segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O segredo da felicidade segundo a ciência

O segredo da felicidade segundo a ciência





Ser feliz não é comer sempre o mesmo prato no restaurante que você mais gosta ou gozar de uma vida plena e tranquila; a ciência mostra que a chave para a satisfação pessoal é fazer coisas arriscadas, desconfortáveis e até mesmo desgastantes


por Todd B. Kashdan e Robert Biswas-Diener | Ilustração: Nik Neves

Editora Globo
Para nós, psicólogos que estamos sempre viajando de avião, a maneira como descrevemos nossa profissão para o vizinho de assento é determinante para saber se passaremos cinco horas ouvindo intrigas, detalhes de um casamento decadente, ou sobre o quanto é impossível resistir a uma bomba de chocolate. Mesmo usando fones de ouvido enormes, é impossível ignorar aquele passageiro decidido a contar sua história de abandono na infância. Para os que arriscam dizer a verdade e admitir que estudamos a felicidade, a resposta é quase sempre a mesma: o que eu posso fazer para ser feliz?

O segredo da felicidade é uma preocupação cada vez mais importante na era moderna, já que o aumento da estabilidade financeira proporciona a muitos a oportunidade de se concentrar no crescimento pessoal. Uma vez que já não somos mais caçadores preocupados em encontrar a próxima presa, procuramos viver nossas vidas da melhor maneira possível.

A busca da felicidade é uma epidemia mundial — em um estudo com mais de 10 mil participantes de 48 países, os psicólogos Ed Diener, da Universidade de Illinois, e Shigehiro Oishi, da Universidade de Virginia, descobriram que pessoas de todos os cantos do mundo consideram a felicidade mais importante do que outras realizações pessoais altamente desejáveis, tais como ter um objetivo na vida, ser rico ou ir para o céu. A febre da felicidade é estimulada em parte pelo crescente número de pesquisas que sugerem que, além de ser boa, a felicidade também faz bem — ela está ligada a muitos benefícios, desde maiores salários e um melhor sistema imunológico até estímulo à criatividade.

A maioria das pessoas entende que a felicidade verdadeira é mais do que um emaranhado de sentimentos intensos e positivos — ela é melhor descrita como uma sensação plena de “paz” e “contentamento”. Não importa como seja definida, a felicidade é parcialmente emocional — e por isso está ligada à máxima de que cada indivíduo tem um ponto de regulação, como um termostato, definido pela bagagem genética e a personalidade de cada um.

A felicidade verdadeira dura mais do que uma dose de dopamina, por isso é muito importante pensar nela como algo que vai além da emoção. A sensação de felicidade de cada um também inclui reflexões cognitivas, tais como quando você ri — ou não! — da piada do seu melhor amigo, ou quando analisa o formato do seu nariz ou a qualidade do seu casamento. Somente parte desta sensação tem a ver com o que você sente; o resto é produto de um cálculo mental, em que você computa suas expectativas, seus ideais, a aceitação daquilo que não pode mudar e inúmeros outros fatores. Assim, a felicidade é um estado mental e, como tal, pode ser intencional e estratégico.

Não importa qual seja o seu ponto de regulação emocional, seus hábitos diários e suas escolhas — da maneira como você lida com uma amizade até como reflete sobre decisões em sua vida — podem influenciar o seu bem-estar. Os hábitos de pessoas felizes foram documentados em estudos recentes e fornecem uma espécie de manual a ser seguido. Aparentemente (e paradoxalmente, é preciso dizer), atividades que causam incerteza, desconforto, e mesmo uma pitada de culpa estão associadas às experiências mais memoráveis e divertidas das vidas das pessoas. As pessoas mais felizes, ao que parece, têm vários hábitos não-intuitivos que poderiam ser considerados como infelizes. Ou seja, nem tudo aquilo que os livros de auto-ajuda defendem que pode te fazer feliz tem parcela significativa na sua felicidade. A felicidade pode vir de onde menos se esperava. Duvida? Que bom, isso significa que você tem grandes chances de ser feliz. Confira a seguir como.



 01> O IMPORTANTE É CORRER RISCOS
Situações complicadas, incertas e até mesmo desgastantes são fundamentais para aumentar nossa sensação de satisfação
Editora Globo
É sexta-feira à noite e você tem planos de jantar com os amigos. Se você quiser ter certeza de que vai chegar em casa satisfeito, você pede uma pizza ou um hambúrguer. Se, em vez disso, você escolher um tipo de comida que nunca experimentou (culinária etíope — claro, por que não?) você corre o risco de não gostar muito daquela injera com wat (tipo de massa fina de pão coberta com carne condimentada) —, mas pode ser que se surpreenda com um sabor delicioso.

Pessoas verdadeiramente felizes aparentam saber intuitivamente que a felicidade duradoura não se trata apenas de fazer aquilo de que gostamos. Ela também exige crescimento pessoal e se aventurar além dos limites da sua zona de conforto. Em um estudo de 2007, os psicólogos do estado do Colorado Todd Kashdan e Michael Steger monitoraram as atividades diárias de estudantes e como eles se sentiam durante 21 dias; aqueles que sentiam curiosidade em determinado dia também se diziam mais satisfeitos com a vida — e se envolviam em um número maior de atividades que levavam à felicidade, tais como expressar sua gratidão aos colegas ou praticar atividades voluntárias.

A curiosidade — aquele estado pulsante e ávido do não-saber — é fundamentalmente um estado de ansiedade. Quando, por exemplo, o psicólogo Paul Silvia mostrou aos participantes de uma pesquisa uma série de pinturas, as imagens tranquilas de Claude Monet e Claude Lorrain evocaram sentimentos felizes, enquanto as obras misteriosas e inquietantes de Egon Schiele e Francisco Goya causaram curiosidade.

Ao que parece, a curiosidade consiste basicamente em explorar. Pessoas curiosas em geral entendem que, apesar de não ser fácil se sentir desconfortável e vulnerável, este é o caminho para se tornar mais forte e sábio. Na verdade, um olhar aprofundado no estudo de Kashdan e Steger sugere que pessoas curiosas investem em atividades que lhe causam desconforto, pois estas atuam como um trampolim para estados psicológicos mais elevados.

É claro que existem diversas circunstâncias na vida em que a melhor maneira de aumentar seu grau de satisfação é simplesmente fazer o que te faz bem, como tocar sua música favorita numa jukebox ou fazer planos para visitar seu melhor amigo. Mas, de vez em quando, vale a pena buscar uma nova experiência, mais complicada, incerta e até mesmo desgastante — seja finalmente fazer aquela aula de caratê pela primeira vez ou ceder a sua casa para a exibição do filme de arte de um colega. As pessoas mais felizes optam pelas duas vias e assim se beneficiam de ambas.



 02> DETALHES TÃO PEQUENOS
Pessoas mais felizes não são minuciosas e têm uma proteção emocional natural contra o desgaste dos pequenos detalhes
Editora Globo
Uma crítica comum às pessoas felizes é que elas não são realistas — levam a vida alegremente sem levar em conta os perigos e problemas do mundo. Pessoas satisfeitas tendem a ser menos analíticas e atentas a detalhes. Um estudo conduzido pelo psicólogo Joseph Forgas, da Universidade de New South Wales, constatou que pessoas com uma predisposição a serem felizes — ou seja, aquelas que tendem a ser positivas — são menos céticas do que as outras. Elas são menos críticas e mais receptivas com estranhos, o que as torna mais suscetíveis a mentiras e golpes.

Claro, ficar de olho nos detalhes pode ajudar quando se trata de navegar o complexo universo social de colegas e namorados — e é algo que as pessoas menos alegres tendem a fazer. Na verdade, o psicólogo da Universidade Virginia Commonwealth, Paul Andrews, argumenta que a depressão é, na verdade, uma questão de adaptação. Pessoas depressivas, segundo a lógica, tendem a refletir e processar mais suas experiências do que as outras — e, por consequência, ter mais insights sobre si mesmo ou sobre a condição humana —, embora paguem um preço emocional por isso. Um pouco de atenção aos detalhes ajuda a avaliar o universo social de maneira mais realista.

No entanto, muita atenção aos detalhes pode interferir no nosso funcionamento cotidiano, como dizem as pesquisas realizadas pela psicóloga Kat Harkness, da Queen’s University. Em seu estudo, ela mostra que as pessoas deprimidas tendem a notar mudanças nas expressões faciais dos outros a cada minuto. Já as pessoas felizes tendem a ignorar tais mudanças repentinas — um ar de aborrecimento, um sorriso sarcástico. Você provavelmente conhece tal fenômeno das interações com seu parceiro. Quando estamos de mau humor, notamos pequenas mudanças de expressão que geralmente surgem de uma briga (“Eu vi você virar os olhos pra mim! Por que você fez isso?!”), mas quando estamos de bom humor, passamos por cima desses detalhes (“Você me provoca, mas eu sei que no fundo você ama estar perto de mim”). As pessoas mais felizes têm uma proteção emocional natural contra a energia desgastante dos pequenos detalhes.

Do mesmo modo, as pessoas mais felizes não dão tanta importância para o seu desempenho. Ao rever a literatura de pesquisa de Oishi e seus colegas, nota-se que as pessoas mais felizes — cujas notas foram 9 ou 10 no quesito satisfação com a vida — tendem a ter desempenhos piores do que pessoas medianamente felizes quando se trata de notas, frequência em aulas e salários. Em resumo, elas se preocupam menos com o seu desempenho; acreditam que vale a pena sacrificar um certo grau de realização para não ter que se preocuparem com coisas pequenas.



 03> EU TORÇO POR VOCÊ
Comemorar de verdade o sucesso dos seus amigos pode te fazer mais feliz do que conquistar os seus próprios
Você já ouviu isso um milhão de vezes: um bom amigo é aquele com quem você pode contar quando precisa. Segundo uma pesquisa recente da Gallup World Poll, o melhor indicador de felicidade no trabalho era se a pessoa tinha ou não um melhor amigo com quem podia contar. Assim, faz sentido pensarmos que um bom amigo é aquele que nos leva pra tomar uma cerveja quando recebemos uma promoção no trabalho — ou que somos um quando buscamos aquele amigo no bar que acabou de ser demitido e está muito bêbado para voltar pra casa dirigindo.

De fato, tal apoio alivia as pancadas difíceis da vida e ajuda a vítima a superá-las. Ainda assim, novas pesquisas revelam uma ideia menos intuitiva sobre amizades: as pessoas mais felizes são aquelas que estão presentes nos sucessos dos amigos e cujas realizações são comemoradas por eles.

Tal ideia é reforçada pela psicóloga Shelly Gable, da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Uma pesquisa realizada por ela e alguns colegas revelou que quando parceiros românticos falham em dar importância ao sucesso do outro, o casal tem mais chances de se separar. Em contrapartida, quando os parceiros comemoram as realizações uns dos outros, eles tendem a ficar mais satisfeitos e compromissados com o relacionamento, desfrutando de mais amor e felicidade.

No entanto, fora do nosso relacionamento principal, por que capitalizar o sucesso dos outros nos faria mais feliz? Por que devemos apoiar aquele amigo sortudo, ouvindo todos os detalhes de mais uma de suas conquistas sexuais quando nós mesmos passamos muitas noites de sexta-feira lendo gibi? Primeiramente, ele precisa de você, de verdade. O processo de conversar sobre uma experiência positiva com alguém que escuta atentamente muda, de fato, a memória daquele evento — dessa forma, depois de falar sobre a sua experiência, seu amigo vai se lembrar daquela noite com a modelo de maneira ainda mais positiva do que ela foi realmente, e vai ser mais fácil para ele relembrar deste encontro alguns anos depois, quando ela der o fora nele. Mas igualdade é importante, e você também pode pegar uma carona na positividade do seu amigo. Assim como nós nos sentimos mais felizes quando compramos presentes ou doamos dinheiro para caridade em vez de gastarmos com nós mesmos, nos sentimos mais felizes ao ouvir os relatos de sucesso de nossos amigos.

Na vida, existem muitas pessoas esperando uma oportunidade para mostrar seu heroísmo. Difícil mesmo é encontrar pessoas que realmente conseguem compartilhar a alegria e realização dos outros sem sentir inveja. Assim, mandar flores para uma amiga que está se recuperando de uma cirurgia pode ser generoso da sua parte, porém oferecer o mesmo buquê quando ela se formar em Medicina ou ficar noiva gera mais satisfação para ela — e principalmente para você.



 04> SENTIMENTOS NEGATIVOS À MOSTRA
Admitir sentir raiva ou inveja pode nos tornar mais flexíveis, e a habilidade de mudar nosso estado mental é fundamental para o bem-estar
Editora Globo
As pessoas mais saudáveis psicologicamente têm um entendimento nato de que as emoções servem como um feedback — um sistema de radar interno que fornece informações sobre o que está acontecendo (e o que vai acontecer) no nosso universo social. Pessoas felizes e radiantes não escondem seus sentimentos negativos. Elas reconhecem que a vida é cheia de decepções e batem de frente com elas, sempre usando de sua raiva para se defender e de sua culpa como motivador para mudar seu próprio comportamento. Esta hábil alternância entre prazer e dor — habilidade de mudar seu comportamento para atender à demanda da situação — é conhecida como flexibilidade psicológica.

A habilidade de mudar o estado mental de acordo com a circunstância é um aspecto fundamental para o bem-estar. George Bonanno, psicólogo da Columbia University, descobriu que, após o 11 de Setembro, as pessoas mais flexíveis que moravam em Nova York quando os ataques aconteceram — aquelas que ocasionalmente sentiam raiva, mas também escondiam sua emoção quando necessário — se recuperaram mais rápido e desfrutaram de melhor saúde mental do que as que não souberam se adaptar.

Oportunidades para reagir de maneira flexível estão em toda parte: uma recém-casada que acaba de descobrir que é infértil talvez esconda sua desesperança de sua mãe, mas se abra com a amiga; pessoas que passaram por algum trauma talvez expressem sua raiva para outras que compartilham do mesmo sentimento, mas a esconda de amigos. O que nos permite obter melhores resultados em diferentes situações é a capacidade de tolerar o desconforto causado pela mudança de estado de espírito de acordo com nossa companhia e suas atitudes.

Aprender a lidar com o desconforto emocional é algo que se faz aos poucos. Da próxima vez em que você tiver um desentendimento com alguém, em vez de beber uma dose de uísque, tente simplesmente tolerar aquele sentimento por alguns minutos. Com o passar do tempo, sua capacidade de tolerar emoções negativas vai aumentar.



 05> ENCURTANDO A CURTIÇÃO
Prive-se dos prazeres imediatos: banho demorado, barra de chocolate, sessão de TV... As pessoas mais felizes têm metas longas e definidas
Editora Globo
Até a pessoa mais esforçada concorda que uma vida cheia de objetividade e sem prazeres é muito chata. Pessoas felizes sabem se permitir certas indulgências momentâneas que são gratificantes — tomar um banho longo, faltar na ginástica no sábado para assistir a uma partida de futebol na TV... Se você se concentra principalmente em atividades que te dão prazer instantâneo, você pode estar perdendo os benefícios de ter uma meta definida. Objetivos nos levam a correr riscos e fazer mudanças — mesmo face à privação e ao sacrifício da felicidade a curto prazo.

Ao tentar descobrir como as pessoas equilibram prazer e objetivo, Michael Steger e seus colegas da Colorado State mostraram que o ato de tentar compreender nosso mundo é o que geralmente nos desvia de nossa felicidade. Afinal, esta é uma missão carregada de tensão, incerteza, complexidade, momentos de intriga e agitação, e conflitos entre o desejo de se sentir bem e a vontade de progredir em direção ao que mais valorizamos. Ainda assim, no geral, as pessoas mais felizes tendem a sacrificar mais os prazeres a curto prazo quando existe uma boa oportunidade de progredir em direção ao que elas desejam ser na vida.

Uma pesquisa realizada pelo neurocientista Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, revelou que progredir em direção à realização de nossos objetivos nos faz sentirmos mais envolvidos e nos ajuda a tolerar sentimentos negativos que podem surgir neste percurso.

Ninguém diz que ter um objetivo na vida é fácil ou que seja uma tarefa simples, mas pensar nas atividades gratificantes e significativas que você fez na semana passada, no que você é bom e nas experiências das quais você não abre mão pode ajudar. Observe também as situações em que suas respostas refletem aquilo que você acha que devia dizer em vez daquilo em que realmente acredita. Por exemplo, ser pai não significa que o tempo que você passa com seus filhos é a parte mais energizante e significativa da sua vida — e é importante aceitar isso. As pessoas mais felizes conseguem combinar aquilo que mais gostam com uma vida de objetivos e satisfação.



 A FELICIDADE EM NÚMEROS
• 0,98m é a distância de casa, em metros, em que os tweets das pessoas começam a expressar menos felicidade (aproximadamente a distância de casa para o trabalho para quem mora relativamente perto).

• 40% de nossa capacidade de ser feliz está ligada ao poder de mudança, de acordo com a pesquisadora da Universidade da Califórnia, Riverside, Sonja Lyubomirsky.

• 85 é o número de residentes em cada 100 que dizem ter sentimentos positivos no Panamá e no Paraguai, países mais positivos no mundo.

• 20%. Para 1/5 da população dos Estados Unidos a sensação de felicidade não é afetada pelas flutuações de igualdade de renda do país graças à sua condição financeira.
Fonte:  Revista Galileu

domingo, 13 de agosto de 2017

Grupo de garimpeiros vive da extração de pedras preciosas em MG

Grupo de garimpeiros vive da extração de pedras preciosas em MG

Para garantir o sustento do futuro, eles precisam cuidar do meio ambiente              

Em Corinto, na Região Central de Minas, um grupo de garimpeiros vive da extração de pedras preciosas. Para garantir o sustento do futuro, eles precisam cuidar do meio ambiente.
Na porta de entra dos gerais de Guimarães Rosa, há minas. Assim é Corinto, com o brilho próprio da terra dos cristais. A cidade que se desenvolveu com a chegada do trem de ferro, no início do século XX, hoje tem a mineração, uma das mais importantes atividades econômicas.
Em Corinto, o que brilha não é ouro, mas vale muito. O cristal de quartzo atrai o mundo todo. Seja ele na sua forma natural, que mais parece gelo ou tratado no cobalto, ganhando assim o tom escuro.
“Por que a gente pode dizer que os melhores cristais do mundo estão aqui? Pelo brilho e pela perfeição. E essa perfeição a gente vê onde aqui? Nos bicos. As pontas são perfeitas”, afirma o empresário João Araújo de Almeida.
Há 30 anos, ele sobrevive do comércio de pedras. Já fez de tudo na vida, mas foi na mineração que ele se realizou.
Os riscos brancos, chamados de emburrados, nos paredões, são um sinal de que ali há o que o garimpeiro procura. As pedras que a peneira separa e que depois são lavadas, para ganhar valor comercial, não são cristais de coleção ou para produzir artesanato.
Dos garimpeiros, as pedras vão para a indústria. E delas é extraída uma substância chamada silício. Ela compõe produtos importantes do nosso dia a dia. Como o xampu, pasta de dente e até a tela de cristal líquido do celular.

Chico Leite – O mais antigo garimpeiro em atividade no Tapajós

Francisco Leite continua sonhando que um dia voltará a bamburrar no ouro
Quem vê aquela figura simplória, franzina, mas forte como um touro, carregando nas costas em um jamanxin por vários quilômetros um fardo de açúcar pesando 30 quilos como se estivesse levando pena, não imagina que um dia ele já foi um milionário do ouro, ou um bamburrado como se fala na linguagem garimpeira.
De pequena estatura, aos 73 anos, zanzando de um lado pro outro na comunidade, ora no baixão, com seu jamanxin nas costas, não faz a menor ideia de que está diante de um garimpeiro que fez fortuna no garimpo e perdeu tudo do dia pra noite. Trata-se do famoso Francisco da Silva Leite, mais conhecido por Chico Leite, que nunca saiu da comunidade Antônio Sudário, que ainda continua sonhando que um dia voltará a bamburrar de novo.
Chico Leite também tem parentesco com os irmãos Sudário e é a pessoa que detém maior conhecimento sobre a saga garimpeira do quarteto de Bandeirantes Tapajônicos que desbravaram a região do Marupá a partir da primeira pista de pouso construída na garimpagem do Tapajós, que ficou conhecida como Pista do Sudário, numa alusão ao nome dos seus criadores.
Caboclo nativo da região, Chico Leite nasceu na comunidade de São Luiz do Tapajós. Como Dom Quixote, ensarilhou suas armas de sonhos e desafios e caiu no mundo em busca de fortuna atraído pelas fofocas e brilho do ouro do Tapajós. A diferença é que Chico Leite é de carne e osso e sua luta não era utopia. Com todas as letras, Chico Leite assegura que quando chegou na região do Marupá, os irmãos Sudário: Antônio Sudário da Silva, Raimundo Sudário da Silva, Sebastião Sudário da Silva e Elias Sudário da Silva (todos falecidos) já tinham na raça e na coragem construído oficialmente a primeira pista de pouso de aeronaves do Tapajós e, em homenagem ao nome dos desbravadores foi batizada de Pista do Sudário, dando origem hoje a uma comunidade registrada e organizada com o nome de Comunidade Antônio Sudário, se tornando por isso a maior produtora de ouro da região, na época.
Chico Leite ainda se mantém na atividade garimpeira em um baixão lá do Marupá. Ele relata que quando chegou, os Sudário já tinham construído 100 metros de pista, do total de 1.500 concernentes ao tamanho oficial da pista, sendo historicamente esse fato registrado no ano de 1962, na região do rio Marupá, que mais tarde batizou a comunidade aurífera em função desse rio. Tudo de forma manual, utilizando apenas xibanca, machado, enxada (nessa época ainda não existia motosserra).
Mesmo aos 73 anos de idade Chico Leite continua no que chama ”micróbio ou germe do garimpo” trabalhando duro e causando inveja a muito garotão de 20 que não tem, segundo ele, metade de sua disposição. Se gaba de sua invejável memória e vai nos repassando fatos e datas, tudo dentro de um cronograma preciso, falando de coisas que ocorreram há cerca de 59 anos, como se fossem ontem.
Chico pediu pra que eu registrasse e divulgasse que a primeira pista da garimpagem do Tapajós foi a do Sudário, depois veio a do Cuiú-Cuiú. Em seguida vai relembrando os laços familiares dos tios Sudário, citando sua mãe Raimunda Bastos da Silva. Chico Leite estudou só até a 4ª série, mas sabe ler e escrever e para sobreviver trabalhou de tudo um pouco no garimpo, sendo até cozinheiro no baixão. Em sua odisseia garimpeira saiu e voltou várias vezes da comunidade Antônio Sudário, por conta própria. Chico Leite chegou por lá em 1972, saiu e voltou de novo em 1976, aos 28 anos e ainda solteiro.
Falando sobre a vida dos quatro Sudário, Chico Leite considera que eles foram os verdadeiros heróis da garimpagem, pois nada entendiam de ouro já que eram seringueiros no alto Tapajós, numa área conhecida por Laranjal e de lá fizeram a varação pro Marupá, tão logo souberam que Nilson Pinheiro havia descoberto o Rio das Tropas em Jacareacanga, que ainda pertencia ao território de Itaiuba. E tão logo iniciaram a exploração de ouro (aprenderam a trabalhar no Rio das Tropas) vieram a se tornar hábeis garimpeiros, principalmente na arte da pesquisa e exploração.
Chico Leite é um garimpeiro bem humorado, querido por todos, mas tem uma coisa que o deixa chateado: O fato de muita gente hoje, segundo ele, está bem de vida na comunidade, foram beneficiados com doação de terras gentilmente cedidas sem nenhum ônus pelos irmãos Sudário para trabalho de exploração de ouro, e sem que pagassem nada, por isso que mesmo ajudados ainda estão sendo ingratos não valorizando e nem respeitando memória dos desbravadores, nem a família Sudário como pioneiros descobridores do garimpo que mais tarde virou comunidade.
Na parte II vamos narrar como Chico Leite, de milionário voltou a ficar pobre num piscar de olhos no garimpo do Marupá. Para produzir essa e outras matérias a reportagem do Impacto percorreu quase dois mil quilômetros entre pistas e baixões.
COMUNIDADE ANTÕNIO SUDÁRIO HOMENAGEIA EQUIPE DE VACINAÇÃO DA SEMSA: O advento da estrada aberta para interligar a região garimpeira do Marupá (comunidade Antônio Sudário) com Crepurizão e Itaituba, através da Transgarimpeira, parecia um sonho inatingível, mas como um vaticínio de quem era visionário, primeiro veio a pista dos Sudário, que ensejou a criação da comunidade e depois a estrada que para muitos parecia utopia. O acesso terrestre facilitou a presença dos serviços públicos essenciais e pela primeira vez uma equipe da área de saúde esteve na comunidade utilizando a estrada denominada Transmarupá.
Uma equipe formada por Edson Garcia (responsável pela vacina), os motoristas Jean Robson e Ednelson Costa, complementando a equipe com Jéssica de Souza, Ana Cleide Vieira, Marcelo Antônio, Kelly Cristina e Joicicléia Rodrigues, técnicos em enfermagem promoveram durante dois dias campanha de vacinação no combate e prevenção à febre amarela, vacina antitetânica, antigripal e outras. A presença da equipe oportunizou a chance de centenas de pessoas que por motivos diversos que não puderam sair dos garimpos aproveitaram para completar ou iniciar suas vacinações.
Como foi levada uma grande quantidade de vacinas, todos que compareceram no posto improvisado próximo à Rua Beira Rio saíram satisfeitos pelo atendimento. Em reconhecimento ao empenho, ao esforço da equipe que já tinha passado pelo Crepurizão, Crepurizinho, Rio do Ouro, Cabaçal e outras comunidades, cada um dos integrantes recebeu das mãos dos integrantes da Família Sudário um diploma denominado “Certificado dos amigos dos Sudário”. Entre eles, Bebê Sudário, Raimundinho Sudário, Vanacy Sudário, Nara Duarte, Jurassi Sudário, Aldo Sudário, Elias Sudário, Edilson Rodrigues etc..
Os profissionais da saúde agradeceram a gentil acolhida da comunidade, considerando uma das melhores recepções comparadas por onde estiveram realizando a campanha de vacinação, tanto em logística quanto em apreço à equipe.
SAGA DOS SUDÁRIO: A façanha dos irmãos Sudário que com bravura e determinação em meio a uma mata inóspita abriram a primeira pista de pouso na região do Marupá foi testemunhada por pessoas que ainda hoje continuam vivendo na região e guardam boas lembranças. João Nogueira Batista, de 72 anos que ainda hoje continua sonhando com o “bamburro” é um deles. Conhecido por Bispo, ele tem um pá de máquina no garimpo do Marupá e mora na comunidade Antônio Sudário que serve de base de apoio como comunidade às atividades garimpeiras. Ele, em seu depoimento, demonstra toda gratidão aos irmãos Sudário.
“Cheguei aqui de jamanxin nas costas, em 1974, no Janau, fazendo exploração, e que já havia o Sabá Leal que era um delegado conciliador. Em 4 horas de viagem venci dois quilômetros de varação. Nessa época não havia muita povoação, só tinham três casas. Fui muito bem recepcionado pelos irmãos Sudário e tudo que hoje sou e tenho na região devo primeiro a Deus e em segundo aos Irmãos Sudário que nada cobravam, iam colocando as pessoas, inclusive ganhei um pedaço de terra deles e ainda tem muita gente ingrata que até hoje não reconhece isso”, declarou João Nogueira.
“Não tinha cozinheira. Mulher aqui era igual visagem se visse uma era um assombro e para que você pudesse conseguir uma, tinha que entrar numa fila de espera, pois era tudo agendado, colocado no caderno. Era ainda jovem, mas já começava a trabalhar por minha conta, e quando aqui, na ainda conhecida pista dos Sudário, os quatro irmãos como pessoas amigas e solidárias logo me deram  um pedaço de terra pra eu tocar. A família dos Sudário tinha barracão nos baixões, isso tudo ainda na época da garimpagem manual. Depois do Sabá Leal, eu fiquei aqui sendo uma espécie de delegado, toda questão vinha pra mim e eu tinha de resolver, inclusive naquele tempo por ordem de Wirland Freire coloquei vários bate-paus que estavam causando problemas aqui no garimpo, pois sempre fui contra extorsão, roubo ou morte. Usava armas calibre 38, 20, mas nunca precisei matar ninguém graças a Deus”, relembra.
Bispo, com sua boa memória em sua narrativa homérica, vai relatando mais fatos interessantes da época. “A Polícia Militar passou a existir aqui no garimpo somente em 1984, quando aqui instalou um destacamento que até nos dias de hoje ainda existe. Naquela época com três, hoje tem quatro policiais. Quando conheci os irmãos Sudário vi que eles eram pessoas simples, nunca vi nenhum deles armado, nem humilhando ninguém, e muito menos andando com guaxebas e, na região, de fato, o primeiro garimpo foi o do Cuiú-Cuiú, mas a primeira pista de pouso que gerou exploração no Marupá, que depois de uma pista virou comunidade, foi feita pelos irmãos Sudário”, falou João Nogueira.
“Quando aqui começou a crescer, o garimpo realizava cerca de 2 shows por semana, e não faltava artistas famosos, lotado as boates, aqui veio Valdik Soriano, Diana, Amado Batista, Fernando Mendes, José Augusto, Waldirene, a Ferinha, Márcia Ferreira, Edelson Moura, Baltazar, Bartô Galeno, Hamilton Ramos, Raul Seixas e tantos outros. Aqui no auge do ouro tinham as boites Canto Do Rio, Sorriso da Noite, Califórnia (onde hoje funciona uma Igreja Evangélica); todas consideradas grandes boates, sendo que atualmente ainda existem apenas duas funcionando, mas precariamente, Canto do Rio e Globo de Ouro”, recorda Bispo.
“Na época dos grandes movimentos de compra e venda de ouro, aqui era um espetáculo com o céu colorido de aviões, de 15 a 20 aviões pousando e outros sobrevoando, esperando a vez de pousar. O bom é que       aqui não tinha drogas, e entre 1984 e 1985 cheguei a tirar dois quilos de ouro em um mês, algumas vezes até quatro. Não sou rico, mas tenho uma vida estável financeiramente. Comprei e tenho uma chácara no estado do Piauí, lá em São Pedro de Água Branca, além de que ainda estou explorando ouro e se Deus quiser um dia vou bamburrar de novo”, conta emocionado João Nogueira.
Bispo vai desfiando seu novelo de boas histórias, suas narrativas vão atraindo mais pessoas e nossa conversa vai fluindo de maneira informal sem aquele tom de entrevista. “Aqui nessa época o cabra não tinha moleza, porque na exploração manual só se utilizava como ferramentas uma peula, pá, machado e facão. Tinha a lavra, a cobra fumando e a cobrinha. Somente nos anos de 1981 e 1982 é que chegaram os motores e o maior vendendor era da empresa Imateq. Os motores mais vendidos eram 2,6 MWM 3 cilindros, e o 4/6 cilindros e tudo na base mesmo do Tatuzão, Bico Jato, Maraca”, informou.
Bispo, que apesar dos 72 anos ainda se mantém alinhado e se vestindo com elegância, confessa ser um “garimpeiro vaidoso”. “Minha vida mudou da água pro vinho, quando vivia no mundo da bagaceira e entrava numa festa era o dançarino preferido das mulheres, dançava de tudo, forró, brega, o que tocasse. Bebia, mas não era de valentias não, tanto que como delegado nomeado pelos irmãos Sudário sempre evitava confusão e conflitos aqui no garimpo, buscando uma boa conversa, um entendimento. Hoje sou um homem evangélico, faz dezoito anos que aceitei Jesus e já estou há 42 anos aqui na comunidade Antônio Sudário”, conta Bispo.
Como é detentor de vasto conhecimento prático e das histórias ouvidas por essas bandas, João Batista, que tem nome de profeta, tem vasto repertório de acontecimentos, narrando de forma linear, ora misturando épocas, fatos etc. Agora o garimpeiro ganha na porcentagem 16% com trabalho de PCS e no Tatuzão ainda são 30%, porque eles precisam fazer trabalho completo desde a capa da raiz Lagresia, o cascalho, lavagem da areia, enfim todo o processo.

Fonte: RG 15/O Impacto