio Bento foi quem tirou mais diamantes. Ele até achou que era castigo tanto diamante", conta o empresário Fábio Nunes.

"Na região, o rei do diamante é Júlio Bento", confirma o taxista Sandoval Ribeiro, o Juca.

Júlio Bento, o rei do diamante, não gosta de revelar a idade, mas dizem que ele já passou dos 80. Fala menos ainda quando se trata de fortuna. Afinal, ele continua rico ou não? Seu Júlio voltou à Diamantina para mostrar o garimpo onde achou a primeira de muitas e muitas pedras valiosíssimas. Um tesouro encontrado justamente na região de Minas Gerais famosa pela pobreza, o Vale do Jequitinhonha.

A estrada é de terra, mas, naquele tempo, nem ela existia. Seu Júlio abriu as primeiras picadas e passou com uma tropa de mulas. De um trecho em diante, só com tração nas quatro rodas. Depois de uma hora de solavancos, chega-se ao local. Foi em um trecho do Rio Pinheiro que seu Júlio passou os primeiros cinco anos no garimpo.

Depois da investida dos bandeirantes, no Período Colonial, Diamantina viveu, na época de seu Júlio, uma segunda febre do garimpo. No começo dos anos 80, Diamantina chegou a ter mais de 30 mil garimpeiros. Só em uma mina trabalhavam 250 homens. Os diamantes que saíam da região espalhavam riquezas pelo Brasil inteiro e por outros países do mundo. Mas tudo isso tem um custo para a natureza: onde o garimpo chega, a paisagem muda. Areia que foi parar no meio do rio saiu de outro garimpo que ficava um pouco acima.

O leito do rio também foi desviado. Os muros construídos pelos garimpeiros ainda estão de pé. Seu Júlio volta a explorar o lugar, desta vez, para garimpar a própria história. Dois quilômetros adiante, um reencontro com o passado. O velho garimpeiro descobre o acampamento onde ele e os colegas passavam as noites.

"Ficou tudo do jeito que era porque a pedra protege. A comida era carne, arroz, feijão, verdura", lembra seu Júlio.

O homem que cozinhava para os garimpeiros hoje é chefe de cozinha em um restaurante de Diamantina. Mas, naquele tempo, Luiz Lobo – o Vandeca, como ainda é conhecido – tinha outra função, da maior importância: esconder os diamantes que seu Júlio tirava do rio.

"Seu Júlio confiava tanto em mim que eu tinha na cozinha uma panela que se chamava panela do segredo. Nem os cunhados dele sabiam onde eu guardava os diamantes. Eu guardava dentro de uma panela. Eu colocava as garrafas de diamantes e os pacotes de macarrão e de sal em cima, para que ninguém desconfiasse do que estava ali dentro. Ninguém nunca descobriu", afirma Vandeca.

Hoje seu Júlio vive em São Paulo. Além de não falar se ficou rico, ele não revela, nem mesmo, a quantidade de diamantes que extraiu. Mas, de repente, tira do bolso uma recordação dos velhos tempos: um diamante de quase cinco quilates. "Há mais de 20 anos eu guardo", conta.

Tantas lembranças deixam os olhos do velho garimpeiro brilhando como as pedrinhas que ele tanto procurou. "Dá vontade de chorar", diz seu Júlio, emocionado.