Pedras preciosas
Minas investe na coloração de gemas
Matéria-prima é o que não falta. Minas Gerais é o maior
produtor mundial de gemas coradas, mais conhecidas como pedras
preciosas. Mas, apesar de ser responsável por cerca de 25% da produção
mundial, quando se trata de exportação de jóias, Minas não atinge a
marca de 5% do mercado brasileiro, quantia insignificante no cenário
mundial. Parte das gemas mineiras são incolores em seu estado natural e
necessitam de tratamentos especiais para adquirir cor, beleza e
valorização no mercado.
O grande problema é que a maioria das
pedras preciosas de Minas Gerais sai daqui em seu estado bruto. O
tratamento e a lapidação são feitos fora do estado, na maioria das vezes
no exterior. É fácil perceber os prejuízos com a venda da pedra bruta,
muito barata em relação à mesma pedra depois de beneficiada (veja o
quadro de preços). O lucro é transferido para quem agrega valor ao
produto. No caso das pedras preciosas, muitas vezes elas retornam para o
Estado tratadas e lapidadas ou em forma de jóias.

João Bosco da Silva mostra pedra de US$ 15 mil
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Através do desenvolvimento da pesquisa científica e
tecnológica, incentivada pelo governo estadual, este quadro está
mudando. O Programa de Gemas e Jóias é uma das metas prioritárias
estabelecidas pelo Conecit - Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia,
responsável pela formulação da política pública em C&T e P&D em
Minas Gerais. Esta iniciativa, coordenada pela Secretaria de Estado de
Ciência e Tecnologia, com financiamento da FAPEMIG, está gerando uma
série de pesquisas na área, com formação de recursos humanos, e que deve
resultar em mais empregos nas atividades de garimpo, lapidação,
tratamento, coloração, designer e comércio de pedras preciosas em Minas
Gerais. O objetivo final é promover a capacitação para tratamento de
gemas, além de formar recursos humanos adequados para reforçar a
interface entre a iniciativa privada e os centros de pesquisa envolvidos
no projeto.
A importância social deste projeto ganha maiores
proporções ao considerarmos os possíveis benefícios para regiões como o
Vale do Jequitinhonha, uma das mais pobres do país, mas rica em recursos
naturais de pedras coradas, turmalina e diamante. Quanto ao retorno
econômico para o Estado, ele certamente se dará através da arrecadação
de impostos.
Segundo o Instituto Brasileiro de Gemas e Metais
Preciosos - IBGM -, o mercado internacional de pedras coradas, que não
inclui o diamante, é de R$1,5 bilhão/ano. O Brasil participa com 4%,
embora a estimativa é a de que seja responsável por 30% da produção
comercializada no mercado internacional. Minas Gerais, conforme cálculos
do instituto, produz metade das pedras coradas brasileiras.
Tratamento de gemas

Garimpeiros buscam topázio imperial em mina de Ouro Preto.
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Tingimento, impregnação, recobrimento, irradiação, tratamento
térmico e outros. São muitas as técnicas de tratamento e coloração de
pedras preciosas. A mais usada no mundo é a irradiação. A FAPEMIG
financia projetos mineiros considerados dos mais importantes
desenvolvidos no país: o Projeto Corgema, desenvolvido em parceria pelo
CDTN - Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear - e a UFMG -
Universidade Federal de Minas Gerais -, que abrange várias ocorrências
geológicas de Minas Gerais e atua com ênfase para o processo de
irradiação, e o projeto de Tratamento Termoquímico do Topázio, inédito
no país, realizado pela Ufop - Universidade Federal de Ouro Preto.
Seja
por irradiação ou processo termoquímico, o objetivo das tecnologias é o
de agregar valor à pedra preciosa. A escolha depende da característica e
finalidade da gema. Algumas pedras não suportam as temperaturas
elevadas do tratamento termoquímico, como o quartzo, por exemplo.
Outras, como o topázio, são difíceis de “pegar” a cor por irradiação.
Independente do processo, quem manda no final das contas é o mercado.
“Os processos não são concorrentes. Pelo contrário, muitas vezes, se
complementam”, é o que diz o Prof. Fernando Lameiras, do CDTN, um dos
coordenadores do Corgema. Dependendo da origem e da característica da
gema, o melhor resultado pode surgir da combinação de técnicas
diferentes, segundo o Prof. Luiz Orlando Ladeira do Departamento de
Física da UFMG, também coordenador do Corgema. A pesquisa da Ufop,
coordenada pelo Prof. Antônio Claret Sabioni, possibilita a produção de
topázios das mais diversas cores.
As pesquisas envolvem técnicas
diferentes mas têm vários aspectos em comum. Ambas são
interdisciplinares - gemologia, geologia, mineralogia, química, física,
engenharia de materiais e engenharia nuclear -, e têm a finalidade de
desenvolver tecnologia para as pedras encontradas (ocorrências
geológicas) em Minas Gerais, agregando valor ao produto e formando
recursos humanos para o setor.
Projeto Corgema Segundo
os coordenadores do Corgema, o projeto abrange várias gemas com
ocorrência no Estado - quartzo, topázio, turmalina, água-marinha,
diamantes, alexandritas e outras - e prevê etapas que começam na
localização da ocorrência geológica, seguida pela caracterização física e
química da gema e a engenharia da cor, com o objetivo de estabelecer o
tratamento mais adequado para cada gema, até o desenvolvimento de
processos de coloração, quando for o caso. Eles garantem que o processo,
quando bem aplicado, resulta em gemas estáveis e duráveis, ou seja, não
perdem a cor e não quebram.
Na coloração por irradiação de
raios gama, a cor é definida pela dose de radiação e pelas impurezas da
pedra. Existem mitos que rondam este processo, especialmente os
relacionados com a radioatividade que causa danos à saúde. Os
pesquisadores explicam que a origem do preconceito pode estar no
processo de irradiação por nêutrons, proibido pelas normas brasileiras.
“Dependendo da impureza da pedra, este tipo de radiação pode gerar
radioatividade residual, sendo necessário manter a pedra tratada em um
longo período de quarentena”, diz o Prof. Lameiras. A irradiação por
feixe de elétrons - carga elétrica muito forte que dá a tonalidade azul
ao topázio -, feita no Brasil apenas em escala de laboratório, também
pode exigir a quarentena.
Mas a irradiação por raios gama -
usada no Brasil em larga escala - não oferece perigo. “É como se fosse
um banho de luz na pedra”, dizem os pesquisadores, exemplificando que
até frutas passam por este processo, para a eliminação de microrganismos
passíveis de deterioração, sem causar nenhum mal à saúde de quem as
consome. É neste tipo de irradiação que a pesquisa do Corgema se
concentra. A expectativa dos pesquisadores agora é a compra de um
espectrômetro de ressonância magnética e ótica, que permite detectar o
tipo de impureza e a cor que ela determina, e de um novo irradiador, que
serão de grande utilidade na caracterização das gemas e na coloração,
respectivamente.
UFOP - pioneira no processo termoquímicoAtualmente,
o topázio imperial só é encontrado em Ouro Preto. A cidade é a única no
mundo que produz esta pedra preciosa. Há algum tempo podia ser
encontrada também no Paquistão, que hoje está com as suas reservas
praticamente esgotadas. A característica desta gema é a cor amarelada -
os tons variam do alaranjado ao champagne - e, quanto mais forte a cor,
mais valiosa é a pedra. O topázio azul também existe na natureza, mas,
além de raro, apresenta tonalidades muito pálidas.
Já o topázio
incolor é encontrado em todo o país, especialmente em Minas Gerais e
Rondônia, e pode adquirir praticamente todas as cores do espectro a
partir do tratamento termoquímico, como explica o Prof. Claret. O
projeto foi totalmente financiado pela FAPEMIG, inclusive na
infra-estrutura do Laboratório de Difusão em Materiais do Departamento
de Física da Ufop onde é desenvolvido. O resultado da pesquisa é inédito
no país e tem importância estratégica para Minas Gerais e, por
enquanto, é sigiloso para garantir a patente. O Prof. Claret ingressou
em abril deste ano com o depósito de patentes junto ao INPI - Instituto
Nacional de Propriedade Industrial - em nome da Universidade.
Antes
da pesquisa desenvolvida pela Ufop, o tratamento térmico de gemas era
realizado de maneira empírica, com baixos rendimentos e perdas elevadas.
Baseado na pesquisa científica, o processo termoquímico - combinação de
temperatura com reações químicas - permite maior aproveitamento da
gema, com melhor rendimento, além de possibilitar a reprodução exata das
cores que podem ser até mesmo definidas em catálogo. O Professor Claret
afirma que a cor da gema através do processo termoquímico é mais
estável do que a obtida por irradiação e, até mesmo, do topázio colorido
natural.
Em comparação com o processo de irradiação, o
pesquisador enumera outras vantagens, como o baixo custo no processo de
coloração, que não necessita de equipamentos sofisticados, o que
facilita na formação de recursos humanos para a execução do trabalho.

Jóia com topázio imperial
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A Ufop está se preparando para comercializar o produto. Segundo
o Prof. Claret, a instituição pretende atuar desde a captação de
matéria-prima até a venda das pedras coradas com o selo da instituição,
passando pelo processo de lapidação com design exclusivo e, é claro,
pelo tratamento termoquímico.
A pesquisa movimentou a
pós-graduação da universidade. No ano passado os cursos de mestrado e
doutorado em Geologia integraram a disciplina Tratamento Térmico de
Gemas. O interesse extrapolou as fronteiras do país: já há solicitação
de pesquisador estrangeiro para pós-doutorado na área de tratamento
térmico de gemas.
Mercado de pedras coloridasOuro
Preto, patrimônio da humanidade, recebe turistas o ano inteiro. Grande
parte são estrangeiros que se encantam com as pedras preciosas. Maria
Helena Coelho, proprietária de uma das mais tradicionais joalherias da
cidade, conta que a pedra mais procurada pelos turistas é o topázio
imperial. O topázio azul também é bastante procurado, segundo ela,
seguido pelo branco ou incolor. A cor similar ao topázio azul que passa
pelo processo de coloração é encontrada na água-marinha em sua forma
natural. O preço é bastante diferente. Enquanto o topázio azul custa de
R$10 a R$ 20 o quilate, a água-marinha varia de R$ 50 a R$ 2.700 o
quilate, dependendo da tonalidade e da lapidação.
Ela acredita no
mercado para o topázio das diversas cores que o processo termoquímico
possibilita, mas acha essencial identificá-lo junto aos clientes, que
pedem inclusive explicações sobre os processos, a estabilidade da cor e a
durabilidade da pedra.
I Simpósio Brasileiro de Tratamento e Caracterização de Gema

Ouro Preto - MG
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Pesquisadores, professores, estudantes e profissionais
que atuam na área de gemologia vão se reunir pela primeira vez em Ouro
Preto, de 5 a 8 de novembro de 2000, no I Simpósio Brasileiro de
Tratamento e Caracterização de Gemas, promovido pela Universidade
Federal de Ouro Preto, com o apoio da FAPEMIG. O seminário vai discutir a
importância econômica das gemas tratadas, os diversos tipos de
tratamento, as técnicas de fabricação de gemas sintéticas e artificiais,
além da identificação e caracterização das pedras. O objetivo do
encontro é estabelecer o estado da arte do tratamento e caracterização
de gemas no Brasil e no exterior, a integração entre os setores
acadêmico e produtivo e a gemologia nacional e internacional.