sábado, 31 de outubro de 2015

Água-marinha de 35 quilos (175 mil quilates), azulada – um azul tendendo para o verde

Saudade dos olhos da miss

SEU TIBÚRCIO em sua casa em Novo Oriente de Minas, triste com sua sina, afastado do garimpo por ordens médicas e do seu passado de glórias pelo tempo
Lembra de Martha Rocha? De seu sorriso? Do rosto? Dos olhos azuis de nossa eterna miss? Os mais novos, talvez não, mas os mais velhos... Martha provocou comoção nacional em 1954 ao perder o título de Miss Universo por duas polegadas a mais nos quadris. Isso mesmo: duas polegadas, algo em torno de cinco centímetros. Naquele tempo, concurso de miss era coisa séria. Tinha glamour. Apelo popular. Emoção. Ela não ganhou mas empolgou a nação. O povo já a elegera a mulher mais bonita do mundo. Martha virou mito. Seu nome passou a ser sinônimo de bonito – não o da moça escolhida Miss Universo. Como é mesmo o nome dela?

Em 1957, o garimpeiro Tibúrcio José do Santos fez um achado extraordinário ao cavucar a terra em Marambaia, distrito de Teófilo Otoni, considerada a “capital mundial das pedras preciosas”, situada a 450 quilômetros de Belo Horizonte. Ele topou com uma água-marinha de 35 quilos (175 mil quilates), azulada – um azul tendendo para o verde, da cor dos olhos da miss (à dir.). Justamente uma água-marinha, gema da família dos berilos, tida como a pedra do amor e da felicidade, protetora das sereias – o historiador romano Plínio colocava-a dentro d’água, na praia, para checar sua pureza. Se “desaparecesse” na mão, confundindo-se com a água do mar, então era verdadeira. Batizada Martarrocha, é a mais famosa das gemas coradas brasileiras – gema corada é o nome que a indústria de jóias, bijuterias, folhados e artefatos de pedras dá às pedras preciosas em geral, especialmente as coloridas. Desde então, foram encontradas água-marinhas de maior tamanho mas nenhuma tão bonita (tão perfeita) quanto ela.


CITRINOS BRUTOS, cujo nome deriva do latim citrus, que significa amarelo-limão. As principais jazidas estão em Minas Gerais, Bahia, Goiás e Rio Grande do Sul
Passados tantos anos, Martha continua linda. Mora em Volta Redonda, RJ, e dedica parte do dia à pintura – dizem que seus azuis são incomparáveis. A água-marinha que levou seu nome foi vendida, revendida e mais tarde cortada em várias pedras menores. Para Tibúrcio, porém, a coisa ficou feia. Aos 83 anos, pobre, adoentado, passa o dia inteiro na cama, aos cuidados dos filhos – teve 12, quatro dos quais “particulares”, ou seja, nascidos fora do casamento oficial. Ele não lembra em nada o garimpeiro forte e sacudido dos tempos de glória. Na ocasião, apareceu em jornais e revistas de todo o país, dando entrevistas ou mostrando a pedra. Ficou famoso, mas não chegou a bamburrar. Metade do dinheiro obtido com a venda foi rateado entre os sócios Irineu de Oliveira e Lindolfo Capivara, fornecedor da quicaia – conjunto de ferramentas indispensáveis, tais como lebanca (espécie de alavanca), picareta, enxada, bateias, peneiras, cacumbu (um tipo de machado) e calumbés (gamelas cônicas, na quais o cascalho que vai ser lavado nas catas de ouro ou diamante é conduzido). Da outra metade, 20%, pelo menos, ficaram com o fazendeiro Antônio Galvão, dono da terra. Do que lhe coube ao final da partilha (cerca de 200 mil contos – um dinheirão, na época), Tibúrcio gastou quase tudo em terras, carro e farras. Hoje, restam-lhe somente um sítio improdutivo em Novo Oriente de Minas e 48 hectares em São Juliano, onde outros filhos tentam ganhar a vida com roça e gado.

Com raras exceções, sua história pessoal repete a da maioria dos garimpeiros do Brasil, país pródigo em recursos minerais, pobre em investimentos no setor, confuso quanto à legislação e à fiscalização, ignorante quanto ao volume produzido, o valor movimentado, o número de pessoas envolvidas e a importância de tal contingente na economia, especialmente nas pequenas cidades. “Garimpeiro é esbanjador; vive sonhando”, afirmam Maurino dos Santos e Valdomiro Pinheiro, parceiros nas catas e túneis de Padre Paraíso, município ao norte de Teófilo Otoni.

VALDOMIRO, com a picareta, alargando o túnel pelo qual entrará com um carrinho de mão para retirar o entulho: “Qualquer hora a gente acha a pedra grande”
Maurino relaciona histórias pessoais e casos semelhantes em que os colegas ganharam bom dinheiro para em seguida perder tudo ou quase tudo. “Três vezes levantei rico e fui deitar pobre”, conta, resignado. A maior pedra de sua lavra foi um crisoberilo de 20 quilates e a mais valiosa, uma água-marinha que lhe rendeu 140 mil reais na ocasião (1979). Em agosto passado, eles inventaram um modo novo de ganhar dinheiro no garimpo: abriram um túnel atrás de gemas no morro ao lado do Parque de Exposições Pampulinha, em Teófilo Otoni, a convite dos organizadores da 16a Fipp – Feira Internacional de Pedras Preciosas, um dos maiores eventos do gênero, realizada anualmente no país, paralelamente à Feira Livre de Pedras Preciosas. Esta, parece uma feira livre comum, com inúmeras barracas ao longo da rua. Ao invés de frutas, legumes, verduras, carnes, etc., vende- se principalmente pedra bruta, além de gemas, bijuterias e artefatos minerais. Os compradores estrangeiros que acorrem ao Pampulinha também circulam por ali, atrás de bons negócios.

Maurino e Valdomiro foram contratados para VALDOMIRO, com a picareta, alargando o túnel pelo qual entrará com um carrinho de mão para retirar o entulho: “Qualquer hora a gente acha a pedra grande” mostrar aos visitantes, especialmente aos compradores estrangeiros, de onde vêm e como são extraídas algumas das pedras preciosas que eles, avidamente, procuram. Franceses, holandeses, alemães, ingleses, chineses, indianos, israelenses e sul-africanos, as feiras brasileiras do setor atraem gente do mundo inteiro. Tem até quem venha e fique, como o engenheiro mineral Markham Wilson, da Carolina do Norte, EUA. Ele veio duas vezes ao ano nos últimos 15 anos. Neto de joalheiros, comerciante de pedras brutas para colecionadores, certa vez foi convidado a visitar túneis e minas na região de Téofilo Otoni, algo que jamais ocorrera nos demais países que visitara. Ele sonhava com tal oportunidade. Queria saber como os garimpeiros chegavam às pedras que ele aprendeu a gostar – sempre usa uma em forma de colar. Encantado, descobriu nos túneis que tinha “coração garimpeiro” e mudou-se de mala e cuia para o Brasil. “As pedras me chamaram.” Virou otoniense.


FEIRA LIVRE em Teófilo Otoni: ao invés de frutas e hortaliças, mais de 100 barracas com pedras preciosas, bijuterias e artefatos variados
Nem tudo são flores (pedras), porém. A cidade onde Markham agora mora ainda é o principal centro lapidário do país, mas já foi maior. Há 20 anos, abrigava 2,7 mil oficinas. Hoje, restam 359. Havia cerca de 30 mil garimpeiros em atividade. Atualmente não passam de 500, segundo Robson de Andrade, presidente da Accompedras – Associação dos Corretores do Comércio de Pedras Preciosas de Teófilo Otoni. “Estamos caindo em rabo de égua”, diz ele, tratando logo de esclarecer a frase: “Rabo de égua só vai pra baixo”. São números significativos, segundo ele, considerando, também, o de vagas abertas no mercado: “São pelo menos dez empregos gerados por cada garimpeiro”, justifica, relacionando entre eles o lapidador, o serrador, o encanetador (“caneta” é um tubo em cuja ponta o especialista fixa a pedra que será lapidada em discos abrasivos), o polidor, o corretor (intermediário entre o garimpeiro e o comprador), o desenhista de jóias e o joalheiro além dos demais envolvidos na cadeia produtiva.

Robson também reclama da legislação por favorecer, indiretamente, a “máfia do GPS” – expressão com a qual se designa os que usam aparelhos de GPS (sistema de posicionamento global via satélite) para “marcar” terrenos potencialmente produtivos em terras alheias e reivindicar o direito de explorá-los, adiantando-se ao proprietário da terra. A propósito, o subsolo brasileiro é propriedade da União. A concessão é dada a quem a peça primeiro e demonstre condições de exploração, desde que cumpra uma série de exigências (leia O que fazer, na última página).

Robson aponta outra distorção no setor, de resto recorrente no país: exportar matéria-prima ao invés de produtos acabados, como ocorre com o café, o ferro, a soja, etc. Segundo ele, dá-se o mesmo com as gemas: o Brasil é responsável por 30% da produção mundial de gemas coradas (excetuando-se o diamante, que corre à parte), embora participe com apenas 4% do mercado internacional, que movimenta cerca de 1,5 bilhão de reais anualmente. “Israel não produz esmeraldas mas tá no topo do ranking mundial dos exportadores. Sabe como? Eles (os israelenses) vêm aqui, compram pedras brutas das mãos dos garimpeiros ou intermediários, lapidam e vendem as gemas (e jóias)”. (NR: ao eclodir a segunda guerra mundial, muitos ourives europeus de origem judaica emigraram para o Brasil. Com a recessão no mercado joalheiro internacional no pós-guerra, mudaram- se para o recém criado Estado de Israel. Lá, ajudaram a construir uma das maiores indústrias de lapidação do mundo, em grande parte com pedras brutas brasileiras. Eles falavam português. Tinham contatos aqui. Sabiam o caminho das pedras).

O presidente do IBGM – Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos, Écio Moraes, concorda com Robson nesse ponto. “Se um alemão, por exemplo, chega em Teófilo Otoni ou Valadares (Governador Valadares, palco da Brazil Gem Show, outra grande feira comercial de caráter internacional) e compra uma pedra bruta, ele sai do país com imposto de exportação zero. Se eu trago essa mesma pedra para lapidar (agregar valor) em São Paulo, pago 12% de ICMS”, compara. Em sua opinião, a tributação excessiva é o principal entrave ao desenvolvimento do setor – chega a 53%. Além de restrições de natureza tributária, Écio reclama da burocracia, capaz, segundo ele, de fomentar a informalidade, cujo índice ultrapassa 50% atualmente. Ou seja, mais da metade da produção e da comercialização de pedras preciosas no Brasil é feita por baixo do pano. Não se sabe ao certo quanto se tira do subsolo nem quanto se vende, muito menos o montante real nas transações. Problemas à parte, as exportações vêm crescendo 20% ao ano, de acordo com o IBGM – uma espécie de confederação de associações estaduais e empresas do setor.


RAFAELA Menditi, capixaba de Mimoso do Sul, de olho nas gemas expostas na 17a Fipp: “Se eu tivesse dinheiro, compraria todas elas”
O Brasil é uma das sete “províncias gemológicas” mais importantes do planeta, com produção em todos os estados, alguns dos quais destacam-se também pela exclusividade. Por exemplo, o Piauí, único produtor de opalas brancas, descobertas em 1973, e a Paraíba, terra das “turmalinas paraíba”, pedras azuis e verdes de rara beleza, encontradas pela primeira vez em 1989. Ouro Preto, MG, também faz parte desse grupo. Na antiga Vila Rica encontram- se as únicas jazidas de topázio imperial rosa do planeta. A Bahia destaca-se pela produção de esmeraldas, safiras e águas-marinhas, além de diamantes. O Rio Grande do Sul, pelas ametistas, ágatas, citrinos, cristais de rocha e outras. O Pará, pelo ouro. Minas, por dezenas de pedras – o estado não tem esse nome à toa. Água-marinha, opala, morganita, topázio, safira, rubi, turmalina, berilo, rubelita, cristal de rocha, quartzo, ametista, pirita (mineral chamado “ouro dos trouxas”), citrino, calcedônia, cornalina, ágata, alexandrita, amazonita, rutilo, brasilianita, granada, hematita, iolita, turquesa, olho-de-gato, espodumênio, ônix, kunzita, lazulita, malaquita, obsidiana, pedra-da-lua, diamante etc., o país guarda gemas coradas de todas as cores e tonalidades, várias delas multicoloridas como a opala nobre ou a turmalina “melancia” – lapidada a partir de cristais com a cor verde por fora, uma fina camada branca e o miolo rosa.

O Brasil produz 90 tipos diferentes de pedras preciosas. Há de tudo no mercado. Pedras sintéticas, artificiais, coloridas por irradiação, tratadas por difusão, tingimento, imersão em óleo e outras técnicas. Encontra-se até diamantes sintéticos, embora ainda de qualidade inferior àqueles formados há milhões de anos no interior da Terra, de cujo magma emergiram para cristalizar em Diamantina, Gran Mogol, no mundo inteiro, enfim, para satisfação de seu Ida, Totôca, seu Marão e tantos outros.

Principais áreas de ocorrência de pedras preciosas e metais nobres do Brasil. A sobreposição de cores identifica regiões potencialmente explosivas. Segundo levantamento, há mais de 200 garimpos em reservas indígenas





Todos os estados brasileiros abrigam riquezas minerais. Alguns, mais, outros, menos, como se pode ver no mapa ao lado. Legalmente, o subsolo pertence à União. Se um fazendeiro quiser saber o que há em suas terras deve contratar um geólogo. O segundo passo e pedir um Requerimento de Autorização de Pesquisa ao DPNM – Departamento Nacional de Produção Mineral, vinculado do MME – Ministério de Minas e Energia, descrevendo o tipo de mineral e sua localização.

Também é preciso incluir um plano de pesquisa, detalhando prazo e orçamento – a descrição da área e o plano deve ser preparado e assinado obrigatoriamente por um geólogo ou engenheiro de mineração. O DNPM o avalia e, caso não haja nenhum impedimento legal – se não estiver dentro de área indígena, parque nacional ou área de proteção ambiental e não houver requerimentos sobrepostos – emite um “Alvará de Pesquisa”, válido geralmente por três meses, mas renovável.

Antes, porém, de pôr a mão na massa, o fazendeiro precisará de licenciamento do órgão responsável pelo meio ambiente (varia de estado para estado), de estudo e relatório de impacto ambiental (EIARima) e autorização de outras instituições, caso necessite cortar árvores, usar muito água ou atingir área de proteção ou hidrovia federais. Nesse caso, terá de bater na porta do Ibama. Por baixo, gastará mais de 20 mil reais.

Quadro das exportações
Produtos negociados no mercado internacional (em US$ milhões)

O sonho da pedra

O sonho da pedra
O Brasil se destaca no mercado mundial pela variedade e beleza de suas gemas, a maioria das quais proveniente de lavras garimpeiras 


SEU IDA PENEIRA o gorgulho no ribeirão do Guinda, em Diamantina, MG, à cata de diamantes (à direita, pedras já lapidadas)
Você já foi a Grão Mogol, MG? Provavelmente, não. A maioria dos brasileiros nem deve ter ouvido falar desta cidade encravada na serra de Santo Antônio, um dos braços da cordilheira do Espinhaço, a 550 quilômetros de Belo Horizonte. Cortada pelo Ribeirão Vermelho, é a mais setentrional das localidades históricas de Minas Gerais, nascida da lavra garimpeira, assim como Diamantina e tantas outras no estado. Há duas versões para a origem do nome. A primeira o relaciona à descoberta de um diamante espetacular na Índia, batizado Great Mogul em homenagem ao xá Jehan, um dos soberanos indianos da dinastia Mogul, construtor do Taj- Mahal. Pesava 793 quilates quando bruto – o quilate, equivalente a 20% do grama, é a medida de todas as pedras preciosas, avaliadas segundo a cor, a qualidade, a pureza e o peso. Para os defensores da segunda versão, trata-se de uma redução de “grande amargor”, expressão do desalento da população com sucessivos conflitos armados e assassinatos quando ainda era vila – a locução teria virado “grão morgor” no correr dos anos, assumindo depois a denominação atual. No morro da Pedra Rica, nas cercanias da cidade, foram encontrados no século XVIII os primeiros diamantes do mundo hospedados em grupiaras – jazidas altas nas cristas dos morros ou chapadas com material diamantífero em camadas chamadas barro, gorgulho, sopa ou paçoca, conforme o estado pastoso ou friável e a quantidade de seixos. Até então, provinham de aluviões – mistura de cascalho, areia e argila à margem ou à foz dos rios, resultantes da erosão.

As Minas Gerais
Cidades mineiras nascidas do garimpo, marcadas pela história ou pela riqueza mineral


Passagens da história do velho garimpeiro e de sua inseparável esposa com a qual ele enfrentou ..

Dona Lia e seu Marão
Passagens da história do velho garimpeiro e de sua inseparável esposa com a qual ele enfrentou a dura lida da vida, visitas de onça e tentações assombrosas 

Seu Marão é um diamante. À primeira vista é bruto como a pedra. Bastam, no entanto, alguns segundos de convívio para a impressão se desfazer rio abaixo. É um homem carismático, atencioso, muito, muito engraçado. Gosta de visitas. Adora conversar, contar histórias de onça e assombração. Seus olhos brilham quando lembra da noite em que uma “pé-fofo” cheirou-lhe os pés na loca onde dormia (leia O caso da onça, abaixo) e das aventuras com dona Lia, por quem se apaixonou quando menino. Tinha 11 anos. O pai era conservador, não dava folga à filha. Namorar, nem pensar. Conversavam com os olhos – adivinhavam um ao outro.

Mário cresceu e virou garimpeiro. Filho de agricultor, preferiu a pedra à planta. “O diamante é mais ligeiro”, alega. Em meados do século passado, o garimpo entrou em baixa e ele pegou a estrada para São Paulo. Voltou dez anos depois – cansara da cidade grande e morria de saudades da menina, então moça formosa. Homem feito, alto, “reforçado”, com fama de valente, impressionava as mulheres. Assim, casou com Lia, discreta, miudinha, uma figura – finge que não presta atenção mas não perde uma palavra do marido. “Ela bicou pra mim”, diz ele, às gargalhadas. Dona Lia o ajudava na lavra, fazia café, “quentava” a bóia, cuidava da loca onde passavam as noites. “Foi de lá que ele veio”, conta, cabeça baixa, voz sumida, referindo-se a Zé Mário, herdeiro da paixão do pai pelas pedras. “Sabe tudo”, diz Maria Luiza, falando do irmão.

Segundo ambos, o pai poderia ter ficado rico com o que ganhou no garimpo. No entanto, gastou quase tudo em farras e nos forrós que organizava em sua casa, debruçada no ribeirão. Suas festas ficaram famosas. A folia seguia até o nascer do sol. Vez em quando dona Lia substituía o sanfoneiro com seu “pé-debode” – sanfoninha de oito baixos – mas gostava mesmo era de dançar. Seu Marão não tolerava casais agarradinhos. Falta de modos. Respeito. Um dia, alguns jovens o confrontaram, aconchegando demais as meninas. Enfurecido, ele correu à cozinha, pegou um facão e voltou num pulo à sala, riscando o chão ao redor. Não deu outra! Um disparou porta afora, outros, pela janela, sumiram todos no breu da noite.

O VELHO GARIMPEIRO, com sua bateia de madeira no Ribeirão Vermelho e num raro instante de seriedade, ao lembrar do passado (à direita)

Contam muitas histórias sobre ele. Dizem que atirava nos santos que não o atendiam. Certa vez, implorou a santo Antônio uma pedra grande no garimpo. Dona Lia sempre o esperava na janela – ele sempre vinha pelo rio. Naquele dia, voltou de cara amarrada e espingarda na mão. Temendo que destroçasse a imagem de sua predileção, de quase um metro de altura, com adornos dourados, ela a substituiu por outra, menor. Seu Marão foi direto ao oratório, engatilhou a espingarda mas..., refugou. Olhou, coçou a cabeça e disse: “Olhe, menino! Vá chamar seu pai que eu quero ter uma conversa com ele”.

Valente com os homens, arrojado com os santos, ele não é o mesmo com as “coisas da noite”. Evita locais ditos assombrosos, sempre passa ao largo da gameleira sob cuja fronde, segundo ele, “o coisa-ruim concede audiência”. Seu Marão viu muita coisa estranha na vida: “Um homão torto na cabeceira da ponte, um vulto esquisito na tapera do Deodato, um menino passando por mim na direção do espantoso. Não sei o que o menino viu. Só sei que o chapéu dele inchou tanto que caiu da cabeça”. À parte o oculto, ele é respeitado pelo caráter, honestidade, coragem.

“Meu pai passou 70 anos atrás de ouro e diamantes, mas a maior riqueza que ele nos legou foi o exemplo. Mostrou que não é preciso muito para ser feliz.” Seu Marão sabe que os tempos de garimpo já se foram, embora de vez em quando fuja de casa com a bateia na mão. É alguém que viveu intensamente. Um homem em paz consigo mesmo, com os seus e os outros. Não reclama de nada. Não trocaria a sua vida por outra. Não mudaria nada do que fez. Não quer saber de outro lugar além de Grão Mogol. É a sua terra natal, um lugar bonito, com gente hospitaleira, prédios coloniais, ruas estreitas, cortado pelo Ribeirão Vermelho. O acesso é difícil. Quando chove é um barro só e quando não, um poeirão. A cidade fica escondida no fundo do vale, ao pé da montanha. Quem chega vê mais telhados do que muros. Em todo lugar se respira pedra. Alguma coisa brilha. 

O caso da onça


Onça é com seu Marão. Tem 25 no currículo. Umas, viu de relance. Outras, só o rastro. Das demais, ouviu somente o esturro ou algum grunhido breve na noite. A que chegou mais perto de acabar com ele foi a que cheirou-lhes os pés quando dormia numa lapa rasa, nos áureos tempos do garimpo. “Não sei como ela chegou. O teto era baixo, não pude fazer cama alta. Tava rente ao chão. Tinha dado chuva cedo. Fiz a janta, ajeitei as coisas e me enfiei no pano. Dormia quando senti coceira no pé e um cheiro esquisito no ar. Virei devagarinho e vi um vulto se mexendo. Pensei: é um cachorro, mas era grande demais pra ser cachorro. Aí enxerguei os olhos dela faiscando no escuro. E arrepiei. Ela tava olhando pra mim! Eu tava desarmado, só com o facão, Deus e Nossa Senhora. Gritei, mas o grito não saiu. Gritei de novo e aí ecoou alto, ela assustou e foi embora. Era rajada. Uma onça comedeira – devia ter comido muita criação. Era feia demais.”

Entrevista com JAD SALOMÃO NETO, fundador da VERENA MINERAÇÃO LTDA

Entrevista com JAD SALOMÃO NETO, fundador da 
VERENA MINERAÇÃO LTDA

O Portal do Geólogo – Nos fale sobre sua universidade e colegas.
Jad Salomão – Cursei geologia na Universidade de Brasília – UnB. Ingressei em 1970 e me formei em Dezembro 1974. Tive dois problemas. O primeiro é que tive que casar um mês antes de formar porque a minha filha estava crescendo demais na barriga da mãe! Sorte é que consegui o meu primeiro emprego na DOCEGEO em fevereiro/75. O segundo problema (de fato este foi o primeiro), é que o Elmer Prata Salomão (meu irmão) era meu professor. Imagina só quantos estavam de olho. Tirar nota boa era fofoca na certa. Por outro lado, foi muito bom porque para tirar as dúvidas o Elmer sempre me indicava alguns livros de 300 páginas cada um. Ele fazia questão que eu partisse para pesquisa nos livros. Eu evitava até de entrar na sala dele. Entretanto, graças a Deus eu consegui ser um bom aluno e a nossa turma, num total de 28 alunos, era fantástica. Infelizmente, após formarmos, cada um tomou um rumo e nos tornamos a turma mais desunida que já existiu. Conseguimos a duras penas reunir quase todos apenas uma vez em minha casa em Brasília por ocasião dos nossos 20 anos de formados.
Por outro lado, eu era também fanático por matemática e por isso, além das matérias do curso de geologia, cursei também várias matérias do curso de matemática como probabilidade e estatística, cálculo 1, 2 e 3 das quais fui monitor e instrutor particular por 2 anos para faturar uma graninha. Eu era cobra em matemática. Hoje minha cabeça não funciona sem uma HP na mão. Só sei que 2+2 =5.
Não posso deixar também de registrar um fato interessante, mas que deve ficar só entre nós! Eu fui fiscal de vestibular por 3 anos seguidos. Eu sempre dava um jeito de ficar na sala em que tinha algum amigo ou conhecido e usava uma tática para dar cola prá eles. Era o seguinte: eu tinha acesso às provas com certa antecedência, e também durante as provas eu conseguia resolver questões e saber respostas. Com isto, eu combinava com o sortudo o seguinte: colocava as duas mãos no bolso com os dedos fechados pelo lado de fora. Na mão esquerda eu abria p.ex. 2 dedos e em seguida os recolhia. Significava página 2. Na mesma mão esquerda eu baixava p.ex. 1 dedo. Significava primeira questão da página. Na mão direita eu baixava quantos dedos fossem necessários para indicar a resposta, ou seja 1 dedo seria resposta “a “, 2 dedos resposta “b” etc. Passei pelo menos uns cinco. Interessante é que tinha um pretinho na sala que, faltando 5 minutos para entregar a prova, ele estava tremendo e eu fui ver o que era. Não tinha resolvido nem uma questão, logo de matemática. Como se fosse dar alguma explicação, arrisquei e marquei quase todas as respostas para ele. Ele passou para Eng. Elétrica e depois fiquei sabendo que ele era um dos melhores do curso. Perdi o contato com ele. Essa é a primeira vez que estou falando sobre isto e, portanto, bico calado, pois só fazem 30 anos.
O Portal do Geólogo – Como começou sua carreira?
Jad Salomão – Como já disse, me formei em Dez/74 e já em Fevereiro/75 estava empregado na DOCEGEO. Fui contratado para trabalhar em Niquelândia-GO. Meus chefes eram o Afonso Matipó e o Drago além do Carlão e o Axel de Ferran. Aluguei um pequeno apto. em Anápolis, comprei um guarda-roupas e uma cama, deixei a esposa lá e me mandei. No dia 6 de Março recebi uma notícia pelo rádio que minha filha tinha nascido. Nessa época não tinha ultrasom e eu havia esquecido de perguntar se era macho ou fêmea. Só na estrada (de terra), numa Rural Willys é que fui lembrar do que tinha esquecido. Só quando cheguei lá é que fiquei sabendo que era uma linda garota. Com isto, acabei alugando uma casa em Niquelândia e levei a família. Não passou 30 dias me mandaram para o Paraná fazer um levantamento de cobre nos basaltos da bacia, (tinha um cara lá que sempre me apresentava como “homem geológico”). Fiquei lá cerca de 40 dias ( e a família em Niquelândia). Quando voltei, foi coisa de 5 dias, me mandaram para Caçapava do Sul-RS, onde deveria ficar por 30 dias. Deixei a filhota com as avós e me mandei com a "muié" numa Rural Willys zerada. Passaram 30, 60, 90 dias e nada deles me mandarem de volta. Com isso a "muié", óbviamente ficou doida e queria a filha. O jeito foi mandá-la de avião com a aeromoça. Foi engraçado, quando ela chegou em Porto Alegre, não deu prá conhecer. Tava muito diferente. A sorte é que estava bem mais ajeitada! Resultado: Fiquei lá até 1978.
O Portal do Geólogo – Fale sobre Caçapava do Sul e a maior concentração de geólogos por m2 dos  anos 70!
Jad Salomão – Sem dúvida, Caçapava do Sul tinha uma enorme concentração de geólogos. Os anos 70 foi a década dos metais básicos (pelo menos tinha investimentos com pesquisa e exploração no Brasil. "Sardade"!). De 75 a Julho de 77, trabalhei  pela DOCEGEO com pesquisa para cobre sedimentar, quando o Elpídio me procurou e quase dobrou meu salário para trabalhar pela Billiton, que também tinha um grande projeto para cobre sedimentar. A partir daí o Pedro Jacobi passou a ser o meu chefe e nos dávamos muito bem. Nos tornamos grandes amigos, não só em função da parte técnica mas também porque tivemos centenas de disputas acirradas: no xadrez. (quero dizer que jogávamos muito xadrez, não confundam). Conheci um bando de geólogos que inclui, além do Elpídio e P.Jacobi, o Nigel Clark, Hardy Jost, Nelson Chaban, Nassry Bittar, Salomão Badi, Padilha, Edu Lucas dos Santos, Ronaldo Mossman, Juarez Fontana, Pedro Moura de Macedo, etc, etc, etc, todos ainda grandes amigos com a graça de Deus, embora me encontre muito pouco com a maioria. Caçapava foi também uma grande escola, não só na parte técnica como também para conhecer o que é o frio num país despreparado para isto. Fiquei lá até agosto de 1978 quando voltei às origens, ou seja, fui trabalhar em Goiás, ainda pela Billiton.
O Portal do Geólogo – E a sua experiência no Canadá?
Jad Salomão – Estava em Goiás responsável pelo projeto Palmeirópolis, também para metais base, em sequência Vulcano Sedimentar. Fui então beneficiado com a alternativa de ir para outro país como expatriado (só 3 geólogos da Billiton tiveram esta oportunidade: P.Jacobi, Elpídio e eu). Em princípio seria para a África do Sul mas o pessoal da Billiton chegou à conclusão de que lá eu seria confundido com indiano e consequentemente seria discriminado. Me mandaram então para o Canadá em 1982. Fui de mala e cuia com toda a família (mulher e três filhos) e fomos morar em Fredericton, capital da província de New Brunswick no leste do Canadá. Foi uma grande experiência pois, tive a oportunidade de trabalhar na pesquisa e numa mina de estanho (por pouco tempo) além de conhecer várias minas como p.ex. a maioria na faixa Timmins-Noranda em sequência greenstone belt. Por outro lado, além de consolidar um pouco mais a língua inglesa e conhecer o verdadeiro frio em país preparado para tal, tive lá o meu quarto filho e conheci muitos amigos, inclusive o então presidente da Billiton, Frank Guardia, a quem devo muito, pois foi ele quem me deu algumas oportunidades depois que deixei o país em 1984, não só investindo no Brasil com pesquisa para platina mas também foi ele que me deu força para levar a Verena pro Canadá. Voltei para o Brasil, ainda pela Billiton, e fui para Belém, onde topei novamente com o Elpídio que ainda era o superintendente da empresa no Rio e com o P.Jacobi que era o coordenador geral dos projetos na Amazônia.
O Portal do Geólogo – E a Amazônia?
Jad Salomão – Foi uma experiência e tanto. Fiquei responsável pelo projeto Bacajá com pesquisa desta feita para ouro. (o rio Bacajá é um afluente do Rio Xingú). O escritório central era em Belém, chefiado pelo P.Jacobi e tínhamos uma base em Altamira-Pa. No começo foi difícil em função do acesso, mas com o tempo já tínhamos trator de esteiras e toyotas no projeto. Chegamos a ter um contingente de 220 funcionários morando no acampamento que construímos. Tínhamos até uma enfermaria onde eram tratados os funcionários infectados pela malária. Implantamos a enfermaria lá porque era incrível a quantidade de funcionários com malária no hospital de Altamira: uma média de 10%. Descobrimos que desobedeciam as normas de segurança com o intuito de efetivamente contrair malária, pois assim passariam 10 dias no hospital em Altamira, na sombra e água fresca, e obviamente recebendo o salário. Malária raramente mata alguém lá, pois já estão maceteados com o tratamento. Com a implantação da enfermaria e mais energia quanto as normas, diminuímos consideravelmente os casos de malária e os malandros. Nunca peguei malária. Deixei a Billiton com o projeto ainda em andamento. Tinha uma anomalia fantástica cujo alvo foi batizado de BUMA em função do formato da anomalia. Não me lembro direito o significado de BU, sei que MA era de MAgnífica!
O Portal do Geólogo – Quando você decidiu fundar sua própria empresa?
Jad Salomão – Deixei a Billiton em Julho/1985, com a intenção de não trabalhar mais de empregado. O Oscar Neto de Gouveia Carvalho, que também trabalhava no projeto Bacajá, era meu sócio numa fazenda em Porto Nacional-TO.  Decidimos então ser fazendeiros.  Deixei a família em Anápolis-GO, e fomos para Porto. Fomos então escolher um nome para a fazenda. Palpite cá, palpite lá, decidimos pelo nome VERENA, que significa uma junção dos nomes de nossas esposas na época: VERA e LORENA.
Com 3 meses lá, verificamos que a maior movimentação na região era a garimpagem de ouro em veios de quartzo gigantes na região de Monte do Carmo, um pequena cidade próximo a Porto Nacional. Verificamos então que a BHP (Colorado) tinha cerca de 50.000ha de área requerida lá, mas o principal garimpo estava numa pequena brecha em forma de L entre as áreas da BHP. Não deu outra. Requeremos esta área com seiscentos e poucos hectares que foi o prelúdio de tudo e que até hoje está conosco. Começamos então a negociar com os garimpeiros e, em pouco tempo, adquirimos uns equipamentos e começamos a garimpar. Arrumamos um sócio nordestino, Máximo Eugênio de Medeiros, um técnico especialista em explosivos, que trouxe uns 15 nordestinos bons de lavra. Garimpamos, ou sobrevivemos, até Junho de 1986 quando resolvemos criar uma empresa para que pudéssemos ter mais alternativas em termos de negociações, empréstimos, etc. Para escolher o nome da empresa não deu outra, foi VERENA MINERAÇÃO LTDA.
O Portal do Geólogo – E a Overseas Platinum Corporation?
Jad Salomão  Em Dezembro de 1986, menos de 2 anos que havia deixado o Canadá, o Frank Guardia me ligou e disse que havia constituído uma empresa listada na bolsa de valores de Vancouver, Overseas Platinum Corporation-OPC, e que queria investir em platina no Brasil. Topei a parada e em 2 dias ele estava aqui. Fizemos um contrato, constituímos uma empresa chamada Overseas Platinum do Brasil e requeremos todo o complexo máfico-ultramáfico de Barro Alto. Constituí uma boa equipe e tocamos o projeto Barro Alto e outros em Minas Gerais e norte de Goiás, com a empresa sediada em Brasília. Como o Frank (OPC) estava também pesquisando nas Guianas e na Espanha, precisava de um geólogo com experiência internacional para coordenar todos os projetos da empresa. Indiquei imediatamente o Elpídio Reis, que na época, 1988, era o gerente geral da Billiton. Marcamos uma reunião no Rio de Janeiro, num boteco na praia de copacabana, e o Frank ofereceu a posição para ele de forma vantajosa. O Elpídio topou e saiu da Billiton, mas preferiu coordenar a empresa sediado no Rio. A OPC investiu cerca de US$2 milhões até que o principal investidor desistiu de continuar patrocinando e a empresa, por não ter ainda encontrado nada que fosse animador, acabou por sair do Brasil no final de 1988. O Elpídio com pouco tempo estava contratado pela Rio Tinto e foi para Brasília e nós continuamos a tocar a VERENA.
 O Portal do Geólogo – Nos fale sobre a Verena Mineração?
Jad Salomão –  Com a saída da OPC, a alternativa era então a VERENA que então estava meio inativa. Em pouco tempo, negociamos com a BHP todas as suas áreas de Porto Nacional em troca de royalties, assim como requeremos várias outras ocorrências de ouro na região. Tínhamos um bom portfólio. Em 1989 negociamos com a Rio Tinto, onde o Elpídio já era diretor. Fizeram um grande investimento na área mas não foi definido nenhum depósito de porte e deixaram o projeto com um ano. Também em 1989, fizemos uma Joint Venture com um empresário de Brasília, para implantar uma pequena mina em um veio de quartzo mineralizado em ouro – Projeto Torre. Investimos US$640.000 e implantamos uma mina de ouro com o sistema de lixiviação em pilhas com a supervisão da Metais Especiais. Na época, em função do câmbio paralelo, o ouro valia aqui no Brasil entre US$750 e 800/oz (US$27-28/grama). Nossa primeira produção foi em 5/Março/90. No dia 15/Março, 10 dias depois, o Collor, que tinha acabado de entrar, anunciou “aquele” pacote. O ouro passou a valer US$8-10/g e todo o nosso capital de giro foi confiscado. Resultado: Quebramos. Passamos a vender o minério como brita. Tem várias ruas de Porto Nacional asfaltadas com brita de 5,6g/t. Passamos por maus bocados. Em 1991, fizemos um bom negócio com a Paranapanema, que também investiu na área mas saiu em 1993. Em 1994, já com um portfólio mais ajeitado, negociamos com a TVX do Eike Batista. Foi mais um ano de pesquisas em Porto Nacional e Natividade, mas nada de depósito. 1995 foi mais um ano de aperreio. Ao final de 1995, o Frank Guardia, que também estava sem muitas alternativas, me ligou e disse que gostaria de visitar nossos projetos. Veio imediatamente, visitou e gostou. Fez contato com um amigo seu em Toronto no Canadá, o Stephen Roman, que por sua vez conhecia o Stephen Shefsky. Toparam na hora uma negociação e fui para o Canadá com o brother Elmer, que era peça chave no negócio. Constituímos a VERENA MINERALS CORPORATION, que foi listada na bolsa de valores em Março de 1996 com base nos projetos da Verena Mineração Ltda, que passou a ser uma subsidiária no Brasil. Tínhamos ainda a empresa Intergemas Mineração e Industrialização Ltda., na qual, além do Elmer, o Walid El Koury Daoud também era sócio. A empresa que foi constituída com o objetivo de pesquisar gemas no Brasil, e também tinha um bom portfólio para esmeraldas, alexandrita, topázio imperial etc, também se tornou uma subsidiária da Verena.
 O Portal do Geólogo – Que rumos a empresa esta tomando?
Jad Salomão – A VERENA entrou no mercado acionista canadense em 1996, que ainda era uma época muito boa. Fomos muito bem sucedidos e em um ano conseguimos levantar mais de US$7 milhões para investimentos nos projetos da Verena, cujas ações em pouco tempo já valiam mais de 3 dólares canadenses. Em 1997 entretanto, ocorreu o fato Bre-X que foi uma fraude cometida por uma júnior canadense com projeto de ouro na Indonésia, onde “salgavam” os testemunhos e em pouco tempo o depósito já estava perto de 100 milhões de onças, ou seja, um golpe da ordem de 6 bilhões de dólares no mercado. Concomitante a isto o preço do ouro começou também a despencar e o mercado acionário esfriou muito, além da adoção de normas muito rígidas, principalmente para as júnior companies. O valor das ações despencou e começaram então os tempos de dificuldades. O Frank deixou a empresa por motivos pessoais. A VERENA então passou a trabalhar no sentido de promover joint ventures ou parcerias para os seus projetos. Conseguimos negociar um projeto para diamantes secundários em Frutal-MG com a Trans Hex, onde investiram mais de US$4,5 milhões em três anos. Com a Rio Tinto (mais uma vez através do Elpídio) na mesma região com pesquisa para fontes primárias de diamante e em Bonfim para ouro no Rio Grande do Norte, com investimentos da ordem de US$1 milhão. Com a saída da Rio Tinto de Frutal (decisão do novo diretor que substituiu o Elpídio), negociamos a mesma área com o Charles Fipke/BHP Billiton, cujo contrato ainda é vigente. Temos ainda bons projetos, inclusive um pequeno depósito polimetálico de Au/WO3/Bi/Mo no Bonfim, mas os dias de hoje estão muito difíceis e estamos tentando também o mercado Europeu para captação de recursos. O projeto da VERENA hoje é implantar uma pequena produção no Bonfim que possa gerar um fluxo de caixa para a empresa. Depender do mercado está muito complicado.
O Portal do Geólogo – O que mudou no mercado canadense em relação ao Brasil
Jad Salomão – Não foi só em relação ao Brasil mas em relação ao mundo. Os investimentos das instituições no setor da mineração, em especial nos projetos das pequenas empresas, reduziram drasticamente após o caso Bre-X que coincidentemente aconteceu concomitante a uma série de outros fatores relativos à economia mundial, como por exemplo a crise do ouro. Com a reabilitação do preço do ouro a partir do ano passado melhorou bastante, mas as regras rígidas relativas à credibilidade e real potencial dos projetos, implantadas pelo mercado, permanecem. Até 1997, existia muita especulação com o papel. Cerca de 75% da movimentação das ações nas bolsas de valores canadenses eram relacionadas à mineração. Hoje não, querem ter muita segurança de retorno real do capital investido, ou seja, o capital que era só de risco hoje tem que ser de risco mínimo.
O Portal do Geólogo – Tem mais alguma coisa que queira acrescentar?
Jad Salomão – Quero apenas dizer que sou muito grato a um grupo de pessoas a quem devo muito ao longo da minha vida profissional, entre eles o Elpídio por ter sempre acreditado nos nossos projetos e nos deu uma força incrível, o P. Jacobi com quem trabalhei junto por tantas vezes e por sua competência aprendi muito, ao Frank Guardia que me deu muito apoio tanto no Canadá quanto no Brasil que inclui os rumos da VERENA e aos meus sócios, o Elmer, o Oscar o Walid e Stephen Shefsky, que até hoje acreditam no potencial da empresa.


Natal-RN, 12 de Junho de 2003.



ARIQUEMES 35 ANOS: garimpo do Bom Futuro era a maior reserva de cassiterita a céu aberto do mundo

ARIQUEMES 35 ANOS: garimpo do Bom Futuro era a maior reserva de cassiterita a céu aberto do mundo
O garimpo do Bom Futuro foi fechado no ano de 1991, sob a alegação de estar sendo usado para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas.

       
Muitos homens e mulheres ficaram ricos da noite para o dia e outros perderam a vida no garimpo do bom futuro em Ariquemes nos anos 80 e 90.

No ano de 1983 é descoberto o Garimpo Bom Futuro, por sinal a maior reserva de cassiterita do mundo. No caso do Garimpo Bom Futuro, gostaríamos de focalizar principalmente a questão dos impactos ambientais; Com a descoberta do garimpo a maioria dos agricultores, madeireiros e comerciantes trocou suas respectivas atividades pelo garimpo. Só na região do Bom Futuro existiam mais de 15.000 garimpeiros.

O garimpo do Bom Futuro foi fechado no ano de 1991, sob a alegação de estar sendo usado para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas. A Portaria Ministerial 180/91 explanava quanto à questão dos intensos impactos ambientais provocados na região, e requeria medidas para solucionar os problemas ambientais, fiscais e trabalhistas da área.

Cerca de 40% da produção mensal de cassiterita era contrabandeada e trocada nas indústrias de processamento de estanho na Bolívia.

Para se ter uma idéia de qual era a real situação no garimpo Bom Futuro basta observar os números e as estatísticas referentes ao local: havia lá pelo menos uns 5000 garimpeiros, uns 500 requeiros - não contando para fins de estatística os trabalhadores que não possuíam nenhuma espécie de cadastro trabalhista -, além de mulheres, comerciantes e crianças. Pelo menos 30% dessas pessoas eram analfabetas e os outros 70% nem se quer concluíram o 2° grau; o índice de Malária na região era grotesco; de 1987 a 1989 a média de homicídios foi mais de 10 por semana; mais de 400 mulheres se prostituíam no garimpo; o índice de doenças sexualmente transmissíveis e o consumo de drogas eram altíssimos