terça-feira, 29 de março de 2016

O Brasil possui uma das maiores biodiversidades de todo o planeta

Debate - Pirataria

O Brasil possui uma das maiores biodiversidades de todo o planeta. Estima-se que o país possua cerca de 50 mil espécies vegetais, mais de 500 espécies de mamíferos, três mil de peixes, 1.600 de pássaros, 517 de anfíbios, 467 de répteis, 10 a 15 milhões de insetos, além de milhões de microorganismos. Tanta variedade e tantas possibilidades explicam o interesse estrangeiro. De acordo com estudos recentes, é muito provável que algumas dessas espécies guardem consigo o segredo para a cura de doenças que ainda hoje afligem a humanidade.

A exploração dessa riqueza, porém, poucas vezes é revertida em benefícios para o povo brasileiro. Várias plantas medicinais nativas foram patenteadas no exterior e, transformadas em medicamentos, são vendidas a preços altíssimos em nosso mercado. O cupuaçu, que teve até mesmo o nome patenteado por uma empresa japonesa, é só mais um exemplo. Mas como controlar o acesso à biodiversidade de forma que o país não seja prejudicado? E, principalmente, como criar leis que restrinjam o acesso a materiais biológicos sem dificultar ainda mais as pesquisas brasileiras?

Para debater sobre esse tema tão complexo, a MINAS FAZ CIÊNCIA convidou a bióloga Christiane Duarte da Encarnação, analista ambiental do Ibama, e a farmacêutica Maria das Graças Lins Brandão, especialista em produtos naturais e fitoterapia.

O que caracteriza a biopirataria? Qual a diferença para o tráfico?


Christiane  Os termos, às vezes, se confundem, mas tráfico e biopirataria têm significados diferentes, inclusive na interpretação ambiental. O tráfico é a coleta, a captura ou o transporte de material biológico, quer seja ele animal, vegetal, fúngico ou microbiano. Ou seja, é a retirada da natureza, o transporte de um local para outro, ou mesmo a saída desse material para fora do Brasil. E o que a gente chama de biopirataria é identificar, isolar ou utilizar informação de origem genética para uso na bioprospecção. O que é isso? A utilização da parte genética, dos princípios ativos, de todo esse material biológico. E aí ele pode ser retirado tanto da natureza como de coleções. Por exemplo, hoje, com um pedacinho de pele de um animal que está numa coleção de um museu, você pode fazer mil coisas. Com um pedaço de pele, um pedacinho de folha, uma semente... O transporte de material genético hoje é muito fácil. Você pega uma folha e põe no bolso, engole uma semente e transporta para onde quiser. A biopirataria, então, é essa parte com enfoque genético e no tráfico tratamos do animal, da planta em si. Posteriormente, também é possível ter acesso ao material genético desse animal ou planta, então o tráfico é mais perigoso ainda. O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) atua nas duas áreas.

Como é a situação no Brasil hoje? Os prejuízos são grandes?

Christiane  No caso da biopirataria, a flora é a mais atingida devido à procura de princípios ativos para remédios, cosméticos, etc. Com relação à fauna, que é minha área, ela é mais visada para o tráfico. O Ibama tem acesso a trabalhos que mostram as rotas do tráfico, de onde vem e para onde vai, quais os animais mais procurados, seu preço médio no mercado. Isso nos ajuda a fazer campanhas preventivas para evitar a retirada desses animais da natureza. Existem relatórios que salientam que, depois de drogas e armas, o tráfico de animais é o comércio que mais rende dividendos para os traficantes e que mais dá prejuízos para o Brasil. A situação está mapeada, mas o combate é difícil em função da grande biodiversidade que nós temos, da fronteira imensa e do tamanho do país. O Brasil é atraente demais. Nós temos a primeira biodiversidade do mundo, muitas riquezas, e isso atrai gente de todos os países.

E a flora brasileira? Ela também desperta a cobiça dos estrangeiros?
Graça  A flora brasileira, principalmente as plantas medicinais, sempre despertou o interesse do estrangeiro, isso desde que o Brasil foi descoberto. Existem relatos históricos datados de 1560 e 1587 em que os portugueses já descreviam o uso de várias espécies pelos índios. Isto significa que são 500 anos de interesse estrangeiro na nossa flora. O problema hoje é que essa situação piorou muito. Piorou porque houve um grande desenvolvimento na área de biotecnologia. Agora, por exemplo, não é mais necessário coletar quilos de uma planta para se desenvolver um novo medicamento. Isto é possível a partir de uma folhinha ou uma semente, igual a Christiane explicou. Além disso, a facilidade de se registrar patentes fez com que o interesse estrangeiro na nossa flora aumentasse. Infelizmente, o Brasil foi muito pressionado na época da aprovação da Lei de Patentes, que aconteceu durante o mandato do ex-presidente Fernando Henrique. Eu, particularmente, acho que a implantação dessa Lei naquela época foi ruim. Era necessário segurar mais um pouco, pois não conseguimos competir com outros países. Vivemos em um mundo globalizado, essa questão de patenteamento é muito fácil para os países desenvolvidos, mas para nós ainda não. E o que acontece é que as plantas brasileiras estão sendo coletadas, estudadas no estrangeiro e lá patenteadas. Espécies usadas pelos índios na época do descobrimento, que fazem parte da nossa tradição, da nossa cultura, estão patenteadas lá fora.

Christiane  Tem o caso do cupuaçu, né?

Graça  O caso do cupuaçu é a vitrine atual. É o grande escândalo que caiu na mídia e que está na boca de todo mundo. Eu acho que a divulgação desse tipo de problema junto ao grande público é muito bom. Hoje, esses assuntos relacionados à biopirataria já são muito discutidos em todos os meios. Você vai a qualquer lugar e escuta as pessoas dizendo que “o estrangeiro está roubando tudo da gente”. Isso é o lado bom, as pessoas estão alertas. Mas a situação é triste, muito dramática, eu fico com dó do Ibama porque realmente é muito complicado.

Debate na redação da Minas Faz Ciência

Além disso, durante muito tempo, deixou-se de lado esse conhecimento tradicional do povo...

Graça 
 Mas isso aconteceu por pressão externa. A China e a Índia, por exemplo, não perderam a tradição de uso das suas plantas medicinais. Práticas da medicina tradicional chinesa, que contam com mais de cinco mil anos, são exportadas para vários países. Se nós não tivéssemos perdido a nossa tradição do uso das plantas medicinais nativas do Brasil, provavelmente estaríamos exportando a nossa medicina, nossa cultura. E não sofrendo com a biopirataria. A perda desse conhecimento tradicional aconteceu principalmente devido à entrada das indústrias farmacêuticas estrangeiras por volta de 1950. Elas vieram, trouxeram os medicamentos industrializados e tomaram conta do mercado, que dominam até hoje. Felizmente, hoje em dia já existe um maior interesse da população em valorizar as plantas medicinais.

Christiane  Eu estava lendo recentemente em uma revista, parece que até a palavra açaí foi patenteada pelos japoneses, uma palavra nossa, de origem indígena. É impressionante. Quanto à legislação brasileira, nós temos um Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN), que tem a participação de vários ministérios e da sociedade e é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente. O CGEN começou a dar as linhas iniciais para se ordenar isso e legisla também sobre esses conhecimentos tradicionais das populações, para que elas não venham a perder. Tudo isso advindo da Convenção da Diversidade Biológica, assinada pelo país na época da Eco-92. Daí para cá foram feitas essas legislações para coordenar isso, inclusive internacionalmente. Vários países fazem parte dessa Convenção. Mas uma coisa importante que eu acho é que o Brasil não pode, em função dessa saída desordenada, impedir a pesquisa no país. Isso está acontecendo com os transgênicos, eles ficam segurando demais, os outros países vão tomando conta. Então, é abrir a pesquisa dentro do Brasil e tentar fechar as portas para a biopirataria e o tráfico.

Graça  Mas não é isso que tem acontecido, pesquisadores brasileiros também têm sido impedidos de coletar material botânico. Hoje, é necessário pedir autorização para o Ibama ou para o Instituto Estadual de Florestas (IEF). Não acho que seja ruim, mas é um procedimento muito burocrático. É preciso melhorar. Outra coisa importantíssima: para que possamos realmente conhecer e ter domínio sobre as nossas plantas, são necessários recursos para pesquisas. Não adianta ficar fechando as portas e não deixar ninguém fazer nada. Aí vão dominar aqueles que destroem as florestas, como as madeireiras da Amazônia. Nesse caso, o prejuízo é para a humanidade, que vai ficar sem conhecer o valor exato da flora. Então a situação é bem mais complexa. Tem de haver recursos maciços para a pesquisa e para a formação de pessoal. Nós, que trabalhamos com plantas medicinais, somos pouquíssimos e não damos conta dessa riqueza toda. Antropólogo que trabalha com plantas, com indígenas, não tem quase nenhum. Praticamente nenhum interessado em etnomedicina no Brasil. É preciso haver investimento e é isso que a gente cobra.

E o caso do cupuaçu?

Graça  Em relação ao cupuaçu existem outras questões. O que aconteceu é que uma empresa japonesa registrou o uso da planta e até o seu nome. Parece que isto foi descoberto por uma ONG sediada no Acre antes deles obterem o registro da patente. Quando o registro já foi obtido, é preciso entrar com um processo pedindo a reversão daquela patente. Um grande exemplo de caso de reversão de patente é o que aconteceu na Índia. Eles têm uma planta chamada turmeric, um tipo de açafrão. A medicina tradicional da Índia faz uso dessa planta há cerca de cinco mil anos como antiinflamatório. Pesquisadores estrangeiros levaram a planta para os EUA, estudaram, confirmaram a ação antiinflamatória e patentearam os extratos. Nesse caso, o governo indiano conseguiu reverter a patente alegando a impossibilidade de se patentear um produto desenvolvido a partir da cultura do povo. Existem, portanto, chances de mudar o quadro atual, especialmente se baseado no precedente da Índia. Mas, já que isso é um debate, quero colocar outra questão. No caso do cupuaçu, os japoneses alegam que descobriram utilidade para o caroço da fruta que, no Brasil, era descartado. A empresa utiliza o óleo extraído da semente. Nesse caso, como ficamos? O fato da planta ser nativa do Brasil já impede o seu patenteamento no estrangeiro? Como o Ibama resolve isso? Talvez a gente chegue à conclusão que sim, é brasileiro e outras pessoas e empresas não podem utilizar. Mas o café também não é brasileiro. A laranja não é nativa do Brasil, nem o gengibre. Vamos ter que pagar a China pelo gengibre que a gente usa?

Christiane  Isso nós temos de tratar a nível internacional. Por exemplo, batata, tomate, tudo isso é originário da Cordilheira dos Andes. É um produto latino-americano, quer dizer, a Inglaterra vai nos pagar milhões, porque eles não passam sem batata.

Os italianos sem tomate...

Christiane  Já pensou? Isso tudo é daqui. Essas são discussões muito sérias que só vão ter uma solução justa e eqüitativa se houver acordos internacionais. Que haja realmente estudos, que é justamente o que prevê a convenção da biodiversidade, e que haja uma divisão justa e eqüitativa da utilização e dos royalties, tudo que advém da utilização daquilo ali.

Graça  Mas você acredita que isso seja possível? Você acha que chegará a um ponto em que a indústria japonesa, por exemplo, vai admitir que isso ou aquilo é realmente do Brasil?

Christiane  Olha, eu acho que o caminho tem de ser esse. Não sei se a gente vai conseguir, mas o caminho é por acordos internacionais. Tem um artigo muito interessante do Cristóvam Buarque, ex-ministro da Educação, de quando ele estava em Nova York. Um jornalista falou com ele que a Amazônia tinha de ser internacionalizada e perguntou como seria sua posição como humanista e como brasileiro. Ele falou que como humanista até concordaria, desde que a riqueza dos EUA também fosse internacionalizada, a fome, o petróleo... que todo mundo cuidasse das coisas boas, mas também das ruins. E o caminho realmente é esse. Por que os EUA não assinam o Tratado de Kyoto? É como se eles estivessem fora do planeta. Existem acordos internacionais, tratados e convenções que buscam a consciência de que tudo tem de ser de todos. Enquanto isso não acontecer, realmente vai ser cada um puxando as coisas para o seu lado. A tendência é que esses tratados internacionais tragam justiça, uma divisão mais eqüitativa dos ganhos e dos prejuízos.

Cristiane Duarte da Encarnação, bióloga do Ibama

Graça
 
 Mas mesmo com um tratado será que a biopirataria diminui?

Christiane  Não, a biopirataria eu acho que é uma coisa de fiscalização, de proibições, enquanto não existirem esses convênios. Depois que houver um convênio que estabeleça que um americano pode vir aqui, pegar um princípio ativo, pesquisar e descobrir, mas que a população tem direito aos royalties, não vai haver problema. Isso pode ser um acordo, a mesma divisão, o mesmo direito aos créditos não só financeiros, mas de descobrimentos. Então há acordos a serem feitos, não pode acontecer deles virem aqui, destrincharem tudo e pronto, tem dono, nós apenas recebemos o medicamento a preço de ouro feito com um produto que já era daqui.

Graça  Mas já é assim... e olha, existem duas coisas acontecendo hoje na ciência que tornam isso irrelevante. Por exemplo, podemos ter um acordo com uma empresa estrangeira sobre os royalties de determinado princípio ativo. Mas ela pode modificar estruturas químicas dessa substância, criando uma nova. Nesse caso, a invenção é dela. Outra área é o desenvolvimento de novos cultivares das plantas, ou seja, uma nova planta diferente da existente na natureza. Essa é patenteável. Tomara que os acordos funcionem, mas...

Christiane  Eu acho que com a biotecnologia avançada do jeito que está, se a gente não partir para os acordos a gente não vai ter uma solução para isso.

Graça  O acordo segura aqui essa planta, mas não impede que dessa mesma planta seja feito um medicamento...

Christiane  Mas isso tem de estar previsto...

Graça  Mas não tem jeito, isso é complicado demais, porque aí é a criação do pesquisador. Ele pegou a molécula, modificou, é criação dele. Não é mais da natureza ou do país, é criação dele.


E qual seria a melhor solução?

Graça  Primeira coisa: opinião pública. É a própria mídia divulgando o problema da biopirataria. As pessoas devem saber que plantas, florestas, não são para serem derrubadas. Ainda é comum ouvir o pessoal do interior dizer “vou limpar aquela área”, como se mata fosse sujeira. Primeiro é isso, desenvolver a consciência ecológica com relação às plantas medicinais, valorizando também as tradições. Chamar a atenção para esses fatos é muito importante porque a população fica alerta e toma mais cuidado antes de contar os seus segredos para os estrangeiros. Não sei como está a situação na Amazônia, porque lá ainda tem muita gente isolada, mas eu acho que deve estar melhorando.

Christiane  É, os pesquisadores estrangeiros têm sido punidos por atividades ilegais. Há 20 anos, estrangeiros vindos principalmente dos EUA faziam o que queriam no Brasil porque não existia pessoal técnico especializado nessa área de meio ambiente. E essa tradição de receber bem estrangeiros, que é uma tradição nossa, eu acho que foi mal utilizada em muitos casos. Isso está sendo olhado agora com um pouco mais de cuidado.

Graça  Mas também é preciso ter cuidado para não entrarmos em uma paranóia. Pesquisadores bons, que trabalham em conjunto com instituições brasileiras, estão receosos de vir ao Brasil porque têm medo de ser presos! E não é possível estudar a nossa flora sem alguma colaboração externa. É preciso lembrar também que, muitas vezes, os próprios brasileiros vendem as plantas, não é só o estrangeiro que é o vilão.

Christiane  Não, de jeito nenhum, mas eles têm de cumprir a legislação. Por exemplo, há uma resistência muito grande dos estrangeiros que chegam aqui através de convênios com instituições científicas brasileiras em atender as exigências para fazer remessa de material para o exterior. Você estava falando da burocracia, o Ibama não tem, o que a gente exige, por exemplo, é o projeto de pesquisa para analisar e dar a licença. Então, o mesmo projeto solicitado por uma instituição de financiamento é pedido pelo Ibama. A pessoa não precisa fazer nada mais do que já fez. Baseado nisso é emitida a licença de um mês, um ano; se precisar, renova.

Graça  Voltando à pergunta, a opinião pública é fundamental. Claro que a fiscalização ajuda, mas muita coisa mudou porque o povo está atento, está aprendendo a valorizar mais o que é da terra. E ninguém valoriza uma coisa que não conhece.

Christiane  É a participação da sociedade.

Graça  Segunda coisa para reverter esse quadro é o investimento em pesquisa. A história da Farmacopéia brasileira ilustra bem a situação das plantas medicinais nativas. Farmacopéias são livros oficiais em que são descritos os medicamentos autorizados a serem comercializados. Vários países têm suas farmacopéias como os EUA, o Japão, Inglaterra, etc. A Farmacopéia brasileira tem quatro edições: 1929, 1959, 1977 e agora a 4.ª edição que vem sendo editada desde o ano 2000. Em 1929, a maior parte dos medicamentos utilizados era de base natural. Essa primeira edição tem umas 700 monografias (descrições de drogas vegetais). Dessas, cerca de 200 são para plantas nativas do Brasil, usadas na medicina tradicional da época. O resto é planta exótica, os portugueses viajavam muito e introduziram aqui espécies de outros continentes. Em 1959, foi feita a segunda edição. Esse é o período pós-guerra, e durante a Segunda Guerra Mundial houve um avanço enorme da síntese orgânica, que levou ao desenvolvimento de vários medicamentos. Cerca de 80% dos medicamentos que encontramos nas farmácias hoje são obtidos a partir da síntese. Ao invés de 700 monografias, essa edição traz apenas 200 e, dessas, cerca de 40 são plantas nativas do Brasil.

Por que tiraram as outras plantas?

Graça  Ninguém sabe, talvez porque os medicamentos industrializados eram mais eficazes e fáceis de administrar. Em 1977, o país já havia se industrializado. Em Minas Gerais houve muitos progressos no campo da mineração, da siderurgia, e as florestas foram destruídas, o desinteresse da população pelas plantas medicinais cresceu – isso virou assunto de gente “atrasada”. Esta terceira edição da Farmacopéia trouxe 23 monografias de plantas medicinais, sendo que apenas quatro eram brasileiras: o guaraná, o jaborandi, o maracujá e a ipecacuanha. As outras monografias são para plantas importadas. A quarta edição que está sendo preparada já tem a preocupação de incluir dados sobre plantas nativas do Brasil. Além da ipecacuanha e do jaborandi, ela traz monografias para o guaraná e para a espinheira-santa. A falta de monografias de plantas nativas está ligada à falta de estudos científicos sobre tais espécies. Então, outra coisa necessária para proteger a nossa flora é um inventário dessas plantas. A primeira Farmacopéia foi editada no governo do presidente Arthur Bernardes, o uso dessas plantas já foi oficializado no Brasil. Por isso, elas jamais poderiam ter sido patenteadas. Muitas plantas precisam ainda ser estudadas e descobertas.

Christiane  Redescobertas, né?

Graça  Não, o princípio ativo tem de ser descoberto. A planta existe e o povo usa, nunca deixou de usar, mas o princípio ativo ninguém conhece. Esse é o investimento em pesquisa. Então, além da opinião pública, do investimento em pesquisa e da legislação, óbvio, é bom lembrar que nós não estamos começando do zero. Não precisa entrevistar um índio para saber como ele usa determinada planta, existem muitos dados que podem dar suporte às pesquisas e à legislação. No caso da Farmacopéia brasileira, o governo já endossou que essas plantas brasileiras são úteis como medicamento, está aqui, registrado. Mas existem outras plantas que não estão descritas lá, como o açaí, o cupuaçu, a espinheira-santa. A espinheira-santa é outro grande exemplo para nós. Ela foi patenteada pelos japoneses em 98. Essa planta é usada contra gastrite e os estudos que revelaram, confirmaram essa ação, foram todos feitos em São Paulo por um pesquisador da Escola Paulista de Medicina. Só que, naquela época, o que a gente fazia? Publicava, publicava tudo. Ele publicou, os japoneses repetiram os estudos lá, modificaram um pouco e patentearam o produto. Na patente é descrito que se trata de uma invenção e que “essa é uma planta usada na medicina popular do Brasil e conhecida como remédio específico contra a úlcera gástrica”.

Maria das Graças Lins Brandão, pesquisadora da UFMG

Christiane
 
 Uma coisa boa hoje é que a biodiversidade tem recebido mais atenção do povo. De uma hora para outra todo mundo começou a falar em biodiversidade, existem estudos, ONGs que mostram o que é isso...

Parece que a Eco-92 foi um marco nessa questão da biodiversidade, foram aí que surgiram as primeiras leis, correto?

Christiane  Sim, as primeiras convenções, as mais importantes que existem hoje, surgiram naquele evento. E o povo tem de dar crédito à nossa biodiversidade. Assim como acontece com a flora, na fauna é a mesma coisa. Hoje, se você vai aos restaurantes mais requintados do Rio de Janeiro ou de São Paulo, você pode comer uma carne do pato Cairina moschata, um pato silvestre nosso. Mas o que aconteceu? Na década de 40, os franceses levaram esse pato para a França e, mais como um trabalho zootécnico, sem nada de transgenia, eles transformaram a carne, que é escura e por isso pouco atrativa, em carne branca. Tinha muita gordura no peito, que é a parte que se come mais, e eles diminuíram isso em 40%. E agora você tem uma nova modalidade daquele mesmo pato, que era selvagem, e a gente tem de importar as matrizes e a carne a preço de ouro, de uma espécie brasileira. Da mesma forma, a gente está pagando preço de ouro por ovos e filhotes de avestruz, sendo que nós temos a ema, que é similar, tem as mesmas características em termos de carne, e que não é pesquisada como o avestruz. Por que a gente não investe em pesquisa dos nossos animais? Agora, de uns 10, 15 anos para cá, vários pesquisadores têm trabalhado animais da nossa fauna para produção comercial, não só de carne, mas óleo, pele, etc. Já temos criadores de jacaré, capivara, paca, caititu, entre outros.

Os pesquisadores estão mais conscientes de que devem proteger suas descobertas?

Graça  É muito difícil saber o que é patenteável e o que é publicável. Por exemplo, eu, particularmente, gostaria de publicar tudo, acho que a ciência é feita para a humanidade, para as pessoas tirarem proveito. Mas isso não pode mais ser feito. Ao mesmo tempo em que as universidades e os órgãos de fomento cobram publicações, existe essa questão da proteção dos resultados. A orientação é que primeiro devemos depositar a patente para somente depois publicar. Mas fazer a patente é ainda difícil e demorado no Brasil. Hoje, os pesquisadores estão atentos a essa questão da patente, existem os escritórios, as próprias instituições estão oferecendo assessoria para desenvolver a patente, a FAPEMIG tem o dela, a UFMG também, mas tudo ainda é muito lento perto da quantidade de resultados que existem e que precisam ser publicados.

Quais outras plantas genuinamente brasileiras foram patenteadas lá fora?
Graça  A copaíba é um exemplo. Essa é uma planta que existia também na Mata Atlântica mas hoje é encontrada somente na Amazônia. Ela produz um bálsamo que é altamente antiinflamatório. Relatos históricos de 1560 revelam que os índios curavam as feridas de flechadas com bálsamo de copaíba. O produto foi patenteado no estrangeiro. Essa é outra questão interessante. Toneladas de bálsamo de copaíba são exportadas anualmente pelo Brasil e nada pode impedir que, no estrangeiro, este material seja estudado e patenteado. Acho que isso não caracteriza uma biopirataria, o produto é exportado. Outro problema são os mercados e feiras populares. Existem pesquisadores estrangeiros que simplesmente compram o material e o estudam nos seus laboratórios. O material não foi adquirido? Por que ele não pode estudá-lo?

Christiane  Eu achei interessante isso que eu li, um fóssil foi levado para fora do país e foi descoberta nele uma planta de 130 milhões de anos. Só que não fala que isso foi levado ilegalmente do Chapadão do Araripe, no Ceará. Quer dizer, são peças de material biológico que eles levam...

Graça  O ipê-roxo é outro exemplo. Sua casca é uma das mais contrabandeadas, são toneladas que saem do país anualmente. Existem várias patentes internacionais com os produtos da planta, todas voltadas para o tratamento de câncer. Esses exemplos demonstram que é necessário, de fato, conter a saída de material biológico do país, mas a questão é cheia de nuances, e somos um país que ainda está aprendendo a ser país.

Christiane  Com certeza, estamos aprendendo a valorizar o Brasil. Até pouco tempo a gente não via esse tanto de bandeira brasileira, a gente não tinha orgulho de empunhar a bandeira. Para a cultura isso é muito importante.

Graça  Isso que a gente está falando sobre a população valorizar as plantas, eu acho que não é só a população em geral, não. A maior parte dos profissionais da área de saúde também não valoriza. Outro dia, estive em um programa de televisão junto com alguns médicos e eles nem queriam ouvir falar sobre as plantas e raízes que a população, especialmente a mais carente, utiliza. Eles acabaram comigo e com as plantas. Muitas vezes a gente fala do povo enquanto os próprios profissionais de saúde não valorizam o que é do país.

Christiane  A própria formação do profissional já é deficiente. Existem algumas escolas, por exemplo, cuja orientação é contra a pesquisa, acham que pesquisador vive de órgãos governamentais, recebendo dinheiro. Esse tipo de coisa tem de ser incluído na formação. Hoje, o Ibama tem um centro que cuida da questão das plantas medicinais e ornamentais. O enfoque, até então, eram as plantas madeiráveis, mas tem de abrir porque esse é um campo importantíssimo do patrimônio genético brasileiro. O centro dá apoio, inclusive, ao fomento do estudo dessas plantas.

Graça  Queria falar também do captopril que é, hoje, o anti-hipertensivo mais vendido no mundo. Ele foi obtido do veneno da jararaca brasileira. Na hora em que a cobra pica, dá uma hipotensão, a pressão cai. A partir dessa observação, o remédio foi desenvolvido. E é aquela história: eles ficaram com o remédio e a gente ficou com as jararacas. Esse é só mais um exemplo, existem vários outros casos assim. É preciso que o brasileiro valorize a nossa biodiversidade, e o país deveria colocar isso como prioridade não só tentando organizar, mas fomentando as pesquisas.

Pesquisa do IGC/UFMG estuda as rochas que dão origem aos diamantes

Enigma geológico 

Pesquisa do IGC/UFMG estuda as rochas que dão origem aos diamantes

Passeando pelas ruas de algumas cidades do interior de Minas Gerais, visi-tando igrejas e praças, percebe-se a presença de um de seus elementos históricos mais marcantes: o diamante. Ele já motivou tropeiros e comendadores e tornou famosa a escrava Xica da Silva. Ao lado da importância histórico-cultural e econômica, a pedra preciosa desperta também o interesse da geologia. Mais do que o próprio diamante, o que tem motivado pesquisas nas universidades mineiras é a rocha que encerra o mesmo: o kimberlito. 

O kimberlito é um conduto vulcânico, ou seja, uma estrutura que conecta a superfície da Terra ao seu interior e por onde o magma (material expelido pela parte visível do vulcão) flui, a partir das partes mais profundas, onde ele se forma. Para visualizar seu formato, basta lembrar que, em inglês, conduto significa neck, ou seja, pescoço.

Kimberlitos são objetos de estudos de pesquisadores do Departamento de Geologia do Instituto de Geociências (IGC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob a coordenação do professor Geraldo Norberto Chaves Sgarbi. Com o apoio da FAPEMIG, o projeto denominado “Identificação de kimberlitos nas regiões Oeste e Central de Minas Gerais” teve início no ano passado e começou abrangendo as cidades da região do Alto Paranaíba, como Carmo do Paranaíba, Patos de Minas, Arapuá, Coromandel, Patrocínio, Lagoa Formosa e Tiros. A segunda fase do projeto, aprovada pela Fundação no final do ano passado, vai aprofundar as pesquisas já realizadas e abranger também a região central do Estado. 


A vegetação indica a presença de rochas vulcânicas
Diamantes mineiros 
O diamante forma-se no interior da Terra, em profundidades de cerca de 150 km, sob altas pressões e temperatu-ras, por átomos de carbono. Segundo o professor Geraldo, o conduto vulcânico atua como uma espécie de “táxi” para a pedra preciosa, visto que o magma, ao subir em direção à superfície, a uma velocidade de aproximadamente 800 km/h, transporta a pedra, que se encontra em estado bruto. Alguns geólo-gos fazem uma analogia desse magma, que sobe em altíssima velocidade, com uma “perfuradeira química”, que dissolve as rochas encontradas durante sua ascensão. 

Todo esse material é submetido a uma pressão muito alta no interior da Terra, a qual é liberada ao atingir a superfície. Nesse momento, o magma kimberlítico geralmente explode, devido à súbita redução da pressão, e se solidifica em uma rocha denominada kimberlito. Quanto aos diamantes, apenas uma ínfima fração resiste a esse transporte até a superfície. 

O processo de formação de kimberlitos ocorreu, no oeste mineiro, há cerca de 85 milhões de anos e, hoje, os pesquisadores se deparam com um “enigma geológico”: no Brasil, temos muitos kimberlitos estéreis, ou seja, sem diamantes. Entretanto, a pedra pode ser encontrada em alguns leitos dos rios dessas regiões. Curiosamente, alguns países de dimensões continentais como a Austrália, África do Sul, Canadá e Rússia produzem diamantes não somente através dos leitos dos rios, como no Brasil, mas direto da fonte, ou seja, através dos kimberlitos. Isso fez com que esses países sejam grandes produtores, ultrapassando o Brasil, que foi o maior produtor mundial no século XIX. 

Por que não fazemos o mesmo? Porque, pelo que se sabe até então, não temos kimberlitos mineralizados em diamantes. É justamente esse o contexto do enigma: não temos kimberlitos mineralizados, mas temos aluviões com diamantes nas mesmas regiões onde se encontram esses kimberlitos. Então, a pergunta correta é: qual a origem dos diamantes mineiros? Um fator que ajuda a compreender a dificuldade na realização dessas pesquisas é o clima brasileiro, pois, em climas tropicais úmidos, a água aumenta consideravelmente a velocidade das reações químicas. Assim, como os minerais que formam a massa principal do kimberlito não são muito resistentes à degradação química, este se transforma e se confunde com outras rochas. 

A pesquisa desenvolvida pela UFMG é pioneira no Estado. Além da importância econômica, que não pode ser desconsiderada quando se trata de diamantes, sobretudo em um país de tradição diamantífera, a pesquisa cons-titui uma base para a geologia, para o conhecimento da terra e dos recursos de que dispomos. 

O que os olhos vêem, o coração senteTodas as transformações que ocorrem nas camadas internas da Terra, assim como os elementos que ali se formam, produzem efeitos visíveis na superfície do Planeta. Sendo assim, para descobrir kimberlitos, é possível utilizar alguns critérios físicos que funcionam como indicadores. Segundo o pesquisador, a partir dos estudos teóricos, a equipe, composta de um biólogo e três geólogos, foi a campo em busca dos elementos que pudessem dar indícios da presença de kimberlitos. 

Ele destaca o critério geobotâ- nico, que diz respeito à presença das espécies arbóreas Terminalia argentea (capitão), Pseudobombax sp (paineira) e Myrcine sp (pororoca), pois elas utilizam em sua dieta elementos constitutivos do kimberlito. Quanto aos critérios geológicos, tem-se, por exemplo, a presença de uma depressão de formato circular no terreno. Esta pode ter se originado da alteração do conduto vulcânico, considerando-se que, na medida em que essa rocha sobe em direção à superfície, ao longo do tempo, torna-se menos resistente e, portanto, mais suscetível a alterações. Em certos locais, como na África do Sul, a depressão é tão acentuada que o acúmulo de água permite a formação de um lago. Ela é conhecida como cratera “Maar”. 

A água também fornece outro indicativo. As chuvas enfrentam dificuldade para erodir as rochas kimberlíticas, pois as mesmas possuem consistência argilosa. Por isso, é comum a formação de rios ou cursos d’água na zona de contato entre o kimberlito e a rocha não-mineralizada que estiver em contato, chamada de rocha encaixante. Dessa maneira, muitos kimberlitos são, a priori, identificados em função de uma diferença física entre as duas rochas. É preciso considerar que essa zona de contato já vem recebendo um fluxo de água há milhões de anos, o que propicia uma espécie de abertura prévia, um canal natural. Assim, o rio evolui, causando erosão em ambas as rochas.

Outro critério de campo é a ocorrência de uma “capa de canga”, rocha rica em ferro. Essa formação, que possui cor avermelhada, ocorre apenas sobre o kimberlito, porque o mesmo é composto de minerais ricos em ferro, como magnetita e hematita (produto de alteração da magnetita). A existência de ferro condiciona também a presença de cupinzeiros de cor vermelha, ao passo que os cupinzeiros de cor clara são aqueles que se instalam sobre alguns tipos de rochas encaixantes.

A vegetação natural, assim como a agricultura, também pode ser usada para identificar kimberlitos. É que o solo composto por rochas kimberlíticas é mais fértil devido à forte presença de elementos como potássio, cálcio e magnésio. Por isso, as espécies vegetais encontradas sobre o kimberlito são mais saudáveis que aquelas encontradas no entorno. As rochas encaixantes são relativamente estéreis, em decorrência da forte presença de alumínio e sílica. Como pode ser visto na fotografia acima, referente ao kimberlito batizado pelos pesquisadores de “Larissa”, a cor e a textura fazem a diferenciação entre o kimberlito (verde-escuro) e a rocha encaixante (verde mais claro). Ao fundo, existe o vale de um córrego que flui no contato entre o kimberlito e sua encaixante. Essa estrutura encontra-se na cidade de Carmo do Paranaíba. 


Amostra de Kimberlitos, rochas associadas à presença de diamantes
Do campo para o laboratórioUma vez identificados visualmente esses aspectos, os pesquisadores partem para a procuraefetiva do kimberlito, cavando a terra. De acordo com os conhecimentos teóricos sobre a rocha intrusiva, os pesquisadores coletam o material desejado e levam para o peneiramento. Para facilitar a busca, considera-se a presença de pequenos minerais coloridos, como piropo, ilmenita, diopsídio e espinélio, minerais satélites ou indicadores de diamantes que, por sua vez, apontam para a existência de kimberlitos, pois desenvolvem-se junto aos diamantes e são resistentes ao clima tropical úmido. Se o resultado observado na peneira apresentar um aspecto de gradação do claro (borda) para o escuro (centro), com a presença desses minerais indicadores, significa que temos um kimberlito.

Os estudos não param por aí. Com o intuito de refinar a pesquisa, os mine-rais encontrados são levados para análises mineralógicas e químicas na UFMG. A análise mineralógica é feita através de um método denominado Espectroscopia Raman, que visa a identificar o tipo de mineral. Cada amostra é levada até uma sonda, que emite um feixe de laser, fazendo com que o mineral emane energia de acordo com seu sistema cristalino. Cada mineral possui seu espectro próprio, como uma impressão digital, que permite distingui-lo entre os demais. Essa técnica é utilizada para checagem de jóias, a fim de atestar se a mesma é verdadeira ou falsa, natural ou sintética. O próximo passo é a análise química, realizada por meio de uma microssonda eletrônica. Esse aparelho permite determinar os componentes químicos dos minerais. Numa análise direcionada aos kimberlitos, o resultado que indica a possibilidade de se obter diamantes expressa altos teores de cromo e magnésio, e baixos de cálcio. Todos esses equipamentos foram adquiridos com os recursos da FAPEMIG.

Subindo o leito do rioA pesquisa desenvolvida vem investigando a existência de diamantes nas crateras kimberlíticas, ou seja, direto da fonte. Mas, como saber se os diamantes encontrados nos leitos dos rios são de fato originados dessas rochas ou vieram transportados de outros locais? De acordo com o professor Geraldo, a próxima etapa da pesquisa é fazer o caminho inverso, ou seja, partir do leito do rio em direção às possíveis fontes kimberlíticas. O objetivo é verificar qual a localização do kimberlito erodido que fez com que os minerais fossem encontrados em determinado rio. O pesquisador conta que, em função dos minerais satélites – pois o diamante em si é muito difícil de ser encontrado –, os pesquisadores começam a subir o rio em direção contrária ao seu escoamento, que é sempre em função da gravidade. Assim, tem-se a rocha fonte dos minerais indicadores e, portanto, do diamante.

Outro aspecto teórico da segunda parte da pesquisa é o cálculo da distância de transporte do mineral, através do formato do grão. Quanto mais longa a distância em que foi transportado por um rio, mais arredondado é o fragmento, pois o atrito ocasiona a perda dos cantos. Além da pesquisa de campo, os geólogos utilizarão um equipamento importado, semelhante a um tambor giratório, que simula a erosão de um rio, para a realização desse cálculo.

O geólogo ressalta, ainda, o interesse que a pesquisa despertou nos garimpeiros, através de divulgação na mídia eletrônica especializada. Muitos entraram em contato com ele através de e-mail para adquirir mais informações sobre o assunto, além de procurá-lo no próprio campo. Ele lamenta, porém, a falta de iniciativas governamentais, como cursos de capacitação, no sentido de preparar melhor esses trabalhadores e conscientizar sobre a preservação do meio ambiente. Para o professor Geraldo, os garimpeiros são pessoas inteligentes e intuitivas, mas que não tiveram oportunidade de estudar. “Se eles tivessem oportunidade de conhe-cer a Geologia, porque, no final das contas, eles estão trabalhando como geólogos, acho que o trabalho seria mais produtivo e traria menos impactos ao meio ambiente”, completa.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Einstein contestado: ou Deus joga dados, ou é possível superar velocidade da luz

Einstein contestado: ou Deus joga dados, ou é possível superar velocidade da luz

Einstein contestado: ou Deus joga dados, ou é possível superar velocidade da luz
Ou Deus de fato joga dados com o Universo, ou os spins dos elétrons podem conversar entre si mais rapidamente do que a velocidade da luz, e a velocidade da luz não seria o limite universal de velocidade. [Imagem: ICFO]
Realismo local
Um experimento histórico obteve a refutação mais forte até hoje do princípio do "realismo local", defendido por Albert Einstein, que afirma que o Universo obedece a leis, e não ao acaso - uma crítica à mecânica quântica - e que não há forma de viajar ou trocar informações mais rápido que a luz.
O experimento, executado na Universidade Tecnológica de Delft, na Holanda, é o chamado "teste de Bell incontestável" (loophole-free Bell test), cujos resultados abrem ou a possibilidade da existência de influências "escondidas" além do espaço-tempo, ou elimina olimite de velocidade universal - a velocidade da luz.
No experimento, dois elétrons presos dentro de dois cristais de diamante diferentes foram entrelaçados (ou emaranhados), o que significa que tudo o que acontece a um afeta imediatamente o outro. A seguir, a equipe mediu o spin de cada um dos elétrons.
Na teoria quântica, o entrelaçamento é poderoso e misterioso: matematicamente os dois elétrons são descritos por uma única função de onda, que somente especifica se eles têm o mesmo spin ou spins diferentes, mas não qual em que direção seus spins apontam.
O realismo local, preferido por Einstein, tenta explicar esse fenômeno com menos mistério, dizendo que as partículas devem estar apontando para algum ponto, mas nós simplesmente não sabemos em que direção até que façamos uma medição.
Einstein em um beco sem saída
No experimento, contudo, quando foram medidos, os elétrons aparecem individualmente aleatórios, mas concordam bem demais em que direção apontar. Tão bem, na verdade, que eles não poderiam ter orientações prévias à medição, como afirma o realismo.
O comportamento observado dos elétrons só é possível se eles se comunicassem um com o outro, algo que seria muito surpreendente para elétrons presos em cristais diferentes - mais do que isso, os dois diamantes estavam em edifícios diferentes, a 1,3 km de distância um do outro.
Além disso, as medições foram feitas tão rapidamente em cada um dos diamantes - usando relógios atômicos para sincronizá-las - que não haveria tempo suficiente para que os elétrons se comunicassem, nem mesmo se seus sinais de um para o outro viajassem à velocidade da luz.
Isto coloca o realismo local em um beco sem saída: se os spins dos dois elétrons são reais, ou a ação fantasmagórica à distância é real, ou os elétrons devem ter-se comunicado. Mas, se eles se comunicaram, eles fizeram isso mais rápido do que a velocidade da luz.
Assim, o experimento dá uma refutação quase perfeita da visão de mundo de Einstein, em que "nada viaja mais rápido do que a luz" e "Deus não joga dados". Pelo menos uma destas declarações deve estar errada.
Para usar as palavras de Einstein, ou Deus de fato joga dados com o Universo e a ação fantasmagórica à distância é real, ou os spins dos elétrons podem conversar entre si mais rapidamente do que a velocidade da luz, e a velocidade da luz não seria o limite universal de velocidade.
Einstein contestado: ou Deus joga dados, ou é possível superar velocidade da luz
O experimento exigiu o desenvolvimento do gerador de números aleatórios mais rápido já construído, além de relógios atômicos superprecisos. [Imagem: ICFO]
Gerações de teorias
Max Planck, o homem que tirou Einstein de um emprego de funcionário público e o levou para a universidade, costumava dizer que não é possível convencer opositores de uma nova teoria: uma nova teoria só triunfa quando esses opositores finalmente morrem e cresce uma nova geração acostumada com a nova teoria.
Neste caso, mais de uma geração vem trabalhando na construção desse experimento incontestável. Contudo, parece não existir ainda a nova teoria triunfante, mas tão somente a negação da completude da teoria antiga. Assim, para compreendermos totalmente o alcance das possibilidades que se abrem, talvez seja necessário esperar, não o morrer, mas o nascer de uma nova geração - ou, talvez, de um novo Einstein.
Mas os frutos do experimento já estão sendo colhidos.
"Trabalhar neste experimento nos levou a desenvolver tecnologias que agora podemos aplicar para melhorar a segurança das comunicações e a computação de alto desempenho, e outras áreas que requerem números aleatórios de alta qualidade e alta velocidade," disse o professor Morgan Mitchell, membro da equipe.

Dezenas de novas áreas potencialmente ricas em diamantes no País

Oito especialistas do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), órgão vinculado ao Ministério das Minas e Energia, mapearam e identificaram dezenas de novas áreas potencialmente ricas em diamantes no País, especialmente no Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Pará.
Essa iniciativa faz parte do projeto Diamante Brasil, cujas pesquisas de campo começaram em 2010. Desde então, os geólogos visitaram cerca de 800 localidades em diversos estados, recolheram amostras de rochas e efetuaram perfurações para descobrir mais informações sobre as gemas de cada um dos pontos.
O ponto de partida para as expedições foi uma lista deixada ao governo pela empresa De Beers, gigante multinacional do setor de diamantes que prestava serviços para o Brasil na área de mineração. Neste documento, constavam as coordenadas geográficas de 1.250 pontos, entre os quais muitos kimberlitos*. Apesar das informações sobre as possíveis localidades dessas jazidas, não havia detalhes sobre quantidades, qualidade e características das pedras, impulsionando o trabalho de campo dos geólogos, porém a maioria é rica em diamantes, falta pesquisar, os depósitos são enormes e devem ter milhares de kilates de diamantes gemológicos ou milhões de dólares.
O objetivo principal dos pesquisadores era fazer uma espécie de tomografia das áreas diamantíferas no território brasileiro, visando atrair investimentos de mineradoras e eventualmente ajudar a mobilizar garimpeiros em cooperativas. Essas medidas podem trazer um aumento na produção de diamantes em território nacional e coibir as práticas ilegais relacionadas a essas pedras preciosas.
Atualmente, o Brasil conta principalmente com reservas dos chamados diamantes industriais e de gemas (para uso em jóias). Os de gemas são os que fazem girar mais dinheiro, considerando que um diamante desses pode ser vendido em um garimpo do Brasil por R$ 2 milhões. Já o valor da pedra lapidada pode chegar à R$ 20 milhões.
Os detalhes dos achados ainda são mantidos em sigilo. Com o fim do trabalho de campo, os geólogos do Diamante Brasil darão início à descrição dos minerais encontrados e as análises das perfurações feitas pelas sondas. A intenção dos pesquisadores é divulgar todos os dados em 2016.
*O que é um Kimberlito?
De acordo com Mario Luiz Chaves, doutor em geologia pela Universidade de São Paulo e professor adjunto da UFMG, kimberlitos são rochas hibridas, ígneas ultrampaficas, potássicas e ricas em voláteis, com origem a mais de 150km de profundidade e que chegam a superfície por meio de pequenas chaminés vulcânicas ou diques. Normalmente, os diamantes são encontrados neste tipo de rocha. Confira uma foto:

Os cinco maiores diamantes lapidados do mundo

 Aborda aspectos geológicos e de mineração relacionados aos famosos minerais e traz diversas curiosidades para os leitores. Abaixo separamos uma lista baseada no livro com dados sobre os maiores diamantes do mundo e fotos incríveis de cada um deles.
1)    Cullinan I
Essa pedra foi encontrada em 1905 na África e recebeu o nome de Cullinan em homenagem ao dono da mina, Thomas Cullinan. É considerado o maior diamante já encontrado e pesa 3.106 quilates. Atualmente, adorna o Cetro do Soberano, propriedade real da Inglaterra.
2)    Incomparable
O Incomparable, ou Imcomparável, tem uma história curiosa: foi encontrado em 1984 por uma garota em uma pilha de cascalho próxima à mina MIBA Diamond, no Congo. Considerado inútil pela administração da mina, o cascalho foi descartado com a pedra, e a menina acabou descobrindo o segundo maior diamante bruto do mundo, com 890 quilates. O corte do diamante gerou 14 gemas menores e o Incomparável, um diamante dourado com 407,48 quilates.
3)    Cullinan II
O Cullinan II, conhecido como Pequena Estrela da África, foi encontrado no mesmo ano e local que oCullinan I. Com 317.4 quilates (63.48 g) é o terceiro maior diamante lapidado do mundo, e foi colocado na coroa imperial, também pertencente à realeza da Inglaterra.
4)    Grão Mogol
Encontrado na Índia em 1550, pesa 793 quilates. A pedra deu nome a um município em Minas Gerais. O paradeiro atual desta preciosidade é desconhecido.
5)    Nizam
O Nizam é o diamante mais antigo desta lista e foi descoberto na Índia em 1830. A pedra tem 227 quilates e já adornou coroas e joias reais (Elizabeth). Atualmente ninguém sabe ao certo qual foi o seu último destino.