sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Serra Pelada 2.0

Serra Pelada 2.0

NO PASSADO, 100 MIL HOMENS ENLAMEADOS DA CABEÇA AOS PÉS VASCULHARAM O MAIOR GARIMPO A CÉU ABERTO DO MUNDO. TRÊS DÉCADAS DEPOIS, A BUSCA PELO OURO ESTÁ SENDO RETOMADA – MAS DESTA VEZ NAS ENTRANHAS DA AMAZÔNIA


Serra Pelada em 1982 e em 2013 (Foto: Aureliano/ Estadão Conteúdo)

"Você quer saber o que é Serra Pelada hoje?”, responde em forma de pergunta José Raimundo Nonato Silva, um negro forte de 63 anos, dono de uma pele tão escura e brilhante que lhe valeu o apelido de Alumínio. “Isso aqui se tornou um cemitério de garimpeiros.” Sobrevivendo da aposentadoria da mãe, hoje Alumínio pode ser considerado um “blefado” – o que no peculiar dialeto desse povoado localizado a 45 quilômetros do município de Curionópolis, no sudeste do Pará, quer dizer simplesmente “pobre”.

Enquanto jogamos conversa fora em frente a um dos barracos de madeira que compõem o faroeste caboclo de Serra Pelada, praticamente intacto desde seu surgimento na década de 80, um homem conhecido apenas como Gaúcho se aproxima de nós e desembesta a falar, apontando para Alumínio. “Esse daí pegou muito ouro! Eu cheguei a ver esse cara jogando dinheiro para cima, numa praça aqui perto, que nem o Silvio Santos!”, conta, arrancando gargalhadas e movimentos de cabeça que atestam a veracidade de mais uma das infinitas lendas nascidas no maior garimpo a céu aberto que a humanidade conheceu.
Saem de cena os garimpeiros enlameados para dar lugar a máquinas que vão explorar o ouro em túneis (Foto: Luiz Maximiniano)

Pelas contas de Alumínio, os barrancos tocados por ele e seus colegas renderam cerca de 100 quilos de ouro – ou R$ 10,4 milhões, pela atual cotação do minério. “Mas a minha parte ficou só em 10%”, diz. “Como o senhor gastou isso?”, pergunto. “Fui garimpar!”, Alumínio responde com um sorriso malicioso, fazendo um losango com os dedos das duas mãos para representar o órgão genital feminino.

Exatos 21 anos após o decreto do então presidente Fernando Collor de Mello que fechou oficialmente o garimpo, Serra Pelada vai produzir ouro novamente. Mas, desta vez, não haverá nem sinal das impressionantes imagens do formigueiro humano transformadas em arte pela sensibilidade fotográfica de Sebastião Salgado ou pelo cultuado documentário experimental Powaqqatsi, do cineasta norteamericano Godfrey Reggio. Isso porque já não é possível usar as antigas técnicas artesanais para extrair o minério. Agora, o ouro está escondido nas entranhas da Amazônia.
Mineiros esperam receber até R$ 20 mil por mês, mas o valor não deve chegar a R$ 500 mensais (Foto: Luiz Maximiniano)

Neste semestre, modernas máquinas vão assumir a tarefa que no auge do garimpo, entre 1982 e 1983, cabia a 100 mil homens enlameados. Saem de cena os aventureiros que, assim como Alumínio, sonhavam “bamburrar” (enriquecer) do dia para a noite. Também estão aposentadas as pás e as picaretas que abriram a mítica cava de 1,2 quilômetro de diâmetro e de dezenas de metros de profundidade – hoje, um lago de águas calmas e barrentas onde crianças e adolescentes mais ousados chegam a nadar.

Nessa nova fase, a caça ao ouro será subterrânea e ficará a cargo da Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral (SPCDM), que abriu um túnel de dois quilômetros, a sudoeste da cratera, para acessar o minério ao longo dos dez anos de vida útil projetados para a mina. A empresa é uma joint venture formada por uma mineradora canadense chamada Colossus e pela Coomigasp – uma cooperativa de 38 mil garimpeiros que, em 2010, foi presenteada pelo governo federal com a concessão de lavra da área equivalente a 100 Maracanãs onde está instalado o projeto. Três quartos de tudo o que for retirado ficam com a mineradora. Os 25% restantes deverão ser rateados entre os sócios da Coomigasp. Ao todo, os custos de pesquisa e infraestrutura vão ficar em R$ 500 milhões, integralmente bancados pela companhia canadense.

Ao longo dos anos 80, Serra Pelada rendeu oficialmente 43 toneladas de ouro. Esse é o montante comprado pela Caixa Econômica Federal, que ergueu uma agência no garimpo para tentar coibir o contrabando – sem sucesso. Mas não foi o suficiente para cumprir a promessa feita pelo governo militar de quitar nossa dívida externa com o ouro da Amazônia.
Técnicos do Ministério de Minas e Energia estimam que ainda existam pelo menos 50 toneladas de minério intocadas no entorno da cava – riqueza superior a R$ 5 bilhões. Em alguns trechos da jazida, a concentração de ouro por tonelada de minério extraído chega a ser 50 vezes superior à de Paracatu, a maior mina em atividade no país, em Minas Gerais. As reservas ainda são ricas em platina e paládio, valiosos para a confecção de joias.
Milhares de homens viveram a febre do ouro na antiga Serra Pelada... (Foto: Carlos Chicarino/ Estadão conteúdo)

Apesar das boas perspectivas, a direção da Colossus evita cravar um número sobre a quantidade de ouro remanescente. “A mensuração da mina será feita ano a ano porque o processo de sondagem é complexo”, explica Claudio Mancuso, canadense de ascendência italiana e torcedor do Milan, que ocupa o posto de CEO da companhia. “Se esta fosse a melhor mina do mundo – e ela não é, apesar de ser muito boa –, cada um dos 38 mil sócios da cooperativa receberia no máximo R$ 1 mil por mês, em dez anos”, calcula. Dificilmente o pagamento chegará à metade desse valor.

Nos áureos tempos de Serra Pelada, Curionópolis era conhecida como “KM 30” da rodovia estadual PA 275, ponto de comércio e de cabarés, cercada de histórias de farra e violência. “De dia era 30, de noite era 38”, diz um ditado, em alusão ao calibre do revólver mais popular no sudeste do Pará. O hoje acanhado município de 18 mil habitantes deve seu nome a Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, personagem emblemático da ditadura militar. Depois de comandar a repressão à Guerrilha do Araguaia, na divisa do Tocantins com o Pará, ele foi escolhido para colocar ordem no maior garimpo da história do Brasil.
... Hoje a cava está submersa (Foto: Luiz Maximiniano)

A ideia dos generais era usar Serra Pelada como uma bomba de sucção de miséria, ocupando homens sem-terra e acalmando os conflitos fundiários comuns nessa parte da Amazônia. Curió, com ajuda de agentes da Polícia Federal, teve êxito. Diariamente, às 8 horas da manhã, todos os garimpeiros paravam de trabalhar para cantar o hino nacional. Em Curionópolis, o major é a um só tempo Deus e diabo. Em 2008, teve cassado o mandato de prefeito da cidade que leva seu nome por crime eleitoral – a boa e velha compra de votos.

Na cooperativa dos garimpeiros, longas filas se formam para colocar em dia a mensalidade de R$ 5, mas ninguém reclama. Na época do garimpo, os trabalhadores aguardavam em linha para tudo – desde usar o banheiro até desfrutar de Vanuza, uma burra que “foi a primeira mulher a quebrar o galho dos garimpeiros”, relembra um deles. Puxo papo com José Brito dos Santos, o Baixinho, um maranhense de 53 anos e 1,50 metro de altura. Ele conta como escapou da morte por capricho do destino. Sua rotina era subir até 50 vezes por dia, com sacos de 30 quilos de cascalho nas costas, as escadas de madeira chamadas de “Adeus, mamãe”. Certa vez, depois de fazer uma pausa, um desmoronamento matou 19 pessoas, soterrando o barranco em que ele trabalhava. “A verdade é que nunca tive medo de morrer. O cabra nem podia pensar nisso, senão não dava conta do recado.”
No auge de Serra Pelada, o metal era retirado manualmente (Foto: Agência O Globo)

Histórias de morte morrida ou matada são lembranças corriqueiras por aqui. Assim como os “causos” de orgias homéricas, quase sempre em bordéis fora de Serra Pelada. Mulheres e cachaça eram os troféus cobiçados, porém proibidos pela Polícia Federal. Na mesma fila em que encontro Baixinho, um garimpeiro que prefere não se identificar recorda quando o dono do barranco onde trabalhava o convidou para uma noitada em um cabaré de Marabá, o principal município do sudeste do Pará. Numa casa com 17 mulheres, nenhuma com mais de 16 anos, o dono do barranco expulsou todo mundo com uma espingarda calibre 12. O bordel virou uma festa particular por três dias, com cerveja e churrasco. A conta ficou em 1,5 quilo de ouro – fora os 10 gramas com que cada uma das meninas foi presenteada.

Alguns garimpeiros de Serra Pelada não se enquadram no estereótipo do flagelado. É o caso de Airton Portilho, um gaúcho de Erechim. Empresário que mora no Tocantins, onde até já tentou carreira política, Portilho chama atenção por um motivo curioso: é um dos dublês do ator Antônio Fagundes. “Já até apanhei em cena de tortura. Agora, quando era para beijar alguma atriz, era ele que fazia.”

Serra Pelada é rica não apenas em ouro, mas em personagens folclóricos. O mais falado é José Mariano, o Índio, que acumulou 400 quilos de ouro. Reza a lenda mais difundida do garimpo que, certa vez, a atendente de uma companhia aérea no Aeroporto de Marabá deu pouca atenção a Índio, que queria viajar para o Rio de Janeiro, por conta de seus trajes pouco refinados. Irritado, ele comprou todas as passagens do voo e viajou sozinho. Por extravagâncias como essa, perdeu tudo.

Aos 63 anos, Gregório Grunupp é outro mito que vive a desfilar pelos bares de dominó no distrito de Serra Pelada. Apesar de nascido em Minas Gerais, é conhecido por Catarinense, devido à pele clara e aos cabelos amarelados. Sua fama começa por um fator biológico: ele é irmão da Elke Maravilha. “Ela veio para cá duas vezes. Em uma delas, a gente colocou a Elke dentro da cava. Ela sempre foi muito beijoqueira. Então, ela dava um monte de beijo nos garimpeiros, mas quando percebia alguma saliência cortava logo.”
Quase não havia segurança na área de mineração (Foto: Estadão Conteúdo)


Junto com outros dois irmãos, Catarinense chegou a Serra Pelada em maio de 1981. Entrou como “furão”, quer dizer, rasgando a mata para fugir da barreira da Polícia Federal que controlava o acesso ao garimpo. Dois anos depois, com a situação já regularizada e uma fatia de 5% de tudo que saísse do barranco em que trabalhava, encontrou a terceira maior pepita da história de Serra Pelada, com 33,5 quilos. Hoje, a peça está em exposição no Museu de Valores do Banco Central, em Brasília. “Teve gente do lado que até desmaiou. Mas eu fiquei calmo porque sabia que ia encontrar. Sabe aquela coisa de intuição? Inclusive, eu sou espírita”, explica.
Ao contrário dos outros irmãos, Catarinense preferiu ficar em Serra Pelada. Investiu o dinheiro que ganhou em negócios malfadados e, nem de longe, parece um “bamburrado”. Mesmo assim, não parece muito disposto a deixar o local em que viveu as maiores aventuras de sua vida.

Como tantos outros, também está na expectativa de que a retomada da mineração possa lhe trazer algum dinheiro. Mas, no fundo, não parece muito preocupado com isso. “Por que o senhor veio para cá? Como aguentou carregar tantos sacos de cascalho nas costas? Por que ainda está por aqui?”, faço uma série de perguntas inocentes à procura de respostas racionais. “É a febre do ouro. Serra Pelada é uma cachaça”, ele define.      

 
Bilhões em ouro

- 2 km é a extensão do túnel de exploração da nova Serra Pelada, com 400 metros de profundidade (ou um prédio de 120 andares)

- 1,2 km é o diâmetro da cava da antiga Serra Pelada, com 100 metros de profundidade

- 100 mil homens chegaram a trabalhar ao mesmo tempo no antigo minério

- 38 mil é o número de mineiros que devem trabalhar no garimpo 2.0  
 
- 50 toneladas de ouro (ou R$ 5 bilhões) é quanto estima-se existir na cava da nova Serra Pelada, que será explorada até 2022


- 43 toneladas de ouro foi o total extraído na antiga Serra Pelada, entre 1980 e 1992

- Estima-se que em alguns trechos a concentração de ouro por tonelada de minério extraído seja hoje 50 vezes superior à da mina de Paracatu, em Minas Gerais, a maior do Brasil

O sonho do garimpeiro é bamburrar, ficar rico. Achar um filão com muito ouro

O garimpo, autorizado pela Constituição Federal, é uma atividade cheia de paradoxos e contradições: contribuiu para a expansão territorial do país, mas às custas da destruição de comunidades indígenas. Hoje, ela ajuda no equilíbrio da balança comercial brasileira, ao mesmo tempo em que danifica o meio ambiente. Também mantém potencial simultâneo para enriquecer e adoecer os garimpeiros. A reportagem especial desta semana traça o panorama atual do garimpo no brasil. Ao longo da semana, você vai conhecer as ações do Parlamento e do Executivo em prol de garimpos legais e ambientalmente sustentáveis. A segunda matéria sobre o garimpo no brasil detalha um pouco mais os impactos sociais e ambientais dessa atividade polêmica, mas rentável.
TEXTO
O que leva homens a abandonar a família e a vida urbana para se embrenhar em garimpos à beira de rio ou dentro de crateras de rocha, quase sempre em condições subumanas? A resposta está na ponta da língua de qualquer garimpeiro espalhado por esse país continental.

"O sonho do garimpeiro é bamburrar, ficar rico. Achar um filão com muito ouro, uma pedra muito grandona de ouro".
A atividade garimpeira é cheia de contradições: contribuiu para a expansão territorial do país na época do Brasil colônia, mas às custas da destruição de várias comunidades indígenas; ajuda o equilíbrio da balança comercial brasileira, ao mesmo tempo em que danifica o meio ambiente; e tem potencial para enriquecer e adoecer os garimpeiros, só para citar alguns desses paradoxos. Defensores da atividade costumam afirmar que, apesar de reconhecidos pela Constituição federal, os garimpeiros são "satanizados ambientalmente, injustiçados socialmente e penalizados tributariamente". Presidente de uma cooperativa de garimpeiros do Amapá, Antônio Pinto, explica o perfil desses homens e lamenta as poucas oportunidades para o trabalho legal no Brasil.
"A classe dos garimpeiros é uma classe sofredora. São pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar e hoje vivem em busca do ouro porque é a forma mais fácil que ele acha para sobreviver. Então, tem que ter oportunidade. Não é preciso que nossos garimpeiros entrem nos países (vizinhos) adentro atrás de ouro, porque o nosso país tem muito ouro. Na nossa região de Boa Vista, em Roraima, eu conheço cento e poucas pistas de avião que foram explodidas pela Polícia Federal. E é área rica. Por que o nosso governo brasileiro não abre uma oportunidade para essa classe garimpeira se manter dentro de seu país e ter a sua liberdade?"
Hoje, Antônio Pinto comanda um grupo de garimpeiros devidamente legalizados. Mas ele também já desempenhou essa atividade clandestinamente aqui no Brasil e também nos vizinhos Suriname e Guianas francesa e inglesa. Antônio conta que não tem nenhuma saudade daqueles tempos difíceis.
"Eu fiquei cinco dias escondido no mato, lá no Kourou (Guiana Francesa), querendo tanto ir ao supermercado para comprar uma merenda. E eu não podia ir porque, se fosse, eu seria preso. Eu já entrei bem aqui, no Oiapoque, passando pelo garimpo do Sikini, Sapucaia, Groatá, Mototáxi, Abafadinho e saí lá na fronteira do Suriname com a Guiana, que é a Tapiqui. E de lá, eu fui para Paramaribo, Suriname. De lá, fui para um garimpo dentro da Guiana inglesa, me expulsaram e fui para Boa Vista. Eu conheço essa rota todinha. Mas hoje eu não quero viver naquela situação, porque é triste. É muito sofrido para quem está lá dentro".
MÚSICA: "Garimpeiro", de Antônio Ferreira
"Eu só vou garimpar, garimpar, garimpar
Sou garimpeiro
Eu vim da Serra Grande, parei na Serra Pelada
Atravessei o Amazonas, montado em minha jangada.
No caminho de lá pra casa, gastei tudo que ganhei
E a fortuna que lá deixava, nunca mais eu avistei..."
Quem vai atrás de esmeraldas, conhecida como "ouro verde", também vive uma via crucis. Para se chegar, por exemplo, aos veios de esmeralda dentro das rochas da Serra da Carnaíba, na Bahia, é preciso cavar buracos de até 300 metros de profundidade e, lá em baixo, suportar temperaturas escaldantes, manipular dinamite, respirar fuligem e rezar para que não ocorra nenhum desabamento.
Além do drama humano, as atividades em torno do garimpo esburacam nossas serras e sangram nossos rios. O mercúrio, usado para separar o ouro e outros metais presentes na água fluvial, é extremamente tóxico e está associado a problemas respiratórios, digestivos e neurológicos nos garimpeiros; e à contaminação de peixes, água, ar e solo. O problema é tão sério que a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938/81), aprovada pelo Congresso em 1981, determinou ao Ibama a responsabilidade de controlar a importação, a produção, a comercialização e o uso do mercúrio no Brasil.
Outro impacto ambiental da atividade garimpeira se dá na extração ilegal de ouro e outros metais preciosos em parques nacionais e terras indígenas. E se não bastassem tais problemas, o policial federal Jorielson Nascimento, que tenta combater o garimpo ilegal na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa, lista uma série de crimes que rondam as comunidades garimpeiras.
"A prática da exploração clandestina do ouro faz com que flutue em torno dessa prática diversos outros crimes: tráfico de drogas, tráfico de armas, tráfico de pessoas especificamente para prostituição. Tráfico de crianças também. Sonegação fiscal, crimes contra ordem tributária, crimes contra o sistema financeiro, enfim, a prática do garimpo ilegal na fronteira faz isso".
Ufa, haja problemas! E na hora de pensar em soluções, o consenso gira em torno da legalização dos garimpos. Até porque a atividade dificilmente deixará de existir e o Brasil precisa dos recursos financeiros gerados por suas riquezas minerais. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, o setor de mineração responde por cerca de 4% do PIB nacional, movimentando em torno de 70 bilhões de dólares por ano. Ex-secretário do ministério e autor do livro "Geopolítica das Minas no Brasil", o geólogo Cláudio Scliar afirma que o país ainda tem muito potencial inexplorado.
"Nós somos um país continental e ainda há muitas áreas que precisam ser detalhadas do ponto de vista do mapeamento geológico sobre o conhecimento do seu potencial. Mas o Brasil, dentro do que já foi descoberto, tem um papel extremamente importante do ponto de vista mundial, onde somos o primeiro produtor em vários bens minerais, como bauxita, rochas ornamentais, caulin; e, em outros, somos importantes: segundo em ferro. Nós temos vários bens minerais que são muito importantes para a nossa balança comercial".
Quanto ao ouro, o governo estima que as reservas brasileiras são de 2 mil toneladas. A produção anual, que está em torno de 60 toneladas, deve dobrar até 2017, consolidando o ouro como o segundo bem mineral em valor de exportação, atrás apenas do minério de ferro. E essa estimativa, obviamente, nem leva em conta a extração informal feita por 300 mil a 500 mil garimpeiros espalhados pelo país, na avaliação do próprio ministério.
E vem de um simples garimpeiro legalizado da Amazônia, Manoel Perquival, um apelo para que essa riqueza possa ser explorada com pleno respeito à vida humana e ao meio ambiente. Com seus 60 anos de idade, Manoel ainda não perdeu a esperança de bamburrar, ou seja, de ficar rico trabalhando dignamente nos garimpos do país.
"Que nos deixem trabalhar, porque as autoridades, hoje em dia, estão nos reprimindo ao máximo. Estão nos deixando sem respirar. Há como trabalhar no garimpo sem danos para o meio ambiente. Não é o terror que eles falam. O nosso maior problema é proteger as nascentes. Eu, como garimpeiro, reconheço que, se protegermos as nascentes, nós não teremos problemas com o meio ambiente. Há como recompor, como reflorestar. Não existe bicho de sete cabeças. O problema é planejamento".

DO BAMBURRO AO BLEFO GARIMPO REMANSO DOS MACACOS NÃO PASSOU DE ILUSÃO.

DO BAMBURRO AO BLEFO GARIMPO REMANSO DOS MACACOS NÃO PASSOU DE ILUSÃO.

RAUL SEIXA CANTOU EM UM DOS SEUS VERSOS O FALSO BRILHO DO OURO DE TOLO. DO SONHADO BAMBURRO RESTOU O PESADELO DO BLEFO E O QUE SURGIU EM PLENO ESTADO DE EUFORIA COMO MAIS UMA PROMISSORA ”FOFOCA” ACABOU PRECOCEMENTE DEIXANDO ATRÁS UM RASTRO DE DESOLAÇÃO. 


NO AFÃ DE ENRIQUECER DA NOITE PRO DIA MUITOS SE AVENTURARAM COMPRANDO EQUIPAMENTOS E INSTALANDO SUA BALSA NO GARIMPO REMANSO DOS MACACOS NA REGIÃO DO PERIQUITO.TEVE GARIMPEIRO QUE FICOU ENDIVIDADO EM MAIS DE CEM MIL REAIS NO COMÉRCIO EM ITAITUBA. A NOVA CORRIDA DO OURO ATRAIU PESSOAS DE RONDÔNIA, RORAIMA, AMAZONAS, DO SUDESTE, NORDESTE DO BRASIL E DE VÁRIAS REGIÕES DO PARÁ QUE APOSTAVAM NUM IMINENTE BAMBURRO. 

NO FRENESI DO “OURO DE TOLO” AS MARGENS DO RIO TAPAJÓS CHEGOU A FLUTUAR CERCA DE 80 BALSAS. HOJE O CENÁRIO É DE COMPLETA DESOLAÇÃO, RESTANDO AINDA CINCO HEROICOS 5 UTÓPICOS GARIMPEIROS QUE AINDA ACREDITAM QUE VÃO CONSEGUIR EXTRAIR OURO EM QUANTIDADE EXPRESSIVA.
QUANDO A CORRIDA DO OURO FOI INICIADA ERAM EXTRAÍDAS DE 100 A 120 GRAMAS POR DIA, MAS ESSA QUANTIA FOI EXAURINDO ATINGIDA A PÍFIA MARCA DE DUAS GRAMAS APENAS, AONDE TEVE UM GARIMPEIRO QUE INVESTIU SESSENTA MIL E EXTRAI RELÉS 15 GRAMAS. 

MUITOS JÁ PLANEJAVAM IMPLANTAR, BARES, CABARÉS, ENFIM PELA MOVIMENTAÇÃO PARECIA QUE IRÍAMOS VIVER UMA NOVA ETAPA DE BAMBURRO COMO FOI COMUM NAS DÉCADAS DE 80 E 90. COM O BLEFO A ÁREA EXPLORADA VIROU UM CEMITÉRIO DE MOTORES, MANGUEIROS E OUTROS EQUIPAMENTOS ABANDONADOS PELOS SONHADORES GARIMPEIROS TRAÍDOS PELO AFÃ DA RIQUEZA FÁCIL.

AVALIANDO O EPISÓDIO O VEREADOR LUIZ FERNANDO SADECK DOS SANTOS - PENINHA, DISSE QUE DE FATO ALGUNS SE PRECIPITARAM E A REGIÃO JÁ ESTAVA CAUSANDO POLÊMICAS PELA QUANTIDADE SÚBITA DE EXPLORADORES DE OURO QUE SE DIRIGIRAM PARA O GARIMPO. PENINHA ESTEVE VÁRIAS VEZES NO GARIMPO DANDO APOIO AOS GARIMPEIROS QUE EM SUA MAIORIA ERAM DE OUTRAS E REGIÕES E UMA PARTE AQUI DE ITAITUBA.


A PRIMEIRA FOFOCA DA CORRIDA DO OURO EM ITAITUBA OCORREU EM 1958 NO CHAMADO RIO DAS TROPAS LOCALIZADO EM JACAREACANGA NA ÉPOCA AINDA PERTENCENDO AO TERRITÓRIO ITATUBENSE TENDO NA FIGURA DE NILÇON PINHEIRO SEU PIONEIRO EXPLORADOR. A MARCA HISTÓRICA DA REGIÃO DO TAPAJÓS QUE JÁ FOI CONSIDERADO O MAIOR CENTRO DE EXPLORAÇÃO AURÍFERA DO MUNDO DESSA VEZ SE TORNOU UM FIASCO.

Sonho dourado traz destruição para a natureza

Sonho dourado traz destruição para a natureza



O sonho de se "bamburrar", ficar com o ouro na mão e enriquecer de um dia para o outro. É a história comum na vida dos homens que abandonam suas famílias, para buscarem na floresta Amazônica, o mais cobiçado dos metais: o ouro. Mas, muitos acabam nunca saindo dos garimpos, nem enriquecendo. E padecem na própria floresta, abatidos pela malária, violência e dificuldades de se viver sem a mínima infra-estrutura. Como em outro velho mito que cerca a atividade, expresso na frase de um dos desbravadores do norte de Mato Grosso, Ariosto da Riva: "Garimpo é coisa maldita. O ouro traz junto o diabo e suas conseqüências".
Ao contrário de outros Estados do país, como Pará e Minas Gerais nos quais a maior parte da produção é mecanizada e controlada por companhias mineradoras, como a Vale do rio Doce, responsável por Carajás. No norte de Mato Grosso ainda prevalecem os garimpos artesanais, comandados por pequenos empresários que compram a produção dos garimpeiros.
O resultado deste componente são histórias de abandono, violência, massacres resultantes de conflitos com os índios, o aumento dos surtos de malária e a crescente contaminação por mercúrio.  Embora os grandes veios de ouro de aluvião (que ficam na superfície) tenham sido exauridos e o antigo Garimpo do Juruena não produza mais como há dez anos atrás. Muitos homens ainda se arriscam nas matas e rios do município de Apiacás, em busca das cobiçadas pepitas e da perspectiva de mudar sua sorte na vida. As grandes clareiras na floresta são vistas com certa freqüência. E quando sobrevoadas de avião dão a impressão de serem verdadeiras feridas abertas entre a sombra das árvores.
Mercúrio nos rios
Outra forma de extração muito comum na região são as balsas, que dragam os fundos dos rios com o auxílio de mergulhadores. E tanto no rio Teles Pires (ou São Manoel), quanto no Juruena, a grande maioria dessas dragas estão em situação ilegal. O que aumenta as chances de contaminação por mercúrio, ou Azougue como é chamado o metal líquido pelos garimpeiros.
Uma pesquisa de 1995 da extinta Fundação Estadual de Meio Ambiente de Mato Grosso (atual Secretaria Estadual de Meio Ambiente), mostra que 95% da população do Pontal do Apiacás possuí níveis de contaminação por mercúrio acima do limite estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). E o rio Teles Pires, que depois do encontro com o Juruena na região do pontal forma o rio Tapajós, leva a fama (sem comprovação científica) de ser um dos rios mais poluídos por mercúrio metálico no mundo.
Outro problema relacionado às balsas é a precariedade das condições de trabalho. Os mergulhos são feitos com equipamentos praticamente artesanais e sem qualquer tipo de segurança. O trabalho arriscado desses homens é feito em profundidades que podem chegar à 25 metros, em meio a correnteza e quase sem visibilidade. O oxigênio chega por mangueiras e o tempo de permanência no fundo dos rios é de até cinco horas. Durante o processo de extração é o mergulhador quem conduz o duto da draga, que remove os sedimentos do fundo do rio (e o ouro) levando todo o material aspirado à superfície.
No auge do período do ouro, muitos desses mergulhadores eram assassinados nas disputas pelos pontos de extração. A mangueira de respiração era cortada e a pessoa morria no fundo do rio.
Dinheiro Maldito
Mas apesar de todo ouro extraído, a riqueza não parece ficar nas mãos dos que arriscam a vida nas dragas. Muitos afirmam que isso se dá, porque dinheiro de garimpo é "maldito", e nunca permite o garimpeiro deixar o local, pois faz com que este depois de gastar tudo que ganhou, sempre retorne movido pela expectativa de encontrar mais ouro.
Embora o mito seja forte entre os garimpeiros, a forma de comercialização também explicar muito dessa perversa matemática. Em alguns povoados de Apiacás a moeda corrente ainda é a grama do ouro, que é comercializada na forma de troca direta. O ouro do fundo dos rios rapidamente se transforma em roupas, remédios, produtos de higiene e comida. Fator que ajuda a diminuir drasticamente a renda dos garimpeiros, que permanecem em eterna 'dívida" com os proprietários das balsas e comerciantes locais.
 A descoberta do ouro no rio Teles Pires aconteceu em 1978, com a decadência dos garimpos de Peixoto de Azevedo. A febre do ouro fez com que durante o auge da extração em 1989, o município de Apiacás chegasse a ter 55 mil garimpeiros. Com a fim do grande ciclo de mineração no final da década de 90, muitos tentaram ocupar terras na região, começando um período marcado por muitos conflitos fundiários e mortes.
Além de abrir frentes de desmatamento, causar a poluição por mercúrio e a degradação dos rios, os garimpos são considerados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), como potenciais ameaças aos índios. Dados do Cimi apontam para a possibilidade de existência de grupos "isolados" nas matas do Pontal do Apiacás, que vivem sem saber da ameaça de serem contatados pelos garimpeiros, sob o risco de sofrerem massacres similares aos dos índios Panará. Etnia que quase desapareceu devido aos conflitos e doenças trazidas por garimpeiros durante a abertura da BR 163, a estrada Cuiabá - Santarém.

O recente Parque Nacional criado na região pode, além de aumentar as chances de conservação da riqueza natural da região, fazer com que surjam outras alternativas de renda para a população local, como o ecoturismo.

GARIMPOS DO TAPAJÓS

GARIMPOS DO TAPAJÓS 

A Província Aurífera do Tapajós inserida na Reserva Garimpeira do Tapajós, criada através de Portaria Interministerial nº 882, de 25 de julho de 1983, com publicação no Diário Oficial da União em 28 de Julho de 1983, ocupa uma superfície de aproximadamente 250.000 km².
As jazidas de ouro localizadas nessa região, distribuem-se ao longo da intensa rede de drenagem tributária do Rio Tapajós, mencionando-se entre os mais importantes cursos d’água, os rios Jamanxim, Tocantins, Crepori, Creporizinho, Marupá, Novo, Surubim, Tropas, Mutum e Pacu. Os Rios Parauari, Amana e seus tributários, já pertencem a bacia do Rio Amazonas.  
Por longas décadas o sonho de “Bamburrar” (fazer fortuna) acalentou o sonho de milhares de garimpeiros. É a história comum na vida dos homens que abandonaram e até hoje, abandonam suas famílias, para buscarem na floresta Amazônica o mais cobiçado dos metais: o ouro. Muitos acabaram nunca saindo dos garimpos, e nem tão pouco enriqueceram, padeceram na própria floresta, abatidos pela malária, violência e/ou pelas dificuldades de se viver sem a mínima infraestrutura. O resultado deste componente são histórias de abandono, violência, o aumento dos surtos de malária e a crescente contaminação por mercúrio. 
        
                                                             Pista do Sudário - Rio Marupá

Os Precursores da Garimpagem na Região
Em 1958 os irmãos Nilson e Edson Pinheiro, descobriram a primeira jazida de ouro no Tapajós, denominada “Grota Rica das Tropas” localizada a poucos quilômetros a montante da foz do Rio das Tropas, tributário da  margem direita do Rio Tapajós. Essa área chegou a produzir toneladas de ouro, tipo pepita.  Posteriormente vieram os Irmãos Sudários precursores da garimpagem na região do Rio Marupá. Os Irmãos Uchoa (Wilson, Walter e Weimar) criaram diversos garimpos na região do Rio Amana, inclusive o garimpo do Porquinho. O José Cândido de Araújo, o Popular Zé Arara – um dos maiores produtores e compradores de ouro de toda a região dominou por muitos anos a Região do Garimpo do Patrocínio no Rio Surubim, que posteriormente vendeu parte do Garimpo ao Ruy Barbosa de Mendonça.
A descoberta do ouro no Rio Teles Pires aconteceu em 1978 com a decadência dos garimpos de Peixoto de Azevedo. A febre do ouro fez com que durante o auge da extração em 1989, o município de Apiacás chegasse a ter 55 mil garimpeiros. Com a fim do grande ciclo de mineração no final da década de 90, muitos tentaram ocupar terras na região, começando um período marcado por muitos conflitos fundiários e mortes.

REGIME DE LAVRA GARIMPEIRA
A Lei 7.805 que criou o regime de Lavra Garimpeira, foi editada em 18 de Julho de 1989, regulamentada pelo Decreto nº 98.812, de 09 de janeiro de 1990. Essa Lei, extinguiu o regime de matrícula do garimpeiro, o que ajudou a tornar célere a atividade na região. Mas o ponto negativo desse episódio, é que quando foram criadas as Unidades de Conservação na região do Tapajós (13.02.2006), os garimpeiros e agricultores que já historicamente estavam no âmbito das unidades trabalhando legalmente, passaram a ser considerados “Criminosos ambientais”.