sábado, 16 de janeiro de 2016

Poucas coisas são tão perfeitas no mundo como os cristais



Cristais: Beleza pura
Poucas coisas são tão perfeitas no mundo como os cristais - as obras-primas que a natureza leva centenas de milhares de anos para produzir. Suas formas, cores e combinações parecem não ter fim



A variedade de formas, tamanhos e cores faz dos cristais um dos mais raros e belos espetáculos da natureza — especialmente quando se encontram vários de um mesmo mineral ou de minerais diversos agrupados. Componentes naturais da crosta terrestre, os minerais têm estrutura cristalina e composição química definidas. Essa estrutura nada mais é que a forma como se arranjam os átomos dos diversos elementos que formam um mineral. Por isso, ela tem influência decisiva na determinação das propriedades físicas e químicas de cada um deles.

Bons exemplos são a grafite e o diamante: ambos constituídos de carbono puro, possuem no entanto estruturas cristalinas diferentes. A primeira é um mineral comum encontrado nas rochas que se formam usualmente na parte superior da crosta terrestre; nela, os átomos de carbono se dispõem em planos de anéis de seis faces. Já o diamante, muito raro, forma-se nas profundezas da crosta, em rochas vulcânicas muito especiais, onde a pressão e a temperatura são muito altas. Por isso, seus átomos de carbono constituem uma estrutura muito mais compacta, em forma de pirâmide de quatro faces iguais. Com estruturas tão diferentes, não é de estranhar que as propriedades físicas de grafites e diamantes também sejam diferentes.

Enquanto a grafite é mole, cinzenta, opaca e leve - sua densidade é de apenas 2,1 gramas por centímetro cúbico - o diamante é incolor, duro (é o material mais duro que se conhece), transparente e denso - 3,5 g/cm3 - e provoca intensa dispersão da luz que o atravessa. Quando a estrutura cristalina dos minerais se reflete externamente nas pedras, com faces planas e simetricamente distribuídas, é chamada de cristal. A natureza leva centenas de milhares de anos para fazer um cristal. Mas a tecnologia permite fabricá-lo em laboratórios, ou mesmo em casa, em questão de um mês.

A experiência pode ser feita usando-se o sulfato de cobre, dissolvido e deixado num recipiente com água. Esta começa a evaporar lentamente. A concentração do sulfato aumenta até atingir o limite máximo de saturação à temperatura ambiente. Então, o produto começa a se depositar no fundo do recipiente já em forma sólida. Como a evaporação prossegue, os átomos de cobre, enxofre e oxigênio vão ocupando seus lugares na estrutura cristalina. Ao fim dessa alquimia, surgem no fundo do recipiente inúmeros cristaizinhos de faces externas planas, que só param de crescer quando a água se evapora por completo.

Outro processo permite fabricar um único e grande cristal. Basta pendurar por um fio um pequeno cristal de sulfato de cobre num recipiente e ele servirá como gérmen. À medida que a solução no recipiente chega ao ponto de saturação, tem início a cristalização. Sobre o cristalzinho se depositam átomos de cobre, enxofre e oxigênio e ele começa a crescer. Daí resulta um cristal grande em forma de prisma oblíquo, cuja base é um paralelogramo intensamente azul. Mas não será certamente tão belo quanto os que a natureza se esmera em produzir.

O processo natural é semelhante ao doméstico, mas as condições são muito mais severas. Por um longo período, massas enormes de magma - rochas em estado de fusão que constituem a grande parte da massa da Terra - rompem outras rochas que estão na base da crosta, provocando nelas intensa deformação e fraturas. As frações mais leves do magma - que contêm maiores quantidades de elementos químicos leves, água superaquecida a temperaturas de até 300 graus e gases - se concentram na periferia das rochas magmáticas e penetram nas fraturas das rochas adjacentes, a temperatura é mais fria. É assim que os minerais começam a se formar.

À medida que vão diminuindo, devido ao contato com as paredes mais frias das fraturas das rochas, os sais contidos na água passam a se depositar ordenadamente, formando cristais, como na experiência doméstica. Mas na natureza os recipientes são as fendas de algumas centenas de metros de comprimento que se abrem nas rochas. Com freqüência ocorrem mudanças na composição química das soluções que atravessam as fraturas; isso permite que minerais diferentes se cristalizem sobre outros já formados.

Tais soluções carregam impurezas que se alojam em pequenas quantidades na estrutura cristalina dos minerais. São elas que dão a um mesmo cristal cores diferentes ou as tonalidades tão diversas que encantam os olhos. Onde quer que sejam encontrados, os minerais apresentam a mesma estrutura cristalina. Da mesma forma, os cristais deles derivados têm a mesma simetria. O quartzo, por exemplo, cristaliza-se sempre sob a forma de prismas de base hexagonal - de seis lados - que terminam na combinação de dois cubos deformados (romboedros), assemelhados a uma pirâmide de seis faces. As proporções podem mudar, mas a simetria é invariavelmente a mesma.

Já o topázio se cristaliza sob a forma de prismas de base losangular - de quatro lados - que terminam com faces de pirâmides de diferentes inclinações. A água-marinha e a esmeralda, variedades de berilo, formam prismas hexagonais que terminam normalmente em pequenas faces de pirâmides truncadas por outra face plana perpendicular ao prisma. No caso da turmalina, os prismas que se formam têm base triangular que terminam em pirâmides. As dimensões dos cristais variam muito. Os diamantes, por exemplo, medem normalmente poucos milímetros, enquanto os cristais de quartzo freqüentemente ultrapassam 1 metro de comprimento. Existem cerca de 3 mil espécies conhecidas de minerais, e a variedade de formas, cores e combinações dos cristais deles derivados parece infinita.

De Minas para o mundo

Uma das mais fantásticas e importantes coleções de cristais do mundo pode ser vista no Museu Nacional de História Natural da França, em Paris. São 78 peças gigantes cuja idade varia entre 200 milhões e 1 bilhão de anos e cujo peso oscila entre 200 quilos e 4 toneladas. Têm em comum uma característica: são, todas, pedras de quartzo brasileiro. A coleção começou a ser montada em 1957, quando o comerciante de gemas Ilia Deleff, búlgaro de nascimento, esteve pela primeira vez no Brasil. Na década de 70, Deleff foi viver em Governador Valadares, Minas Gerais, onde Henri-Jean Schubnel, conservador de Mineralogia do museu francês, descobriu a preciosa coleção.

Schubnel não sossegou enquanto não convenceu o governo francês a comprar as pedras guardadas em Minas. Mas oito anos se passaram até que, em 1982, o presidente Fançois Mitterrand liberou os recursos para a transação. Não se sabe quanto a França pagou: os museus do governo jamais revelam o custo de suas aquisições. Deleff, que divide seus dias entre o Brasil e a França, diz que tentou em vão vender sua coleção a instituições brasileiras. Mas, como elas não demonstraram interesse, acabou por negociar com os franceses. Segundo ele, também museus britânicos, japoneses e americanos pretenderam comprar as pedras. O interesse se explica: a boa qualidade da cristalização e a perfeição das formas que caracterizam esses cristais não se encontram em nenhuma outra coleção.

A cura pelas pedras

Uma corrente com um pequeno cristal pendurado no pescoço ou um anel de ametista no dedo podem significar mais que meros enfeites. Os adeptos da New Age - última moda em esoterismo nos Estados Unidos - acreditam que os cristais têm poderes curativos. A papisa dessa seita é a atriz Shirley MacLaine, 53 anos. Eles recorrem às pedras para combater uma variedade de mazelas, de insônia a má digestão. Há quem ache que isso funciona. O técnico em Mineralogia Edson Roberto Endrigo, 21 anos, conta que, ao participar no ano passado de uma exposição de pedras, em Pasadena, Califórnia, teve um acesso de sinusite acompanhada de enxaqueca. Um negociante de cristais que ali estava se ofereceu para curá-lo, passando um quartzo incolor em torno dos ombros e da cabeça de Edson. “Três minutos depois, eu não sentia mais nada”, ele jura.

Os fãs da New Age incluem tanto os apreciadores dos hexagramas do I Ching ou das cartas do tarô quanto os crentes em discos voadores e nos poderes dos cristais. Os iniciados dizem que um quartzo dentro de um aquário torna os peixes mais limpos e brilhantes. Perto de um vaso, faria as plantas crescer mais depressa. Os partidários da cristaloterapia acreditam que tudo isso se explica pela transmissão de energia contida nas pedras. Como toda crendice sempre gera um próspero comércio, existem nos Estados Unidos institutos que prometem literalmente vida nova a seus pacientes por meio de cristais. É o caso de um certo Instituto de Concentração do Cristal, no Estado do Novo México, que cobra a bagatela de 1500 dólares (110 mil cruzados ao câmbio oficial do início de janeiro) por uma semana de “tratamento”, numa aprazível praia do Havaí.

Ouro e Deus: sobre a relação entre prosperidade, moralidade e religião nos campos de ouro do Suriname

Ouro e Deus: sobre a relação entre prosperidade, moralidade e religião nos campos de ouro do Suriname





RESUMO
Religião e ouro articulam-se de forma significativa nas narrativas fundadoras da comunidade brasileira de garimpeiros de Benzdorp, no interior do Suriname. Numa área de exploração de ouro em pequena escala, perto do Rio Lawa, um bordel (cabaré) marcou a primeira ocupação da área. Alguns anos depois, esse mesmo bordel virou uma igreja e esse fato inusitado acrescenta mais um elemento da economia moral da cultura do garimpo: a prostituição. Este texto explora a relação entre prosperidade e moralidade (marital e sexual) nos campos de ouro, e o papel das instituições, práticas e idéias religiosas no imaginário do bem-estar, sorte, riqueza súbita e a experiência de ser capturado por círculos viciosos de trabalho duro e consumo conspícuo.
Palavras-chave: Suriname, migração, garimpo, ouro, crenças.

ABSTRACT
Religion and gold articulate in a significant way in the founding story of the Brazilian garimpeiro community Benzdorp, in the inlands of Suriname. In an area of small-scale gold mining near the Lawa River, a brothel marked the first settlement. Few years later, the same brothel became a church, and this remarkable fact adds yet another element to the moral economy of garimpo culture: prostitution. This paper explores the relation between prosperity and (marital and sexual) morality in the gold fields, and the role of religious institutions, practices and ideas in the imagery of wellbeing, luck, striking rich and being caught up in vicious circles of working hard and conspicuous consumption.
Keywords: Suriname, migration, garimpo, gold, beliefs.



Introdução
Aconteceu no ano 2000. Expulsos da região por um grupo de surinamenses, os brasileiros foram perseguidos até a pista de aterrissagem à beira do rio, onde ficavam as canoas, e entraram em desespero. O que eles poderiam fazer para voltar e recuperar seus pertences? Um deles era a Dona Maria, a quem muitos consideram a fundadora de Benzdorp porque em 1998 foi a primeira a abrir um bar e bordel na região. Dona Maria começou a rezar e prometeu entregar o bordel para ser uma casa de Deus, se os brasileiros pudessem retornar à área de mineração. Assim foi. A polícia veio restaurar a lei e a ordem e os garimpeiros voltaram para seus locais de trabalho e o cabaré mais antigo de Benzdorp se tornou uma igreja da Assembléia de Deus.
Escutei muitas versões da história contada acima e várias pessoas não mencionaram a promessa de Dona Maria. Ao invés disso, enfatizaram outros elementos, como a difícil relação, de que tudo isso era uma conseqüência, entre os brasileiros e a população local ou a forte união entre os brasileiros que os fez fretar um avião e sair da região, ou o impressionante fato de ter sido essa a primeira vez que policiais surinamenses vieram ao local. Mas o fato do templo da Assembléia de Deus ter sido anteriormente um bordel de propriedade de Dona Maria é algo usualmente conhecido e freqüentemente mencionado – inclusive pelas pessoas que chegaram à vila anos depois desses acontecimentos. A própria Dona Maria ameniza o conflito com os Aluku e resume: "Eu não fui muito bem tratada. Aí eu fiquei um pouco injuriada, eu digo: 'eu acho que é por causa dessa boate que isso está acontecendo, aqui comigo; vou desfazer dela e fazer uma casa de oração, que eu tenho certeza, nessa casa de oração, todo o tempo Deus vai estar com a gente. E nada disse acontece, nem com nós, nem com ninguém mais daqui'." Ela chamou uma amiga em Paramaribo que era envolvida com a igreja para vir e se encarregar da organização da primeira igreja de Benzdorp.
Religião e ouro estão conectados de forma significativa nessa narrativa fundadora da comunidade de garimpeiros de Benzdorp. O surgimento de um povoado em volta de um bordel, numa área de mineração de pequena escala, não é provavelmente tão excepcional. Um bordel que passa a ser uma igreja é, entretanto, notável e parece sintetizar dois elementos importantes da vida do garimpeiro: prostituição e crença religiosa. Nesse texto, irei me concentrar no segundo elemento. Começarei com uma breve descrição do garimpo no Suriname e seguirei explorando a relação entre prosperidade e moralidade nos campos de ouro, como também o papel de instituições, práticas e idéias religiosas na cultura do garimpo.
A mineração de ouro é uma ocupação e um estilo de vida que está associado a um rico imaginário de bem-estar, sorte, riqueza súbita e a experiência de estar capturado em círculos viciosos de trabalho duro e consumo conspícuo (cf. De Boeck 1998). Idéias religiosas desempenham um papel significativo nas interpretações que muitos garimpeiros fazem da sua própria situação e a de outros. No que diz respeito à relação entre Deus e ouro, destacam-se três aspectos dessa religiosidade. Primeiramente, idéias cristãs predominam de forma generalizada e raramente são conectadas à religião institucional, a igrejas específicas ou a regras muito estritas de conduta. Garimpeiros que são identificados como crentes são tratados com respeito por todos – independentemente de sua igreja ou filiação –, e seu estilo de vida às vezes também serve como explicação para sua eventual prosperidade, uma vez que geralmente sabem melhor administrar seus ganhos, porque não gastam tudo o que têm na farra. As diferenças religiosas são em grande parte apagadas, num contexto com infra-estrutura religiosa tão limitada. Em segundo lugar, extrair ouro da terra não é uma atividade comum e os homens precisam levar em conta tanto a qualidade do ouro quanto a interferência de Deus em sua empreitada, para ganhar acesso às riquezas minerais. Em terceiro lugar, a interferência de Deus nas vidas dos garimpeiros volta-se para o campo do comportamento moral, de maneira específica se concentra na conduta sexual e fidelidade conjugal. Começarei com uma breve introdução sobre a presença de mineradores brasileiros, os garimpeiros, no Suriname.

Garimpeiros brasileiros no Suriname
O conflito que culminou nos eventos descritos acima revela a difícil relação entre garimpeiros brasileiros e a população local, no começo da recente corrida do ouro nos campos de ouro perto do Rio Lawa, um afluente do Rio Maroni que delimita a fronteira entre o Suriname e a Guiana Francesa. Aos primeiros brasileiros que aí chegaram não era permitido que usassem suas próprias máquinas, e eles só podiam trabalhar como trabalhadores assalariados ou "porcentistas" para os empresários surinamenses que se diziam donos da terra. Esses eram os Aluku, uma tribo de quilombolas (maroons, chamados de 'os homens da terra' pelos brasileiros) da área circundante, usualmente do outro lado (francês) do Rio Lawa.
Além das reivindicações dos Aluku para trabalhar na área, a região havia sido fechada para os garimpeiros brasileiros por vários anos também por causa das atividades de uma companhia de mineração, a Golden Star, que tendo recebido das companhias surinamesas Nana Resources e a Grassalco, parte da semi-estatal do mesmo nome, o direito de explorar a concessão de Antino, realizava prospecção científica para avaliar a possibilidade da mineração de grande porte na região. A Golden Star não queria que os garimpeiros atrapalhassem suas atividades por isso fecharam a área. No entanto, em 1998 as atividades da Golden Star chegaram ao fim e a Nana Resources abriu a concessão para os empresários brasileiros e suas equipes de trabalho. Foi durante essa época também que a Dona Maria, que tinha ido ao Suriname para trabalhar como cozinheira para os garimpeiros, abriu seu primeiro bar no ponto que se tornaria a 'currutela' (vila dos garimpeiros) chamada de Benzdorp4, nos anos seguintes.
Os brasileiros começaram a vir para o Suriname no início dos anos noventa, mas o pico da migração ocorreu no ano de 1997. As primeiras áreas de garimpo eram relativamente próximas de Paramaribo e durante essa época os brasileiros também trabalhavam em balsas nos rios. Somente depois eles iriam para locais mais remotos, como as concessões de Antino e Grassalco. Na década passada, dezenas de milhares de brasileiros vieram para o país e para a Guiana e Guiana Francesa.5 Segundo o Censo de 2005, a estimativa era de quase 20.000 no mesmo ano (Algemeen Bureau Voor De Statistiek 2006); de qualquer forma estamos falando de uma população considerável. A maioria desses imigrantes brasileiros chega ao Suriname à procura de ouro ou estão envolvidos em atividades relacionadas, como comércio ou prostituição, e começam suas vidas na fronteira dentro da mata, apesar de estarem se locomovendo para a capital do país também, cada vez mais. Isso acontece predominantemente com trabalhadores manuais e camponeses que não são legalizados e que trabalham fora dos circuitos registrados e monitorados dos centros urbanos. A maioria desses imigrantes não estudou muito e vem das áreas mais pobres do Brasil, e muitos também já migraram dentro do Brasil, antes de se mudar para o Suriname, a Guiana ou Guiana Francesa.6
A forma mais comum de extrair ouro do solo, na área de Antino, é pelo método hidráulico. Depois de limpar a área, se escava um barranco na terra mineralizada. A operação é feita com um par de máquinas ('chupadeiras'), um conjunto de dois motores, uma bomba de sucção de cascalho e uma bomba de água para o 'bico jato', mangueiras diversas, e caixas. Com o 'bico jato' se efetua o desmonte hidráulico do barranco, com a outra bomba se faz a sucção do cascalho aurífero que se envia para caixas de madeira chamadas de 'sluice box7'. Após um período de tempo variável em que as caixas (sluice box) são alimentadas, segue a chamada 'despescagem'. Adiciona-se o mercúrio para amalgamar o ouro que se concentrou na caixa, se fazendo a limpeza e depois a queima. Esse método é usado no 'baixão', as partes baixas da região, perto dos rios e córregos. Para trabalhar num barranco você precisa de pelo menos quatro pessoas, mas dependendo das máquinas e do grau de mecanização, a força de trabalho pode chegar a oito pessoas, incluindo os operadores das escavadoras e tratores. Dois homens manobram o 'bico jato'. Estes são chamados de 'jateiros' e o seu trabalho é considerado o melhor, "porque eles trabalham deitados", já que a correnteza de água é tão forte que eles precisam usar seu próprio peso para controlá-la. O peão que opera a mangueira de sucção, o 'maraqueiro', pode ter um trabalho menos árduo, mas ele passa o dia inteiro em pé na água, o que faz a sua tarefa penosa e também causa problemas de pele. O trabalho mais duro é o do 'raizeiro', aquele que tem que recolher as pedras e grandes pedaços de qualquer outro material que possam ter caído dentro do barranco e ameacem obstruir a mangueira. O raizeiro também passa o dia todo na água, mas, além disso, precisa inclinar-se para baixo constantemente, recolher e jogar fora pedras grandes e pesadas (para descrições mais detalhadas veja Cleary 1990; Healy & Heemskerk 2005; Macmillan 1995; Veiga, Silva & Hinton 2002).8
Geralmente os trabalhadores moram perto do barranco, na floresta, junto com os donos das maquinas, às vezes com a esposa deste e uma cozinheira. Os acampamentos diferem consideravelmente; às vezes são muito simples, possuindo apenas um teto para colocar as redes, mas dependendo da prosperidade do dono do acampamento, também pode haver construções de madeira e objetos de luxo, como freezers, televisões com antena parabólica, um rádio para se comunicar e uma caminhonete. Normalmente os acampamentos estão a horas de distância uns dos outros e da currutela, e os trabalhadores são capazes de viver meses isolados em seus acampamentos. A currutela Benzdorp, que tinha já por volta de 120 casas em 2006, é onde permanecem as pessoas envolvidas indiretamente na economia gerada pela mineração, tais como os fornecedores de serviços em geral, transporte, mecânica, serradores e trabalhadores de construção, um dentista e as profissionais do sexo. Na currutela também ficam as lojas e bares e, last but not least, as duas igrejas dessa área de mineração.

Religião em geral: a não relevância das diferenças confessionais
Dona Maria não ofereceu seu presente a nenhuma denominação particular. Ela doou seu cabaré para a comunidade, para que ele fosse uma igreja. Ou, nas palavras de um crente que me contou a história, para Deus.9 O fato de ter se tornado um templo da Assembléia de Deus foi mais uma coincidência. Havia uma pessoa disponível para assumir a liderança- ele era um crente que estava trabalhando como garçom em um cabaré em Benzdorp, e organizava reuniões religiosas de vez em quando, e assim a cabana de madeira virou uma igreja da Assembléia de Deus em 2001. Dois anos depois, outra igreja pentecostal brasileira foi construída no local, a Deus é Amor, devido ao trabalho missionário dessa igreja que começara alguns anos antes em Paramaribo.
A dádiva generalizada de Dona Maria me faz lembrar as respostas que muitos garimpeiros deram quando eu lhes perguntava sobre suas atividades religiosas. Muitos dizem que eles são religiosos, mas não distinguem muito bem as denominações e dizem: "eu gosto de todas". Quando há oportunidade de participar de um culto eles participam, independente do tipo de encontro religioso em questão. Isso acontece mais entre os diferentes grupos evangélicos, mas também acontece do catolicismo para o pentecostalismo – entretanto, não ouvi falar de nenhum caso em que isso tenha acontecido na direção contrária.
Nos anos 80 e início dos 90, os primeiros brasileiros em Paramaribo freqüentavam missas católicas faladas em holandês. Hoje em dia existem dois padres católicos brasileiros que organizam uma paróquia na capital, membros da Congregação Missionária Redentorista que chegaram ao Suriname em 2001 para substituir os frades redentoristas holandeses, os quais serviram os católicos surinameses durante décadas. As igrejas pentecostais brasileiras iniciaram sua missão no final dos anos noventa. Em Combé, outra parte da capital Suriname, há uma igreja Deus é Amor que foi fundada em 1998 por missionários brasileiros. Também existe uma igreja da Assembléia de Deus que está associada às Comunidades Surinameses de Deus (Surinamese Gemeenten), mas com um pastor brasileiro. Por último também há uma missão da Igreja Batista com o envolvimento de missionários brasileiros. Depois das primeiras igrejas na cidade, várias igrejas pentecostais foram fundadas nos principais garimpos, como em Benzdorp.
É muito difícil para os garimpeiros participarem regularmente dos encontros religiosos, porque existem alguns impedimentos importantes. Primeiramente há a falta de tempo. A maioria dos homens trabalha 12 horas por dia, e incluindo o tempo de comer e tomar banho, não lhes resta muito tempo para outras atividades. Em segundo lugar, devido à distância das áreas de mineração em relação às igrejas os garimpeiros precisam de transporte o que custa caro. Ir de moto-táxi do acampamento de Antino, onde eu estava hospedada, para a currutela custa três gramas de ouro, a ida e volta são, portanto, 6 gramas.10 Para uma pessoa que ganha de 15 a 20 gramas por semana, 6 gramas seria 30% do seu salário. Um irmão me contou que antes dele ir para o acampamento em Antino, trabalhava em um lugar muito mais distante da currutela, e o táxi custava de 25 a 30 gramas, uma quantia tal que tornaria ridícula a ida até lá.
Além disso, para os brasileiros que vivem no Suriname, o fato de não falarem as línguas locais é um obstáculo para sua participação religiosa nas congregações surinamenses. Os católicos costumavam freqüentar uma das paróquias em Paramaribo, onde havia uma missa semanal em espanhol, a língua mais próxima do português. Recentemente uma freira, que fala português, e os padres brasileiros começaram informalmente a organizar uma missa em português, uma ou duas vezes por mês, em Tourtonne. Entretanto, oferecer missas especiais para as comunidades de imigrantes não é prioridade para a Igreja católica do Suriname. A política da igreja, que prevalece, é a de integração e os padres brasileiros aprenderam holandês, a língua oficial do país, e são responsáveis por uma paróquia onde poucos brasileiros freqüentam. A política pentecostal em relação à língua é oposta. Todos os serviços religiosos pentecostais brasileiros são ministrados em português e os pastores pentecostais não falam nem holandês nem Sranantongo – a língua coloquial de Suriname. Vários brasileiros, que já estavam vivendo no Suriname por muitos anos e haviam se tornado membros das igrejas surinamenses, agora atraídos pela língua portuguesa que é falada nas igrejas pentecostais passam a ser membros da Deus é Amor ou da Assembléia de Deus.
A língua se torna o principal critério no que diz respeito à participação religiosa. Diversos brasileiros que se identificam como católicos vão, às vezes, "visitar" uma igreja pentecostal. Eles não se convertem nem se consideram membros dessas igrejas, mas gostam do "louvar a Deus, rezar, e ouvir a Palavra". Como disse um dos garimpeiros: "Para conseguir esse objetivo, eu entro em qualquer igreja".11 Nesse sentido, a língua é mais importante do que a tradição religiosa da reza ou da pregação. A mistura de diferentes tradições religiosas, tão característica da religiosidade popular brasileira, se torna ainda mais razoável na situação em vive essa população como imigrantes que não falam a língua do país em que vivem.
Essa concepção de uma religião num sentido genérico, em que se relevam as distinções confessionais, também se expressa na forma respeitosa pela qual os membros das igrejas pentecostais são tratados, tanto por correligionários como por não pentecostais, como "irmão" e "irmã" (um costume também observado no Brasil). Devo destacar que todo mundo na comunidade de garimpeiros tem um apelido e, muitas vezes, as pessoas não sabem os verdadeiros nomes (os dos registros de nascimento) uma das outras. Um entrevistado, que era conhecido apenas como "irmão", me explicou que ganhou esse apelido, não por ser um membro muito ativo da comunidade pentecostal local, mas porque os colegas da primeira equipe, com quem trabalhou na área, gostavam muito de beber e dançar, e como ele era o único que não participava das farras, passou a ser chamado de Irmão.12 Nessa perspectiva, ser definida como "pessoa religiosa" é ser incluída em uma categoria social que possui atributos morais. O crente se opõe aos garimpeiros que adoram viver em festas. Por extensão, o crente terá mais chance de sucesso nos campos de ouro por não gastar seu dinheiro em bebida, cigarro e mulheres, sendo, portanto, o oposto daquele que jamais ficará rico porque gasta tudo o que ganha.
Em outro artigo defendo a idéia de que as atividades religiosas dos brasileiros no Suriname não levam à formação de comunidades religiosas institucionalizadas e estáveis (Theije 2006; 2007). A língua se torna o atrativo principal e é tão importante que as diferenças religiosas confessionais tornam-se menos relevantes. No garimpo, a distinção importante é entre pessoas religiosas e não-religiosas, e uma identidade religiosa era uma forte explicação para o comportamento de consumo. Prosperidade e sucesso estão assim associados a um estilo de vida abstêmio característico da religiosidade evangélica. Todavia, não é somente em termos de conduta religiosa que ouro, religião e prosperidade estão conectados na cultura do garimpo. Na próxima seção irei focalizar as estórias que as pessoas contam sobre sorte, prosperidade e Deus.

Deus e ouro
No discurso dos garimpeiros a motivação deles para vir para o Suriname e passar por todas as dificuldades e problemas que encontram é basicamente econômica. Entretanto, extrair ouro não é uma atividade comum e muitas crenças existem com relação à natureza do ouro e como que se faz para encontrá-lo. O ouro não é um mineral facilmente encontrado, não se encontra prosperidade sem esforço. É preciso "fazer ouro". Mais que isso, mesmo quando há muito esforço, o sucesso não é garantido.
O ouro parece fazer alguma coisa com o homem que o encontrou. É um trabalho duro e nem todo mundo é forte o suficiente para suportar o trabalho árduo do garimpo. Sem sorte, ninguém fica rico nos campos de ouro. Entretanto, também é preciso saber como gerenciar o ouro que você encontra.13 Como diz o gerente de uma Compra de Ouro em Paramaribo: "(...) a maioria que já vi, ele perde tudo em pouco tempo. Eu não sei o que acontece, sobe à cabeça e ele acha que ele vai fazer de novo rápido. Ele não faz mais." Na busca por 'fazer ouro', os homens encontram inúmeros obstáculos, como a malária, a violência nos campos de ouro, e a insegurança devido à situação ilegal dos garimpeiros sem documentos. Várias mulheres justificavam a sua entrega a Deus nesse contexto: os homens precisam da paz de Deus para sobreviver a circunstâncias tão difíceis. Muitos que migram para os campos de ouro do Suriname se convertem ao Pentecostalismo.14 Isso acontece mais com as pessoas que vêm viver na currutela, onde os serviços religiosos são mais facilmente acessíveis, com a presença de dois pastores e uma pequena comunidade de praticantes. Isso aconteceu, por exemplo, com Ines e Josefina, que quando ainda estavam no Brasil eram católicas, mas agora dizem "conheci Jesus", "eu encontrei Jesus". Josefina vai orar todas às noites depois que o marido chega do seu barranco, perto da currutela, e a substitui no bar que ela gerencia no Benzdorp. Às vezes só tem três ou quatro outras mulheres, mas ela quase nunca deixa de ir à igreja Deus é Amor. Ines era uma fiel integrante da Assembléia desde que veio morar na currutela, há dois anos, mas agora que mudou para o barranco para morar com o marido, a 3 horas de distância de carro floresta a dentro, não participa mais da comunidade religiosa.
É importante sinalizar que o ouro não é apenas uma mercadoria; há algo a mais – apesar de ser difícil explicar o que seja. Paraná, que mora no Suriname já há mais de 15 anos, tentou explicar com as seguintes palavras: "Porque ouro é ouro, ouro é uma usura. Você pode deixar um quilo de ouro aqui e dez mil dólares (US). Parece que o ouro vale muito mais do que aquele dinheiro que está ali. Pode ser o volume igual mas a pessoa passa por cima do dinheiro, e pega o ouro e deixa o dinheiro. A intuição do ouro, o ouro é, desperta muito sabe."15 A partir dessas palavras podemos ter uma idéia da mistificação do ouro e sua natureza de fetiche. O ouro é uma entidade por si só, parece ter vontade própria e conseqüentemente não é unicamente produto proveniente do trabalho duro dos homens. Isso faz o antropólogo pensar na associação com o demoníaco feita pelos camponeses colombianos descritos por Taussig (1980). Esse autor argumenta que o capitalismo é fetichizado através da "atribuição de vida, autonomia, poder e até mesmo dominância a objetos inanimados, pressupondo a extração dessas qualidades dos atores humanos que exercem tal atribuição" (Taussig 1980:31).
Para os garimpeiros brasileiros, o ouro é mais indiretamente investido de características humanas – ou será que devemos dizer mágicas ou similares a Deus? A independência do ouro significa que ele pode se mover se não quer ser encontrado por determinado garimpeiro. Existem inúmeras histórias sobre o ouro encontrado por garimpeiros em um local, onde depois os garimpeiros foram expulsos por algum motivo, somente para o agressor descobrir que o ouro não estava mais lá. Em contos de mineradores da Amazônia, Slater (1994) percebe que o ouro decide se ele será encontrado e por quem. "Porque é assim que é o ouro (...). O ouro decide, e só ele sabe quando e mesmo se irá aparecer" (1994:725). As características inerentes ao ouro – que explicam a atração que exerce – parecem ir além do explicável, e talvez esse seja o motivo pelo qual ele também causa temor. "Muitos dizem outras coisas, tais como: 'ouro é amaldiçoado, é encantado'."16
Para grande parte desse imaginário, não é tanto o caráter do ouro como tal que determina a sorte e a fortuna dos garimpeiros. Pelo contrário, em muitos dos contos, é Deus quem provê o ouro aos garimpeiros, "porque Ele é o dono do ouro e da prata e em qualquer lugar Ele os oferece."17 A maioria das vezes, as pessoas expressam esse poder de Deus em termos bem gerais, como por exemplo, "Para Ele, tudo é possível."18 Para muitos garimpeiros, o destino do homem que faz ouro está nas mãos de Deus. Isso explica porque que "Muitos que têm sucesso não crescem e outros que querem crescer não têm sucesso (...)" como disse Leonardo, um garimpeiro de Marabá.19
Porque eu acho que só mesmo Deus quem possa (...) às vezes Deus dá para ti, mas porque tu não fazes nada com aquilo, não progride, para crescer, aí se acaba. Outros, que querem [crescer], Deus [decide] 'Eu não vou te dar isso', mas aí tu vai querer algo melhor na frente. Então, eu acho que é isso que acontece, só Deus mesmo pode decidir se dá para gente o que a gente precisa e a gente merece, é só Ele mesmo, porque se fosse da vontade da gente, seria muito fácil.
A intervenção de Deus pode ser punitiva também. Uma doença ocular que cegou um minerador é explicada por muitos como um castigo pelo fato desse homem ter maltratado diversos garimpeiros.

Prosperidade e a moralidade da cultura da mineração
Na história do cabaré que virou uma igreja, é interessante notar que Dona Maria não é uma crente muito dedicada – "ela fuma e bebe", como assegurou uma crente. Ninguém a chama de irmã Maria; ela é Dona Maria, o que confirma que ela não é reconhecida como crente na comunidade de garimpeiros. Muitos outros garimpeiros são certamente identificados como tais, e eles próprios se identificam primeiramente como crentes. Essas pessoas contaram as histórias em que o papel de Deus no garimpo aparece de maneira notável.
Na área de mineração, especialmente na currutela, as moralidades contrastantes existem em uma coexistência aparentemente pacífica, cabarés ao lado de pequenos templos, às vezes cerimônias religiosas acontecem em casas privadas e bares. No discurso das igrejas pentecostais, o adultério é condenado, mas na prática as prostitutas freqüentam os serviços religiosos. Não obstante a oposição entre gastar e ser religioso, na currutela, ambas as coisas existem ao mesmo tempo. No entanto, para as pessoas religiosas o consumo conspícuo, especialmente o de sexo, constitui uma constante ameaça a sua identidade (pentecostal) e ao acesso à prosperidade do ouro. Os bares, as festas no bingo e especialmente a tentação representada pelas muitas prostitutas que trabalham no garimpo causam um risco à fidelidade conjugal e conseqüentemente uma mudança no bem estar material. As relações sexuais são uma esfera da vida onde o diabo tenta o crente pentecostal (relembrar a história da calcinha sexy em Meyer 1998), e consequentemente a infidelidade é o maior obstáculo à prosperidade.
Essa articulação entre sexualidade descontrolada e o sucesso na mineração aparece repetidamente nos testemunhos religiosos dos migrantes brasileiros. Nas decisões que as pessoas tomam e nas interpretações que fazem de sua sorte e prosperidade, a moralidade desempenha um importante papel explanatório. Mira, uma mulher por volta de seus quarenta e poucos anos, que é crente desde que casou com seu marido há quinze anos, quando os dois trabalhavam em um garimpo em Roraima, estava certa de que "quando um crente comete um erro que Deus condena, ele pagará o preço. A vida do crente é assim."20 Essa foi sua conclusão de uma longa história na qual explicou como a sorte dela e do marido havia mudado, que eles tinham passado bons tempos nos anos em que estiveram no Suriname, conheceram tal prosperidade que conseguiram comprar uma casa em Boa Vista e investir em máquinas para melhorar sua empresa de extração de ouro. Mas também passaram por maus momentos – e agora estavam em um desses maus momentos. Sua história demonstrava que
Deus submeterá a pessoa a provações, ela terá muitas dificuldades, Deus fecha a porta e tudo dá errado: Conta que tem de receber não recebe. Assim ele vai, Deus Ele faz a pessoa se arrepender daquele pecado que ele fez. Somente quando a pessoa se arrepender de coração, pedir perdão e se humilhar aos pés de Deus, é que Deus dará outra vez.
Entretanto, é muito difícil de voltar a Deus dessa forma. O problema foi que seu marido "se desviou, arranjou outra mulher..." Isso também tinha acontecido há muitos anos atrás, e naquela época eles perderam tudo o que tinham, e eles tinham apenas se recuperado daquela crise depois que o marido terminou a relação adúltera e retornou a Deus. Quando eu perguntei a ela se ela achava que o atual azar do seu negócio era resultado do adultério de seu marido, ela não hesitou por um só instante em responder: "É, porque, o crente ... o crente ele sabe disso, quando um crente faz coisas erradas, ele sabe por que está passando por isso."
Todavia, foi difícil para o marido dela voltar a ser um crente verdadeiro de novo. Alguns meses atrás, quando o irmão dele quase morreu em um acidente, o marido dela havia retornado a Deus. As pessoas comentavam depois que nunca haviam o visto assim. Entretanto, aparentemente seu ato não foi suficiente, naquele momento, para salvar a vida de seu irmão ferido. Foi apenas quando o jovem foi levado à casa de Mira, aonde chegou 'morto', segundo a versão que ela me contou, ela havia começado uma oração poderosa 'no Espírito', depois de uma noite orando pelo seu cunhado, ele 'ressuscitou'. Embora Mira também descreva seu cunhado como uma pessoa que se 'desviou', ela não associou explicitamente o acidente ao fato dele ter se afastado de Deus. A história inteira serviu como uma ilustração da punição de Deus ao adultério do marido dela. O marido havia trazido o irmão mais novo dele para o Suriname apenas dois anos antes e se sentia responsável por ele e culpado pelo sofrimento da mãe deles, caso algo acontecesse a ele.
A mensagem que aparece nessas historias é que Deus exige uma boa moral e desrespeitar suas leis de conduta traz má sorte e azar. Por outro lado, menos rígido, Deus pode trazer ouro no caminho do garimpeiro-crente, dando-lhe prosperidade, mas isso não é uma certeza. Permanece sempre grande imponderabilidade, que pode ser exatamente o motivo das pessoas procurarem explicações religiosas e modelos de comportamento para lidarem com a incerteza. A aceitação de um sistema moral que promete proteção celeste na busca por uma vida próspera pode ser um meio de exorcizar parte da insegurança da vida de garimpo do migrante. Como tal, esse argumento não é nada diferente do que se conhece sobre evangélicos no Brasil e especialmente sobre a teologia de prosperidade em diferentes contextos (Veja e.g. Machado 1998; Mariano 1996; Mariz 1997, 1998; Mariz & Machado 1997).21 O vínculo entre boa conduta moral e prosperidade é um campo rico de imaginação aplicado a muitas áreas da sociedade, como demonstrou Mafra (2006) em um eloqüente argumento sobre a maneira como a adesão ao 'Pacto Moral' construído por um político pentecostal na Amazônia transforma habitantes individuais em cidadãos de uma cidade que prosperará.
A história da Mira nos mostra que, entre os garimpeiros brasileiros no Suriname, os sinais de "desvio" perante a vontade de Deus são amplamente restritos à conduta moral com relação a mulheres e casamento e no campo das relações sexuais em geral. No contexto de uma comunidade de garimpo onde há três ou quatro vezes mais homens do que mulheres, e onde praticamente a metade dessas mulheres é profissional do sexo, isso não deve ser uma surpresa. Aparentemente, a relação entre homens e mulheres é considerada problemática e exige atenção especial nessas circunstâncias. Isso reafirma a análise de Candace Slater sobre os contos dos mineradores na Amazônia brasileira, que mostra como o ouro normalmente assume as características de uma mulher – que escolhe o garimpeiro que ela fará feliz (1994). Relações entre os sexos e prosperidade nos campos de ouro convergem no sistema moral e nas idéias com relação à natureza do ouro e à sua prospecção.

Conclusão
A exploração de ouro é uma ocupação e um estilo de vida que está associado a um rico imaginário de bem estar, sorte, riqueza súbita e a experiência de estar capturado em círculos viciosos de trabalho duro e consumo conspícuo. As idéias religiosas ocupam um papel significativo nas interpretações que muitos garimpeiros imprimem à sua situação atual como de à de outros. No que tange a relação entre Deus e ouro, três aspectos dessa religiosidade se destacam. Primeiramente os garimpeiros que são tidos como crentes são tratados com respeito por todos e seu estilo de vida também serve, às vezes, como explicação para sua eventual prosperidade, já que normalmente sabem como administrar seus ganhos, não gastam tudo o que têm na farra. Em segundo lugar, as diferenças religiosas ficam nebulosas no contexto de uma infra-estrutura religiosa muito limitada. Em terceiro lugar, a interferência de Deus nas vidas dos garimpeiros faz parte do campo do comportamento moral de forma especifica: concentra-se em uma moral de fidelidade e conduta sexual. A partir do material apresentado nesse texto sugiro que uma análise mais aprofundada sobre essa religiosidade, que se concentra em regras de conduta moral e sexual e nas relações problemáticas entre homens e mulheres, pode lançar alguma luz sobre a forte relação entre Deus, como fornecedor de prosperidade, e o ouro, como a realização concreta ou imaginada da materialização da prosperidade.

Só o ouro consegue se manter, os demais metais caem

Só o ouro consegue se manter, os demais metais caem





Os metais básicos operam em baixa, com destaque para os contratos de níquel negociados na London Metal Exchange (LME). Os estoques do metal na LME atingiu o recorde de 446 mil toneladas nesta quarta-feira, o que indica que o mercado está amplamente abastecido.
Por volta de 7h30 (de Brasília), o níquel para três meses caía 1,4%, para US$ 12.910 por tonelada, após ter alcançado a mínima em quase quatro semanas de US$ 12.785 por tonelada mais cedo. Para alguns analistas, o declínio do petróleo apoia a teoria do "novo normal" de que o consumo de commodities pela China está diminuindo conforme a economia do país desacelera.
No entanto, outros observadores afirmam que o preço baixo do níquel está sendo guiado por vendedores especulativos. "A queda nos preços do níquel, em particular, provavelmente está sendo puxada por especulação", avaliam analistas do Commerzbank.
O recuo do níquel contaminou o desempenho de outros metais básicos, que não conseguem se recuperar das fortes perdas de ontem. No mesmo horário acima, o cobre para três meses caía 0,3% na LME, para US$ 6.200 por tonelada, após atingir a mínima em quase três semanas de US$ 6.194 por tonelada mais cedo. O alumínio recuava 0,2%, para US$ 1.786 por tonelada, também após a mínima de US$ 1.785,50 por tonelada.
O zinco perdia 0,7%, para US$ 2.211,50 por tonelada; o chumbo declinava 0,7%, para US$ 1.923 por tonelada; e o estanho tinha baixa de 0,4%, para US$ 15.940 por tonelada.

Na Comex, às 7h46, o cobre para julho caía 0,39%, para US$ 2,8265 por libra-peso. 

Fonte: Dow Jones Newswires.

O último grande garimpo brasileiro?

O último grande garimpo brasileiro?

Atraídos pelo ouro da Guiana Francesa, brasileiros invadem ilegalmente o território em busca de um sonho que pode estar acabando
"Combati o bom combate. guardei a fé". Os dizeres na camisa camuflada do nosso proeiro são a única coisa que consigo distinguir à minha frente. Não deixa de ser reconfortante. São três e meia da manhã e não há lua.
O breu só é quebrado pela lanterna presa à testa de Bundinha, nosso piloto, à procura das inúmeras pedras que ameaçam o sucesso da viagem. A seus pés estão três hélices sobressalentes, o que deve, mas só deve, nos garantir propulsão até o final. Nilma e eu somos os únicos passageiros na canoa de madeira de 8 metros, carregada com meia tonelada de mantimentos e impulsionada por um cansado motor de popa Yamaha de 15 hp, que acaba de entrar no rio Sikini. A partir daqui somos clandestinos.
"Bem-vindo à França", me diz Bundinha. Não estamos entrando exatamente no país europeu, mas na única colônia remanescente na América do Sul, a Guiana Francesa, também o único pedaço da Comunidade Européia fora da Europa. Por muito tempo o desgarrado território europeu não passou de uma insalubre colônia penal, tornada célebre pelo ex-presidiário que se fez escritor, Henry Charriére, que transformou o relato de sua ousada fuga da temida Ilha do Diabo, uma ilha presídio rodeada por águas infestadas por tubarões, no best-seller Papillon. Na década de 60, a proximidade da linha com o Equador fez a colônia ser escolhida para sediar uma base francesa de lançamentos de foguetes, na cidade de Kourou, dando ao território relevância estratégica e atraindo uma leva de peões brasileiros para sua construção. Até hoje um bom número de brasileiros, sobretudo da região norte do país, tentam ilegalmente a sorte e os salários em euro da colônia.
Mas não é das maravilhas do primeiro mundo que estamos atrás. O que nos traz aqui (bem, o que me traz aqui é a matéria; o nós se aplica melhor a Bundinha e Nilma) é ouro. Estimadas 400 toneladas dele, espalhadas generosamente e a pouca profundidade pelo subsolo guianês.
Há muito conhecida pelos descendentes de quilombolas que habitam as matas da colônia, no início da década de 90 um estudo do governo francês confirmou a abundância do vil metal na região. Levou pouco tempo para as matas guianesas serem invadidas por garimpeiros brasileiros, empurrados para o norte pelo esgotamento das reservas superficiais do mineral do lado de cá da fronteira e a crescente dificuldade legal em explorá-lo. Não existem estimativas precisas do número de garimpeiros brasileiros espalhados pelas selvas da vizinha colônia. Uns falam em 30 mil, já a polícia francesa lida com um número bem menor, cerca de 11 mil, a maior concentração deles na região do rio Sikini, onde estamos entrando. O Sikini deságua no rio Oiapoque, que marca a fronteira de 730 quilômetros entre o Brasil e a Guiana, a cerca de 80 quilômetros a oeste da cidade de Oiapoque. Pouco atraente e pessimamente mantida, a cidade de 20 mil habitantes foi por muito tempo considerada a mais ao norte do Brasil, alter ego da gaúcha Chuí.
Nosso ponto de partida dessa madrugada foi um pequeno arquipélago no Oiapoque conhecido como Ilha Bela, ou apenas A Ilha, para onde boa parte dos comerciantes, todos brasileiros, que atuavam dentro do Sikini transferiu seus estoques depois que a Gendarmerie Nationale francesa, espécie de polícia militar federal, começou a fazer visitas regulares à região e queimar tudo o que encontra pela frente. Como a ilha está na parte brasileira do rio, fica fora do alcance dos franceses.
"Já queimaram duas cantinas minhas. De uma só vez perdi R$ 27 mil em óleo [diesel]. Se fosse vendido no garimpo renderia 1,4 quilo de ouro [cerca de R$ 56 mil na cotação atual do ouro fino na Bolsa de Londres, referência usada por todo o comércio de ouro na região]. Fiquei até sem roupa", conta Bundinha, enquanto empurramos a canoa por cima de paus e pedras em nossa jornada rio acima. Antes de o sol nascer são três as corredeiras que temos que superar levando-a nos braços, em mutirão com as tripulações de outras canoas também a caminho dos garimpos, apenas sob a luz das lanternas. As várias topadas nas pedras ajudam a acordar. Com dia claro a tarefa fica mais fácil, mas não menos cansativa.
É difícil navegar mais de vinte minutos sem ter que entrar na água para ajudar a canoa a superar algum obstáculo.
Nosso destino, uma currutela (termo garimpeiro para um vilarejo que se forma em torno de um garimpo) com o mesmo nome do rio, é a porta de entrada para cerca de oito regiões garimpeiras ligadas por picadas no meio da mata. Todos ali são brasileiros. O Sikini (a currutela) é o mais longe que se pode atingir por rio, e isso na época de cheia. A partir daí só "varando", ou seja, a pé ou, para os mais abastados, em quadriciclos com tração nas quatro rodas. As picadas são como estradas, e têm até cantinas (como os garimpeiros chamam os comércios que lhes vendem de tudo, de pilhas a combustível, com preços, altíssimos, cotados em grama de ouro; papel moeda não circula ali dentro) de apoio às suas margens. Por elas pode-se chegar até o Suriname, cujas matas também estão infestadas de garimpeiros brasileiros, depois de uma "varação" de cerca de 16 dias. Não são poucos os que encaram a viagem. A currutela mais próxima do Sikini é a Sapucaia, um dia de viagem em quadriciclo ou dois a pé. Foi levando carga (com peso médio de 60 quilos) para lá, nas costas, a 15 gramas de ouro (R$ 600) por viagem, que Bundinha conseguiu literalmente sair da lama e comprar a canoa em que viajamos. Mas nem assim se viu livre da Gendarmerie. Há 20 dias foi surpreendido por uma patrulha e teve uma canoa queimada e um motor de 15 hp, igual ao que nos empurra, confiscado.
Temos sorte de conseguir entrar pelo rio. Faz apenas duas semanas que os gendarmes (como são chamados os soldados da Gendarmerie, inclusive pelos brasileiros) deixaram sua boca, onde ficaram acampados durante dois meses e praticamente isolaram os garimpos da Ilha, que é sua única fonte de mantimentos. O arquipélago, por sua vez, é abastecido pelo comércio da cidade de Oiapoque, que tem cerca de 90% de sua economia dependente dos garimpos. Há cerca de um mês os gendarmes também tentaram interromper essa via de abastecimento. Baixaram de helicóptero numa corredeira intransponível no rio Oiapoque conhecida como Gran Roche, onde voadeiras (lanchas de alumínio com cerca de 12 metros de comprimento ideais para navegar em rios) vindas do Oiapoque descarregam suas cargas para serem transferidas para outras que esperam depois das pedras, e queimaram tudo que estava do lado francês, que além de ocupar a maior parte das pedras oferece o ponto mais fácil para fazer a transposição das cargas. Vinte voadeiras foram destruídas, seus motores apreendidos e toneladas de combustível e mantimentos viraram cinza. Políticos locais tentaram, sem sucesso, dar à ação cores de incidente diplomático, mas a lição foi aprendida. Quando passei por ali na véspera de entrar no Sikini, a transposição das cargas foi feita pela acidentada margem do lado brasileiro.
Fui para ilha bela de carona com seu Domingos, chapéu com os dizeres "sou garimpeiro, sou brasileiro" na cabeça, dono de um comércio na Ilha e uma cantina no Sikini, e sua esposa, Arcângela. Domingos é maranhense e passou 29 de seus 50 anos metido em garimpo; ela é capixaba de Nova Enéssia e só foi se meter em garimpo depois que o conheceu. É na cantina do casal que ficarei abrigado no Sikini e é sua casa que me hospeda na Ilha. Conosco na voadeira iam 2.800 quilos de mercadoria, suficiente para manter seu comércio abastecido apenas por alguns dias.
Domingos e Arcângela são o retrato da ocupação recente do norte do Brasil, um mundo em grande parte desconhecido do resto do país. Tentando fugir da miséria de sua Vargem Grande natal, onde o pai era um pequeno agricultor, Domingos "caiu no mundo". Naquela época, que coincide com a chegada dos Sarneys ao poder do estado, o mundo que oferecia mais oportunidades para ele e milhares de conterrâneos deixarem a desolação que até hoje assola o estado, três décadas dos Sarneys depois, eram os garimpos do sul do Pará e norte do Mato Grosso. Foi nessa época que o Norte do Brasil virou palco da maior corrida do ouro que o mundo viu depois da conquista do oeste americano, impulsionada em grande parte por braços maranhenses.
Com a crise do petróleo do meio da década de 70, que atingiu pesado a economia mundial, em especial a americana, e ameaçou seriamente a estabilidade do dólar, investidores correram para a segurança do ouro, procurando abrigo da queda geral das bolsas de valores ao redor do mundo. Como conseqüência o preço do metal disparou no mercado internacional.
Nessa mesma época nosso governo militar deu início à sua política de "distribuir as terras sem homens da Amazônia para os homens sem terra do Brasil", marcando o início do fim da Amazônia. As novas estradas que passaram a cortar a selva facilitaram o acesso ao interior da floresta e uma série de grandes jazidas de minérios, entre elas muitas de ouro, começou a ser descoberta. A mais famosa de todas foi Serra Pelada, cujo formigueiro humano impressionou o mundo, mas uma série de outras áreas igualmente ricas atraiu multidões. Na virada da década de 70 para 80 cerca de 400 mil pessoas arriscavam a sorte nos vários garimpos da região.
Seu Domingos acompanhou de perto essa história, tendo passado por vários dos garimpos mais famosos da época, inclusive Serra Pelada, que o assustou com o número de pessoas que morriam regularmente soterradas por instáveis barrancos. Foi nessa mesma época que o pai de dona Arcângela trocou o Sudeste por um dos milhares de lotes que o Incra começou a distribuir às margens da recém-aberta Transamazônica, e instalou a família na cidade mais próxima, Marabá, então rodeada de florestas, alguns quilômetros ao norte de Serra Pelada.
Apesar das trajetórias semelhantes, os dois só foram se conhecer cinco anos atrás, já no Oiapoque, quando Dona Arcângela, atrás de emprego inexistente em Marabá, hoje já sem uma árvore à vista, foi trabalhar de cozinheira na casa de amigos onde Domingos costumava pousar entre suas temporadas no Sikini. Fazia apenas três anos que ele estava na região, que vivia o auge da fofoca (termo que os garimpeiros usam para definir uma região que esteja rendendo) do ouro da Guiana, vindo de uma fracassada tentativa de construir uma vida fora do garimpo. Todo o dinheiro guardado nos anos de baixão desapareceu numa empreitada comercial que, como freqüentemente acontece com investimentos de garimpeiros no chamado mundo normal, deu errado.
É de Domingos a carga que Bundinha transporta na canoa que nos leva Guiana adentro. Antes de partirmos, meu anfitrião estava apreensivo. Um "sem futuro" havia queimado o barraco usado como base pelos gendarmes na boca do rio e ele temia que os franceses não deixariam barato. "Pra que mexer com os 'homi'?", se exasperava.
A relação dos garimpeiros brasileiros com os gendarmes é bem curiosa. Apesar dos constantes prejuízos causados pela polícia francesa, raramente ouço alguém se referir a eles com ódio. "Esses homens são bons demais. Eles pegam a gente e não batem nem nada. Não mexem com ninguém. E ainda ajudam quem precisa", contou Domingos, sob a concordância dos cerca de cinco consumidores com quem batia papo em sua cantina.
É à base dos gendarmes, 15 minutos rio acima da Ilha, que os garimpeiros recorrem quando alguém se acidenta gravemente ou cai seriamente doente. O socorro médico nunca é negado e não raro os pacientes são levados de helicóptero para se tratar na capital guianesa, Caiena.
"Somos a França, temos nossos valores", me explica orgulhoso o Comandante Pons, oficial da Gendarmerie encarregado de combater os garimpeiros brasileiros, em seu quartel general, em Caiena. Se o governo brasileiro tivesse os mesmos valores, provavelmente a maioria dos brasileiros nas selvas da Guiana não estaria ali.
Mas se depender de Pons vai ficar cada vez mais difícil trabalhar em lugares como o Sikini. A pressão é grande para que a presença dos brasileiros seja combatida. A maioria dos rios da colônia, antes de águas límpidas, tornou-se barrenta e contaminada por mercúrio. As matas estão sendo destruídas. A riqueza que é levada para o outro lado da fronteira não deixa um centavo de imposto. Grupos ambientalistas e a indústria do turismo são os que mais exigem uma atitude enérgica.
A estratégia de pons é evitar o confronto, mas causar tamanho prejuízo aos brasileiros ao ponto de tornar inviável continuar trabalhando no território francês. Recursos não são problema. Sua equipe tem apenas cinco homens, mas tem o poder de mobilizar, quando quiser, o apoio não só do efetivo de cerca de 800 gendarmes que policiam a colônia, mas o que precisar dos cerca de 4 mil soldados franceses e membros da Legião Estrangeira estacionados ali - incluindo o mais importante, seus equipamentos. Só em 2005 foram 107 operações de destruição, cerca de duas por semana, número que aumentou em 2006.
"É como uma guerra econômica", explica o comandante francês. Guerra essa que ele pretende vencer, mas não sem deixar de admirar a capacidade de sobrevivência dos brasileiros. "Com nada eles fazem coisas incríveis", reconhece.
Quando cheguei no Sikini ficou claro por que essa capacidade de sobrevivência é necessária para encarar a vida nos garimpos guianeses. Não é tarefa para qualquer um.
Se não fosse a carona no quadriciclo de Márcio, que costuma transportar a carga de Seu Domingos e a pedido desse me esperava no Capivara, um porto usado quando o rio está baixo demais para permitir que as canoas cheguem até o Sikini, teria que andar duas horas numa picada enlameada pra chegar à currutela, que não passa de uma rua no meio da mata com barracos de lona dos dois lados. A estrutura já foi melhor antes de os gendarmes intensificarem suas ações, há cerca de quatro anos, pondo fim aos tempos áureos da região. Nessa época um dos vários cabarés que propiciavam o divertimento noturno e freqüentemente limpavam as economias dos mais afoitos tinha até chão de cimento. Hoje não vale a pena investir nem em casas de madeira, mesmo que simples, se é certo que mais cedo ou mais tarde os gendarmes virão para queimá-las.
A currutela, na verdade, é apenas um ponto de apoio de uma complexa cadeia econômica. Não são apenas garimpeiros que trabalham num garimpo. Aliás, freqüentemente esses estão na base da pirâmide social. Enquanto não batem num bom veio de ouro, o que na maioria das vezes nem acontece, podem ficar meses trabalhando num baixão enfiado no meio da mata, a horas ou dias de caminhada do vilarejo mais próximo, só pelo rancho fornecido pelo dono das máquinas. O trabalho no baixão é brutal e devastador para o meio ambiente. Usando uma bomba a diesel superpotente para pressurizar a água chupada de um reservatório próximo, geralmente criado com o represamento de algum córrego, uma equipe de quatro homens vai abrindo um buraco no chão da mata com uma mangueira de pressão similar à dos bombeiros. A força da água é enorme e se a mangueira escapulir das mãos do operador vai começar a chicotear no ar descontroladamente. Caso o bico que controla o jato, que pesa alguns quilos, pegue na cabeça de alguém, é morte na certa. A água misturada com terra e, idealmente, ouro removida pelo jato d'água é então chupada por uma bomba de sucção e despejada numa espécie de escorrega de madeira revestido de carpete. É o carpete que acumula o ouro em pó, que é separado de suas impurezas ao ser misturado com mercúrio líquido, um metal pesado extremamente tóxico, e queimado com um maçarico. O processo todo é bastante simples e tosco. Nenhuma precaução, seja com os cursos d'água, a mata ou a saúde dos trabalhadores, é tomada.
O operador do bico jato é quem faz o trabalho mais pesado, já que a qualquer vacilo a mangueira pode ganhar vida própria. Mas quem controla a mangueira de sucção também não pode dar mole, além de ser obrigado a passar o tempo todo dentro d'água. Se a mangueira sugar ar em vez de água o motor pára e toda a operação tem que ser interrompida até a máquina ser sangrada para voltar a funcionar, o que pode levar um certo tempo. Eventualmente uma cobra desce junto com a terra e erra assustada e sem direção pela lama, situação não muito confortável para quem está descalço e atolado ali até o meio das canelas. É para lidar com elas e com o entulho que desce do barranco, e manter as máquinas em ordem e com combustível, que servem os dois outros membros da equipe. As posições são regularmente alternadas, sobretudo para evitar a exaustão do operador do bico jato, cujos músculos não relaxam um segundo enquanto a mangueira está em suas mãos.
A jornada de trabalho pode chegar a 16 horas por dia e a única remuneração fixa é a comida e o alojamento, normalmente uma barraca de lona ainda mais precária que as da currutela. A malária é companheira constante. Se finalmente encontram ouro, 50% da produção fica com o dono das máquinas e 25% com seu gerente. O que sobra é dividido igualmente entre o povo do baixão. Apesar de sua dureza, para muitos essa vida parece a mais atraente entre outras poucas alternativas. "Com todo o pouco que a gente ganha aqui dentro ainda é mais do que lá fora", me diz Santarém, que trabalha num baixão que visito, próximo à currutela do Sikini.
Garimpo é um vício difícil de largar, mas para a maioria dos que se dispõem a encarar essa vida também é a única possibilidade de mobilidade social. Na maioria das vezes o salto é apenas de miserável para remediado. "Quem não tem leitura, como eu, tem que entrar pro mato pra trabalhar. Isso se quer ver os filhos estudando", me explica um colega de Santarém que há quatro meses não sai ali de dentro, mas tem a sorte de conseguir fazer de um a quatro salários mínimos em todos eles. Com menos sorte, ele já chegou a ficar um ano e meio sem poder sair de outro baixão, também na Guiana.
Mas não é só no baixão que se pode fazer ouro num garimpo, apesar de o produto dele ser a base de tudo. Há toda uma economia que funciona ali dentro que não envolve sofrer sob a pressão de um bico jato. É um capitalismo na sua forma mais pura que funciona de maneira bastante eficiente e sem conflitos trabalhistas. Tirando as cozinheiras, que ganham um fixo, a maioria dos que são empregados recebe por produtividade. Não ouvi ninguém reclamar da remuneração. As profissões ali dentro são inúmeras, basta inventar algo pelo qual alguém se disponha a pagar. Há os carregadores, pilotos de quadriciclo, motoristas dos cerca de 17 tratores que transitam ali dentro, encarregados das cantinas, vendedores eventuais, chamados de marreteiros (como Nilma, minha companheira de viagem na canoa de Bundinha), mecânicos para todas as máquinas, ourives e, sempre indispensáveis, as prostitutas, que são livres empreendedoras e não se submetem a cafetões.
No topo da cadeia social estão os comerciantes e os donos das máquinas, sejam as do baixão ou as que circulam com carga, que são normalmente as mesmas pessoas.
Num garimpo pode-se fazer basicamente o que bem entender. Cada um cuida da própria vida e evita se meter na dos outros. As palavras democracia e burocracia são freqüentemente confundidas. Os limites são impostos pela lei da 12, calibre preferido e abundante. E o que não falta são juízes dispostos a aplicá-la. É conversa corrente que algumas estrelas do programa Linha Direta circulam à vontade por ali, desfrutando do desejado anonimato, bastante perturbado pela minha presença. No dia que cheguei, uma das canoas com que cruzamos descendo o rio foi assaltada e 800 gramas de ouro foram levados de um garimpeiro que transportava ainda o ouro de outros três. Era dinheiro que seria mandado para as famílias nas cidades, para pagar as contas da casa, a escola dos filhos e as dívidas da praça. Os assaltantes, que tinham os rostos cobertos, sabiam do que estavam atrás, pois não levaram nada dos outros passageiros do barco.
No fim da tarde já havia vários suspeitos do assalto e na manhã seguinte ao menos uma patrulha já partira na caça deles. A justiça ali não perde muito tempo em elucubrações. E é aí que mora o perigo. Em uma das reuniões em que se planejava a criação de mais uma equipe para a caçada minha presença não constrangeu ninguém e vários nomes foram apontados como os autores do roubo, apesar de a ação ter sido praticada apenas por três pessoas. Para cada nome levantado algum dos presentes se propunha logo a partir para a ação e matá-lo. "Mas ele já deve estar escondido no mato", ponderou um. "Então a gente pega a mulher dele que ele aparece", responde outro. "Eu vi o irmão dele ontem", diz um terceiro. "Se eu encontro com esse, mato na hora, ai se não mato!", reage outro, cujo ouro estava entre o roubado. Alguém menciona que o irmão é boa gente.
Na última vez que algo semelhante aconteceu morreram sete em um só dia, entre eles três que depois se constatou serem inocentes. É a justiça na base da tentativa e erro.
Mas não é a lei da 12 a que mais mata. A cachaça e o crack são os algozes mais freqüentes, não por suas conseqüências físicas, mas pela valentia que estimulam. Por isso a currutela é vista como o lugar mais perigoso do garimpo. Como me explicou a cozinheira de seu Domingos, ainda na Ilha: "O povo ali não briga, não. Fazem logo é matar".
Pistola na cintura ou 12 ao ombro, várias de repetição, são acessórios comuns por ali. Como nos filmes de faroeste, é nos cabarés, que não passam de barracos de lona ou madeira com algumas mesas, um freezer recheado, balança de precisão no balcão como caixa registradora e som nas alturas, que os destinos costumam ser selados. É quando o ouro é farto que a coisa fica mais perigosa, com vários brabos carentes dispostos a viver em uma só noite tudo o que não puderam nos meses enfiados no mato. É um lugar evitado pelos que não gostam de confusão. Como me explicou seu Domingos, que é evangélico, ainda em nossa viagem para a Ilha: "Dos que começaram comigo no garimpo só estão vivos os humildes".
Dormir na currutela exige uma certa dose de coragem ou indiferença fatalista. Tipo o que será, será. Um ataque aleatório não é provável, mas não é muito tranqüilizador escutar os vários tiros disparados durante a noite enquanto durmo numa rede apenas com paredes de lona a minha volta. Me garantem que os tiros são para o alto, ou ao menos a maioria deles, prova disso é a ausência de corpos estendidos na rua pela manhã, mas não é muito fácil confiar no senso de direção de um garimpeiro noiado. Como sabe qualquer carioca, basta uma bala. Mas pelo que me dizem as noites por ali hoje estão muito mais seguras do que já foram.
No caso de uma eventualidade, ao menos a currutela conta com a presença salvadora de Cavalcanti. Formado como técnico de laboratório, no garimpo ele é também farmacêutico, infectologista, cirurgião e especialista em trauma. Em seu barraco de lona, onde um cartaz anuncia a realização de exames de malária, urina, fezes, gravidez e leishmaniose (na grafia do nome científico!), é capaz de realizar até pequenas cirurgias. São 24 anos de experiência prática no que chama de "medicina de garimpo". "Lá fora o que eu tô fazendo é crime, mas aqui dentro sou só eu. Vou deixar morrer?", questiona.
Quando passo por sua barraca numa tarde de calor sufocante, encontro-o coletando o próprio sangue para um exame. Vinte minutos depois, com um temporal já formando sobre nossas cabeças, a lâmina confirma seu diagnóstico: malária. A doença, onipresente no garimpo, é sua grande especialidade, assunto sobre o qual garante poder discutir em igualdade de condições com qualquer especialista mundo afora. Afinal, quantos desses têm a oportunidade, como ele, de tratar de cerca de 100 casos por mês (a 3 gramas de ouro - R$ 120 - por paciente)? Se depender dos conhecimentos de Cavalcanti, ele garante, ninguém ali morre da doença. Garantir o mesmo para os feridos por bala ou acidentes já é mais complicado, mas ao menos esses são preparados da melhor maneira possível para encarar a viagem de seis horas de canoa até o acampamento dos gendarmes, às margens do Oiapoque, o hospital de emergência favorito do médico do garimpo. Não que Cavalcanti já tenha colocado os pés por lá. Se o fizer não contará nem mesmo com a gentileza de ser deportado, vai é em cana mesmo, e não só por exercício ilegal da medicina. Seu nome já é conhecido entre os gendarmes, para quem ele é um grande mistério. A cada incursão na currutela é ele que os policiais mais procuram. Crêem que, pelo seu nível de instrução, deve ser uma espécie de líder dos garimpeiros dali. O que diverte bastante o "doutor". "Você já viu garimpeiro ter chefe? Aqui é cada qual pra si mesmo", ri.
Esse espírito anarquista, que garante a sobrevivência ali dentro, no mundo lá fora acaba sendo uma cruz. "O camarada sai do garimpo, vai procurar emprego e é como se tivesse saído da penitenciária", reclama Irmão, garimpeiro evangélico que encontrei na viagem de volta pro Oiapoque. "As pessoas vêem só o lado da droga e da violência. Nunca vêem o lado de quem tá tentando trabalhar. Tá errado pra tentar viver certo", me diz em seu tom tranqüilo. "Na cidade eu não gosto de dizer que sou garimpeiro, as pessoas perguntam logo quantos eu já matei."
Parte do problema é que o garimpeiro pode passar anos isolado dentro do garimpo, vivendo em condições terríveis e praticamente sem contato com não garimpeiros. O garimpo vira sua vida. Uma vez na rua é difícil fazer a transição. "Quando vai pra cidade a gente descobre que fala uma outra linguagem", me diz Bundinha, 11 filhos com sete mulheres, tudo "largado por aí". Quem melhor me resume a questão é um comprador de ouro de Oiapoque, ele mesmo ex-garimpeiro. "Tem um ditado no garimpo que diz: 'É mais fácil um homem virar garimpeiro do que ele voltar a ser homem de novo'."
Em breve essa cruz vai começar a pesar. O Sikini tem seus dias contados. A maioria dos garimpeiros aposta que a repressão dos gendarmes franceses não será suficiente para dissuadi-los de trabalhar ali. O que eles não contam é que sua principal base de apoio, a Ilha, o cordão umbilical que alimenta o garimpo, muito em breve vai deixar de existir.
O arquipélago está dentro da área do Parque Nacional das Montanhas de Tumucumaque, criado em 2002 justamente para proteger a rica floresta que faz a fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. De acordo com a legislação brasileira, não pode haver moradores dentro de um parque nacional. "Muito menos causando dano ambiental para apoiar uma atividade ilegal num país vizinho", me diz Marcela Marins, uma paranaense em seu terceiro ano de Ibama que é a chefe substituta do Parque.

Ela e seus colegas já estão se preparando para dar início ao processo de remoção das cerca de 100 casas que ocupam as ilhas e já se espalham para a margem brasileira do rio. Como não têm poder de polícia, eles precisam solicitar a desocupação à justiça, que então ordena que a Polícia Federal ou o Exército façam o serviço.
Além do dano ambiental causado, o que mais preocupa o Ibama na ocupação das ilhas é a enorme quantidade de combustível armazenada ali, sem o menor cuidado, que se detonada pode facilmente mandar a comunidade toda para a Lua. Com a situação sob controle, Marcela poderá finalmente dar início a seu plano de estimular o turismo ecológico na região, que é deslumbrante.
Sem a llha, e com um maior rigor no controle do tráfego de mercadorias pelo rio Oiapoque já sendo negociado entre a Polícia Federal e o Exército brasileiros e a Gendarmerie francesa, a vida dentro do Sikini vai se tornar inviável. De 2004 para cá a cooperação entre o governo da Guiana e as autoridades brasileiras para lidar com a invasão da colônia vizinha se intensificou bastante. A Polícia Federal do Oiapoque, que apenas em 2006 ganhou instalações adequadas, já estuda montar um posto de fiscalização na Gran Roche, para impedir a passagem de mercadoria para os garimpos.
Como não existe outra grande fofoca de ouro no radar, apenas as já saturadas e hostis áreas do Suriname e um ou outro garimpo pouco produtivo no Brasil, os garimpeiros vão ficar sem ter para onde ir. As ações previstas do lado brasileiro não incluem um plano de "desmobilização" para esse exército e a perspectiva de se ver invadida por uma turba de sem-garimpos apavora a prefeitura de Oiapoque.
Numa apertada sala do prédio tão mal cuidado quanto a cidade que abriga a prefeitura, Edson Maia, secretário de obras do município, foi surpreendentemente sincero: "Ainda bem que você não perguntou se estamos preparados para lidar com o problema. Estamos temendo saques". Com a decadência econômica inevitável, eles deixam para se preocupar depois.
O comprador de ouro do Oiapoque aposta em Roraima como possível destino para a turma, mas lá todo o ouro está em terras indígenas, como a maior parte das grandes reservas conhecidas hoje no Brasil. As que não estão em áreas indígenas estão dentro de parques nacionais, áreas militares ou outras regiões protegidas. A última fofoca de Roraima, no final da década de 90, dentro da mesma área indígena que ele aponta como possível alvo de agora, resultou no massacre de vários índios e numa ação da Polícia Federal de ferocidade ímpar para retirar os garimpeiros de lá. É pouco provável que as autoridades permitam que tamanho caos se repita agora, com a sociedade cada vez menos tolerante ao dano ambiental causado pelo garimpo. Serra Pelada, que comenta-se voltará à atividade, só reabrirá se for explorada de forma mecanizada, provavelmente por uma empresa associada à cooperativa de garimpeiros que ganhou na justiça o direito de explorar a mina, isso se a cooperativa conseguir sair do processo de guerra civil permanente em que vive.
A morte do Sikini marcará o fim da que talvez seja a última grande fofoca de ouro que o Brasil vai ver. O fim de uma era e de uma espécie
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A sustentabilidade existe nos garimpos?

A sustentabilidade existe nos garimpos?



O principio amplamente divulgado de tirar o ouro uma única vez e deixar os buracos, ou seja, a prova incontestável da insustentabilidade é muito mais complexa e não é totalmente verdadeira no garimpo e isto por diversas causas que apresentamos abaixo:

- Renovações de produções nas grotas pequenas através de novas tecnologias de extração, permitindo a baixa do teor de corte. A primeira lavra sendo normalmente manual, tendo passado por outras formas de lavras como o bico jato, no mesmo local. Conhece se diversas repassagens com uso de bico jato de 3 polegadas, 4 , 5 e agora 6 polegadas em aluviões. Existe até uma grota chamada grota das sete repassagens e esta localizada na cabeceira do Rio Muiuçu, no garimpo Comandante mamar, já no estado do amazonas
- Recuperação do ouro fino não extraído nas passagens anteriores através de processos químicos como a cianetação
- Revitalização dos ouros nos aluviões: a causa destas revitalizações é variada e não totalmente explicada, mas a liberação do ouro da pirita através da acidez do solo, a ação de bactérias solidificadoras de ouro em formas de ions são amplamente aceitas.
- O uso de Pás Carregadeira (PC) que permitiu abaixar o teor de corte e lavrar aluviões médios e de teores baixos. Não sabemos se nestes aluviões o processo de renovação verificado nos aluviões pequenos ira ocorrer, pois até agora, só houve uma passagem e o prazo de renovação ocorrido nos aluviões (alguns anos) pequenos não chegou a termo nos aluviões médios.
- O uso de dragas cada vez maiores e mais profundas em rios navegáveis, realizando repassagens quase infinitas. Só que no caso dos rios, com o realuvionamento e a modificações da localização dos rejeitos, a perda de parte importante nas caixas e um possível abastecimento contínuo proveniente das margens deixa os rios com teores médios e baixos mas ainda com teores lucrativos   
- A propagação e integração da informação, com a descoberta de ouro fora dos aluviões, em colúvios, elúvios e filões, tanto por garimpeiros que ficam seguindo os bamburros dos aluviões no rumo da montanha, ou por empresas que mapeiam os solos com amostragens geoquímicas e descubram anomalias auríferas desconhecidas dos garimpeiros fora dos aluviões
- A tecnologia de profundidade com garimpeiros indo buscar o ouro a mais de 100m de profundidade
Isto explica que os garimpos do Tapajós se mantem há mais de 50 anos e tudo indica que poderá se manter por mais um período de 50 anos
Um outro fator de continuidade e sustentabilidade é a redução da população garimpeira, associado ao aumento das opções de frente de trabalho ou seja o índice de ocorrências/garimpeiro que estava na faixa de 0,125 em 1983 hoje esta na faixa de 0,5