domingo, 10 de julho de 2016

As Companhias Inglesas e a Mineiridade Aurífera

       As Companhias Inglesas e a Mineiridade Aurífera


A Mina de Ouro do Gongo Socco é tida como verdadeiro mito da mineralogia mundial. Ainda nos dias de hoje, ela é citada pela literatura mineralógica como uma das mais pródigas minas de ouro de todo o mundo. localizada, hoje, no município de Barão de Cocais, a mina pertenceu ao excêntrico e pitoresco Barão de Catas Altas, que, depois de apurar quantidade absurda de ouro de seus veios, tornando-se senão o homem mais rico do Brasil Imperial, a vendeu a uma companhia de mineração inglesa, a primeira de várias instituídas em Minas, inaugurando, assim, um novo panorama mineralógico na província, a partir do qual, os métodos arcaicos de cata do metal precioso foram substituídos pelo emprego de técnicas industriais, dentre elas, o uso de vagonetes e de pilões hidráulicos, empenhados, respectivamente, no transporte e no processamento do minério aurífero. Em trinta anos, de 1826 à 1856, sob a direção dos ingleses apenas, o Gongo produziu 27.887 quilos de ouro puro. Esta pouca conhecida fase da mineração aurífera deixou marcas culturais e econômicas indeléveis no povo mineiro.
No campo da cultura, por exemplo, do convívio com os ingleses das companhias mineradoras é atribuída a utilização por parte dos mineiros da interjeição “Uai !” (que exprime surpresa e/ou espanto), a qual possui semelhanças fonéticas e semânticas com o vocábulo Why utilizado na língua inglesa com o mesmo sentido do nosso “Por quê?”, ou como interjeição, assumindo, neste caso, o mesmo sentido do “Uai” mineiro. Nota-se que o “Uai” mineiro e o “Why” britânico possuem a mesma representação fonética, e, nota-se ainda, que o “Uai” é a expressão da língua portuguesa falada no Brasil que mais se relaciona com a identidade mineira. Ainda na composição de nossa mineiridade, os trains (vagonetes) ingleses que transportavam o material extraído da mina de Gongo Socco e de tantas outras, aquelas grandes máquinas tão estranhas aos olhos dos mineiros, originaram a expressão “trem”, comumente, utilizada em Minas Gerais para designar qualquer “objeto”, “coisa”, “troço” ou “negócio”. 
Já no campo econômico, como os métodos de produção das companhias inglesas demandavam o emprego de uma variada gama de artefatos de ferro, forjarias do duro metal surgiram por toda a província, possibilitando o nascimento da vocação siderurgia mineira. No caso específico do Gongo Socco, as cabeças dos pilões hidráulicos e vários outros instrumentos eram fornecidos pela Fábrica de Ferro de Jean Antoine Dissandes Felix de Monlevade.
A reseva de ouro na região e mantida em sigilo pela Vale, mas os geólogos acreditam ter muitas toneladas de ouro ainda, pois é muito comum  depois de chuva, catarem pepitas de ouro de vários tamanhos.
 

O Ouro Mineiro

       O Ouro Mineiro


Barra de ouro extraído em Minas,em 1809, devidamente quintado.

Em Minas, a descoberta do ouro se deu no final do séc. XVII, simultaneamente, por vários bandeirantes e sertanistas: Salvador Fernandes Furtado descobriu as lavras do Ribeirão do Carmo (Mariana), Antônio Dias Cardoso revelou a existência do metal precioso no vale do Tripuí (Ouro Preto), o padre João Faria descobriu o famoso ouro preto. João Lopes de Lima apontou outras jazidas no Ribeirão do Carmo. Borba Gato revelou as minas de Sabarabuçu (Sabará). Domingos Fonseca Leme descobriu ouro em um afluente do rio das Velhas. Domingos do Prado, no rio Pitangui. Bartolomeu Bueno, no rio Pará. Antônio Garcia Cunha, nas margens do rio das Mortes (São João DeL Rei).
Tantas descobertas simultâneas e em áreas relativamente distantes entre si, evidentemente, não foram meras coincidências. O desabrochar instantâneo de tantas minas tem explicação mais pragmática: em 1694, sucumbindo ao óbvio, a Coroa Portuguesa decidiu modificar a legislação que a tornava dona de todos os minérios encontrados no Brasil. A partir de então, o direito de posse das minas seria concedido ao descobridor, cabendo ao rei apenas e tão-somente um quinto dos achados. Agora, o ouro estava acessível a quem se interessasse por ele. Só então os sertanistas de São Paulo revelaram ao mundo as minas que já deveriam conhecer havia pelo menos 20 anos. O fato teve repercussão global, pois as lavras encontradas nas Gerais configuraram a maior descoberta de ouro registrada no planeta, até então. Foi o maior volume de ouro, explorado da forma mais célere. Portugal instituiu um método, extremamente, eficiente de exploração do ouro mineiro. Em breve, as mais de mil toneladas, oficialmente, arrancadas das entranhas da terra fariam o fausto e a opulência das cortes européias, especialmente da Inglaterra, graças ao Tratado de Methuen (o tratado dos vinhos e dos panos), curiosamente, assinado com Portugal,logo após ao descobrimento das minas auríferas, em 1703, no qual se estabeleceu, entre outros termos, que à Inglaterra caberia metade de todo o ouro descoberto no Brasil. Portugal se beneficiou com pouco do ouro explorado nas Minas Gerais. Boa parte da porção de ouro que caberia aos portugueses, conforme as absurdas cláusulas do tratado, foi parar nas mãos do Vaticano e da Casa Real dos Hapsburgs da Áustria, a monarquia mais influente da Europa, na época.
O ouro extraído de nossas terras criou as condições financeiras necessárias para a mais importante revolução econômica do mundo - a Revolução Industrial. O ouro mineiro permitiu que a circulação de moeda fosse triplicada na Europa, já que o metal era e ainda é usado como lastro para emissão monetária. Diante da abundância monetária conseqüente da abundância de ouro nos mercados europeus, foi possível o acúmulo de capitais que resultaram na Revolução Industrial, primeiramente, na Inglaterra, graças ao tratado dos vinhos, panos e muito ouro.
Mas, o ouro mineiro não foi todo perdido. Ele foi responsável pelo surgimento de uma cultura urbana frenética, complexa e esplendorosa, sem precedentes em terras americanas e ainda há bastante ouro em Minas. O chamado ouro de aluvião que se extraiu facilmente e em grande quantidade nas margens dos ribeiros, este sim se esgotou. O ouro de filões e veios ainda é farto.
O que, definitivamente, encerrou o ciclo do ouro em Minas foi a abolição da escravidão. Sem escravos a atividade se tornou inviável, sob o ponto de vista econômico. Foi quando houve o predomínio das companhias inglesas na exploração do ouro mineiro, as quais implantaram métodos industriais de extração do metal, alcançando grande produção, em continuidade à histórica pilhagem da riqueza de Minas. Posteriormente, diante da onda nacionalista que se irrompeu com o Estado Novo de Vargas e da justificada consternação que a usurpação de nosso ouro, historicamente, tem afetado o imaginário da nação, Getúlio Vargas, finalmente, desmantela grande parte do sistema de exploração aurífera montado pelos ingleses e ,desde então, explorar ouro em Minas se tornou tabu.

A Descoberta do Ouro Preto

                   A Descoberta do Ouro Preto

No final do sec. XVII, as riquíssimas minas do Ribeirão do Carmo (atual Mariana) já haviam sido descobertas. Ordens da Coroa Portuguesa determinavam a Artur de Sá (governador da Capitania do Rio de Janeiro) que subisse em pessoa ao sertão, a fim estabelecer novas minas e de aumentar a produção das já descobertas. Em 1697, Artur de Sá ruma à Capitania de São Paulo, em busca de provisões e de aparelhamento para a expedição para qual fora designado. Já em Taubaté, em meio ao turbilhão migratório que se seguia para as Minas, fervilhava, de boca em boca, a notícia do descobrimento de um granito misterioso, escuro, cor de aço, de tamanhos variados e forma arredondada, que, imediatamente, chamou a atenção do governador carioca.



O primeiro descobridor destes granitos foi um mulato que, juntamente, com alguns paulistas, esteve no sertão para capturar e escravizar índios. Chegando à encostas do Rio Tripuí, nas imediações do Pico do Itacolomi (atual cidade de Ouro Preto), desceu ao fundo do vale para matar a sede no curso d'água e passando uma cuia pela margem do rio, percebeu que alguns granitos cor de aço ficaram depositados no fundo do recipiente.
Sem saber do que se tratava e nem mesmo seus companheiros, tratou o descobridor de levar consigo um porção daquelas pepitas escuras, que tinha conseguido tão facilmente. Chegando a Taubaté, indagaram: que casta de metal era aquele? Artur de Sá, intrigado com o enigmático achado, mandou que lhe trouxessem uma daquelas amostras para análise. Sem pestanejar, pegou uma das pepitas e a levou à boca, trincando-a com os dentes. Naquele momento, revelou-se que por debaixo de uma fina capa escura escondia-se o etal precioso: tratava-se de ouro puro, do legendário Ouro Preto. Mais tarde, a ciência viria a explicar tal fenômeno: a presença de ferro e de ouro no leito do Rio Tripuí, somada ao PH característico de suas águas, possibilitou a ocorrência de um processo natural de galvanização, que, durante milhares de anos, revestiu as pepitas de ouro de uma fina e escura camada de óxido de ferro.

História das Minas de Ouro e Diamante: Chico Rei, O Rei do Congo no Brasil.

História das Minas de Ouro e Diamante: Chico Rei, O Rei do Congo no Brasil.

Chico Rei, nascido Galanga no Congo, África, como monarca guerreiro e sumo-sacerdote do deus pagão Zambi-Apungo, foi capturado com toda a sua corte por comerciantes portugueses de escravos e vendido com o filho, Muzinga, no Rio de Janeiro, em 1740.Durante a travessia da África para o Brasil, a rainha Djalô e a filha, a princesa Itulo, foram jogadas ao mar pelos marujos do navio negreiro Madalena, numa tentativa de aplacar a ira dos deuses, que assolaram a embarcação com uma tempestade que quase a levou ao naufrágio. Comprado dos traficantes pelo minerador Augusto de Andrade Góis, Galanga, então batizado de Chico, foi levado à Vila Rica (Ouro Preto) para trabalhar na famosa Mina de Ouro da Encardideira. Lider nato e extremamente carismático, em pouco tempo, Chico conquista a confiança do proprietário da mina, passando a conduzir a exploração dos filões e veios auríferos, pessoalmente. Chico Rei, então, descobre um grande filão de ouro depositado nas entranhas da mina, acontecimento este que é logo atribuído às providências de Santa Efigênia e de Nossa Senhora do Rosário, o qual é mantido inexplorado e oculto do dono da mina. O tempo passa e a Mina da Encardideira começa a apresentar sinais e exaustão. Sem saber do rico veio aurífero guardado por Chico Rei e, portanto, julgando esgotado o ouro de sua mina, Augusto de Andrade Góis vende a Encardideira a Chico Rei, que já havia alcançado sua liberdade, pagando por sua carta de alforria com o ouro que conseguiu nos extravios, no trabalho aos domingos e nos dias santos.
O primeiro negro proprietário de uma mina de ouro na Capitania de Minas Gerais, condição esta que deixou furioso o Governador de Minas, Gomes Freire de Andrada, o conde de Bobadela. Chico Rei então passa a explorar o filão aurífero que havia ocultado de todos. Com o grande volume de ouro que extrai da mina, Chico Rei alforria outros 400 cativos, entre os quais, todos os integrantes da sua corte africana, sendo, por isso, considerado um dos maiores libertadores de escravos do Brasil. Aproveitando, habilmente, de uma brecha no sistema colonial, Chico Rei, um homem inteligente, carismático e enérgico, torna-se rei novamente no exílio. Em 6 de janeiro de 1747, data em que o calendário católico comemora o Dia de Reis, Vila Rica foi surpreendida por uma festa que desconhecia. Galanga, rei do Congo, batizado Chico, como todo escravo trazido a Minas, é coroado pelo Bispo de Mariana rei da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos Alforriados. Vila Rica se torna palco das liturgias que outrora Chico Rei praticara no Congo como rei e sumo-sacerdote, só que desta vez, as dedica às santas católicas, para as quais manda erguer a Igreja de Santa Efigênia e a Igreja do Rosário dos Homens Pretos.

Cortejo da Rainha do Congado: Carlos Julião.

Assim, nos dias santos dedicados à Santa Efigenia, a santa negra, e à Virgem padroeira dos escravos e negros forros, Nossa Senhora do Rosário, e em dia de reis, Chico Rei e sua corte tomam as ruas de Vila Rica em ricas indumentárias, seguidos por músicos e dançarinos, ao som de caxambus, pandeiros, marimbas e ganzás. É a festa do Rei do Congo nas Minas do Brasil.

Congado, Rugendas.

É a celebração da alegria e da perseverança de um Rei que, embora tenha sido escravizado junto com sua corte, por seu próprio trabalho e com muita astúcia e inteligência, volta a ser rei e líder de sua gente, deixando um legado, que permanece vivo há quase 300 anos e que se traduz numa das mais tradicionais expressões da cultura do povo das Minas: o Congado

História das Minas de Ouro e Diamante: Gongo Socco, o Colosso Aurífero

História das Minas de Ouro e Diamante: Gongo Socco, o Colosso Aurífero

A mina do Gongo Socco é, hoje, explorada pela mineradora Vale, que extrai de seus antigos talhos o minério de ferro. Do arraial original, onde viveram e trabalharam cerca de 100 ingleses, 100 mineiros e mais 600 escravos, restaram apenas ruínas. Transcrevo, a seguir, um extrato da obra Opulência das Minas Gerais, publicada em 1924, que conta um pouco da história desta, outrora, formidável mina de ouro:

Aspecto atual da mineração no Gongo Socco, Barão de Cocais

Quarenta léguas, pouco mais ou menos, ao norte de Vila Rica (atual Ouro Preto) está o distrito de Gongo Socco, destinado a vir a ser mais celebre talvez que nenhum dos estabelecimentos fundados outrora em Minas Gerais.
Na linguagem indígena, Gongo Soco significa literalmente, Caverna de Ladrões. Existe no país uma tradição que, cem anos atrás, numerosos bandos de negros rebelados depositaram suas tomadias numa caverna natural, que se acha no jardim da Casa Grande. Os lucros consideráveis que os faiscadores tiraram do solo banhado pela torrente do Socorro deram uma reputação de riqueza a este lugar.
Um chamado Câmara, que era proprietário dela, apreciava tão pouco o seu valor que vendeu o Gongo pela módica soma de 800 libras st. ao Guarda-Mor geral das minas, José Alves da Cunha. Muito pouco tempo antes da morte deste último, dois negros, remontando sucessivamente os aluviões auríferos do regado do Gongo, descobriram em 1817, um grosso fragmento de ouro quase maciço de peso de cinco libras (dois quilos e meio) embutido numa rocha micacea ferruginosa. João Batista Ferreira de Souza Coutinho, depois o Barão de Catas Altas, que havia sucessivamente desposado duas filhas do Guarda-Mor geral José Alves, dirigia os bens de seu sogro, que era ao mesmo tempo seu cunhado, tendo desposado em segundas núpcias a irmã do Barão. Ele conservou secreto o descobrimento dos dois negros e, pensando que o fragmento de ouro havia sido descoberto da parte superior da montanha, fez diversas pesquisas que o levaram até a superfície aurífera da camada atual do Gongo. José Alves morreu em 1818 e o Barão de Catas Altas, de intendente que era desta mina, se tornou por usurpação proprietário dela, pois que dispôs a seu sabor dos reditos sem prestar conta alguma a seus parentes que eram seus co-herdeiros. No espaço de oito anos, ele ajustou, segundo o método brasileiro, talho aberto, somas imensas que se podem avaliar em milhões de cruzados. Durante dois anos, extraiu quinze libras (sete quilos e meio) de ouro por dia. Julgando esgotada a Mina do Gongo Soco, o Barão de Catas Altas vendeu-a pela soma de 90.000 libras st. à Companhia inglesa Imperial Brazilian Mining Association.
Casa do Barão de Catas Altas , em Gongo Soco, em foto de 1913, já em pleno processo de deteriorização.

Esta companhia se tinha formado em 1824, na ocasião da grande mania das especulações das minas; seu capital consistia em 350.000 libras st., representado por dez mil ações de 35 libras st. Cada uma.
A propriedade de Gongo compreende uma extensão de três milhas e meia em largura e quatro e três quartos de comprimento; está situada num belo vale regado pela torrente do Socorro, cujas águas, constantemente lodosas e avermelhadas, atestam as lavagens das minas.
Colinas cobertas de florestas e de pastagens formam ao longe as raias deste profundo vale. Antes de fazer esta aquisição, a companhia I.B.M.A possuía os domínios de Antonio Pereira e Cata Preta, perto do Arraial do Infeccionado. Cada uma destas propriedades é tão extensa como o Gongo e ambas têm grande fama de riqueza, porem é somente quando a Companhia obtiver da assembléia legislativa uma redução de direitos e for equiparada aos direitos pagos pelas outras companhias, que se poderá se ocupar da exploração dispendiosa, visto a natureza do terreno e o curso das águas que correm num vale profundo e estreito.
Desde 1826, os trabalhos da mina começaram em profundidade e realizaram logo as esperanças dos acionistas. No curto espaço de doze anos, esta mina extraordinária rendeu mais de 30.000 libras (quinze mil quilos) de ouro, perto de um milhão e duzentas mil libras st. O governo brasileiro teve, por sua parte deste grande total, perto de 2.000 contos, 15.000 lib. st. como direito proveniente da produção da mina, e 120 contos, 15.000 lib. st. como direito de exportação. Pode-se avaliar em 2.000 contos o dinheiro gasto pela Companhia na província das Minas...
É verdade que estes resultados são comprados a custa de enormes gastos, porque as despesas dessas dessa exploração não se elevam a menos de 45.000 lib. st. por ano, não compreendidos os 20% pagos ao governo sobre os produtos a mina. O número de empregados é considerável e foi preciso assignar grandes salários para decidir pessoas inteligentes a virem estabelecer-se nestas solidões. Um mineiro ordinário recebe 8 lib. st. por mês. É justo acrescentar que a careza é excessiva num país onde o transporte dos gêneros é feito às costas de bestas e onde, na estação das chuvas, as estradas tornam quase impraticáveis. Por serem os trabalhos da mina levados à grande profundidade, único meio de se obterem resultados importantes, foram necessárias florestas inteiras para se escorarem as obras subterrâneas.
Como a formação aurífera do Gongo é um composto de substancias moles, são por consequinte mui rápidos os progressos dos mineiros, mas para que não haja interrupção em seus trabalhos, é indispensável que sejam protegidos por vigamentos De três em três anos, apesar da dureza das madeiras brasileiras, devem esses vigamentos ser renovados, por causa da umidade que reina nas galerias do escoamento. Por isso a maior parte das madeiras, nos arredores imediatos do Gongo, já foram destruídas e a Companhia foi obrigada a comprar florestas a grande distância da mina.
A falta de madeira se faz sentir em todos os lugares onde estão estabelecidas as Companhias de Mineração... A estes gastos enormes se devem também juntar as ladroices que se cometem nas explorações; nenhuma vigilância seria capaz de acabar inteiramente com elas.
Nas minas de ouro seria preciso que cada mineiro ao sair da mina fosse estritamente revistado. Como semelhante revista não se pratica no Gongo, resulta daí que, nos tempos da grande prosperidade da mina, muitos empregados subalternos ajuntaram fortunas consideráveis. Agora, ou por estar a mina menos rica ou por ser melhor a moralidade dos mineiros, ou por ser maior a vigilância dos capatazes da mina, é fato que as ladroices se têm tornado infinitamente menos freqüentes.
Nada é mais desigual nem mais variável que os produtos da mina do Gongo. Como diz muito bem o diretor atual: a bloo of the peck may turn the voay from poverty to welth, uma enxada pode de um pobre fazer um homem opulento.
Em 1826, Gongo Socco era um miserável arraial, agora é uma linda aldeia européia que conta com mais de mil habitantes ligados ao serviço da Companhia. Duas Igrejas, uma delas católica e outra protestante suprem os misteres espirituais desta população. Os protestantes não têm até o presente tido motivo de mostrar-se satisfeitos dos pastores que lhes têm sido enviados de Londres. O último sobretudo, em vez de ser ministro da paz, trouxe discórdia à pequena colônia. Queria por força pregar contra o catolicismo; foi somente suspendendo-o de suas funções que se consegui restabelecer o sossego no Gongo.
Todas as casas do Gongo são de pedra e a mor parte delas rodeadas de lidos jardins. O hospital é um edifício espaçoso, bem distribuído, que, em caso de necessidade, poderia conter cem camas.