Em “Serra Pelada”, o documentário, a história de um sonho que virou realidade e deu em nada

A
sessão do cinema só ia começar em meia hora, por isso resolvi entrar na
livraria que tem ali, na antessala. Procurei com os olhos, como a gente
faz quando tem à disposição tantos títulos, e foquei em “A condição
humana”, ensaio que Hannah Arendt publicou em 1954, uma das obras mais
completas que já li. A pensadora alemã, sobre quem também há um filme
que recentemente esteve em cartaz naquele mesmo cinema, pesquisou
intensamente sobre as várias facetas humanas, sobretudo ligadas ao mundo
do trabalho.
Abro na página 165, assim sem querer, e leio:
“E, afinal, o que é esse ideal da sociedade moderna senão o sonho
muito antigo dos pobres e despossuídos, que pode ser encantador como
sonho, mas que se transforma em uma felicidade ilusória logo que
realizado”.
Fecho o livro, olho mais alguns títulos, compro um saco de pipocas e
entro na sala. Decidi assistir ao documentário “Serra Pelada, a Lenda da
Montanha de Ouro”, dirigido por Victor Lopes, antes de assistir à
ficção sobre a mesma história (dirigida por Heitor Dhalila). Gosto mais
de documentários e esse tema me deixa especialmente curiosa. A imagem
daqueles homens com a pele encardida, sem camisa, com um balde nas
costas subindo feito formigas aquela montanha imensa é impactante. A
possibilidade de eles, depois de terem passado horrores – inclusive nas
mãos do Major Curió quando assumiu o espaço e transformou-os
praticamente em escravos – e saírem dali ricos também alimenta muito a
minha imaginação.
Não me arrependi da escolha que fiz naquele momento (ainda vou
assistir à ficção, há boas recomendações). É que não se joga fora nem um
dos 110 minutos do documentário de Victor Lopes. Ao que parece, o
diretor preferiu, em vez de transformar a obra numa crítica ou denúncia,
perscrutar justamente a condição humana.
Lopes oferece ao espectador, por exemplo, a história do garimpeiro
caboclo, de pele escura e dentes brancos como sói, que tendo ganhado
muito dinheiro decidiu fazer um agrado à mulher e levá-la a conhecer o
Rio de Janeiro. Com sua melhor roupa, o casal foi ao aeroporto e
precisou enfrentar uma fila para comprar a passagem. Em determinada
hora, porém, o garimpeiro achou que a atendente estava olhando enviesado
para ele, possivelmente pelo fato de não estar usando terno e gravata
como a maioria dos outros passageiros. Não teve dúvidas: tirou o
dinheiro do bolso, mandou fretar um avião, e fez o percurso Belém – Rio
de Janeiro com sua mulher, ocupando apenas duas das mais de 400
poltronas do Boeing 747.
Aqui no Rio ele passeou pela praia de Copacabana, ficou hospedado num
belo hotel. Depois voltou para o mesmo casebre onde morava em Marabá, e
onde mora até hoje com a mesma mulher. Nada mudou na vida do garimpeiro
que pôde gastar 45 milhões de cruzeiros (moeda da época) para fazer uma
simples viagem.
“Do jeito que o garimpo deu, ele tomou”, vaticina o homem, um dos
personagens que mais fala no documentário. No quintal de terra de sua
casa, ao lado da mulher que o acompanhou na aventura ao Rio, de um jeito
simples mas sem hesitação, próprio de homens que já viram de tudo na
vida, ele mostra que o garimpo de Serra Pelada, hoje nas mãos da empresa
canadense Colossus Minerals, ainda tem muita riqueza para dar:
“Tem um aluvião de ouro aqui embaixo, entre a bananeira e o pé de laranja”, diz.
Sob a ótica humana, o garimpo de Serra Pelada pode servir também para
mostrar a potência de homens sem rédeas. Tudo começou quando o finado
Genésio, dono da Fazenda Três Barras, encontrou uma pepita de ouro em
suas terras. A história se alastrou, muita gente correu. Até o pároco
saiu de Marabá, vestiu calção, bota, e foi tentar a sorte. Tinha
diamante, esmeralda, platina, ouro branco, ouro amarelo. Em pouco tempo
eram três mil homens subindo e descendo, peneirando, vendendo o
resultado na cidade.
Tudo ia andando, não havia conflito, a riqueza era de todos, ou
melhor, de quem tivesse força física para enfrentar o calor dos diabos, a
falta de água, condições insalubres. Um único interesse movia todos,
para que brigar? Como nas sociedades antigas, os mais fortes passaram a
coordenar, surgiu a necessidade de se organizar o trabalho: uns
peneiravam, outros carregavam os sacos de terra, outros ainda somente
levavam o produto e traziam o dinheiro. Para todos havia recompensa, mas
não havia um só governante.
“Se nosso país fosse igual Serra Pelada, tinha igualdade social”, fala um garimpeiro.
Diz Hannah Arendt: “O governo de ninguém não é necessariamente um
não-governo; pode, de fato, em certas circunstâncias, vir a ser uma das
suas mais cruéis e tirânicas versões… Ao invés de ação, a sociedade
espera de cada um dos seus membros certo tipo de comportamento, impondo
inúmeras e variadas regras”.
Até que… surge a lei, sob a figura de um único homem. O Major Curió,
conhecido e famoso, acusado de ter cometido atrocidades sob as ordens do
regime militar. Curió tem espaço para falar muito no documentário de
Lopes. Afinal, não é ali que ele será julgado pelos crimes contra a
humanidade. Na película, Curió serve à história. Aparece sendo
ovacionado pelo povo quando, microfone nas mãos, eleva a voz, impõe a
ordem e diz que está ali para organizar o trabalho.
Proibiu mulheres em Serra Pelada; o homem que fosse apanhado bêbado,
sofreria as piores torturas. Organizou a “bagunça” e, é claro, cobrou
seu quinhão:
“Era um campo de concentração tropical. Quem entrava não saía, quem
saísse não poderia entrar novamente”, conta um ex-empresário, um dos
coordenadores do garimpo quando ainda era um mutirão popular e que hoje
só pensa numa coisa: mudar-se de Serra Pelada. “Não gosto mais daqui,
isso é um grande cassino, e o tempo pode te vencer”, diz ele.
O ouro jorrou ainda durante muito tempo, Curió foi afastado, o regime
militar terminou, as mulheres e a bebida voltaram ao garimpo. Mas o
território não recebeu, em momento algum, um olhar cuidadoso de quem
sorvia da terra tanta riqueza. Escola, hospital, saneamento, casas
arrumadas, nada disso entrou na conta de quem gastava o dinheiro. Ainda
hoje Serra Pelada é um lugar pobre, sem melhoramentos, que priva de
confortos básicos os moradores.
“Como pode morrer de fome em cima de uma mina de ouro?”, pergunta-se hoje um garimpeiro.
A condição humana, de novo. Recorro à Hannah Arendt: “O tempo excedente do animal laborans (
o indivíduo que trabalha e consome, na visão da autora)
jamais é empregado em algo que não seja o consumo, e quanto maior é o
tempo de que ele dispõe, mais ávidos e ardentes são os seus apetites”.
O filme termina em 2012. Sorridentes representantes da Colossus
Minerals falam sobre estratégia, ferramentas, metas. Daqui a pouco
falarão também sobre responsabilidade social, sustentabilidade. Caberá a
eles, talvez, o papel de organizar o território seguindo seus próprios
conceitos.
A turba, essa fica nos retratos tirados por Sebastião Salgado, nas
histórias contadas pelas biroscas do local. Nas muitas cenas que
morreram com tantos homens sob a terra que, ali mesmo, lhes serviu de
última morada. E na certeza – vai saber? – de que o lago que se formou
depois de tantas escavações ainda guarda muita riqueza:
“Tenho certeza de que nós não tiramos nem um terço do ouro que tem
aqui”, diz um dos muitos garimpeiros que ainda orbitam por lá. Afinal,
reza a lenda, garimpeiro de verdade nunca abandona seu garimpo. É mais
forte do que ele, é humano, demasiado humano.