sábado, 24 de maio de 2014

Diamante mais valioso da história é leiloado por US$ 83,2 milhões

Diamante mais valioso da história é leiloado por US$ 83,2 milhões

  • Arremate ocorre horas após obra de Francis Bacon ser leiloada por US$ 142,4 milhões, o maior valor da história
  • Valor da gema quebrou recorde do ‘Graff Pink’, arrematado por US$ 46 milhões em 2010 na mesma casa de leilões, e até então o diamante mais caro da história

Precioso. Com forma ovulada, diamante rosa é a principal atração do leilão de outono da Sotheby’s
Foto: EFE
Precioso. Com forma ovulada, diamante rosa é a principal atração do leilão de outono da Sotheby’s EFE
GENEBRA - O mais valioso diamante do mundo – a Estrela Cor-de-Rosa – oval, sem falhas e de um intenso cor-de-rosa – foi leiloado ontem por US$ 83,18 milhões em 4 minutos e 45 segundos – um recorde para diamantes ou qualquer outra joia já vendida. O homem que comprou, Isaac Wolf, um famoso talhador de diamantes em Nova Iorque, anunciou ontem mesmo ter batizado a pedra com um novo nome: Pink Dream (Sonho Cor-de-Rosa). No salão de um luxuoso hotel em Genebra, lotado de compradores potenciais, convidados elegantes e mulheres com anéis de diamantes nos dedos, houve frisson quando o leiloador, David Bennett, presidente da divisão de joalheria para a Europa e Médio Oriente da Sotheby’s, anunciou o preço:
- É o recorde mundial de venda de diamante. Felicitações ! – disse Bennett.
 
 
A venda foi celebrada ao som da trilha sonora do desenho animado Pantera Cor-de-Rosa e com champanhe rosé Laurent Perier à vontade. Bennett discorreu sobre a rararidade de um diamante cor-de-rosa como este, que pesa 59,6 quilates – bem acima dos 5 quilates habituais. O diamante foi talhado de uma pedra bruta de 132,5 quilates descoberto na África em 1999 pela multinacional sul-africana De Beers. Foram necessários dois anos para talhar e polir a pedra, que recebeu a nota mais elevada em termos de cor e clareza do Instituto Gemológico da América. E bateu o recorde do Graff Pink, um diamante de 24,78 quilates vendido também pela Sotheby’s por US$ 46,2 milhões em 2010.
- Foi uma venda excepcional. Eu não tenho nenhuma hesitação em dizer: este diamante cor-de-rosa é realmente uma pedra real. Perfeito para qualquer coleção ou museu. Não há nenhuma pedra neste tamanho e cor no mundo - afirmou Bennett.
Duas pessoas representando o comprador nova iorquino, um deles com o kipa judaico, estavam na sala, “o que é raro nos dias de hoje”, comentou Bennett. O leilão começou às 21h16m (horário local), com o preço de 47 milhões de francos suíços. Quatro pessoas deram lance. O último a dar o lance antes de Isacc Wolf arrebatar a pedra por uma fortuna foi provavelmente um comprador chinês, que era representado pela presidente da Sotheby’s na Ásia, que falava com ele por telefone em mandarin. O preço final do diamante, segundo Bennett, se explica pela raridade:
- Estimamos em mais de US$ 60 milhões. Mas não tinha nenhuma expectativa (quanto ao preço final). É uma grande soma, mas não acho que esta pedra tenha um preço.
A Sotheby’s bateu o recorde não apenas deste diamante raro: num momento de economia continua morosa no mundo por conta da crise, a casa de leilão conseguiu a realizar “a maior venda de joias da História”: quase US$ 200 milhões. A Suíça não cobra IVA, imposto sobre valor agregado sobre joias vendidas no país a um estrangeiro, o que explica, segundo analistas, vendas excepcionais como esta.
O arremate ocorre poucas horas após a obra “Três estudos de Lucian Freud”, assinada por Francis Bacon, ser leiloada por US$ 142,4 milhões, quase o dobro do preço do “Pink Star”, alcançando o maior valor para um leilão de história.

Ele quer transformar 20 anos em 2

Ele quer transformar 20 anos em 2

O trabalho meticuloso de lapidação e o bom gosto das peças fizeram da austríaca Swarovski um ícone global. Sua meta, agora, é crescer no Brasil


Diz a lenda que o vidreiro austríaco Daniel Swarovski criou a empresa que leva seu nome, em 1895, para que toda mulher pudesse ter acesso a um diamante, mesmo que ele não fosse verdadeiro. Com esse objetivo em mente, o empreendedor começou a usar as técnicas refinadas de lapidação de diamantes para esculpir joias de cristal. Ficção ou realidade, o fato é que a grife conseguiu se firmar no cenário global como uma das marcas mais desejadas do segmento de bijuterias. Desde então, a Swarovski atravessou guerras, revoluções e viu a Boêmia, sua terra natal, ser incorporada à República Checa. 
 
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Roland Moecke, vice-presidente da Swarovski: "A bijuteria é um acessório utilizado
para marcar a força da personalidade de cada mulher"
 
Nas últimas décadas, a pegada mais pop também ajudou a transformá-la em um ícone para consumidores dos 16 anos aos 80 anos e numa potência com vendas anuais de € 3,08 bilhões. Se a ancestralidade e a qualidade foram importantes para sua consolidação, a globalização abriu novas fronteiras para a marca. Uma delas é no Brasil, onde hoje concentra uma de suas maiores apostas. Por aqui, a Swarovski pretende dobrar de tamanho e cravar sua bandeira em 60 pontos de venda até o final de 2016. Na prática, isso significa dizer que a empresa irá fazer em apenas dois anos praticamente o que levou 20 anos para conseguir. “O Brasil é um mercado estratégico para nós”, disse Roland Moecke, vice-presidente global para a área de produtos de consumo. 
 
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Pioneirismo asiático: a marca foi uma das primeiras a apostar na China. Hoje, o gigante asiático
é um dos principais clientes da fabricante de bijuterias
 
“Trata-se de um povo que valoriza a moda e gosta de novidades.” A ambição dos austríacos será facilitada devido ao processo de expansão dos shopping centers. Dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) indicam que 37 novos centros de compra deverão ser abertos até dezembro. O foco são as “cidades poderosas”, como o executivo classifica São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, pelo fato de funcionarem como polos regionais de compras, além de ditarem tendências em nível nacional. Para viabilizar a meta para lá de ambiciosa, a filial local da Swarovski recebeu o sinal verde para adotar o sistema de franquia. Até dezembro, serão abertas sete unidades próprias e outras quatro em associação com empreendedores. 
 
O investimento, nos próximos dois anos, deve atingir R$ 21 milhões, levando-se em conta o custo médio de R$ 700 mil para abertura de cada unidade. Neste contexto, cabe a seguinte pergunta: existe espaço para tantas lojas? Carla Assumpção, diretora-geral da Swarovski no Brasil, diz que sim. “O consumo tem sido o motor de crescimento da economia brasileira e queremos nos aproveitar disso”, afirma. Moecke concorda. “Os eventuais problemas vividos pela economia são pontuais e não comprometem nossa fé no País no médio e no longo prazo.”Em sua quinta passagem pelo Brasil, realizada no início deste mês, Moecke visitou clientes e autorizou Carla a introduzir outra novidade, a retomada das vendas dos produtos em lojas multimarcas, abandonadas no Brasil a partir do começo da década passada, quando a empresa iniciou sua operação próprias no País. 
 
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Cristais são eternos: visionário, o fundador da grife, Daniel Swarovski
criou máquina que fazia lapidações perfeitas, o que possibilitou
produzir em escala
 
A comercialização em lojas de terceiros é largamente empregada na Europa e na América do Norte, onde os brincos, pulseiras e enfeites de cristal da marca podem ser encontrados em redes como a espanhola El Corte Inglés ou a mexicana Liverpool. “As lojas monomarcas não são suficientes para aproveitarmos todas as oportunidades que o mercado brasileiro tem a oferecer”, disse o vice-presidente da marca. Essa parte do plano será mais bem detalhada ao longo deste ano e não tem data para ser implantada. De acordo com Moecke, a trajetória da marca por aqui muito se assemelha ao que aconteceu nos últimos dez anos na China e mais recentemente na Índia. 
 
Nesses países, a Swarovski não apenas investiu pesadamente na abertura de lojas como também na criação de uma identidade local, por meio da contratação de designers para a concepção de coleções exclusivas. “Começamos esse processo pela China, levamos para a Índia e a próxima escala será o Brasil”, afirmou. Para ele, as consumidoras de qualquer parte do mundo, independentemente da cultura, buscam as bijuterias por razões que incluem desde a necessidade de chamar a atenção até como forma de afirmar sua personalidade. “As brasileiras preferem cores mais exuberantes, ao contrário das chinesas, que gostam de peças mais discretas e de menor porte”, afirmou.
 
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Essa turma é joia

Essa turma é joia

Conheça os joalheiros brasileiros que brilham lá fora e são os queridinhos de atrizes de Hollywood e da primeira-dama americana, Michelle Obama

Nascido no Líbano, Jack Vartanian tem peças usadas por famosas no Brasil e no Exterior
Nascido no Líbano, Jack Vartanian tem peças usadas por famosas no Brasil e no Exterior
Em todo tapete vermelho, seja no Oscar, seja em Cannes ou na pré-estreia de um filme hollywoodiano, a mesma cena se repete: dezenas de repórteres tentam descobrir de qual designer é aquele vestido, joia ou sapato, enquanto flashes incessantes são apontados para as famosas, no intuito de clicar os “looks” que tanto são desejados pelas mulheres mundo afora. Atentos a essa cultura de celebridade, os estilistas e joalheiros que conquistam o coração – e o guarda-roupa, é claro – das estrelas conseguem maior visibilidade no disputado mercado de luxo. É o caso dos designers de joias brasileiros Jack Vartanian, Carla Amorim e Antonio Bernardo.
Juntos, eles levam o nome do Brasil para o mercado internacional com seus anéis, pulseiras, colares e brincos cada vez mais sendo vistos adornando atrizes como Emma Stone, Michelle Pfeiffer, Jessica Alba e até mesmo a primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama. Para Jack Vartanian, um dos mais badalados entre os queridinhos das famosas, a tradição vem de berço. Nascido no Líbano, o designer descende de uma família com expertise em pedras preciosas, o que seguramente aplainou sua carreira profissional. Vartanian trabalha principalmente com ouro, ródio negro, diamante, esmeralda, rubi e safira.
“A temática do meu trabalho nunca foi brasileira”, afirma ele. “Sou um cidadão do mundo.” O design moderno de suas peças agrada desde atrizes brasileiras, como Luiza Brunet e Carolina Dieckmann, até estrelas internacionais, como Jessica Alba, Anna Kendrick, Kate Hudson e Demi Moore. Com algumas dessas divas, Vartanian chega a manter uma relação amigável. “Já jantei com a Kate, por exemplo”, diz ele, referindo-se à loira que interpreta a groupie Penny Lane no premiado filme Quase famosos. No baile do Metropolitan Museum, em Nova York, do ano passado, Jessica Alba apareceu com brincos e anel projetados por Vartanian, no valor de R$ 15 mil e R$ 10,5 mil, respectivamente.
Na maioria das vezes, as famosas descobrem esses profissionais nas revistas de moda. Seja ao estrelar um ensaio fotográfico fashion, seja folheando as páginas da imprensa especializada. Daí para comprar – ou ganhar – as joias é um passo. Segundo Camila Rossi, professora do curso de design de moda da Faap, ter peças usadas por estrelas hollywoodianas garante sucesso também no mercado nacional. “Quando uma famosa usa uma roupa ou joia na novela, isso já desperta o interesse dos consumidores”, afirma a especialista. “Quando é uma estrela famosa, o impacto é muito maior, pois os brasileiros admiram o que vem de fora.”
Com 15 anos de mercado e um crescimento anual de 30%, Vartanian aposta na expansão internacional. Hoje, já é possível encontrar suas joias em lojas de departamento de luxo como a Barneys, em Nova York, e a Colette, em Paris. “Também estamos expandindo para novos mercados, como Moscou, na Rússia, e Hong Kong, na China.” Ainda assim, 90% do faturamento não divulgado da marca vem do Brasil. Não são só as atrizes que têm se rendido ao talento dos brasileiros, como o carioca Antonio Bernardo, que já venceu nove vezes o iF Design, na Alemanha. Michelle Obama, a primeira-dama dos Estados Unidos, escolheu um brinco da coleção Pantone, da brasiliense Carla Amorim, no valor de R$ 12,6 mil, para usar em um jantar recheado de celebridades na Casa Branca, em 2012.
Há duas décadas no Brasil e pouco mais de oito anos no Exterior, Carla tem obtido um crescimento de 40% por ano em suas vendas desde 2008. Kelly Amorim, irmã e sócia de Carla, é quem cuida dos negócios da marca e afirma que o plano é expandir internacionalmente, principalmente para China, Armênia, Líbano e Ucrânia. Ao contrário de Jack Vartanian, Carla aposta na temática nacional e já chegou a lançar uma coleção com pedras preciosas da cor da bandeira brasileira. “Fico muito feliz com o reconhecimento internacional”, diz a designer. “Até a Angelina Jolie já comprou uma peça de minha autoria”, afirma ela, fazendo referência ao anel Menta, feito de ouro rosa, esmeralda e jade nefrita.

Empresa encontra diamante azul na África do Sul

Empresa encontra diamante azul na África do Sul

Há 'potencial para produzir uma pedra polida de grande valor', diz o grupo.
Petra Diamonds diz que diamantes azuis são os mais cobiçados.


Diamante azul foi encontrado em mina na África do Sul. (Foto: AFP PHOTO/PETRA DIAMONDS LIMITED/Philip Mostert)Diamante azul foi encontrado em mina na África do Sul.
Um diamante azul de 29,6 quilates, avaliado em milhões de dólares, foi encontrado na semana passada na mina de Cullinan, perto de Pretória, anunciou nesta terça-feira (21) a empresa Petra Diamonds, que qualificou a pedra de "excepcional".
"A pedra é de um azul intenso notável, com uma saturação, um tom e uma clareza extraordinárias, e conta com o potencial para produzir uma pedra polida de grande valor", comemorou, em um comunicado, o grupo britânico, que explora a mina sul-africana desde 2008.
A empresa foi evasiva no que diz respeito ao valor exato que sua nova descoberta poderia alcançar, lembrando que os diamantes azuis são os mais cobiçados.
"Estamos realmente entusiasmados com o potencial deste diamante", declarou a porta-voz do grupo, Cathy Malins, à AFP, lembrando que um diamante azul de 25,5 quilates foi vendido, em abril de 2013, por US$ 16,9 milhões.
O maior diamante do mundo - o "Cullinan" -, uma pedra de 3.106 quilates, foi descoberto na mina de Cullinam, em 1905. Foi talhado em seguida e dois de seus fragmentos mais impressionantes fazem parte das joias da coroa britânica.

O negócio que salvou a floresta

O negócio que salvou a floresta

A empresária Vitória da Riva trouxe o ecoturismo para o Brasil, colocou a Amazônia na rota dos estrangeiros e arrumou uma maneira de lucrar com a mata em pé 

A empresária Vitória da Riva, na torre do seu hotel. A estrutura, com 50 metros de altura, permite aos hóspedes ver os animais acima da copa das árvores (Foto: Stefano Martini)
Não foi uma nem duas vezes. Sempre que arriscava contar suas intenções para algum desavisado, a conservacionista Vitória da Riva Carvalho era interrogada com certo preconceito: “Você vai trazer gente aqui para ver mato?”. Sem muito esforço, Vitória ganhou fama de maluca. Fazia sentido. Naquela época, começo dos anos 90, pouquíssimo se falava em ecoturismo no país. Árvore boa era árvore no chão, caminho livre para ocupar a terra com o gado ou uma cultura agrícola qualquer. A floresta em pé não tinha valor financeiro, menos ainda sentimental. “Eu não admitia aquilo”, diz ela, impetuosa, trajando suas corriqueiras roupas tons de terra. “Queria arrumar um jeito de fazer dinheiro sem destruir a Amazônia.” E arrumou. Em uma viagem aos Estados Unidos, Vitória fez uma parceria com a organização ambiental Conservation International (CI) para estimular o turismo ecológico nos trópicos. Ato contínuo, ajudou a treinar mais de 800 aspirantes a empresários do ramo. Em 1992, fundou seu próprio negócio – o premiado hotel de selva Cristalino Jungle Lodge, hoje referência em conservação no mundo. Assim se consagrou pioneira do ecoturismo no Brasil.
O pioneirismo deve ter sido herança de família. Seu pai, Ariosto da Riva, foi um bandeirante notável. Deixou o interior de São Paulo para colonizar, em Mato Grosso, três cidades em terras sem sinal de civilização urbana. Eram tempos em que o governo federal estimulava a ocupação de regiões mais remotas. Havia a falsa ideia de que, se os brasileiros não avançassem para o Norte, as nações mais poderosas tomariam conta da Amazônia. A expressão “integrar para não entregar” virou o mantra do país. Foi nessa corrida pelo “desenvolvimento” que Vitória chegou à recém-fundada Alta Floresta, hoje uma cidadezinha com 50 mil habitantes, boa parte deles paranaenses em busca de uma vida melhor. Segundo a mentalidade precursora, quanto mais floresta se desmatasse, mais progresso se alcançaria. A paisagem do município então mudou. A mancha verde contínua deu lugar ao café, ao cacau e ao guaraná. Nos anos 80, chegou o garimpo. Mais recentemente, o gado e os madeireiros. Alta Floresta hoje não faz tanto jus ao nome: mantém só 43% de suas matas preservadas.
Ao optar pela floresta em pé, Vitória contrariou o curso natural da colonização. Sua área de 7 mil hectares (quatro vezes maior do que o arquipélago de Fernando de Noronha) manteve as árvores nativas em vez dos tradicionais plantios. Ela fez mais. Transformou sua propriedade em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), uma terra protegida que, por lei, não pode ser ocupada. Uma das únicas opções de ganhar dinheiro ali é investir na pesquisa e no turismo. E foi essa a aposta de Vitória. Com pelo menos 20 anos de antecedência, ela vislumbrou o que no passado parecia inalcançável: aliar preservação à rentabilidade. “A Vitória é uma personalidade única. Em termos de ecoturismo, é a grande heroína do Brasil”, afirma Marc Dourojeanni, um dos maiores especialistas em Amazônia. “Sua visão de transformar a propriedade em um santuário para a fauna foi pioneira.”
Um terço das aves do Brasil está no Cristalino. Elas são a grande atração para os estrangeiros
Fugas para São Paulo
Não se tratava apenas de abrir um hotel. Vitória precisou partir de uma etapa anterior, colocar Alta Floresta no roteiro do turismo. “Tivemos de criar um novo destino”, afirma. “Nossa cidade sequer existia no mapa.” Ao lado do marido, o advogado Edson de Carvalho, ela rodou feiras internacionais divulgando os predicados de sua reserva. Enquanto percorria países estrangeiros para convencer os viajantes, Vitória precisava persuadir também os habitantes locais. O turismo nunca havia representado uma opção comercial em Alta Floresta. A comunidade, em boa parte, não entendia a necessidade de preservar a natureza. Neste ponto, Vitória falhou. Seu discurso era vanguardista demais. Os moradores não só não a compreenderam como passaram a acusá-la de atrair a atenção dos fiscais de crimes ambientais. Por mais de uma vez, ela precisou “dar um tempo” em São Paulo, uma forma de se resguardar das ameaças veladas.
A seu favor, Vitória contou com uma generosa dose de sorte geográfica. Alta Floresta está localizada em uma latitude semelhante à do Peru, um dos países com maior biodiversidade do planeta. Sua reserva tem pelo menos 595 espécies de aves, um terço dos exemplares do Brasil e metade dos da Amazônia. É um chamariz decisivo para o sucesso do negócio. No começo dos anos 90, antes mesmo de existir como é hoje, o Cristalino Jungle recebeu a visita de um dos mais respeitados especialistas do mundo, o ornitólogo americano Theodore Parker (já falecido). Foi ele quem descobriu a riqueza biológica da área. Daí em diante, o hotel de selva entrou para os roteiros de ecoturismo das agências internacionais. Não há outra cidade na fronteira de desmatamento habituada a ver turistas circulando pelas ruas. Quanto mais turistas falando inglês. Cerca de 80% dos hóspedes do Cristalino são estrangeiros em busca de uma experiência íntima com a Amazônia. E, claro, de fazer birdwatching. Ou passarinhar, no bom português. O hotel tem duas torres de 50 metros de altura para observar os animais. Elas permitem ficar acima da copa das árvores. São consideradas as melhores estruturas da América Latina.
No meio da floresta O hotel está instalado numa área de 7 mil hectares. Seu projeto virou referência em conservação. Os hóspedes podem admirar a Amazônia da terra, da água e do alto. Canoas e caiaques navegam pelo rio Cristalino. Duas torres de observação (Foto: Stefano Martini)

Vizinhança verdeAlém da latitude privilegiada, o hotel tem outro aliado de peso, a vizinhança verde. Ele faz divisa com o Parque Estadual do Cristalino, uma área de quase 186 mil hectares criada em 2001 pelo governo federal, em grande medida por influência da própria Vitória. E fica próximo também de uma imensa (2,2 milhões de hectares) reserva da Força Aérea Brasileira (FAB), local onde, por motivos óbvios, os madeireiros ilegais ou grileiros não se atrevem a entrar. Esse maciço florestal forma um corredor de áreas protegidas imprescindível para a conservação. Resguarda os remanescentes do conhecido Arco do Desmatamento da Amazônia, terras no alvo constante das derrubadas. Em 2008, os esforços de Vitória lhe renderam um reconhecimento internacional (uma, de várias premiações). O Cristalino Jungle venceu o World Savers Awards, da Condé Nast Traveler, um dos principais prêmios de sustentabilidade do mundo para a hotelaria.
“Tivemos de criar um novo destino. Nossa cidade
sequer existia no mapa”  
Vitória da Riva Carvalho 
Mas Vitória quer mais. Agora que consegue lucrar com a floresta em pé – e com a recente bênção da comunidade local –, pretende expandir os impactos sociais de seu negócio. Criar uma alternativa econômica às famílias do entorno é a única maneira de reduzir a pressão sobre a floresta. Já é possível observar algumas iniciativas. Todos os guias do Cristalino Jungle são ex-garimpeiros, convertidos a passarinheiros e conservacionistas. Um deles virou fotógrafo de natureza. Desfila em seu barco com um equipamento de primeira linha (digno de despertar inveja em muitos veteranos da fotografia). Os vizinhos do hotel também estão sentindo no bolso as vantagens do papo ecológico. Uma propriedade no caminho do hotel ganha hoje R$ 10 por turista que pisa ali para observar uma ave específica, o limpa-folha. A espécie é frequentadora assídua dos buritizais que o sítio mantém. O próximo passo é estender o sonho do turismo verde para parte dos que vivem no cinturão de entorno do Parque do Cristalino. São cerca de 1.750 pessoas em 11 comunidades. Um trabalho robusto e lento. E do qual depende, essencialmente, a sobrevivência desse naco de floresta.
Os guias do hotel em frente ao rio Cristalino. Todos eram garimpeiros, deixaram as minas de ouro e hoje são especialistas em observação de aves da Amazônia (Foto: Stefano Martini)