segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

MINERAIS E PEDRAS PRECIOSAS DO BRASIL

MINERAIS E PEDRAS PRECIOSAS DO BRASIL 

MINERAIS E PEDRAS PRECIOSAS DO BRASIL
CARLOS CORNEJO
GARIMPEIROS

Garimpo de diamantes no Rio Lageado, perto do vilarejo de Lageado, atual Guiratinga, na bacia do Rio das Garças, Mato Grosso, em 1931. No seu afluente, o Rio Bandeira, foi descoberto em 1924 o célebre diamante “Jalmeida”, com 109,50 quilates, provocando uma corrida. Apreciam-se vários petrechos de trabalho, tais como um bote improvisado, escafandros e grandes bateias de madeira. Algumas pessoas do grupo são visitantes, há uma mulher no meio e um dos garimpeiros exibe sua arma na cartucheira. Fotografia tirada durante a expedição do paulista Hermano Ribeiro da Silva, em 1931, junto aos seus colegas Francisco Brasileiro, Domiciano Uchoa Fagundes, Manuel Pires do Rio e Durval Xavier, cujas andanças foram descritas na obra Garimpos de Mato Grosso, em 1936. O sertanista Hermano Ribeiro da Silva comandava a Bandeira Anhanguera, para contatar os arredios índios Xavantes, na região do Rio Xingu, na Serra do Roncador, noroeste de Mato Grosso, quando faleceu de malária em 24 de novembro de 1937, perto de Cocalinho, na divisa de Mato Grosso e Goiás, sua morte causando grande consternação na capital paulista. Cartão-postal do acervo de Carlos Cornejo.

De escafandro, um mergulho pelo tesouro

De escafandro, um mergulho pelo tesouro

 

do Tibagi em busca de diamantes utilizando um equipamento do começo do século passado.

Sobre as águas, de cima de uma balsa, Joaquim Silva de Souza, 74 anos, é incansável no movimento de uma pesada bomba manual que garante o ar, levado por uma mangueira, para seu filho, Oanio Silva de Souza, 37, que está nas profundezas do Rio Tibagi, em Tamarana. De repente, Oanio submerge. A cena é, ao mesmo tempo, estranha e nostálgica, quando o capacete de bronze do velho escafandro sai da água. 

Por um momento, parece que estamos vivendo as cenas do auge do garimpo de diamantes no Tibagi, que aconteceu no final do século 19 e nas primeiras décadas do século 20, quando o escafandro era o mais moderno equipamento de mergulho que os garimpeiros podiam ter. Já naquele tempo, quem tinha coragem de vestir o pesado capacete e as roupas de lona era visto como herói. 

O fato é que o tempo passou, o ritmo do garimpo no rio paranaense perdeu a intensidade e o escafandro virou, literalmente, peça de museu. Hoje em dia, as dezenas de homens que continuam mergulhando no Tibagi, principalmente na região de Telêmaco Borba, usam equipamentos bem mais modernos, que contam com motores para bombear o ar até o garimpeiro. 

Pai e filho têm esperança de encontrar uma pedra preciosa no fundo do rio. Porém, faltam-lhes condições para comprar equipamentos mais modernos. Por isso, eles seguem usando o que têm. ``É tudo pesado e desconfortável demais``, queixa-se o escafandrista. O equipamento de mergulho pesa mais de 80 quilos. Só o capacete pesa 15 quilos. As peças de chumbo acopladas às costas e ao abdômen do mergulhador, necessárias para fazê-lo afundar, pesam 30 quilos cada uma. A roupa de lona completa o conjunto. 

O garimpo e o próprio escafandro são considerados herança de família por Oanio. O pai de Joaquim, Américo Silva de Souza, lá pelos anos 40 já andava pelas beiras do rio procurando diamantes. O escafandro que hoje é utilizado por Oanio era dele. 

``Deram o equipamento ao meu avô mas ele nunca usou. Um dia, fiquei sabendo que a máquina para bombear o ar estava em um ferro-velho abandonado em um matagal. Fui até lá e resgatei as peças, pois o capacete eu já sabia que estava na casa da minha avó. Aí foi só aprender a mergulhar``, relata o garimpeiro, que utilizou cola plástica para consertar as rachaduras no capacete e aprendeu a mergulhar sem a ajuda de nenhum professor. 

Joaquim e Oanio encaram o garimpo como profissão. O trabalho funciona da seguinte maneira: o mergulhador desce e enche sacos com o cascalho do fundo do rio. Enquanto isso, Joaquim, que está na bomba de ar, não pode parar. A vida do escafandrista depende dele. Depois, na superfície, o material é analisado, sempre com a esperança de que um diamante esteja por ali. 

Oanio diz que não sente medo. ``É a minha profissão``, destaca. Porém, no decorrer da conversa ele acaba dizendo que um dos seus grandes receios é, quando está a 10 metros de profundidade, não conseguir achar a escada que serve para voltar à superfície, o que pode deixá-lo perdido na escuridão do fundo do rio. ``Com o escafandro, não posso ir além dessa profundidade. Com equipamento de cilindro poderia ir mais fundo, onde talvez tenha um bom volume de diamantes``. 

Apesar da persistência, até hoje Oânio nada encontrou de satisfatório. ``É que aqui já estamos no fim da linha. O volume maior está rio acima``, complementa Joaquim. Segundo ele, o sinal de que já não há muitas pedras está na diminuição do número de garimpeiros em Tamarana. ``Por volta de 1980 éramos uns 50. Hoje, somos apenas o Oanio e eu``, comenta. 

Enquanto não realiza o sonho de achar uma boa pedra ou ganhar equipamentos modernos para cair de vez no garimpo, a dupla segue ganhando a vida com outras habilidades. Joaquim é agricultor. Oanio faz de tudo um pouco, é pescador profissional, marceneiro, mecânico, eletricista... Garante que faz bem feito o qualquer serviço que aparecer. Não é à toa que ele e o seu possante Passat 1975, o ``Veneno``, são famosos pelas ruas da cidade. 

Há 100 anos, o garimpo ressurgia no Rio Tibagi

Há 100 anos, o garimpo ressurgia no Rio Tibagi


"Diamante! Diamante! Era o brado que ecoava nas regiões do caudaloso Tibagi". O caudaloso Rio Tibagi, obra prima da natureza, ao cortar o interior do Paraná mostra a beleza de seus saltos, de suas praias e também a presença em seu leito dos "caldeirões" encachoeirados, contendo pedras preciosas magistrais, alento de uma população em constante busca de riquezas.



O Tibagi foi conhecido desde 1754 como El Dorado paranaense pelas descobertas que fizeram os paulistas, na Pedra Branca, das minas de diamante e ouro. Por isso, em várias épocas chegaram por aqui garimpeiros, faiscadores e aventureiros vindos de todos os lados e quadrantes do Brasil, ligando a cidades de Castro e Ponta Grossa por estradas carroçáveis, que substituíram os trilhos de tropas.



No ano de 1912, há exatamente cem anos, numa das grandes baixas de suas águas, o Tibagi viu ressurgir seus garimpos quase abandonados. Começou a ocorrer a afluência de novos garimpeiros, quase todos eles vindos do norte e nordeste do Brasil. Conhecedores dos serviços e ótimos mergulhadores a fôlego, trazidos às expensas de gente vivida em regiões mineiras e de alguma posse, entre elas os irmãos Santos (Augusto, Orlindo, Mário e Abílio), se estabeleceram comercialmente em vários locais do interior tibagiano, próximo do rio. Depois destes, muitos vieram de Minas Gerais, Mato Grosso e Bahia, atraídos pela tentadora notícia de grande mancha de diamantes graúdos e límpidos.



As margens do Rio Tibagi encheram-se de ranchos toscos cobertos de sapé, taquara trançada, madeira velha e folha de zinco. O garimpeiro era um eterno sonhador, vivia na expectativa de achar o diamante que trazia conforto pelo esforço; outros eram donos de modernas máquinas de escafandro de meio corpo, fabricadas e lançadas em São Paulo pela firma Charles Person e vendidas a preços accessíveis a grande número de gente interessada. Constituía-se o escafandro de um capacete de bronze de 15 quilos de peso, com duas lentes laterais fixas e uma frontal destacável, ligado em sua parte traseira por uma peça fixa, uma mangueira forte de borracha, entremeada de fibra e lona, de 20 metros de comprimento, capacete de bronze, camisa de lona, amarrado ao garimpeiro dois pesos de chumbo de 30 quilos cada um, que mantinham o escafandro no fundo do rio.



No lugar denominado “Cachoeirão”, a máquina de Sérgio Pupo Ferreira, trabalhada por seus filhos achou rico serviço. Deu “mancha de diamantes”, como se dizia. Esta era, na sua maior parte, constituída de pedras de pequeno porte e peso, prevalecendo de um quarto a um quilate (quatro grãos equivalendo a uma grama). Para este local acorreram muitos garimpeiros, capangueiros, gente de todas as profissões. Mais de 20 máquinas de escafandro, juntaram-se num largo manso do rio que apresentava uma profundidade de 25 a 30 palmos, medida usada no garimpo, formando-se na margem corrutela de aproximadamente 150 ranchos de garimpeiros.



Alguns dos participantes deste ciclo econômico se tornaram conhecidos tibagianos, que por aqui se estabeleceram e constituíram famílias.


Aconteceu!


Passagens da história do velho garimpeiro e de sua inseparável esposa



Passagens da história do velho garimpeiro e de sua inseparável esposa com a qual ele enfrentou a dura lida da vida, visitas de onça e tentações assombrosas 

Seu Marão é um diamante. À primeira vista é bruto como a pedra. Bastam, no entanto, alguns segundos de convívio para a impressão se desfazer rio abaixo. É um homem carismático, atencioso, muito, muito engraçado. Gosta de visitas. Adora conversar, contar histórias de onça e assombração. Seus olhos brilham quando lembra da noite em que uma “pé-fofo” cheirou-lhe os pés na loca onde dormia (leia O caso da onça, abaixo) e das aventuras com dona Lia, por quem se apaixonou quando menino. Tinha 11 anos. O pai era conservador, não dava folga à filha. Namorar, nem pensar. Conversavam com os olhos – adivinhavam um ao outro.

Mário cresceu e virou garimpeiro. Filho de agricultor, preferiu a pedra à planta. “O diamante é mais ligeiro”, alega. Em meados do século passado, o garimpo entrou em baixa e ele pegou a estrada para São Paulo. Voltou dez anos depois – cansara da cidade grande e morria de saudades da menina, então moça formosa. Homem feito, alto, “reforçado”, com fama de valente, impressionava as mulheres. Assim, casou com Lia, discreta, miudinha, uma figura – finge que não presta atenção mas não perde uma palavra do marido. “Ela bicou pra mim”, diz ele, às gargalhadas. Dona Lia o ajudava na lavra, fazia café, “quentava” a bóia, cuidava da loca onde passavam as noites. “Foi de lá que ele veio”, conta, cabeça baixa, voz sumida, referindo-se a Zé Mário, herdeiro da paixão do pai pelas pedras. “Sabe tudo”, diz Maria Luiza, falando do irmão.

Segundo ambos, o pai poderia ter ficado rico com o que ganhou no garimpo. No entanto, gastou quase tudo em farras e nos forrós que organizava em sua casa, debruçada no ribeirão. Suas festas ficaram famosas. A folia seguia até o nascer do sol. Vez em quando dona Lia substituía o sanfoneiro com seu “pé-debode” – sanfoninha de oito baixos – mas gostava mesmo era de dançar. Seu Marão não tolerava casais agarradinhos. Falta de modos. Respeito. Um dia, alguns jovens o confrontaram, aconchegando demais as meninas. Enfurecido, ele correu à cozinha, pegou um facão e voltou num pulo à sala, riscando o chão ao redor. Não deu outra! Um disparou porta afora, outros, pela janela, sumiram todos no breu da noite.

O VELHO GARIMPEIRO, com sua bateia de madeira no Ribeirão Vermelho e num raro instante de seriedade, ao lembrar do passado (à direita)

Contam muitas histórias sobre ele. Dizem que atirava nos santos que não o atendiam. Certa vez, implorou a santo Antônio uma pedra grande no garimpo. Dona Lia sempre o esperava na janela – ele sempre vinha pelo rio. Naquele dia, voltou de cara amarrada e espingarda na mão. Temendo que destroçasse a imagem de sua predileção, de quase um metro de altura, com adornos dourados, ela a substituiu por outra, menor. Seu Marão foi direto ao oratório, engatilhou a espingarda mas..., refugou. Olhou, coçou a cabeça e disse: “Olhe, menino! Vá chamar seu pai que eu quero ter uma conversa com ele”.

Valente com os homens, arrojado com os santos, ele não é o mesmo com as “coisas da noite”. Evita locais ditos assombrosos, sempre passa ao largo da gameleira sob cuja fronde, segundo ele, “o coisa-ruim concede audiência”. Seu Marão viu muita coisa estranha na vida: “Um homão torto na cabeceira da ponte, um vulto esquisito na tapera do Deodato, um menino passando por mim na direção do espantoso. Não sei o que o menino viu. Só sei que o chapéu dele inchou tanto que caiu da cabeça”. À parte o oculto, ele é respeitado pelo caráter, honestidade, coragem.

“Meu pai passou 70 anos atrás de ouro e diamantes, mas a maior riqueza que ele nos legou foi o exemplo. Mostrou que não é preciso muito para ser feliz.” Seu Marão sabe que os tempos de garimpo já se foram, embora de vez em quando fuja de casa com a bateia na mão. É alguém que viveu intensamente. Um homem em paz consigo mesmo, com os seus e os outros. Não reclama de nada. Não trocaria a sua vida por outra. Não mudaria nada do que fez. Não quer saber de outro lugar além de Grão Mogol. É a sua terra natal, um lugar bonito, com gente hospitaleira, prédios coloniais, ruas estreitas, cortado pelo Ribeirão Vermelho. O acesso é difícil. Quando chove é um barro só e quando não, um poeirão. A cidade fica escondida no fundo do vale, ao pé da montanha. Quem chega vê mais telhados do que muros. Em todo lugar se respira pedra. Alguma coisa brilha. 

Você já foi a Grão Mogol, MG? Provavelmente, não.


SEU IDA PENEIRA o gorgulho no ribeirão do Guinda, em Diamantina, MG, à cata de diamantes (à direita, pedras já lapidadas)
Você já foi a Grão Mogol, MG? Provavelmente, não. A maioria dos brasileiros nem deve ter ouvido falar desta cidade encravada na serra de Santo Antônio, um dos braços da cordilheira do Espinhaço, a 550 quilômetros de Belo Horizonte. Cortada pelo Ribeirão Vermelho, é a mais setentrional das localidades históricas de Minas Gerais, nascida da lavra garimpeira, assim como Diamantina e tantas outras no estado. Há duas versões para a origem do nome. A primeira o relaciona à descoberta de um diamante espetacular na Índia, batizado Great Mogul em homenagem ao xá Jehan, um dos soberanos indianos da dinastia Mogul, construtor do Taj- Mahal. Pesava 793 quilates quando bruto – o quilate, equivalente a 20% do grama, é a medida de todas as pedras preciosas, avaliadas segundo a cor, a qualidade, a pureza e o peso. Para os defensores da segunda versão, trata-se de uma redução de “grande amargor”, expressão do desalento da população com sucessivos conflitos armados e assassinatos quando ainda era vila – a locução teria virado “grão morgor” no correr dos anos, assumindo depois a denominação atual. No morro da Pedra Rica, nas cercanias da cidade, foram encontrados no século XVIII os primeiros diamantes do mundo hospedados em grupiaras – jazidas altas nas cristas dos morros ou chapadas com material diamantífero em camadas chamadas barro, gorgulho, sopa ou paçoca, conforme o estado pastoso ou friável e a quantidade de seixos. Até então, provinham de aluviões – mistura de cascalho, areia e argila à margem ou à foz dos rios, resultantes da erosão.

As Minas Gerais
Cidades mineiras nascidas do garimpo, marcadas pela história ou pela riqueza mineral



A história da exploração comercial das pedras preciosas no Brasil começa no final do século XVII com a descoberta de ouro em Sabarabuçu, hoje, Sabará, e prossegue com o ouro e os diamantes encontrados no antigo Arraial do Tejuco, atual Diamantina, por volta de 1725. No período colonial, as lavras de ouro e diamantes eram feitas por escravos. Nos 170 anos seguintes, por qualquer um que se dispusesse à cata, sem qualquer controle. Preservacionismo é palavra nova no garimpo. Difundiu-se a partir da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada em 1992 no Rio de Janeiro. Desde então, ora ávida, ora indulgente, a fiscalização bateu ponto na região, intensificando- se a partir de 1989 com a lei 7.805, que acabou com a garimpagem livre ao condicionar a exploração à obtenção de permissões de lavra, numa tentativa de regulamentar a profissão. O cerco apertou ainda mais há cinco anos com a Operação Carbono, de repressão ao contrabando de diamantes em Minas Gerais, Mato Grosso e Rondônia – principais estados produtores.

A GOIVA DESLIZA à superfície do ribeirão: “É preciso ciência para achar diamantes porque eles têm manias” (à direita, a igreja de Grão Mogol)

“Parou tudo”, afirmam, cada um a sua vez, Idalvo de Jesus Andrade (seu Ida), Belmiro Luiz do Nascimento e Antônio Pádua Oliveira Neto (Toninho), de Diamantina; e Clarindo Francisco de Oliveira (Totôca), da comunidade do Alegre de Baixo, e Mário Batista Corrêa (seu Marão), ambos de Grão Mogol, referindo- se tanto ao garimpo tradicional, conduzido manualmente, quanto à “bomba”, sistema de dragagem a motor, mais produtivo e impactante, do ponto de vista ambiental, adotado em larga escala atualmente – os procedimentos habituais de extração e lavagem do cascalho exigem remoção de quantidades consideráveis de terra.

“A gente é bicho em extinção”, afirma seu Ida, de 55 anos, talvez o único garimpeiro do Alto Jequitinhonha a persistir com a goiva – espécie de enxada de cabo comprido com uma caixa metálica côncava no lugar da lâmina para conter o cascalho puxado do fundo do rio. Ele explica, orgulhoso, que a goiva não pode ser jogada aleatoriamente. A caixa tem de deslizar na superfície até determinado ponto, examinado anteriormente com a “vara de sondar” e só então afundar. Depois, basta puxar devagar, depositar o material recolhido no terno (conjunto de três peneiros: o grosso, o meão e o fino, de acordo com o calibre de cada um) e “bater” um a um, nessa ordem, para separar os seixos e concentrar os possíveis diamantes no meio. Então, emborca-se a peneira numa banca de apuração. Agora, é só aguçar os olhos. Mais pesados do que o cascalho e a areia, o ouro e o diamante concentram-se no “pretume”, no fundo da bateia ou da peneira, faiscando à luz do sol – por isso os garimpeiros também são chamados de faisqueiros.


FAISQUEIRO do município de Datas examina o “pretume” emborcado numa banca de apuração
“É um jogo de sensação”, compara seu Ida. Há que se ter sorte, observar indícios naturais de ocorrência e respeitar as manias das pedras. Ele afirma que os diamantes têm lá suas extravagâncias: só se revelam quando querem e a quem os mereça. Para achá-los, os garimpeiros se guiam principalmente por “satélites”, pedrinhas com feitios e cores diversos denominadas cativo, ovo de pombo, palha de arroz, sericória, fava, osso de cristal, tinteiro (preto reluzente, parecendo pólvora), cabeça de macaco, agulha, etc. Dependendo do tipo e da concentração de satélites, sabem se estão perto ou não de tirar uma pedra e, eventualmente, “bamburrar” – ficar rico.

Na lida desde os 12 anos de idade, ele vem trabalhando no Ribeirão do Guinda, a nove quilômetros de Diamantina, em parceria com Belmiro Luiz do Nascimento, idealizador do Projeto Garimporeal, de resgate da cultura garimpeira. “Os velhos estão morrendo e, com eles, a tradição, o conhecimento. Os jovens não querem saber de garimpo”, justifica Belmiro, referindo-se à iniciativa, lançada em abril. O projeto é eminentemente educativo. Ele recebe turistas, muitos dos quais estrangeiros, e os leva à beira do Guinda para mostrar o que é garimpo “verdadeiro” e provar que não é nocivo ao meio ambiente. Seu Ida se encarrega das “aulas práticas” e ele, das “teóricas”

Belmiro concorda com as exigências legais como forma de coibir a clandestinidade e proteger a natureza, mas contesta a generalização. “O garimpo tradicional não desbarranca nem faz desmonte com explosivos, como é comum na mineração. Os mineradores nacionais ou internacionais não causam estragos maiores, mesmo com permissão legal?”, questiona, observando que a maioria dos garimpeiros não tem condições de arcar com os custos de licenciamento – cerca de cinco mil reais, considerando apenas a PLG – Permissão de Lavra Garimpeira, documento fornecido pelo Departamento Nacional de Produção Mineral, órgão do governo federal.

Diamantes de sangue
O Protocolo Kimberley, ou KCPS – Sistema de Certificação do Processo Kimberley, é uma tentativa conjunta de 40 países de coibir o terror perpetrado por grupos rebeldes na África. Quem viu o filme Diamante de Sangue, com o ator Leonardo Di Caprio, tem noção da barbárie, financiada, em grande parte, pelo contrabando de diamantes, negócio altamente lucrativo. A indústria movimenta anualmente 6,7 trilhões de dólares, segundo a ONU.

Desde janeiro de 2003, nenhuma pedra bruta pode ser comercializada sem a certificação, emitida pelos respectivos governos assegurando sua origem legal. Em 2004, 29 garimpeiros foram mortos na reserva indígena Roosevelt, na fronteira de Mato Grosso com Rondônia. Território dos cintas-largas, a reserva abriga grandes depósitos diamantíferos ainda não totalmente mensurados. Pronto! O Brasil passou a integrar a lista dos países com “diamantes de conflito”. Paralelamente, surgiram indícios de que o país estava sendo usado como ponte para as pedras africanas, vendidas no mercado internacional como se fossem brasileiras.



TOTÔCA E SEU velho escafandro enfim aposentado: “O garimpo acabou no norte de Minas Gerais. Diamante agora é água”
Para Belmiro, a PLG é relativamente simples de se obter. As exigências, porém, são impraticáveis: o garimpeiro, mesmo o tradicional, é obrigado a descrever o tipo de minério procurado e indicar o local exato onde pretende lavrar. A descrição e o plano de trabalho devem ser detalhados em documento e assinados por um geólogo. Para complicar a coisa, a permissão legal autoriza lavra de 50 hectares, no máximo (no caso das cooperativas, 200), área pequena demais para quem sempre trabalhou solto no mundo, sozinho ou com algum companheiro. Segundo ele, garimpeiro não tem cultura associativa. Muitos desistiram, outros conseguiram alvarás, mas acabaram vendendo-os. “Diamantina já não tem TOTÔCA E SEU velho escafandro enfim aposentado: “O garimpo acabou no norte de Minas Gerais. Diamante agora é água” mais o mesmo brilho”, lamenta Toninho, ourives da Joalheria Pádua, a mais antiga do país, instalada no centro histórico desde 1883. Além da produção própria de diamantes e cristais, a joalheria recebia pedras de todos os cantos do país. “Nós lapidávamos quatro mil gemas por mês. Agora, trabalho sozinho, nem todo o dia sento na banca e não faço quatro mil nem num ano”, compara. Ele calcula que por volta de 1970 havia três mil bombas em pleno funcionamento no município. “Hoje, não têm quase nenhuma.” Em sua opinião, a cidade empobreceu. Depende agora do funcionalismo público, do turismo e de serviços.

ANTONIO PÁDUA em sua banca de trabalho com uma ametista roxa encanetada (no detalhe): “O brilho da cidade não é o mesmo sem o garimpo”
Totôca é taxativo. Em sua opinião, o garimpo acabou de vez no norte de Minas. “Diamante agora é água”, diz ele, referindo-se ao Alegre de Baixo e outras 46 comunidades ribeirinhas afetadas pela barragem de Irapé, maior usina do país, com 208 metros de altura e 5,9 bilhões de metros cúbicos de água de capacidade máxima, construída pela Cemig no Alto Jequitinhonha – o alagamento atingiu núcleos urbanos e áreas rurais numa extensão de 115 quilômetros do Jequitinhonha e 50 quilômetros do Itacambiraçu, um de seus afluentes. Até recentemente, Totôca caçava diamantes com seu velho escafandro de bronze – um anacronismo nesses tempos de busca desenfreada de produtividade. “Era penoso demais. Eu trabalhava agachado no fundo do rio pegando cascalho e pondo num balde enquanto um companheiro na balsa lá em cima bombeava ar por uma mangueira. Se ele quisesse se livrar de mim, era só parar que eu morria.” A idade, a dor no “espinhaço” (sem qualquer alusão à cordilheira), o cansaço e os perigos inerentes ao trabalho acabaram afastando-o da beira do Itacambiraçu, agora um lago quase dentro de casa.

Ele talvez tenha sido o derradeiro garimpeiro da região a usar escafandro. Os poucos em atividade em “bombas” trajam roupas de neoprene, de pesca submarina, e usam tubos de sucção para retirar o cascalho. Seu Marão também parou por problemas de saúde. Aos 84 anos de idade, já não tem a força de antes e a surdez avança. Ele lastima o estertor do garimpo em nome do antigo rebuliço na cidade e dos amigos de função – cadê Geraldo Mariquinha, Suetônio, Ferro Velho, Abiné, Zé Boquinha e Tonho da Marciana? Seu Marão...