"OS GARIMPEIROS
SÃO SERES INCOMPARÁVEIS. SÃO HOMENS QUE FOGEM DA VIDA
REAL EM BUSCA DO IMAGINÁRIO, NÃO MEDINDO CONSEQUÊNCIAS
FINANCEIRAS OU DE SAÚDE, DISPOSTOS A NEM COMER O PÃO
QUE O DIABO AMASSOU, E A DAR SANGUE, SUOR, PULMÃO,
FÍGADO..., PARA ENRIQUECER DO DIA PRA NOITE."
(Carvalho, Fábio L. 2001)
"PEDRAS PRECIOSAS:
UMA COLHEITA QUE JAMAIS SE REPETE"
( Sauer, Jules Roger 1982)
"A VERDADEIRA
CONSTITUIÇÃO DAS COISAS GOSTA DE OCULTAR-SE"
(Éfeso, C. 500 a.C.)
Sonhando
Acordado
Água, muita água
se desprendia das nuvens naquela noite quente e poluída
de São Paulo. Estático e cabisbaixo sob o teto
barulhento de um posto de gasolina, eu viajava em
pensamentos profundos, acompanhando no reflexo de uma
poça d`água suja, a mudança de cores de um sinaleiro.
As cores se embaralhavam de tal forma com o arco-íris
formado por resíduos de petróleo que acabei esquecendo
por um instante que estava estressado. Estava totalmente
exausto pelo ano inteiro de estudo e trabalho na pesada
metrópole. Se há uma coisa que eu detesto de verdade,
é cidade grande. Por mim, preferiria mil vezes ter
nascido há cem anos, o que seria bem menos doloroso.
Não sei por que cargas d’água me puseram no mundo
bem na beirada do século vinte e um. Tem gente que acha
isso uma dádiva de Deus, poder ver os maiores avanços
industriais e tecnológicos que a humanidade já
presenciou. Grande merda. Mais máquinas e menos amigos.
Mais trabalho e menos tempo para pensarmos e fazermos
coisas que vêm na telha. Fui então me aproximando
vagarosamente até pisar na poça. O reflexo de minha
imagem foi ficando assombroso. Podia ver, ao invés da
imagem de um garoto saudável, um velho corcunda. Sentia
que tinha um piano em cima de meus ombros e o meu maxilar
parecia tão rígido que se alguém encaixasse um
diamante entre meus dentes seria esmigalhado em fração
de segundos. Minha vontade momentânea era de chupar com
um canudo toda aquela água colorida pela goela abaixo
para ver se a droga da minha vida dava uma guinada sei
lá pra onde. Esse pensamento fez-me rir e com a risada
caí verdadeiramente na real de que aquele turbilhão de
carros e caminhões estava prestes a sumir de minha
vista. Iria sair de viagem naquele momento. Mas mesmo
assim não estava conseguindo relaxar. Não tinha escoado
definitivamente do mundaréu de concreto da terceira
maior cidade do planeta. Comecei a olhar de um lado para
o outro, praguejando baixo, com medo de algum ladrão ou
outra coisa qualquer. Foi quando ouvi a firme voz de
Rodolfo ecoar pelo posto:
--- Let`s go to
Bahia!
Nem acreditava que
de um dia para o outro tinha mudado completamente os meus
planos e ao invés de estar indo para o Guarujá
novamente, rumava para o norte do Brasil. A vida tem
dessas coisas, e com essas e outras indefinições é que
fazem dela um delicioso mistério. Nunca se sabe o que
virá amanhã e o que importa é deixar ser levado para
cada surpresa. Afinal de contas já tinha ido o ano
inteiro para o litoral paulista, e no final de ano é um
martírio ainda maior - pegar trânsito e praias
poluídas. Mas dessa vez quando soube que dois amigos
trilhariam o asfalto cinzento até a Bahia entrei um
tanto de penetra na viagem sem pensar muito no assunto.
Garantido que para eles era até melhor. Mais uma cabeça
para rachar os gastos do combustível, sem contar a
companhia de mais um paulista estressado na trupe.
Porta-malas
abarrotado, tanque do carro repleto de combustível e
muita esperança em passar o Reveillón do ano de
2000 em pleno sossego no litoral baiano, precisamente em
Itacaré.
Deixamos São Paulo
na luxuosa caminhonete de Rodolfo num dia abafado e
chuvoso de final de dezembro. Me lembro como se fosse
hoje. Enquanto ia deitado folgadão no banco traseiro,
Renato trabalhava de co-piloto na frente, pois já era
madrugada e tudo o que mantivesse o motorista acordado e
atento tinha imenso valor. Os dois puseram-se a conversar
animadamente. Não paravam um só instante de falar a
respeito de um garimpo em algum lugar da Bahia em que
seus pais tinham a posse de uma mina. Enquanto tentava
pegar no sono, estirado no espaçoso banco de couro,
ouvia antenado o papo deles. Eles estavam com planos de
prosseguir a viagem, após a passagem do ano, até tal
garimpo para verificarem como as coisas estavam andando
por lá. Rodolfo era o mais empolgado:
--- Renato, você
deve estar sabendo que eles estão quase lá. O buraco
já está com 70 metros de profundidade. Régis telefonou
ontem para o meu pai e disse que já acharam indícios e
isto significa que as esmeraldas brotarão muito em
breve.
--- Eu sei Rodolfo.
Estamos indo para a Bahia em boa hora. - respondeu o
co-piloto, com a voz mais sonolenta do que a de um
bêbado na sarjeta.
Minha cabeça girava
como uma centrífuga. Não tinha noção de qual seria
meu destino quando fossem para lá. Voltaria de avião ou
de carona com algum idiota conhecido que encontrasse em
Itacaré. Era isso o que imaginava. Tinha uma importante
reunião de trabalho já agendada para o começo de
janeiro e não podia largar de uma hora para outra o meu
trabalho numa empresa de Internet bem conceituada de São
Paulo. Mas ao mesmo tempo tinha muita vontade de conhecer
um garimpo de verdade. Sempre foi um sonho de infância
andar livremente pelas galerias de uma mina, seja lá de
que minério fosse. Queria apenas sentir o prazer de
procurar um tesouro. Mesmo não encontrando-o não iria
ficar chateado. Só de estar próximo dele, sonhando
todos os dias com ele, já seria uma satisfação. Pelo
menos era o que achava. Esse dilema foi remexendo de tal
forma minha mente que consegui ir arrastando na viagem
somente um sono superficial.
Não bastou algumas
horas de marcha para a educada e séria Polícia
Rodoviária Federal do Rio de Janeiro mandar o nosso
veículo encostar. Levantei a cabeça assustado achando
que algo de pior havia acontecido. O relógio digital do
carro já reluzia duas horas da manhã. Os meus dentes
ainda estavam tão grudados de tensão que me escondi
pensando que o policial poderia imaginar que eu estava
rindo de sua cara. Foi apenas mais uma investigação
corriqueira que os guardas fazem quando visualizam algo
de anormal nos veículos. Isso estava ocorrendo somente
devido ao chamariz que carregávamos no rack da
caminhonete: uma prancha de surf. Culpa daquele paradigma
besta de que todo surfista é maconheiro. Não passou de
um susto. Eles revistaram bolsas e bolsos, cheiraram os
dedos de todo mundo, mas ficou só nisso. Não demorou
mais que 15 minutos para o paspalho do guarda carioca
dizer com aquela feição ainda desconfiada: Boa viagem!
Depois de muita
estrada esburacada e sem acostamento chegamos em Porto
Seguro para descansarmos um pouco de uma viagem
desgastante e interrupta. Assim como fez Pedro Álvares
Cabral, encostamos nossa embarcação naquele local para
o primeiro contato com o ambiente baiano. Quem disse que
dá para ficar no hotel em uma noite quente de janeiro em
Porto Seguro? Acabamos varando a noite em claro com
direito a vários drinks de capeta em Arraial
d´Ajuda!
Passada a ressaca
dos viajantes prosseguimos para Itacaré para desfrutar
alguns dias do final do ano em paz. Foi tudo uma
maravilha, melhor do que esperávamos, pois não faltaram
boas surpresas. Foi lá em Itacaré que ocorreram três
fatos marcantes.
O primeiro foi o
convite de um professor que nasceu lá, mas lecionava em
São Paulo para minha sala de faculdade. Sempre no final
de ano voltava para a casa para visitar os pais e irmãos
que sobreviviam pescando no verde mar baiano. E eu sabia
que iria encontrá-lo numa cidade praiana tão pequena
como Itacaré e não deu outra. O convite foi para um
banquete de bacana após a noitada do dia 29 de dezembro
na qual nos encontramos no forró. Eram seis e vinte da
manhã quando entramos em sua acanhada casa. Parece
loucura mas a essa hora da manhã sua mãe costumava
encostar a barriga no fogão. Não acreditei - era peixe
ensopado, pirão, cuscuz, muita pimenta, farinha da
boa... Tudo ao ar livre no verdejante quintal, ao som dos
passarinhos que estavam acordando e arriscando suas
primeiras melodias matinais. Tive ali a primeira real
impressão de que o povo baiano é especial. Eles
conseguem fazer sentirmos totalmente em casa naquela
terrinha!
O segundo fato foi
encontrar e passar o Reveillón com uma menina show
de bola. Era uma paulista. Uma princesa sem frescuras.
Muito diferente de uma paulista convencional. Não ligava
em estar de chinelos, com o pé na lama, roupas
desgastadas, sem chamar a atenção de todos. O que
importava eram seus olhos azuis, uma tatuagem de um
índio no braço e um sorriso eterno. Muita pena que
estava acompanhada do namorado. Talvez ela tenha sentido
algo, pois eu senti. E senti que ela sentiu. Nossos
olhares se cruzavam quase a todo o momento em que
estávamos próximos. Foi um lance meio diferente e tive
que respeitá-la por estar com o namorado. Sei que a vida
é curta. Mas sei também, que o mundo é pequeno. Um dia
hei de encontrá-la novamente, solteira da silva, pela
força do bondoso destino! Mas, também, se não
encontrá-la... ou se encontrá-la acompanhada novamente,
não será para o meu bico naquele momento. Destinos! -
foi o que pensei.
O terceiro fato foi
o mais maluco. Recebemos a fabulosa notícia de que as
pedras verdes haviam sido encontradas pelos operários no
dia 30 de dezembro. E a mina ficaria fechada apenas
aguardando os meus dois amigos para o início da
garimpagem. Em plena euforia Rodolfo me convidou para
conhecer a mina, dizendo que eu tinha o perfeito perfil
para atuar como fiscal. As poucas palavras que ouvi
fizeram com que minha coluna cervical congelasse. No
fundo, se já estava pensando em conhecer um garimpo,
imaginem sabendo que a mina estaria produzindo
esmeraldas! Num piscar de olhos, eu aceitei.
Bem quando já
estava me divorciando dos últimos resquícios da
sensação do stress voltei a macetar uns dentes
aos outros. Nunca irei esquecer esse dia. Eram duas horas
da tarde. Estávamos na areia quente da praia da Tiririca
descansando a vista no imenso mar. Meninas bronzeadas
passando pra lá e pra cá. E nós, cada qual com um copo
de cerveja, a beliscar uma mega tigela de camarões,
feito três Gremlins. Em cima da mesa branca de
plástico também haviam algumas ferramentas necessárias
para a ocasião: um maço de cigarro de Renato, meus
óculos de natação e o telefone celular de Rodolfo. Bem
quando Rodolfo espetou o camarão mais sarado da tigela o
telefone rugiu. Brrrrrrr, brrrrrr... .
--- Rapaz, é meu
pai. Será que ele está de olho gordo no meu camarão?
Esse desgraçado nunca me liga! - disse Rodolfo,
observando os números de casa no visor do aparelho.
Renato no mesmo
Até a maldita hora
de virar o ano o tempo passou inexoravelmente. Não
conseguia mais beber cerveja e não me concentrava mais
para acabar de ler um livro, mesmo sabendo que faltavam
apenas vinte páginas. História nenhuma tinha mais
graça. Só pensava na caça ao tesouro e matutava no que
iria dizer para o meu chefe. O desgraçado acharia,
indubitavelmente, que eu estava completamente louco ou
embriagado. Tinha a plena convicção de que se me
arrependesse mais tarde do garimpo seriam poucas as
chances dele me aceitar novamente. Ficaria com a fama de
desertor e, além disso, a minha total desatualização
do mundo tecnológico, decretaria o meu fim naquela
empresa.
Nunca vi dois dias
demorarem tanto para passar. Nem mesmo a princesa sem
frescuras fazia-me esquecer do novo desafio. Após a
alucinante lentidão das horas colocávamos finalmente os
pés na areia, na última noite do ano de 1999. Quando
alguns rojões começaram a iluminar o céu da pacata
praia a qual estávamos, ao redor de uma fogueira, em
frente de um aconchegante bar improvisado por uma moçada
mineira, eu, Rodolfo e Renato nos abraçamos e juntamos
nossas cabeças, arrancando do fundo de nossas mentes um positive
vibration para o incerto ano que estava por vir.
Exatamente, quando os relógios batiam meia noite,
pronunciei baixinho uma sábia frase de Raul Seixas que
ele mesmo batizou-a de Prelúdio – (Raul Seixas)
"Sonho que se
sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade"
Sabíamos que sem
forças interiores unidas não seria nada fácil encarar
os perigos de uma mina de esmeraldas, de um garimpo e
principalmente da gentalha que o cerca. Ainda não tinha
a menor idéia de como seria fiscalizar os garimpeiros
para não roubarem nada. Chegaria lá como uma espécie
de inimigo! Isso seria outro desafio, bem mais complicado
do que apenas estar nesse trabalho de risco. Mas que
empreitada perigosa! São essas aventuras da vida que
filhos e netos irão gostar de ouvir, pensei orgulhoso.
instante cuspiu na areia uma casca de camarão e fez uma
cara de apreensão olhando fixamente as reações do
amigo.
--- Pai, você tá
brincando, pai? Rapaz do céu! É lógico! Fique
tranqüilo. E de resto, o Palmeiras contratou alguém?
Rodolfo mesmo antes
de desligar ergueu uma das mãos e apontou para o céu.
Renato desde que soube que a ligação era da casa de
Rodolfo já presumia do que se tratava a conversa e
acompanhando as boas reações de Rodolfo levantou da
cadeira aos pinotes. Eu permaneci sentado simplesmente
por que ainda não tinha sido convidado para ir para lá
e principalmente por que minhas pernas tremiam demais. A
comprovação da magnífica surpresa veio logo em seguida
pelas palavras entusiasmadas de Rodolfo:
--- Hoje de manhã,
deram de cara com muita esmeralda! Dispensaram os
garimpeiros até o início do ano, trancafiaram a boca da
mina e daremos linha para lá somente depois do Reveillon.
Alguém quer uma notícia melhor? Um brinde ao
tesouro! Estão vendo aquela lanchinha branca ancorada
ali? Então, aguardem!