domingo, 2 de março de 2014

Ouro é moeda de troca em novo garimpo no Pará


Ouro é moeda de troca em novo garimpo no Pará



Nem real nem dólar. Em um garimpo clandestino recém-surgido no meio do rio Xingu (PA), tudo é comercializado em ouro.

Cerca de 500 pessoas, entre elas uns 360 garimpeiros, organizaram uma vila à beira do garimpo -batizado como Jurucuá, por causa de uma cachoeira com o mesmo nome nas proximidades.

Pelo menos 60 balsas sugam o fundo do rio dia e noite. Os garimpeiros afirmam que o ouro encontrado no fundo do rio atinge grau de pureza de até 96, considerado bom para a venda. O minério ainda não foi encontrado em forma de pepitas, mas misturado entre a areia, a terra e o cascalho dragados.

A comida, a diversão e o salário são pagos em ouro, como testemunhou a reportagem da Agência Folha, que esteve no garimpo.

Uma refeição, por exemplo, vale um décimo de grama, o equivalente a R$9,00. Pela cotação do mercado, o grama do ouro fechou anteontem em R$90,00

Para facilitar o pagamento, os garimpeiros abrem contas nas oito mercearias da vila, que vendem também bebidas alcoólicas e mantimentos trazidos de barco de Altamira, em uma viagem que leva três horas e meia. Sete cervejas valem um grama de ouro.

O programa com uma das cerca de 20 prostitutas do local, por exemplo, sai por meio grama ou até um grama de ouro.



Até hoje nenhuma autoridade ambiental esteve no garimpo, e os garimpeiros não têm registro ou autorização para trabalhar na área. O garimpo já existe há quatro meses.

"Tirei o motor do meu caminhão para instalar na balsa e vir para este garimpo em busca do ouro. Já havia oito anos que estava afastado da garimpo e trabalhando na roça. Mas é como um vício. Basta o garimpeiro ouvir falar que apareceu ouro em algum lugar para vir correndo", disse Luiz Martins, 60.

Para montar uma balsa, o garimpeiro-empresário gasta entre R$ 23 mil e R$ 30 mil, incluindo uma voadeira (barco pequeno com motor), equipamento de mergulho e um motor acoplado a um tubo de ar de 200 milímetros, que puxa o cascalho e a areia do fundo do rio. Cada balsa tem seis garimpeiros mergulhadores, que se revezam em dois grupos de três homens e em turnos de 18 horas ou 24 horas no meio do rio Xingu.

Cada balsa -com estrutura de madeira e coberta com lona- tira entre 20 e 60 gramas de ouro por dia do rio, mas algumas balsas já chegaram a tirar até 100 gramas no mesmo período.

Os seis garimpeiros que trabalham na balsa dividem 40% do total retirado no dia. Os outros 60% ficam com o proprietário da balsa. O grama do ouro é vendido em Altamira entre R$ 60,00/70,00

Deputados mediam conflito em Garimpo

Deputados mediam conflito em Garimpo



 



 

A deputada Josefina Carmo, membro da Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor, presidiu uma reunião, na manhã de ontem (12/09), entre representantes de garimpeiros da Reserva Garimpeira do Tapajós, no extremo sudoeste do Pará e órgãos do setor mineral e de fiscalização no Estado. Do encontro, participaram ainda os deputados estaduais Carlos Bordalo e Edmilson Rogrigues; Hugo Rubert Shaedler, do IBAMA; Davi Leão Alves, do DNPM e Manfredo Ximenes, da CPRM e o presidente da Cooperativa de Extração Mineral do Água Branca (Coemiabra), Francisco Dias Silva (França). A representante da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Mariana Queiroz, não compareceu.Em pauta, a regularização de áreas da Reserva, onde a possibilidade de conflito é uma realidade.

A principal reivindicação dos garimpeiros é a de maior prazo para regularização. Para atuar, segundo França, eles precisam de duas licenças principais: a de Pesquisa de Larva Garimpeira (PLG) e a de Liberação Operacional (LO). “Não somos contra a legalização, mas precisamos de mais tempo. Estamos há mais de 40 anos na área e temos problemas em atender as exigências burocráticas, mas precisamos trabalhar. Já não agüentamos a forma arbitrária como é feita a ação dos fiscais do IBAMA, com uso da força e atos de violência; especialmente queima e destruição total dos equipamentos de trabalho”, destacou.

DESMATAMENTO – Na ocasião, Hugo Shaedler disse que a operação do IBAMA não é contra os garimpos, mas contra o desmatamento. “Fomos fiscalizar porque começaram a aparecer, nas imagens dos satélites, áreas muito grande de desmatamento nos garimpos. Temos 3 mil mapeados, mas só em 20 houve apreensão. Não há como não fiscalizar, multar e, com base na Legislação, até retirar equipamentos. Dentro das áreas de proteção ambiental (APA) e áreas de proteção integral (API) não vai haver tolerância. Mas nossa intenção não é polarizar, desde de julho que já não há apreensão. A fiscalização chega e negocia com os garimpeiros para que eles mesmos retirem as máquinas”, disse.

Quanto à regularização na concessão das terras da Reserva,Davi Leão Alves, do DNPM, falou das dificuldades do órgão. “Temos somente uma pessoa para analisar os processos de requerimento de áreas, mas gostaríamos que os garimpeiros nos indicassem os processos prioritários e nós vamos fazer uma força tarefa, com a disponibilização de mais técnicos para acelerar a análise”, afirmou. França disse que “a cooperativa já conta com um grupo de trabalho para fazer o levantamento das áreas de interesse; ação que será feita em até 60 dias”.Após essa etapa, Leão garantiu que o DNPM vai analisar os processos, verificando a disponibilidade das áreas e, em um prazo de 60 dias, liberar a concessão, através de edital.

Como a SEMA não mandou representante, a Comissão determinou a convocação do secretário, César Colares à Assembleia, para solicitar ampliação do prazo para as licenças. A partir da concessão das áreas, pelo DNPM, os garimpeiros teriam 90 dias para obter as licenças na SEMA e trabalhar em paz. Os prazos e propostas foram aprovados pelos garimpeiros e a deputada Josefina Carmo garantiu que vai continuar o empenho. “Vamos fazer quantas reuniões forem necessárias e procurar todos os órgãos para que vocês possam trabalhar com tranqüilidade”.

Descoberta do trecho de Serra da Carnaíba - ESMERALDA

Descoberta do trecho de Serra da Carnaíba

O Garimpo de Serra da Carnaiba fica localizado na cadeia de serras das Jacobinas, no município de Pindobaçu-Ba, no centro norte baiano na microrregião de Senhor do Bonfim-Ba, e distam 414 km da capital. Para chegar ao local de exploração, dirija-se ao Povoado de Terezinha na BA-131 e em seguida entre a direita por uma estrada carroçável por cerda de 13 km. O garimpo de Serra da Carnaíba, como o histórico de outras minas de pedras preciosas, não percorreu por um caminho diferente: fantasia, cobiça e tragédias serviram como desafios na exploração desse recurso oferecido pela natureza. Os habitantes como em qualquer um outro povoado, viviam uma vida simples, concentrada na pobreza que se estendia entre as gerações e tinham como economia a extração do babaçu e do ouricuri, abundantes na região que eram transformados em fonte de renda, estes eram comercializados por comerciantes compradores de produtos regionais e assim iam tendo como meio de sobrevivência a colheita de tais frutos. Ao redor do povoado eram encontradas umas pedrinhas verdes, que davam indícios sobre a possível produção de esmeraldas. Mesmo assim para a população do citado povoado isso não significava muito. Só depois do conhecimento da descoberta das esmeraldas da Salininha (Garimpo de esmeraldas de Pilão Arcado) e com o aparecimento de algumas amostras na cidade de Campo Formoso, comprovou-se que os moradores de Carnaiba estavam enganados ao quanto não atribuírem valores comerciais aquelas pedrinhas verdes, cujas eram encontradas facilmente pelos moradores. As pedrinhas preciosas que eram encontradas no povoado da Carnaíba eram das mesmas espécies encontradas na Salininha e por isso não podiam deixar de gozar de alto preço pago pelo mercado nacional e eram ainda mais caras no comércio internacional de pedras preciosas.
Carnaíba ou carnaúba é uma espécie de palmeira que pode ser usada para extrair cera. A Serra da Carnaíba recebeu este nome devido á alta concentração de carnaíba.
Palmeira de semente oleaginosa e comestível, das quais se extrai óleo nutritivo, também usado na indústria.



Dona Modesta de Sousa, esposa de seu Manoel Cerino conhecido por Manelinho, começou através de sonhos, terem uma visão onde à mesma afirmava que no seu sonho visualizava uma porção de garrafas verdes movimentadas pela cachoeira da Pedra Vermelha, no Riacho dos Borjas no alto da Serra da Carnaiba. E diante das suas visões, esta senhora solicitava ao seu esposo que ele fizesse uma visita até ao local do sonho. Pela a dificuldade de acesso à cachoeira, Manelinho esperou que a esposa sonhasse mais algumas noites até se tornar incomodado e atender seus pedidos. Conforme expõe relatos feitos por Manelinho concedidos à Freitas, (2004, p.24), a descoberta do Trecho da Serra aconteceu assim:

[...] Certo dia, não suportando mais ouvi, minha mulher contar seus sonhos e visões, resolvi subir a serra. Ao chegar ao espinhaço da serra desci pelas beiras da cachoeira segurando nos cipós para não cair. Na beira do riacho, só foi ciscar um pouco a terra e achei muitos berilos (Pedra semipreciosa composta de silicato de alumínio e glucínio). Desci mais uns dez metros, acompanhando o veio, afastei uma touceira (Moita) de capim e a esmeralda apareceu, quase a flor da terra. Na mesma hora marquei para mim um corte de uns dezesseis palmos quadrados. Na primeira semana a produção de esmeraldas foi tamanha que três homens fortes não conseguiram levar tudo para carnaiba de Baixo. Com um mês já tinha pedra suficiente para encher uma lata de querosene. Vendi tudo a Juca Marques, de Campo Formoso, por 15 contos.

Garimpeiros arriscam a vida em busca do “ouro verde”

Garimpeiros arriscam a vida em busca do “ouro verde”
No mês em que o mundo parou para ver o resgate de 33 mineiros em Copiapó, no deserto do Atacama, no Chile, a reportagem de Com Ciência Ambiental esteve visitando a Serra da Carnaíba, conhecida também como a “Terra das Esmeraldas”, localizada no distrito que leva o mesmo nome, no município de Pindobaçú, no norte da Bahia. Descoberto no final de 1963, o garimpo da Serra da Carnaíba continua sendo um lugar de cobiça e aventura, e o sonho de ficar milionário da noite para o dia continua vivo. Em cada “corte”, local onde se realiza o garimpo, a esperança de encontrar o veio das esmeraldas mantém homens e mulheres trabalhando 24 horas, alheios aos iminentes riscos de acidentes.
Para chegar até o local de trabalho dos garimpeiros, é utilizado um carretel, guincho usado para alçar e descer pessoas e materiais até o fundo das minas. Preso a um “cavalo”, espécie de cinta confeccionada com pedaço de pneu, os mineradores, chamados de garimpeiros, descem até o fundo das grunas (galerias onde se realiza o trabalho de extração de minérios), que podem chegar a mais de 300 metros de profundidade.
De baixo do chão, onde a temperatura é escaldante, beirando os 40 graus, os trabalhadores manipulam dinamite, respiram fuligem e estão sujeitos a desabamentos o tempo todo. Os garimpeiros reconhecem que o risco de morrer é real, mas segundo eles, pode compensar, uma vez que dois gramas de esmeralda de boa qualidade podem ser vendidos por até 5 mil dólares.
Na maioria dos “cortes” ou “serviços”, a exploração da esmeralda, conhecida também como “ouro verde”, é feita de forma rústica. Por exemplo, o ascensorista é quem controla o que sobe e desce – de pedras a pessoas. A máquina, movida a diesel, tem dois comandos: acelerador e freio. Geralmente a comunicação com o interior da mina é feita por meio de um tubo de PVC, usado como comunicador. 
Para se chegar a um veio de esmeraldas, é preciso cavar buracos verticais com até 300 metros de profundidade no solo rochoso. As minas são cavadas dentro de barracões cobertos, sendo invisíveis para quem anda nas ruas do garimpo. Para iniciar a perfuração de uma mina, é preciso instalar bananas de dinamite em fendas feitas com uma britadeira. À medida que se encontram veios de pedra preciosa e a rocha fica mais solta, os garimpeiros se valem de ferramentas mais "delicadas", como marretas e picaretas.
O trabalho de garimpo é pesado, dificultoso, muito perigoso e, o pior, nem sempre dele se obtém lucros. Milhares de pessoas trabalham no garimpo por necessidade e por não ter outro meio de vida.
Segundo informações da CCGA (Cooperativa Comunitária dos Garimpeiros Autônomos da Bahia), com sede em Pindobaçú, mais de 30 mil famílias têm o garimpo como sendo o único meio de subsistência.
Por meio da Portaria 119 de 19/01/1978 do Ministério de Minas e Energia, os garimpeiros têm autorização para trabalhar e sobreviver das esmeraldas de Carnaíba. Eles esperam do governo federal o reconhecimento da profissão. Por ser uma atividade com renda intermitente (possui intervalos), não há estabilidade, ou seja, não é gerado um fluxo contínuo e permanente de renda. Um dos principais objetivos da classe é lutar para a aprovação do projeto para transformar os garimpeiros em segurados especiais, com direitos previdenciários como aposentadoria.
Conforme dados da CBPM (Companhia Baiana de Pesquisa Mineral), as zonas mineralizadas em esmeralda ocorrem em três áreas, totalizando 1.512,49 hectares, situadas no Distrito de Esmeralda de Carnaíba, em Pindobaçu. A zona mineralizada mais importante, e já investigada com sondagem, situa-se na parte da reserva garimpeira, em uma área com 41,54 hectares. O órgão presume que exista nas reservas de 7 mil a 13,4 mil toneladas de esmeraldas gemológicas e não gemológicas.
A CBPM não só realiza trabalhos de pesquisa em suas áreas, principalmente por meio de sondagem, como também dá apoio técnico aos garimpeiros e micro-empresários da região.
Impactos ambientais 
Os impactos mais comuns são resultados de garimpos de esmeralda sem nenhuma proteção, além do rejeito que é jogado sem tratamento a céu aberto. Ocorre também contaminação dos rios e aquíferos subterrâneos por causa da implantação de fossas em um grande número de casas. Outro fator de contaminação é o lixo jogado na rua e a não existência de esgotamento sanitário, sendo os esgotos domésticos lançados diretamente no rio sem tratamento. Outro grande impacto negativo é o desmatamento em áreas sujeitas à erosão forte provocada pela alta declividade e a composição areno-argilosa dos solos. A partir de estudo realizado, a área foi caracterizada como de risco ambiental para população.
Já a Cooperativa Comunitária dos Garimpeiros descarta a possibilidade de haver riscos ao meio ambiente, alegando que “a reserva garimpeira de Carnaíba fica situada no semiárido baiano, em meio à Caatinga e a lugares formados por muitas rochas”, o que atenua os prejuízos ambientais. 
A entidade que representa os garimpeiros garante que o trabalho de garimpagem causa pouquíssimo impacto ambiental, pois as minas são subterrâneas e não a céu aberto e também pelo fato de os explosivos usados não causarem efeitos fisiológicos, porque são ecológicos. “Sou ecologista e respeito a natureza. Se devemos ter consideração e cuidados com aves e animais silvestres, muito mais consideração e respeito devemos ter pelo ser humano”, garante Antonio Caldas, presidente da Cooperativa Comunitária de Garimpeiros.
Indianos 
Os indianos são os principais compradores do que é extraído em Carnaíba. Os ‘bagulhos’, pedras de pequeno valor, são denominadas também de “pedras indianadas”, por conta do interesse dos inidianos por esse tipo de material. “As esmeraldas de Carnaíba, em sua maioria, são escórias denominadas de lixo, ou pedras indianadas, cujo mercado brasileiro rejeita para compra. Somente quem se interessa pelas esmeraldas bagulho são os indianos. Eles vêm trazendo o dinheiro da Índia para Carnaíba, o que gera renda e meio de sustentação a mais de 30 mil famílias garimpeiras”, disse Antonio Caldas, rebatendo em seguida a alegação de que o comércio das pedras não gera tributos. “Com aquilo que no Brasil é considerado lixo, geramos tributos fiscais, renda e impostos para os cofres públicos do Estado da Bahia e do nosso país”.
Prostituição 
A presença de vários garimpeiros solteiros ou daqueles que deixam as suas esposas na sede do município, ou em outras cidades, tem atraído prostitutas para os pequenos bordéis existentes na localidade. Segundo Caldas, os problemas do Garimpo da Carnaíba são comuns aos que acontecem na maioria das áreas de exploração mineral. “Claro que é inevitável haver promiscuidade no garimpo. Isso acontece atualmente em qualquer lugar, e em qualquer cidade, povoado e bairros nobres de qualquer capital no mundo. No Garimpo da Carnaíba e Serra da Carnaíba, existem várias igrejas evangélicas e a maioria dos donos de garimpo são evangélicos. Eu mesmo não bebo, não fumo, sou vegetariano e ecologista, além de ser temente ao Deus de Abrão, Isaque e Israel”, ressaltou.
Sobre a existência de trabalho infantil, apesar de a reportagem ter flagrado crianças trabalhando, Caldas garante que denúncia formalizada ocorreu apenas uma vez, ainda na década de 1970, “mas foi corrigido à época e nunca mais aconteceu”.
Histórias 
De sua descoberta até hoje, várias são as histórias que marcaram e ainda marcam a vida de diversos seres humanos que tiveram alguma ligação com o garimpo. São muitos casos de garimpeiros que, em um piscar de olhos, ficaram milionários. Também é comum encontrar muitos desses “milionários” que hoje vivem em dificuldade. “Tem muita gente aqui que ganhou fortuna, mas ficou pobre da noite para o dia. Não soube empregar bem o dinheiro, gastou com carros, viagens, farras e hoje vive trabalhando para outros garimpeiros”, relata o goiano Valter Oliveira, que há mais de vinte anos reside em Carnaíba. “Aqui teve um garimpeiro que ganhou tanto dinheiro que pegava um cordão de náilon e amarrava cédulas no fundo do carro e saía arrastando pelas ruas. Quando alguém perguntava: por que você está fazendo isso? Ele respondia: eu corri muito atrás delas (das cédulas), agora elas é que correm atrás de mim”, conta com humor o garimpeiro.
Alexandro Souza de Santana, 24 anos, é filho de dono de ‘serviço’ e, apesar de novo, comemora a aquisição do primeiro carro, da pequena fazenda e da casa própria. Na opinião de Santana, que tem apenas o ensino fundamental incompleto, o garimpo é o melhor lugar para quem não tem “estudo”. “Mesmo sendo perigoso, o garimpo permite às pessoas que não estudaram ganhar dinheiro. De vez em quando morre gente em acidente com boi”, conta Alexandro.
Reinilde Maria dos Santos, de 50 anos de idade, sustenta os cinco filhos com o dinheiro que ganha com a venda de alexandrita. Segunda ela, um quilo do refugo de pedras pode lhe valer até 600 reais.
Gildean Silva Ribeiro, subgerente da empresa de mineração Beira Rio, comemora a compra do seu Eco Sport e de sua fazenda, com algumas cabeças de gado. Ele diz que a pedra está difícil de ser encontrada, mas acredita que com paciência muita gente ainda vai mudar de vida. Já o proprietário da empresa onde Ribeiro trabalha orgulha-se de dizer que seus funcionários melhoraram suas condições financeiras. Quanto à questão de segurança, diz prezar pela saúde dos garimpeiros. “A segurança é um quesito essencial na nossa empresa. Não trabalhamos sem os equipamentos de proteção individual”, garante o empresário.
O garimpeiro Edemilson Nery de Oliveira, conhecido por Neguinho, de 35 anos, é responsável pelas montagens das gambiarras, instalações elétricas nas galerias. Natural de Jacobina, Bahia, trabalha há 12 anos na Serra da Carnaíba e diz não pensar em voltar para a terra natal. “O garimpo é minha vida”, declarou.
Imprensa nacional 
Tema de matéria publicada na edição de número 49 da extinta revista O Cruzeiro, em 7 de dezembro de 1968, o Garimpo da Carnaíba de Cima teve sua história abordada pela primeira vez por um meio de comunicação de circulação nacional. O texto evidenciava o início da garimpagem, ocorrido entre os anos de 1960 e 1963. Naquele momento a população passava por dificuldades financeiras por conta da falta do Ouricuri e Babaçú (espécies de cocos), produtos de onde se extraiam suas amêndoas para comercialização. Por esse motivo, a atividade de garimpagem de esmeraldas passou a ser o principal meio de trabalho, sobrevivência e única fonte de sustento das famílias.
Estrutura e funcionamento do garimpo*
Não existe discriminação étnica, de gênero ou de classe social no garimpo. Todos trabalham juntos. A extração mineral é a principal atividade econômica do município. Apesar disso, não há investimento, como se deveria, na extração desses minerais e na segurança de quem os procura. A extração mineral é peculiar aos garimpos e em galerias subterrâneas, normalmente sem uma análise prévia. No garimpo de Carnaíba, a técnica de mineração é feita ainda artesanalmente. A desorganização começa desde o local escolhido para instalar uma mina, pois o processo de escavação da galeria é na encosta, onde os garimpeiros montam o serviço de extração, até a sua estrutura interna e o seu modo de funcionamento. 
Nessas encostas, os garimpeiros constroem barracões cobertos e ao centro cavam um buraco vertical até encontrarem o veio de esmeraldas, sendo invisíveis para quem anda nas ruas do garimpo. O garimpeiro compra um corte, isto é, um lote, e contrata alguns trabalhadores para furar a mina. O poço cavado verticalmente é geralmente chamado de frincha. Para iniciar a perfuração de uma mina, precisa-se instalar bananas de dinamite em fendas feitas com uma britadeira. Os trabalhadores descem e sobem clipados em um cavalo. O pó do xisto se espalha no chão, na boca do serviço, e, ao misturar-se com a água que brota da rocha, deixa o piso liso, provocando acidentes. Garimpeiros já caíram de uma altura de aproximadamente 60 metros. 
O garimpeiros acompanham esse veio, formando uma gruna, que pode conter ou não as gemas. A estrutura das grunas também é um risco, pois na maioria das vezes os trabalhadores têm de andar quase que agachados, pelo fato de o teto ser baixo e em algumas partes ficar caindo pedras. Por isso, colocam esbirro em algumas grunas. 
Sob a terra do garimpo, esses serviços parecem um formigueiro. A estrutura interna de uma mina é composta por vários equipamentos fundamentais ao serviço. As minas funcionam 24 horas diárias. O número de guinchos depende do número de porões, para cada porão um guincho, no “Brasil” (parte externa) tem o primeiro, que é acompanhado de um compressor de ar para a britadeira realizar a perfuração das rochas, a ventoinha para retirar a fumaça das explosões, um padrão de luz para realizar a detonação e um cano de PVC que os garimpeiros utilizam para fazer a comunicação com o “Japão” (parte interna), onde o guincheiro dá uma assoprada no cano e no fundo da mina os trabalhadores respondem com outro assopro, realizando-se a comunicação. A maioria dessas escavações, ou cortes, acompanha o sentido do riacho que se despeja de uma altura de mais de dez metros da serra.
O garimpo está divido em dois trechos de exploração. Sendo trecho velho e trecho novo. Em parte do trecho velho, em 1969, houve um desabamento resultado da infiltração de água na encosta que provocou o deslizamento. Testemunhas contam que só ouviram o forte barulho e a grande nuvem de fumaça subir. Alguns corpos foram resgatados, mas até hoje não se sabe ao certo o número de pessoas que morreram. O acidente ainda é muito comentado entre os moradores locais. 

Glossário de alguns dos termos utilizados no garimpo de esmeralda
Arroio - entulho. Deriva da corruptela de roia, rolha. Rocha que impede o acesso ao veio do mineral procurado 
Bagulhos - esmeraldas brutas de baixo valor
Berilo - exemplar de esmeralda bruta com forma prismática bem definida
Bestunta - na bestunta: ao acaso, de forma aleatória
Biriba - esmeralda lapidada de baixo valor
Boi - grande bloco de rocha ou de mineral extraído do garimpo
Canga - exemplar de mineral para coleção. Corruptela de ganga
Carretel - guincho para alçar e descer pessoas e material da gruna
Cavalo - espécie de cinta confeccionada com borracha na qual o garimpeiro senta ou se engancha para descer ou ser alçado da gruna
Corte/Serviço - local onde se realiza o garimpo. Conjunto de grunas de onde se extraem esmeraldas e outros minerais. O mesmo que serviço
Desarroiador - garimpeiro encarregado de remover o arroio que bloqueia o acesso ao mineral buscado
Estanho - subproduto da extração de esmeraldas, cujo quilo é vendido em média por 25 reais; 
Gruna - galeria onde se realiza o trabalho de extração de minérios
Malado - quem ganhou muito dinheiro
Vazar - encontrar esmeraldas

Injustiça Cristalina

Injustiça Cristalina

<i>Garimpeiros extraindo o quartzo de uma galeria. Foto: Arquivo Casef</i>.
Garimpeiros extraindo o quartzo de uma galeria. Foto: Arquivo Casef.
O quartzo é a rocha que sustenta a vida dos trabalhadores em Buriti Cristalino. É a matéria prima para fibras de óculos, relógios e bijuterias nas grandes cidades, por exemplo. Segundo o geólogo João Victor Campos, “o quartzo (SiO2) é um silicato que ocupa o grau 7 na escala de dureza Moss. Ocorre na natureza como importante constituinte em rochas ígneas, tais como granitos, pegmatitos e riolitos. Existem em diversas cores e por isso são largamente usados como ornamentos, principalmente em jóias. Também conhecidos como “cristais de rocha”, têm largo emprego nas indústrias de equipamentos óticos e elétricos”.
Há em Buriti, principalmente, o quartzo puro e o quartzo rutilado. Aquele transparente e este com uma espécie de risco interno natural, que garimpeiros chamam de “cabelo” e que atribui mais valor à pedra. As minas ficam em terras devolutas requeridas pela Cooperativa Agromineral Sem Fronteiras (CASEF), que possui seis licenças renovadas de três em três anos. O prefeito, Litercílio Júnior (PT), está lutando para aumentar para cinco. Essas licenças são autorizadas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral.
Quartzo puro e quartzo rutilado, na janela da cooperativa, com a caminhonete da Casef ao fundo. Foto: Eduardo Sá.
Quartzo puro e quartzo rutilado, na janela da cooperativa, com a caminhonete da Casef ao fundo. Foto: Eduardo Sá.
Os garimpeiros se reúnem em grupos e rateiam o que vendem, 10% vai para a cooperativa que arca com o custo das licenças e dos meios de produção. Eles têm apenas dois compressores, duas perfuratrizes e dinamites para formar e explorar a galeria subterrânea. Os explosivos, comentou seu Antônio Cléber, membro da cooperativa, começaram a ser usados há apenas cinco anos, antes era a base de picareta mesmo, no braço. Questionado sobre como se sabe onde tem a rocha, disse que é na base do risco, uma coisa meio intuitiva, na voz da experiência, pois fica debaixo da terra. Vão tentando até achar, num sol que ninguém merece.
Seu Antônio trabalha no garimpo desde os 8 anos. As crianças pegam tarefas leves, mas trabalham desde cedo no garimpo, explicou. Ele está com 52 anos e até hoje não sabe quanto vale o quilo da mercadoria, tampouco quanto é o preço do produto final no mercado: “o ouro você sabe quanto vale a grama pelo menos, chega um cara mais espertinho aqui e bota preço naquilo que a natureza criou”, diz. O quilo pode variar de 50 centavos a 500 reais, complementou. Já conseguiu ganhar 500 contos no mesmo quilo que a princípio valia 20, é tudo na pechincha, na lábia, não existe qualquer contrato ou carteira de trabalho, varia de acordo com a “qualidade” da pedra e quantidade de produção da jazida.
Um problema grave nesse cenário é a locomoção, pois a CASEF possui apenas uma Toyota para transportar o material. A sabedoria popular é simples e clara, vai direto ao ponto. Veja o exemplo que o Seu Antônio deu para explicar a situação: “um dia desses comprei umas telhas por 150 reais, só o frete para trazer custava 250”, tal a dependência que eles têm para escoar a mercadoria. Sem falar nas condições das vias de acesso, são as piores, terra cheia de pedras, beirando precipícios em alguns trechos. Do galpão do garimpo até Brotas são 28 Km, uns cinquenta minutos na Toyota da cooperativa, sem a carga. Nela cabe cerca de uma tonelada da substância.
Da esquerda para a direita, os garimpeiros: Marco Antônio Quinteiro, Lourivaldo Pereira da Silva e Antônio Cléber, na ativadade em Buriti Cristalino. Foto: Eduardo Sá
Da esquerda para a direita, os garimpeiros: Marco Antônio Quinteiro, Lourivaldo Pereira da Silva e Antônio Cléber, na ativadade em Buriti Cristalino. Foto: Eduardo Sá
Segundo Marco Aurélio Quinteiro, a Casef foi fundada em 1990 em resposta a um grupo de empresários que queriam ficar com as terras da região. Os garimpeiros conseguiram ficar com mais ou menos 6 mil hectares, mas “as principais áreas os empresários seguraram”, criticou. Já Olderico, também cooperado, afirma que a Casef veio com a nova Constituição, seguindo a nova regulamentação. Ambos ressaltaram que a cooperativa foi financiada por um belga, Tierry De Durghgrave. A prefeitura não tinha interesse, o gringo conseguiu suporte financeiro da sua terra natal.
Quinteiro explicou que o trabalho no garimpo é realizado o dia inteiro, de abril a outubro, na época da seca; quando chove vão todos trabalhar na agricultura: “mas isso é por causa das condições mesmo, se tivéssemos um mercado ficaríamos direto”, desabafou. Antônio Cléber, por sua vez, lembrou que “a prefeitura era contra a cooperativa, o maquinário precisava de água e tirava parte do poder de dominação dela”. O atual prefeito, Litercilio Júnior (PT), que tomou posse no ano passado após anos de dominação de um coronel da região, declarou que “o município tem o compromisso de criar condições, como estradas e abastecimento de energia. Inclusive nós já temos no garimpo, com o prefeito de Oliveira dos Brejinhos, um projeto para fazer uma ação conjunta entre as prefeituras e a cooperativa para tentar melhorar o acesso e ter mais possibilidades de transitar veículos maiores para escoar o material do garimpo”.
“Existe uma máfia horrorosa aí, além dos chineses tem os atravessadores”, denunciou José Lima de Souza. Ele também trabalha com as pedras e, como os seus colegas, acredita que o desafio da cooperativa está em conseguir lutar por uma fatia do mercado. Isso é o pior de tudo, o negócio se dá com chineses, ninguém sabe como eles chegaram à região, essa relação tem mais de 30 anos, aparecem por lá com freqüência. “Me parece que isso sai tudo contrabandeado, os chineses não pagam os impostos como devem ser pagos e quem perde é o município e o Brasil”, criticou Lourivaldo Pereira da Silva, outro garimpeiro.
A China, noticiou o Le Monde Diplomatique Brasil de setembro, fez um acordo com a República Democrática do Congo em função da exploração dos minérios africanos, como o cobalto e o nióbio. Em contrapartida, os orientais vão investir na infraestrutura do país com um avanço tecnológico, através da fibra óptica que viabilizará a energia elétrica, ainda à base de velas, e as comunicações, por exemplo. No Brasil, nesse caso do sertão baiano, é rapina mesmo, tudo feito de maneira ilícita.
O trabalho coletivo dos garimpeiros na extração do minério, no sertão da Bahia. Foto: Eduardo Sá.
O trabalho coletivo dos garimpeiros na extração no sertão da Bahia. Foto: Arquivo Casef.
Lourivaldo, estranhando minha presença, percebeu que eu estava entrevistando os garimpeiros sobre o assunto e se aproximou para contar uma história recente: há mais ou menos dois anos, um caminhão partiu de Oliveira dos Brejinhos, município próximo a Buriti, com tambores cheios de quartzo, ninguém sabe qual era o peso. Não eram da cooperativa, a Polícia Federal o abordou no meio da estrada, Lourivaldo não soube explicar direito, mas o fato é que mataram o motorista. Um chinês apresentou as notas de despacho à polícia, no final das contas soube-se que pagaram 300 mil para o estado numa mercadoria que devia valer cerca de 3 milhões de reais. Lenda ou não, o que importa é que essas questões estão na consciência dos trabalhadores que não podem fazer nada: o povo sabe que é um insulto a proporção do que recebem em relação ao valor total da mercadoria.
Mesmo sem entender nada do assunto, não perdi a oportunidade de meter o bedelho onde não fui chamado. Marco Aurélio pegou duas pedrinhas pequenas, para me ensinar a diferença entre o quartzo puro e o rutilado, cujos valores são bem diferentes. De cara, logo falei: ué, mas esse puro é muito mais bonito, o rotulado parece que está trincado por dentro. Ele também acha, disse que sempre teve esse pressentimento de que os caras não pagam mais barato nesse para ganhar mais lá fora; não dá para saber. Antônio Cleber, ouvindo o papo, refletiu e disse que nunca tinha pensado nisso: é uma hipótese a não ser descartada.
O maior geógrafo que o Brasil já teve, Milton Santos, nasceu em Brotas de Macaúbas. Em um de seus livros ele critica a “vocação usurária dos intermediários” e que os “pobres não são economicamente marginais, mas explorados, não são politicamente marginais, mas oprimidos”, em referência ao subdesenvolvimento das populações periféricas. Vale a citação, precisa e pertinente, uma defesa dos seus conterrâneos numa questão pontual diante de um problema estrutural em nosso país.
“O QUE NÓS TEMOS CERTEZA É QUE A PESSOA QUE MENOS GANHA COM A PEDRA É O CARA QUE TIRA ELA”, DIZ O GERENTE DA COOPERATIVA
olderico


Olderico Barreto é irmão de Zequinha, guerrilheiro morto junto ao capitão Carlos Lamarca na resistência à ditadura militar nos anos 70. Ele foi um dos sobreviventes da operação Pajussara, em Buriti Cristalino, onde foi preso e torturado, hoje é gerente da Cooperativa Agromineral Sem Fronteiras (CASEF) e espécie de líder comunitário em Brotas de Macaúbas, no sertão da Bahia. A região, integrada à Chapada Diamantina, já foi ponto de exploração de ouro e diamantes, atualmente ainda é rica em quartzo. Em entrevista ao Fazendo Media, Olderico conta como é feita a extração dessas pedras, a situação precária  dos garimpeiros nesse contexto, a dependência que têm dos atravessadores e o desafio de tentar tirar uma fatia do bolo desse mercado riquíssimo.

Eu gostaria que você começasse contextualizando essa história da extração do cristal aqui na região, como funciona a produção?

A produção de quartzo dessa região, a exploração, iniciou na década de 30 e até hoje essa pedra é explorada. Foi tirado o quartzo da superfície, mas ainda há muitos veios de quartzo “engrunados” nesses morros. Eu tenho uma noção, através de um estudo que estamos fazendo, de que tem mais quartzo do que o que já tiramos porque os veios mergulham e afloram e só foi mexido nos afloramentos. Então por essa lógica nós não tiramos provavelmente nem ¹/4 desse quartzo que existe aqui.
É uma região rica que tem um quartzo industrial da melhor qualidade por quilo do Brasil. Eu acho que do mundo, porque hoje eles buscam alternativas na África, em Madagascar, e lá o quartzo com certeza não tem a qualidade do nosso industrial. Temos o quartzo ornamental também que é muito lindo e todas as modalidades: o quartzo hialino, o fumé, o rutilado e o citrino, que é amarelinho. Todas essas pedras são queridas no mercado ornamental e as suas rochas no campo industrial.
Nesse cenário, como são as condições de trabalho dos garimpeiros na extração?
A cooperativa trabalha obedecendo a legislação mineral e ambiental, então nós trabalhamos buscando o mínimo de risco. Mas nós conhecemos lavras clandestinas aonde não se usa máscaras: quando fura o silício vai para o pulmão do cara e mata ele. Nós temos caras que pedem, porque todos os operadores do compressor dele já morreram na década passada por falta da utilização de protetor. Mas no nosso caso, o associado é sócio da cooperativa, ele não é um empregado, o que ele tira é dele e ele dá uma porcentagem para a cooperativa. Hoje, da lavra livre que ele trabalha, ele dá 10% apenas.
Os garimpeiros que eu conversei falaram que é tudo na base da pechincha, ninguém soube dizer qual é o lucro no dia a dia. Como não tem contrato, como fica essa questão da grana que a pessoa tira?

Não tem contrato. Rapaz, o quartzo industrial dá para você ter uma previsão de quanto se tira por mês. Existem jazidas que você explode e pode tirar até dez toneladas/dia, mas há também garimpos, caças, que você pode tirar 10 kg, 5 kg, ou às vezes nenhum, mas dá para você ter uma média de produção mensal. Já o quartzo ornamental não há como medir porque você pode passar um ano sem produzir absolutamente nada e de repente você está em cima de uma jazida e arranca duas, três toneladas, e até enriquece: já vi cara comprar até avião de uma jazida.
Pedras de quartzo, amostras que ficam na cooperativa para a negociação. Foto: Eduardo Sá.
Pedras de quartzo, amostras que ficam na cooperativa para a negociação. Foto: Eduardo Sá.
Tem aquela coisa sazonal também, de que quando chove o pessoal vai para o campo trabalhar a terra, né?
É isso, quando chove ele é agricultor porque até se tiver “abrizado” a lavra ele abre uma capa, ela enche d’água, aí no outro dia ele chega. E assim todo mundo tem a sua rocinha, todo mundo é agricultor, então começa a chover eles vão para as suas roças e abandonam até terminar o período da chuva quando eles voltam para o garimpo. Com as águas são boas e têm uma boa lavoura, ele até demora a voltar para o garimpo, mas nos anos secos e no período seco eles são garimpeiros e sobrevivem dessa atividade. E no sistema manual, é uma garimpagem de subsistência.
Não dá para estipular uma média, então?
Não dá de maneira nenhuma, é uma coisa de subsistência mesmo. Agora, pode ocorrer de você encontrar grandes bolsões mineralizados e produzir: é comum às vezes as pessoas fazerem 100, 200, 500, até um milhão de reais em lavra de quartzo.
Qual a razão da fundação da cooperativa?
A cooperativa veio com a nova constituição, com a nova legislação. Nós vivíamos aqui um regime de matrícula que permitia a garimpagem individual e coletiva nas lavras sem nenhum licenciamento. E eles pagavam apenas uma taxa e conseguiam uma matrícula que lhe permitia circular dentro do território nacional com as cinco toneladas. A partir da extinção desse regime de matrícula, criaram um regime de permissão de lavra garimpeira que é amparado pela constituição federal no artigo 174 e tem a lei 7.805 específica para normatizar a vida dessas pessoas.
Os garimpeiros criticaram muito a situação do atravessador e não têm noção de qual o preço do produto na ponta do mercado. Aonde entram os chineses nisso e como você vê essa questão do mercado?
O que nós temos de certeza absoluta é que a pessoa que menos ganha com a pedra é o cara que tira ela. Eu tenho um exemplo que é bem sintomático, o próprio grande comprador de pedra me contou ali em baixo do galpão da cooperativa que comprou uma pedra – a melhor pedra que teve aqui nessa região, parece que faltaram 4 kg para 1 tonelada – completamente limpa e cheia de rutilo, um cabelo loiro muito bonito e sem nenhuma inclusão, muito transparente. Esse quartzo o cara pediu 7 milhões e meio, pediu para efetuar o pagamento em dois cheques: como ele estava com dificuldades com folhas de cheque aqui fora do banco e tudo, e na lavra querendo comprar mais coisas, questionaram por que duas folhas de cheque e não uma. Ele falou: a de 500 mil é para o cara que arrumou a pedra e a de 7 milhões é dele que vendeu. Ali, naquela distância, ele já teve uma margem de lucro dessa.
Mais que todos os trabalhadores juntos…
O garimpeiro que tirou a pedra, e era um grupo, ganhou meio milhão e ele sete porque atravessou. E o cara na frente que comprou é quem vai enriquecer ainda, então é uma cadeia que fica a ponta no garimpo e a pirâmide vai se abrindo. Você está entendendo? O garimpeiro fica bem na pontinha como a pedra, a parte mais fina da coisa fica na mão dele.
Entrada da cooperativa, na ocasião ocorreu a assembleia de inauguração do Instituto Zequinha Barreto em Brotas de Macaúbas. Foto: Valdemi Silva - PT/Osasco.
Entrada da cooperativa, na ocasião ocorreu a assembleia de inauguração do Instituto Zequinha Barreto em Brotas de Macaúbas. Foto: Valdemi Silva - PT/Osasco.
Nesse contexto, os chineses entram aonde?
Os chineses saem de lá, atravessam esses oceanos todos, vêm aqui e dizem o valor da pedra que ele quer comprar. Ele é que dá o valor, imagine você indo comprar ouro lá na China e como você pagaria o quilo, é mais ou menos assim a coisa. Ou indo comprar ouro lá no Maranhão na mão dos índios dentro da selva, a que preço você fornecia se é você quem dá o preço? E pior ainda que quando tem um quartzo grande, acima de 100 kg, eles quem dão o peso também. Então eles dão o preço e dão o peso, em material de 100 kg, 200 kg e 500 kg. Como o cara não tem balança, eles dizem o peso e o preço e ficam com o material.
E imposto nada, tudo contrabandeado?
É tudo clandestino, a lavra clandestina com a comercialização clandestina. Então foi nessa coisa que a cooperativa entrou para criar condições de exportar isso, de formalizar essa economia e atrair divisas para o município, ao Brasil, gerando emprego e renda. O desafio da cooperativa é chegar no mercado internacional vendendo e recebendo isso em dólar ou outra moeda. E já deixando suas divisas no Banco do Brasil, distribuir para o associado em real e assim por diante.
A cooperativa foi fundada no dia no dia 1º de janeiro de 1990, baseada numa lei que foi de 88, a lei 7.805 de 17 julho deste ano, então a cooperativa precisa e deve caminhar nessa direção de regularização dessa atividade aqui nessa área.
Por outro lado, tem uma questão paradoxal que você citou quando estávamos na cooperativa: os chineses são os que pagam melhor, não é?
Dizem que há um divisor tecnológico entre a China e o resto do mundo que é esse rutilo, então quando eles chegam e vêem que tem outro comprador eles pagam melhor porque são os que melhor utilizam. O que a gente deduz desse processo todo é que os outros países utilizam o quartzo rutilado apenas como ornamental, pela beleza dele para ornamentos.
A China utiliza para um processo de industrialização, um processo tecnológico. Então onde há concorrência eles chegam, colocam um preço melhor e levam, não significa que eles paguem bem. Se eles perceberem que tem alguém querendo comprar aquilo com a finalidade industrial eles chegam e põem um preço acima, porque sabem que eles dão outra valorização e destinação à mercadoria. Eles atravessam todo esse oceano e vêm atrás dele, prioritariamente atrás do quartzo rutilado, há quem diga que eles têm um processo tecnológico avançadíssimo e essa substância representa para eles o avanço que diferencia a China do resto do mundo.