quinta-feira, 25 de julho de 2013

Alexandrita

Alexandrita




É um aluminato de berilo (Br O4), variedade gemológica do Crisoberilo. Possui um brilho vítreo e graxo, que varia entre a cor verde quando exposto à luz solar e vermelho quando à luz artificial. Por isso diz-se dele que é uma esmeralda de dia e um rubi à noite. Sua substância corante é o cromo. Traço branco. Fratura concóide, frágil, clivagem perfeita. Encontra-se em placers.
À luz do dia apresenta as colorações verde-amarelada, amarronzada, acinzentada ou azulada. E, à luz artificial apresentara as colorações vermelho-alaranjada, amarronzada ou arroxeada. Existe a variedade alexandrita olho-de-gato (que é bastante rara).
O nome alexandrita devido ao aniversário de 12 anos de idade de Alexandre Nicolaievitch, o futuro czar Alexandre II, que coincidiu com o dia em que o explorador sueco Nils Nordenskiöld encontrou a pedra, pela primeira vez, nos montes Urais da Federação Russa.
Nils Nordenskiöld percebeu que a variação de coloração da pedra encontrada, quando esta se apresentava sob a luz do sol e a luz incandescente, coincidiam com as cores do exército do czar: verde e vermelho. Devido s tal coincidência a Alexandrita passou a ser um símbolo nacional da Rússia.





A Rússia foi o único produtor dessa variedade de crisoberilo por muito tempo, até que, entre 1960 e 1980, devido ao esgotamento de suas reservas, o Sri Lanka passou a ser o produtor mais importante.
A maior alexandrita já lapidada, com 65 quilates, foi encontrada no Sri Lanka e atualmente se encontra no Museu de História Natural de Washington (EUA). Ainda, no Sri Lanka, encontrou-se uma alexandrita que pesou 375g em seu estado bruto.
Entre 1970 e 1980 o Brasil também se tornou um produtor de alexandrita com extrações na Bahia, Espírito Santo e, principalmente, Minas Gerais, onde, inicialmente, a alexandrita era extraída no município de Malacacheta.
Em 1986 descobriu-se grande quantidade dessa gema em Hematita, no município de Antônio Dias, o que provocou o abandono dos demais garimpos. A jazida de hematita levou o Brasil à condição de maior produtor mundial.
Desde 1970 se produz alexandrita sintética, e há também, no mercado, imitações feitas com espinélio sintético, ao qual se adicionou óxido de vanádio.
As imitações são vendidas sob os nomes de Alexandrina, alexandrita sintética ou simplesmente alexandrita, o que pode provocar confusão na hora da compra.

Garimpeiros arriscam a vida em busca do “ouro verde”

Garimpeiros arriscam a vida em busca do “ouro verde”
BAHIA
No mês em que o mundo parou para ver o resgate de 33 mineiros em Copiapó, no deserto do Atacama, no Chile, a reportagem de Com Ciência Ambiental esteve visitando a Serra da Carnaíba, conhecida também como a “Terra das Esmeraldas”, localizada no distrito que leva o mesmo nome, no município de Pindobaçú, no norte da Bahia. Descoberto no final de 1963, o garimpo da Serra da Carnaíba continua sendo um lugar de cobiça e aventura, e o sonho de ficar milionário da noite para o dia continua vivo. Em cada “corte”, local onde se realiza o garimpo, a esperança de encontrar o veio das esmeraldas mantém homens e mulheres trabalhando 24 horas, alheios aos iminentes riscos de acidentes.
Para chegar até o local de trabalho dos garimpeiros, é utilizado um carretel, guincho usado para alçar e descer pessoas e materiais até o fundo das minas. Preso a um “cavalo”, espécie de cinta confeccionada com pedaço de pneu, os mineradores, chamados de garimpeiros, descem até o fundo das grunas (galerias onde se realiza o trabalho de extração de minérios), que podem chegar a mais de 300 metros de profundidade.
De baixo do chão, onde a temperatura é escaldante, beirando os 40 graus, os trabalhadores manipulam dinamite, respiram fuligem e estão sujeitos a desabamentos o tempo todo. Os garimpeiros reconhecem que o risco de morrer é real, mas segundo eles, pode compensar, uma vez que dois gramas de esmeralda de boa qualidade podem ser vendidos por até 5 mil dólares.
Na maioria dos “cortes” ou “serviços”, a exploração da esmeralda, conhecida também como “ouro verde”, é feita de forma rústica. Por exemplo, o ascensorista é quem controla o que sobe e desce – de pedras a pessoas. A máquina, movida a diesel, tem dois comandos: acelerador e freio. Geralmente a comunicação com o interior da mina é feita por meio de um tubo de PVC, usado como comunicador. 
Para se chegar a um veio de esmeraldas, é preciso cavar buracos verticais com até 300 metros de profundidade no solo rochoso. As minas são cavadas dentro de barracões cobertos, sendo invisíveis para quem anda nas ruas do garimpo. Para iniciar a perfuração de uma mina, é preciso instalar bananas de dinamite em fendas feitas com uma britadeira. À medida que se encontram veios de pedra preciosa e a rocha fica mais solta, os garimpeiros se valem de ferramentas mais "delicadas", como marretas e picaretas.
O trabalho de garimpo é pesado, dificultoso, muito perigoso e, o pior, nem sempre dele se obtém lucros. Milhares de pessoas trabalham no garimpo por necessidade e por não ter outro meio de vida.
Segundo informações da CCGA (Cooperativa Comunitária dos Garimpeiros Autônomos da Bahia), com sede em Pindobaçú, mais de 30 mil famílias têm o garimpo como sendo o único meio de subsistência.
Por meio da Portaria 119 de 19/01/1978 do Ministério de Minas e Energia, os garimpeiros têm autorização para trabalhar e sobreviver das esmeraldas de Carnaíba. Eles esperam do governo federal o reconhecimento da profissão. Por ser uma atividade com renda intermitente (possui intervalos), não há estabilidade, ou seja, não é gerado um fluxo contínuo e permanente de renda. Um dos principais objetivos da classe é lutar para a aprovação do projeto para transformar os garimpeiros em segurados especiais, com direitos previdenciários como aposentadoria.
Conforme dados da CBPM (Companhia Baiana de Pesquisa Mineral), as zonas mineralizadas em esmeralda ocorrem em três áreas, totalizando 1.512,49 hectares, situadas no Distrito de Esmeralda de Carnaíba, em Pindobaçu. A zona mineralizada mais importante, e já investigada com sondagem, situa-se na parte da reserva garimpeira, em uma área com 41,54 hectares. O órgão presume que exista nas reservas de 7 mil a 13,4 mil toneladas de esmeraldas gemológicas e não gemológicas.
A CBPM não só realiza trabalhos de pesquisa em suas áreas, principalmente por meio de sondagem, como também dá apoio técnico aos garimpeiros e micro-empresários da região.
Impactos ambientais 
Os impactos mais comuns são resultados de garimpos de esmeralda sem nenhuma proteção, além do rejeito que é jogado sem tratamento a céu aberto. Ocorre também contaminação dos rios e aquíferos subterrâneos por causa da implantação de fossas em um grande número de casas. Outro fator de contaminação é o lixo jogado na rua e a não existência de esgotamento sanitário, sendo os esgotos domésticos lançados diretamente no rio sem tratamento. Outro grande impacto negativo é o desmatamento em áreas sujeitas à erosão forte provocada pela alta declividade e a composição areno-argilosa dos solos. A partir de estudo realizado, a área foi caracterizada como de risco ambiental para população.
Já a Cooperativa Comunitária dos Garimpeiros descarta a possibilidade de haver riscos ao meio ambiente, alegando que “a reserva garimpeira de Carnaíba fica situada no semiárido baiano, em meio à Caatinga e a lugares formados por muitas rochas”, o que atenua os prejuízos ambientais. 
A entidade que representa os garimpeiros garante que o trabalho de garimpagem causa pouquíssimo impacto ambiental, pois as minas são subterrâneas e não a céu aberto e também pelo fato de os explosivos usados não causarem efeitos fisiológicos, porque são ecológicos. “Sou ecologista e respeito a natureza. Se devemos ter consideração e cuidados com aves e animais silvestres, muito mais consideração e respeito devemos ter pelo ser humano”, garante Antonio Caldas, presidente da Cooperativa Comunitária de Garimpeiros.
Indianos 
Os indianos são os principais compradores do que é extraído em Carnaíba. Os ‘bagulhos’, pedras de pequeno valor, são denominadas também de “pedras indianadas”, por conta do interesse dos inidianos por esse tipo de material. “As esmeraldas de Carnaíba, em sua maioria, são escórias denominadas de lixo, ou pedras indianadas, cujo mercado brasileiro rejeita para compra. Somente quem se interessa pelas esmeraldas bagulho são os indianos. Eles vêm trazendo o dinheiro da Índia para Carnaíba, o que gera renda e meio de sustentação a mais de 30 mil famílias garimpeiras”, disse Antonio Caldas, rebatendo em seguida a alegação de que o comércio das pedras não gera tributos. “Com aquilo que no Brasil é considerado lixo, geramos tributos fiscais, renda e impostos para os cofres públicos do Estado da Bahia e do nosso país”.
Prostituição 
A presença de vários garimpeiros solteiros ou daqueles que deixam as suas esposas na sede do município, ou em outras cidades, tem atraído prostitutas para os pequenos bordéis existentes na localidade. Segundo Caldas, os problemas do Garimpo da Carnaíba são comuns aos que acontecem na maioria das áreas de exploração mineral. “Claro que é inevitável haver promiscuidade no garimpo. Isso acontece atualmente em qualquer lugar, e em qualquer cidade, povoado e bairros nobres de qualquer capital no mundo. No Garimpo da Carnaíba e Serra da Carnaíba, existem várias igrejas evangélicas e a maioria dos donos de garimpo são evangélicos. Eu mesmo não bebo, não fumo, sou vegetariano e ecologista, além de ser temente ao Deus de Abrão, Isaque e Israel”, ressaltou.
Sobre a existência de trabalho infantil, apesar de a reportagem ter flagrado crianças trabalhando, Caldas garante que denúncia formalizada ocorreu apenas uma vez, ainda na década de 1970, “mas foi corrigido à época e nunca mais aconteceu”.
Histórias 
De sua descoberta até hoje, várias são as histórias que marcaram e ainda marcam a vida de diversos seres humanos que tiveram alguma ligação com o garimpo. São muitos casos de garimpeiros que, em um piscar de olhos, ficaram milionários. Também é comum encontrar muitos desses “milionários” que hoje vivem em dificuldade. “Tem muita gente aqui que ganhou fortuna, mas ficou pobre da noite para o dia. Não soube empregar bem o dinheiro, gastou com carros, viagens, farras e hoje vive trabalhando para outros garimpeiros”, relata o goiano Valter Oliveira, que há mais de vinte anos reside em Carnaíba. “Aqui teve um garimpeiro que ganhou tanto dinheiro que pegava um cordão de náilon e amarrava cédulas no fundo do carro e saía arrastando pelas ruas. Quando alguém perguntava: por que você está fazendo isso? Ele respondia: eu corri muito atrás delas (das cédulas), agora elas é que correm atrás de mim”, conta com humor o garimpeiro.
Alexandro Souza de Santana, 24 anos, é filho de dono de ‘serviço’ e, apesar de novo, comemora a aquisição do primeiro carro, da pequena fazenda e da casa própria. Na opinião de Santana, que tem apenas o ensino fundamental incompleto, o garimpo é o melhor lugar para quem não tem “estudo”. “Mesmo sendo perigoso, o garimpo permite às pessoas que não estudaram ganhar dinheiro. De vez em quando morre gente em acidente com boi”, conta Alexandro.
Reinilde Maria dos Santos, de 50 anos de idade, sustenta os cinco filhos com o dinheiro que ganha com a venda de alexandrita. Segunda ela, um quilo do refugo de pedras pode lhe valer até 600 reais.
Gildean Silva Ribeiro, subgerente da empresa de mineração Beira Rio, comemora a compra do seu Eco Sport e de sua fazenda, com algumas cabeças de gado. Ele diz que a pedra está difícil de ser encontrada, mas acredita que com paciência muita gente ainda vai mudar de vida. Já o proprietário da empresa onde Ribeiro trabalha orgulha-se de dizer que seus funcionários melhoraram suas condições financeiras. Quanto à questão de segurança, diz prezar pela saúde dos garimpeiros. “A segurança é um quesito essencial na nossa empresa. Não trabalhamos sem os equipamentos de proteção individual”, garante o empresário.
O garimpeiro Edemilson Nery de Oliveira, conhecido por Neguinho, de 35 anos, é responsável pelas montagens das gambiarras, instalações elétricas nas galerias. Natural de Jacobina, Bahia, trabalha há 12 anos na Serra da Carnaíba e diz não pensar em voltar para a terra natal. “O garimpo é minha vida”, declarou.
Imprensa nacional 
Tema de matéria publicada na edição de número 49 da extinta revista O Cruzeiro, em 7 de dezembro de 1968, o Garimpo da Carnaíba de Cima teve sua história abordada pela primeira vez por um meio de comunicação de circulação nacional. O texto evidenciava o início da garimpagem, ocorrido entre os anos de 1960 e 1963. Naquele momento a população passava por dificuldades financeiras por conta da falta do Ouricuri e Babaçú (espécies de cocos), produtos de onde se extraiam suas amêndoas para comercialização. Por esse motivo, a atividade de garimpagem de esmeraldas passou a ser o principal meio de trabalho, sobrevivência e única fonte de sustento das famílias.
Estrutura e funcionamento do garimpo*
Não existe discriminação étnica, de gênero ou de classe social no garimpo. Todos trabalham juntos. A extração mineral é a principal atividade econômica do município. Apesar disso, não há investimento, como se deveria, na extração desses minerais e na segurança de quem os procura. A extração mineral é peculiar aos garimpos e em galerias subterrâneas, normalmente sem uma análise prévia. No garimpo de Carnaíba, a técnica de mineração é feita ainda artesanalmente. A desorganização começa desde o local escolhido para instalar uma mina, pois o processo de escavação da galeria é na encosta, onde os garimpeiros montam o serviço de extração, até a sua estrutura interna e o seu modo de funcionamento. 
Nessas encostas, os garimpeiros constroem barracões cobertos e ao centro cavam um buraco vertical até encontrarem o veio de esmeraldas, sendo invisíveis para quem anda nas ruas do garimpo. O garimpeiro compra um corte, isto é, um lote, e contrata alguns trabalhadores para furar a mina. O poço cavado verticalmente é geralmente chamado de frincha. Para iniciar a perfuração de uma mina, precisa-se instalar bananas de dinamite em fendas feitas com uma britadeira. Os trabalhadores descem e sobem clipados em um cavalo. O pó do xisto se espalha no chão, na boca do serviço, e, ao misturar-se com a água que brota da rocha, deixa o piso liso, provocando acidentes. Garimpeiros já caíram de uma altura de aproximadamente 60 metros. 
O garimpeiros acompanham esse veio, formando uma gruna, que pode conter ou não as gemas. A estrutura das grunas também é um risco, pois na maioria das vezes os trabalhadores têm de andar quase que agachados, pelo fato de o teto ser baixo e em algumas partes ficar caindo pedras. Por isso, colocam esbirro em algumas grunas. 
Sob a terra do garimpo, esses serviços parecem um formigueiro. A estrutura interna de uma mina é composta por vários equipamentos fundamentais ao serviço. As minas funcionam 24 horas diárias. O número de guinchos depende do número de porões, para cada porão um guincho, no “Brasil” (parte externa) tem o primeiro, que é acompanhado de um compressor de ar para a britadeira realizar a perfuração das rochas, a ventoinha para retirar a fumaça das explosões, um padrão de luz para realizar a detonação e um cano de PVC que os garimpeiros utilizam para fazer a comunicação com o “Japão” (parte interna), onde o guincheiro dá uma assoprada no cano e no fundo da mina os trabalhadores respondem com outro assopro, realizando-se a comunicação. A maioria dessas escavações, ou cortes, acompanha o sentido do riacho que se despeja de uma altura de mais de dez metros da serra.
O garimpo está divido em dois trechos de exploração. Sendo trecho velho e trecho novo. Em parte do trecho velho, em 1969, houve um desabamento resultado da infiltração de água na encosta que provocou o deslizamento. Testemunhas contam que só ouviram o forte barulho e a grande nuvem de fumaça subir. Alguns corpos foram resgatados, mas até hoje não se sabe ao certo o número de pessoas que morreram. O acidente ainda é muito comentado entre os moradores locais. 
*Informações do blogueiro Monteiro, graduado em Geografia pela Faculdade de Formação de Professores de Petrolina, cuja monografia de conclusão de curso foi sobre o garimpo de esmeralda de Serra de Carnaíba.  http://carnaibadasesmeraldas.blogspot.com 
Glossário de alguns dos termos utilizados no garimpo de esmeralda
Arroio - entulho. Deriva da corruptela de roia, rolha. Rocha que impede o acesso ao veio do mineral procurado 
Bagulhos - esmeraldas brutas de baixo valor
Berilo - exemplar de esmeralda bruta com forma prismática bem definida
Bestunta - na bestunta: ao acaso, de forma aleatória
Biriba - esmeralda lapidada de baixo valor
Boi - grande bloco de rocha ou de mineral extraído do garimpo
Canga - exemplar de mineral para coleção. Corruptela de ganga
Carretel - guincho para alçar e descer pessoas e material da gruna
Cavalo - espécie de cinta confeccionada com borracha na qual o garimpeiro senta ou se engancha para descer ou ser alçado da gruna
Corte/Serviço - local onde se realiza o garimpo. Conjunto de grunas de onde se extraem esmeraldas e outros minerais. O mesmo que serviço
Desarroiador - garimpeiro encarregado de remover o arroio que bloqueia o acesso ao mineral buscado
Estanho - subproduto da extração de esmeraldas, cujo quilo é vendido em média por 25 reais; 
Gruna - galeria onde se realiza o trabalho de extração de minérios
Malado - quem ganhou muito dinheiro
Vazar - encontrar esmeraldas

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Pesquisa desenvolvida em Minas multiplica valor de pedras com mudança de cor

Pesquisa desenvolvida em Minas multiplica valor de pedras com mudança de cor





O pesquisador Fernando Lameiras exibe quartzos irradiados no laboratorio do CDNT  (Cristina Horta/EM/D.A Press)
O pesquisador Fernando Lameiras exibe quartzos irradiados no laboratorio do CDNT
Lembra a alquimia, prática não científica famosa pela pretensão de transformar metais de menor valor em ouro. No entanto, trata-se de ciência pura: no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), com sede em Belo Horizonte, quartzos e outras gemas são submetidos à irradiação, processo capaz de conferir cores às pedras e multiplicar em muito sua valorização comercial. Assim, gemas encontradas na natureza "pálidas, sem cor" são transformadas em prasiolita, citrino, ametista, heliodoro e rubelita, entre outras. O beneficiamento multiplica o valor de venda de R$ 10 para até R$ 900 o quilo. O centro também presta um serviço inédito no Brasil. Com tecnologia própria, pesquisadores identificam todos os elementos químicos presentes em cada tipo de mineral e preveem se aquela gema poderá ser submetida a beneficiamentos com sucesso, evitando, assim, investimentos desnecessários. Uma unidade de inovação tecnológica com laboratório capaz de prestar esse serviço de análise acaba de ser implantada em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri. O próximo desafio é criar um mecanismo de avaliação portátil que poderá ser usado em cidades menores, distantes dos centros urbanos, que contam com equipamentos mais sofisticados nessa área, justificando ou não uma extração.

Em Minas, a intervenção em gemas com irradiação foi implantada a partir de 2002 como fruto do projeto Corgema, coordenado pelo CDTN em parceria com entidades como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). O objetivo é o desenvolvimento da indústria de joias, contemplando desde o pequeno garimpeiro até a exportação.

No Brasil, existem mais quatro laboratórios de irradiação, três no estado de São Paulo e um no Rio de Janeiro. O professor Fernando Lameiras, físico e pesquisador do CDTN mineiro, explica que o bombardeio dos cristais é feito com raios gama, a partir de um reator nuclear. O único do estado está localizado no Laboratório de Radiação Gama do CDTN, em prédio instalado em área do Ministério de Ciência e Tecnologia, anexo ao câmpus da UFMG. "A cor de uma gema se dá a partir dos elementos químicos que a formam e da irradiação solar. O bombardeio pode ser entendido como a aceleração de um processo natural que levaria milhões de anos para ocorrer. O principal objetivo da intervenção é agregar valor ao mineral", defende. Daí a cor não ser definida pelos pesquisadores, mas sim a partir dos elementos químicos dos quais a pedra é constituída. Para um quilo de gemas, o preço por dose de irradiação custa, em média, R$ 20. O tempo de exposição necessário para colorir a matéria-prima é variável.

Lameiras aborda a existência de outras tecnologias com o mesmo objetivo de agregar valor à pedra preciosa, como as técnicas de resinar e de coloração química. No entanto, a tecnologia empregada no CDTN tem sido a mais usada em gemas das famílias dos quartzos, berilos, topázios, turmalinas e espodumênios. "Geralmente, a escolha depende da característica e finalidade da gema. Os processos não são concorrentes. Pelo contrário, muitas vezes até se complementam."

Raimundo Viana, presidente do Sindicato das Indústrias de Joalherias, Ourivesarias, Lapidações e Obras de Pedras Preciosas, Relojoarias, Folheados de Metais Preciosos e Bijuterias no Estado de Minas Gerais (Sindijoias), ressalta a importância do emprego da tecnologia em prol do desenvolvimento desse mercado. "O Brasil é um país mundialmente reconhecido pela grande diversidade de suas gemas coloridas (mais de 150 espécies), localizadas em províncias minerais situadas principalmente em Minas Gerais – considerada a maior província gemológica do mundo, além de Goiás, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Bahia e Pará. Tamanha oferta justifica os investimentos no desenvolvimento do setor", diz.

Segundo Viana, a avaliação de uma gema segue o critério dos quatro Cs, sendo a coloração um dos destaques. "Para se estabelecer o valor de uma gema em particular devem ser observados, além da sua raridade e beleza, outros quatro fatores: tamanho (carat), cor (color), pureza (clarity) e lapidação (cut). No Brasil, o mercado tem valorizado muito os diversos tipos de turmalina, os quartzos rutilados, o topázio imperial, esmeraldas e a águas-marinhas, entre outras."

A tecnologia da irradiação é usada no Brasil desde os anos 1920, como explica o professor e pesquisador do Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear Fernando Lameiras. No entanto, somente nas últimas duas décadas, a partir do emprego do design para o desenvolvimento da indústria joalheira, fabricantes nacionais têm optado pelo investimento em pedras mais baratas. "Nesse caso, a gema serve ao design e não o contrário." Para Raimundo Viana, o uso de gemas de menor valor, como os cristais citrino e ametista, é uma forma de preservar o valor das joias num patamar acessível ao consumidor brasileiro. Ele ressalta ainda que o fato de os designers nacionais estarem usando gemas coradas em grande escala tem diferenciado e impulsionado a indústria joalheira no Brasil e no mundo, onde tem recebido diversos prêmios. Desta forma, a qualidade e o "design nacional" das joias, além de contribuir para maior competitividade dos produtos, têm privilegiado a identidade cultural do país.

Tecnologia e design com fim social


Empregados na indústria joalheira, tecnologia e design também têm fins sociais. Exemplo disso é o projeto Da Gema do Centro Minas Design, desenvolvido pelo Centro de Estudos em Design de Gemas e Joias da Escola de Design da Universidade de Minas Gerais (Uemg) em parceria com outras entidades. Pioneiro em Coronel Murta, no Vale do Jequitinhonha, cidade que recebeu a instalação do Laboratório de Lapidação e Artesanato Mineral Itaporarte (Uemg/Fapemig), funciona por meio da capacitação de jovens da comunidade. O objetivo é transformar resíduos de minerais em joias e artesanato. No caso, o feldspato dá origem a peças como aneis e pingentes. "Não há custo de matéria-prima ou de maquinário. O projeto foi feito para profissionalizar os jovens a partir de uma tecnologia simplificada. A sofisticação está no design e na identidade do produto", descreve a coordenadora do Centro de Estudos em Design de Gemas e Joias, professora Bernadete Teixeira.

O Da Gema visa ainda ao uso sustentável da matéria-prima, agregando valor àquelas que não são passíveis de lapidação ou não são reconhecidas como atrativas para o mercado. Outra alternativa é usar gemas compostas, unidas como se fossem um compósito, onde cada um dos minerais traz o que tem de melhor. Um exemplo é a linha que une quartzo e rutilo.

"Nosso foco é o uso de materiais tradicionais de Minas, com ênfase naqueles que têm menor valor intrínseco, já que os valorizados têm mercado garantido. O projeto é então desenvolvido por pequenas unidades produtivas, como no Vale de Jequitinhonha, que tem potencial e matéria-prima, mas não tecnologia." Minerais como hematitas, quartzos e turmalinas, que não têm qualidade gemológica, são trabalhados em comunidades de Araçuaí, Teófilo Otoni e da capital. Para Bernadete, as peças produzidas têm características de joias. "O conceito de joia mudou, é um produto que tem valor não só pelo material, mas também pelo aspecto estético, e o trabalho colocado em todo o processo, que envolve desde a extração do mineral até a produção final do produto."

Faltam pedras para as joias de Minas Gerais Chineses descobrem matéria-prima extraída no estado

Faltam pedras para as joias de Minas Gerais Chineses descobrem matéria-prima extraída no estado, que fica escassa no mercado nacional



A exportação brasileira de pedras preciosas brutas para outros países já causa dificuldades na indústria joalheira nacional, que está com dificuldades de comprar matéria-prima para a fabricação de joias. O volume de vendas do produto ao exterior cresceu 33% somente em 2011, em comparação com o ano anterior. E nada menos do que 80% desse volume seguiu para a China, dona de uma indústria de joalheira 30 vezes maior do que a brasileira. Hoje o gigante asiático é o segundo maior fabricante de joias do mundo. Indianos também são clientes de minas mineiras. Além da exportação de pedras brutas, outro movimento afeta o setor: a entrada no país de joias montadas (prontas).

Por causa do apetite dos chineses, de um ano e meio para cá, cinco indústrias joalheiras fecharam suas portas em Belo Horizonte, eliminando mais de 1 mil postos de trabalho, informa o Sindicato das Indústrias de Joalheria, Ourivesaria, Lapidação de Pedras Preciosas e Relojoaria de Minas Gerais (Sindijoias). “Preciso comprar pedra bruta produzida no Brasil, mas não consigo. A maior ameaça ao joalheiro hoje é a falta de matéria-prima. Está tudo sendo possuído e controlado pelos chineses e indianos. Algo precisa ser feito”, reclama um empresário do ramo em Belo Horizonte, que preferiu não se identificar por medo de retaliações.

Mina no Vale do Rio Doce: estrangeiros chegam, ficam com toda a produção e pagam em dinheiro, à vista  (Mário Castello/EM/D.A/Press)
Mina no Vale do Rio Doce: estrangeiros chegam, ficam com toda a produção e pagam em dinheiro, à vista

O aumento da procura pelas pedras não só reduz a oferta para as fábricas brasileiras como aumenta os preços da matéria-prima. Segundo Douglas Willians Neves, proprietário da Nevestones, empresa que é dona de uma mina de pedras em São José da Safira, no Vale do Rio Doce. De acordo com ele, em 2010 o quilo do cascalho de turmalina custava US$ 1 mil. No final de 2011, a mesma quantidade de pedra saía por US$ 4 mil. Já a ametista em bruto, vendida a US$ 1,2 mil o quilo em 2010, no fim do ano passado custava US$ 2,5 mil. Enquanto isso, a turmalina lapidada era vendida a US$ 70 por quilate em 2010 e agora não sai por menos de US$ 180. “A procura pelo material bruto é tão forte que quase não vale a pena lapidar. Os chineses pagam em dinheiro, à vista, e a gente recebe de uma vez só”, explica Neves.

sem lapidação Mesmo assim, ele sustenta que os produtores querem vender a pedra lapidada, que vale mais do que a pedra bruta. Na Nevestones, 80% das pedras exportadas são vendidas para a China. “Se não fossem os chineses, eu nem sei. Antes da crise de 2008, os Estados Unidos eram o maior comprador. Naquela época, cerca de 90% das vendas eram para os EUA e Europa. Quando veio a turbulência, eles pararam de comprar. Os chineses vieram para valer no fim de 2009.” O empresário lembra que há muitos empresários milionários no país asiático. “Eles foram a salvação”, resume.
Quiliate da turmalina lapitada saía por US$ 70 em 2010 e hoje é vendido por US$ 180 (Mário Castello/EM/D.A/Press)
Quiliate da turmalina lapitada saía por US$ 70 em 2010 e hoje é vendido por US$ 180

De acordo com Raymundo Vianna, presidente do Sindijoias, nos três primeiros meses deste ano houve aumento de 19% na exportação de pedras brutas no Brasil. Cerca de 80% delas saíram de Minas Gerais. “Nos três primeiros meses de 2011, exportamos US$ 7,6 milhões. Em igual período de 2012, foram US$ 9 milhões.” De acordo com ele, o apetite chinês aumenta os preços e não deixa sobrar pedra para a indústria brasileira, que é obrigada a se abastecer lá fora pagando impostos de importação e frete. Além disso, o segmento joalheiro sofre com a entrada de joias chinesas montadas (prontas), na maioria das vezes subfaturada ou contrabandeada, sustenta o empresário.

Para Manoel Bernardes, presidente da joalheira que leva o seu nome, é necessário desestimular indiretamente a saída de pedras e metais sem elaboração do país. “Para mudar esse quadro, será necessário agregar valor ao produto interno, possibilitando ganho de escala, melhoria de produtividade, maior qualidade e design diferenciado”, afirma.

Multidão atrás do sonho de riqueza em Itabira

Multidão atrás do sonho de riqueza em Itabira
A Mineração Rocha está desativada desde dezembro do ano passado, por causa de problemas entre os sócios, depois de seis anos de pesquisa. Os advogados da empresa entrariam ainda ontem com o pedido de reintegração de posse da área. A notícia de que alguém “fez dinheiro” na região abandonada atraiu centenas de pessoas e elas não param de chegar, há quase uma semana, vindas de cidades vizinhas a Itabira ou até mesmo de outros estados, em busca do sonho verde: as esmeraldas. Famílias inteiras largaram outros garimpos na busca da riqueza.

Marta Selma Ferreira de Queiroz, de 40 anos, trabalhava até quatro dias atrás como cozinheira do garimpo de Capoeirana, em Nova Era. Quando soube da novidade, não teve dúvidas. Ela, os dois filhos, dois sobrinhos e três irmãos resolveram se aventurar em novas terras. Há quase dois dias sem dormir, ela ainda tinha a esperança de conseguir pelo menos uma pedrinha. Mas a vontade mesmo era ter pelo menos R$ 100 mil em esmeraldas, o que seria suficiente para comprar a casa e garantir os estudos dos filhos, que saíram da escola para acompanhá-la na extração de minerais. “Estou há 12 anos no garimpo e tudo o que consegui até hoje só deu para comer. Mas ainda tenho esperança. Isso aqui é igual a um jogo e depende de sorte. Muitos já enriqueceram e penso que o mesmo pode acontecer comigo”, relatou.

Na mina conhecida como rochinha, tem gente virando noite. Os boatos dão conta de alguns que já conseguiram R$ 10 mil, R$ 30 mil e até mais de R$ 100 mil em esmeraldas e, claro, saíram do local. O garimpeiro João da Silva Oliveira, de 34, saiu de São Paulo para explorar as minas no entorno de Itabira. Com uma porção de pedras nas mãos, ele não conseguia ainda calcular o lucro, pois tudo vai depender de futuras negociações. “É uma aventura para correr atrás do que não conseguimos guardar”, disse.

Cleriston Honório Lima, de 64 anos, mais de 50 deles dedicados ao garimpo, preferiu só assistir dessa vez. No porta-malas do carro, ele pôs todo o seu estoque de bebidas – água, refrigerante e cerveja – que servem para refrescar os trabalhadores. “Não aguento mais me aventurar nisso, mas conheço muita gente que ficou rica. A esperança é real”, afirmou. Já Bernardo Vasconcelos, de 27, saiu de Teófilo Otoni de olho em futuros negócios. “Quero comprar as pedras para revender e ter lucro.”