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domingo, 6 de agosto de 2017
Caçadores de esmeraldas
Megagarimpo ilegal provoca ‘febre do ouro’ e divide índios no Pará
Megagarimpo ilegal provoca ‘febre do ouro’ e divide índios no Pará
| 2 de agosto de 2017 |

Operação do Ibama contra garimpo no Pará
Na última terça-feira (5), seguindo denúncia das principais lideranças mundurucus, o megagarimpo foi alvo de uma operação do GEF (Grupo Especializado de Fiscalização), a unidade de elite do Ibama. A Folha acompanhou a ação.
Após viagem de 200 km desde a cidade Novo Progresso (PA), os três helicópteros da missão aterrissaram ao lado do igarapé Água Branca, que, sem a proteção da floresta, se transformou num jorro barrento cruzando a terra estéril.
Seis agentes portando armas longas foram escalados para a ação, em região considerada de alto risco. No ano passado, um PM que dava apoio ao Ibama foi morto por um garimpeiro. Em 2012, a PF matou um mundurucu durante a tomada de um garimpo ilegal.

Dragas garimpam o rio próximo à terra indígena dos Munduruku
Ao ver uma escavadeira, avaliada em cerca de R$ 500 mil, sendo incendiada, um índio avançou sobre um dos agentes, que usou spray de pimenta para pará-lo. Após desconfiarem que a situação sairia do controle, foi dada a ordem de retirada.
Os agentes estavam em ampla desvantagem numérica. No garimpo, há uma currutela (vila) de pelo menos 50 barracos –o local, que ocupa cerca de 400 hectares, segundo imagens de satélite, e dispõe até de pista de avião e de internet sem fio.
Apesar do pouco tempo no chão, o Ibama conseguiu apreender atas de reunião, informes e recibos de pagamento em ouro dos garimpeiros para a Associação Pusuru, de mundurucus da região.
No documentos obtidos, aparecem carimbos com CNPJ e assinatura dos coordenadores da organização, com sede em Jacareacanga (a 1.190 km a sudoeste de Belém, em linha reta).
Ao Ibama, o garimpeiro José Barroso de Lima, 60, dono de uma escavadeira, explicou que está no local há dois anos, após acordo com lideranças locais mundurucus pelo qual entrega 10% do ouro produzido –2% para a associação e 8% para uma das aldeias próximas.

Garimpo na terra indígena Munduruku
A corrida do ouro tem criado tensão entre os mundurucus, etnia de 12 mil pessoas conhecida por protestos ousados, como a tomada por uma semana do canteiro de obras da usina Belo Monte, em 2013.
Principal liderança da etnia, o cacique geral, Arnaldo Kabá, protocolou ou apoiou denúncias de atividade garimpeira em terra indígena à Funai, ao Ministério Público e ao Ibama.
No ano passado, ele foi ao local pessoalmente, mas a reunião não teve resultado: “Fiquei triste porque o meu povo está com ideia tão diferente. Cacique pega ouro, mas não sei se está fazendo alguma coisa pela comunidade”, disse à Folha, por telefone.
“A população está sofrendo muito com os garimpeiros brancos. A água está muito suja, muita tristeza, traz mercúrio, malária, diarreia”, completou.
Embora em minoria, o envolvimento dos mundurucus é significativo. Apenas no garimpo Água Branca, 22 aldeias recebem pagamento em ouro, de um total de 123.
O número de aldeias participantes foi dado por Waldelirio Manhuary, uma das principais lideranças da associação Pusuru. Ele afirma que a cobrança do percentual é um direito pelo dano e afirmou que as lideranças contrárias ao garimpo não são representativas.

Recibo assinado por integrante da associação indígena Pussuru
“Não somos bandidos. Ladrões são os de colarinho branco, os congressistas”, afirmou.
Responsável pela fiscalização do sudoeste do Pará, a gerente executiva do Ibama em Santarém, Maria Luiza de Souza, afirma que, ao poluir os rios, o garimpo traz mortalidade de peixes e doenças para as comunidades indígenas, que em troca recebem um percentual muito pequeno da riqueza produzida.
“Não há aumento na qualidade de vida da aldeia, é um dinheiro que beneficia apenas o garimpeiro. O índio não fica com nada.”
BALSA DESTRUÍDA
Em ação cinematográfica, agentes do GEF (Grupo Especializado de Fiscalização do Ibama) incendiaram uma grande balsa de garimpo dentro de área protegida, no sudoeste do Pará. A destruição foi criticada pela Câmara de Vereadores de Itaituba (1.300 a oeste de Belém), cidade que vive da exploração do ouro.
A balsa foi localizada no último dia 3 de junho durante fiscalização feita por três helicópteros do Ibama em trecho do rio Jamanxim que marca a divisa entre a Terra Indígena Sawré Muybu e Floresta Nacional Itaituba 2, ambas vetadas à mineração.
Por falta de local de pouso, três agentes do GEF, unidade de elite do Ibama, pularam do helicóptero para o rio, de forte correnteza, em trecho próximo à balsa. Outros três desceram em uma ilha de pedra e usaram um pequeno barco sem motor parado ali para atravessar o Jamanxim.
A reportagem da Folha, que acompanhou a operação, não foi autorizada a desembarcar por falta de segurança.
Antes de a balsa ser destruída, foram apreendidos um revólver e um caderno de contabilidade que demonstraria extração de ouro até a véspera da operação. As quatro pessoas na embarcação, todas empregadas do proprietário, foram liberadas. Não havia indígenas.
Chamada de escariante, essa balsa é considerada a mais nociva ao meio ambiente entre as encontradas no garimpo. Por meio de uma coroa rotativa apelidada de abacaxi, sua draga tem capacidade de perfurar o leito do rio em busca de ouro.
A embarcação pertencia a Luis Rodrigues da Silva, 64, o Luis Barbudo, presidente do Movimento em Defesa da Legalização da Garimpagem Regional.
Por telefone, ele afirma ter sofrido prejuízo de R$ 1,5 milhão e negou que estivesse garimpando no local.
“Não me deram oportunidade pra conversar, notificação, nada. A balsa estava parada no local havia 15 dias porque o motor quebrou. Como não consegui arrumar o rebocador nesse prazo, o Ibama passou e tocou fogo.”
Na terça-feira (6), o garimpeiro recebeu o apoio de vereadores da cidade durante sessão na Câmara, que se comprometeu em aprovar uma moção de repúdio ao Ibama.
Segundo a chefe da fiscalização do órgão ambiental para o sudoeste do Pará, Maria Luiza de Souza, toda a região depende economicamente do crime ambiental, principalmente garimpo, exploração madeireira e a pecuária em cima do desmatamento, atividades em que é comum o envolvimento de políticos locais e grandes empresários.
“Da maneira que eu vejo, a exploração da Amazônia é insustentável. É aquela coisa do extrativismo: vamos tirar, acabar tudo e depois a gente vê o que dá.”
Por: FABIANO MAISONNAVE e AVENER PRADO (viajaram para a terra indígena munduruku a convite do Ibama)Fonte: Folha de São Paulo
Minerais encontrados pela primeira vez no Brasil já são 56
As pedras no caminho

“Nasceu!”
Daniel Atencio disparou um e-mail com esse título no dia 2 de novembro de 2010 para comunicar, como ele explicou em seguida, “o nascimento de minha décima segunda filha, carlosbarbosaíta, que veio fazer companhia a chernikovita, coutinhoíta, lindbergita, matioliíta, menezesita, ruifrancoíta, footemineíta, guimarãesita, bendadaíta, brumadoíta e manganoeudialita”. Professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), Atencio tinha acabado de receber uma mensagem da Associação Mineralógica Internacional aprovando seu pedido de registro do novo mineral, o 54o encontrado pela primeira vez no Brasil e sem registros em qualquer outro país. Novas espécies de minerais, chamadas minerais-tipo, aparecem agregadas a minerais de valor comercial, as gemas, como topázio e turmalina, comuns em Minas Gerais. Só duas gemas, porém, o crisoberilo e a brazilianita, tiveram o registro inicial feito no país.
Novos minerais exibem composições químicas ou arranjos atômicos inusitados, inicialmente sem aplicações comerciais. São encontrados com frequência em rochas ígneas conhecidas como pegmatitos, formadas nas últimas etapas da cristalização do magma no interior da Terra. Das primeiras fases do resfriamento de um magma, resultam rochas e minerais mais simples e homogêneos. À medida que o magma cristaliza, os elementos químicos mais raros formam uma espécie de sopa residual. Em um segundo momento, esse líquido residual se solidifica e dá origem aos pegmatitos, muitas vezes ricos em fosfatos. No Brasil, uma das áreas mais ricas em pegmatitos – e, portanto, em novas espécies de minerais – é o leste de Minas. Em Divino das Laranjeiras, um dos municípios dessa região, foram encontradas quatro, incluindo a atencioíta, mineral marrom caracterizado pelo russo Nikita Chukanov, e a brazilianita, uma gema de cristais amarelo-esverdeados. Da vizinha Galileia saíram 10 minerais novos.
Desde dezembro de 2006, quando saiu de uma pedreira vizinha a um campo de futebol do município de Jaguaraçu, leste de Minas, a carlosbarbosaíta fez um percurso que mostra como encontrar novas espécies de minerais combina paciência, amizade e muita colaboração entre especialistas não acadêmicos e acadêmicos. Luiz Menezes, engenheiro de minas, colecionador e comerciante de minerais que coletou o que lhe parecia ser um novo material, fez as primeiras análises em um microscópio eletrônico da Universidade Federal de Minas Gerais. Como não pôde ir adiante, mandou sua amostra para a USP. Atencio examinou-a por raios X, confirmou que se tratava de uma espécie nova de mineral, mas também não conseguiu avançar: os cristais de 50 x 10 x 5 milésimos de milímetro eram minúsculos demais, dificultando as análises. Pela mesma razão, durante quatro anos, pesquisadores da USP de São Carlos, do Canadá, da Rússia e dos Estados Unidos que entraram na história avançavam pouco, até que, em abril de 2009, Mark Cooper, da Universidade Manitoba, Canadá, conseguiu um equipamento de raios X que finalmente completou as análises, elucidando a estrutura atômica do mineral, cujos cristais formam longas agulhas ricas em óxido de urânio e nióbio.
A pedido de Menezes, Atencio escolheu o nome para o novo mineral, em homenagem a Carlos do Prado Barbosa, engenheiro químico e colecionador de minerais falecido em 2003 que participou da identificação da bahianita, reconhecida como novo mineral em 1978, e da minasgeraisita, de 1986. Geólogos vivos também são homenageados, embora, como os biólogos, não possam pôr o nome deles próprios em espécies novas que descobrirem.
A menezesita, mineral rico em bário, zircônio e magnésio, ganhou esse nome em reconhecimento ao trabalho de Menezes, que mora em Belo Horizonte e vive enviando coisas interessantes para geólogos. Reconhecida em 2005 e publicada em 2008, a menezesita apresenta uma estrutura atômica similar à de um composto que havia sido sintetizado em 2002 para combater o vírus causador da Aids.
A luz dos minerais
A coutinhoíta, mineral amarelo como o enxofre, um silicato de urânio e tório, que Atencio e Paulo Anselmo Matioli, geógrafo formado pela Universidade Católica de Santos, trouxeram de Galileia, Minas, é outro exemplo de gratidão aos pioneiros – neste caso, a José Moacyr Vianna Coutinho, professor da USP que, no final dos anos 1950, ao voltar da Universidade de Berkeley, Estados Unidos, disseminou no Brasil o uso da microscopia polarizadora, que indica o desvio da luz e, a partir daí, as estruturas atômicas, facilitando a identificação de minerais no Brasil. Como resultado, ele participou da caracterização de nove dos 16 novos minerais brasileiros identificados nos últimos oito anos, incluindo a carlosbarbosaíta. “Ajudo sempre que posso”, diz Coutinho, aos 86 anos, ainda assíduo em sua sala no Instituto de Geociências da USP.
“Coutinho, além de um olhar fantástico no microscópio, tem uma habilidade imensa para desenhar cristais e orientações ópticas dos minerais”, diz Atencio, mostrando os desenhos de artigo de 1999 em que eles e outros colegas descreveram a hainita, de Poços de Caldas, na divisa de Minas com São Paulo. Em outro canto da estante de metal estão as amostras de sílex que Atencio coletou aos 10 anos de idade de uma obra próximo à sua casa em São Bernardo do Campo, em um episódio que o fez escolher mais tarde ser geólogo.
Duas por ano
Muitos minerais novos são encontrados em apenas um lugar, mas um mineral avermelhado com um dos nomes mais difíceis de pronunciar, tupersuatsiaíta, já tinha sido identificado na Groenlândia e na Namíbia antes de 2005, quando Atencio, Coutinho e Silvio Vlach, também da USP, relataram que o haviam encontrado em Poços de Caldas. Às vezes, a descrição oficial de uma nova espécie de mineral concilia descobertas paralelas. É o caso da bendadaíta, mineral de cristais alongados esverdeados encontrado em Portugal, no Brasil, no Chile, em Marrocos e na Itália, que geólogos de sete países – Áustria, Alemanha, França, Rússia, Austrália, Brasil e Estados Unidos – apresentaram em junho de 2010 na Mineralogical Magazine.
“Às vezes é mais fácil colaborar com pesquisadores da Rússia e da Alemanha do que daqui”, diz Atencio. Segundo ele, a principal razão é a escassez de especialistas na identificação de minerais – menos de uma dezena no Brasil, enquanto a Itália abriga cerca de 200 e a Rússia, bem mais. Mesmo assim, o número de novas espécies de minerais identificadas originalmente no Brasil está crescendo. Até 1959 havia no país apenas 19 espécies de minerais consideradas válidas, a maioria descrita apenas por estrangeiros. De 1959 a 2000, a comissão de novos minerais da Associação Mineralógica Internacional reconheceu 18 espécies novas, com uma média de 0,43 por ano, e nos últimos oito anos, outras 16, subindo a média para duas por ano. Segundo Atencio, o Brasil está entre os países em que atualmente se descobrem mais minerais novos, quase sempre próximo dos Estados Unidos. A Rússia é o país onde mais se descobrem minerais novos.
Não é só por falta de especialistas que as descobertas não proliferam. Nas pedreiras, um procedimento comum é tratar as gemas, de valor comercial, com banho de ácido, para remover as impurezas, que incluem possíveis novidades. Os interessados em novos minerais às vezes conseguem chegar antes do banho de ácido. Outro problema é a transformação do espaço. Atencio conta que em 1991 descreveu com Reiner Neumann, o primeiro estudante que orientou, Antonio Silva e Yvonne Mascarenhas, seus colaboradores do Instituto de Física de São Carlos da USP desde os anos 1980, minerais raros de urânio, encontrados em Perus, no município de São Paulo. “Devia ter muito mais”, diz ele, “mas o Rodoanel cobriu tudo”.
Minerais encontrados pela primeira vez no Brasil já são 56
Matioliíta
Daniel Atencio disparou um e-mail com esse título no dia 2 de novembro de 2010 para comunicar, como ele explicou em seguida, “o nascimento de minha décima segunda filha, carlosbarbosaíta, que veio fazer companhia a chernikovita, coutinhoíta, lindbergita, matioliíta, menezesita, ruifrancoíta, footemineíta, guimarãesita, bendadaíta, brumadoíta e manganoeudialita”. Professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), Atencio tinha acabado de receber uma mensagem da Associação Mineralógica Internacional aprovando seu pedido de registro do novo mineral, o 54o encontrado pela primeira vez no Brasil e sem registros em qualquer outro país. Novas espécies de minerais, chamadas minerais-tipo, aparecem agregadas a minerais de valor comercial, as gemas, como topázio e turmalina, comuns em Minas Gerais. Só duas gemas, porém, o crisoberilo e a brazilianita, tiveram o registro inicial feito no país.
Novos minerais exibem composições químicas ou arranjos atômicos inusitados, inicialmente sem aplicações comerciais. São encontrados com frequência em rochas ígneas conhecidas como pegmatitos, formadas nas últimas etapas da cristalização do magma no interior da Terra. Das primeiras fases do resfriamento de um magma, resultam rochas e minerais mais simples e homogêneos. À medida que o magma cristaliza, os elementos químicos mais raros formam uma espécie de sopa residual. Em um segundo momento, esse líquido residual se solidifica e dá origem aos pegmatitos, muitas vezes ricos em fosfatos. No Brasil, uma das áreas mais ricas em pegmatitos – e, portanto, em novas espécies de minerais – é o leste de Minas. Em Divino das Laranjeiras, um dos municípios dessa região, foram encontradas quatro, incluindo a atencioíta, mineral marrom caracterizado pelo russo Nikita Chukanov, e a brazilianita, uma gema de cristais amarelo-esverdeados. Da vizinha Galileia saíram 10 minerais novos.
Desde dezembro de 2006, quando saiu de uma pedreira vizinha a um campo de futebol do município de Jaguaraçu, leste de Minas, a carlosbarbosaíta fez um percurso que mostra como encontrar novas espécies de minerais combina paciência, amizade e muita colaboração entre especialistas não acadêmicos e acadêmicos. Luiz Menezes, engenheiro de minas, colecionador e comerciante de minerais que coletou o que lhe parecia ser um novo material, fez as primeiras análises em um microscópio eletrônico da Universidade Federal de Minas Gerais. Como não pôde ir adiante, mandou sua amostra para a USP. Atencio examinou-a por raios X, confirmou que se tratava de uma espécie nova de mineral, mas também não conseguiu avançar: os cristais de 50 x 10 x 5 milésimos de milímetro eram minúsculos demais, dificultando as análises. Pela mesma razão, durante quatro anos, pesquisadores da USP de São Carlos, do Canadá, da Rússia e dos Estados Unidos que entraram na história avançavam pouco, até que, em abril de 2009, Mark Cooper, da Universidade Manitoba, Canadá, conseguiu um equipamento de raios X que finalmente completou as análises, elucidando a estrutura atômica do mineral, cujos cristais formam longas agulhas ricas em óxido de urânio e nióbio.
A pedido de Menezes, Atencio escolheu o nome para o novo mineral, em homenagem a Carlos do Prado Barbosa, engenheiro químico e colecionador de minerais falecido em 2003 que participou da identificação da bahianita, reconhecida como novo mineral em 1978, e da minasgeraisita, de 1986. Geólogos vivos também são homenageados, embora, como os biólogos, não possam pôr o nome deles próprios em espécies novas que descobrirem.
A menezesita, mineral rico em bário, zircônio e magnésio, ganhou esse nome em reconhecimento ao trabalho de Menezes, que mora em Belo Horizonte e vive enviando coisas interessantes para geólogos. Reconhecida em 2005 e publicada em 2008, a menezesita apresenta uma estrutura atômica similar à de um composto que havia sido sintetizado em 2002 para combater o vírus causador da Aids.
A luz dos minerais
A coutinhoíta, mineral amarelo como o enxofre, um silicato de urânio e tório, que Atencio e Paulo Anselmo Matioli, geógrafo formado pela Universidade Católica de Santos, trouxeram de Galileia, Minas, é outro exemplo de gratidão aos pioneiros – neste caso, a José Moacyr Vianna Coutinho, professor da USP que, no final dos anos 1950, ao voltar da Universidade de Berkeley, Estados Unidos, disseminou no Brasil o uso da microscopia polarizadora, que indica o desvio da luz e, a partir daí, as estruturas atômicas, facilitando a identificação de minerais no Brasil. Como resultado, ele participou da caracterização de nove dos 16 novos minerais brasileiros identificados nos últimos oito anos, incluindo a carlosbarbosaíta. “Ajudo sempre que posso”, diz Coutinho, aos 86 anos, ainda assíduo em sua sala no Instituto de Geociências da USP.
“Coutinho, além de um olhar fantástico no microscópio, tem uma habilidade imensa para desenhar cristais e orientações ópticas dos minerais”, diz Atencio, mostrando os desenhos de artigo de 1999 em que eles e outros colegas descreveram a hainita, de Poços de Caldas, na divisa de Minas com São Paulo. Em outro canto da estante de metal estão as amostras de sílex que Atencio coletou aos 10 anos de idade de uma obra próximo à sua casa em São Bernardo do Campo, em um episódio que o fez escolher mais tarde ser geólogo.
Duas por ano
Muitos minerais novos são encontrados em apenas um lugar, mas um mineral avermelhado com um dos nomes mais difíceis de pronunciar, tupersuatsiaíta, já tinha sido identificado na Groenlândia e na Namíbia antes de 2005, quando Atencio, Coutinho e Silvio Vlach, também da USP, relataram que o haviam encontrado em Poços de Caldas. Às vezes, a descrição oficial de uma nova espécie de mineral concilia descobertas paralelas. É o caso da bendadaíta, mineral de cristais alongados esverdeados encontrado em Portugal, no Brasil, no Chile, em Marrocos e na Itália, que geólogos de sete países – Áustria, Alemanha, França, Rússia, Austrália, Brasil e Estados Unidos – apresentaram em junho de 2010 na Mineralogical Magazine.
“Às vezes é mais fácil colaborar com pesquisadores da Rússia e da Alemanha do que daqui”, diz Atencio. Segundo ele, a principal razão é a escassez de especialistas na identificação de minerais – menos de uma dezena no Brasil, enquanto a Itália abriga cerca de 200 e a Rússia, bem mais. Mesmo assim, o número de novas espécies de minerais identificadas originalmente no Brasil está crescendo. Até 1959 havia no país apenas 19 espécies de minerais consideradas válidas, a maioria descrita apenas por estrangeiros. De 1959 a 2000, a comissão de novos minerais da Associação Mineralógica Internacional reconheceu 18 espécies novas, com uma média de 0,43 por ano, e nos últimos oito anos, outras 16, subindo a média para duas por ano. Segundo Atencio, o Brasil está entre os países em que atualmente se descobrem mais minerais novos, quase sempre próximo dos Estados Unidos. A Rússia é o país onde mais se descobrem minerais novos.
Não é só por falta de especialistas que as descobertas não proliferam. Nas pedreiras, um procedimento comum é tratar as gemas, de valor comercial, com banho de ácido, para remover as impurezas, que incluem possíveis novidades. Os interessados em novos minerais às vezes conseguem chegar antes do banho de ácido. Outro problema é a transformação do espaço. Atencio conta que em 1991 descreveu com Reiner Neumann, o primeiro estudante que orientou, Antonio Silva e Yvonne Mascarenhas, seus colaboradores do Instituto de Física de São Carlos da USP desde os anos 1980, minerais raros de urânio, encontrados em Perus, no município de São Paulo. “Devia ter muito mais”, diz ele, “mas o Rodoanel cobriu tudo”.
Meteorito raro cai perto de escola no PA e surpreende crianças e cientistas
Meteorito raro cai perto de escola no PA e surpreende crianças e cientistas

Meteorito que tinha entre 40 e 50 cm de tamanho e pesava entre 5 e 6 kg caiu no Pará
Famosa pelo garimpo a céu aberto que levou milhares de pessoas a procurarem ouro na década de 1980, a região de Serra Pelada passa a ser conhecida também como o local da queda mais recente de um meteorito (por sinal, de um tipo raríssimo) no Brasil.
O bloco rochoso que tinha entre 40 e 50 cm de tamanho e pesava entre 5 e 6 kg caiu na manhã do dia 29 de junho perto da Escola Rita Lima de Sousa, na Vila de Serra Pelada, que hoje pertence ao município de Curionópolis, no Pará.
Paulo Anselmo Matioli, 42 anos, mestre em Geologia pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (Igc-USP) e diretor e curador do Museu de Ciências Naturais Joias da Natureza, considera-se um privilegiado por ter identificado o meteorito.
O curioso é que o especialista, natural de Santos, estava a quilômetros de distância do local da queda. Matioli viu uma postagem nas redes sociais do colega geólogo Marcílio Rocha, de Marabá, do Pará, a quem foram entregues alguns pedaços do material – ele buscava algum especialista em meteoritos para auxiliar na análise.
“Eu já fiquei louco ao ver a foto. Quando ele me mandou um pedaço da amostra, eu já tinha visto hotel, passagem de avião… E muitas pessoas que ele procurou não deram muita bola. Sugeriram que fizessem testes e meio que deixaram para lá. Agora devem estar com dor de cabeça, arrependidos”, brinca Matioli.
Ele diz isso porque não só confirmou que sim, trata-se de um meteorito, como ainda de um tipo bem raro: um eucrito, da classe dos acondritos, cuja origem é o asteróide Vesta – o segundo maior do Sistema Solar.
Matioli conta que só dois meteoritos deste tipo haviam sido encontrados no Brasil anteriormente (em Serra de Magé, Pernambuco, em 1923, e em Ibitira, Minas Gerais, em 1957). Esta também se torna a segunda queda comprovada de meteorito no Estado do Pará (a primeira foi em Ipitinga, em 1989). Atualmente, existem cerca de 71 meteoritos descritos e descobertos no país.
“Fazer parte dessa história de perto e estudar uma rocha proveniente de um asteróide é algo incrível. Vamos levar para o mundo inteiro esse novo meteorito brasileiro”, comemora o geólogo.
“Uns falaram de bomba, outros trovão, avião e alguns até pedaço de ferro (a Vale tem um projeto que extrai minério na região)… Já o vigia da escola, testemunha ocular, conta que viu a queda levantar poeira e o rastro de fumaça, que é deixado pelos minerais sendo fundidos na superfície. Eles agora sabem da raridade do evento que presenciaram, pois não é todo mundo que vê a queda de um meteorito”, destaca.
Passado o susto com o estrondo, os moradores da Vila foram ao local da queda e viram os fragmentos de perto. “Uma estudante em especial, a Vitória, pegou vários pedaços, encheu a camisa e foi distribuindo. Agora ela sabe o quanto isso foi importante para nós e para a ciência”, diz o geólogo, que falou a todos da importância em se registrar o episódio.
Matioli usará um fragmento no acervo do Museu de Ciências Naturais Joias da Natureza, que atualmente está trabalhando de forma itinerante. Ele também já encaminhou uma parte do meteorito para os Estados Unidos para análises que identificarão as propriedades físico-químicas do material. Concluídos os estudos, uma revista especializada internacional fará a publicação oficial do mais novo meteorito brasileiro. E ele já tem nome: Meteorito Serra Pelada.
“A Vila de Serra Pelada é humilde, simples, mas tem pessoas acolhedoras, gentis e muito calorosas. Fui muito bem tratado por todos eles. Só tenho a agradecer. Os governantes poderiam olhar com mais atenção para um local que já teve o maior garimpo a céu aberto do mundo”, pontua o geólogo. “Fico feliz de ajudar a colocar Serra Pelada de novo no mapa. Não por causa da corrida do ouro, mas agora por causa da corrida do meteorito!”.
Por: Eduardo Carneiro
Fonte: UOL
| 2 de agosto de 2017 |

Meteorito que tinha entre 40 e 50 cm de tamanho e pesava entre 5 e 6 kg caiu no Par
Famosa pelo garimpo a céu aberto que levou milhares de pessoas a procurarem ouro na década de 1980, a região de Serra Pelada passa a ser conhecida também como o local da queda mais recente de um meteorito (por sinal, de um tipo raríssimo) no Brasil.
O bloco rochoso que tinha entre 40 e 50 cm de tamanho e pesava entre 5 e 6 kg caiu na manhã do dia 29 de junho perto da Escola Rita Lima de Sousa, na Vila de Serra Pelada, que hoje pertence ao município de Curionópolis, no Pará.
Paulo Anselmo Matioli, 42 anos, mestre em Geologia pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (Igc-USP) e diretor e curador do Museu de Ciências Naturais Joias da Natureza, considera-se um privilegiado por ter identificado o meteorito.
O curioso é que o especialista, natural de Santos, estava a quilômetros de distância do local da queda. Matioli viu uma postagem nas redes sociais do colega geólogo Marcílio Rocha, de Marabá, do Pará, a quem foram entregues alguns pedaços do material – ele buscava algum especialista em meteoritos para auxiliar na análise.
“Eu já fiquei louco ao ver a foto. Quando ele me mandou um pedaço da amostra, eu já tinha visto hotel, passagem de avião… E muitas pessoas que ele procurou não deram muita bola. Sugeriram que fizessem testes e meio que deixaram para lá. Agora devem estar com dor de cabeça, arrependidos”, brinca Matioli.
Ele diz isso porque não só confirmou que sim, trata-se de um meteorito, como ainda de um tipo bem raro: um eucrito, da classe dos acondritos, cuja origem é o asteróide Vesta – o segundo maior do Sistema Solar.
Matioli conta que só dois meteoritos deste tipo haviam sido encontrados no Brasil anteriormente (em Serra de Magé, Pernambuco, em 1923, e em Ibitira, Minas Gerais, em 1957). Esta também se torna a segunda queda comprovada de meteorito no Estado do Pará (a primeira foi em Ipitinga, em 1989). Atualmente, existem cerca de 71 meteoritos descritos e descobertos no país.
“Fazer parte dessa história de perto e estudar uma rocha proveniente de um asteróide é algo incrível. Vamos levar para o mundo inteiro esse novo meteorito brasileiro”, comemora o geólogo.
Serra Pelada de volta ao mapa
Matioli passou uma semana na Vila de Serra Pelada. Lá, soube que as crianças estavam em aula no momento da queda do meteorito, cujo barulho despertou as mais diferentes reações.“Uns falaram de bomba, outros trovão, avião e alguns até pedaço de ferro (a Vale tem um projeto que extrai minério na região)… Já o vigia da escola, testemunha ocular, conta que viu a queda levantar poeira e o rastro de fumaça, que é deixado pelos minerais sendo fundidos na superfície. Eles agora sabem da raridade do evento que presenciaram, pois não é todo mundo que vê a queda de um meteorito”, destaca.
Passado o susto com o estrondo, os moradores da Vila foram ao local da queda e viram os fragmentos de perto. “Uma estudante em especial, a Vitória, pegou vários pedaços, encheu a camisa e foi distribuindo. Agora ela sabe o quanto isso foi importante para nós e para a ciência”, diz o geólogo, que falou a todos da importância em se registrar o episódio.
Matioli usará um fragmento no acervo do Museu de Ciências Naturais Joias da Natureza, que atualmente está trabalhando de forma itinerante. Ele também já encaminhou uma parte do meteorito para os Estados Unidos para análises que identificarão as propriedades físico-químicas do material. Concluídos os estudos, uma revista especializada internacional fará a publicação oficial do mais novo meteorito brasileiro. E ele já tem nome: Meteorito Serra Pelada.
“A Vila de Serra Pelada é humilde, simples, mas tem pessoas acolhedoras, gentis e muito calorosas. Fui muito bem tratado por todos eles. Só tenho a agradecer. Os governantes poderiam olhar com mais atenção para um local que já teve o maior garimpo a céu aberto do mundo”, pontua o geólogo. “Fico feliz de ajudar a colocar Serra Pelada de novo no mapa. Não por causa da corrida do ouro, mas agora por causa da corrida do meteorito!”.
Por: Eduardo Carneiro
Fonte: UOL
Diamante de pureza rara levado a leilão
Diamante de pureza rara levado a leilão
Um diamante de 51 carates com uma pureza inédita na Rússia é a estrela da coleção de cinco pedras preciosas que a Alrosa, número um mundial do setor, vai leiloar.
A partir de um diamante de 179 carates encontrado em 2015 numa das suas minas siberianas da Iacútia, a empresa pública russa talhou cinco peças que formam uma coleção.
"Os cinco diamantes foram produzidos a partir de um só diamante bruto, o que é excecional", sublinhou o presidente da Alrosa, Serguei Ivanov, em comunicado.
"Foram precisos um ano e meio para criar esta coleção (...) O principal diamante, Dinastia, tornou-se o mais puro dos grandes diamantes da história da joalharia no nosso país", acrescentou.
A Rússia é um dos principais produtores mundiais de pedras preciosas, nomeadamente graças aos recursos disponíveis na Iacútia.
O diamante bruto original, datado de há quase 400 milhões de anos, foi batizado como Romanov, em homenagem à dinastia que reinou na Rússia imperial até à revolução de 1917 e sob cujo governo floresceu a indústria diamantífera, a partir do século XVIII.
A coleção de cinco peças que dele resultou - de 51,38 carates, 16,67 carates, 5,05 carates, 1,73 carates e 1,39 carates - será apresentada em vários países, a começar por um salão especializado que decorre em Hong Kong entre 13 e 19 de setembro, e só depois leiloada online, em novembro.
"Se analisarmos os resultados dos leilões da Sotheby's e da Christie's, a base de licitação da coleção não pode ser inferior a dez milhões de dólares (8,4 milhões de euros)", declarou Ivanov, citado pela agência russa Interfax.
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