quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Mineral, Rocha ou Pedra?

Mineral, Rocha ou Pedra? 
          Alguns geólogos (ou ainda serão muitos ?) fazem cara feia quando alguém se refere a um mineral ou rocha como pedra. Aos seus ouvidos técnicos, pedra soa como uma demonstração de ignorância até compreensível, mas que nem por isso deixa de arranhar os tímpanos.
          Cada setor profissional tem seu linguajar específico e o correto emprego da terminologia especializada é importante, principalmente quando se trata das ciências ditas exatas. Mas, analisando de modo honesto e tolerante, essa aversão pela palavra pedra não procede.
         É óbvio que todos os leigos - aqui entendidos como qualquer um que não seja geocientista - conhecem as palavras pedra, rocha e mineral. Mas é também óbvio que se todos têm clara noção do que é uma pedra, o mesmo não ocorre com mineral e rocha. É preciso, pois que sejamos pacientes e compreensivos neste aspecto.
          Por outro lado, convém lembrar que todos, inclusive os geólogos, usam normalmente a expressão pedra preciosa. E os geólogos que são também gemólogos (especialistas em gemas) ouvem e empregam com muita freqüência também pedra apenas, no significado restrito de pedra preciosa ou gema. Que pedra é essa ? é pergunta que eles ouvem e fazem habitual e naturalmente.
         Mas, não é só isso. Há as rochas monominerálicas, ou seja, aquelas que são formadas por um único mineral (calcários, quartzitos, arenitos, turmalinitos, etc.). Nesses casos, é forçoso convir, a distinção entre rocha e mineral já não é tão clara.
         E há mais: o lápis-lazúli, uma pedra preciosa bem conhecida, é rocha, não mineral, o mesmo acontecendo com a obsidiana.
          Mas, você que está lendo isso lê e não é geólogo pode muito bem querer saber como distinguir um mineral de uma rocha, já que são materiais diferentes. Se você perguntar a um geólogo quais são as características que tornam um diferente do outro, talvez ele fique um tanto surpreso, pois, embora saiba diferenciar rochas de minerais, é bem possível que nunca lhe tenham pedido que comparasse as características de ambos.
         Entretanto, pensando um pouco, ele lhe apontará algumas diferenças mais flagrantes.
          Conceito - Mineral é um sólido natural, inorgânico, homogêneo, de composição química definida, com estrutura cristalina. Rocha é um agregado natural de minerais (geralmente dois ou mais), em proporções definidas e que ocorre em uma extensão considerável. Esses conceitos, bem como as características citadas a seguir, admitem várias exceções, mas não as vamos analisar aqui.
          Morfologia - as belas formas geométricas dos cristais caracterizam os minerais, não as rochas. Estas costumam mostrar-se maciças ou em camadas.
          Brilho - as rochas não costumam ser brilhantes, os minerais sim. Brilho metálico ou semelhante ao de vidro, por exemplo, são típicos de minerais. As exceções existem, mas é válida a generalização.
          Cor - se o material é uma massa com grãos de duas ou mais cores, deve ser uma rocha (ex. granito). Em algumas rochas, a cor distribui-se não em grãos, mas em faixas e/ou áreas irregulares (gnaisses e alguns mármores, por exemplo).Excluindo as rochas ornamentais (sobretudo os mármores e granitos), as demais não costumam ter cores atraentes.
          Transparência - as rocha são sempre opacas; transparência se vê é em minerais (mas não em todos !).
          Densidade - os minerais de brilho metálico costumam ser bem mais densos que as rochas.
          Volume - se o material forma massas grandes, de vários metros cúbicos, provavelmente é uma rocha. O material que forma um morro é rocha, não mineral. Os grãos de areia são fragmentos de minerais, não de rocha.
          Uso - material que se usa para calçar ruas ou passeios; para revestir paredes e pisos; para fazer concreto, muros, alicerces, etc. é rocha, não mineral. Material que se usa para fazer jóias é mineral, não rocha.
Repetimos: todas as afirmações acima são relativas e admitem várias, quando não muitas, exceções.
          Nomes - Para terminar, lembre que os nomes de rochas costumam ter a terminação ito (granito, arenito, siltito, argilito, andesito, riolito, quartzito, etc.), mas há muitas exceções (mármore, basalto, xisto, folhelho, conglomerado, etc.). Observe que os nomes citados são todos masculinos, mas há algumas poucas exceções, como ardósia.
          Os nomes de minerais costumam ter a terminação ita ou lita (pirita, calcita, cassiterita, crisólita, marcassita, fluorita, sodalita, calcopirita, hematita, malaquita, alexandrita, etc.), mas muitos dos nomes mais antigos fogem à regra: galena, opala, granada, esmeralda, ágata, safira, turmalina, etc. Ao contrário dos nomes de rochas, os de minerais costumam ser femininos, mas também aqui há, entre os mais antigos, muitas exceções: topázio, quartzo, diamante, feldspato, rubi, ônix, jaspe, talco, olho-de-trigre, etc.

A Correta Denominação Das Pedras Preciosas

A Correta Denominação Das Pedras Preciosas 
          Há um grande número de pedras preciosas que são denominadas de modo incorreto, gerando muitas vezes confusões indesejáveis.
          Muitas dessas denominações equivocadas, embora sejam encontradas nos livros e revistas sobre o assunto, não são usadas no Brasil. Outras há, porém, que costumam ser utilizados no nosso país.
          Visando a esclarecer os consumidores e até mesmo profissionais do ramo menos experientes, relacionamos abaixo alguns dos erros mais freqüentes no Brasil.
BRILHANTE - a palavra brilhante designa um tipo de lapidação, não uma pedra preciosa. Como esse maneira de lapidar é a mais usada para o diamante, muita gente sempre chama essa gema de brilhante, o que está errado. Se o seu anel é feito com diamante, chame-o de anel de diamante.
CACOXENITA - Os cristais de ametista mostram, muitas vezes, no seu interior, agulhas pretas ou douradas de um mineral chamado goethita. Pensava-se outrora que essa goethita fosse outro mineral, a cacoxenita. Com isso, ainda hoje há quem chame a ametista com essas inclusões de cacoxenita, um erro que não se justifica.
CITRINO - O quartzo de cor amarela, laranja ou avermelhada deve ser chamado de citrino, mesmo que seja obtida por tratamento térmico da ametista. Não se deve usar denominações enganosas como topázio Rio Grande, topázio Bahia, topázio Palmeira e muitas outras existentes no comércio, pois a gema nada tem a ver com topázio exceto a semelhança na cor.
CRISTAL-DE-ROCHA - o quartzo incolor é chamado de cristal-de-rocha. Como a palavra cristal não designa nenhum mineral específico e pode se aplicar a muitas gemas (há cristais de ametista, cristais de granada, cristais de diamante, etc.), não chame o quartzo incolor, de cristal apenas, diga cristal-de-rocha.
GEMA SINTÉTICA - chama-se de gema sintética a pedra preciosa produzida em laboratório, mas que existe também na natureza. Difere da GEMA ARTIFICIAL porque esta, embora produzida pelo Homem, não tem uma correspondente natural. São sintetizadas, entre outras pedras, a esmeralda, o rubi, a safira e o espinélio. O diamante sintético com qualidade gemológica já existe e provavelmente aparecerá no mercado em pouco tempo. Exemplo típico de gema artificial é a zircônia cúbica.
LÁPIS-LAZÚLI - Algumas gemas são chamadas pelo nome certo, só que mal pronunciado. Este é um caso: diga e escreva lápis-lazúli, não lápis-lázuli. Diga também ágata, não agata.
ÔNIX - Do mesmo modo, diga e escreva ônix, não onix..
PEDRA PRECIOSA - As pedras usadas para adorno pessoal podem ser caras ou baratas. Isso, porém, não é motivo para que sejam divididas em preciosas e semipreciosas. Essa distinção é arbitrária, confusa e desnecessária. Por isso, diga sempre pedra preciosa, mesmo que se trate de uma gema de baixo preço.
QUARTZO - a popularização dos relógios de quartzo tornou freqüente no mercado a palavra quartz, que nada mais é que quartzo em inglês. Só que certas pessoas, não sabemos bem por que, evitam a forma portuguesa e ficam falando e escrevendo relógio a quartz.
AMETISTA-CITRINO - No Mato Grosso do Sul, ocorre uma interessantíssima variedade de quartzo que mostra as cores da ametista e do citrino (roxo e amarelo) em um mesmo cristal. Essa gema tem sido chamada de ametista bicolor, o que é inaceitável, já que a ametista tem que ter necessariamente a cor roxa, do contrário não é ametista. Outra denominação, menos errada mas também indesejável é ametrine. Embora traduza bem a natureza da gema, esse tipo de denominação é condenado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Chame, pois, essa pedra de ametista-citrino ou quartzo bicolor. É mais complicado, mas mais correto.
QUARTZO ENFUMAÇADO - o quartzo de cor cinzenta ou cinza-amarelada é muitas vezes chamado de topázio fumé. Repete-se aqui o mesmo tipo de erro relacionado com o citrino. O quartzo enfumaçado nada tem a ver com o topázio e chamá-lo de topázio fumé só serve para enganar o consumidor.
QUARTZO RUTILADO - há uma variedade de quartzo que mostra, no seu interior, agulhas douradas de um mineral chamado rutilo. Devido à cor desse rutilo, alguns comerciantes dizem que se trata de ouro, o que é um absurdo. Essa gema é um quartzo rutilado, e não quartzo com ouro. Outras denominações comuns para essa pedra preciosa são sagenita e cabelos-de-vênus, ambas também indesejáveis.
ZIRCÔNIA CÚBICA - das imitações do diamante, a mais comum e a que mais se parece com ele é a zircônia cúbica, facilmente encontrada no nosso comércio. Como existe zircônia natural mas com estrutura cristalina diferente, diga sempre zircônia cúbica, e não zircônia simplesmente.
Lembretes
GRANADA - o nome granada não designa uma gema, mas um grupo de gemas. As granadas mais importantes como pedras preciosas são piropo (a mais valiosa), almandina, espessartina, grossulária e andradita. Conforme a espécie, pode-se ter granada incolor, vermelha (a mais comum), amarela, marrom, preta e até verde (chamada demantóide).
TURMALINA - também é nome de um grupo de gemas, não de uma só. O comércio usa os nomes verdelita para a turmalina verde, rubelita para rosa ou vermelha, schorlita para a preta, acroíta para a incolor e indicolita para a azul (bastante rara).
PÉROLA CULTIVADA - as pérolas encontradas no comércio são praticamente todas cultivadas, não naturais. Lembre, porém, que pérola cultivada não é pérola artificial nem sintética. A sua formação é provocada pelo Homem, mas o molusco usa exatamente o mesmo processo que gera a pérola natural.


O Brasil Não Possui Pedras Semipreciosas

O Brasil Não Possui Pedras Semipreciosas
          O título acima pode surpreender muita gente, uma vez que o nosso país é reconhecidamente um grande produtor de gemas e o Rio Grande do Sul destaca-se pela produção de ágata e ametista. A afirmativa, propositalmente provocadora, justifica-se, porém, pois não é mais admissível - se é que alguma vez o foi - separar as gemas em preciosas e semipreciosas.
          Embora esteja correta a denominação pedra preciosa, o mesmo não se dá com pedra semipreciosa, e são várias as razões para isso. A principal delas é que nunca houve consenso sobre quais pedras seriam consideradas preciosas. Normalmente, eram assim classificados o rubi, a safira, a esmeralda e o diamante. Alguns autores, porém, incluíam também a opala preciosa e o crisoberilo, por exemplo. E outros, a pérola.
          Outra razão para não se separar as gemas em semipreciosas e preciosas é a inutilidade dessa distinção. Para o Brasil, que produz boa quantidade de esmeralda e diamante mas quase nada de rubi e safira, a distinção, mais do que inútil, é muito prejudicial.
          Mas não ficam aí os argumentos contra a classificação semipreciosa. Embora esmeralda, rubi, safira e diamante sejam usualmente gemas caras, uma esmeralda e mesmo um diamante podem valer menos que uma granada mais rara, por exemplo.
          Por esses motivos, o termo semipreciosa caiu em desuso em quase todo o mundo, sobrevivendo apenas em alguns países, entre eles o Brasil.
          Gemólogos de renome internacional condenam de modo enfático seu emprego. Robert Webster considera-o insatisfatório, lembrando que foi abandonado por consenso geral.
          Walter Schumann afirma que a designação ainda é usada no comércio mas não é uma expressão correta porque muitas pedras chamadas semipreciosas são mais valiosas que as preciosas, não havendo uma linha divisória real entre as pedras mais ou menos valiosas.
          Joel Arem lembra que, no passado, os termos preciosa e semipreciosa foram amplamente usados, mas que hoje seu uso cria confusão.
          Mas não são apenas os gemólogos que condenam o termo. Também os joalheiros mais bem informados o fazem. Diz Erich Merget que a denominação semipreciosa, atualmente muito utilizada, deveria ser totalmente abandonada. Até hoje, ninguém foi capaz de explicar a origem dessa expressão absurda, completa ele.
          O termo gema tornou-se designação comumente aceita para todas as pedras ornamentais de valor, eliminando a anterior distinção artificial entre as chamadas pedras preciosas e semipreciosas, afirma Jules Sauer.
          Hans Stern, proprietário da H. Stern, empresa brasileira com 90 joalherias no Brasil e mais 85 espalhadas por quatorze países, é mais radical: uma pedra é preciosa ou é um pedaço de paralelepípedo. Não há alternativa e, portanto, não há significado na expressão semipreciosa. É ele também quem diz que não existe pedra semipreciosa assim como não existe mulher semigrávida.
          Não é por acaso, pois, que Aurélio Buarque de Holanda Ferreira registra, em seu famoso dicionário, pedra preciosa mas não não se refere a nenhuma pedra semipreciosa.
          Coerente com esses posicionamentos, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) recomenda evitar sempre o uso da palavra semipreciosa, substituindo-a por preciosa, salvo nos casos de exigências comerciais ou legais (NBR 10630). A ressalva justifica-se porque a Itália dá um tratamento diferenciado às gemas importadas, com taxação menor para as que chegam ao país classificadas na origem como semipreciosas.
          Portanto, não se constranja de chamar ágata, ametista, citrino, topázio, água-marinha, turmalina, etc. de pedras preciosas. E chame de jóia, não de bijuteria, seu brinco, anel ou outra peça confeccionada com gemas que você considera baratas.
          O setor joalheiro, como qualquer outro ramo de vendas, trabalha com produtos caros e baratos e o preço nunca foi motivo para uma gema deixar de ser preciosa.

Como colecionar minerais

Colecionar não é apenas juntar
          A cada dia aumenta o número de interessados em conhecer e colecionar minerais. Uma coleção, seja do que for, deve ser um conjunto bem classificado e ordenado de peças. Quem assim não fizer não será bem um colecionador, mas mais um ajuntador.
          Veja a seguir algumas orientações sobre como obter e organizar os minerais da sua coleção.
Onde obter peças para a coleção
          Uma maneira fácil de obter minerais é comprando nas lojas. Você encontra material já limpo, escolhe à vontade e pode obter peças importadas. Só que tem que pagar.
          Com mais trabalho mas sem usar dinheiro, você pode aumentar sua coleção em minas, garimpos e pedreiras, onde técnicos e operários poderão ajudá-lo a identificar os minerais coletados. Quem não conhece não imagina a quantidade e qualidade dos minerais para coleção que os produtores de ametista e calcita do Rio Grande do Sul jogam fora.
          Outro meio é a troca com outros colecionadores, mas você terá que ter peças que interessem a eles.
          Escrever para empresas de mineração é outro caminho, mas poucas costumam atender esses pedidos.
          Quando viajar, observe os barrancos das estradas. Manchas claras e/ou brilhantes no solo podem indicar presença de cristais.
          Outra opção é procurar o Museu de Geologia da CPRM, que tem minerais para troca e doação.
A identificação dos minerais
          Procure conhecer as principais propriedades físicas usadas na identificação dos minerais, como dureza, densidade, brilho, cor, formato dos cristais, clivagem, etc. Nos manuais e dicionários de Mineralogia, veja quais dessas propriedades são importantes na identificação de cada mineral.
          As lojas nem sempre identificam corretamente aquilo que vendem. Por isso, procure um geólogo, um colecionador experiente ou o Museu de Geologia.
Como guardar e expor os minerais
          Exponha sua coleção da maneira que achar melhor. Deixe para baixo e para trás as faces menos bonitas da peça e aquela que contiver a etiqueta de registro. Manuseie os minerais com cuidado, não permitindo que haja atrito entre as peças, principalmente se têm durezas muito diferentes. No transporte, enrole cada peça em bastante papel de pão, papel higiênico ou jornal.
          Cuide também para não arrastar os minerais. Isso pode danificar as prateleiras, pois muitos deles, principalmente as pedras preciosas, riscam facilmente vidro e madeira.
O registro das peças
          Registre todas as peças da coleção. Cole na face menos importante um número ou outro código de identificação. Num caderno ou arquivo de computador, escreva este número e, após ele, o nome do mineral com as principais características que identificam aquela peça (Ex.: geodo de ametista com calcita). Anote sempre a procedência do mineral. As lojas nem sempre sabem informar isso, mas não deixe de perguntar.
          Anote também as dimensões (largura, comprimento e altura), pondo a altura sempre em último lugar. Registre a forma de aquisição (coleta própria, compra, troca) e o nome de quem a coletou, doou ou vendeu. Se comprada, anote o preço (também em dólares). A data em que a peça foi incorporada à coleção é interessante anotar também.
          Se a coleção for grande, pode ser necessário um código de localização, que mostre onde o mineral se encontra no móvel ou sala onde está exposto.
          Faça esses registros sempre, mesmo que sua coleção seja pequena. Fazer isso depois que ela for gande será muito mais difícil e trabalhoso.
Como selecionar os minerais
          Num garimpo, mina ou pedreira, onde os minerais disponíveis para coleta são abundantes, pode-se hesitar entre coletar ou não determinada peça. Na dúvida, faça a coleta. Em casa, os minerais parecem mais bonitos que no local onde ocorrem, principalmente depois de lavados. Além disso, é muito mais fácil descartar uma peça menos importante do que voltar ao local para tentar encontrar uma peça bonita que não se trouxe.
          Um mineral pequeno ou de pouca beleza é melhor do que nada quando não se tem nenhum daquela espécie. Guarde-o até conseguir uma amostra melhor.
          Os cristais podem valer mais pela beleza e perfeição do que pelo tamanho e sempre valem mais quando estão na matriz, isso é, engastados na rocha em que se formaram.
          É válido colecionar só pedras brutas, mas não menospreze as lapidadas. Um mineral lapidado e um no estado bruto da mesma espécie formam um conjunto que se destaca pelo contraste e pelo valor didático.
          O mesmo vale para as ágatas tingidas. A maioria das ágatas industrializadas em todo o mundo são tingidas e, além de isso não ser uma fraude, é preciso reconhecer que o resultado pode ter grande valor estético.
Como avaliar sua coleção
          O valor de uma coleção vai muito além do valor comercial de suas peças. Inclui o trabalho que se teve para organizá-la e mantê-la, para identificar os minerais, etc. Some-se a isso o valor do conjunto: a coleção sempre vale mais que a soma dos valores de suas peças tomadas individualmente.
          Lembre que muitos minerais raros não existem no comércio e nesses casos o valor é você quem dita.
 Cuidados com os minerais
         Alguns minerais são muito fáceis de quebrar ou sensíveis à luz, umidade, calor, etc. Manuseie todos com cuidado, evite iluminação intensa permanente sobre sua coleção, bem como calor ou umidade excessivos.
          A gipsita e o talco podem ser riscados até com a unha. A laumontita desidrata com muita facilidade, desintegrando-se. A ametista e o quartzo róseo perdem a cor se expostos muito tempo ao Sol. A halita, a silvita e a carnallita se desintegram em atmosfera úmida.
          Procure conhecer os pontos fracos de cada espécie.

Mar de ametistas

Mar de ametistas




Foto:
No Brejinho das Ametistas, distrito rural de Caetité

Povoação talhada há mais de um século em cima de uma mina de ametistas, no sudoeste, ainda vive em função do garimpo.

As mãos de toda essa gente parecem mais grossas. Entre as falanges de dedos enrijecidos, brotam os veios de uma história que ninguém sabe ao certo onde começa e vai parar. É o tempo contado em sulcos que se multiplicam nas palmas das mãos, como rios numa bacia hidrográfica fotografada de cima. São as marcas nada sutis de vidas que se entregam a um sonho compartilhado por gerações, manipulado pelos dulcíssimos acordes de pancadas de picareta, compressores e martelos pneumáticos. No Brejinho das Ametistas, o navegar necessário é embaixo da terra. Viver não é preciso se não for pelo mar de pedras roxas.


Os olhos de toda essa gente enxergam mais além que os rasgos de arenito no horizonte trêmulo da Serra Geral, sudoeste do estado. São como lentes de aumento, candeeiros-guia dos que acreditam no final feliz de uma aventura garimpeira. São como lâmpadas no labirinto escuro das cavernas úmidas, fuçando as pistas do cobiçado quartzo arroxeado, semiprecioso, nobre. No Brejinho das Ametistas, distrito rural de Caetité, a 757 quilômetros de Salvador, tudo gravita em torno dessa única razão.
A 27 quilômetros da sede do município, a terra natal do cantor e compositor Waldick Soriano sobrevive quase exclusivamente da extração de ametistas, acompanhando os altos e baixos que definem os humores da atividade. O ritmo das ruas – a maioria delas calçadas graças aos dividendos produzidos a partir de seu solo rico – é o das escavações e descobertas feitas na principal mina da região, que fica exatamente embaixo da aglomeração urbana. Porém, das centenas de toneladas do minério retiradas desde o fim do século XIX, poucos foram os frutos deixados. Sina de garimpo, terra de todo o mundo e de ninguém.


Por mais que pareça estranho, existe um vazio referencial sobre esse lugar de atividade tão marcante. A história oficial passou ao largo de Brejinho das Ametistas. Tudo o que se sabe sobre a fundação e o desenvolvimento do distrito não é mais do que vestígios baseados em documentos dispersos e fontes imprecisas. Em Caetité, fora uns registros anotados pela historiadora Helena Lima Santos, muito pouco se tem a respeito da ocupação do território. Mais facilmente vilipendiada pela infinita capacidade humana de remodelar os acontecimentos, é a transmissão oral que dá os contornos da versão mais propagada.


Cento e vinte metros acima de onde, hoje, os mineiros se esgueiram à cata de ametistas, está a superfície que serviu a alguns boiadeiros da última década do século XIX. Um antigo brejo, ladeado por pedras e mata, fonte de água cristalina, que logo virou ponto de parada na rota dos pastores dos Gerais. Mais que um lençol freático de água potável, esse “brejinho” trazia à tona incrustações de ametistas em suas paredes a céu aberto, ligados a veios tão profundos que até hoje mobilizam os esforços de quem depende da sorte de um dia e convive com o azar de outro. No Brejinho das Ametistas, não há sequer uma casa que não seja emoldurada por histórias de garimpeiros.


“Tudo o que eu tenho agradeço ao garimpo”, simplifica dona Enedina Lima, que hoje mora em Caetité. Um terreno, uma casa e uma “partezinha na mina da Bolívia” são o produto daquilo que ela avalia como fruto dos 20 anos de escravidão do marido. O finado Lindolfo viu muita coisa naqueles Gerais entupidos de gemas roxas. Viu, inclusive, um punhado de gente morrer soterrada em busca de um sonho, inaugurado por alemães fugidos da Primeira Guerra Mundial. 


Foram os gringos, a serviço da oportunidade de contrabandear pedras semipreciosas para o rentável mercado europeu, que monopolizaram a extração de ametistas no município de Caetité durante a maior parte do século XX. Seus túmulos, apodrecidos e esquecidos, ainda estão à beira de um dos caminhos que levam à Roma das ametistas. As ossadas descansam na terra pedregosa que lhes deu riqueza às custas da exploração de mineiros miseráveis.


Justiça seja feita, os alemães não foram os únicos espertalhões a acumular lucros com a venda ilegal das ametistas baianas. Filhos da terra, de famílias respeitadas, também não perderam a chance de buscar o seu quinhão. O geólogo Nelson Spínola Teixeira, ao contrário de seu irmão educador Anísio Teixeira, não tem o nome associado às melhores referências. Pelo menos não entre os garimpeiros. “Ele morava no Rio e, quando descobriu que tinha um monte de gente extraindo pedras ilegalmente no Brejinho, fez o requerimento de lavra em seu nome no Departamento Nacional de Produção Mineral (DPNM), chegou com a Polícia Federal e tomou o garimpo de todo o mundo. Meu pai, mesmo, perdeu uma das catras”, atesta Nestor Alves Rocha, 67 anos, sobre o acontecido há quase 60 anos.


A briga pela posse das minas e de sua produção é geradora de capítulos de tensão e conflito entre mineradores e proprietários de terras. Em novembro de 2001, por exemplo, os garimpeiros invadiram a mina Paraguai (a mais importante) e desde então não mais saíram. Há diversos processos de disputa de terras na Justiça Federal e relativos a direito de pesquisa mineral no DPNM (a maioria caducados). Há também um acordo na Justiça comum de Caetité que estabelece a partilha da extração entre a cooperativa dos garimpeiros e o dono das principais minas da localidade, herdeiro contestado de uma sina germânica sem prazo de validade. “Eu lamento Brejinho ser o que é e ninguém reconhecer o que eu fiz por aquele povo. Eu dei tudo pra eles!”, discursa o aposentado Durval Fernandes, que mora no Rio de Janeiro e alega ter herdado 20 escrituras do pai e comprado mais dez do alemão Kurt Walter Dreher.


O furor das desavenças – que ainda inclui as alfinetadas da família de Waldick Soriano tanto contra a administração da cooperativa quanto contra Júlio Fernandes (detentor da pesquisa do Paraguai e filho de Durval Fernandes) – só não prende mais a atenção do que a oscilação de uma montanha russa chamada “veio”. A qualidade do que se encontra nele, debaixo da terra, é que determina como serão as relações na superfície